{"id":16085,"date":"2018-01-13T11:20:15","date_gmt":"2018-01-13T15:20:15","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=16085"},"modified":"2018-01-13T11:20:15","modified_gmt":"2018-01-13T15:20:15","slug":"o-que-fazer-com-a-arte-de-homens-monstruosos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2018\/01\/13\/o-que-fazer-com-a-arte-de-homens-monstruosos\/","title":{"rendered":"O que fazer com a arte de homens monstruosos?"},"content":{"rendered":"<p> <img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"16086\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2018\/01\/13\/o-que-fazer-com-a-arte-de-homens-monstruosos\/udi\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/udi.jpg?fit=1960%2C883\" data-orig-size=\"1960,883\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"udi\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/udi.jpg?fit=300%2C135\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/udi.jpg?fit=600%2C270\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/udi.jpg?resize=600%2C270\" alt=\"udi\" width=\"600\" height=\"270\" class=\"alignnone size-full wp-image-16086\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/udi.jpg?w=1960 1960w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/udi.jpg?resize=300%2C135 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/udi.jpg?resize=768%2C346 768w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/udi.jpg?resize=1024%2C461 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/udi.jpg?resize=666%2C300 666w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/udi.jpg?w=1200 1200w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/udi.jpg?w=1800 1800w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p>Eles fizeram ou disseram algo horr\u00edvel, mas criaram algo maravilhoso.<br \/>\nA biografia de um artista deve influir na aprecia\u00e7\u00e3o de sua obra? Den\u00fancias reabrem o debate.<!--more--><\/p>\n<p>No El Pa\u00eds &#8211; Roman Polanski, Woody Allen, Bill Cosby, William Burroughs, Richard Wagner, Sid Vicious, V. S. Naipaul, John Galliano, Norman Mailer, Ezra Pound, Caravaggio, Floyd Mayweather&#8230; e, se come\u00e7armos a enumerar os atletas, n\u00e3o acabaremos nunca. E o que dizer das mulheres? A lista logo se torna muito mais dif\u00edcil e incerta: Anne Sexton? Joan Crawford? Sylvia Plath? Autoflagela\u00e7\u00e3o conta? Ok, suponho ent\u00e3o que \u00e9 melhor voltar aos homens: Pablo Picasso, Max Ernst, Lead Belly, Miles Davis, Phil Spector.<\/p>\n<p>Todos eles fizeram ou disseram algo horr\u00edvel, mas criaram algo maravilhoso. O horr\u00edvel afeta o maravilhoso; n\u00e3o podemos ver, ouvir ou ler a grande obra de arte sem recordar o horror. Assoberbados com o que sabemos da monstruosidade do criador, nos distanciamos, cheios de repugn\u00e2ncia. Ou talvez n\u00e3o. Continuamos olhando, tentando separar o artista da obra de arte. Em qualquer caso, \u00e9 perturbador. S\u00e3o g\u00eanios e s\u00e3o monstros, e n\u00e3o sei o que fazer com eles.<\/p>\n<p>Na era de Trump, todos temos pensado em monstros. No meu caso, comecei h\u00e1 v\u00e1rios anos. Estava pesquisando sobre Roman Polanski para um livro que escrevia, e fiquei impressionada com suas atrocidades. Era algo monumental, como o Grand Canyon do Colorado. E, no entanto&#8230; Quando via seus filmes, eles tinham uma beleza que era outro tipo de monumento, imune a tudo o que sabia de sua maldade. Havia lido muit\u00edssimo sobre quando ele estuprou a menina Samantha Gailey, de 13 anos; tenho certeza de que n\u00e3o me falta saber nenhum detalhe. Mas, apesar disso, continuava sendo capaz de ver seus filmes. Desejando v\u00ea-los, inclusive. Quanto mais pesquisava sobre Polanski, mais compelida eu me sentia a ver seu cinema, e via de novo, sobretudo os grandes t\u00edtulos: Repulsa ao Sexo, O Beb\u00ea de Rosemary, Chinatown. Como todas as obras-primas, estas convidam a repetidas sess\u00f5es. Eu as devorava. Transformaram-se em parte de mim, como acontece quando amamos algo.