{"id":14729,"date":"2017-11-01T16:24:42","date_gmt":"2017-11-01T20:24:42","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=14729"},"modified":"2017-11-01T16:27:10","modified_gmt":"2017-11-01T20:27:10","slug":"uma-noite-no-garden-um-olhar-sobre-o-nazismo-nos-eua","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2017\/11\/01\/uma-noite-no-garden-um-olhar-sobre-o-nazismo-nos-eua\/","title":{"rendered":"\u201cUMA NOITE NO GARDEN\u201d: UM OLHAR SOBRE O NAZISMO NOS EUA"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"14731\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2017\/11\/01\/uma-noite-no-garden-um-olhar-sobre-o-nazismo-nos-eua\/gar-3\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/gar.jpg?fit=285%2C177\" data-orig-size=\"285,177\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"gar\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/gar.jpg?fit=285%2C177\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/gar.jpg?fit=285%2C177\" class=\"alignnone size-full wp-image-14731\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/gar.jpg?resize=285%2C177\" alt=\"gar\" width=\"285\" height=\"177\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><u>No The Intercept, por\u00a0<\/u><span data-reactid=\".ti.1.0.0.3.0.1.0.1.1.2.$138.0\"><a class=\"PostByline-link\" href=\"https:\/\/theintercept.com\/staff\/jon-schwarz-brasil\/\" rel=\"author\" data-reactid=\".ti.1.0.0.3.0.1.0.1.1.2.$138\">Jon Schwarz<\/a>\u00a0&#8211;\u00a0<\/span><u>O OBSCURO\u00a0<\/u>\u201cSin\u00e9doque, Nova York\u201d, filme escrito e dirigido por Charlie Kaufman em 2008, surgiu quando a Sony Pictures Classics pediu um filme de terror ao diretor. Kaufman, mais conhecido por roteiros exc\u00eantricos como o de \u201cQuero ser John Malkovich\u201d, aceitou. Mas ele n\u00e3o pretendia fazer um daqueles t\u00edpicos filmes de terror adolescente que parecem se passar em outra dimens\u00e3o. Em vez disso,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.aintitcool.com\/node\/38895\">afirmaria ele<\/a>\u00a0mais tarde, a ideia era fazer um filme para adultos \u201csobre coisas assustadoras do mundo real, das nossas vidas\u201d.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Assista:\u00a0<a href=\"https:\/\/theintercept.com\/2017\/11\/01\/uma-noite-no-garden-um-olhar-sobre-o-nazismo-nos-eua\/\">https:\/\/theintercept.com\/2017\/11\/01\/uma-noite-no-garden-um-olhar-sobre-o-nazismo-nos-eua\/<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>E foi o que Kaufman conseguiu fazer. Para mim, \u201cSin\u00e9doque, Nova York\u201d foi t\u00e3o assustador que nunca mais quero v\u00ea-lo. Filmes sangrentos como \u201cSexta-Feira 13\u2033 e suas 11 continua\u00e7\u00f5es n\u00e3o deixam de ser prazerosos \u2013 quando eles acabam, mesmo que ainda estejamos cheios de adrenalina, sabemos que n\u00e3o estamos sendo perseguidos por Jason Vorhees. Mas, quando\u00a0\u201cSin\u00e9doque, Nova York\u201d chega ao fim e as luzes se acendem, percebemos que aquilo que perseguia os personagens tamb\u00e9m nos persegue fora do cinema, na vida real.<\/p>\n<div class=\"Post Post--video-feature Post--current\" data-reactid=\".ti.1.0\">\n<div class=\"Post-body\" data-reactid=\".ti.1.0.1\">\n<div class=\"Post-content-block-outer\" data-reactid=\".ti.1.0.1.2\">\n<div class=\"GridContainer Post-scroll-container\" data-reactid=\".ti.1.0.1.2.0\">\n<div class=\"GridRow\" data-reactid=\".ti.1.0.1.2.0.0\">\n<div class=\"Post-content-block pt\" data-reactid=\".ti.1.0.1.2.0.0.1\">\n<div class=\"Post-content-block-inner\" data-reactid=\".ti.1.0.1.2.0.0.1.0\">\n<div class=\"PostContent\" data-reactid=\".ti.1.0.1.2.0.0.1.0.4\">\n<div data-reactid=\".ti.1.0.1.2.0.0.1.0.4.