{"id":15067,"date":"2017-11-17T19:28:31","date_gmt":"2017-11-17T23:28:31","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=15067"},"modified":"2017-11-17T19:28:31","modified_gmt":"2017-11-17T23:28:31","slug":"meu-cerebro-minhas-ideias","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2017\/11\/17\/meu-cerebro-minhas-ideias\/","title":{"rendered":"Meu c\u00e9rebro, minhas ideias"},"content":{"rendered":"<div class=\"thumbnail\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"featured_image wp-post-image     lazyloaded\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/cdn01.justificando.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/16150000\/Meu-c%25C3%25A9rebro-minhasideias.jpg?resize=600%2C339\" sizes=\"auto, (max-width: 885px) 100vw, 885px\" srcset=\"http:\/\/cdn01.justificando.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/16150000\/Meu-c%C3%A9rebro-minhasideias.jpg 885w, http:\/\/cdn01.justificando.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/16150000\/Meu-c%C3%A9rebro-minhasideias-300x169.jpg 300w, http:\/\/cdn01.justificando.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/16150000\/Meu-c%C3%A9rebro-minhasideias-768x434.jpg 768w\" alt=\"Meu c\u00e9rebro, minhas ideias\" width=\"600\" height=\"339\" data-lazy-src=\"https:\/\/i0.wp.com\/cdn01.justificando.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/16150000\/Meu-c%25C3%25A9rebro-minhasideias.jpg\" data-lazy-srcset=\"http:\/\/cdn01.justificando.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/16150000\/Meu-c%C3%A9rebro-minhasideias.jpg 885w, http:\/\/cdn01.justificando.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/16150000\/Meu-c%C3%A9rebro-minhasideias-300x169.jpg 300w, http:\/\/cdn01.justificando.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/16150000\/Meu-c%C3%A9rebro-minhasideias-768x434.jpg 768w\" data-lazy-sizes=\"(max-width: 885px) 100vw, 885px\" \/><\/div>\n<div class=\"entry-body\">\u00a0<small class=\"\">Imagem:\u00a0<a class=\"markup--anchor markup--p-anchor\" href=\"http:\/\/stellarleuna.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\" data-href=\"http:\/\/stellarleuna.com\">Stellar Leuna<\/a><\/small><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No justificando<!--more--><\/p>\n<p><small class=\"\"><em>N\u00e3o leva na maldade n\u00e3o<br \/>\nN\u00e3o lutamos por invers\u00e3o<br \/>\nIgualdade \u00e9 o \u201cx\u201d da quest\u00e3o, ent\u00e3o aumenta o som!<br \/>\nEm nome das marias, quit\u00e9rias, da penha silva<br \/>\nEmpoderadas, revolucion\u00e1rias<br \/>\nAtivistas, deixem nossas meninas serem super hero\u00ednas!<br \/>\nPra que nas\u00e7a uma joana d\u2019arc por dia!<br \/>\nComo diria frida: \u201ceu n\u00e3o me kahlo! \u201d<br \/>\nJunto com o bonde saio pra luta e n\u00e3o me abalo<br \/>\nO grito antes preso na garganta j\u00e1 n\u00e3o me consome<br \/>\n\u00c9 pra acabar com o machismo<br \/>\nE n\u00e3o pra aniquilar os homens<br \/>\nQuero andar sozinha porque a escolha \u00e9 minha<br \/>\nSem ser desrespeitada e assediada a cada esquina<br \/>\nQue possa soar bem, correr como uma menina<br \/>\nJogar como uma menina<br \/>\nDirigir como menina, ter a for\u00e7a de uma menina<br \/>\nSe n\u00e3o for por mim, mude por sua m\u00e3e ou filha!\u00a0<\/em><\/small><small class=\"\"><em>(Respeita as mina \u2013 Kell Smith)<\/em><\/small><\/p>\n<p>Por que o feminismo e o empoderamento da mulher incomodam tanto? Porque eles mudam a forma como a pr\u00f3pria mulher se enxerga e subvertem a sua exist\u00eancia, destruindo muros e barreiras que a mant\u00e9m encarcerada em sua vida m\u00e9dia a ruim e em seu relacionamento morno a abusivo. E o outro polo da rela\u00e7\u00e3o, por \u00f3bvio, se incomoda.