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o deveria ter gostado desses filmes, nem desse diretor. Polanski \u00e9 alvo de boicotes, processos e indigna\u00e7\u00e3o. Para as pessoas, o homem e sua obra parecem ser a mesma coisa. Mas s\u00e3o? Devemos tentar separar a arte do artista, o criador de sua obra? N\u00e3o nos perdemos num esquecimento volunt\u00e1rio quando queremos escutar, por exemplo, O Anel do Nibelungo, de Wagner? (Esquecer \u00e9 mais f\u00e1cil para algumas pessoas que para outras; as pe\u00e7as de Wagner foram representadas bem poucas vezes em Israel). Ou pensamos que o g\u00eanio merece uma dispensa especial, uma permiss\u00e3o para se comportar mal?<\/p>\n<p>E como nossa resposta varia em fun\u00e7\u00e3o das situa\u00e7\u00f5es? A impress\u00e3o \u00e9 que algumas obras de arte s\u00e3o j\u00e1 imposs\u00edveis de desfrutar pelas transgress\u00f5es de seu criador. Como podemos ver o Cosby Show depois das acusa\u00e7\u00f5es contra Bill Cosby? Claro que podemos fazer isso, mas estaremos realmente vendo a s\u00e9rie? Ou, mais propriamente, o espet\u00e1culo de nossa inoc\u00eancia perdida?<\/p>\n<p>E essa \u00e9 apenas uma quest\u00e3o pragm\u00e1tica? Retiramos nosso apoio \u00e0 pessoa se est\u00e1 viva, para que n\u00e3o obtenha benef\u00edcios econ\u00f4micos de nosso consumo de sua obra? Expressamos uma opini\u00e3o com nossas a\u00e7\u00f5es? Nesse caso, seria correto baixar gr\u00e1tis da Internet um filme de Roman Polanski, por exemplo? Podemos v\u00ea-lo na casa de um amigo?<\/p>\n<p>Um momento: quem \u00e9 esse \u201cn\u00f3s\u201d que aparece sempre nos ensaios cr\u00edticos? N\u00f3s \u00e9 uma escapat\u00f3ria. N\u00f3s \u00e9 barato. N\u00f3s \u00e9 uma forma de nos desfazermos da responsabilidade pessoal e, ao mesmo tempo, assumir o manto da autoridade f\u00e1cil. \u00c9 a voz do cr\u00edtico masculino tradicional, o que acha sinceramente que sabe o que todo mundo deve pensar. N\u00f3s \u00e9 corrupto. N\u00f3s \u00e9 artificial. A pergunta que se deve fazer \u00e9: eu posso amar a arte mas odiar o artista? Voc\u00ea pode? Quando digo n\u00f3s, me refiro a mim. Me refiro a voc\u00ea.<\/p>\n<p>Sei que Polanski \u00e9 pior \u2014 seja l\u00e1 o que isso signifique \u2014 mas para mim o ultramonstro \u00e9 Woody Allen.<\/p>\n<p>Os homens querem saber por que Woody Allen nos indigna tanto. Woody Allen deitou-se com Soon-Yi Previn, filha de sua companheira Mia Farrow. Na primeira vez que foram para a cama, Soon-Yi era uma adolescente que estava sob os seus cuidados, e ele era o diretor de cinema mais famoso do mundo.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o sexual com Soon-Yi me afetou como uma trai\u00e7\u00e3o pessoal. Quando era jovem, eu me sentia como Woody Allen. Intu\u00eda ou achava que ele me representava na tela. Era eu. Esse \u00e9 um dos aspectos peculiares de seu talento, sua capacidade de suplantar espectador. A identifica\u00e7\u00e3o era ainda mais intensa por sua mensagem habitual: magro como um menino, baixinho como um menino, confuso ante um mundo frio e incompreens\u00edvel (como antes Chaplin). Eu me sentia mais pr\u00f3xima a ele do que \u00e9 razo\u00e1vel para o que uma menina sente por um cineasta adulto. De uma maneira um tanto absurda, eu sentia que ele me pertencia. Sempre o havia considerado um de n\u00f3s, os indefesos. A partir de Soon-Yi, me pareceu um predador. Minha rea\u00e7\u00e3o n\u00e3o era l\u00f3gica; era emocional.<\/p>\n<p>Numa tarde chuvosa da primavera de 2017, deixei-me cair no sof\u00e1 da sala de estar e cometi um ato transgressor. N\u00e3o o que voc\u00eas est\u00e3o pensando. O que fiz foi escolher Noivo Neur\u00f3tico, Noiva Nervosa no servi\u00e7o de pay-per-view. Foi f\u00e1cil. Bastou eu clicar no bot\u00e3o OK, com enorme poder de mando, e depois me dediquei a catar biscoitos num pacote enquanto os cr\u00e9ditos apareciam na tela. Como ato transgressor, foi bastante modesto.