{"id":14655,"date":"2017-10-29T22:16:01","date_gmt":"2017-10-30T02:16:01","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=14655"},"modified":"2017-10-29T22:17:05","modified_gmt":"2017-10-30T02:17:05","slug":"para-alem-do-halloween-bruxas-demonios-processos-e-condenacoes","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2017\/10\/29\/para-alem-do-halloween-bruxas-demonios-processos-e-condenacoes\/","title":{"rendered":"Para al\u00e9m do Halloween: bruxas, dem\u00f4nios, processos e condena\u00e7\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"14656\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2017\/10\/29\/para-alem-do-halloween-bruxas-demonios-processos-e-condenacoes\/bru\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/bru.jpg?fit=800%2C599\" data-orig-size=\"800,599\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;1&quot;}\" data-image-title=\"bru\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/bru.jpg?fit=300%2C225\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/bru.jpg?fit=600%2C449\" class=\"alignnone size-full wp-image-14656\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/bru.jpg?resize=600%2C449\" alt=\"bru\" width=\"600\" height=\"449\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/bru.jpg?w=800 800w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/bru.jpg?resize=300%2C225 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/bru.jpg?resize=768%2C575 768w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/bru.jpg?resize=401%2C300 401w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p>Num per\u00edodo em que as crian\u00e7as se vestem de\u00a0<strong>bruxas<\/strong>\u00a0para o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/561961-o-halloween-e-diabolico-artigo-de-massimo-introvigne\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Halloween<\/a>, somos lembrados de que houve um momento em que as bruxas eram perseguidas e executadas pela sociedade.<!--more--><\/p>\n<p>Texto do Instituto Humanitas Unisinos &#8211; Para um olhar sobre este per\u00edodo horr\u00edvel da hist\u00f3ria europeia, entrevistei o Pe.\u00a0<strong>David Collins<\/strong>, professor jesu\u00edta de hist\u00f3ria da Universidade de Georgetown.<\/p>\n<p>A\u00a0entrevista \u00e9 de\u00a0<strong>Thomas Reese<\/strong>, jesu\u00edta, jornalista, publicada por\u00a0<strong>Religion News Service<\/strong>, 25-10-2017. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 de\u00a0<strong>Isaque Gomes Correa.<\/strong><\/p>\n<h3><strong>Eis a entrevista.<\/strong><\/h3>\n<p><strong>Por que se interessou em bruxas?<\/strong><\/p>\n<p>Acabei me interessando em\u00a0<strong>bruxas<\/strong>\u00a0porque tinha interesse em magia de um modo geral. Os historiadores estudam\u00a0<strong>magia medieval<\/strong>\u00a0por causa da luz que ela lan\u00e7a sobre a maneira como as pessoas da\u00a0<strong>Idade M\u00e9dia<\/strong>\u00a0achavam que o mundo natural funcionava e como poderiam usar, subordinar e tirar vantagem das for\u00e7as naturais no mundo criado.<\/p>\n<p>Escrevi minha tese sobre os santos. Os milagres formam uma grande parte desta hist\u00f3ria, e os\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/edicao\/342\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">te\u00f3logos medievais<\/a>, juntamente de figuras eclesi\u00e1sticas, muito se interessavam em desvendar a diferen\u00e7a entre milagres e magia. Em alguns casos, era at\u00e9 mesmo dif\u00edcil distinguir entre pessoas a que haviam ocorrido milagres e aquelas que haviam praticado magia. Se os milagres eram provas de santidade e a magia era o produto da m\u00e1gica, como ter, na pr\u00e1tica, um modo confi\u00e1vel para distinguir santos de feiticeiros?