{"id":14469,"date":"2017-10-21T06:28:36","date_gmt":"2017-10-21T10:28:36","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=14469"},"modified":"2017-10-21T06:28:36","modified_gmt":"2017-10-21T10:28:36","slug":"o-cego-estrelinho","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2017\/10\/21\/o-cego-estrelinho\/","title":{"rendered":"O CEGO ESTRELINHO"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"14470\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2017\/10\/21\/o-cego-estrelinho\/8e41015b-d5b7-4a07-a368-08a51a088206\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/8E41015B-D5B7-4A07-A368-08A51A088206.jpeg?fit=400%2C290\" data-orig-size=\"400,290\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"8E41015B-D5B7-4A07-A368-08A51A088206\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/8E41015B-D5B7-4A07-A368-08A51A088206.jpeg?fit=300%2C218\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/8E41015B-D5B7-4A07-A368-08A51A088206.jpeg?fit=400%2C290\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/8E41015B-D5B7-4A07-A368-08A51A088206.jpeg?resize=400%2C290\" alt=\"8E41015B-D5B7-4A07-A368-08A51A088206\" width=\"400\" height=\"290\" class=\"alignnone size-full wp-image-14470\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/8E41015B-D5B7-4A07-A368-08A51A088206.jpeg?w=400 400w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/8E41015B-D5B7-4A07-A368-08A51A088206.jpeg?resize=300%2C218 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/p>\n<p>O cego Estrelinho era pessoa de nenhuma vez: sua hist\u00f3ria poderia ser contada e descontada n\u00e3o fosse seu guia, Gigito Efraim. A m\u00e3o de Gigito conduziu o desvistado por tempos e idades. Aquela m\u00e3o era repartidamente comum, extens\u00e3o de um no outro, siamensal.<!--more--><\/p>\n<p>E assim era quase de nascen\u00e7a. Mem\u00f3ria de Estrelinho tinha cinco dedos e eram os de Gigito postos, em aperto, na sua pr\u00f3pria m\u00e3o.<\/p>\n<p>O cego, curioso, queria saber de tudo. Ele n\u00e3o fazia cerim\u00f3nia no viver. O sempre lhe era pouco e o tudo insuficiente. Dizia, deste modo:<\/p>\n<p>\u2013 Tenho que viver j\u00e1, sen\u00e3o esque\u00e7o-me.<\/p>\n<p>Gigitinho, por\u00e9m, o que descrevia era o que n\u00e3o havia. O mundo que ele minuciava eram fantasias e rendilhados. A imagina\u00e7\u00e3o do guia era mais prof\u00edcua que papaeira. O cego enchia a boca de \u00e1guas:<\/p>\n<p>\u2013 Que maravilha\u00e7\u00e3o esse mundo. Me conte tudo, Gigito!<\/p>\n<p>A m\u00e3o do guia era, afinal, o manuscrito da mentira. Gigito Efraim estava como nunca esteve S. Tom\u00e9: via para n\u00e3o crer. O condutor falava pela ponta dos dedos. Desfolhava o universo, aberto em folhas. A idea\u00e7\u00e3o dele era tal que mesmo o cego, por vezes, acreditava ver. O outro lhe encorajava esses breves enganos:<\/p>\n<p>\u2013 Desbengale-se, voc\u00ea est\u00e1 escolhendo a boa proced\u00eancia!<\/p>\n<p>Mentira: Estrelinho continuava sem ver uma palmeira \u00e0 frente do nariz. Contudo, o cego n\u00e3o se conformava em suas escurezas. Ele cumpria o ditado: n\u00e3o tinha perna e queria dar o pontap\u00e9. S\u00f3 \u00e0 noite, ele desalentava, sofrendo medos mais antigos que a humanidade. Entendia aquilo que, na ra\u00e7a humana, \u00e9 menos primitivo: o animal.<\/p>\n<p>\u2013 Na noite aflige n\u00e3o haver luz?<\/p>\n<p>\u2013 Afli\u00e7\u00e3o \u00e9 ter um p\u00e1ssaro branco esvoando dentro do sono.<\/p>\n<p>P\u00e1ssaro branco? No sono? Lugar de ave \u00e9 nas alturas. Dizem at\u00e9 que Deus fez o c\u00e9u para justificar os p\u00e1ssaros. Estrelinho disfar\u00e7ava o medo dos vatic\u00ednios, subterfugindo:<\/p>\n<p>\u2013 E agora, Gigitinho? Agora, olhando assim para cima, estou face ao c\u00e9u?