{"id":15011,"date":"2017-11-15T11:08:31","date_gmt":"2017-11-15T15:08:31","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=15011"},"modified":"2017-11-15T11:08:31","modified_gmt":"2017-11-15T15:08:31","slug":"120-anos-apos-o-massacre-canudos-e-um-exemplo-de-resistencia","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2017\/11\/15\/120-anos-apos-o-massacre-canudos-e-um-exemplo-de-resistencia\/","title":{"rendered":"120 anos ap\u00f3s o massacre, Canudos \u00e9 um exemplo de resist\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"15012\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2017\/11\/15\/120-anos-apos-o-massacre-canudos-e-um-exemplo-de-resistencia\/canu\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/canu.jpg?fit=640%2C360\" data-orig-size=\"640,360\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"canu\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/canu.jpg?fit=300%2C169\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/canu.jpg?fit=600%2C338\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/canu.jpg?resize=600%2C338\" alt=\"canu\" width=\"600\" height=\"338\" class=\"alignnone size-full wp-image-15012\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/canu.jpg?w=640 640w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/canu.jpg?resize=300%2C169 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/canu.jpg?resize=533%2C300 533w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p>Mesmo com o massacre e a inunda\u00e7\u00e3o, Canudos \u00e9 um retrato da luta do povo do Nordeste<!--more--><\/p>\n<p>Vanessa Gonzaga, de Canudos (BA)<br \/>\nBrasil de Fato | Recife (PE)<\/p>\n<p>O ano \u00e9 1897. No norte da Bahia, a vila de Canudos era um dos focos de resist\u00eancia popular contra a Rep\u00fablica e os altos impostos. A revolta era organizada por todos os moradores da vila, que tinha cerca de 20 mil habitantes, liderados pelo cearense Ant\u00f4nio Conselheiro.<\/p>\n<p>Nascido em Quixeramobim-CE, Ant\u00f4nio Vicente Mendes Maciel foi seguidor do Padre C\u00edcero e Padre Ibiapina. Antes de se estabelecer em Canudos, peregrinou na Bahia e em Sergipe. Al\u00e9m de pregar a palavra de Deus, Ant\u00f4nio Conselheiro contribu\u00eda na organiza\u00e7\u00e3o de 3 obras que considerava fundamentais por onde passava: a\u00e7udes, para lidar com clima do semi\u00e1rido e enfrentar os per\u00edodos de estiagem; cemit\u00e9rios, para enterrar com dignidade a grande quantidade de crian\u00e7as que morriam de fome; e as Igrejas, para reunir a comunidade em torno da palavra de Deus e para a tomada de decis\u00f5es coletivas.<\/p>\n<p>Um fato curioso \u00e9 que Ant\u00f4nio n\u00e3o era o \u00fanico conselheiro da regi\u00e3o. Para ser conselheiro, era preciso ser uma pessoa ligada \u00e0 religi\u00e3o e que tivesse idade avan\u00e7ada, pois a experi\u00eancia de vida influenciava nos conselhos dados. Grande parte dos conselheiros eram na verdade conselheiras, pois muitas beatas tomavam para si o papel de aconselhar os mais jovens, especialmente as meninas e tamb\u00e9m contribuir na organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos vilarejos.<\/p>\n<p>Em 1893 Ant\u00f4nio Conselheiro chega a Canudos, um pequeno vilarejo \u00e0 margem do rio Vaza Barris, na Bahia. O modo de produ\u00e7\u00e3o coletiva e a din\u00e2mica de mutir\u00f5es para construir os pilares da cidade, al\u00e9m das casas de pau a pique das fam\u00edlias que chegavam, atra\u00edram milhares de sertanejos que fugiam do latif\u00fandio e da tirania dos coron\u00e9is. Chegavam por dia cerca de 12 novas fam\u00edlias.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse momento de crescimento r\u00e1pido que a comunidade se recusa a pagar impostos e se organizar da forma que a recente Rep\u00fablica exigia. \u00c9 a\u00ed que a vila de Canudos \u00e9 renomeada por Conselheiro e passa a se chamar Belo Monte.