{"id":13431,"date":"2017-09-04T11:15:05","date_gmt":"2017-09-04T15:15:05","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=13431"},"modified":"2017-09-04T11:15:05","modified_gmt":"2017-09-04T15:15:05","slug":"cultivando-o-odio-semeando-a-ditadura","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2017\/09\/04\/cultivando-o-odio-semeando-a-ditadura\/","title":{"rendered":"Cultivando o \u00f3dio, semeando a ditadura"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"13432\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2017\/09\/04\/cultivando-o-odio-semeando-a-ditadura\/discurso-do-dio-730x482\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/discurso-do-dio-730x482.jpg?fit=730%2C482\" data-orig-size=\"730,482\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"discurso-do-dio-730&amp;#215;482\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/discurso-do-dio-730x482.jpg?fit=300%2C198\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/discurso-do-dio-730x482.jpg?fit=600%2C396\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/discurso-do-dio-730x482.jpg?resize=600%2C396\" alt=\"discurso-do-dio-730x482\" width=\"600\" height=\"396\" class=\"alignnone size-full wp-image-13432\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/discurso-do-dio-730x482.jpg?resize=730%2C482 730w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/discurso-do-dio-730x482.jpg?resize=300%2C198 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/discurso-do-dio-730x482.jpg?resize=454%2C300 454w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p>Em Cartas Prof\u00e9ticas, por Roberto Bueno &#8211; Quem desperta e dissemina o \u00f3dio nem sempre tem suficientemente claras as consequ\u00eancias de suas a\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o raro as t\u00eam, e sem preocupa\u00e7\u00e3o em evit\u00e1-las. Aqueles que alimentam as condi\u00e7\u00f5es do enfrentamento insistem levianamente em desprezar as vidas de seus contempor\u00e2neos e tamb\u00e9m as condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia das gera\u00e7\u00f5es vindouras, e a deteriora\u00e7\u00e3o ambiental assim o exemplifica. Aqueles que projetam dias perpassados pelo compartilhamento da cultura do \u00f3dio e da nega\u00e7\u00e3o do outro e das diferen\u00e7as entre os humanos semeiam a mancheia o f\u00e9rtil territ\u00f3rio onde a apreens\u00e3o e o medo cultiva o espa\u00e7o que logo cobrar\u00e1 denso jorro de sangue.<!--more--><\/p>\n<p>Neste territ\u00f3rio em que reina o temer recordamos a precisa identifica\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria de Ernst J\u00fcnger, narrador entre trincheiras das aventuras sanguin\u00e1rias da Primeira Grande Guerra Mundial. Em sua premiada obra apontava os pavores testemunhados na qualidade de ator com seu singular brilhantismo est\u00e9tico-liter\u00e1ria: \u201cInstantes como \u00e9stos en una patrulla nocturna son inolvidables. Ojos y o\u00eddos se tensan al m\u00e1ximo; el cada vez m\u00e1s cercano crujido de unos pies extra\u00f1os que caminan sobre la alta hierba adquiere una intensidad amenazadora y fat\u00eddica; la respiraci\u00f3n se hace entrecortada y uno ha de esforzarse en reprimir las dolorosas contracciones del jadeo; el seguro de la pistola salta hacia atr\u00e1s con un leve chasquido y ese sonido atraviesa los nervios como un cuchillo; los dientes rechinan al morder la mecha de la granada de mano\u201d. Esta \u00e9 a descri\u00e7\u00e3o de um ponto futuro que come\u00e7a com a radicaliza\u00e7\u00e3o desenfreada