{"id":14659,"date":"2017-10-29T22:30:40","date_gmt":"2017-10-30T02:30:40","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=14659"},"modified":"2017-10-29T22:34:52","modified_gmt":"2017-10-30T02:34:52","slug":"o-perigo-real-e-o-retorno-do-fascismo-entrevista-com-o-filosofo-rob-riemen","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2017\/10\/29\/o-perigo-real-e-o-retorno-do-fascismo-entrevista-com-o-filosofo-rob-riemen\/","title":{"rendered":"\u201cO perigo real \u00e9 o retorno do fascismo\u201d. Entrevista com o fil\u00f3sofo Rob Riemen"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"14662\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2017\/10\/29\/o-perigo-real-e-o-retorno-do-fascismo-entrevista-com-o-filosofo-rob-riemen\/o-3\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/o.jpeg?fit=504%2C335\" data-orig-size=\"504,335\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"o\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/o.jpeg?fit=300%2C199\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/o.jpeg?fit=504%2C335\" class=\"alignnone size-full wp-image-14662\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/o.jpeg?resize=504%2C335\" alt=\"o\" width=\"504\" height=\"335\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/o.jpeg?w=504 504w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/o.jpeg?resize=300%2C199 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/o.jpeg?resize=451%2C300 451w\" sizes=\"auto, (max-width: 504px) 100vw, 504px\" \/><\/p>\n<p>Do Instituto Humanitas Unisinos &#8211; \u201cNo momento, negamo-nos a ver o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/571369-do-fascismo-democratico-a-um-novo-comunismo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">retorno do fascismo<\/a>. Dizem-me que falo dos perigos do populismo. N\u00e3o \u00e9 assim. O\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/562349-populismo-palavra-maltratada-o-choque-do-papa-revolucionario\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">populismo<\/a>\u00a0\u00e9 como os mosquitos, um pouco irritantes. O perigo real \u00e9 o retorno do fascismo. O fascismo \u00e9 o cultivo pol\u00edtico de nossos piores sentimentos irracionais: o ressentimento, o \u00f3dio, a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/557246-nacionalismo-e-xenofobia-sao-a-resposta-mais-facil-diante-das-desigualdades-entrevista-com-thomas-piketty\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">xenofobia<\/a>, o desejo de poder e o medo. N\u00e3o dever\u00edamos confundir os dois conceitos. Devemos chamar o fascismo por seu nome\u201d, afirma\u00a0<strong>Rob Riemen<\/strong>\u00a0(Pa\u00edses Baixos, 1962), ensa\u00edsta, fil\u00f3sofo e diretor do prestigiado\u00a0<strong>Nexus Institute<\/strong>.<!--more--><\/p>\n<p><strong>Riemen<\/strong>\u00a0esteve recentemente no M\u00e9xico para apresentar a obra\u00a0<em><strong>Para combatir esta era. Consideraciones urgentes sobre el fascismo y el humanismo<\/strong><\/em>\u00a0(<strong>Taurus<\/strong>, 2017), uma poderosa alega\u00e7\u00e3o em favor do\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/artigo\/6042-edgard-de-assis-carvalho-2\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">humanismo como ant\u00eddoto<\/a>\u00a0contra o renascimento do fascismo. Concedeu-nos esta entrevista em uma manh\u00e3 nublada, como nosso tempo.<\/p>\n<p>A entrevista \u00e9 de\u00a0<strong>Laura Emilia Pacheco<\/strong>\u00a0e\u00a0<strong>Fernando Garc\u00eda Ram\u00edrez<\/strong>, publicada por\u00a0<strong>Letras Libres<\/strong>, 21-10-2017. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 do\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/sobre-o-ihu\/rede-sjcias\/cepat\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Cepat<\/a>.<\/p>\n<h3>Eis a entrevista.<\/h3>\n<p><strong>Em seu primeiro livro, retoma o ideal democr\u00e1tico de Thomas Mann da \u201cnobreza de esp\u00edrito\u201d. A nobreza de esp\u00edrito, que \u00e9 individual, pode se opor ao avan\u00e7o do fascismo, um movimento da sociedade de massas?<\/strong><\/p>\n<p>Em 1947, enquanto trabalhava em\u00a0<strong>Doutor Fausto<\/strong>,\u00a0<strong>Mann<\/strong>\u00a0escreveu sua confer\u00eancia\u00a0<strong>A filosofia de Nietzsche \u00e0 luz de nossa experi\u00eancia<\/strong>. Nela dizia que nenhuma medida t\u00e9cnica, institui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, nem ideia de governo mundial conseguiria avan\u00e7ar para uma nova ordem social sem que antes se desenvolvesse um clima espiritual alternativo. Para\u00a0<strong>Mann<\/strong>, a \u00fanica forma de deter os avan\u00e7os do fascismo era mediante a nobreza de esp\u00edrito. Concordo.