{"id":11491,"date":"2017-06-12T17:47:27","date_gmt":"2017-06-12T21:47:27","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=11491"},"modified":"2017-06-12T17:47:27","modified_gmt":"2017-06-12T21:47:27","slug":"gullar-sobre-o-amor","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2017\/06\/12\/gullar-sobre-o-amor\/","title":{"rendered":"Gullar sobre o amor"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"11492\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2017\/06\/12\/gullar-sobre-o-amor\/gu\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/gu.jpg?fit=645%2C349\" data-orig-size=\"645,349\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"gu\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/gu.jpg?fit=300%2C162\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/gu.jpg?fit=600%2C325\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/gu.jpg?resize=600%2C325\" alt=\"gu\" width=\"600\" height=\"325\" class=\"alignnone size-full wp-image-11492\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/gu.jpg?w=645 645w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/gu.jpg?resize=300%2C162 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/gu.jpg?resize=554%2C300 554w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p>Houve uma \u00e9poca em que eu pensava que as pessoas deviam ter um gatilho na garganta: quando pronunciasse \u2014 eu te amo \u2014, mentindo, o gatilho disparava e elas explodiam. Era uma defesa intolerante contra os levianos e que refletia sem d\u00favida uma enorme inseguran\u00e7a de seu inventor. Inseguran\u00e7a e inexperi\u00eancia. Com o passar dos anos a id\u00e9ia foi abandonada, a vida revelou-me sua complexidade, suas nuan\u00e7as. Aprendi que n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil dizer eu te amo sem pelo menos achar que ama e, quando a pessoa mente, a outra percebe, e se n\u00e3o percebe \u00e9 porque n\u00e3o quer perceber, isto \u00e9: quer acreditar na mentira. Claro, tem gente que quer ouvir essa express\u00e3o mesmo sabendo que \u00e9 mentira. O mentiroso, nesses casos, n\u00e3o merece puni\u00e7\u00e3o alguma.<!--more--><\/p>\n<p>Por a\u00ed j\u00e1 se v\u00ea como esse neg\u00f3cio de amor \u00e9 complicado e de contornos imprecisos. Pode-se dizer, no entanto, que o amor \u00e9 um sentimento radical \u2014 falo do amor-paix\u00e3o \u2014 e \u00e9 isso que aumenta a complica\u00e7\u00e3o. Como pode uma coisa amb\u00edgua e duvidosa ganhar a f\u00faria das tempestades? Mas essa \u00e9 a natureza do amor, compar\u00e1vel \u00e0 do vento: fluido e arrasador. \u00c9 como o vento, tamb\u00e9m \u00e0s vezes doce, brando, claro, bailando alegre em torno de seu oculto n\u00facleo de fogo.<\/p>\n<p>O amor \u00e9, portanto, na sua origem, libera\u00e7\u00e3o e aventura. Por defini\u00e7\u00e3o, anti-burgu\u00eas. O pr\u00f3prio da vida burguesa n\u00e3o \u00e9 o amor, \u00e9 o casamento, que \u00e9 o amor institucionalizado, disciplinado, integrado na sociedade. O casamento \u00e9 um contrato: duas pessoas se conhecem, se gostam, se sentem a tra\u00eddas uma pela outra e decidem viver juntas. Isso poderia ser uma COisa simples, mas n\u00e3o \u00e9, pois h\u00e1 que se inserir na ordem social, definir direitos e deveres perante os homens e at\u00e9 perante Deus. Carimbado e aben\u00e7oado, o novo casal inicia sua vida entre beijos e sorrisos. E risos e risinhos dos maledicentes. Por maior