<\/p>\n<p>Eu tinha visto o filme pelo menos uma d\u00fazia de vezes, mas ele voltou a me cativar. Noivo Neur\u00f3tico, Noiva Nervosa \u00e9 uma com\u00e9dia engenhosa, como um puro passo de dan\u00e7a de Fred Astaire, um bal\u00e3o cheio de h\u00e9lio que tensiona a corda que o segura. \u00c9 uma hist\u00f3ria de amor para as pessoas que n\u00e3o acreditam no amor: Annie e Alvy se unem, se distanciam, voltam a se unir e se separam definitivamente. Sua rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o teve sentido em nenhum momento e, ao mesmo tempo, valeu a pena. O bord\u00e3o de Annie, \u201cla la la\u201d, \u00e9 o princ\u00edpio que rege a aventura, a cole\u00e7\u00e3o de s\u00edlabas sem sentido que imprimem uma feliz express\u00e3o ao existencialismo de Allen. \u201cLa la la\u201d significa \u201cN\u00e3o importa nada\u201d. Significa \u201cVamos nos divertir enquanto colidimos\u201d. Significa \u201cNossos cora\u00e7\u00f5es v\u00e3o se partir\u201d. N\u00e3o \u00e9 uma farra?<\/p>\n<p>Noivo Neur\u00f3tico, Noiva Nervosa \u00e9 o melhor filme de com\u00e9dia do s\u00e9culo XX \u2014 melhor que Levada da Breca, melhor at\u00e9 que Clube dos Pilantras \u2014 porque reconhece o irrefre\u00e1vel niilismo que espreita dentro de toda com\u00e9dia. Al\u00e9m disso, \u00e9 muito divertido. Ver Noivo Neur\u00f3tico, Noiva Nervosa \u00e9 sentir, por um instante, que voc\u00ea pertence \u00e0 humanidade. Sentir-se quase assaltada por essa sensa\u00e7\u00e3o de pertencimento, essa conex\u00e3o inventada que pode ser ainda mais bela que o amor. E isso \u00e9 o que chamamos de verdadeira arte. Caso n\u00e3o saibam.<\/p>\n<p>Veja, eu n\u00e3o saio por a\u00ed me conectando com a humanidade. \u00c9 um raro prazer. E tenho que abrir m\u00e3o dele s\u00f3 porque Woody Allen se comportou mal? N\u00e3o me parece justo.<\/p>\n<p>Quando contei \u00e0 minha amiga Sara que estava escrevendo sobre Woody Allen, ela me disse que havia visto em seu bairro uma Little Free Library [um tipo de biblioteca compartilhada de rua] que estava abarrotada de livros escritos por ele e sobre ele. Rimos imaginando algum f\u00e3 furioso, certamente uma mulher, que havia decidido que n\u00e3o podia suportar o fato de continuar tendo esses livros em casa e que os levara todos \u00e0 biblioteca.<\/p>\n<p>E ent\u00e3o Sara disse em tom nost\u00e1lgico: \u201cN\u00e3o sei onde colocar tudo o que sinto sobre Woody Allen.\u201d Exato.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m contei que estava escrevendo sobre Allen a outra amiga muito inteligente. \u201cTenho muitas opini\u00f5es sobre Woody Allen\u201d, exclamou, entusiasmada. Est\u00e1vamos tomando uma ta\u00e7a de vinho no alpendre de sua casa, e a luz da tarde iluminava seu rosto. \u201cEstou furiosa com ele. J\u00e1 estava nervosa com ele pelo que fez com Soon-Yi, ent\u00e3o veio o epis\u00f3dio de&#8230; como se chama? Dylan? Chegaram as acusa\u00e7\u00f5es de Dylan, e a rea\u00e7\u00e3o t\u00e3o desdenhosa que ele teve. E detesto como fala sobre Soon-Yi, sempre dizendo que \u00e9 gra\u00e7as a ele que ela tem uma vida mais plena.\u201d<\/p>\n<p>Acredito que isso \u00e9 o que acontece com muitos de n\u00f3s quando pensamos na obra de g\u00eanios monstruosos: dizemos que temos pensamentos \u00e9ticos, quando na verdade o que temos s\u00e3o sentimentos morais. Colocamos palavras ao redor desses sentimentos e os chamamos de opini\u00f5es. \u201cO que Woody Allen fez foi muito ruim\u201d. E os sentimentos nascem de um lugar mais elementar que os pensamentos. O fato era que eu me sentia nervosa com a hist\u00f3ria de Woody e Soon-Yi. N\u00e3o estava pensando; estava sentindo. Me sentia pessoalmente ofendida.<\/p>\n<p>Se querem emo\u00e7\u00f5es complicadas, vejam Manhattan.<\/p>\n<p>Como muitas pessoas \u2014 muitas quem? Muitas mulheres? Muitas m\u00e3es? Muitas que foram meninas? Muitas pessoas com sentimentos morais? \u2014, passei anos sem poder ver Manhattan. H\u00e1 alguns meses, quando comecei a pensar em Woody Allen como monstro, vi praticamente todos os demais filmes que ele dirigiu antes de enfrentar o fato de que em algum momento eu teria que ver Manhattan.