<\/p>\n<p>O fascismo nasceu no interior da sociedade. A ignor\u00e2ncia da sociedade de massas \u00e9 tamb\u00e9m uma ignor\u00e2ncia dos valores espirituais e morais. O fascismo surge neste contexto. Como afirmo em\u00a0<strong><em>Para combatir esta era<\/em><\/strong>: apesar do progresso cient\u00edfico e tecnol\u00f3gico e do enorme acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o, a for\u00e7a dominante de nossa sociedade \u00e9 a estupidez organizada. N\u00e3o se det\u00e9m o fascismo atrav\u00e9s da economia, da tecnologia ou da ci\u00eancia, nem sequer atrav\u00e9s das institui\u00e7\u00f5es \u2013 porque dependem das pessoas que as formam -, mas, sim, com uma mentalidade distinta.\u00a0<strong>Mann<\/strong>,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/29383-camus-entre-a-emocao-e-a-graca-entrevista-especial-com-waldecy-tenorio\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Camus<\/a>,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/517347-entre-jesus-e-socrates-o-deus-que-se-faz-nada-artigo-de-paul-ricoeur%20\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">S\u00f3crates<\/a>\u00a0e muitos outros pensadores advertiram que a \u201cnobreza de esp\u00edrito\u201d \u00e9 um dos ideais mais democr\u00e1ticos que existem. Para cultiv\u00e1-la n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio dinheiro, ser tecnologicamente habituado ou ter um t\u00edtulo universit\u00e1rio. A nobreza de esp\u00edrito \u00e9 uma mentalidade, \u00e9 saber do que se trata a dignidade humana.<\/p>\n<p><strong>&#8216;<em>Para combatir esta era&#8217;\u00a0<\/em>\u00a0\u00e9 um chamado \u00e0s elites pol\u00edticas, econ\u00f4micas, acad\u00eamicas e intelectuais. Elites que, no entanto, parecem estar atravessando uma crise. Afirma que \u201cgeraram o vazio espiritual no qual o fascismo pode crescer outra vez\u201d.<\/strong><\/p>\n<p>Enfrentamos dois problemas diferentes. O primeiro \u00e9 o tipo de elites dominantes em nossa sociedade. As elites pol\u00edticas, econ\u00f4micas e midi\u00e1ticas s\u00e3o as que t\u00eam mais poder e influ\u00eancia. S\u00e3o definidas e validadas pela quantidade, n\u00e3o pela qualidade. No mundo da cultura, n\u00e3o obstante, o conceito tem um significado distinto: a elite expressa a qualidade. Pensemos na\u00a0<strong>Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica<\/strong>\u00a0de\u00a0<strong>Stalin<\/strong>: de um lado, estavam as elites do poder, os dirigentes do partido e, como contrapeso, uma min\u00fascula elite moral representada por [<strong>Boris<\/strong>]\u00a0<strong>Pasternak<\/strong>, [<strong>Osip<\/strong>]\u00a0<strong>Mandelstam<\/strong>, [<strong>Anna<\/strong>]\u00a0<strong>Akhm\u00e1tova<\/strong>\u00a0e, posteriormente, [<strong>Joseph<\/strong>]\u00a0<strong>Brodsky<\/strong>. Uma das coisas que ocorre em nossa era do capitalismo rampante \u00e9 que a \u00fanica elite que reconhecemos \u00e9 a do poder, que s\u00f3 expressa quantidade. O fato de as elites intelectuais e art\u00edsticas estarem marginalizadas reflete que os mais altos valores da sociedade atual s\u00e3o os do com\u00e9rcio e da tecnologia. \u00c9 indispens\u00e1vel fazer um chamado \u00e0s elites, incluindo a elite acad\u00eamica: tem uma posi\u00e7\u00e3o privilegiada que acarreta uma responsabilidade que n\u00e3o est\u00e3o aceitando. Teriam que ser combatentes contra esta era.<\/p>\n<p>Parte do fen\u00f4meno ao qual enfrentamos hoje foi retratado por\u00a0<strong>Hermann Broch<\/strong>\u00a0no terceiro volume de\u00a0<strong>Os son\u00e2mbulos<\/strong>, onde analisa o declive dos valores. Para\u00a0<strong>Broch<\/strong>, n\u00e3o \u00e9 que j\u00e1 n\u00e3o existam valores, mas, ao contr\u00e1rio, em consequ\u00eancia de j\u00e1 n\u00e3o existir um valor universal e transcendental, todos os valores se fragmentam e se tornam pequenos. \u00c0 classe pol\u00edtica s\u00f3 interessa o poder, \u00e0 classe militar s\u00f3 interessa ter mais armas, aos m\u00e9dicos s\u00f3 interessa ter mais rem\u00e9dios, ao mundo tecnol\u00f3gico s\u00f3 interessa desenvolver mais tecnologia. J\u00e1 n\u00e3o existe um sentido de responsabilidade geral. E n\u00e3o s\u00f3 isso: esses grupos n\u00e3o falam o mesmo idioma, n\u00e3o se comunicam, n\u00e3o existe um di\u00e1logo entre eles.