{"id":15195,"date":"2017-11-26T17:47:41","date_gmt":"2017-11-26T21:47:41","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=15195"},"modified":"2017-11-26T17:47:41","modified_gmt":"2017-11-26T21:47:41","slug":"morre-frei-henri-o-cristianismo-que-liberta-ficou-menor-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2017\/11\/26\/morre-frei-henri-o-cristianismo-que-liberta-ficou-menor-no-brasil\/","title":{"rendered":"Morre frei Henri: O cristianismo que liberta ficou menor no Brasil"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"15194\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?attachment_id=15194\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/E95E0218-BD35-4951-8313-A2A380BC5384.jpeg?fit=600%2C407\" data-orig-size=\"600,407\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;1&quot;}\" data-image-title=\"E95E0218-BD35-4951-8313-A2A380BC5384\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/E95E0218-BD35-4951-8313-A2A380BC5384.jpeg?fit=300%2C204\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/E95E0218-BD35-4951-8313-A2A380BC5384.jpeg?fit=600%2C407\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/E95E0218-BD35-4951-8313-A2A380BC5384.jpeg?resize=600%2C407\" alt=\"E95E0218-BD35-4951-8313-A2A380BC5384\" width=\"600\" height=\"407\" class=\"alignnone size-full wp-image-15194\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/E95E0218-BD35-4951-8313-A2A380BC5384.jpeg?w=600 600w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/E95E0218-BD35-4951-8313-A2A380BC5384.jpeg?resize=300%2C204 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/E95E0218-BD35-4951-8313-A2A380BC5384.jpeg?resize=442%2C300 442w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p>No blog do Sakamoto &#8211; Frei Henri des Roziers faleceu, na tarde deste domingo (26), na mesma Paris em que nasceu h\u00e1 87 anos. Advogado de forma\u00e7\u00e3o e dominicano por voca\u00e7\u00e3o, tornou-se um dos maiores defensores dos direitos dos trabalhadores rurais e camponeses na regi\u00e3o de fronteira agr\u00edcola da Amaz\u00f4nia brasileira.<!--more--><\/p>\n<p>Esse homem magro, de fala mansa e andar compassado tornou-se refer\u00eancia no acolhimento de v\u00edtimas do combate ao trabalho escravo e na den\u00fancia desse crime \u00e0 Justi\u00e7a e ao mundo. Mas tamb\u00e9m tornou-se um dos principais atores na luta pela reforma agr\u00e1ria, contra a impunidade dos ricos detentores de terras e pelo fim das arbitrariedades policiais.<\/p>\n<p>A morte de Henri, decorrente do agravamento de seu estado de sa\u00fade (ele havia sofrido acidentes vasculares cerebrais e tinha uma miopatia cong\u00eanita, que paralisava seus m\u00fasculos), apesar de trazer um vazio a todos seus amigos \u2013 grupo ao qual, orgulhosamente, me incluo \u2013 n\u00e3o deixa de ser uma vit\u00f3ria. Pois nenhuma das v\u00e1rias amea\u00e7as que recebeu e nenhuma das tentativas de assassinato que sofreu conseguiram impedir seu trabalho.<\/p>\n<p>Ou seja, o fato de Henri ter deixado a vida por conta pr\u00f3pria \u00e9 uma humilhante derrota para o ros\u00e1rio de grileiros, madeireiros ilegais, escravagistas e latifundi\u00e1rios inescrupulosos do Par\u00e1 e do Tocantins que planejaram sua morte. Mas, ao mesmo tempo, n\u00e3o pode ser visto como uma vit\u00f3ria de nossa fr\u00e1gil democracia. Porque ele sobreviveu apesar da incompet\u00eancia do Estado brasileiro em garantir a vida aos defensores de direitos humanos em uma regi\u00e3o regada periodicamente com sangue.<\/p>\n<p>Henri, descendente de uma nobre fam\u00edlia francesa que escolheu lutar ao lado do povo, incomodou muita gente. E fez com que a Amaz\u00f4nia fosse um lugar menos injusto para se viver.<\/p>\n<p>Formado em direito e com um PhD em Direito Comparado, pela Universidade de Cambridge, Henri foi ordenado sacerdote em 1963 \u2013 cinco anos antes de participar dos protestos de estudantes e trabalhadores em Maio de 1968 nas ruas da capital francesa. Vem ao Brasil em dezembro de 1978, quatro anos ap\u00f3s frei Tito ter cometido suic\u00eddio durante seu ex\u00edlio, na Fran\u00e7a, como consequ\u00eancia da tortura que sofreu do delegado S\u00e9rgio Paranhos Fleury.