{"id":12332,"date":"2017-07-14T21:16:24","date_gmt":"2017-07-15T01:16:24","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=12332"},"modified":"2017-07-14T21:17:58","modified_gmt":"2017-07-15T01:17:58","slug":"abominavel-sociedade","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2017\/07\/14\/abominavel-sociedade\/","title":{"rendered":"Abomin\u00e1vel sociedade"},"content":{"rendered":"<p> <img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"12333\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2017\/07\/14\/abominavel-sociedade\/img_0968-2\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/IMG_0968.jpg?fit=259%2C194\" data-orig-size=\"259,194\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"IMG_0968\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/IMG_0968.jpg?fit=259%2C194\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/IMG_0968.jpg?fit=259%2C194\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/IMG_0968.jpg?resize=259%2C194\" alt=\"IMG_0968\" width=\"259\" height=\"194\" class=\"alignnone size-full wp-image-12333\" \/><\/p>\n<p>Por Fernando Horta<\/p>\n<p>Em junho de 2001, o Jornal Nacional veiculava uma s\u00e9rie de reportagens que viria a ser premiada. Marcelo Canellas e Lucio Alves apresentavam a \u201cFome no Brasil\u201d. O dado revelado era que uma crian\u00e7a morria de fome no Brasil a cada cinco minutos. <!--more--><\/p>\n<p>Em pleno \u201cmilagre neoliberal\u201d, como gostam de citar alguns intelectuais e pol\u00edticos de direita no Brasil, uma crian\u00e7a morria a cada cinco minutos no Brasil. Vou repetir, porque penso que o n\u00famero deveria ser usado em qualquer discuss\u00e3o sobre pol\u00edtica e economia de agora em diante. <\/p>\n<p>Ao come\u00e7ar a ouvir qualquer argumento dos defensores desta hipocrisia de direita, pare e escreva \u201cem 2001, aos sete anos do governo FHC, uma crian\u00e7a morria de fome a cada cinco minutos no Brasil\u201d. Repita ou escreva, n\u00e3o importa, mas sempre comece por esta informa\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>Em seguida, olhe a gin\u00e1stica ret\u00f3rica que o interlocutor far\u00e1 e avalie se ela se encontra no campo da ignor\u00e2ncia ou da m\u00e1cula moral insan\u00e1vel. Qualquer das duas op\u00e7\u00f5es, \u00e9 uma conversa que n\u00e3o vale \u00e0 pena.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se j\u00e1 mencionei, mas em 2001, uma crian\u00e7a morria de fome a cada cinco minutos no Brasil. O fato, chocante, inaceit\u00e1vel, inumano, \u00e9 irris\u00f3rio perto da pergunta de um pai, quando confrontado pelo jornalista se n\u00e3o havia como o seu filho \u201cganhar um pouco mais de peso\u201d. <\/p>\n<p>Ana Cl\u00e1udia dos Santos, a m\u00e3e, e Evangelista dos Santos, o pai, com a sabedoria de quem luta para sobreviver, respondem ao rep\u00f3rter \u201co que voc\u00ea acha que eu devia fazer?\u201d Este di\u00e1logo reflete o Brasil do neoliberalismo. O rep\u00f3rter, obviamente n\u00e3o sabia sobre o que perguntava e n\u00e3o conseguia compreender o que via e ouvia. Provavelmente foi dilacerado a cada entrevista, eis que humano. <\/p>\n<p>O pai entrevistado, sequer com tempo de tirar a enxada das costas para falar, desfere a pergunta fat\u00eddica que separava os brasis de forma t\u00e3o evidente. \u201cO que voc\u00ea acha que eu deveria fazer?\u201d para salvar a vida da minha filha que n\u00e3o tem o que comer &#8230;<\/p>\n<p>Eu me recordo de assistir esta reportagem e chorar, copiosamente. Eu n\u00e3o choro com hino, bandeira ou camiseta verde amarela. N\u00e3o choro por c\u00e2ntico religioso fervoroso. N\u00e3o choro por ver algu\u00e9m \u201catingir a meta\u201d de malhar todo dia e perder peso.