{"id":15200,"date":"2017-11-26T18:06:53","date_gmt":"2017-11-26T22:06:53","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=15200"},"modified":"2017-11-26T18:06:53","modified_gmt":"2017-11-26T22:06:53","slug":"capitaes-da-areia-o-dia-em-que-o-estado-novo-queimou-um-dos-maiores-classicos-da-literatura-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2017\/11\/26\/capitaes-da-areia-o-dia-em-que-o-estado-novo-queimou-um-dos-maiores-classicos-da-literatura-brasileira\/","title":{"rendered":"&#8216;Capit\u00e3es da Areia&#8217;: o dia em que o Estado Novo queimou um dos maiores cl\u00e1ssicos da literatura brasileira"},"content":{"rendered":"<div class=\"byline\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"15201\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2017\/11\/26\/capitaes-da-areia-o-dia-em-que-o-estado-novo-queimou-um-dos-maiores-classicos-da-literatura-brasileira\/cap\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/cap.jpg?fit=660%2C371\" data-orig-size=\"660,371\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"cap\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/cap.jpg?fit=300%2C169\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/cap.jpg?fit=600%2C337\" class=\"alignnone size-full wp-image-15201\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/cap.jpg?resize=600%2C337\" alt=\"cap\" width=\"600\" height=\"337\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/cap.jpg?w=660 660w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/cap.jpg?resize=300%2C169 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/cap.jpg?resize=534%2C300 534w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/div>\n<div class=\"byline\"><\/div>\n<div class=\"byline\"><span class=\"byline__title\"><span class=\"byline__title\">Da BBC Brasil em Londres, por Pablo Uchoa &#8211;\u00a0\u00a0<\/span><\/span>H\u00e1 80 anos, em novembro de 1937, uma fogueira ins\u00f3lita ardia na Cidade Baixa de Salvador, a poucos passos do Elevador Lacerda e do atual Mercado Modelo.A fuma\u00e7a subia da pra\u00e7a p\u00fablica em frente \u00e0 ent\u00e3o Escola de Aprendizes de Marinheiro, hoje o comando do 2\u00ba Distrito Naval da Marinha brasileira. Militares e membros da comiss\u00e3o de buscas e apreens\u00f5es de livros, grupo nomeado pela Comiss\u00e3o Executora do Estado de Guerra do governo, assistiam ao &#8220;espet\u00e1culo&#8221;.<\/p>\n<p>O fogo era um s\u00edmbolo dram\u00e1tico do combate \u00e0 &#8220;propaganda do credo vermelho&#8221;, como definiram as autoridades do rec\u00e9m-instalado Estado Novo de Get\u00falio Vargas. Na ocasi\u00e3o, foram queimadas mais de 1,8 mil obras de literatura consideradas simpatizantes do comunismo.<\/p>\n<\/div>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Mais de 90% dos exemplares incinerados, recolhidos nas livrarias de Salvador, eram de autoria de um jovem escritor baiano j\u00e1 proeminente com obras de cunho marcadamente social: Jorge Amado.<\/p>\n<p>Metade do lote, 808 no total, era de sua obra lan\u00e7ada meses antes,\u00a0<i>Capit\u00e3es da Areia.<\/i><\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Pa\u00eds em chamas<\/h2>\n<p>O Brasil dos anos 1930 fervilhava em tens\u00f5es pol\u00edticas, e o comunismo era um dos seus ingredientes.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a chamada Intentona Comunista, tentativa de levante liderada pelo capit\u00e3o do Ex\u00e9rcito Lu\u00eds Carlos Prestes em 1935, o governo passou a perseguir n\u00e3o apenas membros do Partido Comunista Brasileiro (PCB), como intelectuais associados (corretamente ou n\u00e3o) \u00e0 ideologia de Moscou.