<\/p>\n<p>Incomoda-se pelo fato de n\u00e3o mais ser o centro do mundo social e cultural constru\u00eddo ao longo de s\u00e9culos, refletido no seu quadrado dom\u00e9stico, se incomoda porque ter uma mulher aprisionada pode muitas vezes lhe ser n\u00e3o apenas conveniente, mas circunstancialmente vantajoso.<\/p>\n<p>Inicio o tema proposto por meio de pequenas abordagens masculinas, com as quais sei que muitas mulheres ir\u00e3o se identificar:<\/p>\n<p><em>\u2013 Voc\u00ea poderia me emprestar o seu estudo sobre o tema?<\/em><\/p>\n<p><em>\u2013 Voc\u00ea poderia me ajudar com uma palestra?<\/em><\/p>\n<p><em>\u2013 Voc\u00ea poderia escrever algo para mim?<\/em><\/p>\n<p><em>\u2013 Voc\u00ea me daria uma ideia?<\/em><\/p>\n<p><em>\u2013 Voc\u00ea criaria um repert\u00f3rio para mim?<\/em><\/p>\n<p><em>\u2013 Poderia me ajudar com os estudos?<\/em><\/p>\n<p><em>\u2013 Poderia ler o que escrevi?<\/em><\/p>\n<p><em>\u2013 Poderia pensar a respeito e me passar suas impress\u00f5es?<\/em><\/p>\n<p>Tais abordagens, quando corriqueiras em um relacionamento, podem revelar algo al\u00e9m de um mero interesse intelectual, mas uma apropria\u00e7\u00e3o do intelecto feminino pelo seu parceiro, amigo ou pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>O termo \u201c<em>bropriating<\/em>\u201d, conceito um pouco mais restrito do que o da apropria\u00e7\u00e3o intelectual, diz respeito a similar demonstra\u00e7\u00e3o do machismo por meio da utiliza\u00e7\u00e3o de ideias de mulheres por homens.<\/p>\n<p>Segundo a Funda\u00e7\u00e3o Tide Setubal esse \u00e9 um dos termos criados para a<a href=\"http:\/\/thinkolga.com\/2015\/04\/09\/o-machismo-tambem-mora-nos-detalhes\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">sinaliza\u00e7\u00e3o de atitudes machistas<\/a>, dentre outros, como\u00a0<em>manterrupting, gaslighting e\u00a0<\/em><em>mansplaining<\/em><strong>.<\/strong><\/p>\n<p><em>Bropriating<\/em>\u00a0nada mais \u00e9 do que quando um homem se apropria de uma ideia criada e expressa por uma mulher e por ela leva os cr\u00e9ditos.<\/p>\n<p>\u00c9 uma jun\u00e7\u00e3o de \u201c<em>bro<\/em>\u201d (de brother, irm\u00e3o, mano) e \u201c<em>appropriating<\/em>\u201d (apropria\u00e7\u00e3o). \u00c9 algo que acontece muito em reuni\u00f5es, quando um homem expressa uma opini\u00e3o anteriormente dada por uma mulher e, ao contr\u00e1rio da primeira, \u00e9 ouvido e aplaudido.<a href=\"http:\/\/justificando.cartacapital.com.br\/2017\/11\/16\/meu-cerebro-minhas-ideias\/#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[1]<\/a>\u00a0Podemos cham\u00e1-lo de apropria\u00e7\u00e3o intelectual, em seu sentido mais estrito.<\/p>\n<blockquote><p>Na sociedade contempor\u00e2nea, as mulheres s\u00e3o menos ouvidas por suas ideias que os homens e isso facilita a ocorr\u00eancia do evento.<\/p><\/blockquote>\n<p>O\u00a0<em>manterrupting<\/em>\u00a0vem da jun\u00e7\u00e3o das palavras\u00a0<em>man\u00a0<\/em>(homem) e\u00a0<em>interrupting (<\/em>e interrup\u00e7\u00e3o), significa \u201chomens que interrompem\u201d. Isso ocorre quando a mulher n\u00e3o consegue concluir as frases e reflex\u00f5es, dada a interrup\u00e7\u00e3o masculina. \u00c9 mais do que comum esse tipo de abordagem e aqui podemos chamar de interrup\u00e7\u00e3o de fala masculina.<\/p>\n<p>J\u00e1 o\u00a0<em>mansplaining<\/em>\u00a0\u00e9 a soma de\u00a0<em>man<\/em>\u00a0(homem) e\u00a0<em>explaining<\/em>\u00a0(explicar). Ocorre quando o homem tenta explicar de forma did\u00e1tica algo que a mulher j\u00e1 conhece ou quando tenta demonstrar para a mulher que est\u00e1 errada, quando est\u00e1 correta.