<\/p>\n<p>N\u00e3o sou de reconhecer her\u00f3is em a\u00e7\u00f5es ordin\u00e1rias e totalmente comuns. Eu chorei como crian\u00e7a vendo aquela s\u00e9rie. O olhar de Evangelista para o rep\u00f3rter era a demonstra\u00e7\u00e3o de que nada, absolutamente nada naquele pa\u00eds, poderia estar dando certo.<\/p>\n<p>O que n\u00e3o consigo entender \u00e9 como Ana Cl\u00e1udia dos Santos, a m\u00e3e, e Evangelista dos Santos, o pai, se tornaram \u201cvagabundos que se aproveitam do Estado para n\u00e3o trabalhar\u201d. Ou ainda como a fome de sua filha poderia ser um reflexo \u201cda meritocracia\u201d que levaria \u2013 em um livre mercado \u2013 a sociedade brasileira a ser produtiva e rica. N\u00e3o entendo como Ana Cl\u00e1udia e Evangelista se tornaram o \u201cproblema das contas p\u00fablicas do Brasil\u201d, tendo contra si os dedos da classe m\u00e9dia (saciada) e da maioria dos que apertam bot\u00f5es no parlamento, e que hoje defendem o fim dos programas sociais, dos direitos do trabalho e a redu\u00e7\u00e3o de vencimentos para os mais pobres.<\/p>\n<p>Apenas uma sociedade doente, ignorante e hip\u00f3crita pode acreditar que Ana Cl\u00e1udia e Evangelista est\u00e3o sofrendo assim por que n\u00e3o se esfor\u00e7aram o suficiente. Apenas uma sociedade lun\u00e1tica, c\u00ednica e monstruosa pode se convencer de que eles sofrem desta forma por n\u00e3o terem f\u00e9 suficiente ou por n\u00e3o terem depositado algum valor numa conta em nome de algum deus.<\/p>\n<p>E eu n\u00e3o falei ainda da sua beb\u00ea, que padece da fome.<\/p>\n<p>Certamente quando ela crescer, depois de ter lutado para sobreviver, vai saber evitar as mazelas da sociedade. Vai se esfor\u00e7ar numa escola p\u00fablica de algum sert\u00e3o poeirento e seco e vai concorrer \u201cde igual para igual\u201d com algu\u00e9m que comeu na inf\u00e2ncia toda e que \u201cn\u00e3o aceita privil\u00e9gio\u201d de quem quer que seja.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o falei de voc\u00ea, que se \u201crevoltou\u201d com o conto das \u201cpedaladas\u201d e saiu a bater panelas vazias \u2013 de barriga cheia \u2013 querendo o \u201cseu pa\u00eds de volta\u201d. Pois a ONU informa que a fome voltou ao Brasil. <\/p>\n<p>O seu pa\u00eds, finalmente, voltou. E se voc\u00ea a ele reivindicar as cores verde e amarela, fique com elas. N\u00e3o me far\u00e3o falta as cores de um pa\u00eds em que uma crian\u00e7a morria a cada cinco minutos de fome. Um pa\u00eds hip\u00f3crita que n\u00e3o aceita vidra\u00e7a quebrada, mas nunca se importou com as muitas Anas Cl\u00e1udias e Evangelistas a enterrarem seus filhos em caixas de sapato, como \u201cquerubins sem pecado\u201d, no \u00fanico consolo poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Que bom que as cores nos diferem. Voc\u00ea fica com a hipocrisia em verde amarelo e eu procuro qualquer outra que d\u00ea guarida a um pa\u00eds sem fome. Quem nos olhar saber\u00e1 de pronto que n\u00e3o me misturo com quem prefere o cassetete \u00e0 cabe\u00e7a do estudante, quem prefere o privil\u00e9gio da gravata \u00e0 comida da crian\u00e7a, quem tem for\u00e7a f\u00edsica para bater em panela, mas padece de inani\u00e7\u00e3o  a cada cinco minutos de fome, no Brasil.<br \/>\nEste pa\u00eds voltou &#8230;<br \/>\nDe fome &#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Fernando Horta Em junho de 2001, o Jornal Nacional veiculava uma s\u00e9rie de reportagens que viria a ser premiada. 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