<\/p>\n<p>E esse dia chegou. Sentei-me no bonito sof\u00e1 da minha confort\u00e1vel sala de estar enquanto julgavam Bill Cosby. Era junho de 2017. Meu marido, que tem um dom para o dramatismo discreto, me sugeriu que alternasse entre o julgamento e o filme para construir uma esp\u00e9cie de metarrelato da monstruosidade. Mas seu austero senso norte-europeu de espet\u00e1culo n\u00e3o serviu para nada, pois n\u00e3o transmitiram o julgamento de Cosby. Ainda assim, o julgamento estava sendo realizado.<\/p>\n<p>Naquele ver\u00e3o, o clima era de um enorme mal-estar. Havia um sentimento generalizado de que algo estava errado. As pessoas, e ao dizer pessoas me refiro \u00e0s mulheres, estavam agitadas e insatisfeitas. Se encontravam nas ruas, se olhavam, negavam com a cabe\u00e7a e se distanciavam em sil\u00eancio. As mulheres estavam fartas. Organizaram um protesto gigantesco para expressar essa satura\u00e7\u00e3o. Come\u00e7aram a se comunicar pelo Facebook e o Twitter, a fazer longas marchas indignadas, a dar dinheiro para organiza\u00e7\u00f5es de direitos civis, a se perguntar por que seus companheiros e filhos n\u00e3o lavavam mais os pratos. Come\u00e7aram a perceber que o paradigma dos pratos era odioso. Come\u00e7aram a se radicalizar, embora n\u00e3o tivessem tempo para serem radicais. Arlie Hochschild publicou The Second Shift (A dupla jornada) em 1989, e em 2017 as mulheres come\u00e7aram a descobrir que essa merda era mais verdade do que nunca. Alguns meses depois, surgiram as acusa\u00e7\u00f5es contra Harvey Weinstein e, com elas, a for\u00e7a da campanha #MeToo.<\/p>\n<p>Como escrevi quando era adolescente em meu di\u00e1rio: \u201cNeste momento, n\u00e3o tenho uma grande opini\u00e3o sobre os homens.\u201d No ver\u00e3o de 2017, continuava sem ter, e muitas outras mulheres tamb\u00e9m n\u00e3o tinham. Muitos homens tampouco se sentiam muito bem sobre outros homens. At\u00e9 os patriarcas estavam fartos do patriarcado.<\/p>\n<p>Apesar de toda essa profus\u00e3o de opini\u00f5es, sentimentos e raiva, eu tinha a determina\u00e7\u00e3o de pelo menos tentar me aproximar de Manhattan com a mente aberta. Afinal, muita gente pensa que \u00e9 a obra-prima de Allen, e eu estava disposta a me deixar conquistar. E ele me conquistou com os cr\u00e9ditos, em branco e preto; com os saltos temporais editados \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o, quase de maneira c\u00f4mica, para coincidir com os acordes triunfais de Rhapsody in Blue. Momentos depois, cortamos para um plano de Isaac (o personagem de Allen), jantando com seus amigos Yale (est\u00e1 brincando comigo? Yale?) e sua mulher, Emily. Com eles est\u00e1 a acompanhante de Allen, uma estudante de 17 anos chamada Tracy, interpretada por Mariel Hemingway.<\/p>\n<p>O mais espantoso dessa cena \u00e9 a indiferen\u00e7a dele. Claro, ele sabe que a rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o vai durar, mas as implica\u00e7\u00f5es morais que isso tem parecem s\u00f3 perturb\u00e1-lo ligeiramente. Allen \u00e9 fascinado pelas sombras morais, salvo nesse tema espec\u00edfico, o dos homens de meia idade que v\u00e3o para a cama com adolescentes. Frente a esse assunto em particular, um dos grandes observadores da \u00e9tica contempor\u00e2nea \u2014 algu\u00e9m cujas obras j\u00e1 maduras s\u00e3o quase dignas de Flaubert \u2014 torna-se um idiota de repente.<\/p>\n<p>\u201cNo col\u00e9gio, at\u00e9 as meninas mais feias s\u00e3o bonitas\u201d. Um professor uma vez me disse essa frase.<\/p>\n<p>O rosto de Tracy, que \u00e9 o de Mariel, \u00e9 feito de planos abertos que lembram os pioneiros, os campos ensolarados de trigo (\u00e9 uma menina de Idaho, afinal). Para Allen, Tracy tem uma bondade e uma pureza que as mulheres adultas do filme n\u00e3o podem ter jamais. Tracy \u00e9 s\u00e1bia, tal como Allen a roteirizou, mas, ao contr\u00e1rio dos adultos, \u00e9 milagrosamente livre de qualquer neurose.