<\/p>\n<p>\u00c9 o t\u00edpico \u201cdesenhar\u201d masculino, na tentativa de demonstrar a sua pretendida superioridade intelectual em rela\u00e7\u00e3o a algum tema. Podemos aqui traduzir como explica\u00e7\u00e3o masculina.<\/p>\n<p>Todas essas condutas revelam o machismo disseminado nos diversos meios, especialmente acad\u00eamicos, nos quais as mulheres ainda sofrem discrimina\u00e7\u00e3o, seja na ocupa\u00e7\u00e3o dos lugares de fala, seja na explica\u00e7\u00e3o de suas ideias e estudos.<\/p>\n<p>Aqui, n\u00e3o obstante, trataremos de uma face perversa do machismo que \u00e9 a de apropria\u00e7\u00e3o masculina das ideias femininas, dando destaque a relacionamentos abusivos nos quais essa apropria\u00e7\u00e3o ocorre.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos nos esquecer de que um relacionamento abusivo n\u00e3o se limita \u00e0quele em que a mulher \u00e9 agredida moralmente ou fisicamente por um homem, seja seu pai, marido, companheiro, amigo, etc.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 grav\u00edssimo e criminoso. Aqui utilizamos um termo mais amplo para mencionar que \u00e9 abusivo um relacionamento de apropria\u00e7\u00e3o intelectual, \u00e9 abusivo um relacionamento em que n\u00e3o h\u00e1 troca, mas apenas favorecimento circunstancial.<\/p>\n<p>Ainda que impl\u00edcito, esse abuso mina a autoestima da mulher quando aos poucos revela que a intencionalidade por detr\u00e1s da rela\u00e7\u00e3o institu\u00edda \u00e9 de obter uma vantagem.<\/p>\n<h5><span class=\"vermelho\">Quantas mulheres n\u00e3o ouviram homens repetindo as suas ideias?<\/span><\/h5>\n<p>Quantas vezes nos colocamos em relacionamentos desse tipo e aos poucos percebemos que o nosso intelecto est\u00e1 sendo apropriado por uma figura masculina que, certamente ser\u00e1 mais ouvida e valorizada por ele?<\/p>\n<p>Essa figura n\u00e3o parar\u00e1 por a\u00ed. Al\u00e9m de disseminar as ideias da mulher, tentar\u00e1 se apropriar de seus amigos, de seu prest\u00edgio, tentar\u00e1 reduzir a sua capacidade de leitura de si mesma, diminuindo a percep\u00e7\u00e3o dos fatos e da rela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>H\u00e1 algo importante a ser dito: sabemos que vivemos em um sistema em que as formas de opress\u00e3o s\u00e3o refletidas no seio das rela\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n<p>O sistema capitalista apropriou-se das diversas formas de explora\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o de um ser por outro e criou tantas outras, legitimando-se e sobrevivendo em raz\u00e3o delas. Tamb\u00e9m sabemos que vivemos em uma sociedade patriarcal.<\/p>\n<p>Fomos inseridas na hist\u00f3ria da humanidade como adornos dos grandes acontecimentos: amantes, esposas, irm\u00e3s, m\u00e3es. A nossa capacidade intelectual nunca foi valorizada, talvez por receio, talvez pela percep\u00e7\u00e3o do mundo que colocou a mulher como o outro ser.<\/p>\n<p>Nossas ideias foram exploradas, disseminadas por homens, sem os devidos cr\u00e9ditos. Fomos esquecidas nos rodap\u00e9s de poucos livros cient\u00edficos e hist\u00f3ricos. Fomos julgadas por nossas opini\u00f5es e ideias muito mais veementemente que homens.<\/p>\n<p>Fomos tratadas pelos legisladores como algo n\u00e3o humano, mas com certa humanidade, algo diferente da casta superior humana masculina. Onde estas mulheres estavam? Em seus lugares, negados por aqueles que registraram a hist\u00f3ria, homens.<\/p>\n<h5><span class=\"vermelho\">Como isso tudo come\u00e7ou?