<\/p>\n<p>Em seu romance\u00a0<strong>O homem sem qualidades<\/strong>,\u00a0<strong>Robert Musil<\/strong>\u00a0coloca esses grupos \u2013 generais, empres\u00e1rios, intelectuais e aristocratas \u2013 em conversa. Para\u00a0<strong>Musil<\/strong>, eles se re\u00fanem porque est\u00e3o em busca da \u201cgrande ideia\u201d. \u00c9 uma bela met\u00e1fora que\u00a0<strong>Musil<\/strong>retoma de\u00a0<strong>Os dem\u00f4nios\u00a0<\/strong>de\u00a0<strong>Dostoievski<\/strong>. Perdemos a \u201cgrande ideia\u201d. Em termos mais acad\u00eamicos, dir\u00edamos que perdemos o grande relato. As consequ\u00eancias sociol\u00f3gicas dessa aus\u00eancia s\u00e3o imensas. Na\u00a0<strong>Idade M\u00e9dia<\/strong>, por exemplo, as pessoas faziam parte de uma grande ideia \u00fanica. Isso se acabou, por bons motivos, mas agora temos uma sociedade completamente fragmentada, individualizada, com uma classe governante que perdeu o sentido comum ou o bom sentido, e n\u00e3o temos um governo que queira velar pelo bem comum.<\/p>\n<p>Contribuiu para a deflagra\u00e7\u00e3o da\u00a0<strong>Segunda Guerra Mundial<\/strong>\u00a0o fato das elites ficarem em um processo de sonambulismo, adormecidas. Est\u00e1 ocorrendo novamente. Para\u00a0<strong>Hermann Broch<\/strong>, o son\u00e2mbulo se nega a ver a tormenta. No momento, negamo-nos a ver o retorno do fascismo. Dizem-me que falo dos perigos do populismo. N\u00e3o \u00e9 assim. O populismo \u00e9 como os mosquitos, um pouco irritantes. O perigo real \u00e9 o retorno do fascismo. O fascismo \u00e9 o cultivo pol\u00edtico de nossos piores sentimentos irracionais: o ressentimento, o \u00f3dio, a xenofobia, o desejo de poder e o medo. N\u00e3o dever\u00edamos confundir os dois conceitos. Devemos chamar o fascismo por seu nome.<\/p>\n<p><strong>Ao que se deve que a sociedade negue a assumir que o fascismo est\u00e1 de volta?<\/strong><\/p>\n<p>Ao embara\u00e7o de pol\u00edticos e acad\u00eamicos. Ao menos \u00e9 o que acontece no Ocidente. Adverti isto, h\u00e1 alguns anos, quando publiquei nos Pa\u00edses Baixos\u00a0<strong>O eterno retorno do fascismo<\/strong>, o primeiro ensaio de\u00a0<em><strong>Para combatir esta era<\/strong><\/em>. Recebi um tsunami de respostas negativas. Nos jornais, apareciam artigos enfurecidos, assinados por pol\u00edticos, que diziam que eu deveria me sentir envergonhado. Os acad\u00eamicos tamb\u00e9m se irritaram porque eu disse que na academia se dedicam a escrever notas de rodap\u00e9, ao inv\u00e9s de se envolver politicamente. N\u00e3o me permitiram dizer que o deputado neerland\u00eas\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/528643-o-avanco-da-ultradireita-na-europa\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Geert Wilders<\/a>\u00a0\u00e9 um fascista.<\/p>\n<p>Aceitar o retorno do fascismo representa um problema para alguns pensadores progressistas, pois significa que nossa sociedade tem fantasmas que se negam a morrer. Embora h\u00e1 exce\u00e7\u00f5es, os acad\u00eamicos em geral n\u00e3o sabem nada. O problema fundamental que est\u00e1 atingindo a academia \u00e9 a confus\u00e3o entre a ci\u00eancia e a verdade. Sabemos a respeito da brilhante ideia que teve\u00a0<strong>Descartes<\/strong>\u00a0ao separar a alma do corpo. Foi a partir desta nova ideia que pudemos fazer descobertas cient\u00edficas. Mas, tempo depois, em 1725,\u00a0<strong>Giambattista Vico<\/strong>\u00a0advertiu que, apesar da grande admira\u00e7\u00e3o que tinha por\u00a0<strong>Descartes<\/strong>, n\u00e3o dev\u00edamos cometer o erro de pensar que o paradigma cient\u00edfico \u2013 mesmo que adequado para explicar o que ocorre na natureza \u2013 nos faria compreender o ser humano e sua sociedade, porque somos uma esp\u00e9cie espiritual.<\/p>\n<p>Nossos sentimentos e emo\u00e7\u00f5es v\u00e3o al\u00e9m do paradigma cient\u00edfico. Os acad\u00eamicos, no entanto, se negaram a escutar a advert\u00eancia de Vico, ou a esqueceram. Constantemente, as humanidades t\u00eam que provar que s\u00e3o cient\u00edficas e lhes imp\u00f5em a necessidade de inventar teorias.