{"id":13445,"date":"2017-09-05T09:26:50","date_gmt":"2017-09-05T13:26:50","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=13445"},"modified":"2017-09-05T09:26:50","modified_gmt":"2017-09-05T13:26:50","slug":"fiando-o-destino-re-existindo-a-vida-maria-cecilia-barbara-wetten","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2017\/09\/05\/fiando-o-destino-re-existindo-a-vida-maria-cecilia-barbara-wetten\/","title":{"rendered":"FIANDO O DESTINO \u2013 RE-EXISTINDO A VIDA: MARIA CEC\u00cdLIA B\u00c1RBARA WETTEN"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"13448\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2017\/09\/05\/fiando-o-destino-re-existindo-a-vida-maria-cecilia-barbara-wetten\/cecilia-1\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/cecilia-1.png?fit=768%2C480\" data-orig-size=\"768,480\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"cecilia-1\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/cecilia-1.png?fit=300%2C188\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/cecilia-1.png?fit=600%2C375\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/cecilia-1.png?resize=600%2C375\" alt=\"cecilia-1\" width=\"600\" height=\"375\" class=\"alignnone size-full wp-image-13448\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/cecilia-1.png?w=768 768w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/cecilia-1.png?resize=300%2C188 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/cecilia-1.png?resize=480%2C300 480w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><br \/>\n(foto  de Nilson Santos)<\/p>\n<p>Por Elisabete Christofoletti<!--more--><\/p>\n<p>\u201cNo Cosmos, como na vida humana, tudo est\u00e1 ligado atrav\u00e9s de uma textura invis\u00edvel.\u201d<\/p>\n<p>Mircea Eliade<\/p>\n<p>As Valqu\u00edrias, na mitologia germ\u00e2nica, chamavam para si o papel de fiandeiras do destino, e o faziam em um tear espectral, durante a morte dos seus guerreiros no campo de batalha, cantando, teciam o destino usando o sangue dos guerreiros mortos, como mat\u00e9ria-prima.<\/p>\n<p>Para que n\u00e3o tenhamos, nunca mais, sangue derramado pela dificuldade em ser tolerante com as diferen\u00e7as, sejam elas quais forem, este minha narrativa \u00e9 para Cec\u00edlia Wetten.<\/p>\n<p>(Esta \u00e9 uma cela, do antigo Deops\/SP-departamento estadual de ordem pol\u00edtica e social de s\u00e3o paulo. Um dos locais onde os presos pol\u00edticos eram levados e ficou famosa por ser uma das pol\u00edcias pol\u00edticas mais truculentas do pa\u00eds, principalemnte durante o regime militar. Hoje abriga o Memorial da Resist\u00eancia e est\u00e1 vinculado \u00e0 Pinacoteca do Estado de S\u00e3o Paulo. Caso queira conhecer um pouco mais deste projeto, acesse:  http:\/\/www.memorialdaresistenciasp.org.br\/index.php?option=com_content&#038;view=article&#038;id=8&#038;Itemid=14. )<\/p>\n<p>Quando vi o chamado do Conselho Federal de Psicologia para partilharmos viv\u00eancias que remetem a ditadura no Brasil, parei por um momento e pensei se poderia contribuir.<\/p>\n<p>S\u00e3o tantos os relatos de pessoas pr\u00f3ximas, outras nem tanto, mas sempre de agress\u00e3o, viol\u00eancia ao corpo e a Alma sofridos durante a ditadura militar no Brasil que decidi partilhar da viv\u00eancia que tive com uma dessas pessoas, o nome dela: Maria Cec\u00edlia B\u00e1rbara Wetten, que para mim sempre foi somente e tudo Cec\u00edlia.<\/p>\n<p>Das conviv\u00eancias que tive\/tenho com pessoas que tiveram: seu corpo torturado e violado, a livre express\u00e3o dos pensamentos e sua Alma dilacerada, noto como as rea\u00e7\u00f5es entre um e outro s\u00e3o t\u00e3o diferentes na forma de sobre-viver, alguns tombando, outros resistindo e outros ainda re-existindo.