{"id":12576,"date":"2017-07-30T21:54:30","date_gmt":"2017-07-31T01:54:30","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=12576"},"modified":"2017-07-30T21:55:07","modified_gmt":"2017-07-31T01:55:07","slug":"cronica-do-tata-o-clube-imperial","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2017\/07\/30\/cronica-do-tata-o-clube-imperial\/","title":{"rendered":"Cr\u00f4nica do Tat\u00e1: O CLUBE IMPERIAL"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"12577\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2017\/07\/30\/cronica-do-tata-o-clube-imperial\/img_2706\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/IMG_2706.jpg?fit=517%2C284\" data-orig-size=\"517,284\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"IMG_2706\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/IMG_2706.jpg?fit=300%2C165\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/IMG_2706.jpg?fit=517%2C284\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/IMG_2706.jpg?resize=517%2C284\" alt=\"IMG_2706\" width=\"517\" height=\"284\" class=\"alignnone size-full wp-image-12577\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/IMG_2706.jpg?w=517 517w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/IMG_2706.jpg?resize=300%2C165 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 517px) 100vw, 517px\" \/><\/p>\n<p>Das noites de serestas, dos vesperais de carnaval, dos rom\u00e2nticos, bo\u00eamios e seresteiros, das paqueras e dos babados fortes<!--more--><\/p>\n<p>Por: Altair Santos (Tat\u00e1)<\/p>\n<p>Antes da metade dos anos 70, a esquina das ruas Jos\u00e9 de Alencar e Almirante Barroso exibia erigido e sombrio em cinza opaco, quase tez do umbral, um casar\u00e3o de madeira sobre palafitas num terreno sazonalmente seco e molhado, era o Clube Imperial. Sem pintura, com enormes janel\u00f5es quase sempre fechados, e de apar\u00eancia tristonha at\u00e9, quem viu e viveu sob a t\u00eanue luz do sal\u00e3o real da plebe portovelhense, bem sabe que aquela silenciosa quietude era s\u00f3 de dia porque \u00e0 noite, nos fins de semana e, a priori, na ebuli\u00e7\u00e3o do carnaval em pleno frenesi da quadra de momo, era exatamente ali que o c\u00e3o chupava manga!<\/p>\n<p>O propriet\u00e1rio do Imperial era o pacato senhor Geraldo Siqueira, o conhecido \u201cAlum\u00ednio,\u201d trabalhador da EFMM, pai da Olga (dona do Bar da Olga na Campos Sales) e tamb\u00e9m do Eliezer e do Silva, jogadores do Botafogo local e do ca\u00e7ula da fam\u00edlia o \u201cbem comportado\u201d Arlindo que colecionava os c\u00e2ndidos apelidos de \u201cs\u00f3cio\u201d e \u201cbem-te-vi.\u201d Aos s\u00e1bados de manh\u00e3 cedo, Seu Alum\u00ednio levava a reboque mais de dez garotos do Tri\u00e2ngulo que ao sabor de guaran\u00e1, bolacha e doce e recebendo alguns trocados, faziam a faxina do clube.<\/p>\n<p>Varrer, passar pano, encerar e polir as largas e espessas t\u00e1buas do assoalho, lustrar mesas com \u00f3leo de peroba e perfumar os banheiros com d\u00fazias de bolinhas de naftalina, era parte do ritual sagrado da lavagem do Imperial para deix\u00e1-lo nos trinques afinal, mais tarde, casais de not\u00edvagos l\u00e1 deslizariam perform\u00e1ticos em macios rodopios, fosse num bolero, valsa, foxtrot ou samba-can\u00e7\u00e3o at\u00e9 quase o sol nascer, isso se a paz reinasse intacta, o que nem sempre era poss\u00edvel.<\/p>\n<p>O Imperial era tido como a ant\u00edtese, o avesso da etiqueta social cuja grife ou padr\u00e3o refinado e luxuoso tinha representatividade no glamour do Bancr\u00e9vea Clube e outros de igual padr\u00e3o na regi\u00e3o nobre da cidade onde desfilava a classe m\u00e9dia alta local, \u00e0s vezes, plagiada no vestir, no falar e outros h\u00e1bitos copiados por emergentes enxeridos (os bic\u00f5es) que davam \u201cbaroas\u201d nos homens da portaria e, disfar\u00e7adamente, se infiltravam \u201cpra tirar onda\u201d no meio magnata.