\u00a0<strong>Simon Schama<\/strong>\u00a0explicou que a hist\u00f3ria \u00e9 composta por uma s\u00e9rie de relatos, mas s\u00e3o poucos os historiadores que contam algo. Tudo s\u00e3o teorias. Isto se aplica tamb\u00e9m para a psicologia e a sociologia. Existe um mal-entendido no campo das humanidades e com sorte um dia nos dar\u00e3o mais conhecimentos que dados. Ao n\u00e3o compreender, n\u00e3o fazem parte do debate p\u00fablico. Como n\u00e3o h\u00e1 evid\u00eancia emp\u00edrica de que enfrentamos o fascismo, negam-se a pensar que est\u00e1 de volta.<\/p>\n<p>Enfrentamos um novo gnosticismo e quem o cultiva \u00e9 essencialmente a esquerda: \u201cas pessoas\u201d se sentem tra\u00eddas, \u201cas pessoas\u201d n\u00e3o sabem o que fazer. Em certo sentido, isto \u00e9 t\u00e3o antidemocr\u00e1tico como o fascismo. Eis, aqui, onde estamos atolados. O que n\u00e3o temos \u00e9 um \u201chumanismo c\u00edvico\u201d. O que a sociedade perdeu \u00e9 a no\u00e7\u00e3o de humanismo no discurso c\u00edvico. Isso \u00e9 algo que devemos recuperar o quanto antes, porque, caso contr\u00e1rio, nos dirigimos ao desastre.<\/p>\n<p><strong>Mas, n\u00e3o h\u00e1 somente ci\u00eancias da natureza, tamb\u00e9m existem a ci\u00eancia pol\u00edtica e a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/563857-as-confissoes-e-as-gelidas-sabedorias-da-dita-ciencia-economica\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">ci\u00eancia econ\u00f4mica<\/a>. Ou seja, a quantifica\u00e7\u00e3o de elementos econ\u00f4micos e pol\u00edticos de um ponto de vista cient\u00edfico.<\/strong><\/p>\n<p>Se a economia fosse uma ci\u00eancia, por que n\u00e3o conseguiu prever a crise econ\u00f4mica de 2008 ou a enfrentar? A ci\u00eancia pol\u00edtica se reduz s\u00f3 a dados e n\u00e3o contribui em nada. Ao querer se concentrar neste paradigma, a ci\u00eancia se limita. O argumento de\u00a0<strong>Giambattista Vico<\/strong>\u00a0\u00e9 que se queremos compreender o ser humano e entender a sociedade, precisamos de hist\u00f3ria, poesia, filosofia, m\u00fasica e arte. Isto nos dar\u00e1 um conhecimento absoluto? N\u00e3o, porque o ser humano transcende o conhecimento absoluto.<\/p>\n<p>Pensa-se que falar de alma e esp\u00edrito humano \u00e9 antiquado. Se isso \u00e9 correto, perdemos o rumo. Qual \u00e9 a ess\u00eancia do ser humano?\u00a0<strong>S\u00f3crates<\/strong>\u00a0diz que \u00e9 a alma. Em suas\u00a0<em><strong>Disputaciones tusculanas<\/strong><\/em>,\u00a0<strong>Marco Tulio C\u00edcero<\/strong>\u00a0escreveu sua famosa senten\u00e7a de onde prov\u00e9m nossa no\u00e7\u00e3o de cultura: \u201co cultivo da alma, isso \u00e9 a filosofia\u201d. E, certamente, junto \u00e0 filosofia, perdemos a busca da sabedoria, o cultivo da alma. De modo que n\u00e3o deve nos surpreender o tipo de mundo em que vivemos.<\/p>\n<p>N\u00e3o sou contra a informa\u00e7\u00e3o e os fatos, mas n\u00e3o necessariamente s\u00e3o conhecimento, nem sabedoria. Os poetas e os artistas dizem que a linguagem \u00e9 como um espelho que nos diz se somos aut\u00eanticos. Ao final de\u00a0<strong>Apologia<\/strong>,\u00a0<strong>S\u00f3crates<\/strong>\u00a0adverte que, sem a linguagem das musas, sem a linguagem da m\u00fasica, da poesia e da arte, seria imposs\u00edvel nos expressar; seria imposs\u00edvel compreender nossos sentimentos e lidar com nossas frustra\u00e7\u00f5es, temores e solid\u00e3o. Por isso, \u00e9 importante ter essa linguagem que \u2013 como j\u00e1 disse [<strong>Marcel<\/strong>]\u00a0<strong>Proust<\/strong>\u00a0\u2013 \u00e9 o que nos permite entender o outro. Nunca seremos capazes de apreciar e articular nossas experi\u00eancias mais profundas sem a linguagem das musas.<\/p>\n<p><strong>As sociedades que est\u00e3o dominadas pelo medo s\u00e3o propensas ao cont\u00e1gio do populismo, mas o medo \u00e9 inevit\u00e1vel em sociedades como as nossas, assediadas pelo terrorismo e a viol\u00eancia do narcotr\u00e1fico.<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00e3o as sociedades, somos n\u00f3s mesmos. Nossa psique est\u00e1 invadida pelo temor: somos a \u00fanica esp\u00e9cie que tem consci\u00eancia de sua mortalidade. O temor \u00e9 um sentimento inerente ao ser humano. Mais que de uma educa\u00e7\u00e3o ou de uma filosofia, S\u00f3crates falava de uma\u00a0<strong>Paideia<\/strong>: de como viver a vida. Um de seus elementos \u00e9 como lidar com nossos temores. Perdemos os instrumentos que nos permitem fazer isso. Por que sociedades s\u00e3o t\u00e3o inseguras? Por que dependem tanto de psiquiatras? Por que depositamos nosso sentido de bem-estar e confian\u00e7a nos bancos, nas companhias de seguros e nos sistemas de pens\u00f5es? Em parte, \u00e9 porque nossa sociedade se tornou muito mais materialista e acreditamos que as seguradoras ir\u00e3o cuidar de n\u00f3s. Para que devo cultivar minhas habilidades ou certo car\u00e1ter se, enquanto minha conta de banco estiver boa, estarei bem?