que tenha sido a paix\u00e3o inicial, o impulso que os levou \u00e0 pretoria ou ao altar (ou a ambos), a simples assinatura do contrato j\u00e1 muda tudo. Com o casamento o amor sai do marginalismo, da atmosfera rom\u00e2ntica que o envolvia, para entrar nos trilhos da institucionalidade. Torna-se grave. Agora \u00e9 construir um lar, gerar filhos, cri\u00e1-los, educ\u00e1-los at\u00e9 que, adultos, abandonem a casa para fazer sua pr\u00f3pria vida. Ou seja: se corre tudo bem, corre tudo mal. Mas, n\u00e3o radicalizemos: h\u00e1 exce\u00e7\u00f5es \u2014 e dessas exce\u00e7\u00f5es vive a nossa irrenunci\u00e1vel esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Conheci uma mulher que costumava dizer: n\u00e3o h\u00e1 amor que resista ao tanque de lavar (ou \u00e0 m\u00e1quina, mesmo), ao espanador e ao bife com fritas. Ela possivelmente exagerava, mas com raz\u00e3o, porque tinha uns olhos \u00e1vidos e brilhantes e um cora\u00e7\u00e3o ansioso. Ouvia o vento rumorejar nas \u00e1rvores do parque, \u00e0 tarde incendiando as nuvens e imaginava quanta vida, quanta aventura estaria se desenrolando naquele momento nos bares, nos caf\u00e9s, nos bairros distantes. \u00c0 sua volta certamente n\u00e3o acontecia nada: as pessoas em suas respectivas casas estavam apenas morando, sofrendo uma vida igual \u00e0 sua. Essa inquieta\u00e7\u00e3o bovariana prepara o caminho da aventura, que nem sempre acontece. Mas dificilmente deixa de acontecer. Pode n\u00e3o acontecer a aventUra sonhada, o amor louco, o sonho que arrebata e funda o para\u00edso na terra. Acontece o vulgar adult\u00e9rio &#8211; o assim chamado -, que \u00e9 quase sempre decepcionante, condenado, amargo e que se transforma numa esp\u00e9cie de vingan\u00e7a contra a mediocridade da vida. \u00c9 como uma droga que se toma para curar a ansiedade e reajustar-se ao status quo. Estou curada, ela ent\u00e3o se diz \u2014 e volta ao bife com fritas.<\/p>\n<p>Mas \u00e0s vezes n\u00e3o \u00e9 assim. \u00c0s vezes o sonho vem, baixa das nuvens em fogo e pousa aos teus p\u00e9s um candelabro cintilante. Dura uma tarde? Uma semana? Um m\u00eas? Pode durar um ano, dois at\u00e9, desde que as dificuldades sejam de propor\u00e7\u00e3o suficiente para manter vivo o desafio e n\u00e3o t\u00e3o duras que acovardem os amantes. Para isso, o fundamental \u00e9 saber que tudo vai acabar. O verdadeiro amor \u00e9 suicida. O amor, para atingir a igni\u00e7\u00e3o m\u00e1xima, a entrega total, deve estar condenado: a consci\u00eancia da precariedade da rela\u00e7\u00e3o possibilita mergulhar nela de corpo e alma, viv\u00ea-la enquanto morre e morr\u00ea-la enquanto vive, como numa desvairada montanha-russa, at\u00e9 que, de repente, acaba. E \u00e9 necess\u00e1rio que acabe como come\u00e7ou, de golpe, cortado rente na carne, entre solu\u00e7os, querendo e n\u00e3o querendo que acabe, pois o esp\u00edrito humano n\u00e3o comporta tanta realidade, como falou um poeta maior. E enxugados os olhos, aberta a janela, l\u00e1 est\u00e3o as mesmas nuvens rolando lentas e sem barulho pelo c\u00e9u deserto de anjos. O al\u00edvio se confunde com o vazio, e voc\u00ea agora prefere morrer.