$p-0\">\n<p>Nenhum outro filme tinha me proporcionado uma experi\u00eancia t\u00e3o pura de horror at\u00e9 assistir ao novo document\u00e1rio da Field of Vision, chamado \u201cA Night at the Garden\u201d (\u201cUma Noite no Garden\u201d, em tradu\u00e7\u00e3o livre) e dirigido por\u00a0<a href=\"http:\/\/www.marshallcurry.com\/\">Marshall Curry<\/a>. (A\u00a0<a href=\"https:\/\/fieldofvision.org\/\" target=\"_blank\">Field of Vision<\/a>\u00a0pertence ao grupo First Look Media, assim como The Intercept.)<\/p>\n<p>O filme de Curry, que pode ser visto acima, tem apenas seis minutos de dura\u00e7\u00e3o; \u00e9 uma min\u00fascula obra-prima, que deveria ser ensinada em cursos de Hist\u00f3ria, Cinema e Psicologia.<\/p>\n<p>\u00c0 primeira vista, o curta-metragem simplesmente mostra um com\u00edcio do\u00a0<em>Bund<\/em>\u00a0Germano-Americano, realizado em fevereiro de 1939 no Madison Square Garden, em Manhattan.<\/p>\n<p>O\u00a0<em>Bund<\/em>\u00a0\u2013 \u201cfedera\u00e7\u00e3o\u201d em alem\u00e3o \u2013 nunca chegou a crescer de maneira significativa. As estimativas variam, mas, de qualquer forma, o n\u00famero de filiados nunca passou de 25 mil. No entanto, ele era aliado da Frente Crist\u00e3, uma organiza\u00e7\u00e3o inspirada na figura de um famoso demagogo antissemita, o padre Charles Coughlin. Dezenas de milh\u00f5es de americanos ouviam o programa de r\u00e1dio semanal do sacerdote;\u00a0<a href=\"https:\/\/books.google.com\/books?id=rCZ7ALPnyikC&amp;lpg=PP1&amp;dq=%22Less%20care%20for%20internationalism%20and%20more%20concern%20for%20national%20prosperity%22%20speech%20coughlin&amp;pg=PA152#v=onepage&amp;q=%22national%20prosperity%22&amp;f=false\" target=\"_blank\">um de seus lemas<\/a>\u00a0era \u201cMenos internacionalismo e mais prosperidade nacional\u201d.<\/p>\n<p>A Frente Crist\u00e3 ajudou a encher a arena, com capacidade para 20 mil pessoas. \u00c9 um n\u00famero surpreendente para Nova York, que sempre foi um s\u00edmbolo de progressismo, o que pressup\u00f5e um apoio passivo a essas duas organiza\u00e7\u00f5es que ia muito al\u00e9m do p\u00fablico presente no com\u00edcio.<\/p>\n<p>Do lado de fora, o letreiro anuncia um \u201ccom\u00edcio pr\u00f3-americano\u201d \u2014 no dia seguinte, haveria uma partida de h\u00f3quei entre Rangers e Detroit Red Wings, e, um dia depois, um jogo de basquete universit\u00e1rio entre Fordham e Piitsburgh. O evento come\u00e7a com a entrada de dezenas de pessoas portando bandeiras dos Estados Unidos, marchando solenemente at\u00e9 o fundo da sala, diante de uma gigantesca imagem de George Washington.<\/p>\n<p>O orador principal \u00e9 Fritz Kuhn, um alem\u00e3o naturalizado americano, presidente do\u00a0<em>Bund<\/em>. \u00c9 \u00f3bvio que se trata de um fanfarr\u00e3o, um escroque. Ele declara que est\u00e1 ali para \u201cexigir que o governo volte para as m\u00e3os dos americanos, seus fundadores\u201d \u2013 com um sotaque t\u00e3o forte que parece o pr\u00f3prio\u00a0<a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=vlmGknvr_Pg&amp;t=1m23s\">Adolf Hitler<\/a>. At\u00e9 o embaixador nazista nos Estados Unidos se envergonhava de Kuhn, referindo-se a ele como \u201cest\u00fapido, barulhento e absurdo\u201d.<\/p>\n<p>Entretanto, ningu\u00e9m no Madison Square Garden parece se dar conta disso. Arrancando risadas da plateia, Kuhn fala sobre as mentiras da \u201cimprensa controlada pelos judeus\u201d, que o descreve como \u201cuma criatura com chifres, cascos e uma longa cauda\u201d.