<\/p>\n<p>Heidegger utilizava os conceitos de Dasein e Vorhandensein. Dasein significa a presen\u00e7a consciente, uma entidade consciente de sua mortalidade; por exemplo, os personagens de todos os filmes de Woody Allen salvo Tracy. Vorhandensein, ao contr\u00e1rio, \u00e9 um ser que existe em si mesmo, simplesmente \u00e9, como um objeto ou um animal. Ou Tracy. A jovem \u00e9 gloriosa sem precisar fazer nada: inerte, como um objeto, Vorhandensein. Como as grandes estrelas do cinema cl\u00e1ssico, \u00e9 um rosto, e Isaac deixa isso claro em sua litania de motivos para viver: \u201cGroucho Marx e Willie Mays, as incr\u00edveis peras e ma\u00e7\u00e3s de C\u00e9zanne, os caranguejos de Sam Wo\u2019s e, ah, sim, o rosto de Tracy. (Ao ver o filme pela primeira vez em d\u00e9cadas, fiquei impressionada com o quanto a lista de Isaac parece um post do Facebook).<\/p>\n<p>Allen\/Isaac pode se aproximar mais desse mundo ideal, um mundo que se esqueceu de seu conhecimento da morte, transando com Tracy. Como \u00e9 Woody Allen \u2014 um grande cineasta \u2014, deixa Tracy falar, e ela n\u00e3o \u00e9 nenhuma boba. \u201cSuas preocupa\u00e7\u00f5es s\u00e3o minhas preocupa\u00e7\u00f5es\u201d, diz. \u201cTemos um sexo maravilhoso\u201d. Para Isaac, isso \u00e9 muito conveniente: ele consegue absorver sua simplicidade encerrada num corpo t\u00e3o belo, ficando assim isento de culpa. As mulheres do filme n\u00e3o t\u00eam essa vantagem.<\/p>\n<p>As mulheres adultas de Manhattan s\u00e3o fr\u00e1geis e muito conscientes da morte; sabem de tudo. Uma mulher que pensa est\u00e1 presa, afastada do corpo, da beleza, da pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p>Na minha opini\u00e3o, o momento mais significativo do filme \u00e9 uma frase dita por uma mulher muito elegante em tom de queixa durante um coquetel. \u201cFinalmente, tive um orgasmo e meu m\u00e9dico me disse que foi dos ruins.\u201d A (divertida) resposta de Isaac: \u201cFoi dos ruins? Nunca tive um dos ruins, nunca. O meu pior foi bem na mosca\u201d.<\/p>\n<p>Todas as mulheres que assistem ao filme sabem que o est\u00fapido \u00e9 o m\u00e9dico, n\u00e3o a mulher. Mas Woody\/Isaac n\u00e3o v\u00ea dessa forma.<\/p>\n<p>Se uma mulher \u00e9 capaz de pensar, n\u00e3o pode ter orgasmo; se pode ter um orgasmo, n\u00e3o \u00e9 capaz de pensar.<\/p>\n<p>Assim como Manhattan nunca examina de forma plena e genu\u00edna as complexidades de um sujeito de idade dormindo com uma adolescente, o pr\u00f3prio Allen \u2014 um indiv\u00edduo extremamente eloquente \u2014 se torna estranhamente pouco articulado quando fala de Soon-Yi. Numa entrevista que concedeu a Walter Isaacson para a revista Time, Allen soltou uma frase que ficou famosa por seu f\u00e1tuo desprezo acerca de suas defici\u00eancias morais: \u201cO cora\u00e7\u00e3o quer o que quer\u201d.<\/p>\n<p>Foi uma dessas respostas que voc\u00ea nunca esquece depois de ouvir. Todos a memorizamos de imediato, gost\u00e1ssemos ou n\u00e3o. Seu atroz desd\u00e9m por tudo o que n\u00e3o seja ele mesmo, sua orgulhosa irracionalidade. E Allen prosseguia: \u201cEssas coisas n\u00e3o seguem nenhuma l\u00f3gica. Voc\u00ea conhece algu\u00e9m, se apaixona, e \u00e9 isso.\u201d<\/p>\n<p>I move on her like a bitch [\u201cMandei ver como se ela fosse uma cadela\u201d, frase dita por Donald Trump]<\/p>\n<p>Custei a terminar de ver Manhattan. Demorei algumas sess\u00f5es. Mencionei nas redes sociais essa dificuldade de assistir ao filme nesse momento Trump (eu achava ferventemente que fosse um momento). \u201cManhattan \u00e9 um trabalho de g\u00eanio! Cansei de voc\u00ea, Claire!\u201d, respondeu um escritor que n\u00e3o conhe\u00e7o pessoalmente. Esse escritor tinha suportado v\u00e1rios pronunciamentos escandalosos meus, incluindo alguns sobre meu desejo de executar e cortar em peda\u00e7os a metade masculina da humanidade, ao estilo de Valerie Solanas. No entanto, quando confessei que me sentia mal vendo Manhattan \u2014 acho que disse que o filme havia me provocado \u201cum pouco de n\u00e1usea\u201d \u2014, ele me disse, furioso, que me removia [da rede social] e n\u00e3o pensava em dialogar comigo nunca mais.