<\/p>\n<p>Que podia o outro responder? O c\u00e9u do cego fica em toda a parte. Estrelinho perdia o p\u00e9 era quando a noite chegava e seu mestre adormecia. Era como se um novo escuro nele se estreasse em n\u00f3 cego. Devagaroso e sorrateiro ele aninhava sua m\u00e3o na m\u00e3o do guia. S\u00f3 assim adormecia. A raz\u00e3o da concha \u00e9 a timidez da am\u00eaijoa? Na manh\u00e3 seguinte, o cego lhe confessava: se voc\u00ea morrer, tenho que morrer logo no imediato. Sen\u00e3o-me: como acerto o caminho para o c\u00e9u?<\/p>\n<p>Foi no m\u00eas de Dezembro que levaram Gigitinho. Lhe tiraram do mundo para p\u00f4r na guerra: obrigavam os servi\u00e7os militares. O cego reclamou: que o mo\u00e7o inatingia a idade: E que o servi\u00e7o que ele a si prestava era vital e vital\u00edcio. O guia chamou Estrelinho \u00e0 parte e lhe tranquilizou:<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o vai ficar sozinhando por a\u00ed. Minha mana j\u00e1 mandei para ficar no meu lugar.<\/p>\n<p>O cego estendeu o bra\u00e7o a querer tocar uma despedida. Mas o outro j\u00e1 n\u00e3o estava l\u00e1. Ou estava e se desviara, propositado? E sem \u00e1gua ida nem vinda, Estrelinho escutou o amigo se afastar, engolido, espong\u00ednquo, inevis\u00edvel. Pela primeira vez, Estrelinho se sentiu invalidado.<\/p>\n<p>\u2013 Agora, s\u00f3 agora, sou cego que n\u00e3o v\u00ea.<\/p>\n<p>No tempo que seguiu, o cego falou alto, sozinho como se inventasse a presen\u00e7a de seu amigo: escuta, meu irm\u00e3o, escuta este sil\u00eancio. O erro da pessoa \u00e9 pensar que os sil\u00eancios s\u00e3o todos iguais. Enquanto n\u00e3o: h\u00e1 distintas qualidades de sil\u00eancio. \u00c9 assim o escuro, este nada apagado que estes meus olhos tocam: cada um \u00e9 um, desbotado \u00e0 sua maneira. Entende mano Gigito?<\/p>\n<p>Mas a resposta de Gigito n\u00e3o veio, num sil\u00eancio que foi seguindo, esse sim, repetido e igual. Desamimado, Estrelinho ficou presenciando inimagens, seus olhos no centro de manchas e \u00ednvias l\u00e1cteas. Aquela era uma desluada noite, tinturosa de enorme. Pitosgando, o cego captava o escuro em vagas, despeda\u00e7os. O mundo lhe magoava a desemparelhada m\u00e3o. A solid\u00e3o lhe do\u00eda como torcicolo em pesco\u00e7o de girafa. E lembrou palavras do seu guia:<\/p>\n<p>\u2013 Sozinha e triste \u00e9 a remela em olho de cego.<\/p>\n<p>Com medo da noite foi andando, aos trope\u00e7os. Os dedos teatrais interpretavam ser olhos. Teimoso como um p\u00eandulo foi escolhendo caminho. Trope\u00e7ando, empecilhando, acabou ca\u00eddo numa berma. Ali adormeceu, seus sonhos ziguezagueram \u00e0 procura da m\u00e3o de Gigitinho.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o ele, pela primeira vez, viu a gar\u00e7a. Tal igual como descrevera Gigitinho: a ave tresvoada, branca de amanhecer. Latejando as asas, como se o corpo n\u00e3o ocupasse lugar nenhum.<\/p>\n<p>De afli\u00e7\u00e3o, ele desviou o vazado olhar. Aquilo era vis\u00e3o de chamar desgra\u00e7as. Quando a si regressou lhe parecia conhecer o lugar onde tombara. Como diria Gigito: era ali que as cobras vinham recarregar os venenos. Mas nem for\u00e7a ele colectou para se afastar.<\/p>\n<p>Ficou naquela berma, como um len\u00e7o de enrodilhada tristeza, desses que tombam nas despedidas. At\u00e9 que o toque t\u00edmido de uma m\u00e3o lhe despertou os ombros.<\/p>\n<p>\u2013 Sou irm\u00e3 de Gigito. Me chamo Infelizmina.