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>H\u00e1 pessoas que se tornaram vi\u00favas do AI5, que nunca conseguiram se desvincular da agress\u00e3o vivida. O cora\u00e7\u00e3o cheira amargura, tristeza, e quase sempre depress\u00e3o. Ficaram contaminadas pelo que de pior o per\u00edodo teve. Conviver com estas pessoas n\u00e3o \u00e9 tarefa f\u00e1cil. A dor toma forma de uma estrutura r\u00edgida, escura, com cheiro indescrit\u00edvel, o humor comprometido e com a capacidade de amar ou de expressar o amor presa numa viv\u00eancia de Prometeu. A aridez se associa as reclama\u00e7\u00f5es, queixas, insatisfa\u00e7\u00f5es que n\u00e3o conseguem acessar a criatividade. N\u00e3o h\u00e1 vida fluida.<\/p>\n<p>Torna-se muito dif\u00edcil libertar-se do sofrimento, nem sempre viver assim \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o, mas algumas \u00e9 pela falta dela. Pela aus\u00eancia de recursos suficientes para se ter coragem de enfrentar a si mesmo de outra forma.<\/p>\n<p>Tornan-se solit\u00e1rias, duras na forma de se relacionar e terminam n\u00e3o conseguindo ter muita toler\u00e2ncia consigo e com o outro. Talvez uma maneira de proteger-se de novas frustra\u00e7\u00f5es e de novas perdas. Afinal, se n\u00e3o vincula, n\u00e3o corre grandes riscos, mas tamb\u00e9m n\u00e3o tem a alma nutrida.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>Outra forma de continuar a viver depois de sofrida a tortura manifesta-se, como tenho observado, por um sentimento de inc\u00f4modo muito grande que toma a pessoa. \u00c9 um reviver constante das mesmas hist\u00f3rias, como uma viv\u00eancia de S\u00edsifo.<\/p>\n<p>S\u00edsifo na mitologia, recebe um castigo, depois de demonstrar publicamente sua ast\u00facia e rebeldia frente aos des\u00edgnios divinos, era um inconformado. Como puni\u00e7\u00e3o foi condenado a empurrar uma pedra ladeira acima, precisando deix\u00e1-la no topo para cumprir sua tarefa e ser dela liberado. Mas esta era a quest\u00e3o. Toda vez que Sisifo chegava com a pedra bem perto de finalizar, ela rolava ladeira abaixo, e ele mais uma vez re-iniciava seu trabalho.<\/p>\n<p>S\u00edsifo n\u00e3o desistia, apesar de saber que era uma puni\u00e7\u00e3o divina e por isso poderosa (como nosso regime militar) n\u00e3o desistia e fazia mais uma vez e outra o mesmo caminho, por\u00e9m de forma diferente.<\/p>\n<p>S\u00edsifo embora estivesse preso a seu trajeto e \u00e0 sua tarefa, na interpreta\u00e7\u00e3o do mito que entendo mais significativa, o fazia de forma diferente. O mesmo trajeto, a mesma tarefa, mas sempre reiniciando a trajet\u00f3ria com a pedra. Assim constituindo aspectos novos desse homem constantemente. O novo se d\u00e1 dentro do velho, do j\u00e1 conhecido.<\/p>\n<p>Presas em suas hist\u00f3rias, em suas dores e feridas, no contar e re-contar foram agregando novas possibilidades para si mesmos, na mesma hist\u00f3ria. Mas continuam na dor, identificada com ela. Existem hist\u00f3ria de vida, do S\u00edsifo-torturado, em que sua sobreviv\u00eancia depende desse estar na dor.<\/p>\n<p>Talvez tenhamos aqui uma das v\u00e1rias resultantes da tortura, a incapacidade de sentir-se com potencilal para fazer uma outra hist\u00f3ria, de ter outra vida, elaborar de forma antrop\u00f3faga a experi\u00eancia da tortura. Fica-se com um modelo j\u00e1 conhecido, que embora remeta a dor constantemente, se sabe qual \u00e9 e como \u00e9. Uma aparente seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>Vejo ainda mais uma maneira de elaborar as feridas da tortura, da viol\u00eancia na viv\u00eancia do centauro Qu\u00edron, que tamb\u00e9m est\u00e1 presente na constitui\u00e7\u00e3o da viv\u00eancia do ser psic\u00f3logo, quando re-conhecemos a dor daquele a quem acolhemos, falo aqui do arqu\u00e9tipo do curador ferido.<\/p>\n<p>Neste grupo est\u00e3o as pessoas que conheci e n\u00e3o se identificaram com suas pr\u00f3prias feridas, eles a reconheceram, entraram em contato de maneira profunda, se identificaram, mas n\u00e3o se prenderam, conseguem dialogar com a dor, enfrent\u00e1-la e re-existir com ela, nela e apesar dela. N\u00e3o precisando permanecer vinculadas, nem neg\u00e1-las, o que poderia facilitar uma experi\u00eancia com seu oposto, o que poderia significar tamb\u00e9m permanecer na dor.