<\/p>\n<p>Um dos casos mais not\u00f3rios foi o do escritor Graciliano Ramos. Em\u00a0<i>Mem\u00f3rias do C\u00e1rcere,\u00a0<\/i>ele narra sua hist\u00f3ria como preso pol\u00edtico &#8211; de 1936 a 1937.<\/p>\n<p>Em 1937, a poucos meses das elei\u00e7\u00f5es presidenciais, passou a circular nos principais ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o do pa\u00eds um plano falso para instaurar o comunismo no Brasil, elaborado pelo general Olympio Mour\u00e3o Filho &#8211; o mesmo que lideraria mais tarde o golpe de 1964.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/113F4\/production\/_98744607_capitesdaareia-1937.jpg?resize=600%2C338&#038;ssl=1\" alt=\"Capa do livro Capit\u00e3es da Areia\" width=\"600\" height=\"338\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Capit\u00e3es da Areia, lan\u00e7ado em 1937, correspondia praticamente \u00e0 metade do lote incinerado na capital baiana | Cr\u00e9dito: Funda\u00e7\u00e3o Casa de Jorge Amado<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>Batizada de Plano Cohen (um toque de antissemitismo que os historiadores n\u00e3o deixariam passar), a trama forjada sustentava a vers\u00e3o de que havia ordens da Terceira Internacional Comunista para assassinar diversos pol\u00edticos e tomar o poder no pa\u00eds.<\/p>\n<p>No poder desde 1930, Get\u00falio Vargas usou a estupefa\u00e7\u00e3o criada pelo Plano Cohen para fechar o Congresso, cancelar as elei\u00e7\u00f5es e implantar o golpe de Estado no dia 10 de novembro de 1937. Come\u00e7ava assim a ditadura do Estado Novo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sob o novo regime, n\u00e3o surpreende que\u00a0<i>Capit\u00e3es da Areia<\/i>, uma cr\u00edtica mordaz \u00e0 desigualdade, que transformava meninos de rua em her\u00f3is, em vez de trat\u00e1-los como delinquentes e malandros, tenha engrossado desde o in\u00edcio a longa lista de obras censuradas. Al\u00e9m disso, o livro foi escrito por um autor filiado ao PCB &#8211; e que seria preso duas vezes por conta disso.<\/p>\n<p>&#8220;No Estado Novo, qualquer coisa considerada ofensiva \u00e0 moral e aos bons costumes virava alvo do regime&#8221;, disse \u00e0 BBC Brasil o escritor Lira Neto, autor da trilogia\u00a0<i>Get\u00falio<\/i>.<\/p>\n<p>&#8220;Os principais intelectuais do Brasil naquele momento ou foram presos ou cooptados.&#8221;<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/9EC4\/production\/_98744604_comcioemsopaulo-1946.jpg?resize=600%2C338&#038;ssl=1\" alt=\"Jorge Amado discursando em com\u00edcio em S\u00e3o Paulo em 1946\" width=\"600\" height=\"338\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Jorge Amado (1912-2001) foi eleito deputado pelo PCB em 1945 | Cr\u00e9dito: Funda\u00e7\u00e3o Casa de Jorge Amado<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>Lira Neto lembra que at\u00e9\u00a0<i>Reina\u00e7\u00f5es de Narizinho<\/i>, livro infantil de Monteiro Lobato, seria alvo da censura do Estado Novo.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio Lobato seria preso em 1941 &#8211; ironicamente, depois de recusar o convite de Vargas para dirigir o Departamento de Propaganda, \u00f3rg\u00e3o que tinha a dupla miss\u00e3o de promover o culto \u00e0 personalidade do mandat\u00e1rio e exercer censura pr\u00e9via a ideias contr\u00e1rias.