{"id":11259,"date":"2017-06-05T12:09:51","date_gmt":"2017-06-05T16:09:51","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=11259"},"modified":"2017-06-05T12:09:51","modified_gmt":"2017-06-05T16:09:51","slug":"nunca-fomos-democracia-nenhuma-um-pais-que-nao-tem-dignidade-nao-sente-indignacao","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2017\/06\/05\/nunca-fomos-democracia-nenhuma-um-pais-que-nao-tem-dignidade-nao-sente-indignacao\/","title":{"rendered":"Nunca fomos democracia nenhuma. Um pa\u00eds que n\u00e3o tem dignidade n\u00e3o sente indigna\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"11260\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2017\/06\/05\/nunca-fomos-democracia-nenhuma-um-pais-que-nao-tem-dignidade-nao-sente-indignacao\/pa-2\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/pa.jpg?fit=600%2C416\" data-orig-size=\"600,416\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"pa\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/pa.jpg?fit=300%2C208\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/pa.jpg?fit=600%2C416\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/pa.jpg?resize=600%2C416\" alt=\"pa\" width=\"600\" height=\"416\" class=\"alignnone size-full wp-image-11260\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/pa.jpg?w=600 600w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/pa.jpg?resize=300%2C208 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/pa.jpg?resize=433%2C300 433w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p>No DCM, por Aldo Fornazieri<\/p>\n<p>O presidente da Rep\u00fablica foi flagrado cometendo uma s\u00e9rie de crimes e as provas foram transmitidas para todo o pa\u00eds. Com exce\u00e7\u00e3o de um protesto aqui, outro ali, a vida seguiu em sua tr\u00e1gica normalidade. Em muitos outros pa\u00edses o presidente teria que renunciar imediatamente e, qui\u00e7\u00e1, estaria preso. Se resistisse, os pal\u00e1cios estariam cercados por milhares de pessoas e milh\u00f5es se colocariam nas ruas at\u00e9 a sa\u00edda de tal criminoso, pois as institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas s\u00e3o sagradas, por expressarem a dignidade e a moralidade nacional.<!--more--><\/p>\n<p>Aqui n\u00e3o. No Brasil tudo \u00e9 poss\u00edvel. Grupos criminosos podem usar das institui\u00e7\u00f5es do poder ao seu bel prazer. Afinal de contas, no Brasil nunca tivemos rep\u00fablica. At\u00e9 mesmo a oposi\u00e7\u00e3o, que ontem foi apeada do governo, d\u00e1 de ombros e muitos chegam a suspeitar que a den\u00fancia contra Temer \u00e9 um golpe dentro do golpe. Que existem v\u00e1rios interesses em jogo na den\u00fancia, qualquer pessoa razoavelmente informada sabe. Mas da\u00ed adotar posturas passivas em face da exist\u00eancia de uma quadrilha no comando do pa\u00eds significa pouco se importar com os destinos do Brasil e de seu povo, priorizando mais o c\u00e1lculo pol\u00edtico de partidos e grupos particulares.<\/p>\n<p>O Brasil tem uma unidade pol\u00edtica e territorial, mas n\u00e3o tem alma, n\u00e3o tem car\u00e1ter, n\u00e3o tem dignidade e n\u00e3o tem um povo. Somos uma soma de partes desconexas. A unidade pol\u00edtica e territorial foi alcan\u00e7ada \u00e0s custas da viol\u00eancia dos poderosos, dos colonizadores, dos bandeirantes, dos escravocratas do Imp\u00e9rio, dos coron\u00e9is da Primeira Rep\u00fablica, dos industriais que amalgamaram as paredes de suas empresas com o suor e o sangue dos trabalhadores, com a mis\u00e9ria e a degrada\u00e7\u00e3o servil dos lavradores pobres.<\/p>\n<p>\u00cdndios foram massacrados; escravos foram mortos e a\u00e7oitados; a dissid\u00eancia foi dizimada; as lutas sociais foram tratadas com baionetas, cassetetes e balas. A nossa alma, a alma brasileira, foi ganhando duas texturas: submiss\u00e3o e indiferen\u00e7a. N\u00e3o temos valores, n\u00e3o temos v\u00ednculos societ\u00e1rios, n\u00e3o temos costumes que amalgamam o nosso car\u00e1ter e somos o povo, dentre todas as Am\u00e9ricas, que tem o menor \u00edndice de confiabilidade interpessoal, como mostram v\u00e1rias pesquisas.<\/p>\n<p>Na tr\u00e1gica normalidade da nossa hist\u00f3ria n\u00e3o nos revoltamos contra o nosso dominador colonial. Ele nos concedeu a Independ\u00eancia como obra de sua gra\u00e7a. N\u00e3o fizemos uma guerra civil contra os escravocratas e n\u00e3o fizemos uma revolu\u00e7\u00e3o republicana. A dor e os cad\u00e1veres foram se amontoando ao longo dos tempos e o verde de nossas florestas foi se tingindo com sangue dos mais fracos, dos deserdados. Hoje mesmo, n\u00e3o nos indignamos com as 60 mil mortes violentas anuais ou com as 50 mil v\u00edtimas fatais no tr\u00e2nsito e os mais de 200 mil feridos graves. N\u00e3o nos importamos com as mortes dos jovens pobres e negros das periferias e com a assustadora viol\u00eancia contra as mulheres. Tudo \u00e9 normal, tragicamente normal.