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"13447\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2017\/09\/05\/fiando-o-destino-re-existindo-a-vida-maria-cecilia-barbara-wetten\/cecilia-2\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/cecilia-2.png?fit=768%2C480\" data-orig-size=\"768,480\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"cecilia-2\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/cecilia-2.png?fit=300%2C188\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/cecilia-2.png?fit=600%2C375\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/cecilia-2.png?resize=600%2C375\" alt=\"cecilia-2\" width=\"600\" height=\"375\" class=\"alignnone size-full wp-image-13447\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/cecilia-2.png?w=768 768w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/cecilia-2.png?resize=300%2C188 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/cecilia-2.png?resize=480%2C300 480w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/> <\/p>\n<p>(foto de Elisabete Christofoletti)<\/p>\n<p>Sim, mas e Cec\u00edlia? Onde est\u00e1 nisso tudo? Vamos descobrir.<\/p>\n<p>Tentei resgatar qual a imagem mais presente que tenho dela e tive muita dificuldade para selecionar, s\u00f3 ent\u00e3o me dei conta que nunca consegui enxergar Cec\u00edlia de uma forma predominante, apesar de quase monocrom\u00e1tica ela era colorida e continua presente em minha vida at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Cec\u00edlia deve ter sido uma mo\u00e7a muito bonita.<\/p>\n<p>Quando a conheci j\u00e1 tinha a forma f\u00edsica, ps\u00edquica que os por\u00f5es da tortura insistiram em dar a ela.<\/p>\n<p>Seus cabelos eram longos, descuidados e ralos, divididos ao meio, sempre soltos, ca\u00eddos, como se quisesse ou precisasse camuflar o rosto (para mim fruto da necessidade de se esconder, medo de ser vista, enxergada e reconhecida), seus olhos eram claros, que mesmo depois de tanta dor, de registrarem o pior do que o ser humano pode fazer que \u00e9 agredir outro humano e com a consci\u00eancia (e que consci\u00eancia!) que tinha do que havia acontecido com ela, eram olhos que tinham na cor uma transpar\u00eancia e bonitos. \u00c0s vezes eles sorriam e mostravam a mocinha que nunca deixou de acreditar que poder\u00edamos transformar o mundo, associada a maturidade dos anos de vida adulta que lhe davam toler\u00e2ncia para os mais jovens que buscavam formas de intervir, mudar a si mesmos, as rela\u00e7\u00f5es pr\u00f3ximas e o mundo. Mas n\u00e3o tinha toler\u00e2ncia com a mentira, com a viol\u00eancia, com a agress\u00e3o, com o medo.<\/p>\n<p>Este contato com os mais jovens, compreendo que dava a ela a esperan\u00e7a de viver novas e diferentes hist\u00f3rias, ela sabia ouvir, tinha interesse genu\u00edno pelo que se dizia e pela pessoa que relatava. O contato com o novo dentro dela mesma era provocado, potencializado por esta proximidade literal com os mais jovens. Entendo que esta tamb\u00e9m era a fun\u00e7\u00e3o dos filhos de Olga (uma amiga), com os quais Cec\u00edlia gostava muito de sair, levar para passear.<\/p>\n<p>Os olhos tamb\u00e9m se escondiam atr\u00e1s de \u00f3culos, agora fiquei em d\u00favida quanto aos \u00f3culos e n\u00e3o tenho nenhuma foto para checar, pois lembro-me de uma que foi tirada em sua ch\u00e1cara, mas n\u00e3o a encontrei, penso que Cec\u00edlia nunca quis ser lembrada por fotos, mas pelo que dividiu conosco durante os anos de conviv\u00eancia.<\/p>\n<p>Fotos! N\u00e3o gostava de aparecer. Quem sabe medo de ser reconhecida, delatada, entregue, apartada das pessoas e dos sonhos que lhe foram t\u00e3o caros.