{"id":13351,"date":"2017-08-31T12:30:50","date_gmt":"2017-08-31T16:30:50","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=13351"},"modified":"2017-08-31T12:30:50","modified_gmt":"2017-08-31T16:30:50","slug":"a-democracia-e-de-fato-uma-ilha-do-arquipelago-do-despotismo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2017\/08\/31\/a-democracia-e-de-fato-uma-ilha-do-arquipelago-do-despotismo\/","title":{"rendered":"&#8220;A democracia \u00e9 de fato uma ilha do arquip\u00e9lago do despotismo&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"13352\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2017\/08\/31\/a-democracia-e-de-fato-uma-ilha-do-arquipelago-do-despotismo\/img_4248\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/IMG_4248.jpg?fit=760%2C425\" data-orig-size=\"760,425\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"IMG_4248\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/IMG_4248.jpg?fit=300%2C168\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/IMG_4248.jpg?fit=600%2C336\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/IMG_4248.jpg?resize=600%2C336\" alt=\"IMG_4248\" width=\"600\" height=\"336\" class=\"alignnone size-full wp-image-13352\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/IMG_4248.jpg?w=760 760w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/IMG_4248.jpg?resize=300%2C168 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/IMG_4248.jpg?resize=536%2C300 536w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p>Na P\u00e1guna B &#8211; O soci\u00f3logo portugu\u00eas Boaventura de Sousa Santos, que estuda o Brasil, a democracia e as esquerdas, afirma que \u00e9 preciso inventar um novo partido pol\u00edtico<!--more--><\/p>\n<p>Refer\u00eancia mundial no campo da ci\u00eancia social, o premiado pensador Boaventura de Sousa Santos esteve no Brasil para lan\u00e7ar seu novo livro A dif\u00edcil democracia (Boitempo Editorial). Em uma an\u00e1lise primorosa da situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica atual, Boaventura discute o que chama de \u201cdemocracia de baixa intensidade\u201d, reflete sobre as causas das crises que envolvem pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, Europa e \u00c1frica e, principalmente, alerta para a urgente necessidade de \u2018reinventar as esquerdas\u2019, subt\u00edtulo da obra. O soci\u00f3logo chama a aten\u00e7\u00e3o para as consequ\u00eancias pol\u00edticas, econ\u00f4micas e sociais depois de per\u00edodos em que o poder esteve com as esquerdas. Alerta para a amea\u00e7a fascista aberta sob a bandeira do combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o, que se imp\u00f5e como prote\u00e7\u00e3o \u00e0 democracia.<\/p>\n<p>\u201cA frustra\u00e7\u00e3o pode plasmar-se numa op\u00e7\u00e3o pol\u00edtica pelo fascismo, sobretudo se a frustra\u00e7\u00e3o for vivida muito intensamente, se for acirrada pela m\u00eddia reacion\u00e1ria, se houver \u00e0 m\u00e3o bodes expiat\u00f3rios, estrangeiros ou estratos sociais historicamente v\u00edtimas de racismo e sexismo\u201d, escreve. Para ele, o crescimento de movimentos fascistas \u201c\u00e9 funcional aos governos de direita reacion\u00e1ria na medida em que lhe permite legitimar mais autoritarismo e mais cortes nos direitos sociais e econ\u00f4micos, mais criminaliza\u00e7\u00e3o no protesto social em nome da defesa da democracia.\u201d<\/p>\n<p>Autor reconhecido e premiado no mundo todo, Boaventura escreve sobre sociologia do direito, sociologia pol\u00edtica, epistemologia e estudos p\u00f3s-coloniais, movimentos sociais, globaliza\u00e7\u00e3o, democracia participativa, reforma do Estado e direitos humanos, al\u00e9m de fazer trabalho de campo em Portugal, no Brasil, na Col\u00f4mbia, em Mo\u00e7ambique, em Angola, em Cabo Verde, na Bol\u00edvia e no Equador. Entre seus livros mais importantes est\u00e3o Um discurso sobre as ci\u00eancias (1988), Pela m\u00e3o de Alice: o social e o pol\u00edtico na p\u00f3s-modernidade (1994), Reinventar a democracia (1998), Democracia e participa\u00e7\u00e3o: o caso do or\u00e7amento participativode Porto Alegre (2002), Se Deus fosse um ativista dos direitos humanos (2013), A cor do tempo quando foge: uma hist\u00f3ria do presente \u2013 cr\u00f4nicas 1986-2013 (2014), O direito dos oprimidos (2014) e A justi\u00e7a popular em Cabo Verde (2015).<\/p>\n<p>Boaventura recebeu a reportagem para uma conversa sobre Brasil, colonialismo, esquerdas e democracia. \u201cO capitalismo nunca atua sozinho. Ele atua com o colonialismo e atua com o patriarcado, isto \u00e9, com o racismo e com a viol\u00eancia contra as mulheres. N\u00e3o \u00e9 uma forma de domina\u00e7\u00e3o que seja capaz de conviver exclusivamente com o trabalho assalariado. Tem que desqualificar seres humanos, sejam os trabalhadores, sejam os jovens negros, as mulheres negras, as mulheres em geral, e portanto o colonialismo n\u00e3o acabou. N\u00f3s vivemos em sociedades coloniais com imagin\u00e1rios p\u00f3s coloniais.\u201d<\/p>\n<p>Sobre o Brasil, Boaventura afirma: \u201cO Pa\u00eds estar\u00e1 em um impasse durante um tempo. O neoliberalismo \u00e9 uma farsa e est\u00e1 sendo implementado aqui exatamente como farsa, at\u00e9 que as for\u00e7as populares de esquerda se d\u00eaem conta que \u00e9 poss\u00edvel uma alternativa pol\u00edtica. Os partidos de esquerda, em nenhuma condi\u00e7\u00e3o, se devem aliar a partidos de direita. A esquerda tem que se aliar com a esquerda. Se n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel uma alian\u00e7a com outros partidos de esquerda, mantenha-se na oposi\u00e7\u00e3o at\u00e9 que essas condi\u00e7\u00f5es sejam criadas. N\u00e3o podemos governar na base de concilia\u00e7\u00e3o com grupos de direita que no momento oportuno nos largam, como aconteceu com o PMDB e com o PSDB, n\u00e3o sejamos ing\u00eanuos.\u201d<\/p>\n<p>Ele diz que a sa\u00edda pode estar em um novo partido de esquerda, que esteja baseado mais nos movimentos sociais e menos nos interesses partid\u00e1rios. \u201cO presidente Lula \u00e9 um fator muito importante. Se ele voltar \u00e0 presid\u00eancia, n\u00e3o vai poder governar como governou. Se ele n\u00e3o voltar a ser presidente, o mito estar\u00e1 intacto. A aceita\u00e7\u00e3o que ele continua a ter \u00e9 absolutamente not\u00e1vel e todos os cientistas pol\u00edticos deveriam estudar no mundo. Lula foi uma parte muito importante do passado, vai ser uma parte importante do futuro. Mas \u00e9 preciso que digamos publicamente que temos consci\u00eancia para pressionar eventualmente um presidente Lula ou um candidato Lula a atenuar um pouco a ideia da concilia\u00e7\u00e3o e a unir-se mais ao movimento popular. N\u00f3s n\u00e3o vamos estar numa d\u00e9cada de Lula paz e amor. N\u00e3o h\u00e1 condi\u00e7\u00f5es para isso.\u201d<\/p>\n<p>&#8220;A democracia \u00e9 de fato uma ilha do arquip\u00e9lago do despotismo&#8221;<br \/>\nO soci\u00f3logo portugu\u00eas Boaventura de Sousa Santos, que estuda o Brasil, a democracia e as esquerdas, afirma que \u00e9 preciso inventar um novo partido pol\u00edtico<br \/>\nMARIA CAROLINA TREVISAN Publicado em: 03\/07\/2017 &#8211; 14:30Alterado em: 30\/08\/2017 &#8211; 18:42<\/p>\n<p>O soci\u00f3logo Boaventura de Sousa Santos recebeu a reportagem para um ch\u00e1 em S\u00e3o Paulo \u2013 Foto: Maria Carolina Trevisan<br \/>\nRefer\u00eancia mundial no campo da ci\u00eancia social, o premiado pensador Boaventura de Sousa Santos esteve no Brasil para lan\u00e7ar seu novo livro A dif\u00edcil democracia (Boitempo Editorial). Em uma an\u00e1lise primorosa da situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica atual, Boaventura discute o que chama de \u201cdemocracia de baixa intensidade\u201d, reflete sobre as causas das crises que envolvem pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, Europa e \u00c1frica e, principalmente, alerta para a urgente necessidade de \u2018reinventar as esquerdas\u2019, subt\u00edtulo da obra. O soci\u00f3logo chama a aten\u00e7\u00e3o para as consequ\u00eancias pol\u00edticas, econ\u00f4micas e sociais depois de per\u00edodos em que o poder esteve com as esquerdas. Alerta para a amea\u00e7a fascista aberta sob a bandeira do combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o, que se imp\u00f5e como prote\u00e7\u00e3o \u00e0 democracia.<\/p>\n<p>\u201cA frustra\u00e7\u00e3o pode plasmar-se numa op\u00e7\u00e3o pol\u00edtica pelo fascismo, sobretudo se a frustra\u00e7\u00e3o for vivida muito intensamente, se for acirrada pela m\u00eddia reacion\u00e1ria, se houver \u00e0 m\u00e3o bodes expiat\u00f3rios, estrangeiros ou estratos sociais historicamente v\u00edtimas de racismo e sexismo\u201d, escreve. Para ele, o crescimento de movimentos fascistas \u201c\u00e9 funcional aos governos de direita reacion\u00e1ria na medida em que lhe permite legitimar mais autoritarismo e mais cortes nos direitos sociais e econ\u00f4micos, mais criminaliza\u00e7\u00e3o no protesto social em nome da defesa da democracia.\u201d<\/p>\n<p>Autor reconhecido e premiado no mundo todo, Boaventura escreve sobre sociologia do direito, sociologia pol\u00edtica, epistemologia e estudos p\u00f3s-coloniais, movimentos sociais, globaliza\u00e7\u00e3o, democracia participativa, reforma do Estado e direitos humanos, al\u00e9m de fazer trabalho de campo em Portugal, no Brasil, na Col\u00f4mbia, em Mo\u00e7ambique, em Angola, em Cabo Verde, na Bol\u00edvia e no Equador. Entre seus livros mais importantes est\u00e3o Um discurso sobre as ci\u00eancias (1988), Pela m\u00e3o de Alice: o social e o pol\u00edtico na p\u00f3s-modernidade (1994), Reinventar a democracia (1998), Democracia e participa\u00e7\u00e3o: o caso do or\u00e7amento participativode Porto Alegre (2002), Se Deus fosse um ativista dos direitos humanos (2013), A cor do tempo quando foge: uma hist\u00f3ria do presente \u2013 cr\u00f4nicas 1986-2013 (2014), O direito dos oprimidos (2014) e A justi\u00e7a popular em Cabo Verde (2015).<\/p>\n<p>Boaventura recebeu a reportagem para uma conversa sobre Brasil, colonialismo, esquerdas e democracia. \u201cO capitalismo nunca atua sozinho. Ele atua com o colonialismo e atua com o patriarcado, isto \u00e9, com o racismo e com a viol\u00eancia contra as mulheres. N\u00e3o \u00e9 uma forma de domina\u00e7\u00e3o que seja capaz de conviver exclusivamente com o trabalho assalariado. Tem que desqualificar seres humanos, sejam os trabalhadores, sejam os jovens negros, as mulheres negras, as mulheres em geral, e portanto o colonialismo n\u00e3o acabou. N\u00f3s vivemos em sociedades coloniais com imagin\u00e1rios p\u00f3s coloniais.