<\/p>\n<p>\u201dCheguei ao Brasil no fim de 1978. Em 1979, vim para c\u00e1 acompanhando um agente pastoral ao Bico do Papagaio [norte do atual Estado do Tocantins]. \u00c9 terra sem lei. Os posseiros totalmente oprimidos, pequenos, n\u00e3o tinham uma organiza\u00e7\u00e3o m\u00ednima. Queriam minha expuls\u00e3o do pa\u00eds.\u201d<\/p>\n<p>Durante anos, Henri foi a \u00fanica assessoria jur\u00eddica dos trabalhadores nessa regi\u00e3o. A viol\u00eancia na regi\u00e3o tem uma origem hist\u00f3rica. Durante a ditadura militar, o governo federal concedeu uma s\u00e9rie de subs\u00eddios financeiros a empresas para que se instalassem na Amaz\u00f4nia, garantindo tamb\u00e9m infraestrutura e seguran\u00e7a aos seus empreendimentos. Isso foi feito sem a ordena\u00e7\u00e3o da divis\u00e3o das terras ou instala\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os essenciais que garantissem os mesmos direitos de ocupa\u00e7\u00e3o para pequenos colonos e posseiros. Com isso, a Amaz\u00f4nia tornou-se uma regi\u00e3o livre para grandes empreendimentos, grandes fazendas e seus interesses, em que o poder econ\u00f4mico faz a lei. Entre 1971 a 2006, foram registrados no Estado do Par\u00e1, 814 assassinatos no campo, dos quais a grande maioria permaneceu sem apura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Frei Henri des Roziers chegou a andar com prote\u00e7\u00e3o policial 24 horas por dia. No dia 18 de outubro de 2007, chegaram informa\u00e7\u00f5es \u00e0 Pol\u00edcia Militar no munic\u00edpio de Xinguara, Sul do Par\u00e1, que pistoleiros haviam contratados para assassinar Henri por R$ 50 mil.<\/p>\n<p>Em 1990, Henri planejou mudar-se para a Am\u00e9rica Central a fim de desenvolver por l\u00e1 o mesmo trabalho que fazia na Amaz\u00f4nia. Mas acabou se estabelecendo no munic\u00edpio de Rio Maria (PA) a fim de ajudar o padre Ricardo Rezende ap\u00f3s o assassinato, a tiros, de Expedido Ribeiro de Souza, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Rio Maria.<\/p>\n<p>\u201dHenri \u00e9 uma das figuras singulares, \u00fanicas, que t\u00eam a vida marcada pelo compromisso com os mais pobres. Teve uma atua\u00e7\u00e3o marcante pela prote\u00e7\u00e3o dos migrantes, na Fran\u00e7a nos anos 60. E durante 35 anos, lutou pelos camponeses e os trabalhadores em uma regi\u00e3o que matava e escravizava\u201d, lembra Ricardo Rezende.<\/p>\n<p>Em uma de nossas conversas, ele me contou sobre essa \u00e9poca: \u201dAcompanhamos, por exemplo, toda a apura\u00e7\u00e3o, o processo e o julgamento dos assassinos dos sindicalistas da regi\u00e3o de Rio Maria nos anos 80 e 90. Os fazendeiros resolveram acabar com o sindicato dos trabalhadores de Rio Maria e assassinaram uma s\u00e9rie de presidentes. Nessa \u00e9poca, era um dos sindicatos mais atuantes da regi\u00e3o. Foi assassinado o primeiro presidente em 1985. Depois, foi a vez de um dos l\u00edderes em 90 e seus dois filhos, que eram do sindicato, o terceiro saiu ferido. Foi assassinado, em 90, um diretor. E, em 91, o sucessor dele, al\u00e9m de baleados outros. Passei da regi\u00e3o do Bico-do-Papagaio para aqui [Xinguara] a fim de ajudar na apura\u00e7\u00e3o desses crimes. Tem dado um trabalho enorme at\u00e9 hoje, mas conseguimos que todos os pistoleiros fossem a j\u00fari. V\u00e1rios foram condenados. Todos fugiram.\u201d<\/p>\n<p>A Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o, linha da igreja cat\u00f3lica que acredita que a alma s\u00f3 ser\u00e1 livre se o corpo tamb\u00e9m for, tem sido uma pedra no sapato de quem lucra com a explora\u00e7\u00e3o do seu semelhante na periferia do mundo. Na pr\u00e1tica, esses religiosos cat\u00f3licos realizam a f\u00e9 que muitos n\u00e3o querem ver retirada do livro sagrado do cristianismo. Para traduzir, nada como uma cita\u00e7\u00e3o atribu\u00edda ao j\u00e1 falecido H\u00e9lder C\u00e2mara, arcebispo de Olinda e Recife, que lutou contra a ditadura e esteve sempre ao lado dos mais pobres: \u201cSe falo dos famintos, todos me chamam de crist\u00e3o, mas se falo das causas da fome, me chamam de comunista\u201d.