<\/p>\n<p>Ap\u00f3s muita pesquisa sobre os santos, desejei misturar as coisas e me voltei aos\u00a0<strong>feiticeiros<\/strong>\u00a0e \u00e0s\u00a0<strong>bruxas<\/strong>, sobre os quais trabalho atualmente.<\/p>\n<p><strong>O que \u00e9 uma bruxa?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 uma defini\u00e7\u00e3o clara. Depende muito da cultura e do per\u00edodo hist\u00f3rico analisado. Na\u00a0<strong>Idade M\u00e9dia<\/strong>, raramente era algo que a pessoa atribu\u00eda a si mesma; em geral, era uma caracter\u00edstica que outras pessoas acusavam algu\u00e9m de ter.<\/p>\n<p>O que as pessoas t\u00eam em mente, hoje, \u00e9 uma mulher velha a pilotar uma vassoura, usando um chap\u00e9u pontudo e que pratica o mau. \u00c9 tamb\u00e9m algu\u00e9m que foi assombrado e perseguido com um fervor irracional no passado.<\/p>\n<p>A\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/570085-mulheres-a-primeira-vitima-do-capitalismo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">ca\u00e7a \u00e0s bruxas<\/a>\u00a0hist\u00f3rica que as pessoas pensam em geral n\u00e3o \u00e9 medieval; ela \u00e9 um pouco mais recente. Quando pensamos nas\u00a0<strong>bruxas<\/strong>\u00a0que foram queimadas ou condenadas, estamos falando de algo que surge no s\u00e9culo XV e que dura at\u00e9 o fim do s\u00e9culo XVIII.<\/p>\n<p>Nesse per\u00edodo, definia-se\u00a0<strong>bruxa<\/strong>\u00a0como algu\u00e9m que fez um pacto com o diabo. O pacto era normalmente selado com o intercurso sexual, e as bruxas formavam uma comunidade de malfeitoras, reunindo-se regularmente nos assim-chamados \u201c<em>sabbats<\/em>\u201d. Os pactos eram o que tornava a maldade delas t\u00e3o poderosa.<\/p>\n<p>Sempre houve a no\u00e7\u00e3o da\u00a0<strong>mulher<\/strong>\u00a0que faz coisas m\u00e1s ou pessoas que usam da magia para prejudicar outros indiv\u00edduos. O neg\u00f3cio de um pacto com o diabo \u00e9 singular, caracter\u00edstico da hist\u00f3ria ocidental, em oposi\u00e7\u00e3o ao resto do mundo. E o pacto estava no centro das preocupa\u00e7\u00f5es sociais que motivaram as persegui\u00e7\u00f5es do in\u00edcio do per\u00edodo moderno (1400-1800).<\/p>\n<p>\u00c9 algo que surge no fim da\u00a0<strong>Idade M\u00e9dia<\/strong>\u00a0e come\u00e7a a ser perseguido com vigor no meio do s\u00e9culo XV. As primeiras grandes condena\u00e7\u00f5es s\u00e3o do come\u00e7o do s\u00e9culo XV e os \u00faltimos datam da d\u00e9cada de 1770, aproximadamente.<\/p>\n<p><strong>Isto \u00e9 como os opositores descreviam as bruxas. As bruxas, elas pensavam que estavam fazendo um pacto com o diabo?<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 duas escolas de pensamento nesta quest\u00e3o. Uma sustenta que a\u00a0<strong>cren\u00e7a em bruxaria<\/strong>\u00a0foi inventada por grupos que a acusavam, tendo em vista a consecu\u00e7\u00e3o de seus pr\u00f3prios objetivos. A outra escola de pensamento sustenta que as pessoas acusadas acreditavam, genuinamente, em bruxaria.<\/p>\n<p>Est\u00e1 claro que os processos por bruxaria nasceram de jogos de poder de for\u00e7as religiosas e seculares que queriam ganhar um maior controle sobre as comunidades religiosas e civis. Mas, hoje, temos tamb\u00e9m in\u00fameros exemplos de pessoas que se confessavam perante as acusa\u00e7\u00f5es, conforme definido. Nem todos estes casos podem ser explicados por tortura, muito embora a possibilidade de tortura sempre esteve presente.<\/p>\n<p><strong>De onde vem a ideia de um pacto com o diabo?<\/strong><\/p>\n<p>Na verdade, a ideia come\u00e7a por volta de 1200, entre os literatos, pessoas instru\u00eddas, no momento em que cogitaram aprender sobre\u00a0<strong>magia e feiti\u00e7aria<\/strong>. Pensemos no Fausto: um pacto com o diabo para obter um conhecimento oculto e para manipular o mundo natural como a alquimia.