{"id":13210,"date":"2017-08-24T11:25:15","date_gmt":"2017-08-24T15:25:15","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=13210"},"modified":"2017-08-24T11:25:15","modified_gmt":"2017-08-24T15:25:15","slug":"o-que-ha-de-corrupcao-no-jeitinho-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2017\/08\/24\/o-que-ha-de-corrupcao-no-jeitinho-brasileiro\/","title":{"rendered":"O que h\u00e1 de corrup\u00e7\u00e3o no jeitinho brasileiro?"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"13211\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2017\/08\/24\/o-que-ha-de-corrupcao-no-jeitinho-brasileiro\/co\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/co.jpg?fit=600%2C338\" data-orig-size=\"600,338\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"co\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/co.jpg?fit=300%2C169\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/co.jpg?fit=600%2C338\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/co.jpg?resize=600%2C338\" alt=\"co\" width=\"600\" height=\"338\" class=\"alignnone size-full wp-image-13211\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/co.jpg?w=600 600w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/co.jpg?resize=300%2C169 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/co.jpg?resize=533%2C300 533w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p>No DCM &#8211; A crise fez muitos brasileiros questionarem o que h\u00e1 de corrup\u00e7\u00e3o em seu pr\u00f3prio dia a dia \u2013 se pol\u00edticos e empres\u00e1rios envolvidos em esc\u00e2ndalos estariam apenas repetindo, em maior escala, aquilo que j\u00e1 seria parte do cotidiano. Em discuss\u00e3o, o chamado \u201cjeitinho\u201d, termo amplo que pode ser entendido positiva ou negativamente, e que, para alguns, \u00e9 terreno f\u00e9rtil para a corrup\u00e7\u00e3o sist\u00eamica.<\/p>\n<p>Mas, para pesquisadores ouvidos pela DW Brasil, esta correla\u00e7\u00e3o precisa ser analisada com cautela, e \u00e9 dif\u00edcil determinar uma rela\u00e7\u00e3o de causa e efeito. Enquanto para uns o jeitinho pode estar intimamente ligado \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o em larga escala, outros contestam o termo at\u00e9 como algo exclusivamente brasileiro.<!--more--><\/p>\n<p>\u201cCentro da corrup\u00e7\u00e3o sist\u00eamica\u201d<\/p>\n<p>O historiador Sidney Chalhoub, da Universidade de Harvard, destaca a origem hist\u00f3rica do jeitinho, ligada \u00e0 forma\u00e7\u00e3o escravista da sociedade brasileira, numa \u00e9poca em que a \u00fanica maneira de se conseguir algo era pedindo favores aos senhores de terra e escravos. Essa pr\u00e1tica, em vez de desaparecer, perdurou e combinou-se com outras l\u00f3gicas.<\/p>\n<p>\u201cO jeitinho e o favor est\u00e3o no centro de como a corrup\u00e7\u00e3o se tornou sist\u00eamica no pa\u00eds\u201d, avalia Chalhoub. O historiador pondera, por\u00e9m, a exist\u00eancia de leis e regulamentos imposs\u00edveis de serem cumpridos no Brasil. Nestes casos, o jeitinho seria uma quest\u00e3o de sobreviv\u00eancia, por exemplo, para a grande parte da parcela da popula\u00e7\u00e3o que trabalha no mercado informal.<\/p>\n<p>\u201cPessoas em situa\u00e7\u00f5es de subordina\u00e7\u00e3o e depend\u00eancia n\u00e3o t\u00eam alternativa para lidar \u00e0s vezes com regras absurdas, por isso, tendo a reservar uma toler\u00e2ncia ao jeitinho para os oprimidos, que n\u00e3o criaram o sistema que os submete \u00e0 necessidade de sobreviver nessa condi\u00e7\u00e3o. Para empreiteiros, governos e ju\u00edzes, o jeitinho n\u00e3o tem desculpa\u201d, opina.<\/p>\n<p>\u201cDa simpatia a arranjos de contratos\u201d<\/p>\n<p>O antrop\u00f3logo Roberto DaMatta ressalta as in\u00fameras defini\u00e7\u00f5es do jeitinho, que podem ser percebidas de maneira positiva ou negativa, dependendo da situa\u00e7\u00e3o em que se inserem. \u201cEsse lado negativo pode, por\u00e9m, ser estendido tanto at\u00e9 se tornar corrup\u00e7\u00e3o\u201d, acrescenta o professor da PUC do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Por essa diversidade, Da Matta afirma que \u00e9 importante fazer uma distin\u00e7\u00e3o entre os in\u00fameros casos. \u201cO jeitinho tem um espectro que vai de uma simpatia humana, que se reconhece no outro e abre uma exce\u00e7\u00e3o para esse outro em virtude de uma emerg\u00eancia ou condi\u00e7\u00f5es de vida, a at\u00e9 arranjos de contratos especiais superfaturados de obras p\u00fablicas concedidos para amigos e parentes, com objetivo de dividir lucros, o que \u00e9 corrup\u00e7\u00e3o\u201d, diz.