<\/p>\n<p>De volta ao ano de 1937, na mesma fogueira em que ardiam centenas de livros de Jorge Amado, engrossavam as chamas algumas c\u00f3pias de\u00a0<i>Menino de Engenho<\/i>, de Jos\u00e9 Lins do Rego &#8211; uma exposi\u00e7\u00e3o da desigualdade nas rela\u00e7\u00f5es sociais no campo brasileiro.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Longevidade<\/h2>\n<p>Mas, apesar da inten\u00e7\u00e3o do governo de enterrar a obra,\u00a0<i>Capit\u00e3es da Areia<\/i>\u00a0se tornou, 80 anos ap\u00f3s o lan\u00e7amento, um cl\u00e1ssico da literatura nacional, uma den\u00fancia longeva de um fracasso social que continua atingindo as cidades brasileiras.<\/p>\n<p>&#8220;Era uma carta de den\u00fancia de uma situa\u00e7\u00e3o social gritante, de extrema pobreza, sobretudo em rela\u00e7\u00e3o aos jovens e \u00e0s crian\u00e7as&#8221;, disse \u00e0 BBC a cineasta e neta do escritor, Cec\u00edlia Amado.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que os livros foram queimados, porque (para o governo) era uma vergonha mostrar aquilo.&#8221;<\/p>\n<p>Nascido em Itabuna, no sul da Bahia, Jorge Amado viveu e frequentou a regi\u00e3o do Pelourinho, do porto e da Cidade Baixa de Salvador quando se mudou para a capital baiana.<\/p>\n<p>&#8220;Eram regi\u00f5es muito populares e, portanto, ele conviveu muito com os capit\u00e3es da areia da \u00e9poca&#8221;, contou Cec\u00edlia, em um document\u00e1rio de r\u00e1dio em ingl\u00eas para o Servi\u00e7o Mundial da BBC.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/D1F0\/production\/_98744735_cartaz-do-partido-comunista.jpg?resize=600%2C338&#038;ssl=1\" alt=\"Cartaz do Partido Comunista\" width=\"600\" height=\"338\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"off-screen\">Image caption<\/span><span class=\"media-caption__text\">A &#8220;propaganda do credo vermelho&#8221;, como as autoridades do rec\u00e9m-instalado Estado Novo de Get\u00falio definiram, devia ser destru\u00edda | Cr\u00e9dito: Funda\u00e7\u00e3o Casa de Jorge Amado<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>&#8220;Ele gostava de conversar com as pessoas do povo, da rua. Era um h\u00e1bito dele puxar conversa com as pessoas, ouvir suas hist\u00f3rias, e acredito que desse modo ele se relacionou com esses meninos, que eram personagens reais.&#8221;<\/p>\n<p>Jorge Amado era um jovem de 25 anos, politicamente engajado, quando\u00a0<i>Capit\u00e3es da Areia<\/i>\u00a0come\u00e7ou a decolar. A express\u00e3o, disse a neta, n\u00e3o foi inventada pelo escritor &#8211; era como a imprensa da \u00e9poca se referia aos menores abandonados na regi\u00e3o das praias.<\/p>\n<p>&#8220;Falar desses meninos, de uma classe oprimida, marginalizada e rejeitada pela sociedade, e transform\u00e1-los em her\u00f3is, era de certa forma buscar nesses meninos um hero\u00edsmo que tinha a ver com sua ideologia pol\u00edtica da \u00e9poca.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">&#8216;Capit\u00e3es da areia&#8217; modernos<\/h2>\n<p>Mas at\u00e9 que ponto a atualidade do tema explica a travessia de<i>\u00a0Capit\u00e3es da Areia<\/i>ao longo de d\u00e9cadas? Afinal, menores brasileiros continuam sobrevivendo nas ruas, expostos a todo tipo de viol\u00eancia e sem contar com direitos e garantias b\u00e1sicos.<\/p>\n<p>Em visita recente da BBC ao centro de Salvador, cerca de 50 crian\u00e7as se aproximam de um carro branco para receber doa\u00e7\u00f5es de comida ao cair da tarde. Uma das meninas, que diz ter dez anos, segura uma caixa de pizza contendo nuggets de frango.