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.washingtonpost.com\/news\/politics\/wp\/2017\/10\/17\/when-american-nazis-rallied-in-manhattan-one-working-class-jewish-man-from-brooklyn-took-them-on\/?utm_term=.4edb779aadce\">um homem<\/a>\u00a0de 26 anos chamado Isadore Greenbaum invade o palco e \u00e9 imediatamente agarrado e agredido pelos lacaios uniformizados de Kuhn. Em um determinado momento, enquanto a pol\u00edcia de Nova York carrega Greenbaum para fora, suas cal\u00e7as s\u00e3o arriadas. Kuhn sorri, debochado, e a plateia vai ao del\u00edrio.<\/p>\n<p>O filme termina com uma soprano entoando \u201c<a href=\"https:\/\/theintercept.com\/2016\/09\/13\/more-proof-the-u-s-national-anthem-has-always-been-tainted-with-racism\/\" target=\"_blank\">Star-Spangled Banner<\/a>\u201c, o hino americano.<\/p>\n<p>No dia seguinte, o New York Times\u00a0<a href=\"http:\/\/query.nytimes.com\/mem\/archive-free\/pdf?res=9D05E6DF1439E03ABC4A51DFB4668382629EDE\">noticiou<\/a>\u00a0que o\u00a0<em>Bund<\/em>\u00a0havia coletado quase US$ 8,5 mil em doa\u00e7\u00f5es, o equivalente a US$ 150 mil nos dias de hoje. Ainda naquele ano, Kuhn seria preso por se apropriar de um total equivalente a US$ 250 mil atuais de seus fi\u00e9is seguidores.<\/p>\n<p>O artigo do New York Times citava manifestantes de esquerda, que afirmavam terem sido \u201cpisoteados pela pol\u00edcia montada e brutalmente agredidos por policiais uniformizados e \u00e0 paisana\u201d do lado de fora da arena. Um coronel da reserva reclamava que os membros do\u00a0<em>Bund<\/em>\u201cpoderiam confundir as pessoas\u201d, pois seus uniformes\u00a0<a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/us-news\/2017\/aug\/15\/charlottesville-militia-security-gear-uniforms\">eram parecidos com o do ex\u00e9rcito americano<\/a>.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, informava o jornal<em>,\u00a0<\/em>a rep\u00f3rter Dorothy Thompson, que estava presente no com\u00edcio, chegara a ser retirada da sala por ter soltado uma risada. Anos antes, Thompson havia sido correspondente do New York Post em Berlim, cobrindo a ascens\u00e3o do fascismo antes de ser expulsa da Alemanha, em 1934. Na \u00e9poca do com\u00edcio do\u00a0<em>Bund<\/em>, ela estava casada com Sinclair Lewis, autor do livro \u201c<a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2017\/01\/17\/books\/review\/classic-novel-that-predicted-trump-sinclar-lewis-it-cant-happen-here.html?_r=0\">N\u00e3o Vai Acontecer Aqui<em>\u201c<\/em><\/a>.<\/p>\n<p>Muitos anos depois dos acontecimentos de \u201cUma Noite no Garden<em>\u201c<\/em>, Thompson escreveu um influente artigo para a Harper\u2019s Magazine intitulado \u201c<a href=\"https:\/\/harpers.org\/archive\/1941\/08\/who-goes-nazi\/\" target=\"_blank\">Who Goes Nazi?<\/a>\u201d (\u201cQuem vai virar nazista?\u201d, em tradu\u00e7\u00e3o livre), no qual descreve a \u201cbrincadeira macabra\u201d de tentar especular quem, dentre as pessoas que conhecemos, poderia se tornar um nazista. \u201cA essa altura da vida, acho que j\u00e1 sei\u201d, afirma.<\/p>\n<p>\u201cO nazismo n\u00e3o tem nada ver com ra\u00e7a ou nacionalidade. Ele atrai um determinado tipo de mentalidade. (\u2026) O intelectual frustrado e humilhado; o especulador rico e assustado; o filho mimado; o tirano dos empregados; o homem que alcan\u00e7ou o sucesso com oportunismo \u2013 todos eles abra\u00e7ariam o nazismo\u201d, escreve Thompson.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"img-wrap align-center width-fixed\">\n<p><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/theintercept.imgix.net\/wp-uploads\/sites\/1\/2017\/10\/GettyImages-859941772-1509142725.