\u201d<\/p>\n<p>Sobre o Brasil, Boaventura afirma: \u201cO Pa\u00eds estar\u00e1 em um impasse durante um tempo. O neoliberalismo \u00e9 uma farsa e est\u00e1 sendo implementado aqui exatamente como farsa, at\u00e9 que as for\u00e7as populares de esquerda se d\u00eaem conta que \u00e9 poss\u00edvel uma alternativa pol\u00edtica. Os partidos de esquerda, em nenhuma condi\u00e7\u00e3o, se devem aliar a partidos de direita. A esquerda tem que se aliar com a esquerda. Se n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel uma alian\u00e7a com outros partidos de esquerda, mantenha-se na oposi\u00e7\u00e3o at\u00e9 que essas condi\u00e7\u00f5es sejam criadas. N\u00e3o podemos governar na base de concilia\u00e7\u00e3o com grupos de direita que no momento oportuno nos largam, como aconteceu com o PMDB e com o PSDB, n\u00e3o sejamos ing\u00eanuos.\u201d<\/p>\n<p>Ele diz que a sa\u00edda pode estar em um novo partido de esquerda, que esteja baseado mais nos movimentos sociais e menos nos interesses partid\u00e1rios. \u201cO presidente Lula \u00e9 um fator muito importante. Se ele voltar \u00e0 presid\u00eancia, n\u00e3o vai poder governar como governou. Se ele n\u00e3o voltar a ser presidente, o mito estar\u00e1 intacto. A aceita\u00e7\u00e3o que ele continua a ter \u00e9 absolutamente not\u00e1vel e todos os cientistas pol\u00edticos deveriam estudar no mundo. Lula foi uma parte muito importante do passado, vai ser uma parte importante do futuro. Mas \u00e9 preciso que digamos publicamente que temos consci\u00eancia para pressionar eventualmente um presidente Lula ou um candidato Lula a atenuar um pouco a ideia da concilia\u00e7\u00e3o e a unir-se mais ao movimento popular. N\u00f3s n\u00e3o vamos estar numa d\u00e9cada de Lula paz e amor. N\u00e3o h\u00e1 condi\u00e7\u00f5es para isso.\u201d<\/p>\n<p>Leia, a seguir, a conversa completa com o soci\u00f3logo e professor portugu\u00eas:<\/p>\n<p>Brasileiros: Em seu livro mais recente, \u201cA dif\u00edcil democracia\u201d, tem a seguinte afirma\u00e7\u00e3o: \u201cvivemos em sociedades politicamente democr\u00e1ticas mas socialmente fascistas\u201d. O que o senhor quis dizer?<\/p>\n<p>Boaventura de Sousa Santos: \u00c9 uma frase que procura mostrar que as democracias realmente existentes s\u00e3o parcialmente falsas, s\u00e3o truncadas. N\u00e3o t\u00eam nada a ver com o ideal democr\u00e1tico de soberania popular e de livre a\u00e7\u00e3o dos cidad\u00e3os, que se sentem espiados nos seus representantes e, portanto, entre representados e representantes a dist\u00e2ncia ser\u00e1 m\u00ednima. Pelo contr\u00e1rio, as dist\u00e2ncias hoje s\u00e3o m\u00e1ximas em muitas sociedades ditas democr\u00e1ticas. <\/p>\n<p>Por outro lado, a democracia \u00e9 um ideal de livre a\u00e7\u00e3o e de soberania, que n\u00e3o tem que estar confinado ao sistema pol\u00edtico. Acontece que a democracia liberal foi sempre desenhada para poder aplicar exclusivamente ao sistema pol\u00edtico, e portanto n\u00e3o poder estender-se \u00e0 fam\u00edlia, \u00e0s rela\u00e7\u00f5es sociais, \u00e0s empresas, \u00e0s ruas, \u00e0s comunidades, ao espa\u00e7o p\u00fablico, \u00e0s universidades, etc. <\/p>\n<p>A democracia \u00e9 de fato uma ilha democr\u00e1tica no arquip\u00e9lago do despotismo. Despotismo na fam\u00edlia, na escola, na f\u00e1brica, na empresa, na rua, tanta viol\u00eancia, tanta forma de brutalidade no sistema mundial<\/p>\n<p>Exatamente quando a democracia n\u00e3o atua, precisamente porque grande parte das rela\u00e7\u00f5es sociais est\u00e3o fora do controle democr\u00e1tico e s\u00e3o geridas por vontades at\u00e9 democr\u00e1ticas e mais fr\u00e1geis nessas \u00e1reas sociais (seja na fam\u00edlia, na empresa, na rua), s\u00e3o sujeitas a uma situa\u00e7\u00e3o em que suas aspira\u00e7\u00f5es de vida est\u00e3o ref\u00e9ns de um direito de veto do mais poderoso. Os grupos sociais que est\u00e3o sujeitos a um direito de veto dos mais poderosos, como o jovem negro que vai na rua e \u00e9 abordado pela pol\u00edcia, pede-lhe uma identifica\u00e7\u00e3o sem qualquer motivo, apenas pela sua cor de pele. Ele est\u00e1 a ser sujeito a uma forma de fascismo social. Por que \u00e9 fascismo social? N\u00e3o \u00e9 fascismo pol\u00edtico porque esse foi um sistema pol\u00edtico que se op\u00f4s \u00e0 democracia. Este convive com a democracia em todas as \u00e1reas onde a conviv\u00eancia das rela\u00e7\u00f5es sociais n\u00e3o s\u00e3o democr\u00e1ticas. Infelizmente, grande parte das nossas sociedades e grande parte da nossa popula\u00e7\u00e3o, n\u00e3o vive rela\u00e7\u00f5es sociais democr\u00e1ticas em que h\u00e1 um equil\u00edbrio de poder. Vive por vezes em situa\u00e7\u00f5es de poder desp\u00f3tico, ou seja, vivem situa\u00e7\u00f5es de fascismo social. Essa coexist\u00eancia \u00e9 que est\u00e1 presente. <\/p>\n<p>PB! &#8211; Ent\u00e3o nos pa\u00edses em que h\u00e1 maior desigualdade a democracia \u00e9 mais fr\u00e1gil e mais sujeita ao fascismo social?<\/p>\n<p>BSS &#8211; Muito mais fr\u00e1gil. E pode ser um instrumento para aumentar essa fragilidade. Por que o neoliberalismo vem, desde os anos 1980, a tentar destruir os direitos sociais dos trabalhadores, tem vindo a tentar destruir o poder que o Estado tinha na distribui\u00e7\u00e3o social? Ao mesmo tempo se mostra muito adepto da democracia e a democracia hoje \u00e9 de fato, numa das suas vers\u00f5es, caracter\u00edstica do nosso tempo, a democracia \u00e9 um instrumento de imperialismo. Destr\u00f3i a L\u00edbia para impor a democracia, destroi-se o Iraque para impor a democracia, destroi-se a S\u00edria para impor a democracia, destroi-se o Afeganist\u00e3o para impor a democracia. <\/p>\n<p>A democracia que eu chamo de \u2018baixa intensidade\u2019 transformou-se num instrumento do imperialismo. <\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 essa a democracia pela qual lutamos e isso \u00e9 exatamente a caracter\u00edstica do nosso tempo: s\u00e3o diferentes conceitos de democracia que dividem os campos democr\u00e1ticos, digamos assim. N\u00f3s precisamos saber de que lado estamos<\/p>\n<p>O campo democr\u00e1tico o qual me identifico, que \u00e9 uma luta da radicaliza\u00e7\u00e3o da democracia, da amplia\u00e7\u00e3o do campo democr\u00e1tico, a \u2018democracia de alta intensidade\u2019 \u00e9 que efetivamente luta contra as formas de fascismo social na nossa sociedade, portanto procura ampliar o campo de livre a\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, para que o arquip\u00e9lago do despotismo seja mais pequeno, gradualmente mais pequeno, e idealmente n\u00e3o exista. <\/p>\n<p>PB! &#8211; Trazendo para a nossa realidade no Brasil, fica cada vez mais evidente que quem manda na nossa democracia \u00e9 o capital. Como o senhor v\u00ea essa situa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que o capitalismo nunca atua sozinho. Ele atua com o colonialismo e com o patriarcado, isto \u00e9, com o racismo e com a viol\u00eancia contra as mulheres. O capitalismo n\u00e3o \u00e9 uma forma de domina\u00e7\u00e3o que seja capaz de conviver exclusivamente com o trabalho assalariado, ele tem que desqualificar seres humanos, sejam os trabalhadores, sejam os jovens negros, as mulheres negras, as mulheres em geral, e portanto o colonialismo n\u00e3o acabou. \u00c9 um dos pontos do meu trabalho hoje: ao contr\u00e1rio do que a gente pensa, n\u00f3s vivemos em sociedades coloniais com imagin\u00e1rios p\u00f3s-coloniais. <\/p>\n<p>O colonialismo n\u00e3o tem que ser apenas ocupa\u00e7\u00e3o territorial estrangeira, como aconteceu historicamente. Pode assumir outras formas: colonialismo interno na forma de xenofobia, de racismo, de isl\u00e3mofobia.<\/p>\n<p>O capitalismo no s\u00e9culo XVI n\u00e3o tem nada a ver com o capitalismo do s\u00e9culo XXI. Mas a gente continua a falar do capitalismo do s\u00e9culo XVI e no capitalismo do s\u00e9culo XXI. Eu fa\u00e7o o mesmo com o colonialismo: o hist\u00f3rico, de ocupa\u00e7\u00e3o territorial, era uma forma. Temos que analisar as outras formas de colonialismo, porque h\u00e1 muita gente que vive na nossa sociedade sob o dom\u00ednio das revolu\u00e7\u00f5es coloniais, a casa grande e a senzala. E portanto, isso em sociedades sobretudo que foram colonizadas historicamente, continua sob outras formas.<\/p>\n<p>&#8220;A democracia \u00e9 de fato uma ilha do arquip\u00e9lago do despotismo&#8221;<br \/>\nO soci\u00f3logo portugu\u00eas Boaventura de Sousa Santos, que estuda o Brasil, a democracia e as esquerdas, afirma que \u00e9 preciso inventar um novo partido pol\u00edtico<br \/>\nMARIA CAROLINA TREVISAN Publicado em: 03\/07\/2017 &#8211; 14:30Alterado em: 30\/08\/2017 &#8211; 18:42<\/p>\n<p>O soci\u00f3logo Boaventura de Sousa Santos recebeu a reportagem para um ch\u00e1 em S\u00e3o Paulo \u2013 Foto: Maria Carolina Trevisan<br \/>\nRefer\u00eancia mundial no campo da ci\u00eancia social, o premiado pensador Boaventura de Sousa Santos esteve no Brasil para lan\u00e7ar seu novo livro A dif\u00edcil democracia (Boitempo Editorial). Em uma an\u00e1lise primorosa da situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica atual, Boaventura discute o que chama de \u201cdemocracia de baixa intensidade\u201d, reflete sobre as causas das crises que envolvem pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, Europa e \u00c1frica e, principalmente, alerta para a urgente necessidade de \u2018reinventar as esquerdas\u2019, subt\u00edtulo da obra. O soci\u00f3logo chama a aten\u00e7\u00e3o para as consequ\u00eancias pol\u00edticas, econ\u00f4micas e sociais depois de per\u00edodos em que o poder esteve com as esquerdas. Alerta para a amea\u00e7a fascista aberta sob a bandeira do combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o, que se imp\u00f5e como prote\u00e7\u00e3o \u00e0 democracia.<\/p>\n<p>\u201cA frustra\u00e7\u00e3o pode plasmar-se numa op\u00e7\u00e3o pol\u00edtica pelo fascismo, sobretudo se a frustra\u00e7\u00e3o for vivida muito intensamente, se for acirrada pela m\u00eddia reacion\u00e1ria, se houver \u00e0 m\u00e3o bodes expiat\u00f3rios, estrangeiros ou estratos sociais historicamente v\u00edtimas de racismo e sexismo\u201d, escreve. Para ele, o crescimento de movimentos fascistas \u201c\u00e9 funcional aos governos de direita reacion\u00e1ria na medida em que lhe permite legitimar mais autoritarismo e mais cortes nos direitos sociais e econ\u00f4micos, mais criminaliza\u00e7\u00e3o no protesto social em nome da defesa da democracia.