<\/p>\n<p>Talvez por sua instigante proposta de ser e existir, no Imperial se revezava um p\u00fablico heterog\u00eaneo, inclusive alguns quase infal\u00edveis \u201cbancreveanos\u201d tamb\u00e9m \u00e1vidos pelo inebriante e sedutor aroma da vida noturna. Para esses irrefre\u00e1veis do sereno o rel\u00f3gio, os ponteiros e as horas de nada importavam pois suas b\u00fassolas de orienta\u00e7\u00e3o eram o anoitecer e o amanhecer. No clube do Alum\u00ednio predominava a casta de baixa renda, apartada do formalismo e da exegese aristocr\u00e1tica. Esse p\u00fablico ali transitava feliz da vida, se divertia com a m\u00fasica, as paqueras, a dan\u00e7a, a bebida e at\u00e9 com os costumeiros sambas de pau que come\u00e7avam no sal\u00e3o e tinham desfechos na parte externa do clube, num charco que em dias de chuva ensopava os p\u00e9s das palafitas e deixava f\u00e9tido e lambuzado quem, por azar, no calor das pelejas, ali fosse atirado.<\/p>\n<p>Nas rodas de fofocas esses \u201csapecas iai\u00e1s\u201d eram resenha pra semana toda j\u00e1 que, ap\u00f3s o \u201cgrand finale,\u201d algu\u00e9m era gentil e elegantemente transportado na \u201cmanduquinha\u201d at\u00e9 a central de pol\u00edcia, isso quando n\u00e3o ia direto ao Hospital S\u00e3o Jos\u00e9 fazer reparos emergenciais, ou seja, lanternagem e pintura nas fu\u00e7as e outras partes da sofrida carca\u00e7a f\u00edsica, avariada pela surra.<\/p>\n<p>Nesses entreveros sobressa\u00eda o \u201cmacaco velho\u201d nas vestes e mat\u00e9ria do malandro experimentado quando, em vias de apuros, debulhava com maestria a sua \u201cexpertise\u201d de ex\u00edmio brigador de rua, h\u00e1bil e desenvolto em desferir pernadas e socos certeiros, al\u00e9m de esquivar-se com a leveza de um mestre-sala ante a contraofensiva dum oponente que se valia do recurso sempre surpreso e trai\u00e7oeiro do golpe de peixeira ou navalha. Essa proeza se dava sem o malandro, sequer, ter o linho amarrotado (os que usavam linho), ou mesmo deixar o cigarro lhe escapar o canto da boca ou empoeirar o bico fino do \u201cpasso double\u201d e seu brilho impec\u00e1vel, dado por engraxates do centro da capital.<\/p>\n<p>Quando \u201ca luz ia embora\u201d (blackout) em meio ao baile, era a senha para os rapazes afoitos \u201cacochar\u201d as meninas e proporem acordos que iam de pedidos de namoro aos enxerimentos mais ousados nas madrugadas. Certa noite, num baile rom\u00e2ntico, apareceu um \u201cabirobado\u201d que \u201cn\u00e3o comia nem morcego&#8230;\u201d Ele passou a metade da noite esperando a luz apagar rodando o sal\u00e3o s\u00f3 de olho, \u201cmancuricando\u201d uma mo\u00e7a da qual ficara \u201ca fim.\u201d <\/p>\n<p>Quando se fez a treva o leso de libido em alta investiu mas errou o pesco\u00e7o da mo\u00e7a e, carinhosamente, se atracou ao Geraldo Paquinha um \u201cmaluco beleza\u201d da \u00e9poca que, estava umas duas l\u00e9guas al\u00e9m de \u201clombrado\u201d e acabara de chegar das afamadas e misteriosas vielas do Mocambo. Resultado: mesmo acima das nuvens, em viagem interplanet\u00e1ria e apesar do breu ambiente, o Paquinha desceu o cepo no tarado da escurid\u00e3o, prostrando-o, em meio a gritos e faniquitos do povo assustado com o babado forte e omisso aos olhares.<\/p>\n<p>Assim que \u201ca luz voltou\u201d a v\u00edtima ainda estendida no ch\u00e3o fora identificada: era um inexperiente recruta do 5\u00ba BEC que provou do traquejo e manha do descolado \u201cmoleque atrevido, mais que bandido, criado no areal e coisa e tal,\u201d como melodiosamente professado no samba do poeta Dad\u00e1 (o amigo Ada\u00eddes Batista).