<\/span><\/h5>\n<p>J\u00e1 mencionamos, no texto de estreia da coluna que a linguagem \u00e9 um instrumento de domina\u00e7\u00e3o, como a aus\u00eancia da\u00a0<a href=\"http:\/\/justificando.cartacapital.com.br\/2016\/06\/02\/o-que-e-sororidade-e-por-que-precisamos-falar-sobre\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">palavra sororidade<\/a>\u00a0no vocabul\u00e1rio portugu\u00eas, assim como diversas outras que n\u00e3o possuem o seu correspondente no feminino, limitando-se os estudiosos da l\u00edngua portuguesa em defender ra\u00edzes sem\u00e2nticas e regras gramaticais, sem se aprofundar nos motivos pelo qual os\u00a0<a href=\"https:\/\/exame.abril.com.br\/carreira\/a-lingua-portuguesa-e-machista-veja-a-resposta-de-um-professor\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">fundadores da l\u00edngua assim o fizeram<\/a>.<\/p>\n<p>Do mesmo modo como impor a outros grupos \u00e9tnicos e sociais a sua pr\u00f3pria cultura tamb\u00e9m \u00e9 uma forma de silenciar, calar, bem caracter\u00edstico da domina\u00e7\u00e3o euroc\u00eantrica e patriarcal, a exemplo do genoc\u00eddio de \u00edndios e escraviza\u00e7\u00e3o dos negros no Brasil, iniciados na \u00e9poca de nossa coloniza\u00e7\u00e3o, que causaram e causam sofrimento e humilha\u00e7\u00e3o a esses povos, com graves consequ\u00eancias na estrutura da nossa sociedade, sentidas at\u00e9 os dias de hoje ainda que com outra roupagem\u00a0<a href=\"http:\/\/justificando.cartacapital.com.br\/2017\/11\/16\/meu-cerebro-minhas-ideias\/#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[2]<\/a>\u00a0<a href=\"http:\/\/justificando.cartacapital.com.br\/2017\/11\/16\/meu-cerebro-minhas-ideias\/#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[3]<\/a>.<\/p>\n<p>E n\u00e3o foi diferente com as mulheres. Para tanto, recorro \u00e0 Simone de Beauvoir quando afirma que o fato de a mulher ser o \u201cOutro\u201d contesta todas as justifica\u00e7\u00f5es que os homens lhe puderam dar: eram-lhe evidentemente ditadas pelo interesse. \u201cTudo o que os homens escreveram sobre as mulheres deve ser suspeito, porque eles s\u00e3o, a um tempo, juiz e parte\u201d escreveu, no s\u00e9culo XVII, Poulain de la Barre. Em toda parte e em qualquer \u00e9poca, os homens exibiram a satisfa\u00e7\u00e3o que tiveram de se sentir os reis da cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cBendito seja Deus nosso Senhor e o Senhor de todos os mundos por n\u00e3o me ter feito mulher\u201d, dizem os judeus nas suas preces matinais, enquanto suas esposas murmuram com resigna\u00e7\u00e3o: \u201cBendito seja o Senhor que me criou segundo a sua vontade\u2019.<\/p>\n<p>Entre as merc\u00eas que Plat\u00e3o agradecia aos deuses, a maior se lhe afigurava o fato de ter sido criado livre e n\u00e3o escravo e, a seguir, o de ser homem e n\u00e3o mulher.<\/p>\n<blockquote><p>Mas os homens n\u00e3o poderiam gozar plenamente esse privil\u00e9gio se n\u00e3o houvessem considerado alicer\u00e7ado no absoluto e na eternidade: de sua supremacia procuravam fazer um direito.<\/p><\/blockquote>\n<p>\u201cOs que fizeram e compilaram as leis, por serem homens, favoreceram seu pr\u00f3prio sexo e os jurisconsultos transformaram as leis em princ\u00edpios, diz Poulain de la Barre. Legisladores, sacerdotes, fil\u00f3sofos, escritores e s\u00e1bios empenharam-se em demonstrar que a condi\u00e7\u00e3o subordinada da mulher era desejada no c\u00e9u e proveitosa \u00e0 Terra.\u00a0<a href=\"http:\/\/justificando.cartacapital.com.br\/2017\/11\/16\/meu-cerebro-minhas-ideias\/#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[4]<\/a><\/p>\n<p>Tanto que o pr\u00f3prio fil\u00f3sofo brit\u00e2nico John Stuart Mills, defensor do utilitarismo, ainda no s\u00e9culo XIX denunciava que o atraso na concess\u00e3o de direitos civis \u00e0s mulheres no mundo ocidental gerava preju\u00edzos \u00e0 democracia em face do tardio reconhecimento \u00e0 plena cidadania.