marcada pela designa\u00e7\u00e3o do outropol\u00edtico como criminoso a quem se reserva apenas o exterm\u00ednio como alternativa poss\u00edvel para uma suposta pacifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A narrativa de J\u00fcnger \u00e9 a de um momento em que a ret\u00f3rica do \u00f3dio j\u00e1 triunfara, e se passava do mundo das palavras ao das a\u00e7\u00f5es, e ali \u00e9 onde o homem concretiza a tens\u00e3o m\u00e1xima, dispondo sobre o campo de batalha toda a for\u00e7a de sua mente disposta a sobreviver. Ali \u00e9 realizado o tensionamento no limite das capacidades humanas, projetando-as sobre o corpo que, na imin\u00eancia do embate \u00faltimo, recebe a pesada carga de manter aquela unidade existencial em vida em face da iminente e letal amea\u00e7a. Este \u00e9 o momento dadesraz\u00e3o supina capaz de produzir o mai\u00fasculo horror, cujos instantes pr\u00e9vios s\u00e3o tamb\u00e9m descritos pela literatura j\u00fcngeriana como o alerta do homem para um \u201cBreve y mort\u00edfero [\u2026] choque\u201d, aquele momento definidor, e definitivo, onde as sensa\u00e7\u00f5es precisam estar alertas, todas as percep\u00e7\u00f5es agu\u00e7adas, pois e naquele \u00e1timo de segundo que tudo ser\u00e1 decidido, o ser e o n\u00e3o-ser, enfim, a defini\u00e7\u00e3o entre o ser ca\u00e7ador ou a ca\u00e7a. A transposi\u00e7\u00e3o desta realidade de enfrentamento \u00faltimo para tempos de pol\u00edtica ordin\u00e1ria \u00e9 poss\u00edvel somente atrav\u00e9s do empenho de psicopatas travestidos de senhores da representa\u00e7\u00e3o, mentores de grupos que oscilam entre a inconsequ\u00eancia e a irresponsabilidade crua, na imin\u00eancia de cruzar os limites para a criminalidade penal, ao propor o exterm\u00ednio da alteridade e dos homens e mulheres com h\u00e1bitos diversos a sua padroniza\u00e7\u00e3o como crit\u00e9rio suficiente para enquadramento legal.<\/p>\n<p>Mas se \u00e9 mesmo tudo assim o sistema, t\u00e3o vil e b\u00e1rbaro, por qual motivo os homens deixam conduzir os seus corpos rumo ao sofrimento e, no limite, ao exterm\u00ednio? Se \u00e9 mesmo o enfrentamento a raiz da radicalidade do mal, ent\u00e3o, por qual motivo os homens se deixam conduzir perigosamente rumo ao abismo? Talvez uma das chaves seja a \u00e2nsia da posse, o desenfreado desejo pela propriedade, a furibunda capacidade de sobrepor o mundo da deten\u00e7\u00e3o de bens ao mundo da cria\u00e7\u00e3o existencial interior capaz, e apenas ela, de constituir o eixo de equil\u00edbrio e forte sustent\u00e1culo para a pacifica\u00e7\u00e3o do humano. Este \u00e9 o cruzamento entre a civiliza\u00e7\u00e3o conhecida e outra ainda por conhecer. Hoje, contudo, \u00e9 o velho que se apresenta sem faces nem disfarces, eis que o n\u00facleo duro do Estado est\u00e1 constitu\u00eddo por casta de agentes p\u00fablicos formados culturalmente sob a \u00e9gide deste velho mundo em que receber barrotes de ouro em pa\u00eds sacrificado pela mis\u00e9ria ainda \u00e9 compreendido como chave de honorabilidade e signo de distin\u00e7\u00e3o. Estas s\u00e3o as figuras de um triste passado que j\u00e1 morreu mas que ainda n\u00e3o teve o seu atestado de defun\u00e7\u00e3o assinado e devidamente publicado para conhecimento geral, sen\u00e3o em si mesmas.