<\/p>\n<p>Canudos crescia e assustava n\u00e3o apenas os latifundi\u00e1rios da regi\u00e3o, que perdiam diariamente seus vaqueiros, mas tamb\u00e9m assustava o Estado, que via a comunidade como uma amea\u00e7a ao estabelecimento da nova forma de organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do pa\u00eds.<\/p>\n<p>O massacre teve in\u00edcio em 1896. A justificativa dada pelas tropas para o ataque seria a invas\u00e3o da cidade de Juazeiro, no Norte baiano. O fato \u00e9 que Conselheiro e uma parte dos habitantes iriam a Juazeiro buscar madeiras para a constru\u00e7\u00e3o da Igreja da vila, que j\u00e1 havia sido paga, mas n\u00e3o foi entregue. O primeiro combate aconteceu ainda no caminho, onde hoje fica o munic\u00edpio de Uau\u00e1.<\/p>\n<p>A guerra era veiculada nos jornais de circula\u00e7\u00e3o nacional, especialmente no sudeste, onde Canudos parecia uma iminente amea\u00e7a ao pa\u00eds inteiro. Luiz Paulo, coordenador do Projeto Canudos, relaciona a m\u00eddia ao \u00f3dio coletivo que Canudos despertou em todo o pa\u00eds. \u201cA m\u00eddia sempre representou as elites. Na \u00e9poca as reportagens retratavam o povo de Canudos como um bando de malucos. At\u00e9 hoje surgem coment\u00e1rios do tipo, nos retratando como jagun\u00e7os, o que \u00e9 muito pejorativo\u201d.<\/p>\n<p>A primeira das quatro investidas contra o vilarejo foi derrotada rapidamente pela comunidade. Por mais que o Ex\u00e9rcito tivesse armas de fogo, o povo de Canudos tinha um aliado: a Caatinga. O reconhecimento do territ\u00f3rio facilitava a locomo\u00e7\u00e3o dos grupos que vigiavam a cidade e impediam, com paus e pedras, a chegada das tropas na cidade.<\/p>\n<p>O Estado mandou mais combatentes para Canudos do que para a Guerra do Paraguai, o maior conflito internacional da Am\u00e9rica Latina. Mesmo com o apoio do Estado e dos fazendeiros, as tr\u00eas expedi\u00e7\u00f5es enviadas foram derrotadas pela popula\u00e7\u00e3o, inclusive pelas crian\u00e7as.<\/p>\n<p>A vit\u00f3ria da comunidade nas tr\u00eas tentativas veio acompanhada de muitas mortes, devido a diferen\u00e7a de armas e ferramentas. O Ex\u00e9rcito tinha armas, mas n\u00e3o conhecia o terreno e subestimou a comunidade. Os conselheiristas tinham um grande dom\u00ednio sobre a geografia da regi\u00e3o, rodeada de serras, mas tinha em m\u00e3os apenas paus, pedras, facas e armas para ca\u00e7ar passarinhos.<\/p>\n<p>A expedi\u00e7\u00e3o Artur Oscar, a quarta e \u00faltima, destruiu a cidade de Canudos. Grande parte da popula\u00e7\u00e3o foi morta por degolamento e a vila incendiada. Ainda assim, os sobreviventes reconstru\u00edram a vida no mesmo local da Guerra.<\/p>\n<p>At\u00e9 hoje a hist\u00f3ria da cidade e &#8211; principalmente do massacre &#8211; seguiam a linha de racioc\u00ednio de pesquisadores que criminalizavam os moradores que resistiram aos ataques e, especialmente, criminalizavam Ant\u00f4nio Conselheiro, al\u00e9m das tentativas de provar que o beato era louco.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos novas pesquisas confrontam o que estava sendo dito pela Universidade e pela m\u00eddia. \u00c9 o que ressalta o padre Jos\u00e9 Wilson de Andrade, que tamb\u00e9m possui doutorado sobre a hist\u00f3ria de Canudos. \u201cAgora tem um vis\u00e3o pol\u00edtica sobre o lado dos pobres e dos movimentos sociais. Essa \u00e9 a nossa \u00f3tica. A entrada de pessoas pobres na Universidade \u00e9 o que possibilita essa mudan\u00e7a de vis\u00e3o. Canudos foi uma guerra do litoral, dos poderosos, do ex\u00e9rcito, dos pol\u00edticos, dos fazendeiros, contra o povo de Canudos, com faca, fac\u00e3o e espingarda. Agora estamos constatando isso sociologicamente\u201d.