\u00a0<strong>S\u00f3crates<\/strong>\u00a0pensava que o valor \u00e9 a habilidade de se conquistar a si mesmo, o valor para cultivar nossa alma, e queria que receb\u00eassemos uma educa\u00e7\u00e3o que nos tornasse corajosos, conquistar nossos temores, frustra\u00e7\u00f5es, inseguran\u00e7as de modo que tenhamos a coragem para agir.<\/p>\n<p>Imaginemos uma sociedade na qual nos d\u00e9ssemos conta de que a aut\u00eantica seguran\u00e7a n\u00e3o deveria vir de nossa conta banc\u00e1ria, mas de n\u00f3s mesmos. Imaginemos uma sociedade na qual, em verdade, trat\u00e1ssemos de nos educar para sermos corajosos. \u00c9 a \u00fanica maneira de se opor ao que est\u00e1 ocorrendo. Isto n\u00e3o significa que n\u00e3o haver\u00e1 mais trag\u00e9dias, mas como sociedade ser\u00edamos muito mais fortes.<\/p>\n<p><strong>Afirma que o medo leva os povos a buscar um l\u00edder que os salve e proteja. Sua advert\u00eancia de que o fascismo est\u00e1 de volta, n\u00e3o \u00e9 uma forma de provocar medo nas elites?<\/strong><\/p>\n<p>Ao falar de elites nos referimos \u00e0 elite do poder. Isso j\u00e1 acontece nos Estados Unidos, onde a classe que comp\u00f5e os financistas de\u00a0<em><strong>Wall Street<\/strong><\/em>\u00a0est\u00e1 em ascens\u00e3o. \u00c9 exatamente o que ocorreu na Alemanha nazista por falta de c\u00e1lculo, oportunismo e pensamento estrat\u00e9gico: as elites \u2013 n\u00e3o s\u00f3 as elites do poder, mas tamb\u00e9m muitos acad\u00eamicos e intelectuais \u2013 pensavam que\u00a0<strong>Hitler<\/strong>\u00a0n\u00e3o podia ser t\u00e3o mau. Enquanto o l\u00edder fascista se dedica a seus pr\u00f3prios interesses, parece que n\u00e3o importa para ningu\u00e9m. Chegado o momento, se as coisas se colocam muito mal em um regime totalit\u00e1rio, n\u00e3o h\u00e1 possibilidade de erguer a voz. Por que as pessoas precisam tanto da figura de um l\u00edder? Por que a sociedade anseia um her\u00f3i? Os her\u00f3is atuais s\u00e3o as celebridades. Sabemos que\u00a0<strong>Trump<\/strong>\u00a0p\u00f4de chegar \u00e0\u00a0<strong>Casa Branca<\/strong>\u00a0gra\u00e7as ao fato de que, durante doze anos, apareceu constantemente na televis\u00e3o. Assim, de forma grande, \u00e9 a fome de l\u00edderes, her\u00f3is, gurus e messias. \u00c9 por este motivo que procuro fazer uma defesa do humanismo. Se algu\u00e9m \u00e9 suficientemente afortunado na vida, encontra um mestre: um homem ou uma mulher que possa o ensinar a desenvolver suas habilidades e talento. A humanidade pode ser dividida entre as pessoas que precisam de um mestre e o procuram e as pessoas que n\u00e3o o procuram, mas est\u00e3o impressionadas com o l\u00edder poderoso ao qual podem se submeter.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/550651-a-presenca-de-deus-nas-obras-de-dostoievski-entrevista-especial-com-elena-vassina\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Dostoievski<\/a>\u00a0disse isso com grande eloqu\u00eancia em\u00a0<strong>O Grande Inquisidor<\/strong>. Nele, apresenta a\u00a0<strong>Jesus Cristo<\/strong>\u00a0n\u00e3o como um l\u00edder poderoso, nem como her\u00f3i. Apresenta-o como um mestre. Um mestre, al\u00e9m do mais, que n\u00e3o traz boas not\u00edcias. A m\u00e1 nova \u00e9 que\u00a0<strong>Jesus Cristo<\/strong>\u00a0n\u00e3o est\u00e1 aqui para nos fazer felizes, mas, ao contr\u00e1rio, para nos tornar livres. Precisamos de um mestre quando queremos desenvolver a qualidade de ser livres. Precisamos de um l\u00edder ou uma celebridade quando queremos ser felizes.<\/p>\n<p><strong>Na Fran\u00e7a e nos Pa\u00edses Baixos, os candidatos com discursos fascistas perderam as elei\u00e7\u00f5es. O fascismo foi detido na Europa?<\/strong><\/p>\n<p>Nos Pa\u00edses Baixos n\u00e3o detivemos o fascismo.