<\/p>\n<p>Por isso h\u00e1 quem defenda que em pa\u00edses com\u00a0<em>deficit<\/em>\u00a0democr\u00e1tico como o Brasil, as consequ\u00eancias se arrastam at\u00e9 os dias atuais, na medida em que, compelidas pelo patriarcado a cuidar mais do ambiente privado, e sendo respons\u00e1veis, quase que exclusivamente, pela educa\u00e7\u00e3o das novas gera\u00e7\u00f5es t\u00eam dificuldades de repassar um ensinamento que lhe \u00e9 historicamente relegado, a alteridade no espa\u00e7o p\u00fablico.<\/p>\n<p>O que explica, em muito, as dificuldades das mulheres na vida p\u00fablica, nos m\u00faltiplos espa\u00e7os de produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o dos saberes, como a pol\u00edtica,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/sociedade\/as-faces-do-machismo-nas-universidades-1174.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">universidades e produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria<\/a>, para citar alguns exemplos, na medida em que se exige delas comportamentos acad\u00eamicos como pesquisa e argumenta\u00e7\u00e3o a partir do olhar masculino.<\/p>\n<p>No filme Grandes Olhos, de Tim Burton, a hist\u00f3ria real da pintora Margaret Keane \u00e9 contada. Seus belos trabalhos que retratavam figuras humanas com grandes e intensos olhos eram vendidos como se fossem de seu marido Walter Keane. Em algum momento de sua vida, Margaret ir\u00e1 despertar. At\u00e9 l\u00e1, viveu aprisionada por seu marido que recebia os cr\u00e9ditos por sua genialidade.<\/p>\n<p>E quantas mulheres geniais n\u00e3o foram apagadas da hist\u00f3ria da humanidade deixando os cr\u00e9ditos de seus intentos a homens? Margaret Knight, Alice Guy, Lise Meitner, Jocelyn Bell Burnell, Anna Arnold Hedgeman, tantas outras.<\/p>\n<h5><span class=\"vermelho\">Quem somos e o que fizemos pela hist\u00f3ria da humanidade?<\/span><\/h5>\n<p>Precisamos falar sobre essas mulheres, reescrever as suas hist\u00f3rias e n\u00e3o deixar que as nossas sejam esquecidas ou contadas por homens.\u00a0Parte disso requer que assumamos e divulguemos nossas ideias e reflex\u00f5es em todos os meios. Requer que n\u00e3o nos submetamos a relacionamentos abusivos e que n\u00e3o deixemos que a apropria\u00e7\u00e3o de nossas ideias apague as nossas capacidades e individualidades.<\/p>\n<p>Precisamos assumir o protagonismo de nossas hist\u00f3rias, como integrantes das hist\u00f3rias da humanidade, ocupando o espa\u00e7o que ainda nos \u00e9 negado na dissemina\u00e7\u00e3o das ideias, da ci\u00eancia e dos pensamentos. N\u00e3o podemos nos submeter. N\u00e3o mais.<\/p>\n<blockquote><p>Identificar uma condi\u00e7\u00e3o de submiss\u00e3o muitas vezes requer um exerc\u00edcio di\u00e1rio de autorreflex\u00e3o e especialmente de sororidade.<\/p><\/blockquote>\n<p>As mulheres precisam de aten\u00e7\u00e3o di\u00e1ria e servir de apoio e alerta umas \u00e0s outras. Inclusive a fil\u00f3sofa e feminista Djamila Ribeiro tem tratado sobre o tema em suas redes sociais, ressaltando as frequentes e m\u00faltiplas tentativas de silenciar sua produ\u00e7\u00e3o de conhecimento, em face da grande notoriedade que passou a ter, n\u00e3o s\u00f3 por conta do acesso \u00e0s modernas formas de comunica\u00e7\u00e3o, mas principalmente por ser mulher e negra.