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-155009 size-large\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/theintercept.imgix.net\/wp-uploads\/sites\/1\/2017\/10\/GettyImages-859941772-1509142725.jpg?resize=600%2C400&#038;ssl=1\" alt=\"NEW YORK, NY - OCTOBER 10: Marshall Curry discusses his film 'A Night at the Garden' at NYFF Live - Field of Vision Presents during the 55th New York Film Festival at Elinor Bunin Munroe Film Center on October 10, 2017 in New York City. (Photo by Dia Dipasupil\/Getty Images)\" width=\"600\" height=\"400\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"caption\">Marshall Curry fala sobre o seu filme \u201cUma Noite no Garden<em>\u201c<\/em>\u00a0em uma apresenta\u00e7\u00e3o da Field of Vision durante o 55\u00ba Festival de Cinema de Nova York, no Elinor Bunin Munroe Film Center, no dia 10 de outubro de 2017, em Nova York.<\/p>\n<p class=\"caption source\">Foto: Dia Dipasupil\/Getty Images<\/p>\n<\/div>\n<p>Curry ficou sabendo do com\u00edcio do\u00a0<em>Bund<\/em>\u00a0h\u00e1 seis meses, por meio de um amigo que estava escrevendo o roteiro de um filme que se passa em 1939. A princ\u00edpio, o diretor n\u00e3o acreditou. \u201cSe realmente tivesse acontecido um enorme com\u00edcio nazista no cora\u00e7\u00e3o de Nova York, eu j\u00e1 teria ouvido falar\u201d, explica.<\/p>\n<p>Mas a verdade \u00e9 que aconteceu; o evento simplesmente havia sido esquecido pela Hist\u00f3ria. Curry encontrou outros document\u00e1rios que usavam imagens daquela noite e contratou o pesquisador\u00a0<a href=\"http:\/\/www.atlasfilms.org\/\">Rich Remsberg<\/a>para procurar mais material.<\/p>\n<p>Remsberg descobriu imagens do com\u00edcio em todo o pa\u00eds, inclusive no Arquivo Nacional e na Universidade da Calif\u00f3rnia em Los Angeles (UCLA). O material tinha duas caracter\u00edsticas not\u00e1veis: em primeiro lugar, o com\u00edcio havia sido filmado em 35mm \u2013 e n\u00e3o em 16mm ou 8mm, o padr\u00e3o da \u00e9poca \u2013, ent\u00e3o a qualidade do filme era surpreendentemente boa. Al\u00e9m disso, as imagens de dentro do Madison Square Garden haviam sido todas filmadas pelo pr\u00f3prio\u00a0<em>Bund<\/em>\u00a0\u2013 e de forma t\u00e3o h\u00e1bil que seus autores certamente devem ter estudado a cinematografia nazista.<\/p>\n<p>Curry usou essas imagens de arquivo para criar um filme extremamente engenhoso. N\u00e3o h\u00e1 nenhuma narra\u00e7\u00e3o ou depoimento de historiador nos dizendo o que sentir. Em vez disso, o espectador tem espa\u00e7o para decidir por si mesmo como apreender a experi\u00eancia.<\/p>\n<p>O que \u00e9 ainda mais interessante \u00e9 a aus\u00eancia de qualquer men\u00e7\u00e3o aos Estados Unidos atuais. \u201cQuando o americano m\u00e9dio n\u00e3o politizado assistir ao filme, ficar\u00e1 um pouquinho mais consciente de como os demagogos usam o sarcasmo, o humor e a viol\u00eancia para atrair pessoas que at\u00e9 ent\u00e3o eram cidad\u00e3os respeit\u00e1veis\u201d, afirma Curry.<\/p>\n<p>Para ilustrar a quest\u00e3o, o diretor menciona as cenas de j\u00fabilo da plateia ao ver Greenbaum sendo atacado e humilhado. \u201cS\u00e3o milhares de pessoas de terno, vestido e chap\u00e9u; pessoas que provavelmente tratavam muito bem os vizinhos\u201d, diz.<\/p>\n<p><u>TALVEZ O GRANDE MOMENTO<\/u>\u00a0de \u201cUma Noite no Garden\u201d seja o plano de um jovem uniformizado no palco. Ele parece ter cerca de oito anos, \u00e9 membro da juventude do\u00a0<em>Bund\u00a0<\/em>e \u00e9 menor do que os outros. Enquanto a turba ultraja Greenbaum, carregando-o para fora do palco, o menino olha em volta, para se certificar de que n\u00e3o est\u00e1 sozinho, e d\u00e1 pulinhos de prazer, esfregando as m\u00e3os e dan\u00e7ando.