{"id":15762,"date":"2017-12-24T13:05:19","date_gmt":"2017-12-24T17:05:19","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=15762"},"modified":"2017-12-24T13:05:19","modified_gmt":"2017-12-24T17:05:19","slug":"o-neoliberalismo-e-uma-perversao-da-economia-dominante","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2017\/12\/24\/o-neoliberalismo-e-uma-perversao-da-economia-dominante\/","title":{"rendered":"\u201cO neoliberalismo \u00e9 uma pervers\u00e3o da economia dominante\u201d"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"15763\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2017\/12\/24\/o-neoliberalismo-e-uma-perversao-da-economia-dominante\/ri\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/ri.jpg?fit=259%2C194\" data-orig-size=\"259,194\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"ri\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/ri.jpg?fit=259%2C194\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/ri.jpg?fit=259%2C194\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/ri.jpg?resize=259%2C194\" alt=\"ri\" width=\"259\" height=\"194\" class=\"alignnone size-full wp-image-15763\" \/><\/p>\n<p>No Instituto Humanitas Unisinos &#8211; \u201cOs neoliberais certamente n\u00e3o est\u00e3o errados quando argumentam que esses ideais preciosos s\u00e3o mais propensos a ser alcan\u00e7ados em uma economia vibrante, forte e em expans\u00e3o. No entanto, eles se enganam quando pensam que existe uma receita \u00fanica e universal para melhorar o desempenho econ\u00f4mico, \u00e0 qual eles teriam acesso. O erro fatal do neoliberalismo \u00e9 que ele se engana sobre o que \u00e9 a economia em si. Este deve ser rejeitado em seus pr\u00f3prios termos pela simples e boa raz\u00e3o de que \u00e9 uma economia ruim\u201d. A reflex\u00e3o \u00e9 de Dani Rodrik, professor de economia pol\u00edtica internacional na Escola de Governo John F. Kennedy na Universidade de Harvard, em artigo publicado por Alternatives \u00c9conomiques, 12-12-2017. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 de Andr\u00e9 Langer.<!--more--><\/p>\n<p>Eis o artigo.<br \/>\nMesmo os cr\u00edticos mais contumazes reconhecem: \u00e9 dif\u00edcil definir o neoliberalismo. Em geral, este termo sugere uma prefer\u00eancia pelos mercados e n\u00e3o pelo Estado, pelos incentivos econ\u00f4micos, em vez das normas culturais, e pelas empresas privadas em detrimento da a\u00e7\u00e3o coletiva. De Augusto Pinochet a Margaret Thatcher ou Ronald Reagan, dos democratas estadunidenses ao novo Partido Trabalhista brit\u00e2nico, da abertura econ\u00f4mica chinesa at\u00e9 a reforma do Estado-provid\u00eancia na Su\u00e9cia, a palavra tem sido usada para descrever uma grande variedade de situa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Assim, a palavra \u201cneoliberalismo\u201d \u00e9 usada como um coringa que qualifica qualquer coisa relativa \u00e0 desregulamenta\u00e7\u00e3o, \u00e0 liberaliza\u00e7\u00e3o, \u00e0 privatiza\u00e7\u00e3o ou \u00e0 austeridade fiscal. Hoje, ele \u00e9 rotineiramente difamado e equiparado a todas as ideias e pr\u00e1ticas que contribu\u00edram para o aumento da inseguran\u00e7a econ\u00f4mica e das desigualdades, o que nos levou \u00e0 perda de nossos valores e de nossos ideais pol\u00edticos e, finalmente, precipitou o surgimento de movimentos populistas.<\/p>\n<p>Onde est\u00e3o os neoliberais?<br \/>\nAparentemente, n\u00f3s vivemos na era do neoliberalismo. Mas quem s\u00e3o, no final das contas, os seguidores e os disseminadores dessa corrente de pensamento \u2013 os pr\u00f3prios neoliberais? Curiosamente, ter\u00edamos que voltar quase ao in\u00edcio dos anos 1980 para encontrar algu\u00e9m que tenha abra\u00e7ado explicitamente o neoliberalismo. Em 1982, Charles Peters \u2013 que durante muitos anos dirigiu a revista pol\u00edtica Washington Monthly \u2013 publicou um \u201cManifesto Neoliberal\u201d, que constitui ainda hoje, passados 35 anos, uma leitura interessante, pois o neoliberalismo que ele descreve tem pouca semelhan\u00e7a com o alvo de esc\u00e1rnio de hoje. De acordo com Peters, os pol\u00edticos que encarnam o movimento neoliberal n\u00e3o seriam semelhantes a Thatcher ou Reagan, mas liberais \u2013 no sentido estadunidense da palavra \u2013 que, ap\u00f3s se decepcionarem com os sindicatos e a onipresen\u00e7a dos governos centrais, abandonaram seus preconceitos contra os mercados.