\u201d<\/p>\n<p>Autor reconhecido e premiado no mundo todo, Boaventura escreve sobre sociologia do direito, sociologia pol\u00edtica, epistemologia e estudos p\u00f3s-coloniais, movimentos sociais, globaliza\u00e7\u00e3o, democracia participativa, reforma do Estado e direitos humanos, al\u00e9m de fazer trabalho de campo em Portugal, no Brasil, na Col\u00f4mbia, em Mo\u00e7ambique, em Angola, em Cabo Verde, na Bol\u00edvia e no Equador. Entre seus livros mais importantes est\u00e3o Um discurso sobre as ci\u00eancias (1988), Pela m\u00e3o de Alice: o social e o pol\u00edtico na p\u00f3s-modernidade (1994), Reinventar a democracia (1998), Democracia e participa\u00e7\u00e3o: o caso do or\u00e7amento participativode Porto Alegre (2002), Se Deus fosse um ativista dos direitos humanos (2013), A cor do tempo quando foge: uma hist\u00f3ria do presente \u2013 cr\u00f4nicas 1986-2013 (2014), O direito dos oprimidos (2014) e A justi\u00e7a popular em Cabo Verde (2015).<\/p>\n<p>Boaventura recebeu a reportagem para uma conversa sobre Brasil, colonialismo, esquerdas e democracia. \u201cO capitalismo nunca atua sozinho. Ele atua com o colonialismo e atua com o patriarcado, isto \u00e9, com o racismo e com a viol\u00eancia contra as mulheres. N\u00e3o \u00e9 uma forma de domina\u00e7\u00e3o que seja capaz de conviver exclusivamente com o trabalho assalariado. Tem que desqualificar seres humanos, sejam os trabalhadores, sejam os jovens negros, as mulheres negras, as mulheres em geral, e portanto o colonialismo n\u00e3o acabou. N\u00f3s vivemos em sociedades coloniais com imagin\u00e1rios p\u00f3s coloniais.\u201d<\/p>\n<p>Sobre o Brasil, Boaventura afirma: \u201cO Pa\u00eds estar\u00e1 em um impasse durante um tempo. O neoliberalismo \u00e9 uma farsa e est\u00e1 sendo implementado aqui exatamente como farsa, at\u00e9 que as for\u00e7as populares de esquerda se d\u00eaem conta que \u00e9 poss\u00edvel uma alternativa pol\u00edtica. Os partidos de esquerda, em nenhuma condi\u00e7\u00e3o, se devem aliar a partidos de direita. A esquerda tem que se aliar com a esquerda. Se n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel uma alian\u00e7a com outros partidos de esquerda, mantenha-se na oposi\u00e7\u00e3o at\u00e9 que essas condi\u00e7\u00f5es sejam criadas. N\u00e3o podemos governar na base de concilia\u00e7\u00e3o com grupos de direita que no momento oportuno nos largam, como aconteceu com o PMDB e com o PSDB, n\u00e3o sejamos ing\u00eanuos.\u201d<\/p>\n<p>Ele diz que a sa\u00edda pode estar em um novo partido de esquerda, que esteja baseado mais nos movimentos sociais e menos nos interesses partid\u00e1rios. \u201cO presidente Lula \u00e9 um fator muito importante. Se ele voltar \u00e0 presid\u00eancia, n\u00e3o vai poder governar como governou. Se ele n\u00e3o voltar a ser presidente, o mito estar\u00e1 intacto. A aceita\u00e7\u00e3o que ele continua a ter \u00e9 absolutamente not\u00e1vel e todos os cientistas pol\u00edticos deveriam estudar no mundo. Lula foi uma parte muito importante do passado, vai ser uma parte importante do futuro. Mas \u00e9 preciso que digamos publicamente que temos consci\u00eancia para pressionar eventualmente um presidente Lula ou um candidato Lula a atenuar um pouco a ideia da concilia\u00e7\u00e3o e a unir-se mais ao movimento popular. N\u00f3s n\u00e3o vamos estar numa d\u00e9cada de Lula paz e amor. N\u00e3o h\u00e1 condi\u00e7\u00f5es para isso.\u201d<\/p>\n<p>Leia, a seguir, a conversa completa com o soci\u00f3logo e professor portugu\u00eas:<\/p>\n<p>Brasileiros: Em seu livro mais recente, \u201cA dif\u00edcil democracia\u201d, tem a seguinte afirma\u00e7\u00e3o: \u201cvivemos em sociedades politicamente democr\u00e1ticas mas socialmente fascistas\u201d. O que o senhor quis dizer?<\/p>\n<p>Boaventura de Sousa Santos: \u00c9 uma frase que procura mostrar que as democracias realmente existentes s\u00e3o parcialmente falsas, s\u00e3o truncadas. N\u00e3o t\u00eam nada a ver com o ideal democr\u00e1tico de soberania popular e de livre a\u00e7\u00e3o dos cidad\u00e3os, que se sentem espiados nos seus representantes e, portanto, entre representados e representantes a dist\u00e2ncia ser\u00e1 m\u00ednima. Pelo contr\u00e1rio, as dist\u00e2ncias hoje s\u00e3o m\u00e1ximas em muitas sociedades ditas democr\u00e1ticas. <\/p>\n<p>Por outro lado, a democracia \u00e9 um ideal de livre a\u00e7\u00e3o e de soberania, que n\u00e3o tem que estar confinado ao sistema pol\u00edtico. Acontece que a democracia liberal foi sempre desenhada para poder aplicar exclusivamente ao sistema pol\u00edtico, e portanto n\u00e3o poder estender-se \u00e0 fam\u00edlia, \u00e0s rela\u00e7\u00f5es sociais, \u00e0s empresas, \u00e0s ruas, \u00e0s comunidades, ao espa\u00e7o p\u00fablico, \u00e0s universidades, etc. <\/p>\n<p>A democracia \u00e9 de fato uma ilha democr\u00e1tica no arquip\u00e9lago do despotismo. Despotismo na fam\u00edlia, na escola, na f\u00e1brica, na empresa, na rua, tanta viol\u00eancia, tanta forma de brutalidade no sistema mundial<\/p>\n<p>Exatamente quando a democracia n\u00e3o atua, precisamente porque grande parte das rela\u00e7\u00f5es sociais est\u00e3o fora do controle democr\u00e1tico e s\u00e3o geridas por vontades at\u00e9 democr\u00e1ticas e mais fr\u00e1geis nessas \u00e1reas sociais (seja na fam\u00edlia, na empresa, na rua), s\u00e3o sujeitas a uma situa\u00e7\u00e3o em que suas aspira\u00e7\u00f5es de vida est\u00e3o ref\u00e9ns de um direito de veto do mais poderoso. Os grupos sociais que est\u00e3o sujeitos a um direito de veto dos mais poderosos, como o jovem negro que vai na rua e \u00e9 abordado pela pol\u00edcia, pede-lhe uma identifica\u00e7\u00e3o sem qualquer motivo, apenas pela sua cor de pele. Ele est\u00e1 a ser sujeito a uma forma de fascismo social. Por que \u00e9 fascismo social? N\u00e3o \u00e9 fascismo pol\u00edtico porque esse foi um sistema pol\u00edtico que se op\u00f4s \u00e0 democracia. Este convive com a democracia em todas as \u00e1reas onde a conviv\u00eancia das rela\u00e7\u00f5es sociais n\u00e3o s\u00e3o democr\u00e1ticas. Infelizmente, grande parte das nossas sociedades e grande parte da nossa popula\u00e7\u00e3o, n\u00e3o vive rela\u00e7\u00f5es sociais democr\u00e1ticas em que h\u00e1 um equil\u00edbrio de poder. Vive por vezes em situa\u00e7\u00f5es de poder desp\u00f3tico, ou seja, vivem situa\u00e7\u00f5es de fascismo social. Essa coexist\u00eancia \u00e9 que est\u00e1 presente. <\/p>\n<p>PB! &#8211; Ent\u00e3o nos pa\u00edses em que h\u00e1 maior desigualdade a democracia \u00e9 mais fr\u00e1gil e mais sujeita ao fascismo social?<\/p>\n<p>BSS &#8211; Muito mais fr\u00e1gil. E pode ser um instrumento para aumentar essa fragilidade. Por que o neoliberalismo vem, desde os anos 1980, a tentar destruir os direitos sociais dos trabalhadores, tem vindo a tentar destruir o poder que o Estado tinha na distribui\u00e7\u00e3o social? Ao mesmo tempo se mostra muito adepto da democracia e a democracia hoje \u00e9 de fato, numa das suas vers\u00f5es, caracter\u00edstica do nosso tempo, a democracia \u00e9 um instrumento de imperialismo. Destr\u00f3i a L\u00edbia para impor a democracia, destroi-se o Iraque para impor a democracia, destroi-se a S\u00edria para impor a democracia, destroi-se o Afeganist\u00e3o para impor a democracia. <\/p>\n<p>A democracia que eu chamo de \u2018baixa intensidade\u2019 transformou-se num instrumento do imperialismo. <\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 essa a democracia pela qual lutamos e isso \u00e9 exatamente a caracter\u00edstica do nosso tempo: s\u00e3o diferentes conceitos de democracia que dividem os campos democr\u00e1ticos, digamos assim. N\u00f3s precisamos saber de que lado estamos<\/p>\n<p>O campo democr\u00e1tico o qual me identifico, que \u00e9 uma luta da radicaliza\u00e7\u00e3o da democracia, da amplia\u00e7\u00e3o do campo democr\u00e1tico, a \u2018democracia de alta intensidade\u2019 \u00e9 que efetivamente luta contra as formas de fascismo social na nossa sociedade, portanto procura ampliar o campo de livre a\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, para que o arquip\u00e9lago do despotismo seja mais pequeno, gradualmente mais pequeno, e idealmente n\u00e3o exista. <\/p>\n<p>PB! &#8211; Trazendo para a nossa realidade no Brasil, fica cada vez mais evidente que quem manda na nossa democracia \u00e9 o capital. Como o senhor v\u00ea essa situa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que o capitalismo nunca atua sozinho. Ele atua com o colonialismo e com o patriarcado, isto \u00e9, com o racismo e com a viol\u00eancia contra as mulheres. O capitalismo n\u00e3o \u00e9 uma forma de domina\u00e7\u00e3o que seja capaz de conviver exclusivamente com o trabalho assalariado, ele tem que desqualificar seres humanos, sejam os trabalhadores, sejam os jovens negros, as mulheres negras, as mulheres em geral, e portanto o colonialismo n\u00e3o acabou. \u00c9 um dos pontos do meu trabalho hoje: ao contr\u00e1rio do que a gente pensa, n\u00f3s vivemos em sociedades coloniais com imagin\u00e1rios p\u00f3s-coloniais. <\/p>\n<p>O colonialismo n\u00e3o tem que ser apenas ocupa\u00e7\u00e3o territorial estrangeira, como aconteceu historicamente. Pode assumir outras formas: colonialismo interno na forma de xenofobia, de racismo, de isl\u00e3mofobia.<\/p>\n<p>O capitalismo no s\u00e9culo XVI n\u00e3o tem nada a ver com o capitalismo do s\u00e9culo XXI. Mas a gente continua a falar do capitalismo do s\u00e9culo XVI e no capitalismo do s\u00e9culo XXI. Eu fa\u00e7o o mesmo com o colonialismo: o hist\u00f3rico, de ocupa\u00e7\u00e3o territorial, era uma forma. Temos que analisar as outras formas de colonialismo, porque h\u00e1 muita gente que vive na nossa sociedade sob o dom\u00ednio das revolu\u00e7\u00f5es coloniais, a casa grande e a senzala. E portanto, isso em sociedades sobretudo que foram colonizadas historicamente, continua sob outras formas.