{"id":10390,"date":"2017-05-05T15:08:13","date_gmt":"2017-05-05T19:08:13","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=10390"},"modified":"2017-05-05T15:08:13","modified_gmt":"2017-05-05T19:08:13","slug":"caso-mateus-ferreira-ja-lembra-edson-luis","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2017\/05\/05\/caso-mateus-ferreira-ja-lembra-edson-luis\/","title":{"rendered":"Caso Mateus Ferreira j\u00e1 lembra Edson Lu\u00eds"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"10391\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2017\/05\/05\/caso-mateus-ferreira-ja-lembra-edson-luis\/lu-4\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/lu.jpg?fit=490%2C280\" data-orig-size=\"490,280\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"lu\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/lu.jpg?fit=300%2C171\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/lu.jpg?fit=490%2C280\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/lu.jpg?resize=490%2C280\" alt=\"lu\" width=\"490\" height=\"280\" class=\"alignnone size-full wp-image-10391\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/lu.jpg?w=490 490w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/lu.jpg?resize=300%2C171 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 490px) 100vw, 490px\" \/><\/p>\n<p>No 247<br \/>\nPaulo Moreira<\/p>\n<p>Internado numa UTI em Goi\u00e2nia, o estudante de Ci\u00eancias Sociais Mateus Ferreira da Silva, de 33 anos, luta pela vida depois que teve o cr\u00e2nio afundado a golpes de cassetete por um capit\u00e3o da PM durante um ato p\u00fablico da greve geral de 28 de abril.<!--more--><\/p>\n<p> Em estado grave, com sinais de melhora nos \u00faltimos dias, sua recupera\u00e7\u00e3o \u00e9 alimentada pelas esperan\u00e7as que a medicina oferece em nestes casos. Assim que soube da trag\u00e9dia, a m\u00e3e do estudante, Suzete Barbosa, deslocou-se para a capital de Goi\u00e1s, para ficar ao lado do filho. Atrav\u00e9s  de imagens gravadas por  duas c\u00e2maras de v\u00eddeo, ambas portadas por estudantes presentes, o pa\u00eds inteiro pode assistir \u00e0 cena de viol\u00eancia que levou para a UTI. Pode ver o momento em que Mateus era atingido na cabe\u00e7a por golpes de cassetete &#8212; ouve-se at\u00e9 um clique neste momento &#8212; numa sequ\u00eancia t\u00e3o violenta que a arma se partiu no meio. Exibidas no dia da greve, a cena seria reprisada nos telejornais, mais tarde. Mas o  amor de m\u00e3e impediu Suzete de olhar as imagens.  &#8220;N\u00e3o tive coragem,&#8221; disse ela aos jornalistas.  <\/p>\n<p>      Esta diferen\u00e7a fundamental &#8212; a sobreviv\u00eancia da v\u00edtima, mesmo numa UTI e sem perspectivas claras de recupera\u00e7\u00e3o &#8212; separa o destino de Mateus de uma trag\u00e9dia ocorrida em 28 de mar\u00e7o de 1968, no restaurante Calabou\u00e7o, no Rio de Janeiro, quando um secundarista de 18 anos, Edson Lu\u00eds Lima Souto, recebeu um tiro de fuzil de um soldado da Pol\u00edcia Militar e morreu na hora. Separados  pela condi\u00e7\u00e3o m\u00e9dica,   por uma dist\u00e2ncia de 49 anos de hist\u00f3ria de um Brasil que passou por transforma\u00e7\u00f5es ineg\u00e1veis em meio s\u00e9culo,  Mateus Ferreira e Edson Lu\u00eds ocupam posi\u00e7\u00f5es an\u00e1logas na luta sem fim pela democratiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds.<\/p>\n<p>   Cada um em seu momento e em suas circunst\u00e2ncias espec\u00edficas, ambos se tornaram alvos dos perp\u00e9tuos movimentos de for\u00e7as  que trabalham para diminuir direitos e asfixiar liberdades.<\/p>\n<p>  A repress\u00e3o \u00e0 greve geral de 28 de abril faz parte do esfor\u00e7o para garantir a sobreviv\u00eancia de um governo repudiado por 73% da popula\u00e7\u00e3o, que procura por todos os meios levar adiante um conjunto de medidas a maioria rejeita &#8212; em ess\u00eancia, fazem parte da plataforma de subordina\u00e7\u00e3o aos interesse do governo dos Estados Unidos que a ditadura de 64 tentou mas n\u00e3o conseguiu cumprir at\u00e9 o fim.  O tiro de fuzil que alvejou Edson Lu\u00eds apontava para o AI-5, era o golpe dentro do golpe que, nove meses depois, aboliu as garantias individuais, escancarou a tortura como m\u00e9todo de investiga\u00e7\u00e3o numa ambiente de censura e treva. A morte do estudante n\u00e3o foi uma trag\u00e9dia isolada, como recordo no livro &#8220;A mulher que era o general da casa&#8221;:<\/p>\n<p>    Na fuzilaria, sete pessoas foram feridas a bala e levadas ao hospital. Um segundo estudante, Benedito Fraz\u00e3o Dutra, chegou ferido ao pronto-socorro e tornou-se o segundo morto do dia.  Um porteiro que passava pela rua foi alvejado. Um comerciante que assistia ao conflito  da janela de seu escrit\u00f3rio recebeu um tiro na boca.<\/p>\n<p>     Jornal de maior prest\u00edgio na \u00e9poca,  inclusive pela aten\u00e7\u00e3o que prestava a oposi\u00e7\u00e3o e pela firmeza na den\u00fancia os crimes da ditadura, o Correio da Manh\u00e3 descreveu a cena assim: &#8220;N\u00e3o agiu a Pol\u00edcia Militar como for\u00e7a p\u00fablica. Agiu como um bando de assassinos.