<\/p>\n<p>O uso do termo \u201cneoliberal\u201d explodiu na d\u00e9cada de 1990, quando foi associado a dois fen\u00f4menos, nenhum dos quais foi mencionado no artigo de Peters. O primeiro deles \u00e9 a desregulamenta\u00e7\u00e3o financeira, que culminaria na crise financeira de 2008 e na ainda atormentada fragilidade da zona do euro. O segundo fen\u00f4meno \u00e9 a mundializa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, que se acelerou gra\u00e7as \u00e0 livre circula\u00e7\u00e3o de capitais e a um novo e mais ambicioso tipo de acordos comerciais. A financeiriza\u00e7\u00e3o e a globaliza\u00e7\u00e3o tornaram-se as manifesta\u00e7\u00f5es mais vis\u00edveis do neoliberalismo no mundo de hoje.<\/p>\n<p>Entre ci\u00eancia e ideologia<br \/>\nO fato de que o neoliberalismo \u00e9 um conceito escorregadio e male\u00e1vel e que n\u00e3o disp\u00f5e de um lobby expl\u00edcito de defensores, n\u00e3o significa que seja insignificante ou irreal. Quem pode, com efeito, contestar que o mundo n\u00e3o experimentou uma mudan\u00e7a decisiva em rela\u00e7\u00e3o aos mercados desde a d\u00e9cada de 1980? Ou o fato de que os pol\u00edticos de centro-esquerda \u2013 os democratas nos Estados Unidos, os socialistas e os social-democratas na Europa \u2013 abra\u00e7aram com entusiasmo alguns dos credos centrais do thatcherismo ou do reaganismo, como a desregulamenta\u00e7\u00e3o, a privatiza\u00e7\u00e3o, a liberaliza\u00e7\u00e3o financeira ou a iniciativa privada? Grande parte das nossas discuss\u00f5es pol\u00edticas contempor\u00e2neas est\u00e1 imbu\u00edda de princ\u00edpios baseados no conceito de homo \u0153conomicus, um ser humano perfeitamente racional que procura maximizar o interesse pr\u00f3prio e que constitui um elemento central de muitas teorias econ\u00f4micas.<\/p>\n<p>Mas a elasticidade do termo \u201cneoliberalismo\u201d tamb\u00e9m significa que as cr\u00edticas que s\u00e3o direcionadas a essa corrente econ\u00f4mica erram muitas vezes o alvo. N\u00e3o h\u00e1 nada de errado nos mercados, na iniciativa ou na empresa privada quando esses princ\u00edpios s\u00e3o aplicados adequadamente. As conquistas econ\u00f4micas mais importantes do nosso tempo tamb\u00e9m resultaram do uso judicioso desses \u00faltimos. E ao esquivar o neoliberalismo, corremos o risco de privar-nos de algumas de suas ideias \u00fateis.<\/p>\n<p>O verdadeiro problema \u00e9 que a economia mainstream cai muito facilmente na ideologia, restringindo as escolhas que parece oferecer-nos e fornecendo solu\u00e7\u00f5es de \u201ccortador de biscoitos\u201d. Uma compreens\u00e3o adequada dos fen\u00f4menos econ\u00f4micos que fundamentam o neoliberalismo nos permitiria identificar a ideologia e rejeit\u00e1-la quando se disfar\u00e7asse de ci\u00eancia econ\u00f4mica. Finalmente \u2013 e isso certamente \u00e9 o mais importante \u2013, isso nos ajudaria a enriquecer a imagina\u00e7\u00e3o institucional que precisamos desesperadamente para reconstruir o capitalismo do s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>Experi\u00eancia de pensamento<br \/>\nN\u00f3s pensamos, de modo geral, o neoliberalismo como a soma de princ\u00edpios chaves da ci\u00eancia econ\u00f4mica dominante. Para poder estudar estes princ\u00edpios sem ideologia, considere uma experi\u00eancia de pensamento.<\/p>\n<p>Suponhamos que um economista bem conhecido e muito respeitado desembarca pela primeira vez em um pa\u00eds, sobre o qual n\u00e3o sabe nada. Ele \u00e9 convocado para participar de um encontro com os l\u00edderes pol\u00edticos do pa\u00eds em quest\u00e3o. \u201cNosso pa\u00eds est\u00e1 com s\u00e9rios problemas\u201d, disseram-lhe ent\u00e3o. \u201cA economia est\u00e1 estagnada, o investimento \u00e9 baixo e n\u00e3o h\u00e1 perspectivas de crescimento \u00e0 vista\u201d. Os l\u00edderes se voltam para ele, cheios de esperan\u00e7a: \u201cDiga-nos qual \u00e9 o caminho para que a nossa economia volte a crescer\u201d.<\/p>\n<p>O economista reconhece sua ignor\u00e2ncia e explica que seu pouco conhecimento sobre a economia do pa\u00eds o impede de fazer qualquer recomenda\u00e7\u00e3o. Ele precisaria estudar a hist\u00f3ria da economia, analisar dados estat\u00edsticos e viajar pelo pa\u00eds antes de poder dizer qualquer coisa.