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, nos anos 1960, soci\u00f3logos importantes deste Pa\u00eds, como Dom Pablo Gonz\u00e1les Casanova, teorizaram a ideia do \u201ccolonialismo interno\u201d. Criou-se as elites com a ideia do mito da democracia racial, atrav\u00e9s do olhar de intelectuais, alguns deles bastante importantes, como Gilberto Freire. Permitiu, durante muito tempo, a ideia do mito da democracia racial. Foi preciso chegar ao s\u00e9culo XXI para o Brasil, muitas d\u00e9cadas depois da intend\u00eancia, chegar \u00e0 conclus\u00e3o de que realmente \u00e9 uma sociedade racista e que por isso era preciso haver cotas, por exemplo, para inclus\u00e3o dos jovens na sociedade, porque n\u00e3o \u00e9 nem toda a desigualdade no Brasil se justificava apenas pelas diferen\u00e7as de classe, que obviamente s\u00e3o muito fortes. Houve aqui uma articula\u00e7\u00e3o entre ra\u00e7a e classe, e g\u00eanero, obviamente, porque as mulheres tamb\u00e9m comp\u00f5em um grupo muito substancial dos mais pobres deste Pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u00c9 essa a constela\u00e7\u00e3o de domina\u00e7\u00f5es que domina as nossas sociedades. O que acontece \u00e9 que essas domina\u00e7\u00f5es atuam em conjunto, os movimentos que lutam contra elas est\u00e3o separados: as feministas podem lutar apenas contra o patriarcado, mas descuidam da luta anti-colonial, anti-capitalista; os movimentos quilombolas podem lutar contra o colonialismo na sociedade, mas descuidam da luta anti-capitalismo e anti-patriarcal, os pr\u00f3prios ind\u00edgenas a mesma coisa. <\/p>\n<p>Os movimentos est\u00e3o divididos e a domina\u00e7\u00e3o est\u00e1 unida. \u00c9 essa situa\u00e7\u00e3o que temos. N\u00f3s precisamos unir os movimentos. Quando o capitalismo se refor\u00e7a, refor\u00e7a-se tamb\u00e9m o colonialismo e o patriarcado.<\/p>\n<p>Por exemplo, ao olhar para o governo da presidente Dilma, tinha mulheres e tinha negros. No momento em que houve o golpe para for\u00e7ar o capitalismo de origem neoliberal, desaparecem as mulheres e desaparecem os negros nos minist\u00e9rios. E houve aquela coisa caricata do presidente dizendo que n\u00e3o tinha encontrado mulheres para os minist\u00e9rios. Aquela coisa absurdamente caricata num Pa\u00eds onde a maioria s\u00e3o mulheres. <\/p>\n<p>PB! &#8211; Como foi poss\u00edvel que o processo de impeachment acontecesse daquela forma, t\u00e3o desrespeitosa com a primeira mulher presidente do Brasil, eleita com 54,5 milh\u00f5es de votos?<\/p>\n<p>BSS &#8211; \u00c9 dif\u00edcil dizer porque \u00e9 especulativo. Mas ela foi v\u00edtima de discrimina\u00e7\u00e3o, sem d\u00favida nenhuma. Isso mostra tamb\u00e9m que os partidos progressistas e o movimento popular andaram 13 anos distra\u00eddos porque pensavam que a sociedade tinha sido profundamente transformada. As for\u00e7as de esquerda tomaram o governo, mas n\u00e3o tomaram o poder social. E nem sequer cuidaram de democratizar a sociedade. No futuro, n\u00e3o haver\u00e1 democratiza\u00e7\u00e3o do Estado se n\u00e3o houver democratiza\u00e7\u00e3o da sociedade, o que \u00e9 uma tarefa muito mais ampla. Portanto, todas essas conquistas parece que se desfazem no ar, de um dia para o outro, e se viu que era tudo um certo verniz. Passado esse verniz, as empregadas dom\u00e9sticas tinham que ser servis, como tinham antes, estavam tendo demasiados direitos, j\u00e1 n\u00e3o dependiam tanto da filantropia.<\/p>\n<p>A classe no brasil \u00e9 sempre racista e \u00e9 sempre patriarcal. Isso nos trouxe uma grande virul\u00eancia e est\u00e1 se mostrando uma grande virul\u00eancia neste momento.<\/p>\n<p>PB! &#8211; As esquerdas foram surpreendidas com essa fraqueza da democracia? Houve um descuido? Como se pode reorganizar as esquerdas? <\/p>\n<p>BSS &#8211; O que \u00e9 a esquerda? Temos a esquerda organizada em uma pluralidade de partidos e temos a esquerda que s\u00e3o os movimentos sociais que lutam contra a opress\u00e3o e as diferentes formas de domina\u00e7\u00e3o, e que estiveram ou n\u00e3o ligados a partidos, muitos deles em uma estrutura apartid\u00e1ria, digamos assim. \u00c9 evidente que os partidos populares e os governos, como na Bol\u00edvia, no Equador, na Venezuela e aqui no Brasil, que saem da emerg\u00eancia de forte mobiliza\u00e7\u00e3o popular, criam uma ilus\u00e3o nos movimentos sociais de que seus amigos tinham chegado ao poder. E, portanto, descansaram. Quando exatamente deveria ter sido o contr\u00e1rio porque no momento em que os amigos chegavam ao poder, sabiam que esses amigos iam ser sujeitos a m\u00faltiplas press\u00f5es para se distanciarem dos seus amigos, e portanto governar o Pa\u00eds contra eles. Mesmo n\u00e3o crendo, era preciso continuar a haver uma press\u00e3o de baixo.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 uma coisa que n\u00f3s lutamos em todos os pa\u00edses. Os movimentos sociais do Equador e da Bol\u00edvia lutaram muito por uma Constitui\u00e7\u00e3o e quando foi promulgada, descansaram. O primeiro dia de luta era esse: lutar para que a Constitui\u00e7\u00e3o fosse cumprida. N\u00e3o. Descansaram. No Brasil, os movimentos sociais de alguma maneira descansaram. Talvez o \u00fanico que n\u00e3o descansou e continuou com uma atividade de interven\u00e7\u00e3o foi o MST, um dos maiores movimentos sociais da Am\u00e9rica Latina e qui\u00e7\u00e1 do mundo, e portanto continuou com um certo ativismo.<\/p>\n<p>Muitos outros pensaram que, tendo amigos no Planalto, podiam descansar. Finalmente n\u00f3s \u00edamos ter uma sociedade um pouco mais inclusiva. Isso descuidou a retaguarda dos movimentos. No que diz respeito aos partidos, o partido protag\u00f4nico, PT, \u00e9 sempre a mesma ideia de tomar o governo ou tomar o poder.<\/p>\n<p>Realmente houve a ilus\u00e3o de que num sistema pol\u00edtico que n\u00e3o foi reformado se poderia governar \u00e0 moda antiga para outros objetivos. Com as mesmas alian\u00e7as, as mesmas formas, com a mesma ideologia que vem da segunda rep\u00fablica.<\/p>\n<p>Ideologia que \u00e9 um pacto entre as elites, onde as classes populares n\u00e3o deveriam entrar para perturbar o jogo.<\/p>\n<p>Mas na verdade, como as sociedades n\u00e3o podem ser planeadas como uma linha de montagem, houve aqui uma perturba\u00e7\u00e3o e em 2003, um oper\u00e1rio consegue chegar \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica. A partir da\u00ed, cria-se uma primeira fissura na pr\u00f3pria hegemonia das classes dominantes: algu\u00e9m que n\u00e3o pertence \u00e0s elites, o primeiro movimento \u00e9 tentar absorver. O que foi de certa maneira f\u00e1cil, na medida em que, como eu digo, basta ver a \u201cCarta aos brasileiro\u201d do presidente Lula, dizendo que n\u00e3o iria alterar os compromissos internacionais, financeiros do Pa\u00eds, um modelo de desenvolvimento que n\u00e3o era sustent\u00e1vel a longo prazo, era uma modelo de continuidade do colonialismo, que era o extrativismo e a extra\u00e7\u00e3o de recursos naturais, tornado poss\u00edvel devido ao impulso de desenvolvimento da China, num contexto de altos pre\u00e7os das commodities.<\/p>\n<p>Era uma situa\u00e7\u00e3o em que todos ganham. \u00c9 mais f\u00e1cil governar numa situa\u00e7\u00e3o desse tipo.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed, os bancos nunca tiveram tantos lucros. O Brasil transformou mais de 50 milh\u00f5es de pessoas atrav\u00e9s do Bolsa Fam\u00edlia e das pol\u00edticas de inclus\u00e3o. N\u00e3o se pode trivializar a ideia de que tantos milh\u00f5es que n\u00e3o comem uma vez por dia passaram a comer 3 vezes por dia que isso n\u00e3o \u00e9 uma revolu\u00e7\u00e3o. Obviamente que \u00e9 uma revolu\u00e7\u00e3o, mas que foi feita com o mesmo modelo de desenvolvimento e com o mesmo sistema pol\u00edtico que favorecia as elites e as classes dominantes. <\/p>\n<p>No momento em que a solu\u00e7\u00e3o do ganha-ganha entra em crise, o modelo entra em colapso, praticamente. Entra em colapso tamb\u00e9m por conta de situa\u00e7\u00f5es internacionais, por exemplo o pre\u00e7o do petr\u00f3leo, que de uma semana para outra passou a metade. N\u00e3o foram os mercados, foi uma inten\u00e7\u00e3o do imperialismo norteamericano, no meu entender, que queria neutralizar a R\u00fassia, que tem muito petr\u00f3leo, neutralizar o Ir\u00e3, que com o fim do embargo ia entrar no mercado internacional do petr\u00f3leo e era preciso fazer baixar o pre\u00e7o, e a Venezuela. Era preciso neutralizar o Brasil, que estava tendo algum protagonismo internacional como um dos pa\u00edses emergentes. O erro foi um pouco esse: terminou a hegemonia da pr\u00f3pria classe dominante. Ou seja, ela vai aguentar a sua hegemonia at\u00e9 a produ\u00e7\u00e3o do golpe? O golpe \u00e9 o ponto final da hegemonia da classe dominante? A partir desse momento ela esbroa-se. Exatamente o que estamos a ver. <\/p>\n<p>PB! &#8211; Diante do quadro de combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o e do desgaste dos partidos pol\u00edticos o Poder Judici\u00e1rio ganhou for\u00e7a. Qual a sua opini\u00e3o sobre esse quadro?<\/p>\n<p>&#8220;A democracia \u00e9 de fato uma ilha do arquip\u00e9lago do despotismo&#8221;<br \/>\nO soci\u00f3logo portugu\u00eas Boaventura de Sousa Santos, que estuda o Brasil, a democracia e as esquerdas, afirma que \u00e9 preciso inventar um novo partido pol\u00edtico<br \/>\nMARIA CAROLINA TREVISAN Publicado em: 03\/07\/2017 &#8211; 14:30Alterado em: 30\/08\/2017 &#8211; 18:42<\/p>\n<p>O soci\u00f3logo Boaventura de Sousa Santos recebeu a reportagem para um ch\u00e1 em S\u00e3o Paulo \u2013 Foto: Maria Carolina Trevisan<br \/>\nRefer\u00eancia mundial no campo da ci\u00eancia social, o premiado pensador Boaventura de Sousa Santos esteve no Brasil para lan\u00e7ar seu novo livro A dif\u00edcil democracia (Boitempo Editorial). Em uma an\u00e1lise primorosa da situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica atual, Boaventura discute o que chama de \u201cdemocracia de baixa intensidade\u201d, reflete sobre as causas das crises que envolvem pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, Europa e \u00c1frica e, principalmente, alerta para a urgente necessidade de \u2018reinventar as esquerdas\u2019, subt\u00edtulo da obra. O soci\u00f3logo chama a aten\u00e7\u00e3o para as consequ\u00eancias pol\u00edticas, econ\u00f4micas e sociais depois de per\u00edodos em que o poder esteve com as esquerdas. Alerta para a amea\u00e7a fascista aberta sob a bandeira do combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o, que se imp\u00f5e como prote\u00e7\u00e3o \u00e0 democracia.<\/p>\n<p>\u201cA frustra\u00e7\u00e3o pode plasmar-se numa op\u00e7\u00e3o pol\u00edtica pelo fascismo, sobretudo se a frustra\u00e7\u00e3o for vivida muito intensamente, se for acirrada pela m\u00eddia reacion\u00e1ria, se houver \u00e0 m\u00e3o bodes expiat\u00f3rios, estrangeiros ou estratos sociais historicamente v\u00edtimas de racismo e sexismo\u201d, escreve. Para ele, o crescimento de movimentos fascistas \u201c\u00e9 funcional aos governos de direita reacion\u00e1ria na medida em que lhe permite legitimar mais autoritarismo e mais cortes nos direitos sociais e econ\u00f4micos, mais criminaliza\u00e7\u00e3o no protesto social em nome da defesa da democracia.