<\/p>\n<p>&#8220;Isso aqui \u00e9 comida&#8221;, diz a crian\u00e7a, que com o bra\u00e7o equilibra uma boneca sobre a caixa de pizza.<\/p>\n<p>&#8220;A gente est\u00e1 precisando muito. Nem tenho vergonha de dizer. Tenho vergonha \u00e9 de roubar.&#8221;<\/p>\n<p>H\u00e1 poucas estat\u00edsticas sobre o n\u00famero de sem-teto em Salvador. Um levantamento feito neste ano pela ONG Projeto Ax\u00e9 estima que entre 14 mil e 17 mil pessoas morem nas ruas da capital baiana &#8211; incluindo 3,5 mil menores de 25 anos.<\/p>\n<p>Se contabilizadas as pessoas que tiram o seu sustento das ruas, o n\u00famero supera 20 mil, segundo a ONG.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/18488\/production\/_98746499_vale-este-graff.jpg?resize=600%2C338&#038;ssl=1\" alt=\"Graffiti de um menino de rua em muro de Salvador\" width=\"600\" height=\"338\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Estima-se que 3,5 mil menores de 25 anos morem nas ruas de Salvador<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">&#8216;Ir se acostumando&#8217;<\/h2>\n<p>Na Cidade Baixa, a reportagem encontra m\u00e3e e filha dormindo sobre caixas de papel\u00e3o. Ao longe, um numeroso grupo de meninos e meninas brinca na rua. Jo\u00e3o V\u00edtor e seu amigo, Ronald, dividem um colch\u00e3o.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o V\u00edtor tem 20 anos e vive na rua &#8220;h\u00e1 uns quatro ou cinco anos&#8221;. Simp\u00e1tico, n\u00e3o se envergonha de mostrar os seus pertences &#8211; uma B\u00edblia, um perfume e uma sacola de pl\u00e1stico contendo balas que ele vende na rua para ganhar o p\u00e3o.<\/p>\n<p>O rapaz n\u00e3o foi criado pelos pais. Antes de morar na rua, vivia com a av\u00f3, a quem ajudava a vender acaraj\u00e9.<\/p>\n<p>&#8220;Acaraj\u00e9 \u00e9 delicioso, mas voc\u00ea n\u00e3o sabe quanto trabalho d\u00e1. Levantar \u00e0s quatro da manh\u00e3 para ir ao mercado, depois para casa para preparar. Quando voc\u00ea vai sentar, s\u00e3o cinco da tarde.&#8221;<\/p>\n<p>Ele conta que foi uma inf\u00e2ncia dif\u00edcil.<\/p>\n<p>&#8220;Desde os oito anos de idade, trabalhando, trabalhando. Quantas vezes eu n\u00e3o chorei no meu canto? Natal, Ano Novo e eu n\u00e3o tinha nenhuma balinha para comer.&#8221;<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/2B4B\/production\/_98938011_capitao_areia.jpg?resize=600%2C338&#038;ssl=1\" alt=\"'Novo capit\u00e3o da areia': Jo\u00e3o V\u00edtor, de 20 anos, vive na rua 'h\u00e1 uns quatro ou cinco anos'\" width=\"600\" height=\"338\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">&#8216;Novo capit\u00e3o da areia&#8217;: Jo\u00e3o V\u00edtor, de 20 anos, vive na rua &#8216;h\u00e1 uns quatro ou cinco anos&#8217;.<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>&#8220;Sabe qual era meu sonho? Ter uma bicicleta. Juntei dinheiro tr\u00eas anos, vendendo acaraj\u00e9, tr\u00eas anos pra comprar uma bicicleta.&#8221;<\/p>\n<p>Mas sua vida tomaria outro rumo depois que a av\u00f3 voltou para o interior por problemas de sa\u00fade. Jo\u00e3o V\u00edtor, ent\u00e3o adolescente, teve de sobreviver por conta pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>&#8220;Foi bem dif\u00edcil me adaptar a essa coisa de dormir na rua, ter que comer o que tiver. O medo de outras pessoas tentarem te agredir &#8211; policial &#8211; mas a\u00ed, com o tempo, porque n\u00e3o tinha outra op\u00e7\u00e3o, voc\u00ea vai se acostumando, entendeu?