<\/p>\n<p>Temos manuais de\u00a0<strong>necromancia<\/strong>, que claramente foram produzidos pessoas letradas ligadas \u00e0\u00a0<strong>Igreja<\/strong>, em fins do s\u00e9culo XIV, in\u00edcio do s\u00e9culo XV. Eles invocam os esp\u00edritos dos mortos para conseguir a ajuda deles na feitura das coisas. Os manuais de necromancia, na estrutura dos rituais e das cerim\u00f4nias, s\u00e3o imagens espelhadas de exorcismos. \u201cSe podemos expulsar dem\u00f4nios, talvez possamos invoc\u00e1-los\u201d.<\/p>\n<p><strong>Al\u00e9m de um desejo de dominar um conhecimento oculto, havia um elemento financeiro impulsionando esta \u201cpesquisa\u201d. Estas pessoas faziam por dinheiro. Quem n\u00e3o iria querer ver os seus tesouros aumentados com o rec\u00e9m-criado lingote de outro do alquimista? E todos os tipos de pessoas poderosas se interessavam em hor\u00f3scopos \u2013 pr\u00edncipes, papas, todos eles. De que outra forma elas saberiam os dias prop\u00edcios para assinar contratos, fazer tratados, casar as filhas, etc.?<\/strong><\/p>\n<p>Por volta de 1400, a preocupa\u00e7\u00e3o com a ajuda do diabo para chegar a fontes mais profundas de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/edicao\/435\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">conhecimento m\u00edstico<\/a>, conhecimento esot\u00e9rico, se funde com a magia popular praticada nas aldeias, vilarejos.<\/p>\n<p>Parte da trag\u00e9dia social \u00e9 que \u00e9 m\u00ednimo o n\u00famero de processos e execu\u00e7\u00f5es contra essas figuras da elite. Existe um certo tipo de pessoa que acaba comprimida entre uma fixa\u00e7\u00e3o bizarra com o poder do diabo no mundo vindo de cima, e a amargura e o preconceito que v\u00eam debaixo. No final das contas, as\u00a0<strong>bruxas<\/strong>\u00a0acabam comprimidas entre os dois.<\/p>\n<p><strong>A magia em si era vista como m\u00e1?<\/strong><\/p>\n<p>Historicamente, surgiu a ideia de for\u00e7as ocultas que podem ser usadas para fins bons. O\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=3479&amp;secao=342\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">te\u00f3logo escol\u00e1stico<\/a>\u00a0dos s\u00e9culos XV e XVI diria: \u201cSe voc\u00ea estiver manipulando os poderes do mundo natural de um modo que \u00e9 natural e para fins bons, ent\u00e3o, de fato, n\u00e3o \u00e9 magia\u201d. Estas for\u00e7as ocultas nos objetos materiais est\u00e3o a\u00ed para se tirarem a vantagem mais completa delas.<\/p>\n<p>A po\u00e7\u00e3o do amor constitui um caso de estudo interessante nas escolas. \u201cPodemos usar a po\u00e7\u00e3o do amor contra o parceiro que n\u00e3o est\u00e1 apaixonado por n\u00f3s?\u201d H\u00e1 dois problemas para os alunos debaterem. Um tem a ver com a licitude da produ\u00e7\u00e3o da subst\u00e2ncia e se esta \u00e9 natural. A outra tem a ver com o livre arb\u00edtrio. \u201cO uso da po\u00e7\u00e3o do amor est\u00e1 privando o outro de sua liberdade, apesar da infelicidade que \u00e9 o parceiro n\u00e3o estar mais apaixonado?\u201d<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 outros que diriam que a po\u00e7\u00e3o do amor \u00e9 uma coisa boa porque o casamento pode, \u00e0s vezes, ser dif\u00edcil. As brasas esfriam-se, e seria bom elas se reacenderem.<\/p>\n<div class=\"news-image-credits\">\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.ihu.unisinos.br\/images\/ihu\/2016\/ESCOLHER_A_FOTO.jpg?w=600\" alt=\"\" \/><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.ihu.unisinos.br\/images\/ihu\/2017\/10\/27_10_bruxa_anonimo_museu_naciona_baviera_cc.JPG?w=600\" alt=\"\" \/>An\u00f4nimo. Museu Nacional da Baviera, em Munique (Dom\u00ednio p\u00fablico, via Wikimedia Commons)<\/p>\n<\/div>\n<p><strong>Que tipo de prova era usada num processo por bruxaria?