<\/p>\n<p>Esse deleite selvagem e animalesco s\u00f3 pode se manifestar em uma pessoa com a idade emocional de uma crian\u00e7a. Mas existem muitos adultos \u201ccronol\u00f3gicos\u201d esperando para que algu\u00e9m lhes d\u00ea autoriza\u00e7\u00e3o para se livrar do fardo da consci\u00eancia moral adulta; algu\u00e9m que lhes diga: \u201cEncontramos os culpados de toda a sua frustra\u00e7\u00e3o e dor. Eles se parecem conosco, como humanos, mas n\u00e3o o s\u00e3o. Est\u00e3o apenas disfar\u00e7ados. Dissolva-se conosco nessa uivante massa protoplasm\u00e1tica, e voc\u00ea n\u00e3o ser\u00e1 respons\u00e1vel por nada.\u201d<\/p>\n<p>Isso j\u00e1 aconteceu, em maior ou menor escala, diversas vezes na hist\u00f3ria humana. \u00c9 algo muito mais enraizado em n\u00f3s do que qualquer coisa que chamemos de \u201cpol\u00edtica\u201d. O nazismo e o fascismo s\u00e3o apenas os nomes que demos \u00e0 manifesta\u00e7\u00e3o moderna desses valores.<\/p>\n<p>Contudo, para que esse potencial vire realidade, s\u00e3o necess\u00e1rias determinadas pessoas tomando determinadas decis\u00f5es em determinados momentos hist\u00f3ricos. Neste caso, o filme nos informa que o evento ocorreu no dia 20 de fevereiro de 1939.<\/p>\n<p>Quando vi a data, fiquei com uma pulga atr\u00e1s da orelha. Outra coisa havia acontecido naquele dia. Mas o qu\u00ea?<\/p>\n<p>Consultei o livro \u201cAscens\u00e3o e Queda do Terceiro Reich\u201d e linhas do tempo da Segunda Guerra Mundial na internet, mas n\u00e3o encontrei o que procurava; fui dar um longo passeio, mas n\u00e3o consegui refrescar a mem\u00f3ria. Durante dois dias, fiquei com aquela sensa\u00e7\u00e3o desagrad\u00e1vel que todo mundo conhece: a de ter esquecido algo importante que s\u00f3 ser\u00e1 lembrado quando for tarde demais.<\/p>\n<p>Mas o que era?<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"PhotoGrid PhotoGrid--2-column PhotoGrid--xtra-large\" data-reactid=\".ti.1.0.1.2.0.0.1.0.4.$photo-grid-1\">\n<div class=\"PhotoGrid-rows\" data-reactid=\".ti.1.0.1.2.0.0.1.0.4.$photo-grid-1.0\">\n<div class=\"PhotoGrid-row PhotoGrid-row--2-of-2\" data-reactid=\".ti.1.0.1.2.0.0.1.0.4.$photo-grid-1.0.0\">\n<div class=\"PhotoGrid-cell PhotoGrid-cell--1\" data-reactid=\".ti.1.0.1.2.0.0.1.0.4.$photo-grid-1.0.0.0\"><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"812\" width=\"600\" decoding=\"async\" class=\"PhotoGrid-photo\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/theintercept.com\/wp-uploads\/sites\/1\/2017\/10\/Lilly-Schwarz-to-Charles-Schwarz-1-1508960809-1000x1353.jpg?resize=600%2C812&#038;ssl=1\" alt=\"\" data-reactid=\".ti.1.0.1.2.0.0.1.0.4.$photo-grid-1.0.0.0.0\" \/><\/div>\n<div class=\"PhotoGrid-cell PhotoGrid-cell--2\" data-reactid=\".ti.1.0.1.2.0.0.1.0.4.$photo-grid-1.0.0.1\"><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"812\" width=\"600\" decoding=\"async\" class=\"PhotoGrid-photo\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/theintercept.com\/wp-uploads\/sites\/1\/2017\/10\/Lilly-Schwarz-to-Charles-Schwarz-2-1508958840-1000x1353.jpg?resize=600%2C812&#038;ssl=1\" alt=\"\" data-reactid=\".ti.1.0.1.2.0.0.1.0.4.$photo-grid-1.0.0.1.0\" \/><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div data-reactid=\".ti.1.0.1.2.0.0.1.0.4.$p-2\">\n<p><u>EMBORA EU<\/u>\u00a0n\u00e3o seja judeu, o pai do meu pai era. A fam\u00edlia dele emigrou da Alemanha para os EUA no fim do s\u00e9culo XIX e se instalou em Chicago, onde meu av\u00f4 nasceu. Depois que ele se casou com a minha av\u00f3, a fam\u00edlia se mudou para a capital, Washington. Mas ele ainda tinha parentes na Europa.