&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;E a\u00ed eu me acostumei evoluindo. Porque voc\u00ea n\u00e3o pode se acostumar diminuindo. Sempre evoluindo. Fui crescendo. Fui mostrando a eles que eu tinha meu espa\u00e7o. Mas na conversa, no di\u00e1logo, porque nem tudo se resolve com faca nem com briga. Entendeu?&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">&#8216;Coisas bem maiores&#8217;<\/h2>\n<p>Jo\u00e3o V\u00edtor tem um jeito envolvente de falar. Se fosse um personagem de\u00a0<i>Capit\u00e3es da Areia<\/i>, n\u00e3o estaria longe do Professor, que passa as noites lendo para as outras crian\u00e7as do grupo que n\u00e3o sabem ler.<\/p>\n<p>Ele diz que leu o livro de Jorge Amado e compara sua pr\u00f3pria vida \u00e0 dos meninos retratados na obra.<\/p>\n<p>&#8220;Eu sou um capit\u00e3o da areia, porque olha a vida que a gente leva, n\u00e3o \u00e9 verdade? A \u00fanica parte que eu n\u00e3o sou \u00e9 o lado do roubo&#8221;, diz.<\/p>\n<div class=\"with-extracted-share-icons\">\n<div class=\"story-body\">\n<div class=\"story-body__inner\">\n<p>&#8220;Agora, o lado de viver aventuras, viver explorando sempre o dia que a gente vive, dia ap\u00f3s dia&#8230; Eu durmo, mas n\u00e3o sei se eu vou acordar, porque pode acontecer alguma coisa. Ent\u00e3o eu durmo e, quando eu acordo, tenho que usufruir bastante daquele dia.&#8221;<\/p>\n<p>Mas isso n\u00e3o o impede de imaginar uma vida diferente.<\/p>\n<p>&#8220;Se eu pudesse ter uma casa para morar, viver em paz, arranjar uma esposa, ter um filho\u2026 Eu queria ser bi\u00f3logo. Marinho. Porque eu sempre me identifiquei muito com animais, entendeu? Desde pequeno. E principalmente com o mar&#8221;, relata.<\/p>\n<p>&#8220;Gosto muito. Amo. Sou apaixonado. Porque eu n\u00e3o vou viver isso aqui minha vida toda, eu penso coisas bem maiores.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Dramas e alegrias<\/h2>\n<p>Comparar a vida dos capit\u00e3es da areia dos anos 1930 com a realidade do s\u00e9culo 21 foi um dos motivos que levaram Cec\u00edlia Amado a adaptar o romance do av\u00f4 para o cinema em 2011.<\/p>\n<p>Ela ficou fascinada com a narrativa original, quando leu o livro na adolesc\u00eancia. E, j\u00e1 adulta, se questionava se aquelas crian\u00e7as poderiam ser t\u00e3o apaixonantes quanto seu av\u00f4 as retratara.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/0284\/production\/_98744600_jorgeamado-1930.jpg?resize=600%2C338&#038;ssl=1\" alt=\"Jorge Amado em 1930\" width=\"600\" height=\"338\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Jorge Amado em 1930 | Cr\u00e9dito: Funda\u00e7\u00e3o Casa de Jorge Amado<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>Parte do processo de pesquisa para o filme foi conhecer o trabalho de ONGs locais. A cineasta conta que trabalhou com um total de 1,2 mil crian\u00e7as, quase todas com hist\u00f3rias de desestrutura familiar que as levaram a viver na rua em algum momento.<\/p>\n<p>&#8220;Nenhum menino nasce na rua, s\u00e3o poucos os que nascem na rua. \u00c9 uma fragilidade da estrutura familiar, exatamente como era nos anos 1930&#8221;, observa.<\/p>\n<p>Assim como o livro do av\u00f4, seu filme foi criticado por romantizar as crian\u00e7as de rua e caracteriz\u00e1-las como meninos alegres e apaixonados pela vida. Cec\u00edlia Amado se defende.