&#8221; O Jornal do Brasil assumiu um tom parecido: &#8220;assassinato leva estudantes a greve nacional.&#8221;<\/p>\n<p>     Dias depois da trag\u00e9dia, o ministro da Justi\u00e7a Gama e Silva sustentou durante um debate na TV que a morte do estudante fora uma &#8220;arma\u00e7\u00e3o dos comunistas&#8221;. A tese era que l\u00edderes estudantis haviam  criado um tumulto que havia obrigado a PM a intervir daquela maneira. Presente ao programa, o jornalista Washington Novaes, que assistira a cena da janela da reda\u00e7\u00e3o da revista Vis\u00e3o, me contou, quatro d\u00e9cadas depois, que rebateu o ministro na hora. &#8220;Eu estava l\u00e1 e n\u00e3o foi assim, ministro. Vi quando o policial atirou.&#8221; Na entrevista para o livro, Washington ainda detalhou: &#8220;Vi o momento em que um aspirante da PM se ajoelhou, fez pontaria com o fuzil e deu um tiro. Tamb\u00e9m vi o menino caindo.&#8221;<\/p>\n<p>     Com o passar dos anos, a mem\u00f3ria da trag\u00e9dia de 1968  evaporou-se, junto com as garantias democr\u00e1ticas que sobreviviam at\u00e9 o AI-5, como o habeas corpus, que evitava a tortura de quem era aprisionado sem culpa formada. Nenhuma investiga\u00e7\u00e3o s\u00e9ria foi aberta para apurar as responsabilidades pela morte do &#8220;menino&#8221;. O maior punido foi o pr\u00f3prio Washington Novaes. Diretor da revista Vis\u00e3o, seman\u00e1rio de economia que tinha uma credibilidade sem paralelo, foi colocado na geladeira profissional, for\u00e7ado a demitir-se e levado a mudar de foco na carreira, abandonando o jornalismo pol\u00edtico pelos document\u00e1rios voltados para a ecologia e a cultura ind\u00edgena. Ele ainda foi enquadrado em dois IPMs que, sem uma acusa\u00e7\u00e3o espec\u00edfica, procuravam questionar sua credibilidade e apagar a mem\u00f3ria de um epis\u00f3dio que se tornou um dos marcos permanentes da viol\u00eancia da ditadura. Nos interrogat\u00f3rios, &#8220;n\u00e3o queriam saber o que eu tinha visto. S\u00f3 queriam que eu mudasse o que dissera. Tentavam me confundir, descobrir contradi\u00e7\u00f5es.&#8221;<\/p>\n<p>    O esfor\u00e7o para apagar a mem\u00f3ria das imagens violentas de 28 de abril j\u00e1 come\u00e7ou &#8212; com ajuda de uma m\u00eddia que jamais exibiu a mesma indigna\u00e7\u00e3o de meio s\u00e9culo atr\u00e1s. Nos primeiros momentos, a pauta era tentar enquadrar Mateus no papel de &#8220;v\u00e2ndalo-baderneiro&#8221;, caminho mais f\u00e1cil para transformar a v\u00edtima em culpado. <\/p>\n<p>    Havia uma dificuldade t\u00e9cnica intranspon\u00edvel, por\u00e9m. Com a nitidez que a tecnologia permite, as imagens captadas em Goi\u00e2nia mostram uma cena clara quando o capit\u00e3o Augusto Sampaio, subcomandante do 37a Companhia Independente da PM de Goi\u00e1s, avan\u00e7a a golpes de cassetete. V\u00ea-se tr\u00eas estrelas que indicam a patente em seu ombro. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida a respeito. A agilidade e per\u00edcia no manejo do cassetete chegam a  impressionar. <\/p>\n<p>   Numa reportagem do Globo de 30 de abril, o capit\u00e3o Sampaio tornou-se era um oficial sem nome e sem patente. Foi descrito como  &#8220;um policial militar&#8221; envolvido no caso. Na Folha de S. Paulo de 2 de abril, o capit\u00e3o aparecia com nome e sobrenome. Mas era qualificado como o &#8220;PM sob suspeita de agredir estudante em Goi\u00e1s&#8221;. Errado. Pode-se at\u00e9 debater a responsabilidade individual do capit\u00e3o no caso. Mas seu papel est\u00e1 documentado em v\u00eddeo. N\u00e3o h\u00e1 suspeita. Ele foi filmado quando atingiu o estudante. Est\u00e1 l\u00e1, em dois v\u00eddeos, que todo mundo pode encontrar na internet.<\/p>\n<p>    Negar os fatos, sabemos desde Hanna Arendt,  \u00e9 a melhor forma de trabalhar para que uma democracia se transforme em ditadura. Em bom portugu\u00eas: para que pa\u00eds em que Mateus Ferreira luta pela sobreviv\u00eancia numa UTI, seja o mesmo Brasil em que Edson Lu\u00eds foi morto e ningu\u00e9m teve de responder por isso. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No 247 Paulo Moreira Internado numa UTI em Goi\u00e2nia, o estudante de Ci\u00eancias Sociais Mateus Ferreira da Silva, de 33 anos, luta pela vida depois que teve o cr\u00e2nio afundado a golpes de cassetete por um capit\u00e3o da PM durante um ato p\u00fablico da greve geral de 28 de abril.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-10390","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-2HA","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10390","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10390"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10390\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10392,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10390\/revisions\/10392"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10390"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10390"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10390"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}