<\/p>\n<p>Quando n\u00f3s, os debaixo, chegamos ao poder, sentamos \u00e0 mesa dos nossos inimigos, brindamos, comemoramos e libamos com eles e, no nosso deslumbramento, acreditamos que estamos definitivamente aceitos na Casa Grande dos pal\u00e1cios. S\u00f3 nos damos conta do nosso vergonhoso engano no dia em que os nossos inimigos nos apunhalam pelas constas e nos jogam dos pal\u00e1cios.<\/p>\n<p>Nunca fomos uma democracia racial e, no fundo, nunca fomos democracia nenhuma, pois sempre nos faltou o crit\u00e9rio irredut\u00edvel da igualdade e da sociedade justa para que pud\u00e9ssemos ostentar o t\u00edtulo de democracia. Nos contentamos com os surtos de crescimento econ\u00f4mico e com as migalhas das parcas redu\u00e7\u00f5es das desigualdades e estufamos o peito para dizer que alcan\u00e7amos a reden\u00e7\u00e3o ou que estamos no caminho dela. No governo, entregamos bilh\u00f5es de reais aos camp\u00f5es nacionais sem perceber que s\u00e3o velhacos, que embolsam o dinheiro e que s\u00e3o os primeiros a dar as costas ao Brasil e ao seu povo.<\/p>\n<p>No Brasil, a mobilidade social \u00e9 ex\u00edgua, as estratifica\u00e7\u00f5es sociais s\u00e3o abissais e n\u00e3o somos capazes de transformar essas diferen\u00e7as em lutas radicais, em insurrei\u00e7\u00f5es, em revoltas. Preferimos sentar \u00e0 mesa dos nossos inimigos e negociar com eles, de forma subalterna. Aceitamos os pactos dos privil\u00e9gios dos de cima e, em nome da tese imoral de que os fins justificam os meios, nos corrompemos como todos e aceitamos o assalto sistem\u00e1tico do capital aos recursos p\u00fablicos, aos or\u00e7amentos, aos fundos p\u00fablicos, aos recursos subsidiados e, ainda, aliviamos os ricos e penalizamos os pobres em termos tribut\u00e1rios.<\/p>\n<p>Quando percebemos os nossos enganos, nos indignamos mais com palavras jogadas ao vento do que com atitudes e lutas. Boa parte das nossas lutas n\u00e3o passam de piqueniques c\u00edvicos nas avenidas das grandes cidades. E, em nome de tudo isto, das auto-justificativas para os nossos enganos, sentimos um al\u00edvio na consci\u00eancia, rejeitamos os sentimentos de culpa, mas n\u00e3o somos capazes de perceber que n\u00e3o temos alma, n\u00e3o temos car\u00e1ter, n\u00e3o temos moral e n\u00e3o temos coragem.<\/p>\n<p>Da mesma forma que aceitamos as chacinas, os massacres nos pres\u00eddios, a viol\u00eancia policial nos morros e nas favelas, aceitamos passivamente a destrui\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o, da sa\u00fade, da ci\u00eancia e da pesquisa. Aceitamos que o povo seja uma massa ignara e sem cultura, sem civilidade e sem civiliza\u00e7\u00e3o. Continuamos sendo um povo abastardado, somos filhos de negras e \u00edndias engravidadas pela viol\u00eancia dos invasores, das elites, do capital, das classes pol\u00edticas que fracassaram em conduzir este pa\u00eds a um patamar de dignidade para seu povo.<\/p>\n<p>Aceitamos a destrui\u00e7\u00e3o das nossas florestas e da nosso biodiversidade, o envenenamento das nossas \u00e1guas e das nossas terras porque temos a mesma alma dominada pela cobi\u00e7a de nos sentirmos bem quando estamos sentados \u00e0 mesa dos senhores e porque queremos alcan\u00e7ar o fruto sem plantar a \u00e1rvore. Se algum lampejo de consci\u00eancia, de alma ou de car\u00e1ter nacional existe, isto \u00e9 coisa restrita \u00e0 vida intelectual, n\u00e3o do povo. O povo n\u00e3o tem nenhuma refer\u00eancia significativa em nossa hist\u00f3ria, em algum her\u00f3i brasileiro, em algum pai-fundador, em alguma proclama\u00e7\u00e3o de independ\u00eancia ou rep\u00fablica, em algum texto constitucional em algum l\u00edder exemplar.<\/p>\n<p>Somos governados pela submiss\u00e3o e pela indiferen\u00e7a. N\u00e3o somos capazes de olhar \u00e0 nossa volta e de perceber as nossas trag\u00e9dias. Nos condoemos com as trag\u00e9dias do al\u00e9m-mar, mas n\u00e3o com as nossas. N\u00e3o temos a dignidade dos sentimentos humanos da solidariedade, da piedade, da compaix\u00e3o. N\u00e3o somos capazes de nos indignar e n\u00e3o seremos capazes de gerar revoltas, insurrei\u00e7\u00f5es, mesmo que pac\u00edficas. Mesmo que pac\u00edficas, mas com for\u00e7a suficiente para mudar os rumos do nosso pa\u00eds. Se n\u00e3o nos indignarmos e n\u00e3o gerarmos atitudes fortes, n\u00e3o teremos uma comunidade de destino, n\u00e3o teremos uma alma com um povo, n\u00e3o geraremos um futuro digno e a hist\u00f3ria nos ver\u00e1 como gera\u00e7\u00f5es de incapazes, de indiferentes e de pessoas que n\u00e3o se preocuparam em imprimir um conte\u00fado significativo na sua passagem pela vida na Terra.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No DCM, por Aldo Fornazieri O presidente da Rep\u00fablica foi flagrado cometendo uma s\u00e9rie de crimes e as provas foram transmitidas para todo o pa\u00eds. Com exce\u00e7\u00e3o de um protesto aqui, outro ali, a vida seguiu em sua tr\u00e1gica normalidade. Em muitos outros pa\u00edses o presidente teria que renunciar imediatamente e, qui\u00e7\u00e1, estaria preso. 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