<\/p>\n<p>Se nossos \u00edndios acreditavam que sua Alma ficaria retida, seria roubada, e eles seriam dissociados quando do feitio da foto, Cec\u00edlia emocionalmente sentia-se desnudada ao ser fotografada, ficando vulner\u00e1vel aos agressores, mem\u00f3ria viva, sentida e lembrada em muitos momentos ao longo do dia.<\/p>\n<p>Atitude esta, provocada pelo alto grau de policiamento no regime militar, onde n\u00e3o se podia correr o risco de deixar rastros, coisas que quem precisou fugir por conta da milit\u00e2ncia, ou ainda, quem sabe, Cec\u00edlia, com a consci\u00eancia que tinha, n\u00e3o suportava ver-se destru\u00edda tamb\u00e9m fisicamente, para n\u00e3o precisar reconhecer seu pr\u00f3prio corpo, que estava disforme. Era grande, sem forma definida, era uma gordura que parecia-me estar propositadamente  ali para continuar negando a ela outras possibilidades de identidade, como a de mulher vaidosa. A sensa\u00e7\u00e3o era de que aquele corpo, aquela gordura que n\u00e3o modelava nenhuma forma, seja masculina, feminina, a defendia de algo, quem sabe de si mesma, da possibilidade de amar, do desejo.<\/p>\n<p>Cec\u00edlia teve um namorado durante a ditadura, nunca falou dele comigo, mas sabia. Esta foi mais uma hist\u00f3ria interrompida e utilizada para obrig\u00e1-la a delatar amigos de sonhos pela ideia de transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Viu a pessoa que gostava ser torturado, no livro Brasil: nunca mais, Cec\u00edlia \u00e9 tida como uma pessoa que deu muito trabalho a seus torturadores, pois n\u00e3o delatou e foi a primeira pressa pol\u00edtica a  relatar com detalhes o que se passava nas sess\u00f5es de tortura.<\/p>\n<p>Gritar ao mundo o que se passava nos por\u00f5es da humanidade (parafraseando Carlos Mesters) poderia ser uma maneira de sentir-se menos impotente, menos fr\u00e1gil, menos solit\u00e1ria. O que n\u00e3o se tinha consci\u00eancia, penso, era a atitude de preconceito, medo, das pessoas em deixar transparecer que partilhavam da dor de tantas Cec\u00edlias, n\u00e3o em sua hist\u00f3ria que \u00e9 pessoal porque \u00e9 coletiva, mas nas agress\u00f5es, nas tantas ditaduras que nos impomos, dia ap\u00f3s dia, a partir de nossas mediocridades.<\/p>\n<p>Ela num movimento, instinto de sobreviv\u00eancia, quando percebia que estava ultrapassando seu limite no  consumo de \u00e1lcool interna-se para reorganizar-se e mesmo l\u00e1, como em todos os lugares, vivia suas cren\u00e7as, fazia sua pol\u00edtica, consci\u00eancia para os enfermeiros e pacientes.<\/p>\n<p>Esta para mim foi uma das v\u00e1rias posturas de Cec\u00edlia que mostrava o quanto precisava, queria e era capaz de viver, foi uma pessoa provida de amor.<\/p>\n<p>Vistia-se habitualmente um camis\u00e3o e al\u00e7a comprida. Seu rosto tinha uma forma arredondada e uma pele bem clara.<\/p>\n<p>Cec\u00edlia sempre sentava nos cantos, sempre \u00e0 margem, tentando quem sabe n\u00e3o ficar em evidencia e com isso n\u00e3o sofrer as consequ\u00eancias diretas daqueles que ficam na linha de frente, isso ela j\u00e1 havia vivido, mas sempre estava presente em todas as a\u00e7\u00f5es que pudessem ser transformadoras.<\/p>\n<p>Em certa ocasi\u00e3o, eu e Nilson est\u00e1vamos em casa de Olga, uma amiga em comum e a melhor amiga de Cec\u00edlia, que ajudava a dar contin\u00eancia a ela e ambas entendiam-se em suas dores. Precis\u00e1vamos fazer um alfabeto em pequenos quadrados de madeira, com uma letra em cada um, para utilizar nos C\u00edrculos de Cultura, foi quando Cec\u00edlia nos ensinou a usar seu pir\u00f3grafo e nos emprestou. Guardo essas letras at\u00e9 hoje, depois de terem sido manuseadas por tantas m\u00e3os bem vividas e cheias de hist\u00f3rias. Cec\u00edlia sabia e precisava acreditar que nos ensinando a usar seu instrumento de escrita em madeira, nos deixaria habilitados para dar continuidade a um projeto que poderia ser agregado ao que ela era.