<\/strong><\/p>\n<p>Temos a\u00ed algo bastante arbitr\u00e1rio. Lembremos da cena do filme \u201c<strong>Monty Python em Busca do C\u00e1lice Sagrado<\/strong>\u201d com o pato. N\u00e3o gosto de usar arte popular contempor\u00e2nea para explicar coisas em hist\u00f3ria, mas acho que essa cena capta o problema.<\/p>\n<p>Acreditava-se que havia pessoas que eram bruxas e que fizeram pactos com o diabo, e criam que elas causavam um mal verdadeiro. Se um conselho municipal ou os consultores do arcebispo recebessem um conjunto coerente de problemas lan\u00e7ados em seu colo e ele come\u00e7asse a associ\u00e1-los, poderia pensar: \u201cBem, podem ser bruxas\u201d.<\/p>\n<p>Em seguida, diria: \u201cPor que n\u00e3o ter um processo?\u201d Ent\u00e3o se come\u00e7a a caminhar numa dada dire\u00e7\u00e3o, est\u00e1-se \u00e0 procura de certa coisa, e esta \u00e9 encontrada.<\/p>\n<p>O primeiro livro realmente importante contra os processos por bruxaria \u00e9 \u201c<strong>Cautio Criminalis<\/strong>\u201d, de\u00a0<strong>Friedrich Spee<\/strong>, publicado em 1631. Spee \u00e9 um jesu\u00edta e confessor de bruxas que haviam sido condenadas. Ele escreveu um tratado que defendia parar a realiza\u00e7\u00e3o destes processos com base em que n\u00e3o havia um padr\u00e3o adequado de provas. Ele n\u00e3o questionava a exist\u00eancia ou n\u00e3o uma tal coisa chamada bruxas.<\/p>\n<p>O guia mais famoso para estes processos, muito embora n\u00e3o o mais comumente usado na \u00e9poca, \u00e9 \u201c<strong>Malleus Maleficarum<\/strong>\u201d (O martelo das bruxas), de\u00a0<strong>Heinrich Kramer<\/strong>, que escreveu a obra na d\u00e9cada de 1480 depois de n\u00e3o conseguir obter as condena\u00e7\u00f5es de um conjunto particular de processos em\u00a0<strong>Innsbruck<\/strong>. Cerca de um ter\u00e7o \u00e9 um longo discurso mis\u00f3gino, ideias tiradas da Antiguidade e trazidas para o momento contempor\u00e2neo; um outro ter\u00e7o fala sobre como encontrar uma\u00a0<strong>bruxa<\/strong>; e o outro ter\u00e7o fala a respeito dos procedimentos, como realizar um julgamento.<\/p>\n<p><strong>Quantas bruxas foram executadas?<\/strong><\/p>\n<p>De 1450 at\u00e9 1750 foram provavelmente 100 mil julgamentos, no m\u00e1ximo. Na d\u00e9cada de 1970, o n\u00famero estimado estava em torno de 9 milh\u00f5es, mas hoje ficamos entre 100 mil e 70 mil julgamentos. Grande parte deles foram processos civis, e n\u00e3o eclesi\u00e1sticos. Houve de 30 mil a 50 mil execu\u00e7\u00f5es nesse per\u00edodo de 300 anos. Pesquisas recentes sustentam n\u00fameros menores ainda.<\/p>\n<p>\u00c9 importante tamb\u00e9m perceber que n\u00e3o houve um n\u00famero constante, coerente de processos entre os anos de 1450 e 1750. Os casos irrompem em lugares particulares e em \u00e9pocas particulares. Os julgamentos continuam por alguns anos e ent\u00e3o desaparecem. Ou duram por um ano e ent\u00e3o, de repente, 50 anos mais tarde desaparece de novo.<\/p>\n<p>H\u00e1 um<strong>\u00a0alto \u00edndice de execu\u00e7\u00f5es<\/strong>, mas h\u00e1 um \u00edndice ainda mais alto de condena\u00e7\u00f5es. Houve mais condena\u00e7\u00f5es do que execu\u00e7\u00f5es. Havia a possibilidade de penalidades alternativas \u00e0 execu\u00e7\u00e3o. Assim, se a pessoa renunciasse o pacto com o dem\u00f4nio, se as provas n\u00e3o fossem suficientes para uma condena\u00e7\u00e3o plena por\u00a0<strong>bruxaria<\/strong>, havia penalidades menores.<\/p>\n<p><strong>O que fazia irromper estes processos?