<\/p>\n<p>Em 1968 o Departamento Nacional de Combate \u00e0 Seca (DNOCS) construiu o A\u00e7ude Cocorob\u00f3 na tentativa de oferecer \u00e1gua aos cerca de 20 munic\u00edpios da regi\u00e3o. A justificativa do progresso e combate \u00e0 seca foi dada pelo Estado para inundar a cidade onde o massacre aconteceu. O a\u00e7ude tem uma extens\u00e3o de 12km e 250mil m\u00b3, mas n\u00e3o abastece nem a cidade de Canudos inteira. Os sobreviventes do massacre e seus descendentes foram novamente expulsos da terra em que viviam, mas fundaram uma terceira Canudos, que existe at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s 120 anos<\/p>\n<p>Com um dos \u00cdndices de Desenvolvimento Humano (IDHs) mais baixos do Brasil, Canudos ocupa a 5002\u00aa posi\u00e7\u00e3o entre os 5570 munic\u00edpios brasileiros. Al\u00e9m disso, n\u00e3o h\u00e1 cursos de gradua\u00e7\u00e3o na cidade. Recentemente Canudos recebeu o primeiro Centro de Rob\u00f3tica da Bahia, que faz parte do Campus Avan\u00e7ado da Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Por enquanto o campus executa apenas atividades de extens\u00e3o.<\/p>\n<p>Mesmo com as recorrentes tentativas de apagamento da mem\u00f3ria da cidade, boa parte da hist\u00f3ria do munic\u00edpio est\u00e1 arquivada em museus, como o Memorial Ant\u00f4nio Conselheiro; o Instituto Popular de Mem\u00f3ria de Canudos, que abriga o cruzeiro crivado de balas que presenciou e resistiu ao massacre; e o Parque Estadual de Canudos, o \u00fanico campo de batalha aberto a visita\u00e7\u00e3o no Brasil, de onde \u00e9 poss\u00edvel ver a antiga Canudos submersa pelo A\u00e7ude Cocorob\u00f3.<\/p>\n<p>Um aspecto relevante \u00e9 a perspectiva da economia e desenvolvimento regional. Uma das experi\u00eancias \u00e9 a Cooperativa de Agropecu\u00e1ria Familiar de Canudos, Uau\u00e1 e Cura\u00e7\u00e1 (COOPERCUC). A cooperativa conta com 204 cooperados das tr\u00eas cidades, sendo composta em sua maioria por mulheres. O foco \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o de doces e gel\u00e9ias de frutas nativas da regi\u00e3o, como o umbu e o maracuj\u00e1 da caatinga.<\/p>\n<p>A iniciativa, umas das maiores da regi\u00e3o, vem sofrendo cortes do Minist\u00e9rio do Desenvolvimento Agr\u00e1rio, como explica a presidenta da cooperativa, Denise Cardoso. \u201cAp\u00f3s o golpe estamos tendo dificuldades no acesso a pol\u00edticas p\u00fablicas. At\u00e9 2015 tivemos acesso a R$ 800 mil pelos programas. Dos R$ 25 milh\u00f5es que eram investidos no Programa de Aquisi\u00e7\u00e3o de Alimentos (PAA), hoje s\u00e3o apenas R$ 750 mil para todo o Brasil. \u00c9 menos do que o total que s\u00f3 a nossa cooperativa acessava\u201d, informa.<\/p>\n<p>Mesmo com uma s\u00e9rie de obst\u00e1culos que dificultam o desenvolvimento econ\u00f4mico da cidade e o bem estar da popula\u00e7\u00e3o, o povo canudense demonstra resist\u00eancia e orgulho da sua hist\u00f3ria, que \u00e9 poss\u00edvel ver nas ruas, escolas e estabelecimentos da cidade, que carregam o nome de Ant\u00f4nio Conselheiro. Canudos hoje \u00e9 uma parte do passado do Nordeste que t\u00eam sido revelado e uma pe\u00e7a fundamental para entender a hist\u00f3ria do Brasil.<\/p>\n<p>Edi\u00e7\u00e3o: Texto: Monyse Ravena | a\u00fadio: Anelize Moreira<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mesmo com o massacre e a inunda\u00e7\u00e3o, Canudos \u00e9 um retrato da luta do povo do Nordeste<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-15011","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-3U7","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15011","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15011"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15011\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15013,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15011\/revisions\/15013"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15011"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15011"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15011"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}