<\/p>\n<p>Anos mais tarde, Cec\u00edlia nos presenteou brindando nosso casamento com dois trabalhos dela feito em madeira e marcados com o pir\u00f3grafo. As duas imagens evocam duas figuras completamente opostas: numa aparecia um cangaceiro com chap\u00e9u de couro e uma faca diante dos olhos apontando para frente, e outra, bem distinta mostrava um homem velho, b\u00eabado, sentado com a cabe\u00e7a pendida, sem mostrar o rosto e um dos bra\u00e7os apoiado na mesa, tendo como companhia um cachorro dormindo pr\u00f3ximo a ele. Neste dia, Cec\u00edlia, segurando a gravura do nordestino, nos disse que era isso que nos desejava, que tiv\u00e9ssemos coragem para viver nossa hist\u00f3ria e n\u00e3o nos tornarmos med\u00edocres. Como sempre fazia, n\u00e3o assinou a gravura que fez, n\u00e3o deixou sua marca, n\u00e3o se identificou, apenas deixou sua mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Foi um presente lindo de casamento, ela soube celebrar, tornar sagrado o que est\u00e1vamos vivendo. Para n\u00f3s isso era um casamento, a f\u00e9, a alegria, o amor celebrado com os que nos eram t\u00e3o caros, como Cec\u00edlia.<\/p>\n<p>Olhando para os dois desenhos, duas imagens de uma mesma Cec\u00edlia. De uma lado a representa\u00e7\u00e3o do cangaceiro, homem vinculado a terra, visceral, que utiliza de todos os seus recursos, para viabilizar seu projeto e acredita nas leis de seu grupo, de seu povo. Este \u00e9 um aspecto forte que deixou Cec\u00edlia vulner\u00e1vel para a\u00e7\u00f5es como a dos torturadores.<\/p>\n<p>A segunda imagem, pode representar, evocar esta Cec\u00edlia que n\u00e3o suportando o contato com a realidade, busca atrav\u00e9s do \u00e1lcool alterar a percep\u00e7\u00e3o dela, mas principalmente alterar a percep\u00e7\u00e3o de si pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>Talvez Cec\u00edlia soubesse que embora tenha tentando muito, porque ela gostava de viver, teve sua Alma ferida, porque Valia a Pena Viver, n\u00e3o tinha mais recursos para suportar o mundo.<\/p>\n<p>Dois lados de uma mesma Cec\u00edlia. Lutando e entregue.<\/p>\n<p>Cec\u00edlia, nunca perdeu sua cren\u00e7a na capacidade de amar e ela amava.<\/p>\n<p>Tinha v\u00e1rios cachorros, todos mesti\u00e7os. Quando ia \u00e0 casa de Olga levava sempre um deles consigo e o deixava dentro do carro.<\/p>\n<p>Ia com frequ\u00eancia. Apesar de seu medo de falar em p\u00fablico, geralmente percebido pela gagueira e confus\u00e3o de id\u00e9ias, Olga a ouvia muito, pois tinha sempre boas contribui\u00e7\u00f5es. Olga a pressionava para deixar o alto consumo de vodca, por vezes dizia que precisava que ela a ajudasse a levar os filhos para algum lugar, mas que n\u00e3o poderia confiar a seguran\u00e7a dos filhos a ela por conta do \u00e1lcool. Cec\u00edlia ent\u00e3o ficava v\u00e1rios dias sem beber, pois gostava muito das crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Esta quest\u00e3o da fala \u00e9 importante ser lembrada. Seu discernimento, intelig\u00eancia, maneira de organizar o pensamento era muito elaborado, mas expor-se sempre foi um problema razo\u00e1vel.<\/p>\n<p>Era discrepante v\u00ea-la na cozinha da casa da Olga, enquanto esta trabalhava nas encomendas de pratos, Cec\u00edlia falava, sorria, brigava com Olga quando se fazia necess\u00e1rio (independente da raz\u00e3o ser de uma ou de outra), e tantas e tantas vezes saia como se n\u00e3o fosse voltar nunca mais. Olga sabia que ela voltaria, mas sofria.<\/p>\n<p>Foi uma viv\u00eancia important\u00edssima do arqu\u00e9tipo do fraterno. Uma rela\u00e7\u00e3o de irmandade, permeada pelo amor e cuidado.<\/p>\n<p>Este acolhimento ajudava a Cec\u00edlia encontrar seus recursos para continuar com dignidade.<\/p>\n<p>A rea\u00e7\u00e3o, de introvers\u00e3o, nas situa\u00e7\u00f5es grupais, tamb\u00e9m poderia ser uma maneira de proteger-se, para passar desapercebida. Esta cicatriz de um certo \u201cmedo\u201d de partilhar suas ideias, de t\u00ea-las que esconder \u00e9 fruto da agressor da tortura. Creio que isso nos lembra que as cicatrizes que a agress\u00e3o, o que a viol\u00eancia gera, n\u00e3o pode ser simplesmente apagada, mesmo com um pedido de desculpas. J\u00e1 Marcou!