\u201d<\/p>\n<p>Autor reconhecido e premiado no mundo todo, Boaventura escreve sobre sociologia do direito, sociologia pol\u00edtica, epistemologia e estudos p\u00f3s-coloniais, movimentos sociais, globaliza\u00e7\u00e3o, democracia participativa, reforma do Estado e direitos humanos, al\u00e9m de fazer trabalho de campo em Portugal, no Brasil, na Col\u00f4mbia, em Mo\u00e7ambique, em Angola, em Cabo Verde, na Bol\u00edvia e no Equador. Entre seus livros mais importantes est\u00e3o Um discurso sobre as ci\u00eancias (1988), Pela m\u00e3o de Alice: o social e o pol\u00edtico na p\u00f3s-modernidade (1994), Reinventar a democracia (1998), Democracia e participa\u00e7\u00e3o: o caso do or\u00e7amento participativode Porto Alegre (2002), Se Deus fosse um ativista dos direitos humanos (2013), A cor do tempo quando foge: uma hist\u00f3ria do presente \u2013 cr\u00f4nicas 1986-2013 (2014), O direito dos oprimidos (2014) e A justi\u00e7a popular em Cabo Verde (2015).<\/p>\n<p>Boaventura recebeu a reportagem para uma conversa sobre Brasil, colonialismo, esquerdas e democracia. \u201cO capitalismo nunca atua sozinho. Ele atua com o colonialismo e atua com o patriarcado, isto \u00e9, com o racismo e com a viol\u00eancia contra as mulheres. N\u00e3o \u00e9 uma forma de domina\u00e7\u00e3o que seja capaz de conviver exclusivamente com o trabalho assalariado. Tem que desqualificar seres humanos, sejam os trabalhadores, sejam os jovens negros, as mulheres negras, as mulheres em geral, e portanto o colonialismo n\u00e3o acabou. N\u00f3s vivemos em sociedades coloniais com imagin\u00e1rios p\u00f3s coloniais.\u201d<\/p>\n<p>Sobre o Brasil, Boaventura afirma: \u201cO Pa\u00eds estar\u00e1 em um impasse durante um tempo. O neoliberalismo \u00e9 uma farsa e est\u00e1 sendo implementado aqui exatamente como farsa, at\u00e9 que as for\u00e7as populares de esquerda se d\u00eaem conta que \u00e9 poss\u00edvel uma alternativa pol\u00edtica. Os partidos de esquerda, em nenhuma condi\u00e7\u00e3o, se devem aliar a partidos de direita. A esquerda tem que se aliar com a esquerda. Se n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel uma alian\u00e7a com outros partidos de esquerda, mantenha-se na oposi\u00e7\u00e3o at\u00e9 que essas condi\u00e7\u00f5es sejam criadas. N\u00e3o podemos governar na base de concilia\u00e7\u00e3o com grupos de direita que no momento oportuno nos largam, como aconteceu com o PMDB e com o PSDB, n\u00e3o sejamos ing\u00eanuos.\u201d<\/p>\n<p>Ele diz que a sa\u00edda pode estar em um novo partido de esquerda, que esteja baseado mais nos movimentos sociais e menos nos interesses partid\u00e1rios. \u201cO presidente Lula \u00e9 um fator muito importante. Se ele voltar \u00e0 presid\u00eancia, n\u00e3o vai poder governar como governou. Se ele n\u00e3o voltar a ser presidente, o mito estar\u00e1 intacto. A aceita\u00e7\u00e3o que ele continua a ter \u00e9 absolutamente not\u00e1vel e todos os cientistas pol\u00edticos deveriam estudar no mundo. Lula foi uma parte muito importante do passado, vai ser uma parte importante do futuro. Mas \u00e9 preciso que digamos publicamente que temos consci\u00eancia para pressionar eventualmente um presidente Lula ou um candidato Lula a atenuar um pouco a ideia da concilia\u00e7\u00e3o e a unir-se mais ao movimento popular. N\u00f3s n\u00e3o vamos estar numa d\u00e9cada de Lula paz e amor. N\u00e3o h\u00e1 condi\u00e7\u00f5es para isso.\u201d<\/p>\n<p>Leia, a seguir, a conversa completa com o soci\u00f3logo e professor portugu\u00eas:<\/p>\n<p>Brasileiros: Em seu livro mais recente, \u201cA dif\u00edcil democracia\u201d, tem a seguinte afirma\u00e7\u00e3o: \u201cvivemos em sociedades politicamente democr\u00e1ticas mas socialmente fascistas\u201d. O que o senhor quis dizer?<\/p>\n<p>Boaventura de Sousa Santos: \u00c9 uma frase que procura mostrar que as democracias realmente existentes s\u00e3o parcialmente falsas, s\u00e3o truncadas. N\u00e3o t\u00eam nada a ver com o ideal democr\u00e1tico de soberania popular e de livre a\u00e7\u00e3o dos cidad\u00e3os, que se sentem espiados nos seus representantes e, portanto, entre representados e representantes a dist\u00e2ncia ser\u00e1 m\u00ednima. Pelo contr\u00e1rio, as dist\u00e2ncias hoje s\u00e3o m\u00e1ximas em muitas sociedades ditas democr\u00e1ticas. <\/p>\n<p>Por outro lado, a democracia \u00e9 um ideal de livre a\u00e7\u00e3o e de soberania, que n\u00e3o tem que estar confinado ao sistema pol\u00edtico. Acontece que a democracia liberal foi sempre desenhada para poder aplicar exclusivamente ao sistema pol\u00edtico, e portanto n\u00e3o poder estender-se \u00e0 fam\u00edlia, \u00e0s rela\u00e7\u00f5es sociais, \u00e0s empresas, \u00e0s ruas, \u00e0s comunidades, ao espa\u00e7o p\u00fablico, \u00e0s universidades, etc. <\/p>\n<p>A democracia \u00e9 de fato uma ilha democr\u00e1tica no arquip\u00e9lago do despotismo. Despotismo na fam\u00edlia, na escola, na f\u00e1brica, na empresa, na rua, tanta viol\u00eancia, tanta forma de brutalidade no sistema mundial<\/p>\n<p>Exatamente quando a democracia n\u00e3o atua, precisamente porque grande parte das rela\u00e7\u00f5es sociais est\u00e3o fora do controle democr\u00e1tico e s\u00e3o geridas por vontades at\u00e9 democr\u00e1ticas e mais fr\u00e1geis nessas \u00e1reas sociais (seja na fam\u00edlia, na empresa, na rua), s\u00e3o sujeitas a uma situa\u00e7\u00e3o em que suas aspira\u00e7\u00f5es de vida est\u00e3o ref\u00e9ns de um direito de veto do mais poderoso. Os grupos sociais que est\u00e3o sujeitos a um direito de veto dos mais poderosos, como o jovem negro que vai na rua e \u00e9 abordado pela pol\u00edcia, pede-lhe uma identifica\u00e7\u00e3o sem qualquer motivo, apenas pela sua cor de pele. Ele est\u00e1 a ser sujeito a uma forma de fascismo social. Por que \u00e9 fascismo social? N\u00e3o \u00e9 fascismo pol\u00edtico porque esse foi um sistema pol\u00edtico que se op\u00f4s \u00e0 democracia. Este convive com a democracia em todas as \u00e1reas onde a conviv\u00eancia das rela\u00e7\u00f5es sociais n\u00e3o s\u00e3o democr\u00e1ticas. Infelizmente, grande parte das nossas sociedades e grande parte da nossa popula\u00e7\u00e3o, n\u00e3o vive rela\u00e7\u00f5es sociais democr\u00e1ticas em que h\u00e1 um equil\u00edbrio de poder. Vive por vezes em situa\u00e7\u00f5es de poder desp\u00f3tico, ou seja, vivem situa\u00e7\u00f5es de fascismo social. Essa coexist\u00eancia \u00e9 que est\u00e1 presente. <\/p>\n<p>PB! &#8211; Ent\u00e3o nos pa\u00edses em que h\u00e1 maior desigualdade a democracia \u00e9 mais fr\u00e1gil e mais sujeita ao fascismo social?<\/p>\n<p>BSS &#8211; Muito mais fr\u00e1gil. E pode ser um instrumento para aumentar essa fragilidade. Por que o neoliberalismo vem, desde os anos 1980, a tentar destruir os direitos sociais dos trabalhadores, tem vindo a tentar destruir o poder que o Estado tinha na distribui\u00e7\u00e3o social? Ao mesmo tempo se mostra muito adepto da democracia e a democracia hoje \u00e9 de fato, numa das suas vers\u00f5es, caracter\u00edstica do nosso tempo, a democracia \u00e9 um instrumento de imperialismo. Destr\u00f3i a L\u00edbia para impor a democracia, destroi-se o Iraque para impor a democracia, destroi-se a S\u00edria para impor a democracia, destroi-se o Afeganist\u00e3o para impor a democracia. <\/p>\n<p>A democracia que eu chamo de \u2018baixa intensidade\u2019 transformou-se num instrumento do imperialismo. <\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 essa a democracia pela qual lutamos e isso \u00e9 exatamente a caracter\u00edstica do nosso tempo: s\u00e3o diferentes conceitos de democracia que dividem os campos democr\u00e1ticos, digamos assim. N\u00f3s precisamos saber de que lado estamos<\/p>\n<p>O campo democr\u00e1tico o qual me identifico, que \u00e9 uma luta da radicaliza\u00e7\u00e3o da democracia, da amplia\u00e7\u00e3o do campo democr\u00e1tico, a \u2018democracia de alta intensidade\u2019 \u00e9 que efetivamente luta contra as formas de fascismo social na nossa sociedade, portanto procura ampliar o campo de livre a\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, para que o arquip\u00e9lago do despotismo seja mais pequeno, gradualmente mais pequeno, e idealmente n\u00e3o exista. <\/p>\n<p>PB! &#8211; Trazendo para a nossa realidade no Brasil, fica cada vez mais evidente que quem manda na nossa democracia \u00e9 o capital. Como o senhor v\u00ea essa situa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que o capitalismo nunca atua sozinho. Ele atua com o colonialismo e com o patriarcado, isto \u00e9, com o racismo e com a viol\u00eancia contra as mulheres. O capitalismo n\u00e3o \u00e9 uma forma de domina\u00e7\u00e3o que seja capaz de conviver exclusivamente com o trabalho assalariado, ele tem que desqualificar seres humanos, sejam os trabalhadores, sejam os jovens negros, as mulheres negras, as mulheres em geral, e portanto o colonialismo n\u00e3o acabou. \u00c9 um dos pontos do meu trabalho hoje: ao contr\u00e1rio do que a gente pensa, n\u00f3s vivemos em sociedades coloniais com imagin\u00e1rios p\u00f3s-coloniais. <\/p>\n<p>O colonialismo n\u00e3o tem que ser apenas ocupa\u00e7\u00e3o territorial estrangeira, como aconteceu historicamente. Pode assumir outras formas: colonialismo interno na forma de xenofobia, de racismo, de isl\u00e3mofobia.<\/p>\n<p>O capitalismo no s\u00e9culo XVI n\u00e3o tem nada a ver com o capitalismo do s\u00e9culo XXI. Mas a gente continua a falar do capitalismo do s\u00e9culo XVI e no capitalismo do s\u00e9culo XXI. Eu fa\u00e7o o mesmo com o colonialismo: o hist\u00f3rico, de ocupa\u00e7\u00e3o territorial, era uma forma. Temos que analisar as outras formas de colonialismo, porque h\u00e1 muita gente que vive na nossa sociedade sob o dom\u00ednio das revolu\u00e7\u00f5es coloniais, a casa grande e a senzala. E portanto, isso em sociedades sobretudo que foram colonizadas historicamente, continua sob outras formas.