<\/p>\n<p>Mas seus anfitri\u00f5es insistem: \u201cN\u00f3s entendemos sua retic\u00eancia, e gostar\u00edamos que tivesse tido tempo para tudo isso\u201d, dizem eles. \u201cMas a economia n\u00e3o \u00e9 uma ci\u00eancia, e voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 um dos seus praticantes mais proeminentes? Mesmo que voc\u00ea n\u00e3o conhe\u00e7a muito bem a nossa economia, certamente h\u00e1 algumas teorias gerais e algumas diretrizes que nos ajudariam a orientar as nossas pol\u00edticas econ\u00f4micas e as reformas que queremos implementar\u201d.<\/p>\n<p>O economista encontra-se num impasse. Por um lado, ele n\u00e3o quer imitar esses gurus econ\u00f4micos que h\u00e1 muito criticou por venderem seus conselhos pol\u00edticos favoritos. Mas ele se sente desafiado por esta quest\u00e3o. Existem verdades universais na economia? Ele pode dizer algo v\u00e1lido (e possivelmente \u00fatil)?<\/p>\n<p>Que princ\u00edpios?<br \/>\nEnt\u00e3o ele come\u00e7a a sua exposi\u00e7\u00e3o. A efici\u00eancia com que os recursos de uma economia s\u00e3o alocados \u00e9 um determinante crucial do desempenho dessa economia, diz ele. A efici\u00eancia exige, por sua vez, alinhar os incentivos dom\u00e9sticos e das empresas com os custos e os benef\u00edcios sociais. Os incentivos aos empres\u00e1rios, investidores e produtores s\u00e3o particularmente importantes para o crescimento econ\u00f4mico. O crescimento precisa de um sistema bem-sucedido de direitos de propriedade e execu\u00e7\u00e3o de contratos capaz de garantir que os investidores mantenham os retornos de seus investimentos. Finalmente, a economia deve estar aberta a ideias e inova\u00e7\u00f5es do resto do mundo.<\/p>\n<p>Mas um per\u00edodo de instabilidade macroecon\u00f4mica pode descarrilar a economia, prossegue o nosso economista visitante. Os governos devem, portanto, conduzir uma pol\u00edtica monet\u00e1ria rigorosa, o que significa restringir o crescimento da liquidez ao aumento da procura monet\u00e1ria nominal at\u00e9 um n\u00edvel razo\u00e1vel de infla\u00e7\u00e3o. Eles devem garantir a sustentabilidade das finan\u00e7as p\u00fablicas, de modo que a d\u00edvida p\u00fablica n\u00e3o exceda a renda nacional. E devem realizar uma regulamenta\u00e7\u00e3o prudencial dos bancos e outras institui\u00e7\u00f5es financeiras para evitar que o sistema financeiro como um todo se aproxime de riscos excessivos.<\/p>\n<p>Na sequ\u00eancia, o economista aborda um tema que lhe \u00e9 caro: \u201cA economia n\u00e3o se restringe apenas \u00e0 efici\u00eancia e ao crescimento\u201d, acrescenta. Os princ\u00edpios econ\u00f4micos tamb\u00e9m incluem quest\u00f5es de pol\u00edtica social e de equidade. A economia tem, certamente, pouco a dizer sobre o n\u00edvel de redistribui\u00e7\u00e3o que uma sociedade deve buscar. Mas defende que a base tribut\u00e1ria deve ser a mais ampla poss\u00edvel e que os programas sociais devem ser concebidos de forma a n\u00e3o encorajar os trabalhadores a abandonarem o mercado de trabalho.<\/p>\n<p>No momento em que o economista termina sua apresenta\u00e7\u00e3o, parece que ele estabeleceu uma verdadeira agenda neoliberal. Um ouvinte cr\u00edtico, da plateia, reconhecer\u00e1 uma s\u00e9rie de \u201cpalavras-chave\u201d: efici\u00eancia, incentivos, direitos de propriedade, pol\u00edtica monet\u00e1ria saud\u00e1vel, prud\u00eancia fiscal e financeira. No entanto, os princ\u00edpios universais que o economista acabou de descrever s\u00e3o muito vagamente definidos: eles presumem uma economia capitalista \u2013 em que as decis\u00f5es de investimento s\u00e3o feitas por agentes e corpora\u00e7\u00f5es privadas \u2013 mas n\u00e3o muito al\u00e9m disso. Na realidade, eles admitem \u2013 e at\u00e9 mesmo requerem \u2013 uma incr\u00edvel variedade de arranjos institucionais.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, o economista acabou de fazer uma an\u00e1lise neoliberal? N\u00f3s nos enganar\u00edamos acreditando nisso; nosso erro consistiria em associar cada termo abstrato \u2013 incentivos, direitos de propriedade, pol\u00edtica monet\u00e1ria s\u00f3lida \u2013 com uma contrapartida institucional predeterminada. E nisso reside a reivindica\u00e7\u00e3o central e o principal erro do neoliberalismo: a cren\u00e7a de que os princ\u00edpios econ\u00f4micos de primeira ordem correspondem a um \u00fanico conjunto de pol\u00edticas, pr\u00f3ximo de uma agenda ao estilo de Thatcher ou de Reagan.