<\/p>\n<p>Continua a triunfar esta desmesura em favor das castas, ornamentando o brilho dourado em homens e mulheres sedentos de mais em meio \u00e0 decad\u00eancia, or\u00e7amentos extraordin\u00e1rios de poderes togados alcan\u00e7ando a \u00f3rbita de bilh\u00e3o e meio de reais que supera sem vergonha ou pudor a rubrica do investimento federal em saneamento p\u00fablico, pois assim podem estes coroados, como disse o juiz Renato Nalini, ir comprar seus suntuosos ternos, um para cada dia da semana. As sociedades latinas deglutem a duras penas o triunfo de uma cultura imposta cuja orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e econ\u00f4mica \u00e9 a do desligamento do homem da valora\u00e7\u00e3o de suas mais subjetivas experi\u00eancias, resumindo pauperrimamente todo o mundo dos valores em um \u00fanico apenas, o vil metal, mediador e representante \u00faltimo de tudo como medidor das aproxima\u00e7\u00f5es humanas, e este \u00e9 o movimento que interessa \u00e0 oligarquia manter. A representa\u00e7\u00e3o da pobreza e da mis\u00e9ria \u00e9 feita por Antonio Negri como habitando a subjetividade de homens e mulheres que j\u00e1 n\u00e3o tem mais nenhuma rela\u00e7\u00e3o com o valor, mas acaso esta oligarquia que os conduz \u00e0s portas do abismo sup\u00f5e que os seus organismos n\u00e3o exercer\u00e3o o seu natural instinto de sobreviv\u00eancia?<\/p>\n<p>Tenho aguda percep\u00e7\u00e3o de que j\u00e1 n\u00e3o falo para estes tempos, mas se \u00e9 certo dizer que n\u00e3o se trata de eliminar a moeda e o conjunto de fun\u00e7\u00f5es que exerce, isto sim, se trata de ressignificar o seu papel, de eliminar o valor social que foi emprestado a este instrumento como forma de media\u00e7\u00e3o de praticamente toda e qualquer rela\u00e7\u00e3o humana. Hoje ela opera como um vicioso c\u00edrculo, eis que se fecha sobre si, alimentando as condi\u00e7\u00f5es para o incremento de posses e posses, exceto de sua subjetividade, desencontrada em meio a tanto pertences, como um belo e raro t\u00edtulo perdido em um velho antiqu\u00e1rio desordenado. Nada disto \u00e9 poss\u00edvel sem pr\u00e9vio passo como o identificado por Antonio Negri, que sup\u00f5e a necessidade de \u201c[\u2026] arrancar dos mercados a sua capacidade de dominar o dinheiro e sobre essa base determinar hierarquias, estruturas de comando e, sobretudo, distribuir a possibilidade de fazer coisas, realizar desejos\u201d. Esta estrat\u00e9gia evidencia o teor da reapropria\u00e7\u00e3o de homens e mulheres de suas vidas \u2013 corpos, tempos e afetos \u2013 hoje alienados em favor do sistema econ\u00f4mico cuja oligarquia apresenta-se sob a ret\u00f3rica triunfadora de renatos te\u00f3logos medievais, prometendo a reden\u00e7\u00e3o em long\u00ednquas e transcendentais plagas.<\/p>\n<p>O neoliberalismo habita a mente daqueles que creem que a natureza deixada a operar livremente produzir\u00e1 alguma ordem, qui\u00e7\u00e1, ainda uma m\u00ednima no\u00e7\u00e3o de equidade social capaz de motivar a almejada seguran\u00e7a social. Contudo, quando pere\u00e7am homens e mulheres, crian\u00e7as e idosos, assim, atirados ao l\u00e9u, como em nenhum dos pa\u00edses socialmente ordenados ocorre, peculiaridade que n\u00e3o pode menos do que exercer atra\u00e7\u00e3o por parte de qualquer ser humano sensato. O neoliberal \u00e9 algu\u00e9m distante desta realidade, pois concentra-se na (re)produ\u00e7\u00e3o de riqueza exponencial, a qualquer custo, na promo\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es da concentra\u00e7\u00e3o de recursos em escassas m\u00e3os dispostas a sacrificar quaisquer outros fins humanos. Sem embargo, \u00e9 precisamente neste momento em que a sua radicalidade atinge os limites do inaudito, pois ao esquecer completamente o momento do enfrentamento \u00faltimo em que colocam os homens e mulheres o seu sistema ruir\u00e1. Ao interditar qualquer op\u00e7\u00e3o de vida em suas organiza\u00e7\u00f5es sociopol\u00edticas a uma massa de homens e mulheres, tudo quanto lhes restar\u00e1 ser\u00e1 aquela sensa\u00e7\u00e3o de frieza do soldado j\u00fcngeriano a ranger os dentes ao retirar o pino da granada, antecipando em seu \u00edntimo o que o autor descreveu como uma sensa\u00e7\u00e3o singular antecipadora do iminente choque breve e mort\u00edfero, aquele momento em que \u201cUno tiembla entre dos sensaciones dolorosas: la acrecentada excitaci\u00f3n del cazador y la angustia de la pieza de caza\u201d. Este \u00e9 o \u00faltimo passo antes da destrui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A imposi\u00e7\u00e3o de ordem social em que temer \u00e9 o paradigma desenha todo o press\u00e1gio do mal poss\u00edvel. Homens e mulheres s\u00e3o colocados contra a parede por lun\u00e1ticas vers\u00f5es da Santa Inquisi\u00e7\u00e3o em sua moderna formata\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, quando desembainham as suas espadas redentoras estes renatos guerreiros santificados e dispostos a derramar o sangue em nome dos santos princ\u00edpios da doutrina neoliberal. Neste ato saberemos que s\u00e3o falsificadores da pr\u00f3pria teologia, pois conhecemos que nenhuma convida o humano \u00e0 barb\u00e1rie. Neste cen\u00e1rio contempor\u00e2neo assistimos a raz\u00e3o teol\u00f3gica medieval inquisit\u00f3ria sendo recepcionada pelo mundo econ\u00f4mico em que a suposta benevol\u00eancia de long\u00ednquos fins justificaria a aplica\u00e7\u00e3o de transgressores meios.<\/p>\n<p>Emerge destas profundezas a raiz da inaudita e malfajeza figura do perfil de um economista-te\u00f3logo. Ele n\u00e3o conhecer\u00e1 limites nem sacrif\u00edcios impag\u00e1veis para impor a sua raz\u00e3o econ\u00f4mico-teol\u00f3gica e, assim, por linhas transversas, cumprir\u00e1 prazerosamente o fim de violar o declarado respeito liberal pela democracia. Neste sentido terminar\u00e1 por realizar a antecipa\u00e7\u00e3o de Raymond Aron, intelectual que esteve demasiado distante de ser considerado socialista, nem sequer um social-democrata, neoliberal que foi. Mas foi ele a afirmar que a doutrina econ\u00f4mica de homens como o economista franc\u00eas Jacques Rueff e de von Hayek n\u00e3o poderia realizar-se sen\u00e3o sob um espec\u00edfico e bem determinado contexto pol\u00edtico, a saber, a ditadura. Portanto, \u00e9 atrav\u00e9s da voz de um neoliberal que somos informados desta sua afinidade te\u00f3rica com as ditaduras e, afinal, quem duvidaria que isto se confirmou no plano emp\u00edrico quando observamos o testemunho hist\u00f3rico da assessoria de Milton Friedman a Pinochet e, nos dias em curso, das v\u00e1rias estrat\u00e9gias para suprimir da popula\u00e7\u00e3o o acesso a assist\u00eancia m\u00e9dica, a educa\u00e7\u00e3o e ao emprego?<\/p>\n<p>Antes que a ditadura neoliberal hayekiana se constitua de modo inexor\u00e1vel e, assim, o mal radical, a \u00fanica sa\u00edda \u00e9 a de reinventar o processo constituinte, ou seja, o poder pol\u00edtico origin\u00e1rio atrav\u00e9s do qual o povo outorgue a si os princ\u00edpios e leis que devem reg\u00ea-lo. Esta \u00e9 uma nota essencialmente democr\u00e1tica e isto realiza o que Vladimir Safatle preconiza como a \u201c[\u2026] transfer\u00eancia do poder para inst\u00e2ncias de decis\u00e3o popular que podem e devem ser convocadas de maneira cont\u00ednua\u201d. Esta nova resid\u00eancia do n\u00facleo duro do poder \u00e9 capaz de contribuir de forma decisiva para a consolida\u00e7\u00e3o da democracia, mas isto efetivamente n\u00e3o interessa aos oligarcas que historicamente d\u00e3o as cartas, que n\u00e3o apoiar\u00e3o a retomada da pol\u00edtica (democr\u00e1tico-popular) em preju\u00edzo da manuten\u00e7\u00e3o do poder, e assim cumprem com o teor da observa\u00e7\u00e3o de Vladimir Safatle de que h\u00e1 os que temem a pol\u00edtica pretendendo substitu\u00ed-la pela pol\u00edcia.