<\/p>\n<p>Eu falhara no que ele considerava que era meu dever: na capacidade de superar meus pr\u00f3prios serm\u00f5es e minhas bobagens \u2014 minhas emo\u00e7\u00f5es \u2014 e de fazer o trabalho de aprecia\u00e7\u00e3o do g\u00eanio. Mas quem se mostrou mais emocional nessa situa\u00e7\u00e3o? Foi ele que saiu furioso do chat. Nos meses seguintes, repeti essa conversa com muitos homens, inteligentes e tolos. \u201cVoc\u00ea tem que julgar Manhattan por sua est\u00e9tica\u201d, diziam todos.<\/p>\n<p>Outro escritor e eu discutimos isso numa noite enquanto jant\u00e1vamos. Foi como uma pe\u00e7a de teatro:<\/p>\n<p>Escritora: \u201cHum, isso n\u00e3o se sustenta.\u201d<\/p>\n<p>Escritor, bruscamente: \u201cO que voc\u00ea quer dizer?\u201d<\/p>\n<p>Ela: \u201cBem, parece tudo um pouco displicente. Isaac n\u00e3o se preocupa com o fato de que ela seja uma colegial.\u201d<\/p>\n<p>Ele: \u201cN\u00e3o, n\u00e3o, n\u00e3o, se preocupa muito\u201d<\/p>\n<p>Ela: \u201cEle faz piada sobre isso, mas n\u00e3o se preocupa tanto\u201d<\/p>\n<p>Ele: \u201cVoc\u00ea est\u00e1 pensando em Soon-Yi e deixando que isso influa na hora de ver o filme. Achei que voc\u00ea fosse mais s\u00e9ria.\u201d<\/p>\n<p>Ela: \u201cMe pareceu assustador por m\u00e9rito pr\u00f3prio, mesmo que n\u00e3o soubesse nada de Soon-Yi.\u201d<\/p>\n<p>Ele: \u201cDeixe isso de lado. Voc\u00ea tem que julg\u00e1-lo por seus valores est\u00e9ticos.\u201d<\/p>\n<p>Ela: \u201cE o que lhe d\u00e1 essa qualidade est\u00e9tica, objetivamente?\u201d<\/p>\n<p>O escritor diz algo sobre \u201cequil\u00edbrio e eleg\u00e2ncia\u201d que soa muito inteligente.<\/p>\n<p>Eu gostaria que a escritora tivesse sido capaz de dar o golpe de miseric\u00f3rdia aqui, mas n\u00e3o foi assim. N\u00e3o estava segura de si mesma.<\/p>\n<p>Qual de n\u00f3s est\u00e1 vendo de forma mais clara? Aquele que teve a capacidade \u2014 alguns diriam o privil\u00e9gio \u2014 de permanecer inalterado ante as atitudes do cineasta com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres e seus antecedentes com as meninas? Aquele que p\u00f4de contemplar a arte sem cair em fal\u00e1cias biogr\u00e1ficas? Ou quem n\u00e3o p\u00f4de evitar ver as antipatias e os impulsos que parecem dar vida ao projeto?<\/p>\n<p>Pergunto sinceramente.<\/p>\n<p>Esses espectadores orgulhosos de sua objetividade estavam sendo t\u00e3o objetivos quanto pensam? A genialidade habitual de Woody Allen \u00e9 sua capacidade de culpar a si mesmo, e aqui est\u00e1 um filme em que essa capacidade falha e no qual ele tamb\u00e9m transa com uma adolescente. E esse \u00e9 o filme considerado uma obra-prima? O que exatamente esses caras defendem? \u00c9 o filme? Ou \u00e9 outra coisa?<\/p>\n<p>Acredito que Manhattan e sua hist\u00f3ria pr\u00f3-menina e antimulher seriam inquietantes mesmo que o furac\u00e3o Soon-Yi nunca tivesse tocado solo. Mas n\u00e3o podemos saber, e a\u00ed est\u00e1 a chave do assunto. O filme de Louis C. K. I Love You, Daddy \u2014 o relato de um pai que tenta evitar que sua filha adolescente se envolva com um homem mais velho \u2014 ter\u00e1 um destino similar. Ser\u00e1 imposs\u00edvel v\u00ea-lo como algo alheio ao comportamento indevido de Louis C. K., se \u00e9 que chegar\u00e1 a ser visto. At\u00e9 agora, a distribui\u00e7\u00e3o foi suspensa e o filme n\u00e3o vai estrear. Uma grande obra de arte nos provoca sentimentos. E, no entanto, quando digo que Manhattan me provoca n\u00e1usea, um homem me responde: \u201cN\u00e3o, esse sentimento n\u00e3o. Voc\u00ea est\u00e1 tendo o sentimento errado.\u201d E fala com autoridade: \u201cManhattan \u00e9 uma obra-prima\u201d. Mas quem diz isso? A voz autorizada diz que a obra n\u00e3o deve ser afetada pela vida. Que a biografia \u00e9 uma fal\u00e1cia. Que a obra existe num mundo ideal (a-hist\u00f3rico, alpino, nevado, puro). Isso fica para os vencedores da hist\u00f3ria (os homens) (at\u00e9 agora).