<\/p>\n<p>Tomemos os direitos de propriedade. Eles s\u00e3o importantes porque permitem a distribui\u00e7\u00e3o dos retornos sobre os investimentos. Um sistema ideal conferiria os direitos de propriedade \u00e0queles que fariam o melhor uso poss\u00edvel de seus ativos, e ofereceria, ao contr\u00e1rio, uma prote\u00e7\u00e3o contra aqueles que correm o risco de se apropriar de todos os benef\u00edcios. Assim, os direitos de propriedade s\u00e3o ben\u00e9ficos quando protegem os inovadores de passageiros clandestinos, mas s\u00e3o prejudiciais quando os protegem da concorr\u00eancia. Dependendo do contexto, um regime jur\u00eddico que fornece os incentivos adequados pode ser bastante diferente do regime padr\u00e3o de direitos de propriedade privada ao estilo estadunidense.<\/p>\n<p>\u201cNeoliberalismo\u201d ao estilo chin\u00eas?<br \/>\nIsso pode parecer um par\u00eantese sem\u00e2ntico sem nenhum interesse pr\u00e1tico. Mas o espetacular sucesso econ\u00f4mico da China deve-se em grande parte ao seu processo institucional que desafia toda a ortodoxia. A China voltou-se para os mercados, mas n\u00e3o copiou as pr\u00e1ticas ocidentais de direitos de propriedade. As reformas realizadas no pa\u00eds produziram incentivos baseados no mercado atrav\u00e9s de uma s\u00e9rie de novos arranjos institucionais mais adaptados ao contexto local.<\/p>\n<p>Ao inv\u00e9s de passar diretamente da propriedade estatal para a propriedade privada, por exemplo, o que teria sido limitado em todos os casos pela fraqueza das institui\u00e7\u00f5es, o pa\u00eds passou a se apoiar sobre formas mistas de propriedade. Isso provou fornecer aos empres\u00e1rios direitos de propriedade mais eficazes. O Township and Village Enterprises (Programa de Empresas de Munic\u00edpios e de Aldeias), que liderou o crescimento chin\u00eas na d\u00e9cada de 1980, era de propriedade coletiva e controlado pelos governos locais. Embora essas empresas pertencessem ao Estado, os empres\u00e1rios receberam a prote\u00e7\u00e3o contra o risco de expropria\u00e7\u00e3o de que precisavam. Os governos locais estavam diretamente interessados nos lucros das empresas e, portanto, n\u00e3o tinham motivos para matar essas galinhas de ovos de ouro.<\/p>\n<p>A China usou uma variedade dessas inova\u00e7\u00f5es; cada uma traduzindo os princ\u00edpios econ\u00f4micos de primeira classe para arranjos institucionais incomuns. As reformas chinesas ajudaram a proteger o setor p\u00fablico chin\u00eas da concorr\u00eancia global ao estabelecer zonas em que as empresas estrangeiras poderiam seguir regras diferentes do resto da economia. Em vista desses desvios dos padr\u00f5es ortodoxos, qualificar as reformas chinesas como neoliberais \u2013 como alguns cr\u00edticos est\u00e3o inclinados a fazer \u2013 distorce a realidade em vez de esclarec\u00ea-la. Se n\u00f3s quis\u00e9ssemos chamar isso de neoliberalismo, certamente dever\u00edamos ser mais indulgentes com as ideias que subjazem \u00e0 mais espetacular redu\u00e7\u00e3o da pobreza na hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Alguns podem retorquir dizendo que as inova\u00e7\u00f5es institucionais chinesas s\u00e3o puramente transit\u00f3rias: o pa\u00eds, talvez, tenha que convergir para um modelo de institui\u00e7\u00f5es ocidentais para apoiar o seu crescimento econ\u00f4mico. Mas essa maneira de pensar negligencia a diversidade dos arranjos capitalistas que ainda prevalecem nas economias avan\u00e7adas, apesar da relativa homogeneidade de nossos discursos pol\u00edticos.<\/p>\n<p>Um roteiro vazio<br \/>\nO que s\u00e3o, afinal, as institui\u00e7\u00f5es ocidentais? O peso do setor p\u00fablico varia muito nos pa\u00edses da OCDE, de um ter\u00e7o do PIB na Coreia do Sul para quase 60% na Finl\u00e2ndia. Na Isl\u00e2ndia, 86% dos trabalhadores s\u00e3o membros de uma organiza\u00e7\u00e3o sindical, em compara\u00e7\u00e3o com apenas 16% na Su\u00ed\u00e7a. Nos Estados Unidos, as empresas podem demitir trabalhadores quase \u00e0 vontade, enquanto a legisla\u00e7\u00e3o trabalhista francesa sempre imp\u00f4s aos empregadores v\u00e1rias etapas preliminares. Os mercados de a\u00e7\u00f5es representam hoje quase uma vez e meia o PIB dos Estados Unidos, ao passo que na Alemanha, sua import\u00e2ncia \u00e9 tr\u00eas vezes menor, cerca de 50% do PIB.