<\/p>\n<p>A barra \u00e9 pesada. Quem conheceu o del\u00edrio dificilmente se habitua \u00e0 antiga banalidade. Foi Gogol, no Inspetor Geral quem captou a decep\u00e7\u00e3o desse despertar. O falso inspetor mergulhara na fascinante impostura que lhe possibilitou uma vida de sonho: homenagens, bajula\u00e7\u00f5es, dinheiro e at\u00e9 o amor da mulher e da filha do prefeito. Eis sen\u00e3o quando chega o criado, trazendo-lhe o chap\u00e9u e o capote ordin\u00e1rio, signos da sua vida real, e lhe diz que est\u00e1 na hora de ir-se pois o verdadeiro inspetor est\u00e1 para chegar. Ele se assusta: mas ent\u00e3o est\u00e1 tUdo acabado? N\u00e3o era verdade o sonho? E assim \u00e9: a mais delirante paix\u00e3o, terminada, deixa esse sabor de impostura na boca, como se a felicidade n\u00e3o pudesse ser verdade. E no entanto o foi, e tanto que \u00e9 imposs\u00edvel continuar vivendo agora, sem ela, normalmente. Ou, como diz Chico Buarque: sofrendo normalmente.<\/p>\n<p>Evaporado o fantasma, reaparece em sua banal realidade o guarda\u00adroupa, a c\u00f4moda, a camisa usada na cadeira, os chinelos. E tUdo impregnado da aus\u00eancia do sonho, que \u00e9 agora uma agulha escondida em cada objeto, e te fere, inesperadamente, quando abres a gaveta, o livro. E te fere n\u00e3o porque ali esteja o sonho ainda, mas exatamente porque j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1: esteve. Sais para o trabalho, que \u00e9 preciso esquecer, afundar no dia-a-dia, na rotina do dia, tolerar o passar das horas, a conversa burra, o cafezinho, as not\u00edcias do jornal. Edif\u00edcios, ruas, avenidas, lojas, cinema, aeroportos, \u00f4nibus, carrocinhas de sorvete: o mundo \u00e9 um incomensur\u00e1vel amontoado de inutilidades. E de repente o t\u00e1xi que te leva por uma rua onde a mem\u00f3ria do sonho paira como um perfume. Que fazer? Desviar-se dessas ruas, ocultar os objetos ou, pelo contr\u00e1rio, expor-se a tudo, sofrer tudo de uma vez e habituar\u00adse? Mais dia menos dia toda a lembran\u00e7a se apaga e te surpreendes gargalhando, a vida vibrando outra vez, nova, na garganta, sem culpa nem desculpa. E chegas a pensar: quantas manh\u00e3s como esta perdi burramente! O amor \u00e9 uma doen\u00e7a como outra qualquer.<\/p>\n<p>E \u00e9 verdade. Uma doen\u00e7a ou pelo menos uma anormalidade. Como pode acontecer que, subitamente, num mundo cheio de pessoas, algu\u00e9m meta na cabe\u00e7a que s\u00f3 existe fulano ou fulana, que \u00e9 imposs\u00edvel viver sem essa pessoa? E reparando bem, tirando o rosto que era lindo, o corpo n\u00e3o era l\u00e1 essas coisas&#8230; Na cama era regular, mas no papo um saco, e mentia, dizia tolices, e pensar que quase morro!&#8230;<\/p>\n<p>Isso dizes agora, comendo um bife com fritas diante do espet\u00e1culo vesperal dos c\u00famulos e nimbos. Em paz com a vida. Ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>O texto acima foi extra\u00eddo do livro &#8220;A estranha vida banal&#8221;,  editora Jos\u00e9 Olympio &#8211; 1989, e consta da antologia &#8220;As 100 melhores cr\u00f4nicas brasileiras&#8221;, Editora Objetiva, p\u00e1g. 279 &#8211; Rio de Janeiro &#8211; 2005,  organiza\u00e7\u00e3o e introdu\u00e7\u00e3o de Joaquim Ferreira dos Santos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Houve uma \u00e9poca em que eu pensava que as pessoas deviam ter um gatilho na garganta: quando pronunciasse \u2014 eu te amo \u2014, mentindo, o gatilho disparava e elas explodiam. Era uma defesa intolerante contra os levianos e que refletia sem d\u00favida uma enorme inseguran\u00e7a de seu inventor. Inseguran\u00e7a e inexperi\u00eancia. 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