<\/p>\n<p>T\u00e3o logo soube da sova no jovem soldado raso, um pelot\u00e3o que estava \u00e0 paisana zanzando pela Pra\u00e7a Rondon se deslocou at\u00e9 o Imperial decidida a, impiedosamente, destro\u00e7ar o Paquinha. Esperto e conhecedor da geografia, segredos e mist\u00e9rios da regi\u00e3o o agressor \u201cvazou\u201d indo entrincheirar-se sob a prote\u00e7\u00e3o das almas detr\u00e1s das sepulturas do Cemit\u00e9rio dos Inocentes, tendo \u00e0 m\u00e3o n\u00e3o um ter\u00e7o e um cotoco de vela, e sim, uma \u201cmeiota de cacha\u00e7a Janu\u00e1ria\u201d e uma manga verde colhida ali mesmo. Com o tempo l\u00e1 fora em densas nuvens, o Geraldo Paquinha pernoitou no Campo Santo recostado ao m\u00e1rmore da sepultura do dentista kaiser de Melo, ouvindo a orquestra tocar ao longe. Ali ele adormeceu e s\u00f3 saiu quando uma sentida fam\u00edlia em alaridos, bem cedo, chegou pra enterrar um ente querido.<\/p>\n<p>Nossas primeiras incurs\u00f5es ao Imperial, o pal\u00e1cio festivo, se deram quando o clube minguava seus eventos. Na \u00e9poca j\u00e1 hav\u00edamos sido aprovados com louvor, na arte de beber cerveja nos botecos do eixo Tri\u00e2ngulo-Mocambo-Areal. Ainda \u201cde menor,\u201d cont\u00e1vamos com o quebra-galho e vistas grossas dos porteiros que nos fraqueavam o acesso ao sal\u00e3o junto a outros rapazotes, como n\u00f3s, debutantes e curiosos da boemia alta patente j\u00e1 not\u00e1vel e transbordante nos ases da noite, dentre estes, Bainha, Cabeleira, Le\u00f4nidas O\u00b4Carol Chester, Eliezer Santos (o Bola Sete), Osires Lobo, C\u00e2mara Leme e outros mestres de t\u00e3o nobre arte.<\/p>\n<p>Eram doces e alegres os vesperais de carnaval, eram inesquec\u00edveis as dan\u00e7as de rosto colado e as paqueras, as noites de serestas guardavam o incr\u00edvel efeito da luz negra, novidade tecnol\u00f3gica que fazia o milagre de embelezar feios e afear bonitos e claro, era impag\u00e1vel assistir os bo\u00eamios incorrig\u00edveis e malandros de moral na professoral pr\u00e1tica da \u201cboemias operandi.\u201d<\/p>\n<p>O Imperial \u00e9 uma dentre as tantas poesias locais, cuja rima tem o tempero da portovelhice plural e miscigenada mas que aos poucos some aos olhos e \u00e0 lembran\u00e7a quando dobramos a esquina do futuro e deixamos para tr\u00e1s, solta e tr\u00eamula a m\u00e3o da hist\u00f3ria. Este legado \u00e9 part\u00edcula de um tem\u00e1rio e inspira\u00e7\u00e3o que vinha da franca movimenta\u00e7\u00e3o de um povo que vivia a cidade, seus valores e suas coisas, feliz do melhor jeito e maneira.<\/p>\n<p>No Imperial grandes cantores, ex\u00edmios e sens\u00edveis m\u00fasicos, desfilaram seus dons escrevendo no pentagrama do tempo e borrifando no v\u00e9u das noites o embriagante \u00e9ter musical de uma hist\u00f3ria que guarda mais, muito mais fragmentos desse ouro cultural a ser garimpado para a cena e registro memorial.<\/p>\n<p>tatadeportovelho@gmail.com<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Das noites de serestas, dos vesperais de carnaval, dos rom\u00e2nticos, bo\u00eamios e seresteiros, das paqueras e dos babados fortes<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-12576","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-3gQ","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12576","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12576"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12576\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12578,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12576\/revisions\/12578"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12576"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12576"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12576"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}