<\/p>\n<p>O ponto \u00e9: n\u00e3o digo que eu tenho raz\u00e3o. Mas sou o p\u00fablico. E a \u00fanica coisa que fa\u00e7o \u00e9 ser consciente da realidade dessa situa\u00e7\u00e3o: o filme Manhattan \u00e9 visto de outra maneira pelo que sabemos sobre Soon-Yi, mas tamb\u00e9m \u00e9 ligeiramente repugnante por si mesmo e, por outro lado, tem um monte de coisas que s\u00e3o maravilhosas. E tudo isso pode ser verdade ao mesmo tempo. A hist\u00f3ria de Allen n\u00e3o perde import\u00e2ncia s\u00f3 porque os homens te dizem que ela n\u00e3o conta.<\/p>\n<p>E o que eu fa\u00e7o com esse monstro? Tenho alguma responsabilidade? Devo me afastar ou superar meu desagrado biogr\u00e1fico e ver, ler, escutar?<\/p>\n<p>E por que o monstro nos deixa \u2014 me deixa \u2014 t\u00e3o furiosos?<\/p>\n<p>O p\u00fablico quer algo para ver, ler ou escutar. Isso \u00e9 o que o transforma em p\u00fablico. Neste momento hist\u00f3rico concreto, em que estamos estupefatos por amargas revela\u00e7\u00f5es, o p\u00fablico fica indignado novamente com a apari\u00e7\u00e3o de novos monstros todo dia, repetidas vezes. O p\u00fablico se entusiasma com o drama das den\u00fancias contra os monstros. D\u00e1 meia volta e jura que nunca mais ver\u00e1 um filme de Kevin Spacey.<\/p>\n<p>Talvez os sentimentos do p\u00fablico sejam puros, justos e sinceros. Mas tamb\u00e9m pode estar acontecendo outra coisa.<\/p>\n<p>Quando voc\u00ea tem um sentimento moral, fica satisfeito com voc\u00ea mesma. Coloca suas emo\u00e7\u00f5es num leito de linguagem \u00e9tica e se admira por fazer isso. Somos governados pelas emo\u00e7\u00f5es, emo\u00e7\u00f5es que rodeamos de linguagem. A transmiss\u00e3o de nossos sentimentos virtuosos nos parece muito importante e estranhamento apaixonante.<\/p>\n<p>Lembrete: n\u00e3o \u201cvoc\u00ea\u201d, n\u00e3o \u201cn\u00f3s\u201d, e sim \u201ceu\u201d. \u00c9 preciso reconhecer as coisas. Eu sou o p\u00fablico. E percebo que h\u00e1 algo completamente inaceit\u00e1vel \u00e0 espreita dentro de mim. Inclusive no meio de minhas explos\u00f5es de justa indigna\u00e7\u00e3o por Woody e Soon-Yi, sei que, em certo sentido, n\u00e3o sou a \u00fanica cidad\u00e3 completamente nobre. Me dou bem com meus filhos e cuido de meus amigos; tenho uma casa acolhedora, escuto meu marido e sou razoavelmente boa com meus pais. No que fa\u00e7o e penso diariamente, sou um ser humano mais ou menos decente. Mas tamb\u00e9m sou algo mais, algo que se parece vagamente com, bem, um monstro. Os vitorianos compreendiam esse sentimento; por isso n\u00e3o legaram as enormes dicotomias de Dorian Gray, de Jekyll e Hyde. Suponho que essa \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o humana, essa leve suspeita de nossa pr\u00f3pria maldade. Algo em n\u00f3s \u2014 em mim \u2014 vibra com esse horror, o reconhece, se espanta ao reconhec\u00ea-lo e logo se entusiasma com o espet\u00e1culo de denunciar publicamente o monstro em quest\u00e3o.<\/p>\n<p>O teatro psicol\u00f3gico da condena\u00e7\u00e3o p\u00fablica dos monstros pode ser considerado uma esp\u00e9cie de distra\u00e7\u00e3o elaborada: n\u00e3o olhem para mim, n\u00e3o h\u00e1 nada para ver. N\u00e3o sou nenhum monstro. Em vez de mim, olhem para esse sujeito a\u00ed. Sou um monstro? Nunca matei ningu\u00e9m. Sou um monstro? Nunca defendi o fascismo. Sou um monstro? Nuca cometi abuso contra uma crian\u00e7a. Sou um monstro? Nunca fui acusado por dezenas de mulheres de t\u00ea-las drogado e estuprado. Sou um monstro? N\u00e3o bato nos meus filhos (ainda). Sou um monstro? N\u00e3o sou antissemita. Sou um monstro? Nunca liderei uma seita sexual que captura mulheres numa mans\u00e3o dourada de Atlanta. Sou um monstro? N\u00e3o estuprei, analmente, algu\u00e9m de 13 anos.<\/p>\n<p>Com todas as coisas horr\u00edveis que n\u00e3o fiz, talvez eu n\u00e3o seja um monstro. Mas h\u00e1 uma coisa que de fato fiz: escrever um livro. E escrever mais um livro. Ensaios, artigos e resenhas. Ou talvez isso me transforme num monstro, mas num sentido muito espec\u00edfico.