<\/p>\n<p>Henri recebeu a condecora\u00e7\u00e3o de cavalheiro da Legi\u00e3o de Honra, do governo franc\u00eas, em 1994, um dos tantos pr\u00eamios que ele recebeu. Ap\u00f3s um dos AVCs que sofreu, foi transferido, a contragosto, para um hospital particular em S\u00e3o Paulo. Lembro do seu inc\u00f4modo por estar l\u00e1. Achava que estava sendo mimado. Queria estar no mesmo hospital usado pela popula\u00e7\u00e3o com a qual convivia diariamente. N\u00e3o por populismo ou a fim de provar algo para ningu\u00e9m, ele n\u00e3o precisava. Mas porque sentia que aquele n\u00e3o era seu lugar.<\/p>\n<p>Em 2013, profundamente debilitado pela doen\u00e7a, Henri voltou para sua terra natal e permaneceu no convento de Saint-Jacques at\u00e9 sua morte.<\/p>\n<p>Frei Xavier Plassat, franc\u00eas como Henri, coordena a campanha nacional da CPT para o combate ao trabalho escravo e est\u00e1 h\u00e1 d\u00e9cadas no Brasil. Foi ele quem me trouxe a not\u00edcia de sua morte. Desabafou: \u201dHenri tinha como mestre Bartolomeu de las Casas, dominicano e defensor dos ind\u00edgenas escravizados, que viveu no s\u00e9culo 16. Tinha dele a paix\u00e3o irredut\u00edvel, incans\u00e1vel, eficaz. Paix\u00e3o e compaix\u00e3o. Uma pessoa que sabia chorar de indigna\u00e7\u00e3o e denunciar os potentados, sem medo. Dele, \u00e9 o Deus do canto do Magnificat: \u2018Derrubou do trono os poderosos e exaltou os humildes. Saciou de bens os indigentes e despediu de m\u00e3os vazias os ricos\u2019. Henri foi quem me conduziu aqui no Brasil. Grato para sempre, Henri, meu irm\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Ao receber o Pr\u00eamio Internacional de Direitos Humanos Ludovic Trarieux, em 2005, mesmo reconhecimento dado a Nelson Mandela, ele afirmou: \u201dNeste mundo globalizado em que vivemos a loucura do consumo, neste mundo da injusti\u00e7a e da desigualdade, da destrui\u00e7\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o e, consequentemente, da vida, \u00e9 essencial retomarmos consci\u00eancia dos valores fundamentais da exist\u00eancia, da diversidade, da solidariedade, da rela\u00e7\u00e3o com a natureza, de uma outra rela\u00e7\u00e3o entre Norte e Sul, para podermos embasar a esperan\u00e7a de que um outro mundo \u00e9 poss\u00edvel e nos motivarmos a constru\u00ed-lo\u201d.<\/p>\n<p>Uma pessoa assim n\u00e3o morre. Eu que n\u00e3o tenho a mesma f\u00e9 de Henri, acredito que ele sim atingiu a imortalidade. Viver\u00e1 para sempre como um dos cap\u00edtulos mais bonitos da hist\u00f3ria brasileira.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No blog do Sakamoto &#8211; Frei Henri des Roziers faleceu, na tarde deste domingo (26), na mesma Paris em que nasceu h\u00e1 87 anos. Advogado de forma\u00e7\u00e3o e dominicano por voca\u00e7\u00e3o, tornou-se um dos maiores defensores dos direitos dos trabalhadores rurais e camponeses na regi\u00e3o de fronteira agr\u00edcola da Amaz\u00f4nia brasileira.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-15195","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-3X5","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15195","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15195"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15195\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15196,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15195\/revisions\/15196"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15195"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15195"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15195"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}