<\/p>\n<p>A ideia de que qualquer um desses modelos de tributa\u00e7\u00e3o, de direito do trabalho ou de organiza\u00e7\u00e3o financeira pode ser intrinsecamente superior aos demais \u00e9 desmentida pela altern\u00e2ncia de per\u00edodos de prosperidade e recess\u00e3o experimentados por essas economias desenvolvidas em d\u00e9cadas recentes. Os Estados Unidos passaram por v\u00e1rios per\u00edodos de turbul\u00eancias em que suas institui\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas foram julgadas inferiores \u00e0s da Alemanha, Jap\u00e3o, China e hoje, provavelmente, da Alemanha novamente. Certamente, n\u00edveis compar\u00e1veis de riqueza e produtividade podem ser alcan\u00e7ados atrav\u00e9s de modelos muito diferentes de capitalismo. Poder\u00edamos at\u00e9 dar um passo adiante: todos esses modelos ainda est\u00e3o longe de esgotar o campo do que poderia ser poss\u00edvel e desej\u00e1vel no futuro.<\/p>\n<p>O economista em visita da nossa experi\u00eancia de pensamento conhece todos esses exemplos, ele sabe que os princ\u00edpios que enunciou precisam ser alimentados por solu\u00e7\u00f5es institucionais antes de se tornarem operacionais. Direitos de propriedade? Sim, mas como? Pol\u00edtica monet\u00e1ria s\u00f3lida? Sim, mas como? Talvez seja mais f\u00e1cil criticar esta lista de princ\u00edpios por seu vazio do que denunci\u00e1-la como um programa neoliberal.<\/p>\n<p>Mesmo assim, esses princ\u00edpios n\u00e3o s\u00e3o inteiramente desprovidos de conte\u00fado. A China e, de um modo geral, todos os pa\u00edses que conseguiram se desenvolver rapidamente, demonstram a utilidade desses princ\u00edpios uma vez adaptados ao contexto local. Por outro lado, muitas economias se voltaram contra os l\u00edderes pol\u00edticos que tentaram violar esses princ\u00edpios. N\u00e3o precisamos ir muito longe \u2013 basta olhar para os nossos regimes populistas da Am\u00e9rica Latina ou para os regimes comunistas da Europa Oriental para apreciar a relev\u00e2ncia de uma pol\u00edtica monet\u00e1ria s\u00f3lida, de uma sustentabilidade fiscal e de incentivos privados.<\/p>\n<p>Certamente, a economia n\u00e3o pode ser reduzida a uma lista de princ\u00edpios abstratos, em grande parte do senso comum. Grande parte do trabalho dos economistas consiste em desenvolver modelos estilizados de como funcionam as economias reais e, em seguida, confrontar esses modelos com a realidade. Os economistas, portanto, tendem a descrever seu trabalho como um aperfei\u00e7oamento progressivo de sua compreens\u00e3o do mundo: seus modelos devem se tornar cada vez mais eficientes \u00e0 medida que s\u00e3o testados e revisados. Na realidade, os progressos na economia acontecem de forma diferente.<\/p>\n<p>Um modelo, mas qual modelo?<br \/>\nOs economistas estudam uma realidade social que \u00e9 totalmente diferente do universo f\u00edsico dos cientistas naturais. Ela \u00e9 inteiramente criada pelo homem, altamente male\u00e1vel e opera de acordo com regras que variam ao longo do tempo e do espa\u00e7o. A economia n\u00e3o avan\u00e7a, portanto, pela escolha do modelo certo ou da teoria certa para responder \u00e0s quest\u00f5es que se podem fazer, mas melhorando a nossa compreens\u00e3o da diversidade de rela\u00e7\u00f5es causais. O neoliberalismo e seus rem\u00e9dios habituais \u2013 sempre mais mercados, sempre menos Estado \u2013 s\u00e3o de fato uma pervers\u00e3o da economia dominante. Os bons economistas sabem que a resposta correta para qualquer quest\u00e3o em economia \u00e9: \u201cdepende\u201d.<\/p>\n<p>Um aumento do sal\u00e1rio m\u00ednimo \u00e9 prejudicial ao emprego? Sim, se o mercado de trabalho \u00e9 competitivo e os empregadores n\u00e3o t\u00eam controle sobre os sal\u00e1rios que devem pagar para atrais os trabalhadores; mas n\u00e3o o contr\u00e1rio. A liberaliza\u00e7\u00e3o do com\u00e9rcio incentiva o crescimento econ\u00f4mico? Sim, se melhorar a rentabilidade das ind\u00fastrias onde a maior parte da inova\u00e7\u00e3o e investimento ocorre; mas n\u00e3o o contr\u00e1rio. Um aumento nas despesas p\u00fablicas melhora o emprego? Sim, se n\u00e3o h\u00e1 tens\u00f5es na economia e os sal\u00e1rios n\u00e3o aumentam; mas n\u00e3o o contr\u00e1rio. Uma situa\u00e7\u00e3o de monop\u00f3lio afeta a inova\u00e7\u00e3o? Sim e n\u00e3o: dependendo de uma s\u00e9rie de condi\u00e7\u00f5es do mercado.