<\/strong><\/p>\n<p>Uma vez que a ideia da<strong>\u00a0elite de magia<\/strong>\u00a0e a ideia popular de\u00a0<strong>bruxaria<\/strong>\u00a0se juntaram, o ator principal para o surgimento dos processos em geral tende a ser a pessoa proeminente de uma pequena localidade. Muitas vezes, o que parece ter acontecido \u00e9 que coisas ruins ocorriam e algu\u00e9m precisava ser culpado.<\/p>\n<p>Na aus\u00eancia de alguma explica\u00e7\u00e3o, a<strong>\u00a0magia mal\u00e9fica<\/strong>\u00a0servia para estes prop\u00f3sitos: p\u00f4r a culpa de qualquer coisa que precisa ser explicada em algu\u00e9m que, por alguma outra raz\u00e3o, estava socialmente separada, era odiada ou, simplesmente, era algu\u00e9m sem confian\u00e7a dentro da comunidade.<\/p>\n<p>H\u00e1 problemas que, por muito tempo, perduraram. E, de repente, num momento apetece: \u201cAh, a solu\u00e7\u00e3o para estes problemas duradouros \u00e9 come\u00e7ar uma\u00a0<strong>ca\u00e7a \u00e0s bruxas<\/strong>\u201d.<\/p>\n<div class=\"news-image-credits\">\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.ihu.unisinos.br\/images\/ihu\/2016\/ESCOLHER_A_FOTO.jpg?w=600\" alt=\"\" \/><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.ihu.unisinos.br\/images\/ihu\/2017\/10\/27_10_bruxa_por_-johannes_vintler_cc.jpg?w=600\" alt=\"\" \/>Bruxa prestando homenagem ao dem\u00f4nio, de Buch der Tugend, por Johannes Vintler (Dom\u00ednio p\u00fablico, via Wikimedia Commons)<\/p>\n<\/div>\n<p><strong>Que impacto a Reforma teve sobre os processos?<\/strong><\/p>\n<p>Quando come\u00e7a a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/554386-reforma-1517-2017-os-500-anos-depois-de-lutero-entrevista-com-bernard-sesbouee\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Reforma<\/a>\u00a0h\u00e1 um declive, h\u00e1 uma pausa. As pessoas est\u00e3o distra\u00eddas. Mas, por volta das d\u00e9cadas de 1550 e 1560, o n\u00famero de processos e execu\u00e7\u00f5es aumenta de novo, especialmente na\u00a0<strong>Alemanha<\/strong>. Um total de 70% dos processos e execu\u00e7\u00f5es aconteceu na Alemanha. Algo entre 90 e 95% das pessoas executadas por\u00a0<strong>bruxaria<\/strong>falavam um dialeto alem\u00e3o.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, ap\u00f3s a\u00a0<strong>Reforma<\/strong>, s\u00e3o os tribunais seculares que processam as\u00a0<strong>bruxas<\/strong>. E \u00e9 a\u00ed quando as coisas se tornam realmente brutais. No per\u00edodo entre 1560 e 1660, que \u00e9 quando as acusa\u00e7\u00f5es mais brutais se encontram, s\u00e3o os tribunais seculares, com o incentivo das autoridades eclesi\u00e1sticas, que os realizam.<\/p>\n<p>Parece tamb\u00e9m haver uma pequena associa\u00e7\u00e3o com uma preocupa\u00e7\u00e3o religiosa de reformar a sociedade crist\u00e3. As figuras eclesi\u00e1sticas que se preocupavam com os pactos com o diabo est\u00e3o tamb\u00e9m falando sobre a\u00a0<strong>reforma da Igreja<\/strong>. Elas est\u00e3o olhando para a cristandade e dizendo: \u201cEstamos trabalhando nisso h\u00e1 1.500 e ainda n\u00e3o temos o Reino de Deus. Por que isso? \u00c9 porque muit\u00edssimas pessoas est\u00e3o fazendo pactos com o diabo\u201d.<\/p>\n<p><strong>Por que havia mais processos por bruxaria na Alemanha do que em outras partes da Europa?<\/strong><\/p>\n<p>Imaginemos a import\u00e2ncia dos atores locais em conseguir com que algu\u00e9m fosse julgado por\u00a0<strong>bruxaria<\/strong>. Se tivermos um sistema jur\u00eddico altamente centralizado, ele for\u00e7a camadas m\u00faltiplas de revis\u00f5es. Na\u00a0<strong>Fran\u00e7a<\/strong>, por exemplo, temos um n\u00famero pequeno de execu\u00e7\u00f5es, e eles malogram logo em seguida. Depois de um entusiasmo inicial, este n\u00famero estanca. Por qu\u00ea? Por causa do sistema jur\u00eddico.