<\/p>\n<p>Para DaMatta, o grande problema \u00e9 a aplica\u00e7\u00e3o jeitinho em situa\u00e7\u00f5es e projetos que deveriam ser abordados com impessoalidade. \u201cA corrup\u00e7\u00e3o ocorre quando a \u00e9tica da fam\u00edlia e das rela\u00e7\u00f5es pessoais, visando obviamente o lucro de ambos, interfere em cargos que n\u00e3o deveriam ser dados por meio de simpatias, mas sim por m\u00e9rito e compet\u00eancia\u201d, acrescenta.<\/p>\n<p>\u201cPresente em qualquer lugar\u201d<\/p>\n<p>J\u00e1 o soci\u00f3logo S\u00e9rgio Costa contesta o jeitinho como caracter\u00edstica pr\u00f3pria da sociedade brasileira. Para o pesquisador do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Universidade Livre de Berlim, a interpreta\u00e7\u00e3o e negocia\u00e7\u00e3o de normas existentes ocorre em qualquer sociedade moderna, inclusive na Alemanha.<\/p>\n<p>\u201cAs normas \u2013 sejam aquelas inscritas nos c\u00f3digos sociais, sejam as definidas no corpo legal vigente \u2013 servem de orienta\u00e7\u00e3o geral, mas s\u00f3 ganham concretude e efetividade quando s\u00e3o interpretadas e negociadas nas rela\u00e7\u00f5es concretas\u201d, argumenta.<\/p>\n<p>Costa ressalta que a corrup\u00e7\u00e3o \u00e9 diferente do jeitinho ao visar troca de vantagens e facilidades para a obten\u00e7\u00e3o de benef\u00edcios pr\u00f3prios. Se por um lado a negocia\u00e7\u00e3o de normas fortalece a coes\u00e3o e solidariedade, avalia, a corrup\u00e7\u00e3o \u00e9 nociva aos la\u00e7os sociais por representar uma quebra de confian\u00e7a.<br \/>\n\u201cN\u00e3o me parece que o jeitinho seja o pai da corrup\u00e7\u00e3o sist\u00eamica. Enquanto o primeiro faz parte das rela\u00e7\u00f5es interpessoais cotidianas e torna as normas algo experenciado e vivido, a corrup\u00e7\u00e3o tem lugar na interface entre pol\u00edtica e economia e visa n\u00e3o negociar, mas violar as normas para distribuir recursos p\u00fablicos, indevidamente, a atores privados\u201d, conclui Costa.<\/p>\n<p>\u201cCorrela\u00e7\u00e3o superficial e nociva\u201d<\/p>\n<p>O pesquisador Mads Damgaard, da Universidade de Copenhagen, tamb\u00e9m rejeita a rela\u00e7\u00e3o entre jeitinho e corrup\u00e7\u00e3o. \u201cEssa conex\u00e3o \u00e9 superficial e nociva, pois projeta uma imagem ou uma identidade de uma na\u00e7\u00e3o perpetuamente atolada na pol\u00edtica de coron\u00e9is e no nepotismo. Essa percep\u00e7\u00e3o reprime mudan\u00e7as sociais, induz a apatia e justifica casos de corrup\u00e7\u00e3o sist\u00eamica e individual ao propor uma explica\u00e7\u00e3o cultural falha\u201d, opina.<\/p>\n<p>O especialista em estudos interculturais argumenta que o jeitinho categoriza v\u00e1rias situa\u00e7\u00f5es diferentes, como flexibilidade de interpreta\u00e7\u00e3o de normas sociais, transgress\u00e3o de regras ou ainda a troca de favores pessoais e, por isso, n\u00e3o est\u00e1 convencido da utilidade de rotular a\u00e7\u00f5es com esse estere\u00f3tipo, como percebe o termo.<\/p>\n<p>\u201cEstere\u00f3tipos t\u00eam poderes enormes. No caso do jeitinho, ele funciona como desculpa, explica\u00e7\u00e3o e exce\u00e7\u00e3o, tudo ao mesmo tempo. Na minha opini\u00e3o, quest\u00f5es de rede, la\u00e7os fortes ou fracos, burocracia e discurso moral se confundem e se tornam confusas com essa rotulagem\u201d, acrescenta Damgaard.<br \/>\n\u201cPode estimular criatividade\u201d<\/p>\n<p>Para Bruno Brand\u00e3o, da ONG Transpar\u00eancia Internacional, o jeitinho, ao mesmo tempo que abre espa\u00e7o para atos de corrup\u00e7\u00e3o e a sua toler\u00e2ncia, \u00e9 tamb\u00e9m uma maneira que pessoas encontram para sobreviver e superar obst\u00e1culos impostos por leis e institui\u00e7\u00f5es complexas e disfuncionais. Neste contexto, afirma, pode ser um elemento que estimula a criatividade.<\/p>\n<p>O representante no Brasil da ONG especializada no combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o ressalta, no entanto, que \u00e9 importante refletir sobre a rela\u00e7\u00e3o entre jeitinho e corrup\u00e7\u00e3o, mas esse comportamento n\u00e3o deve ser resumido ao ato ilegal. O debate \u00e9 fundamental para promover mudan\u00e7as de pr\u00e1ticas que abrem espa\u00e7o para a corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 preciso melhorar as nossas institui\u00e7\u00f5es para que elas imponham menos desafios e favore\u00e7am um sistema de ordem, paz social e certezas, ao inv\u00e9s de incertezas, para que o cidad\u00e3<\/p>\n<p>Texto originalmente publicado no DW.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No DCM &#8211; A crise fez muitos brasileiros questionarem o que h\u00e1 de corrup\u00e7\u00e3o em seu pr\u00f3prio dia a dia \u2013 se pol\u00edticos e empres\u00e1rios envolvidos em esc\u00e2ndalos estariam apenas repetindo, em maior escala, aquilo que j\u00e1 seria parte do cotidiano. 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