<\/p>\n<p>Na economia, os novos modelos raramente suplantam os antigos. Os modelos do mercado concorrencial que remontam a Adam Smith foram modificados ao longo do tempo pela inclus\u00e3o \u2013 mais ou menos cronologicamente \u2013 de quest\u00f5es de monop\u00f3lio, de externalidades, de economias de escala, de incompletudes e de assimetria de informa\u00e7\u00f5es, de comportamento irracional dos agentes e muitos outros aspectos do mundo real. No entanto, os modelos antigos permaneceram \u00fateis. Para entender o funcionamento dos mercados, \u00e9 necess\u00e1rio visualiz\u00e1-los atrav\u00e9s de diferentes prismas em diferentes momentos.<\/p>\n<p>Um bom economista \u00e9 um bom cart\u00f3grafo<br \/>\nTalvez a analogia mais apropriada para essa situa\u00e7\u00e3o seja encontrada nos mapas. Assim como os modelos econ\u00f4micos, os mapas s\u00e3o representa\u00e7\u00f5es altamente estilizadas da realidade. Eles s\u00e3o \u00fateis precisamente porque abstraem muitos detalhes do mundo real que poderiam dificultar a compreens\u00e3o. Mapas em grande escala realistas seriam artefatos irremediavelmente impratic\u00e1veis, como descreveu Jorge Luis Borges em uma breve hist\u00f3ria que continua a ser a melhor e mais sucinta explica\u00e7\u00e3o do m\u00e9todo cient\u00edfico. Mas essa abstra\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m implica que precisamos de mapas diferentes dependendo das nossas necessidades de viagem. Se, por exemplo, eu ando de bicicleta, preciso de um mapa que indica as trilhas para bicicletas. Se eu decido ir a p\u00e9, escolho um mapa que mostra as trilhas para caminhadas. Se uma nova linha de metr\u00f4 for constru\u00edda, eu certamente preciso de um novo mapa do metr\u00f4, sem precisar descartar todos os mapas antigos que eu tenho.<\/p>\n<p>Os economistas s\u00e3o excelentes na elabora\u00e7\u00e3o de mapas, mas n\u00e3o s\u00e3o bons o suficiente para escolher o que \u00e9 o mais adequado para a tarefa em quest\u00e3o. Quando s\u00e3o confrontados com quest\u00f5es de pol\u00edtica econ\u00f4mica \u2013 como aquelas a que o economista que visita esse pa\u00eds desconhecido teve que enfrentar \u2013, muitos economistas recorrem a modelos de refer\u00eancia que privilegiam o \u201claissez-faire\u201d. As respostas autom\u00e1ticas e a arrog\u00e2ncia substituem a riqueza das discuss\u00f5es que podem ocorrer em um semin\u00e1rio. John Maynard Keynes definiu a economia como \u201ca ci\u00eancia que pensa em termos de modelos combinada com a arte de escolher os modelos relevantes para o mundo contempor\u00e2neo\u201d. Os economistas normalmente t\u00eam dificuldades com a parte \u201cart\u00edstica\u201d da disciplina.<\/p>\n<p>Eu tamb\u00e9m ilustrei isso com uma par\u00e1bola: um jornalista telefona para um professor de economia para perguntar-lhe se, do seu ponto de vista, o livre com\u00e9rcio \u00e9 uma coisa boa. O professor responde com entusiasmo a ele afirmativamente. Fazendo-se passar por estudante, o jornalista participa, em seguida, do semin\u00e1rio de economia internacional ministrado pelo mesmo professor em uma universidade. Ele faz a mesma pergunta: \u201cO livre com\u00e9rcio \u00e9 ben\u00e9fico?\u201d Desta vez, o professor parece envergonhado: \u201cO que voc\u00ea quer dizer com \u2018ben\u00e9fico\u2019? E ben\u00e9fico para quem?\u201d, pergunta-lhe.<\/p>\n<p>O professor mergulha, ent\u00e3o, em uma exaustiva explica\u00e7\u00e3o, para finalmente concluir com um balan\u00e7o muito mais matizado: \u201cSe a longa lista de premissas que eu acabo de fazer for satisfat\u00f3ria e assumindo que podemos tributar os benefici\u00e1rios para compensar os perdedores, ent\u00e3o o livre com\u00e9rcio pode potencialmente melhorar o bem-estar de todos\u201d. Se estiver bem humorado, o professor pode at\u00e9 acrescentar que o impacto do livre com\u00e9rcio sobre o crescimento a longo prazo de uma economia n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil de determinar e que depende tamb\u00e9m de uma s\u00e9rie de