<\/p>\n<p>&#8220;Ningu\u00e9m vive s\u00f3 no drama. N\u00f3s, que somos abastados, com ber\u00e7o de ouro, pertencentes a uma classe social da burguesia, por assim dizer, tamb\u00e9m temos nossos dramas. E os meninos que vivem no drama da mis\u00e9ria, os capit\u00e3es da areia, tamb\u00e9m t\u00eam suas alegrias.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Humanismo<\/h2>\n<p>Ela diz que, ao longo das filmagens,\u00a0<i>Capit\u00e3es da Areia<\/i>\u00a0foi se transformando de uma adapta\u00e7\u00e3o do romance de Jorge Amado a um filme n\u00e3o sobre os meninos de rua &#8211; mas para os meninos de rua na Salvador do s\u00e9culo 21. Uma oportunidade de dar voz a essa camada esquecida da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Pode-se dizer que se torna assim mais fiel ao romance original que uma adapta\u00e7\u00e3o pura e simples da obra.<\/p>\n<p>Cec\u00edlia Amado diz que isso condizia mais com o av\u00f4 que ela conheceu. Como muitos da esquerda mundial, Jorge Amado se decepcionaria com o comunismo real a partir das revela\u00e7\u00f5es de abusos do stalinismo sovi\u00e9tico.<\/p>\n<p>&#8220;A partir dos anos 1960, ele de certa forma se afastou do universo pol\u00edtico. Mas nunca se afastou do universo social&#8221;, explica a cineasta.<\/p>\n<p>&#8220;Eu digo que quando fiz o filme\u00a0<i>Capit\u00e3es da Areia<\/i>, me inspirei n\u00e3o no Jorge que escreveu o livro, mas no Jorge que eu conheci, que era essencialmente um humanista.&#8221;<\/p>\n<p>Se voltasse a Salvador em 2017, o escritor baiano talvez se inspirasse a escrever novas obras de tem\u00e1tica social, diz ela. Certamente se daria conta do imenso trabalho ainda a ser feito para reduzir o imenso abismo social no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Mas j\u00e1 n\u00e3o haveria raz\u00e3o para promover a queima de exemplares em pra\u00e7a p\u00fablica, a exemplo do que ocorreu h\u00e1 80 anos.<\/p>\n<p>O esc\u00e2ndalo maior \u00e9 que, mesmo passadas tantas d\u00e9cadas, as hist\u00f3rias dos capit\u00e3es da areia continuem se desenrolando, na vida real, aos olhos de todos.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"tags-container\"><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Da BBC Brasil em Londres, por Pablo Uchoa &#8211;\u00a0\u00a0H\u00e1 80 anos, em novembro de 1937, uma fogueira ins\u00f3lita ardia na Cidade Baixa de Salvador, a poucos passos do Elevador Lacerda e do atual Mercado Modelo.A fuma\u00e7a subia da pra\u00e7a p\u00fablica em frente \u00e0 ent\u00e3o Escola de Aprendizes de Marinheiro, hoje o comando do 2\u00ba Distrito&#8230;<a class=\"more-link\" href=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2017\/11\/26\/capitaes-da-areia-o-dia-em-que-o-estado-novo-queimou-um-dos-maiores-classicos-da-literatura-brasileira\/\">Continue a leitura <span class=\"meta-nav\">&raquo;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-15200","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-3Xa","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15200","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15200"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15200\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15202,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15200\/revisions\/15202"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15200"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15200"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15200"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}