<\/p>\n<p>Mas se o objetivo \u00e9 a democratiza\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da retomada do poder, ent\u00e3o, o primeiro e necess\u00e1rio passo \u00e9 \u201cdesoligarquizar\u201d as inst\u00e2ncias de representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, elevar os homens m\u00e9dios ordin\u00e1rios \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de realizadores da pol\u00edtica, algo que certamente desarticula desde dentro a armadilha detectada j\u00e1 h\u00e1 muito por Darcy Ribeiro, a saber, de uma sociedade em que o desajustamento tende a crescer t\u00e3o intensamente que \u201c[\u2026] alguns setores da f\u00f4r\u00e7a de trabalho; produzindo, depois, massas de deslocados e gerando, por \u00faltimo, multid\u00f5es de marginalizados social e ocupacionalmente [\u2026]\u201d. Armadilha que precisa ser decomposta, passo seguinte, convergimos com Antonio Negri ao propor a necessidade de \u201cModelar o desejo da singularidade para constru\u00ed-lo como elemento coletivo ao interior de experi\u00eancias que permanecem irredutivelmente libert\u00e1rias\u201d. \u00c9 preciso, portanto, fugir \u00e0 l\u00f3gica da ca\u00e7a e do ca\u00e7ador exposta pela literatura de guerra de Ernst J\u00fcnger, pois isto \u00e9 o que hoje vigora na l\u00f3gica imposta pela oligarquia dominante do mercado.<\/p>\n<p>A oligarquia dominante do mercado \u00e9 que, em \u00faltima an\u00e1lise, cumpre e bem constr\u00f3i o cen\u00e1rio ideol\u00f3gico que Roberto Aguiar aponta h\u00e1 muito que precisamos suplantar para constituir novas e libert\u00e1rias rela\u00e7\u00f5es humanas, e o cen\u00e1rio olig\u00e1rquico a vencer \u00e9 precisamente aquele de explora\u00e7\u00e3o de um ser humano por outro, pois nestes termos \u00e9 visceralmente \u201c[\u2026] imposs\u00edvel falar em liberdade quando um vive de sugar a energia de outro, quando poucos usufruem do trabalho de muitos, e quando muitos n\u00e3o podem pensar e agir sen\u00e3o conforme as normas e padr\u00f5es de poucos\u201d. \u00c9 preciso vencer o discurso acachapante do temor, o profundo e enraizado receio de realizar um outro modelo de sociedade cal\u00e7ado em rela\u00e7\u00f5es trabalhistas e humanas que discrepem ao da acelera\u00e7\u00e3o impar\u00e1vel rumo ao abismo conduzido pela l\u00f3gica ditatorial neoliberal. O rumo da destrui\u00e7\u00e3o \u00e9 a tentativa de brecar j\u00e1 \u00e0 beira do abismo quando, expostos e j\u00e1 sem op\u00e7\u00f5es, devem emergir homens e mulheres com a coragem singular do soldado j\u00fcngeriano para enfrentar a sua \u00fanica chance de vida.<\/p>\n<p>Roberto Bueno. Professor universit\u00e1rio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em Cartas Prof\u00e9ticas, por Roberto Bueno &#8211; Quem desperta e dissemina o \u00f3dio nem sempre tem suficientemente claras as consequ\u00eancias de suas a\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o raro as t\u00eam, e sem preocupa\u00e7\u00e3o em evit\u00e1-las. 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