condi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Os guardi\u00f5es das joias<br \/>\nO professor que o jornalista descobriu durante este semin\u00e1rio \u00e9, portanto, bem diferente daquele com quem ele p\u00f4de conversar por telefone. No primeiro encontro, ele estava muito confiante e n\u00e3o tinha reservas sobre a pol\u00edtica a ser adotada. S\u00f3 haveria um modelo a ter em conta, pelo menos no debate p\u00fablico; uma \u00fanica resposta correta, independentemente do contexto. Curiosamente, o professor acredita que os conhecimentos que ele transmite aos seus alunos n\u00e3o s\u00e3o adequados \u2013 s\u00e3o inclusive perigosos \u2013 para o p\u00fablico em geral. Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>Os fundamentos de tal comportamento est\u00e3o profundamente ancorados na sociologia e na cultura da profiss\u00e3o de economista. Mas uma das principais raz\u00f5es reside na \u00e2nsia deste \u00faltimo de apresentar as joias da coroa da profiss\u00e3o como sendo irrepreens\u00edveis \u2013 a efici\u00eancia dos mercados, a m\u00e3o invis\u00edvel, as vantagens comparativas \u2013 para proteg\u00ea-las dos ataques de b\u00e1rbaros guiados pelo seu interesse pessoal, nomeadamente os protecionistas. Infelizmente, esses economistas tendem a ignorar os b\u00e1rbaros do lado contr\u00e1rio: os financistas e as multinacionais, cujos motivos n\u00e3o s\u00e3o mais puros e que est\u00e3o t\u00e3o prontos quanto os protecionistas para sequestrar essas ideias para seu pr\u00f3prio benef\u00edcio.<\/p>\n<p>Por conseguinte, a contribui\u00e7\u00e3o dos economistas para o debate p\u00fablico \u00e9, muitas vezes, tendenciosa em uma dire\u00e7\u00e3o: a favor de mais com\u00e9rcio, mais finan\u00e7as e menos governo. \u00c9 por esta raz\u00e3o que os economistas desenvolveram uma reputa\u00e7\u00e3o de defensores incondicionais do neoliberalismo, mesmo que a economia dominante esteja longe de ser um hino \u00e0 gl\u00f3ria do laissez-faire. Os economistas que d\u00e3o r\u00e9deas soltas ao seu entusiasmo pelos mercados liberalizados n\u00e3o est\u00e3o sendo de fato muito fi\u00e9is \u00e0 sua pr\u00f3pria disciplina.<\/p>\n<p>Repensando a mundializa\u00e7\u00e3o<br \/>\nComo, ent\u00e3o, podemos pensar na mundializa\u00e7\u00e3o se quisermos liber\u00e1-la das garras das pr\u00e1ticas neoliberais? Devemos come\u00e7ar pela compreens\u00e3o do potencial positivo dos mercados globalizados. O acesso aos mercados internacionais de bens, de tecnologias e de capital tem desempenhado um papel importante em praticamente todos os milagres econ\u00f4micos do nosso tempo. A China \u00e9 o lembrete mais recente e poderoso desta verdade hist\u00f3rica; mas n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico caso. Antes da China, milagres semelhantes ocorreram na Coreia do Sul, Taiwan, Jap\u00e3o e v\u00e1rios pa\u00edses n\u00e3o-asi\u00e1ticos, como as Ilhas Maur\u00edcio. Todos esses pa\u00edses abra\u00e7aram a mundializa\u00e7\u00e3o em vez de virarem as costas para ela, e eles se beneficiaram generosamente.<\/p>\n<p>Os defensores da ordem econ\u00f4mica existente sempre acabam invocando esses exemplos quando a mundializa\u00e7\u00e3o \u00e9 questionada. O que eles esquecem de dizer, no entanto, \u00e9 que a maioria desses pa\u00edses se juntou \u00e0 economia mundial violando restri\u00e7\u00f5es neoliberais. A Coreia do Sul e Taiwan, por exemplo, subsidiaram fortemente seus exportadores, respectivamente, atrav\u00e9s do sistema financeiro e concedendo-lhes vantagens fiscais. E, em geral, todos esses pa\u00edses levantaram a maior parte de suas barreiras \u00e0 importa\u00e7\u00e3o muito depois do seu crescimento econ\u00f4mico ter decolado.<\/p>\n<p>Mas nenhum \u2013 com a \u00fanica exce\u00e7\u00e3o do Chile de Pinochet na d\u00e9cada de 1980 \u2013 seguiu a recomenda\u00e7\u00e3o neoliberal de uma r\u00e1pida abertura \u00e0s importa\u00e7\u00f5es. A experi\u00eancia neoliberal do Chile produziu a pior crise econ\u00f4mica da Am\u00e9rica Latina. Embora as circunst\u00e2ncias sejam diferentes de pa\u00eds para pa\u00eds, em todos os casos os governos desempenharam um papel ativo na reestrutura\u00e7\u00e3o de suas economias e protegendo-as de um ambiente externo altamente vol\u00e1til. As pol\u00edticas industriais, as restri\u00e7\u00f5es aos fluxos de capital e os controles cambiais \u2013 tudo proibido pela cartilha neoliberal \u2013 tornaram-se comuns.