{"id":12166,"date":"2017-07-08T23:57:40","date_gmt":"2017-07-09T03:57:40","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=12166"},"modified":"2017-07-08T23:57:40","modified_gmt":"2017-07-09T03:57:40","slug":"escrever-e-cavar","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2017\/07\/08\/escrever-e-cavar\/","title":{"rendered":"Escrever \u00e9 cavar"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"12167\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2017\/07\/08\/escrever-e-cavar\/img_0491\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/IMG_0491.jpg?fit=280%2C147\" data-orig-size=\"280,147\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"IMG_0491\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/IMG_0491.jpg?fit=280%2C147\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/IMG_0491.jpg?fit=280%2C147\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/IMG_0491.jpg?resize=280%2C147\" alt=\"IMG_0491\" width=\"280\" height=\"147\" class=\"alignnone size-full wp-image-12167\" \/><\/p>\n<p>Br\u00e1ulio Tavares <\/p>\n<p>Existe uma coisa que est\u00e1 sendo procurada, e \u00e9 preciso um esfor\u00e7o de remo\u00e7\u00e3o de entulho at\u00e9 chegar a essa coisa. Digamos que estamos cavando um po\u00e7o. O que procuramos \u00e9 a \u00e1gua. O que temos de remover \u00e9 a terra.<!--more--><\/p>\n<p>Cada dia \u00e9 diferente. Tem dias em que a gente mete a p\u00e1 na terra, e a \u00e1gua j\u00e1 brota. Tem dias em que a gente cava dois metros de fundura e s\u00f3 acha terra seca.<\/p>\n<p>N\u00e3o depende da gente. A mente imaginativa da gente (estou falando de escritor, de quem trabalha com a mente imaginativa) produz muita terra seca, palavras que parecem dizer alguma coisa mas n\u00e3o dizem nada. Palavras opacas, sem brilho; palavras surdas, sem som; palavras inertes, sem vibra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A gente vai cavando e esperando a \u00e1gua brotar. A \u00e1gua s\u00e3o aqueles filetes de palavras que trazem movimento, vibra\u00e7\u00e3o de fluido, reflexos da luz em volta, murmurejamento de coisa viva. Uma frase que se a gente arrancar da p\u00e1gina e jogar no ch\u00e3o ela sai andando sozinha.<\/p>\n<p>Voc\u00ea est\u00e1 procurando por isso, a\u00ed escolhe um lugar onde cavar. \u201cVou dizer tal e tal coisa.\u201d  Come\u00e7a a cavar. Cava um metro, dois metros de fundura. Nada acontece. O que se deve fazer, ent\u00e3o?  O que se \u201cdeve fazer\u201d eu ainda n\u00e3o sei: sei o que se faz. Eu geralmente paro de cavar ali e vou cavar noutro canto.<\/p>\n<p>A letra do samba empancou por falta de uma rima? Vou trabalhar meia hora naquele artigo sobre Stanley Kubrick. O artigo n\u00e3o est\u00e1 caminhando? Vou preparar as aulas daquela oficina de poesia.  A oficina n\u00e3o rende?  Meia hora de tradu\u00e7\u00e3o de Chandler talvez salve esta manh\u00e3.  A tradu\u00e7\u00e3o parou num \u201cpig\u2019s valise\u201d? Talvez seja hora de voltar \u00e0 letra da m\u00fasica. Milagre! Heureca! Achei a rima que faltava.<\/p>\n<p>Eu tenho a supersti\u00e7\u00e3o (cientificamente infundada) de que cavar um buraco ajuda a aumentar proporcionalmente os outros buracos em que estava cavando.  Acho, contra toda l\u00f3gica, que trabalhar na escava\u00e7\u00e3o A me ajuda tamb\u00e9m a chegar mais perto da poss\u00edvel \u00e1gua contida em B, C e D.<\/p>\n<p>Saber onde cavar \u00e9 um dos maiores \u201ctalentos ocultos\u201d da humanidade. Uso a palavra talento n\u00e3o no sentido de talento art\u00edstico, como \u00e9 mais frequente no portugu\u00eas, mas no sentido parapsicol\u00f3gico, sobrenatural, metaps\u00edquico, com que a palavra \u201ctalent\u201d \u00e9 t\u00e3o usada em ingl\u00eas.<\/p>\n<p>Talento \u00e9 o que t\u00eam os rabdomantes para andar pelo sert\u00e3o empunhando uma forquilhazinha de pau e em dado local parar e dizer: \u201cAqui tem \u00e1gua\u201d. Ou, como diz o adivinh\u00e3o-de-\u00e1gua de Ariano Suassuna em As Inf\u00e2ncias de Quaderna, tem \u201cuma cordilheira de \u00e1gua nativa\u201d.