<\/p>\n<p>H\u00e1 quase 80 anos, minha fam\u00edlia guarda uma carta que meu av\u00f4 recebeu de sua prima Lilly Schwarz, de D\u00fcsseldorf. Minha tia, irm\u00e3 do meu pai, \u00e9 a atual guardi\u00e3 do documento. Mesmo em 2017, aquela caligrafia meticulosa ainda exalava terror:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cQuerido Charles!<\/p>\n<p>Finalmente consegui o seu endere\u00e7o e escrevo imediatamente. Das piores coisas, acho que voc\u00ea vai ser informado pela sua m\u00e3e. (\u2026) Agora temos que esperar o nosso n\u00famero ser chamado pelo consulado americano em Stuttgart, o que pode demorar de um ano a um ano e meio. Enquanto isso, tento emigrar para a Inglaterra, porque a situa\u00e7\u00e3o aqui est\u00e1 intoler\u00e1vel. Voc\u00ea ou algum amigo seu tem contatos na Inglaterra? Se tiver, por favor me mande o endere\u00e7o deles. A \u00fanica forma de emigrar \u00e9 encontrar um servi\u00e7o de empregada dom\u00e9stica. S\u00f3 assim o\u00a0<em>Home Office<\/em>\u00a0permite que voc\u00ea entre no pa\u00eds e trabalhe. (\u2026)<\/p>\n<p>Quero saber da sua vida. Nossa querida tia Helen me escreveu dizendo que voc\u00ea tem um bom emprego no Departamento do Tesouro. Voc\u00ea deve andar muito ocupado, e o trabalho deve ser muito gratificante. E a sua mulher e o seu beb\u00ea? Espero que todos estejam bem de sa\u00fade. (\u2026)<\/p>\n<p>Voc\u00ea tem alguma ideia ou conselho para apressar a nossa emigra\u00e7\u00e3o? Ali\u00e1s, ser\u00e1 que voc\u00ea tem algum contato no governo? Como Washington \u00e9 a capital, a\u00ed deve ser o melhor lugar para experimentar o que h\u00e1 de mais novo. Estamos aguardando a publica\u00e7\u00e3o das novas condi\u00e7\u00f5es para a emigra\u00e7\u00e3o judaica. Voc\u00ea n\u00e3o imagina como os judeus est\u00e3o desesperados.<\/p>\n<p>Meu ingl\u00eas \u00e9 muito engra\u00e7ado? Consigo ler livros e jornais em ingl\u00eas e sei que as palavras nunca mudam, n\u00e3o importa a declina\u00e7\u00e3o. Aproveito cada momento para estudar o idioma; aprendi no \u00faltimo inverno a taquigrafia inglesa e tamb\u00e9m sei datilografar.<\/p>\n<p>Por favor, mande uma resposta r\u00e1pida.<\/p>\n<p>Com muitos cumprimentos e muito amor para todos voc\u00eas,<\/p>\n<p>Continuo sendo<br \/>\na sua prima<br \/>\nLilly\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>A pulga atr\u00e1s da minha orelha me dizia para encontrar essa carta, ent\u00e3o fiz uma busca na minha caixa de e-mails e acabei encontrando uma transcri\u00e7\u00e3o. E bati o olho na primeira linha:<\/p>\n<div class=\"img-wrap align-center width-fixed\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/theintercept.imgix.net\/wp-uploads\/sites\/1\/2017\/10\/firstline-1509264378.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"600\" width=\"600\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-155120\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/theintercept.imgix.net\/wp-uploads\/sites\/1\/2017\/10\/firstline-1509264378.jpg?fit=600%2C600&#038;ssl=1\" alt=\"\" \/><\/a><\/div>\n<p>Lilly tinha 33 anos quando escreveu ao meu av\u00f4. Ela estava sendo perseguida por um monstro e acreditava que estaria a salvo se conseguisse chegar nos EUA.<\/p>\n<p>Mas ela nunca chegou. O monstro devorou-a. Dois anos depois, em outubro de 1941, ela foi deportada para o gueto de Minsk, na Bielor\u00fassia,\u00a0<a href=\"http:\/\/yvng.yadvashem.org\/nameDetails.html?language=en&amp;s_lastName=schwarz&amp;s_firstName=lilly&amp;s_place=&amp;itemId=11630625&amp;ind=93&amp;winId=-5355902423957079300\">onde acabou morrendo<\/a>.