\u00a0<strong>Geert Wilders<\/strong>\u00a0\u00e9 l\u00edder do atual segundo partido mais importante e principal opositor do partido no governo. Isto significa que no debate parlamentar ele \u00e9 o primeiro a falar. Pode dizer o que quiser, sem nenhum tipo de responsabilidade. Por outro lado, o vencedor da elei\u00e7\u00e3o,\u00a0<strong>Mark Rutte<\/strong>, publicou uma carta aberta em todos os jornais holandeses intitulada\u00a0<strong>Ser normal<\/strong>. A\u00ed diz que, como holandeses, damos as boas-vindas a todos sempre e quando se comportarem de uma maneira \u201cnormal\u201d, como o restante dos cidad\u00e3os neerlandeses. V\u00e1! Ser normal significa que voc\u00ea deve ser igual ao outro. N\u00e3o posso pensar em um argumento mais racista e xen\u00f3fobo. Pouco depois, o l\u00edder do partido\u00a0<strong>Apelo Democrata-Crist\u00e3o<\/strong>\u00a0disse que todos em meu pa\u00eds devem saber o hino nacional de cor e que cada vez que seja escutado, devemos ficar em p\u00e9 e colocar a m\u00e3o sobre o cora\u00e7\u00e3o. Querem criar instrumentos para nos fazer todos \u201cnormais\u201d.<\/p>\n<p>Na Fran\u00e7a, por outro lado,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/569960-franca-macron-ja-e-percebido-como-mais-do-mesmo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Macron<\/a>\u00a0teve muita sorte. \u00c9 jovem e tem pouca experi\u00eancia. Em geral, a vota\u00e7\u00e3o parlamentar \u00e9 de 70 a 80%. Ele s\u00f3 obteve 48%. Caminha em um terreno sens\u00edvel e est\u00e1 em uma posi\u00e7\u00e3o muito mais complicada que a de Obama quando venceu a presid\u00eancia em 2008, e j\u00e1 vimos o que ocorreu ap\u00f3s os oito anos de seu governo. De modo que n\u00e3o nos enganemos pensando que, de repente, sem tomar nenhuma iniciativa real, detivemos o fascismo. A\u00a0<strong>Uni\u00e3o Europeia<\/strong>\u00a0se encontra em um momento muito delicado. \u00c9 t\u00e3o disfuncional que, na Hungria, n\u00e3o pode enfrentar a\u00a0<strong>Viktor Orb\u00e1n<\/strong>, um fascista absoluto. Tamb\u00e9m sabemos o que aconteceu no Reino Unido e na Pol\u00f4nia. As for\u00e7as que querem destruir a Europa s\u00e3o ineg\u00e1veis.<\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9 a pertin\u00eancia de &#8216;<em>Para combatir esta era<\/em>&#8216;?<\/strong><\/p>\n<p>Sem\u00a0<strong>Trump<\/strong>\u00a0o livro n\u00e3o teria aparecido em espanhol, nem em outros idiomas. No caso de\u00a0<strong>Trump<\/strong>, n\u00e3o acredito que haja um processo de destitui\u00e7\u00e3o. Se chegasse a ocorrer, n\u00e3o esque\u00e7amos o que disseram\u00a0<strong>Levi<\/strong>,\u00a0<strong>Mann<\/strong>\u00a0e\u00a0<strong>Camus<\/strong>, ap\u00f3s a destrui\u00e7\u00e3o da Alemanha de\u00a0<strong>Hitler<\/strong>\u00a0e o desmoronamento do fascismo na It\u00e1lia: n\u00e3o cometamos o erro de pensar que o fascismo desapareceu com a guerra. Ap\u00f3s a guerra,\u00a0<strong>Camus<\/strong>\u00a0publicou\u00a0<strong>A Peste<\/strong>\u00a0para deixar assentado esta mensagem. Podem passar dez ou cinquenta anos, mas o fascismo reaparecer\u00e1. Est\u00e1 acontecendo, agora, com\u00a0<strong>Trump<\/strong>\u00a0e\u00a0<strong>Erdogan<\/strong>. Mas, mesmo se eles se forem, o fascismo permanecer\u00e1.<\/p>\n<p><strong>Em 1929,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=4073&amp;secao=373\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jos\u00e9 Ortega y Gasset<\/a>\u00a0nos advertiu, em &#8216;A rebeli\u00e3o das massas&#8217;, sobre a ascens\u00e3o do fascismo. As sociedades livres lutaram contra as na\u00e7\u00f5es fascistas pela liberdade. Os l\u00edderes que enfrentaram o fascismo \u2013 Estados Unidos e o Reino Unidos \u2013, hoje, possuem um governo populista. Que caminho tomar?<\/strong><\/p>\n<p>Os Estados Unidos n\u00e3o t\u00eam um governo fascista, mas, sim, um presidente que \u00e9. Este \u00e9 um exemplo de que a liberdade e a democracia n\u00e3o podem se dar por assentadas. Talvez devamos dar um salto muito mais extenso e entender que o modelo de Estado-na\u00e7\u00e3o \u00e9 relativamente novo em nossa hist\u00f3ria, que como modelo tem dificuldades, e que isso abre o espa\u00e7o para o surgimento do nacionalismo. A partir deste cen\u00e1rio, pode crescer o fascismo. N\u00e3o h\u00e1 fascismo ou racismo sem nacionalismo.