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, nos anos 1960, soci\u00f3logos importantes deste Pa\u00eds, como Dom Pablo Gonz\u00e1les Casanova, teorizaram a ideia do \u201ccolonialismo interno\u201d. Criou-se as elites com a ideia do mito da democracia racial, atrav\u00e9s do olhar de intelectuais, alguns deles bastante importantes, como Gilberto Freire. Permitiu, durante muito tempo, a ideia do mito da democracia racial. Foi preciso chegar ao s\u00e9culo XXI para o Brasil, muitas d\u00e9cadas depois da intend\u00eancia, chegar \u00e0 conclus\u00e3o de que realmente \u00e9 uma sociedade racista e que por isso era preciso haver cotas, por exemplo, para inclus\u00e3o dos jovens na sociedade, porque n\u00e3o \u00e9 nem toda a desigualdade no Brasil se justificava apenas pelas diferen\u00e7as de classe, que obviamente s\u00e3o muito fortes. Houve aqui uma articula\u00e7\u00e3o entre ra\u00e7a e classe, e g\u00eanero, obviamente, porque as mulheres tamb\u00e9m comp\u00f5em um grupo muito substancial dos mais pobres deste Pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u00c9 essa a constela\u00e7\u00e3o de domina\u00e7\u00f5es que domina as nossas sociedades. O que acontece \u00e9 que essas domina\u00e7\u00f5es atuam em conjunto, os movimentos que lutam contra elas est\u00e3o separados: as feministas podem lutar apenas contra o patriarcado, mas descuidam da luta anti-colonial, anti-capitalista; os movimentos quilombolas podem lutar contra o colonialismo na sociedade, mas descuidam da luta anti-capitalismo e anti-patriarcal, os pr\u00f3prios ind\u00edgenas a mesma coisa. <\/p>\n<p>Os movimentos est\u00e3o divididos e a domina\u00e7\u00e3o est\u00e1 unida. \u00c9 essa situa\u00e7\u00e3o que temos. N\u00f3s precisamos unir os movimentos. Quando o capitalismo se refor\u00e7a, refor\u00e7a-se tamb\u00e9m o colonialismo e o patriarcado.<\/p>\n<p>Por exemplo, ao olhar para o governo da presidente Dilma, tinha mulheres e tinha negros. No momento em que houve o golpe para for\u00e7ar o capitalismo de origem neoliberal, desaparecem as mulheres e desaparecem os negros nos minist\u00e9rios. E houve aquela coisa caricata do presidente dizendo que n\u00e3o tinha encontrado mulheres para os minist\u00e9rios. Aquela coisa absurdamente caricata num Pa\u00eds onde a maioria s\u00e3o mulheres. <\/p>\n<p>PB! &#8211; Como foi poss\u00edvel que o processo de impeachment acontecesse daquela forma, t\u00e3o desrespeitosa com a primeira mulher presidente do Brasil, eleita com 54,5 milh\u00f5es de votos?<\/p>\n<p>BSS &#8211; \u00c9 dif\u00edcil dizer porque \u00e9 especulativo. Mas ela foi v\u00edtima de discrimina\u00e7\u00e3o, sem d\u00favida nenhuma. Isso mostra tamb\u00e9m que os partidos progressistas e o movimento popular andaram 13 anos distra\u00eddos porque pensavam que a sociedade tinha sido profundamente transformada. As for\u00e7as de esquerda tomaram o governo, mas n\u00e3o tomaram o poder social. E nem sequer cuidaram de democratizar a sociedade. No futuro, n\u00e3o haver\u00e1 democratiza\u00e7\u00e3o do Estado se n\u00e3o houver democratiza\u00e7\u00e3o da sociedade, o que \u00e9 uma tarefa muito mais ampla. Portanto, todas essas conquistas parece que se desfazem no ar, de um dia para o outro, e se viu que era tudo um certo verniz. Passado esse verniz, as empregadas dom\u00e9sticas tinham que ser servis, como tinham antes, estavam tendo demasiados direitos, j\u00e1 n\u00e3o dependiam tanto da filantropia.<\/p>\n<p>A classe no brasil \u00e9 sempre racista e \u00e9 sempre patriarcal. Isso nos trouxe uma grande virul\u00eancia e est\u00e1 se mostrando uma grande virul\u00eancia neste momento.<\/p>\n<p>PB! &#8211; As esquerdas foram surpreendidas com essa fraqueza da democracia? Houve um descuido? Como se pode reorganizar as esquerdas? <\/p>\n<p>BSS &#8211; O que \u00e9 a esquerda? Temos a esquerda organizada em uma pluralidade de partidos e temos a esquerda que s\u00e3o os movimentos sociais que lutam contra a opress\u00e3o e as diferentes formas de domina\u00e7\u00e3o, e que estiveram ou n\u00e3o ligados a partidos, muitos deles em uma estrutura apartid\u00e1ria, digamos assim. \u00c9 evidente que os partidos populares e os governos, como na Bol\u00edvia, no Equador, na Venezuela e aqui no Brasil, que saem da emerg\u00eancia de forte mobiliza\u00e7\u00e3o popular, criam uma ilus\u00e3o nos movimentos sociais de que seus amigos tinham chegado ao poder. E, portanto, descansaram. Quando exatamente deveria ter sido o contr\u00e1rio porque no momento em que os amigos chegavam ao poder, sabiam que esses amigos iam ser sujeitos a m\u00faltiplas press\u00f5es para se distanciarem dos seus amigos, e portanto governar o Pa\u00eds contra eles. Mesmo n\u00e3o crendo, era preciso continuar a haver uma press\u00e3o de baixo.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 uma coisa que n\u00f3s lutamos em todos os pa\u00edses. Os movimentos sociais do Equador e da Bol\u00edvia lutaram muito por uma Constitui\u00e7\u00e3o e quando foi promulgada, descansaram. O primeiro dia de luta era esse: lutar para que a Constitui\u00e7\u00e3o fosse cumprida. N\u00e3o. Descansaram. No Brasil, os movimentos sociais de alguma maneira descansaram. Talvez o \u00fanico que n\u00e3o descansou e continuou com uma atividade de interven\u00e7\u00e3o foi o MST, um dos maiores movimentos sociais da Am\u00e9rica Latina e qui\u00e7\u00e1 do mundo, e portanto continuou com um certo ativismo.<\/p>\n<p>Muitos outros pensaram que, tendo amigos no Planalto, podiam descansar. Finalmente n\u00f3s \u00edamos ter uma sociedade um pouco mais inclusiva. Isso descuidou a retaguarda dos movimentos. No que diz respeito aos partidos, o partido protag\u00f4nico, PT, \u00e9 sempre a mesma ideia de tomar o governo ou tomar o poder.<\/p>\n<p>Realmente houve a ilus\u00e3o de que num sistema pol\u00edtico que n\u00e3o foi reformado se poderia governar \u00e0 moda antiga para outros objetivos. Com as mesmas alian\u00e7as, as mesmas formas, com a mesma ideologia que vem da segunda rep\u00fablica.<\/p>\n<p>Ideologia que \u00e9 um pacto entre as elites, onde as classes populares n\u00e3o deveriam entrar para perturbar o jogo.<\/p>\n<p>Mas na verdade, como as sociedades n\u00e3o podem ser planeadas como uma linha de montagem, houve aqui uma perturba\u00e7\u00e3o e em 2003, um oper\u00e1rio consegue chegar \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica. A partir da\u00ed, cria-se uma primeira fissura na pr\u00f3pria hegemonia das classes dominantes: algu\u00e9m que n\u00e3o pertence \u00e0s elites, o primeiro movimento \u00e9 tentar absorver. O que foi de certa maneira f\u00e1cil, na medida em que, como eu digo, basta ver a \u201cCarta aos brasileiro\u201d do presidente Lula, dizendo que n\u00e3o iria alterar os compromissos internacionais, financeiros do Pa\u00eds, um modelo de desenvolvimento que n\u00e3o era sustent\u00e1vel a longo prazo, era uma modelo de continuidade do colonialismo, que era o extrativismo e a extra\u00e7\u00e3o de recursos naturais, tornado poss\u00edvel devido ao impulso de desenvolvimento da China, num contexto de altos pre\u00e7os das commodities.<\/p>\n<p>Era uma situa\u00e7\u00e3o em que todos ganham. \u00c9 mais f\u00e1cil governar numa situa\u00e7\u00e3o desse tipo.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed, os bancos nunca tiveram tantos lucros. O Brasil transformou mais de 50 milh\u00f5es de pessoas atrav\u00e9s do Bolsa Fam\u00edlia e das pol\u00edticas de inclus\u00e3o. N\u00e3o se pode trivializar a ideia de que tantos milh\u00f5es que n\u00e3o comem uma vez por dia passaram a comer 3 vezes por dia que isso n\u00e3o \u00e9 uma revolu\u00e7\u00e3o. Obviamente que \u00e9 uma revolu\u00e7\u00e3o, mas que foi feita com o mesmo modelo de desenvolvimento e com o mesmo sistema pol\u00edtico que favorecia as elites e as classes dominantes. <\/p>\n<p>No momento em que a solu\u00e7\u00e3o do ganha-ganha entra em crise, o modelo entra em colapso, praticamente. Entra em colapso tamb\u00e9m por conta de situa\u00e7\u00f5es internacionais, por exemplo o pre\u00e7o do petr\u00f3leo, que de uma semana para outra passou a metade. N\u00e3o foram os mercados, foi uma inten\u00e7\u00e3o do imperialismo norteamericano, no meu entender, que queria neutralizar a R\u00fassia, que tem muito petr\u00f3leo, neutralizar o Ir\u00e3, que com o fim do embargo ia entrar no mercado internacional do petr\u00f3leo e era preciso fazer baixar o pre\u00e7o, e a Venezuela. Era preciso neutralizar o Brasil, que estava tendo algum protagonismo internacional como um dos pa\u00edses emergentes. O erro foi um pouco esse: terminou a hegemonia da pr\u00f3pria classe dominante. Ou seja, ela vai aguentar a sua hegemonia at\u00e9 a produ\u00e7\u00e3o do golpe? O golpe \u00e9 o ponto final da hegemonia da classe dominante? A partir desse momento ela esbroa-se. Exatamente o que estamos a ver. <\/p>\n<p>PB! &#8211; Diante do quadro de combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o e do desgaste dos partidos pol\u00edticos o Poder Judici\u00e1rio ganhou for\u00e7a. Qual a sua opini\u00e3o sobre esse quadro?<\/p>\n<p>Computa\u00e7\u00e3o em nuvem e intelig\u00eancia artificial inovam testes de laborat\u00f3rio no Brasil<br \/>\nEmpresa Hi Technologies criou dispositivo que permite realizar exames de sangue no consult\u00f3rio m\u00e9dico. Resultados saem em minutos e s\u00e3o validados pela internet<\/p>\n<p>A deteriora\u00e7\u00e3o da Petrobr\u00e1s \u2013 o que est\u00e1 por tr\u00e1s dos testes de impairments ?<br \/>\nFica claro o descompromisso da atual gest\u00e3o com os desafios de longo prazo, deteriorando o papel central que a estatal tem como ferramenta do desenvolvimento nacional<br \/>\n|<br \/>\nAt\u00e9 crian\u00e7as cruzaram os bra\u00e7os na greve geral de 1917<br \/>\nElas trabalhavam nas f\u00e1bricas e, como as mulheres, ganhavam menos ainda que os homens. H\u00e1 100 anos todos pararam, lutando por seus direitos<br \/>\nBDD &#8211; Como a corrup\u00e7\u00e3o \u00e9 sist\u00eamica, a hegemonia que permitiu a segunda Rep\u00fablica caiu completamente e as classes dominantes est\u00e3o a comer-se umas \u00e0s outras, com esc\u00e2ndalos di\u00e1rios de escutas em que os peri\u00f3dicos que criaram o golpe e que promoveram o golpe est\u00e3o neste momento a atacar os golpistas, digamos assim, como se realmente agora se repusesse a democracia pondo apenas os golpistas \u00e0 vista. N\u00f3s j\u00e1 t\u00ednhamos visto que eram golpistas, n\u00e3o \u00e9? \u00c9 uma crise de hegemonia na sociedade brasileira, que n\u00e3o pode, neste momento, ter nenhuma solu\u00e7\u00e3o muito criativa. A solu\u00e7\u00e3o criativa numa situa\u00e7\u00e3o em que, por um lado, a classe dominante perdeu a hegemonia, nitidamente, est\u00e1 sem ter um norte para onde ir, metem-se na pris\u00e3o uns aos outros, digamos assim, por outro lado, as classes populares n\u00e3o t\u00eam ainda uma capacidade organizada de resposta, foram apanhadas de surpresa, houve um grande choque, as medidas que est\u00e3o a\u00ed em prepara\u00e7\u00e3o n\u00e3o chegaram ainda ao bolso das pessoas, leva tempo para que esse empobrecimento, o sucateamento da educa\u00e7\u00e3o, da sa\u00fade, atinjam a sociedade, leva um tempo at\u00e9 filtrar, at\u00e9 a base. <\/p>\n<p>Houve um impasse entre uma classe dominante que tem uma crise de hegemonia muito forte, e as classes dominadas, as classes populares, que ainda n\u00e3o conseguiram se organizar como uma resposta.