{"id":11218,"date":"2017-06-03T09:48:35","date_gmt":"2017-06-03T13:48:35","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=11218"},"modified":"2017-06-03T09:48:35","modified_gmt":"2017-06-03T13:48:35","slug":"suje-se-gordo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2017\/06\/03\/suje-se-gordo\/","title":{"rendered":"Suje-se Gordo!"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"11219\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2017\/06\/03\/suje-se-gordo\/machadodeassis-by-fernao-campos\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/MachadodeAssis-by-fernao-campos.jpg?fit=288%2C400\" data-orig-size=\"288,400\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"MachadodeAssis by fernao campos\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/MachadodeAssis-by-fernao-campos.jpg?fit=216%2C300\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/MachadodeAssis-by-fernao-campos.jpg?fit=288%2C400\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/MachadodeAssis-by-fernao-campos.jpg?resize=288%2C400\" alt=\"MachadodeAssis by fernao campos\" width=\"288\" height=\"400\" class=\"alignnone size-full wp-image-11219\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/MachadodeAssis-by-fernao-campos.jpg?w=288 288w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/MachadodeAssis-by-fernao-campos.jpg?resize=216%2C300 216w\" sizes=\"auto, (max-width: 288px) 100vw, 288px\" \/><\/p>\n<p>No Almanaqueiras<br \/>\nDo Mundo Fantasmo<\/p>\n<p>(Machado, por Fern\u00e3o Campos)<!--more--><\/p>\n<p>\u00c9 um daqueles contos-n\u00e3o-contos de Machado de Assis, onde ele (ou um \u201ceu\u201d pretextual) conta o que lhe foi contado por um amigo, no intervalo de uma pe\u00e7a chamada A Senten\u00e7a ou o Tribunal do J\u00fari. Esse amigo narrador diz-lhe que j\u00e1 presidiu j\u00faris no passado e que n\u00e3o gostou da experi\u00eancia, citando o preceito do Evangelho: \u201cN\u00e3o queirais julgar para que n\u00e3o sejais julgados\u201d.<\/p>\n<p>O narrador diz, com saborosos detalhes, o que foi o julgamento de um rapaz, \u201cum mo\u00e7o limpo, acusado de haver furtado certa quantia, n\u00e3o grande, antes pequena, com falsifica\u00e7\u00e3o de um papel\u201d. Ele comenta a atua\u00e7\u00e3o do advogado, do promotor, lembra que o acusado admitia o crime, apenas atribu\u00eda a uma terceira pessoa, que n\u00e3o quis nomear, a iniciativa e o benef\u00edcio do delito, para \u201cacudir a uma necessidade urgente\u201d.<\/p>\n<p>E conta que no j\u00fari havia um sujeito ruivo, chamado Lopes, que \u201cparecia mais que ningu\u00e9m convencido do delito e do delinquente\u201d. O j\u00fari condena o rapaz por onze votos contra um, mas mesmo assim o Lopes continua inquieto, \u201ce disse que seria um ato de fraqueza, ou cousa pior, a absolvi\u00e7\u00e3o que lhe d\u00e9ssemos\u201d. N\u00e3o se corre tal risco, com um placar de 11&#215;1, mas o ruivo Lopes continua ind\u00f3cil, e brada:<\/p>\n<p>\u2013 O crime est\u00e1 mais que provado. O sujeito nega, porque todo o r\u00e9u nega, mas o certo \u00e9 que ele cometeu a falsidade, e que falsidade! Tudo por uma mis\u00e9ria, duzentos mil r\u00e9is! Suje-se gordo! Quer sujar-se? Suje-se gordo!<\/p>\n<p>O rapaz \u00e9 condenado, o tempo vai se passando, e aquela frase n\u00e3o sai da mem\u00f3ria do narrador. Suje-se gordo!  A princ\u00edpio ele fica embasbacado, mas logo explica a express\u00e3o: \u201cera como se dissesse que o condenado era mais que ladr\u00e3o, era um ladr\u00e3o reles, um ladr\u00e3o de nada\u201d.<\/p>\n<p>E muito tempo depois nosso narrador est\u00e1 de novo num j\u00fari, e quem se senta no banco dos r\u00e9us, agora mais magro, mas igualmente ruivo? O mesm\u00edssimo Lopes de antes, portando o mesmo sobrenome, sendo agora acusado de \u201cuma falsidade e um desvio de cento e dez contos de r\u00e9is\u201d, o que nem um pouco lhe tira o sossego:<\/p>\n<p>Lopes negava com firmeza tudo o que lhe era perguntado, ou respondia de maneira que trazia uma complica\u00e7\u00e3o ao processo. Circulava os olhos sem medo nem ansiedade; n\u00e3o sei at\u00e9 se com uma pontinha de riso nos cantos da boca.