<\/p>\n<p>Na\u00a0<strong>Fran\u00e7a<\/strong>, um judici\u00e1rio centralizado em\u00a0<strong>Paris<\/strong>\u00a0assume o papel-chave de supervisionar os processos. Um pequeno vilarejo perto de\u00a0<strong>Toulouse<\/strong>\u00a0poderia condenar 20 bruxas de uma vez s\u00f3, mas estas condena\u00e7\u00f5es iam para Paris, e muitas delas que a\u00ed chegavam eram anuladas.<\/p>\n<p>O que n\u00e3o temos no Sacro\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/563963-crise-do-imperio-romano-ha-1-500-anos-e-crise-da-europa-hoje-alguma-semelhanca\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Imp\u00e9rio Romano<\/a>? N\u00e3o temos um governo central forte. Temos o imperador, mas temos estes principados, mais de 300 deles, cada qual sendo o respons\u00e1vel pelo seu pr\u00f3prio sistema de justi\u00e7a. Exatamente estas camadas de supervis\u00e3o \u00e9 que faltam, e isso uma das raz\u00f5es pelas quais os processos duraram todo aquele tempo na\u00a0<strong>Alemanha<\/strong>.<\/p>\n<p>Qual o sistema jur\u00eddico mais centralizado da\u00a0<strong>Europa<\/strong>\u00a0nos s\u00e9culos XV, XVI e XVII? A inquisi\u00e7\u00e3o. Portanto, em lugares onde as inquisi\u00e7\u00f5es organizadas \u2013 a romana e a espanhola \u2013 eram as mais fortes, quase n\u00e3o temos\u00a0<strong>julgamentos por bruxaria<\/strong>. Na\u00a0<strong>Espanha<\/strong>\u00a0e na\u00a0<strong>Irlanda<\/strong>, n\u00e3o temos quase nenhum. Na It\u00e1lia, pouqu\u00edssimos. De novo, onde temos os sistemas jur\u00eddicos menos centralizados, vemos mais e mais casos [de processos].<\/p>\n<p><strong>Que li\u00e7\u00e3o os julgamentos por bruxaria nos deixam para os dias de hoje?<\/strong><\/p>\n<p>As tend\u00eancias humanas que levam a elite e outras pessoas a conspirar para processar e perseguir nos prim\u00f3rdios da era moderna est\u00e3o ainda entre n\u00f3s, hoje. A nossa criatividade em fazer bodes expiat\u00f3rios \u2013 em inventar ideologias para explicar coisas que a raz\u00e3o e a experi\u00eancia real n\u00e3o d\u00e3o conta; em expressar as nossas frustra\u00e7\u00f5es nos limites das nossas realiza\u00e7\u00f5es com viol\u00eancia; em justificar esta viol\u00eancia com o apelo \u00e0\u00a0<em>raison d\u2019etat<\/em>\u00a0[<strong>raz\u00e3o de Estado<\/strong>] e \u00e0\u00a0<strong>pureza da cren\u00e7a<\/strong>\u00a0\u2013 desconhece fronteiras.<\/p>\n<p>Curiosamente, foi a burocracia que deu in\u00edcio a esta calamidade particular, e a burocracia que o encerrou. A aten\u00e7\u00e3o \u00e0 irracionalidade humana e a pr\u00e1tica de duvidar de si pr\u00f3prio, especialmente quando se trata das formas como n\u00f3s restringimos, punimos e acusamos os outros, s\u00e3o, com certeza, desafios recorrentes desde a<strong>\u00a0ca\u00e7a \u00e0s bruxas<\/strong>. Mas, ent\u00e3o, n\u00e3o temos muita coisa no s\u00e9culo passado que d\u00ea a entender que iremos, em algum momento, aprender esta li\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Num per\u00edodo em que as crian\u00e7as se vestem de\u00a0bruxas\u00a0para o\u00a0Halloween, somos lembrados de que houve um momento em que as bruxas eram perseguidas e executadas pela sociedade.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-14655","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-3On","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14655","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14655"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14655\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14658,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14655\/revisions\/14658"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14655"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14655"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14655"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}