<\/p>\n<p>Temos aqui uma dualidade de impot\u00eancias: a da classe dominante e a das classes populares. Dos tr\u00eas \u00f3rg\u00e3os de soberania, todos eles um pouco deslegitimados, o \u00fanico que n\u00e3o foi eleito \u2013 o judici\u00e1rio \u2013 assume uma posi\u00e7\u00e3o de gerir esse impasse durante algum tempo. \u00c9 natural. E pode geri-lo de v\u00e1rias formas: mantendo-se no campo do judici\u00e1rio, ou algum de seus membros passa a se firmar como l\u00edder pol\u00edtico. Isso vai criar uma perturba\u00e7\u00e3o enorme nos movimentos populares e pelas diretas j\u00e1.<\/p>\n<p>PB! &#8211; Est\u00e1 se construindo a ideia de que as reformas trabalhista e previdenci\u00e1ria s\u00e3o a \u00fanica sa\u00edda para salvar o Pa\u00eds. Que consequ\u00eancias essa pol\u00edtica neoliberal pode nos trazer?<\/p>\n<p>BSS &#8211; As medidas que est\u00e3o aqui sendo impostas s\u00e3o as medidas que foram impostas aos portugueses em 2011. \u00c9 exatamente a mesma coisa: crise da previd\u00eancia, das leis trabalhistas, privatizar a sa\u00fade e privatizar a educa\u00e7\u00e3o. A receita neoliberal \u00e9 global, com nuances de pa\u00eds para pa\u00eds. Na Europa, temos vindo a viv\u00ea-la, a pr\u00f3pria Gr\u00e9cia, tamb\u00e9m sob alguma forma violenta, e Portugal em 2011, conseguiu livrar-se. O que mostra o seguinte: essa receita neoliberal \u00e9 global, apresenta-se com uma total rigidez, isto \u00e9, ou se fazem essas reformas ou n\u00e3o h\u00e1 investimento externo, ou n\u00e3o h\u00e1 competitividade, ou o fim da recess\u00e3o, e portanto o pa\u00eds n\u00e3o tem como avan\u00e7ar, tem mesmo que fazer essas reformas. <\/p>\n<p>Podemos dizer que, se calhar, o fato de Temer ter ca\u00eddo em desgra\u00e7a na Globo \u00e9 parte da convic\u00e7\u00e3o de que ele n\u00e3o tem poder suficiente para levar a cabo as reformas. E provavelmente em um sistema de elei\u00e7\u00f5es indiretas ou de qualquer outra forma, algu\u00e9m pode ter legitimidade suficiente \u2013 se for algu\u00e9m do Judici\u00e1rio provavelmente ainda mais legitimidade, porque n\u00e3o traz a m\u00e1cula da corrup\u00e7\u00e3o, e isso vai ser muito importante: n\u00e3o \u00e9 o movimento popular a lutar contra a corrup\u00e7\u00e3o, porque quem \u00e9 candidato \u00e9 quem lutou contra a corrup\u00e7\u00e3o. Isso altera completam tente o cen\u00e1rio. Mas o objetivo \u00e9 aplicar essas medidas, obviamente. <\/p>\n<p>E isso \u00e9 que n\u00f3s temos que ver que \u00e9 uma grande farsa do neoliberalismo. J\u00e1 est\u00e1 demonstrado que n\u00e3o \u00e9 assim. H\u00e1 um grande poder de convic\u00e7\u00e3o, por ter o oligop\u00f3lio da m\u00eddia, que mostra e entra nessa forma de aliena\u00e7\u00e3o das classes populares e quer convencer as classes populares que vivem acima de suas posses, que realmente a sua pens\u00e3o, mesmo magra, est\u00e1 em perigo se n\u00e3o for privatizada, e \u00e9 melhor que a gente liberalize o mercado de trabalho e precarize porque vamos aumentar empregos. \u00c9 um pouco essa a l\u00f3gica que est\u00e1 a\u00ed. <\/p>\n<p>O que acontece \u00e9 vermos que quando isso resiste, com \u00eaxito, mostra-se efetivamente que \u00e9 uma farsa. O melhor exemplo \u00e9 o caso portugu\u00eas: entre 2011 e 2015 tivemos um governo reacion\u00e1rio, que aplicou essas medidas. Em final de 2015 h\u00e1 elei\u00e7\u00f5es, e os portugueses como sempre, desde 1974, votam \u00e0 esquerda, mas quem governa \u00e9 a direita. Porque a direita est\u00e1 unida e a esquerda est\u00e1 desunida.<\/p>\n<p>Pela primeira vez em 40 anos, os tr\u00eas grandes partidos de esquerda decidem articular-se, n\u00e3o para se fundirem, mas com um acordo de governo que ponha trav\u00e3o \u00e0 precariza\u00e7\u00e3o das leis trabalhistas e \u00e0 privatiza\u00e7\u00e3o da previd\u00eancia, entre outras austeridades.<\/p>\n<p>Foi poss\u00edvel criar uma alternativa atrav\u00e9s de uma coisa muito corajosa, que \u00e9 o estado \u201cgeringon\u00e7a\u201d \u2013 palavra depreciativa criada pela direita e que est\u00e1 a funcionar. Funciona h\u00e1 pelo menos 4 anos, os alem\u00e3es j\u00e1 tem uma palavra correspondente a geringon\u00e7a e os ingleses tamb\u00e9m. Ou seja, n\u00f3s transformamos um nome negativo contra a esquerda em um nome positivo, e temos muito orgulho nessa geringon\u00e7a.<\/p>\n<p>\u00c9 um pacto de governo mas que teve este efeito. \u00c9 que fizemos exatamente o oposto ao que diz a receita neoliberal. E os resultados que estamos a ter \u00e9 exatamente o oposto ao que eles diziam: o pa\u00eds nunca teve t\u00e3o pouco desemprego, estamos em 9%; \u00e9 um dos pa\u00edses que mais cresce na Europa, estando acima dos 10%; o d\u00e9ficit p\u00fablico est\u00e1 a diminuir; a d\u00edvida p\u00fablica se mant\u00e9m porque \u00e9 imposs\u00edvel diminuir de um ano para o outro, e o pa\u00eds est\u00e1 exatamente fazendo o contr\u00e1rio do que diz a receita neoliberal, e est\u00e1 a erguer-se de novo.<\/p>\n<p>Ou seja, o neoliberalismo \u00e9 uma farsa. O capitalismo s\u00f3 \u00e9 r\u00edgido enquanto n\u00e3o tiver que se confrontar com uma alternativa. \u00c9 mais f\u00e1cil, para garantir a acumula\u00e7\u00e3o deles, produzir o empobrecimento das classes populares, precariza\u00e7\u00e3o das leis trabalhistas, privatiza\u00e7\u00e3o da previd\u00eancia \u2013 porque \u00e9 um bolo de dinheiro enorme \u2013 que anda no sistema financeiro que \u00e9 quem domina este Pa\u00eds, obviamente. Eles querem essas vantagens, n\u00e3o os critique por isso. N\u00f3s temos a criticar \u00e9 promover for\u00e7as suficientes para resistir contra isso. No momento em que eles tem que se confrontar com uma alternativa pol\u00edtica, adapta-se. Diziam que n\u00e3o haveria investimento direto em Portugal, est\u00e1 a aumentar o investimento direto, e \u00e9 por isso que Portugal est\u00e1 a crescer.<\/p>\n<p>O neoliberalismo \u00e9 uma farsa e est\u00e1 sendo implementado aqui no Brasil exatamente como farsa, at\u00e9 que as for\u00e7as populares de esquerda se d\u00eaem conta que \u00e9 poss\u00edvel uma alternativa pol\u00edtica eventualmente como a reforma pol\u00edtica, porque esta, como v\u00ea, s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel numa condi\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a grande reforma pol\u00edtica. Por isso, o Brasil estar\u00e1 em impasse durante um tempo.<\/p>\n<p>Os partidos de esquerda, em nenhuma condi\u00e7\u00e3o se devem aliar a partidos de direita. A esquerda tem que se aliar com a esquerda. E se n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel uma alian\u00e7a com outros partidos de esquerda, mantenha-se na oposi\u00e7\u00e3o at\u00e9 que essas condi\u00e7\u00f5es sejam criadas.<\/p>\n<p>Ir governar na base de concilia\u00e7\u00e3o com grupos de direita, com partidos de direita, que no momento oportuno nos largam, como aconteceu com o PMDB, com o PSDB, n\u00e3o sejamos ing\u00eanuos, podemos cometer o erro uma vez. Mas n\u00e3o vamos cometer o mesmo erro muitas vezes porque sen\u00e3o um pol\u00edtico daqui disse que a esquerda \u00e9 burra. \u00c9 burra se continuar a cometer os mesmos erros.<\/p>\n<p>PB! &#8211; Alguns pol\u00edticos costumam classificar o Partido dos Trabalhadores, e seus l\u00edderes, como \u201cinimigos\u201d. O que significa essa constru\u00e7\u00e3o?  <\/p>\n<p>BSS &#8211; \u00c9 realmente a perda da face dessa democracia f\u00e1rsica. Porque na democracia n\u00e3o h\u00e1 inimigos, h\u00e1 advers\u00e1rios. \u00c9 a grande distin\u00e7\u00e3o. O inimigo \u00e9 aquele que se quer destruir, o advers\u00e1rio \u00e9 aquele com quem se tem que articular na oposi\u00e7\u00e3o e tentar ganhar ou perder, mas tem uma posi\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria e que democraticamente pode ser elaborada, para ganhar ou perder. O inimigo \u00e9 para destruir. A l\u00f3gica do amigo-inimigo, do nazismo alem\u00e3o, a ideia \u00e9 que nos dividimos entre duas \u00e1guas. Ali\u00e1s todo o conservadorismo, o projeto que est\u00e1 em curso neste momento n\u00e3o \u00e9 o liberalismo. \u00c9 a que j\u00e1 n\u00e3o tolera a democracia, mesmo de baixa intensidade, passa a se tornar mais \u201cfascizante\u201d, digamos assim, por exemplo, come\u00e7a a n\u00e3o ter confian\u00e7a nem sequer na classe pol\u00edtica, e quer que sejam os seus a governar \u2013 \u00e9 o caso do Macri, do Trump, do Macron \u2013 s\u00e3o os homens de neg\u00f3cios que se transformam em pol\u00edticos.<\/p>\n<p>Eles v\u00e3o perdendo a confian\u00e7a porque no jogo democr\u00e1tico s\u00e3o muito impacientes. A direita aqui no Brasil, dada que a altera\u00e7\u00e3o no pre\u00e7o dos commodities estava a levar a uma crise no sistema, no seu segundo mandato, a presidente Dilma teve que tomar medidas anti-populares, e ter um ministro [Joaquim Levy] que era totalmente contr\u00e1rio a tudo aquilo que ela tinha proposto na campanha eleitoral. Ent\u00e3o, era de prever que houvesse crise e que nas pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es esta orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica perdesse as elei\u00e7\u00f5es. Estavam impacientes. N\u00f3s nunca vimos em nenhum outro pa\u00eds, poucos meses depois de um presidente ganhar as elei\u00e7\u00f5es, estar-se a pedir o seu impeachment, sem prova nenhuma de crime de responsabilidade.<\/p>\n<p>\u00c9 essa a grande novidade que o Brasil deu ao mundo. Infelizmente \u00e9 uma novidade triste: talvez a pol\u00edtica mais honesta da Am\u00e9rica Latina foi impedida pelos pol\u00edticos mais corruptos da Am\u00e9rica Latina. Em plena democracia. Isso \u00e9 que mostra a fal\u00eancia do sistema democr\u00e1tico.\u201d<\/p>\n<p>PB! &#8211; Qual a sua opini\u00e3o sobre o atual movimento das Diretas J\u00e1?<\/p>\n<p>BSS &#8211; As Diretas J\u00e1 tem um impulso interessante que \u00e9 repor a legitimidade democr\u00e1tica. \u00c9 uma ideia de dar a palavra ao povo. \u00c9 tamb\u00e9m a forma mais eficaz de travar essas leis porque ningu\u00e9m que v\u00e1 dizer numa campanha eleitoral que quando chegar ao poder vai aplicar aquelas leis \u00e9 eleito. Provavelmente, depende de como os m\u00eddia v\u00e3o funcionar, sobretudo num Pa\u00eds que passa 4\/5 horas por dia a ver televis\u00e3o, penso que seria dif\u00edcil que ocorressem.