<\/p>\n<p>Por outro lado, os pa\u00edses que se limitaram ao modelo de mundializa\u00e7\u00e3o neoliberal ficaram muito desapontados. O M\u00e9xico fornece um exemplo particularmente triste. Ap\u00f3s uma s\u00e9rie de crises macroecon\u00f4micas em meados da d\u00e9cada de 1990, o M\u00e9xico adotou pol\u00edticas macroecon\u00f4micas ortodoxas, liberalizou fortemente a sua economia, desregulou o seu sistema financeiro, reduziu drasticamente suas barreiras \u00e0 importa\u00e7\u00e3o e assinou o Acordo de Livre Com\u00e9rcio da Am\u00e9rica do Norte (NAFTA). Essas pol\u00edticas permitiram alguma estabilidade macroecon\u00f4mica e um aumento significativo no com\u00e9rcio externo e no investimento interno. Mas, onde mais importa \u2013 a produtividade geral e o crescimento econ\u00f4mico \u2013, o experimento foi um fracasso. Desde que o M\u00e9xico empreendeu essas reformas, sua produtividade geral estagnou e sua economia tem sido contraproducente, mesmo diante dos padr\u00f5es relativamente pouco exigentes da Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>N\u00e3o existe um plano \u00fanico<br \/>\nEstes resultados n\u00e3o s\u00e3o surpreendentes do ponto de vista de uma abordagem econ\u00f4mica l\u00f3gica. No entanto, h\u00e1 ainda uma outra manifesta\u00e7\u00e3o da necessidade de que as pol\u00edticas econ\u00f4micas sejam ajustadas \u00e0s defici\u00eancias enfrentadas por cada mercado e adaptadas \u00e0s especificidades nacionais de cada pa\u00eds. N\u00e3o existe nenhum plano que seja adequado para todos os lugares e de maneira indiferente.<\/p>\n<p>Como atesta o Manifesto de Peters (1982), a defini\u00e7\u00e3o de neoliberalismo evoluiu consideravelmente ao longo do tempo, ao mesmo tempo em que a conota\u00e7\u00e3o do termo tornou-se cada vez mais radical em sua rela\u00e7\u00e3o com a desregulamenta\u00e7\u00e3o, a financeiriza\u00e7\u00e3o ou a mundializa\u00e7\u00e3o. Mas h\u00e1 um fio comum que liga as diferentes vers\u00f5es do neoliberalismo: a import\u00e2ncia atribu\u00edda ao crescimento econ\u00f4mico. Em 1982, Peters escreveu que essa \u00eanfase era justificada por causa do papel vital que o crescimento desempenha na consecu\u00e7\u00e3o de todos os nossos objetivos sociais e pol\u00edticos \u2013 comunidade, democracia e prosperidade. O empreendedorismo, o investimento privado e a remo\u00e7\u00e3o de todos os obst\u00e1culos (como por exemplo, uma excessiva regulamenta\u00e7\u00e3o) que impedem o caminho s\u00e3o todos instrumentos necess\u00e1rios para o crescimento econ\u00f4mico. Se um manifesto neoliberal semelhante fosse escrito hoje, provavelmente avan\u00e7aria no mesmo ponto.<\/p>\n<p>No entanto, os cr\u00edticos do neoliberalismo muitas vezes apontam que essa \u00eanfase no crescimento degrada e sacrifica outros importantes valores sociais e pol\u00edticos, como a igualdade, a inclus\u00e3o social, a delibera\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica ou a justi\u00e7a. Valores cuja realiza\u00e7\u00e3o \u00e9, no entanto, essencial e que, em certos contextos, s\u00e3o mais importantes do que os outros. No entanto, nem sempre podem ser alcan\u00e7ados por meio de pol\u00edticas econ\u00f4micas tecnocr\u00e1ticas; a pol\u00edtica tem um papel central a desempenhar.<\/p>\n<p>Os neoliberais certamente n\u00e3o est\u00e3o errados quando argumentam que esses ideais preciosos s\u00e3o mais propensos a ser alcan\u00e7ados em uma economia vibrante, forte e em expans\u00e3o. No entanto, eles se enganam quando pensam que existe uma receita \u00fanica e universal para melhorar o desempenho econ\u00f4mico, \u00e0 qual eles teriam acesso. O erro fatal do neoliberalismo \u00e9 que ele se engana sobre o que \u00e9 a economia em si. Este deve ser rejeitado em seus pr\u00f3prios termos pela simples e boa raz\u00e3o de que \u00e9 uma economia ruim.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No Instituto Humanitas Unisinos &#8211; \u201cOs neoliberais certamente n\u00e3o est\u00e3o errados quando argumentam que esses ideais preciosos s\u00e3o mais propensos a ser alcan\u00e7ados em uma economia vibrante, forte e em expans\u00e3o. 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