<\/p>\n<p>No final dos anos 1930,\u00a0<strong>Thomas Mann<\/strong>,\u00a0<strong>Hermann Broch<\/strong>\u00a0e alguns intelectuais estadunidenses como\u00a0<strong>Robert Maynard Hutchins<\/strong>\u00a0\u2013 que ent\u00e3o era o reitor da\u00a0<strong>Universidade de Chicago<\/strong>\u00a0\u2013 se reuniram a pedido de\u00a0<strong>Elisabeth Mann Borgese<\/strong>\u00a0e seu esposo, o escritor\u00a0<strong>Giuseppe Borgese<\/strong>, um dos poucos intelectuais italianos que se negou a fazer o juramento de lealdade a\u00a0<strong>Mussolini<\/strong>\u00a0e se exilou nos Estados Unidos. Em 1938,\u00a0<strong>Borgese<\/strong>\u00a0pensou que a guerra era inevit\u00e1vel e que deviam venc\u00ea-la. Pensava que, ap\u00f3s a guerra, os pol\u00edticos estariam muito agoniados, sendo assim, os intelectuais tinham que sair da torre de marfim e escrever algum tipo de material a partir do qual poderiam se estabelecer novos princ\u00edpios.<\/p>\n<p>O grupo se reuniu algumas vezes em Atlanta, em 1939, pouco antes da guerra. Em mar\u00e7o de 1940, publicaram\u00a0<em><strong>The city of man. A declaration on world democracy<\/strong><\/em>, onde se perguntavam: o que precisamos fazer ap\u00f3s a Guerra? Eles mesmos responderam: um governo mundial, um parlamento mundial, direitos humanos universais. A partir deste pequeno livro nasceu a\u00a0<strong>ONU<\/strong>.<\/p>\n<p>Cabe a n\u00f3s, intelectuais &#8211; gente privilegiada que podemos viver cuidando de ideias e do significado das palavras -, unir-nos, explicar o que ocorre e como avan\u00e7ar. Estamos atolados entre dois paradigmas que n\u00e3o nos permitem avan\u00e7ar. Nossa conversa girou em torno do paradigma do retorno do fascismo. Contudo, h\u00e1 outro paradigma com o qual estamos lidando: a sociedade\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/570100-o-semiocapitalismo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">capitalista-cient\u00edfica-tecnol\u00f3gica<\/a>\u00a0que se rege pelo tipo de ideologia que vem do\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/570780-como-a-visao-utopica-do-vale-do-silicio-pode-estar-levando-o-mundo-ao-capitalismo-brutal\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Vale do Sil\u00edcio<\/a>. Uma ideologia que se baseia na falsa no\u00e7\u00e3o de que com a tecnologia e a neuroci\u00eancia podemos resolver tudo. Como dizia\u00a0<strong>Obama<\/strong>\u00a0com frequ\u00eancia:\u00a0<em>Fix it first<\/em>. Isso tampouco nos permitir\u00e1 avan\u00e7ar. Isto abebera o fato de que n\u00e3o h\u00e1 ideias. Tive um debate acalorado com um professor que dizia que para se ter uma Europa unida era necess\u00e1rio retornar \u00e0\u00a0<strong>Idade M\u00e9dia<\/strong>, sob a forma da cristandade. A sa\u00edda n\u00e3o est\u00e1 em um retorno ao passado.<\/p>\n<p><strong>Celan<\/strong>,\u00a0<strong>Brodsky<\/strong>,\u00a0<strong>Pasternak<\/strong>\u00a0e muitos outros exerceram a arte da tradu\u00e7\u00e3o. Por que\u00a0<strong>Thomas Mann<\/strong>\u00a0escreveu\u00a0<strong>Jos\u00e9 e seus irm\u00e3os<\/strong>? Come\u00e7ou a escreveu sua tetralogia quando se deu conta de que existia um homem chamado\u00a0<strong>Adolf Hitler<\/strong>.\u00a0<strong>Mann<\/strong>, que vivia em Munique, escutou a ret\u00f3rica de\u00a0<strong>Hitler<\/strong>, compreendeu sua ideologia e percebeu que queira criar uma nova religi\u00e3o laica. Sendo assim, come\u00e7ou a escrever seu livro. Tomou a\u00a0<strong>B\u00edblia<\/strong>\u00a0e se prop\u00f4s voltar a contar \u2013 a traduzir \u2013 a hist\u00f3ria de\u00a0<strong>Jos\u00e9<\/strong>\u00a0e seus irm\u00e3os.<\/p>\n<p><strong>Paul Celan<\/strong>\u00a0\u2013 depois que os nazistas o cercaram junto com sua fam\u00edlia em um gueto, enviaram seus pais para um campo de exterm\u00ednio, onde assassinariam sua m\u00e3e e morreria seu pai, e o mandaram para um campo de trabalhos for\u00e7ados, de onde finalmente foi libertado \u2013 teve que traduzir.<\/p>\n<p>O grande relato que esperamos, o tipo de hist\u00f3ria que precisamos ter para que renas\u00e7a o humanismo laico ou religioso ser\u00e1, justamente, um que volte a contar hist\u00f3rias; ser\u00e1 uma tradu\u00e7\u00e3o, como o\u00a0<strong>Renascimento<\/strong>\u00a0foi uma tradu\u00e7\u00e3o.\u00a0<strong>Goethe<\/strong>\u00a0disse que a verdade j\u00e1 existe, a \u00fanica coisa que precisamos fazer \u00e9 repeti-la e traduzi-la. Da\u00ed minha rejei\u00e7\u00e3o aos acad\u00eamicos. N\u00e3o est\u00e3o fazendo seu trabalho. Por outro lado, a cada dia admiro mais\u00a0<strong>Andrei Tarkovski<\/strong>, porque com seus filmes conseguiu traduzir valores fundamentais em hist\u00f3rias. A no\u00e7\u00e3o de sacrif\u00edcio, que pertence ao mundo da religi\u00e3o, ele a traduziu em um relato claro. Todos os meus her\u00f3is s\u00e3o tradutores. Empreenderam a tarefa de transmitir ou traduzir valores, as coisas que na verdade importam, para nos dar uma vis\u00e3o do mundo que protegesse a no\u00e7\u00e3o do que \u00e9 uma civiliza\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica. Se n\u00e3o somos capazes de fazer isto, estamos perdidos.