<\/p>\n<p>Agrava-se ao fato de que, em qualquer sociedade em crise, os direitos dos mais vulner\u00e1veis, dentre os quais ainda se encontram as mulheres, s\u00e3o ainda mais amea\u00e7ados, o que nos serve de alerta para que nos mantenhamos sempre vigilantes. E n\u00e3o custa lembrar, os\u00a0<a href=\"http:\/\/justificando.cartacapital.com.br\/2017\/01\/18\/nao-ha-nada-mais-parecido-com-um-machista-de-direita-que-um-machista-de-esquerda2\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">atos de silenciamento e apropria\u00e7\u00e3o intelectual n\u00e3o s\u00e3o exclusividade de homens com discursos de direita<\/a>, ao contr\u00e1rio partem tamb\u00e9m de intelectuais de esquerda.<\/p>\n<p>\u00c9 chegada a hora de assumirmos a propriedade absoluta de nossos corpos e nossas ideias, mesmo que para isso tenhamos de lutar diariamente contra a proibi\u00e7\u00e3o do aborto, a ditadura econ\u00f4mica da beleza e da perfei\u00e7\u00e3o, as ideias e fundamentos religiosos machistas, a pol\u00edtica de aniquila\u00e7\u00e3o dos direitos da mulher e da crian\u00e7a, a aus\u00eancia de espa\u00e7os para nossas vozes e nossos olhares e a apropria\u00e7\u00e3o intelectual de nossas ideias.<\/p>\n<p><em><strong>Roselene Aparecida Taveira\u00a0<\/strong>\u00e9<strong>\u00a0<\/strong>Ju\u00edza do Trabalho do TRT da 15\u00aa Regi\u00e3o, membra da Associa\u00e7\u00e3o de Ju\u00edzes pela Democracia, especializada em Direito do Trabalho e Seguridade Social pela USP. Escreve na coluna Sororidade em Pauta.<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p><small class=\"\"><a href=\"http:\/\/justificando.cartacapital.com.br\/2017\/11\/16\/meu-cerebro-minhas-ideias\/#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[1]<\/a><em>\u00a0<\/em>Fontes: Nexo Jornal, Thing Olga, The New York Times, Papo de Homem<\/small><\/p>\n<p><small class=\"\"><a href=\"http:\/\/justificando.cartacapital.com.br\/2017\/11\/16\/meu-cerebro-minhas-ideias\/#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><\/a><a href=\"http:\/\/justificando.cartacapital.com.br\/2017\/11\/16\/meu-cerebro-minhas-ideias\/#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[2]<\/a>\u00a0<a href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/11399\">https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/11399<\/a><\/small><\/p>\n<p><small class=\"\"><a href=\"http:\/\/justificando.cartacapital.com.br\/2017\/11\/16\/meu-cerebro-minhas-ideias\/#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[3]<\/a>\u00a0<a href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/sociedade\/atlas-da-violencia-2017-negros-e-jovens-sao-as-maiores-vitimas\">https:\/\/www.cartacapital.com.br\/sociedade\/atlas-da-violencia-2017-negros-e-jovens-sao-as-maiores-vitimas<\/a><\/small><\/p>\n<p><small class=\"\"><a href=\"http:\/\/justificando.cartacapital.com.br\/2017\/11\/16\/meu-cerebro-minhas-ideias\/#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[4]\u00a0<\/a>BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo: fatos e mitos. 3 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016.<\/small><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0Imagem:\u00a0Stellar Leuna &nbsp; No justificando<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-15067","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-3V1","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15067","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15067"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15067\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15068,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15067\/revisions\/15068"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15067"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15067"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15067"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}