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, a menina passou a conduzir o cego. Fazia-o com discri\u00e7\u00e3o e sil\u00eancios. E era como se Estrelinho, por segunda vez, perdesse a vis\u00e3o. Porque a mi\u00fada n\u00e3o tinha nenhuma sabedoria de inventar. Ela descrevia os tintins da paisagem, com senso e realidade. Aquele mundo a que o cego se habituara agora se desiluminava. Estrelinho perdia os brilhos da fantasia. Deixou de comer, deixou de pedir, deixou de queixar. Fraco, ele careceu que ela o amparasse j\u00e1 n\u00e3o apenas de m\u00e3o mas de corpo inteiro. De cada vez, ela puxava o cego de encontro a si. Ele foi sentindo a redondura dos seios dela, a m\u00e3o dele j\u00e1 n\u00e3o procurava s\u00f3 outra m\u00e3o. At\u00e9 que Estrelinho aceitou, enfim, o convite do desejo.<\/p>\n<p>Nessa noite, por primeira vez, ele fez amor, embevencido. Num instante, regressaram as li\u00e7\u00f5es de Gigito. O pouco se fazia tudo e o instante transbordava eternidades. Sua cabe\u00e7a andorinhava e ele guiava o cora\u00e7\u00e3o como voo de morcego: por eco da paix\u00e3o. Pela primeira vez, o cego sentiu sem afli\u00e7\u00e3o o sono chegar. E adormeceu enroscado nela, seu corpo imitando dedos solvidos em outra m\u00e3o.<\/p>\n<p>A meio da noite, por\u00e9m, Infelizmina acordou, sobreassaltada. Tinha visto a gar\u00e7a branca, em seu sonho. O cego sentiu o baque, tivessem asas embatido no seu peito. Mas, fingiu sossego e serenou a mo\u00e7a. Infelizmina voltou ao leito, sonoitada.<\/p>\n<p>De manh\u00e3 chega a not\u00edcia: Gigito morrera. O mensageiro foi breve como deve um militar. A mensagem ficou, em infinita resson\u00e2ncia, como devem as feridas da guerra. Estranhou-se o seguinte: o cego reagiu sem choque, parecia ele j\u00e1 sabendo daquela perca. A mo\u00e7a, essa, deixou de falar, \u00f3rf\u00e3 de seu irm\u00e3o. A partir dessa morte ela s\u00f3 tristonhava, definhada. E assim ficou, sem compet\u00eancia para reviver. At\u00e9 que a ela se chegou o cego e lhe conduziu para a varanda da casa. Ent\u00e3o iniciou de descrever o mundo, indo al\u00e9m dos v\u00e1rios firmamentos. Aos poucos foi despontando um sorriso: a menina se sarava da alma. Estrelinho miraginava terras e territ\u00f3rios. Sim, a mo\u00e7a, se concordava. Tinha sido em tais paisagens que ela dormira antes de ter nascido. Olhava aquele homem e pensava: ele esteve em meus bra\u00e7os antes da minha actual vida.<\/p>\n<p>E quando j\u00e1 havia desenvencilhado da tristeza ela lhe arriscou de perguntar:<\/p>\n<p>\u2013 Isso tudo, Estrelinho? Isso tudo existe aonde?<\/p>\n<p>E o cego, em decis\u00e3o de passo e estrada, lhe respondeu:<\/p>\n<p>\u2013 Venha, eu vou-lhe mostrar o caminho!<\/p>\n<p>Do livro: \u201cEst\u00f3rias Abensonhadas\u201d, de Mia Couto <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O cego Estrelinho era pessoa de nenhuma vez: sua hist\u00f3ria poderia ser contada e descontada n\u00e3o fosse seu guia, Gigito Efraim. A m\u00e3o de Gigito conduziu o desvistado por tempos e idades. Aquela m\u00e3o era repartidamente comum, extens\u00e3o de um no outro, siamensal.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-14469","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-3Ln","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14469","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14469"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14469\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14471,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14469\/revisions\/14471"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14469"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14469"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14469"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}