<\/p>\n<p>Quando vi a data da carta de Lilly, experimentei uma rea\u00e7\u00e3o f\u00edsica que jamais havia sentido. Aquilo reverberou pelo meu corpo, da cabe\u00e7a aos dedos do p\u00e9 e de volta \u00e0 cabe\u00e7a. Naquele dia, ela era mais de 10 anos mais nova do que eu hoje. Ela n\u00e3o sabia que o monstro que a perseguia tamb\u00e9m esperava por ela nos Estados Unidos, s\u00f3 que dormitando \u2013 e que, no exato momento em que escrevia seu apelo desesperado, dezenas de milhares de americanos comuns, banais, ordin\u00e1rios, tentavam despert\u00e1-lo.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que \u201cUma Noite no Garden\u201d \u00e9 um verdadeiro filme de terror. Ele acaba em seis minutos, mas o medo do espectador perdura. Percebemos que o monstro est\u00e1 por toda parte \u2013 porque o levamos dentro de n\u00f3s.<\/p>\n<p>Na maioria dos lugares, na maioria das \u00e9pocas, o monstro est\u00e1 hibernando. Muitos americanos brancos acreditam que esse sempre foi o caso nos EUA, mas quem n\u00e3o \u00e9 branco sabe que ele sempre andou por a\u00ed, cambaleante de sono, ao longo da hist\u00f3ria do pa\u00eds. Por\u00e9m ele nunca chegou a acordar totalmente, e s\u00f3 em ocasi\u00f5es extraordin\u00e1rias uma sociedade consegue despertar a sua f\u00faria. Por enquanto, ainda estamos longe disso, e a probabilidade do monstro acordar nos EUA ainda \u00e9 pequena. Mas o \u00faltimo ano me fez perceber que ela \u00e9 maior do que eu imaginava. H\u00e1 dias em que posso ver um estremecimento nas p\u00e1lpebras da besta.<\/p>\n<p>Gra\u00e7as \u00e0quela carta, tenho a impress\u00e3o de que conhe\u00e7o Lilly, e \u00e0s vezes me imagino encontrando-a em outra dimens\u00e3o. Gostaria de poder dizer \u00e0 minha prima que seu sofrimento n\u00e3o foi em v\u00e3o, que aprendemos com ele e fizemos de tudo para manter o monstro sedado. Mas eu estaria mentindo. Os americanos s\u00e3o t\u00e3o ignorantes, ego\u00edstas e cegos quanto todos os seres humanos que j\u00e1 passaram por este planeta, e quem assistir a \u201cUma Noite no Garden<em>\u201c<\/em>\u00a0\u2013 assistir de verdade \u2013 entender\u00e1 que absolutamente tudo \u00e9 poss\u00edvel.<\/p>\n<p><em>Tradu\u00e7\u00e3o: Bernardo Tonasse<\/em><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"Post-contact Post-contact--1\" data-reactid=\".ti.1.0.1.2.0.0.1.0.a\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div data-reactid=\".ti.1.1\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; No The Intercept, por\u00a0Jon Schwarz\u00a0&#8211;\u00a0O OBSCURO\u00a0\u201cSin\u00e9doque, Nova York\u201d, filme escrito e dirigido por Charlie Kaufman em 2008, surgiu quando a Sony Pictures Classics pediu um filme de terror ao diretor. Kaufman, mais conhecido por roteiros exc\u00eantricos como o de \u201cQuero ser John Malkovich\u201d, aceitou. Mas ele n\u00e3o pretendia fazer um daqueles t\u00edpicos filmes de&#8230;<a class=\"more-link\" href=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2017\/11\/01\/uma-noite-no-garden-um-olhar-sobre-o-nazismo-nos-eua\/\">Continue a leitura <span class=\"meta-nav\">&raquo;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-14729","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-3Pz","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14729","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14729"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14729\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14732,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14729\/revisions\/14732"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14729"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14729"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14729"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}