<\/p>\n<p>Foi em sua ch\u00e1cara que outro presente de nosso casamento foi tecido, ponto por ponto. Olga, nossa madrinha de casamento quis nos dar um presente que fosse feito por ela. Al\u00e9m de ex\u00edmia cozinheira, teceu um tapete em croch\u00ea para nossa casa, e grande parte dele foi feito na ch\u00e1cara de Cec\u00edlia, onde nos reun\u00edamos para conversar, o que alegrava muito Cec\u00edlia.<\/p>\n<p>Al\u00ed era seu reduto, uma casa de portas e janelas sempre abertas, com pouca divis\u00e3o interna. Tenho a lembran\u00e7a de um tom azul claro nas paredes, com um pequeno portaozinho de madeira, t\u00edpica casa de s\u00edtio. O ch\u00e3o de terra batida, na entrada, delimitava o termino da varanda.<\/p>\n<p>A primeira vez que entrei, tive a sensa\u00e7\u00e3o de uma volta ao tempo. Fiquei bem impressionada e demorei um pouco para entender. Tudo, tudo nos remetia ao estilo dos anos 60, o per\u00edodo antes da ditadura militar. As paredes carregavam quadros e fotos de Guevara, Fidel, Marx, a luta dos trabalhadores para se organizarem, a resist\u00eancia dos estudantes frente a nova posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Haviam arquivos de jornais, e recortes. Cec\u00edlia tinha um grau de organiza\u00e7\u00e3o muito grande, e viol\u00e3o era visto hora em um lugar, ora em outro, por\u00e9m sempre tocava quando estava s\u00f3.<\/p>\n<p>A medida que sigo falando sobre Cec\u00edlia, sinto-me t\u00e3o pr\u00f3xima dela e com saudades. Saudade dos encontros na casa de Olga, de olhar para ela e sentir que vale a pena.<\/p>\n<p>Muito ficar\u00e1 aqui sem ser dito, permanecer\u00e1 em minha mem\u00f3ria, foi ativada evocada provocada nas conversas com Nilson para o feitio deste e trouxe o cheiro dos tempos de fraternidade.<\/p>\n<p>Assim, divido com voc\u00eas a imagem abaixo, amor perfeito, para Cec\u00edlia.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"13446\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2017\/09\/05\/fiando-o-destino-re-existindo-a-vida-maria-cecilia-barbara-wetten\/cecilia-3\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/cecilia-3.png?fit=768%2C480\" data-orig-size=\"768,480\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"cecilia-3\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/cecilia-3.png?fit=300%2C188\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/cecilia-3.png?fit=600%2C375\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/cecilia-3.png?resize=600%2C375\" alt=\"cecilia-3\" width=\"600\" height=\"375\" class=\"alignnone size-full wp-image-13446\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/cecilia-3.png?w=768 768w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/cecilia-3.png?resize=300%2C188 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/cecilia-3.png?resize=480%2C300 480w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p>(foto de Elisabete Christofoletti)<\/p>\n<p>Para conhecer um pouco melhor da hist\u00f3ria de Cec\u00edlia:<\/p>\n<p>http:\/\/www.memoriaviva.sp.gov.br\/2011\/07\/13\/cecilia-wetten-a-mulher-e-os-movimentos-sociais\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(foto de Nilson Santos) Por Elisabete Christofoletti<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-13445","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-3uR","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13445","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13445"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13445\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13449,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13445\/revisions\/13449"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13445"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13445"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13445"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}