<\/p>\n<p>A luta \u00e9 exatamente entre aqueles que querem aplicar as medidas e aqueles que querem travar as medidas. O que se viu efetivamente \u00e9 que n\u00e3o querem recuar de maneira nenhuma nas medidas, porque muitos acreditam genuinamente que \u00e9 a \u00fanica maneira de repor a sua rentabilidade. Mas h\u00e1 muitas outras medidas poss\u00edveis, bastava que o capital financeiro n\u00e3o fosse t\u00e3o voraz como \u00e9 no Brasil, que tem as taxas de juros mais elevadas do mundo. E que 7,9% do PIB \u00e9 para pagar os juros da d\u00edvida, coisa que nenhum outro pa\u00eds no mundo faz. <\/p>\n<p>PB! &#8211; Que tempo \u00e9 esse da reinven\u00e7\u00e3o das esquerdas, subt\u00edtulo do seu livro? <\/p>\n<p>BSS &#8211; \u00c9 muito dif\u00edcil prever porque os soci\u00f3logos s\u00e3o bons para prever o passado, mas o futuro n\u00e3o somos muito bons. Evidente que com o bombardeamento midi\u00e1tico que se fez, dando sinal das medidas e da demonizar\u00e3o da esquerda e do partido que foi protagonista durante este per\u00edodo, n\u00f3s vamos precisar de um certo tempo, porque a pessoa na rua que n\u00e3o \u00e9 militante come\u00e7a a sentir no bolso o sucateamento do sistema de sa\u00fade, que j\u00e1 \u00e9 fraco mas que vai ser muito mais fraco; o pagamento da educa\u00e7\u00e3o dos seus filhos; a possibilidade de perder a casa e ser despejado; o sal\u00e1rio que vai baixar; a dist\u00e2ncia entre a periferia e o centro, que o Haddad de alguma maneira tinha tentado encurtar vai aumentar; portanto v\u00e3o come\u00e7ar a sentir isso, mas o sofrimento humano nunca \u00e9 ativo politicamente.<\/p>\n<p>O sofrimento pelo sofrimento n\u00e3o vai l\u00e1. \u00c9 preciso organizar-se politicamente, que as for\u00e7as pol\u00edticas, os movimentos sociais e os partidos possam captar a insatisfa\u00e7\u00e3o que se vai gerar. \u201d<\/p>\n<p>Mas leva um pouco de tempo porque as pessoas ainda n\u00e3o viram as consequ\u00eancias. H\u00e1 espa\u00e7o para um partido novo de esquerda, de outro tipo.<\/p>\n<p>PB! &#8211; Quanto tempo?<\/p>\n<p>BSS &#8211; Depende de quanto tempo de doutrina\u00e7\u00e3o. A doutrina\u00e7\u00e3o tem muitos limites, ela n\u00e3o consegue doutrinar completamente porque os seres humanos vivem na Hist\u00f3ria e fora da Hist\u00f3ria. Ningu\u00e9m esperaria que Portugal fosse criativo politicamente e agora foi criativo. Amanha pode ser o Brasil, pode ser outro pa\u00eds. O que \u00e9 preciso \u00e9 o poder de agrega\u00e7\u00e3o das for\u00e7as de esquerda \u2013 e n\u00e3o vai ser f\u00e1cil. Vai ser dif\u00edcil. O que aconteceu com Jeremy Corbin, que ningu\u00e9m esperava, diferente dos jovens que criaram o Podemos, os jovens ingleses decidiram inscrever-se em massa no Partido Trabalhista. Foi o que o levou ao poder. Eles achavam que o partido tinha sido completamente descaracterizado por Tony Blair, tinha apoiado a guerra no Iraque e feito todas aquelas estripulias. Atrav\u00e9s de uma inscri\u00e7\u00e3o massiva, alteraram a pol\u00edtica do partido.<\/p>\n<p>No Brasil, eu corro o Brasil todo, o jovens n\u00e3o est\u00e3o a sentir-se atra\u00eddos de maneira nenhuma pelo PT, alguns pelo PSOL, mas eu trabalho muito com rappers, s\u00e3o esses os jovens que eu vejo, que est\u00e3o a fazer uma atividade pol\u00edtica extraordin\u00e1ria neste Pa\u00eds mas fora do movimento partid\u00e1rio. Isso vai durar algum tempo, n\u00e3o sabemos como v\u00e3o se reorganizar, penso que h\u00e1 efetivamente espa\u00e7o para um partido novo de esquerda, de outro tipo. <\/p>\n<p>PB! &#8211; Qual a sua opini\u00e3o sobre a presen\u00e7a do ex-presidente Lula na crise e no processo de sa\u00edda da crise?<\/p>\n<p>BSS &#8211; O ex-presidente Lula \u00e9 tanto parte do problema como \u00e9 parte da solu\u00e7\u00e3o. Eu tenho respeito por ele, sou amigo dele. \u00c9 um homem que sem d\u00favida \u00e9 a figura mais not\u00e1vel da Hist\u00f3ria do Brasil depois da Independ\u00eancia. \u00c9 a quem o Brasil deve, para sempre, tem uma d\u00edvida absolutamente extraordin\u00e1ria. Mas \u00e9 evidente que \u00e9 um homem ref\u00e9m do seu passado, como tamb\u00e9m todos n\u00f3s somos. \u00c9 um homem que teve como ningu\u00e9m mais tem, e como n\u00e3o teve a presidente Dilma, a capacidade de conciliar classes. \u00c9 uma pessoa que realmente conseguiu fazer uma pol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o muito forte. Isso \u00e9 um trabalho not\u00e1vel que ele realizou e que transformou o Brasil. O Brasil \u00e9 hoje muito diferente de 2003. E o legado dele vai se dar at\u00e9 contra ele, mas foi devido a ele que hoje as pessoas pensam o que pensam no Brasil. A possibilidade de uma sociedade melhor.<\/p>\n<p>O presidente Lula, evidente que neste momento, como n\u00e3o houve renova\u00e7\u00e3o nos partidos de esquerda, \u00e9 o \u00fanico nome da esquerda com alguma viabilidade para ganhar as elei\u00e7\u00f5es. Se a esquerda quer ganhar as elei\u00e7\u00f5es, tem que ser com o presidente Lula. \u00c9 evidente que isso \u00e9 importante para ganhar as elei\u00e7\u00f5es. Agora, com o presidente Lula n\u00e3o vai haver renova\u00e7\u00e3o do PT, n\u00e3o vai haver renova\u00e7\u00e3o pol\u00edtica muito profunda. Porque essa renova\u00e7\u00e3o passa pela transforma\u00e7\u00e3o do PT num partido-movimento, passa pela democracia participativa dentro do partido, como tem o Podemos, passa por uma articula\u00e7\u00e3o com o PSOL e com os movimentos sociais, que eu penso que neste momento, com a l\u00f3gica de concilia\u00e7\u00e3o que o presidente Lula tem no seu imagin\u00e1rio, vai ser muito dif\u00edcil de levar.<\/p>\n<p>Estando Lula n\u00e3o vai ser poss\u00edvel criar outro partido pol\u00edtico. E eu penso que a pol\u00edtica brasileira tem espa\u00e7o, eventualmente para um novo partido a partir dessa mobiliza\u00e7\u00e3o social ainda incipiente. O que \u00e9 curioso \u00e9 que aquilo que em Portugal foi poss\u00edvel unindo as esquerdas pela via partid\u00e1ria, no Brasil est\u00e1 a se fazer via movimentos sociais. Temos duas frentes: Brasil Popular e Povo Sem Medo. S\u00e3o duas articula\u00e7\u00f5es que falam uma com a outra, em que algumas organiza\u00e7\u00f5es est\u00e3o nas duas, portanto eu penso que essa articula\u00e7\u00e3o profunda est\u00e1-se a dar.  Se amanh\u00e3 vai se transformar ou ter uma voz partid\u00e1ria, depende muito do futuro. <\/p>\n<p>O presidente Lula \u00e9 um fator muito importante, evidente que a direita sabe exatamente isso que estou dizendo, h\u00e1 uma fra\u00e7\u00e3o eventualmente da direita mais inteligente que at\u00e9 \u00e9 capaz de pensar que talvez fosse bom que o presidente Lula voltasse \u00e0 Presid\u00eancia, para destruir de uma vez para sempre o mito Lula. Porque ele n\u00e3o vai poder governar como governou, n\u00e3o h\u00e1 uma reforma pol\u00edtica que lhe permita governar de outra maneira, os pre\u00e7os das commodities s\u00e3o o que s\u00e3o e portanto destroi-se o mito de uma vez para sempre. Se ele n\u00e3o voltar a ser presidente, o mito est\u00e1 intacto. A aceita\u00e7\u00e3o que ele continua a ter, que \u00e9 absolutamente not\u00e1vel, \u00e9 que todos os cientistas pol\u00edticos deveriam estudar no mundo, o homem mais demonizado pela imprensa continua a ter aceita\u00e7\u00e3o popular enorme. Foi uma parte muito importante do passado, vai ser uma parte importante do futuro, e essa parte de futuro tem um lado muito claro e outro menos claro. \u00c9 preciso que digamos publicamente que temos consci\u00eancia disso, para pressionar eventualmente um presidente Lula ou um candidato Lula a atenuar um pouco a ideia da concilia\u00e7\u00e3o e a unir-se mais ao movimento popular, que foi tamb\u00e9m a sua tradi\u00e7\u00e3o. S\u00f3 que ele n\u00e3o teve que tomar uma grande posi\u00e7\u00e3o entre uns e outros, era amigo de todos, Lula paz e amor. N\u00f3s n\u00e3o vamos estar numa d\u00e9cada de Lula paz e amor. N\u00e3o h\u00e1 condi\u00e7\u00f5es para isso. <\/p>\n<p>PB! &#8211; Esse momento de crise profunda pode se transformar em oportunidade? <\/p>\n<p>BSS &#8211; \u00c9 um momento interessante na sociedade brasileira, de renova\u00e7\u00e3o. A democracia se defende na rua, neste momento. A rua \u00e9 o \u00fanico espa\u00e7o p\u00fablico que n\u00e3o \u00e9 colonizado pelo mercado financeiro, portanto \u00e9 um espa\u00e7o importante de manifesta\u00e7\u00f5es pac\u00edficas. Vai ser problem\u00e1tico porque vai haver infiltrados e agentes provocadores para provocar viol\u00eancia, dizer que s\u00e3o todos violentos e suscitar a brutalidade policial.<\/p>\n<p>A rua \u00e9 muito boa para manifestar as aspira\u00e7\u00f5es pol\u00edticas das classes populares e dos jovens, mas n\u00e3o pode formular pol\u00edtica, ela n\u00e3o \u00e9 capaz de formular pol\u00edtica. Tudo isso vai levar o seu tempo. <\/p>\n<p>O grande problema \u00e9 que essa crise de hegemonia pode entrar em uma crise social muito forte. Que desagrega o tecido social.\u201d<\/p>\n<p>Mas o Brasil vai se reinventar. As crises, se n\u00e3o forem permanentes \u2013 e o neoliberalismo quer a crise permanente porque assim a crise se transforma ela pr\u00f3pria em solu\u00e7\u00e3o e destr\u00f3i a oportunidade \u2013 e essa no Brasil n\u00e3o \u00e9 porque \u00e9 uma crise pol\u00edtica, de hegemonia e econ\u00f4mica, cria oportunidades. Vamos ver como o campo popular se articula, pode reagir pela reposi\u00e7\u00e3o das energias democr\u00e1ticas e por isso as Diretas J\u00e1 \u00e9 uma sinaliza\u00e7\u00e3o nesse sentido. O importante \u00e9 bloquear as medidas. Esta \u00e9 a luta em que o Brasil vai estar metido nos pr\u00f3ximos tempos.  <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na P\u00e1guna B &#8211; O soci\u00f3logo portugu\u00eas Boaventura de Sousa Santos, que estuda o Brasil, a democracia e as esquerdas, afirma que \u00e9 preciso inventar um novo partido pol\u00edtico<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-13351","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-3tl","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13351","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13351"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13351\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13353,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13351\/revisions\/13353"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13351"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13351"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13351"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}