<\/p>\n<p><strong>Qual a sua opini\u00e3o da rea\u00e7\u00e3o que Trump gerou dentro dos Estados Unidos?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o podemos aceitar o que ocorre.\u00a0<strong>Trump<\/strong>\u00a0n\u00e3o venceu no voto popular. Muita gente compreende o que ocorre.\u00a0<strong>Hillary<\/strong>\u00a0disse que agora faz parte da \u201cresist\u00eancia\u201d, algo que me causa certo mal-estar, pois do lado do mundo do qual venho as pessoas que pertenciam \u00e0 resist\u00eancia arriscaram sua vida para lutar contra os nazistas. Neste momento, n\u00e3o h\u00e1 um s\u00f3 estadunidense cuja vida corra perigo, de modo que seria melhor dizer que se \u00e9 parte da oposi\u00e7\u00e3o. Recortemos este fato: aquilo que \u00e9 poss\u00edvel nos Estados Unidos resulta imposs\u00edvel na R\u00fassia. Este tipo de oposi\u00e7\u00e3o faria com que, na R\u00fassia ou na China, voc\u00ea fosse executado de imediato. Ainda h\u00e1 certa liberdade na Hungria, embora a cada dia se torna mais dif\u00edcil pertencer \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o. Se\u00a0<strong>Trump<\/strong>\u00a0consegue aumentar sua base de seguidores, segue propagando not\u00edcias falsas e continua com sua pol\u00edtica para com os meios de comunica\u00e7\u00e3o, para que as pessoas prefiram abrir seu\u00a0<strong>Facebook<\/strong>\u00a0ao inv\u00e9s de ler o\u00a0<strong>Washington Post<\/strong>, estaremos em uma situa\u00e7\u00e3o vulner\u00e1vel. No pior dos casos, ser\u00e1 reeleito por um segundo per\u00edodo. N\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>Seu livro \u00e9 uma defesa dos valores espirituais absolutos. N\u00e3o \u00e9 uma aspira\u00e7\u00e3o muito elevada neste momento de emerg\u00eancia?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 uma aspira\u00e7\u00e3o elevada procurar o amor de sua vida? \u00c9 uma aspira\u00e7\u00e3o muito elevada necessitar da amizade? \u00c9 uma aspira\u00e7\u00e3o muito elevada sentir a necessidade de perseguir nossas paix\u00f5es, de fazer algo que tenha algum significado? As coisas das quais falo n\u00e3o s\u00e3o moralistas, abstratas ou po\u00e9ticas, s\u00e3o as coisas que est\u00e3o no centro do ser humano. \u00c9 uma aspira\u00e7\u00e3o muito elevada confiar em seus amigos e n\u00e3o se sentir tra\u00eddo? Estas s\u00e3o as coisas das quais falo. Tudo se tornou dif\u00edcil e complicado porque o ser humano n\u00e3o s\u00f3 aspira, como tamb\u00e9m sente medo e frustra\u00e7\u00e3o. Na realidade, falo de coisas muito b\u00e1sicas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Do Instituto Humanitas Unisinos &#8211; \u201cNo momento, negamo-nos a ver o\u00a0retorno do fascismo. Dizem-me que falo dos perigos do populismo. N\u00e3o \u00e9 assim. O\u00a0populismo\u00a0\u00e9 como os mosquitos, um pouco irritantes. O perigo real \u00e9 o retorno do fascismo. O fascismo \u00e9 o cultivo pol\u00edtico de nossos piores sentimentos irracionais: o ressentimento, o \u00f3dio, a\u00a0xenofobia, o&#8230;<a class=\"more-link\" href=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2017\/10\/29\/o-perigo-real-e-o-retorno-do-fascismo-entrevista-com-o-filosofo-rob-riemen\/\">Continue a leitura <span class=\"meta-nav\">&raquo;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":14662,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-14659","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-notas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/o.jpeg?fit=504%2C335","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-3Or","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14659","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14659"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14659\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14663,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14659\/revisions\/14663"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14662"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14659"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14659"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14659"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}