<\/p>\n<p>E nesse momento, vendo as esmagadoras provas acumuladas (inclusive \u201cuma carta de Lopes que fazia evidente o crime\u201d) o narrador \u00e9 assaltado pela lembran\u00e7a da famosa frase.<\/p>\n<p>\u201cSuje-se gordo!\u201d. Vi que n\u00e3o era um ladr\u00e3o reles, um ladr\u00e3o de nada, sim de grande valor. O verbo \u00e9 que definia duramente a a\u00e7\u00e3o. \u201cSuje-se gordo!\u201d. Queria dizer que um homem n\u00e3o se devia levar a um ato daquela esp\u00e9cie sem a grossura da soma. A ningu\u00e9m cabia sujar-se por quatro patacas. Quer sujar-se? Suje-se gordo!<\/p>\n<p>E o narrador machadiano, com a melancolia de sempre, relata que nem todos viram com os olhos dele os autos e os fatos: \u201cVotaram comigo dous jurados. Nove negaram a criminalidade do Lopes, a senten\u00e7a de absolvi\u00e7\u00e3o foi lavrada e lida, e o acusado saiu para a rua\u201d.<\/p>\n<p>Um \u00e9 condenado por um desfalque de duzentos mil r\u00e9is, outro \u00e9 absolvido por um golpe de cento e dez contos. Parece familiar?<\/p>\n<p>A Justi\u00e7a, ao contr\u00e1rio do que se diz, n\u00e3o \u00e9 cega: seus olhos s\u00e3o t\u00e3o sadios e t\u00e3o afinados com a vontade que s\u00f3 enxergam o que querem enxergar. O pr\u00f3prio narrador do conto reconhece que qualquer coisa pode ser interpretada de modo diferente, dependendo de que lado do muro estejamos.<\/p>\n<p>[O rapaz dos duzentos mil r\u00e9is] disse isso sem \u00eanfase, triste, a palavra surda, os olhos mortos, com tal palidez que metia pena: o promotor p\u00fablico achou nessa mesma cor do gesto a confiss\u00e3o do crime. Ao contr\u00e1rio, o defensor mostrou que o abatimento e a palidez significavam a l\u00e1stima da inoc\u00eancia caluniada.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>[O Lopes] ouvia, mas com o rosto alto, mirando o escriv\u00e3o, o presidente, o teto e as pessoas que o iam julgar; entre elas eu. Quando olhou para mim n\u00e3o me reconheceu; fitou-me algum tempo e sorriu, como fazia aos outros. Todos esses gestos do homem serviram \u00e0 acusa\u00e7\u00e3o e \u00e0 defesa, tal como serviram, tempos antes, os gestos contr\u00e1rios do outro acusado. O promotor achou neles a revela\u00e7\u00e3o clara do cinismo, o advogado mostrou que s\u00f3 a inoc\u00eancia e a certeza da absolvi\u00e7\u00e3o podiam trazer aquela paz de esp\u00edrito.<\/p>\n<p>De fato, n\u00e3o importa muito o que esteja gravado nos autos ou que seja alegado por um r\u00e9u. A senten\u00e7a que proferimos \u00e9 uma quest\u00e3o de identifica\u00e7\u00e3o ou repulsa \u00e0 primeira vista. Lemos ali o que j\u00e1 est\u00e1vamos prontos para ler.<\/p>\n<p>Nosso atavismo emocional e social nos empurra para o gesto instintivo de condenar uns e absolver outros, e depois dessa decis\u00e3o tudo se resume a ter alguma ret\u00f3rica inventadora de motivos. O ruivo Lopes estava mais magro, anos depois, mas isso n\u00e3o o impediu de sujar-se gordo, com \u201ca grossura da soma\u201d, e impor respeito ao j\u00fari.<\/p>\n<p>Ia esquecendo: o conto \u00e9 de Rel\u00edquias de Casa Velha, de 1906.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No Almanaqueiras Do Mundo Fantasmo (Machado, por Fern\u00e3o Campos)<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-11218","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-2UW","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11218","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11218"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11218\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11220,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11218\/revisions\/11220"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11218"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11218"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11218"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}