<\/p>\n<p>O talento que tinha o Ragle Gumm de Philip K. Dick (Time Out of Joint, 1959) para adivinhar o lugar onde o homenzinho verde ia aparecer no quebra-cabe\u00e7as do jornal. Ou o talento que tinha a Cayce Pollard de William Gibson (Pattern Recognition, 2003) para olhar de supet\u00e3o um logotipo e saber se ia ou n\u00e3o funcionar com o p\u00fablico. Ou o talento que possibilita ao Martin Carvajal de Robert Silverberg (The Stochastic Man, 1975) adivinhar o futuro para turbinar candidaturas presidenciais, e mergulhar na crise existencial dos que j\u00e1 sabem tudo, tudo, tudo o que vai acontecer.<\/p>\n<p>O que chamam de talento liter\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 propriamente isso mas \u00e9 irm\u00e3o disso, a capacidade de escolher, entre as centenas de milhares de palavras do idioma, aquelas palavras que, enfileiradas, v\u00e3o resultar numa hist\u00f3ria capaz de fazer o leitor dizer: \u201cuau\u201d. <\/p>\n<p>Conta-se que o produtor hollywoodiano Irving Thalberg, numa reuni\u00e3o com roteiristas, minimizou o of\u00edcio: \u201cGrande bobagem, ser escritor. \u00c9 s\u00f3 botar uma palavra atr\u00e1s da outra\u201d. E uma roteirista, Lenore Coffee, respondeu: \u201cPerd\u00e3o, Mr. Thalberg: \u00e9 botar uma palavra certa atr\u00e1s da outra\u201d.<\/p>\n<p>Como diz Glauco Mattoso: todas as palavras da Il\u00edada e da Odiss\u00e9ia est\u00e3o no dicion\u00e1rio, s\u00f3 que est\u00e3o fora de ordem. \u201cTalento\u201d \u00e9 imaginar uma poss\u00edvel ordem para elas.<\/p>\n<p>Vejam s\u00f3, metalinguisticamente, o que \u00e9 a escrita. Eu comecei com uma est\u00e9tica eliminacionista, comparando a literatura \u00e0 escava\u00e7\u00e3o de um po\u00e7o. Por essa met\u00e1fora, a literatura seria algo que j\u00e1 existe (a \u00e1gua, no len\u00e7ol fre\u00e1tico) e o trabalho do escritor seria remover alguma esp\u00e9cie de entulho (a terra) at\u00e9 descobrir uma obra preexistente.<\/p>\n<p>A est\u00e9tica eliminacionista \u00e9 a que levava Michelangelo a descrever assim suas esculturas: \u201cEu olho para o bloco de m\u00e1rmore, vejo o Mois\u00e9s l\u00e1 dentro, e a\u00ed basta remover tudo que n\u00e3o \u00e9 o Mois\u00e9s\u201d.  Todos sabemos que o Mois\u00e9s n\u00e3o est\u00e1 l\u00e1 dentro, e que a remo\u00e7\u00e3o \u00e9 feita por aproxima\u00e7\u00f5es, agravadas pelo fato de n\u00e3o se poder errar. (Em escultura, o que \u00e9 tirado n\u00e3o pode ser botado de novo.) Seria \u00f3timo que o Mois\u00e9s interior fosse de m\u00e1rmore e o resto do bloco fosse de a\u00e7\u00facar cristalizado. Era s\u00f3 descascar! Mas n\u00e3o \u00e9 assim.<\/p>\n<p>Ora, est\u00e1 na cara que a literatura n\u00e3o \u00e9 feita assim. O texto n\u00e3o \u201cj\u00e1 existe\u201d e est\u00e1 oculto. Muito mais \u00fatil \u00e9 ver a escrita como essa busca das palavras, mas eu refinaria a defini\u00e7\u00e3o de Mrs. Coffee dizendo que n\u00e3o se trata apenas de palavras.<\/p>\n<p>A unidade b\u00e1sica da literatura n\u00e3o \u00e9 a palavra, \u00e9 a frase. Isto aqui, que aparece entre um ponto e outro. Cada vez que a gente digita \u201cponto, espa\u00e7o\u201d a gente volta \u00e0 estaca zero: \u00e9 preciso compor a pr\u00f3xima frase. Ela tem que se conectar \u00e0 que veio antes, e \u00e0 que vir\u00e1 depois. As frases se encadeiam como domin\u00f3s. Esse conectar muitas vezes \u00e9 uma quest\u00e3o de ruptura com o que foi dito antes, mas sempre uma ruptura que produza novo significado. Bigornas chovendo. \u00c9 assim que as id\u00e9ias nos tomam de assalto. Cada frase \u00e9 uma bigorna que cai em nossa cabe\u00e7a e precisa ser traduzida em palavras.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Br\u00e1ulio Tavares Existe uma coisa que est\u00e1 sendo procurada, e \u00e9 preciso um esfor\u00e7o de remo\u00e7\u00e3o de entulho at\u00e9 chegar a essa coisa. Digamos que estamos cavando um po\u00e7o. O que procuramos \u00e9 a \u00e1gua. 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