<\/p>\n<p>O cr\u00edtico Walter Benjamin falava da \u201cbarb\u00e1rie que est\u00e1 na base de toda grande obra de arte\u201d. Minhas obras n\u00e3o s\u00e3o exatamente grandes, mas me pergunto: existe um pouco de barb\u00e1rie na base de toda pequena obra de arte? Uma pontinha?<\/p>\n<p>Para ser escritor ou artista, uma pessoa deve ter muitas qualidades. Talento, intelig\u00eancia, tenacidade. \u00c9 bom contar com pais ricos. \u00c9 decididamente conveniente. Mas o ingrediente mais necess\u00e1rio \u00e9 o ego\u00edsmo. Um livro \u00e9 feito de pequenos ego\u00edsmos. O ego\u00edsmo de fechar a porta \u00e0 fam\u00edlia. O ego\u00edsmo de ignorar o carrinho de beb\u00ea que aguarda no corredor [em alus\u00e3o \u00e0 frase do cr\u00edtico liter\u00e1rio Cyril Connolly, de que \u201cn\u00e3o h\u00e1 inimigo mais sombrio da boa arte do que um carrinho de beb\u00ea no corredor\u201d]. O ego\u00edsmo de se esquecer do mundo real para criar outro diferente. O ego\u00edsmo de roubar hist\u00f3rias de pessoas de carne e osso. O ego\u00edsmo de reservar o melhor de si para esse amante an\u00f4nimo e sem rosto, o leitor. O ego\u00edsmo de dizer o que voc\u00ea tem que dizer.<\/p>\n<p>Me pergunto se sou suficientemente monstruosa. Sou consciente de minhas falhas como escritora \u2014 conhe\u00e7o a lista em detalhes, e o pior s\u00e3o as falhas que sei que n\u00e3o conhe\u00e7o \u2014, mas uma pequena parte de mim tem que perguntar: se fosse mais ego\u00edsta, meu trabalho seria melhor? Deveria almejar ser mais ego\u00edsta?<\/p>\n<p>Todas as escritoras e m\u00e3es que conhe\u00e7o se fizeram essa pergunta. Nenhuma diz isso em voz alta, mas posso ouvir como pensam; \u00e9 quase ensurdecedor. Por acaso uma identidade interrompe fatalmente a outra? Meu trabalho me faz ser uma m\u00e3e pior? Isso \u00e9 o que voc\u00ea se pergunta o tempo todo. E tamb\u00e9m: a maternidade me faz ser pior escritora? Essa pergunta \u00e9 um pouco mais inc\u00f4moda.<\/p>\n<p>Jenny Offill aborda essa ideia num fragmento de seu romance Dept. of Speculation, uma passagem muito comentada pelas escritoras e artistas que conhe\u00e7o: \u201cMeu plano era nunca me casar. Em vez disso, seria um monstro da arte. As mulheres quase nunca chegam a ser monstros da arte, porque os monstros da arte s\u00f3 se dedicam a essa arte, nunca \u00e0s coisas cotidianas. Nabakov nem sequer fechava seu guarda-chuva. E Vera umedecia os selos para ele.\u201d<\/p>\n<p>Eu detesto lamber os selos. Um monstro da arte, pensei quando li esse fragmento. Isso \u00e9 o que quero ser. Minhas amigas pensaram a mesma coisa. Victoria, que \u00e9 pintora, saiu por a\u00ed gritando \u201cmonstro da arte\u201d durante v\u00e1rios dias.<\/p>\n<p>As escritoras que conhe\u00e7o sonham em ser mais monstruosas. Dizem meio que brincando: \u201cQuem me dera ter uma esposa.\u201d O que isso quer dizer? Quer dizer que sonham em abandonar os cuidados cotidianos para praticar os sacramentos ego\u00edstas que a arte exige.<\/p>\n<p>E se n\u00e3o sou monstruosa o suficiente?<\/p>\n<p>De certo modo, h\u00e1 anos pergunto isso a alguns amigos escritores que considero magn\u00edficos. Envio-lhes e-mails cheios de simpatia, mas nos quais, na verdade, sempre tento saber: quanto voc\u00ea tem de ego\u00edsta? Ou, em outras palavras: qu\u00e3o ego\u00edsta preciso ser para ser t\u00e3o boa artista quanto voc\u00ea?<\/p>\n<p>Muito ego\u00edsta, segundo descobri observando esses homens de longe. Ego\u00edsta de fechar a porta e n\u00e3o dar bola para o seu filho enquanto trabalha. Ego\u00edsta de trabalhar todo dia, inclusive nas festas, inclusive no Natal. Ego\u00edsta de viajar semanas seguidas promovendo o livro. Ego\u00edsta a ponto de dormir com outras mulheres em congressos. T\u00e3o ego\u00edsta para fazer o que for preciso.<\/p>\n<p>Numa noite recente, eu estava na sala ca\u00f3tica cheia de livros de uma jovem escritora e seu marido, tamb\u00e9m escritor. Seus filhos j\u00e1 estavam na cama, no andar de cima; de vez em quando, ouvia-se um choro.<\/p>\n<p>Com os tr\u00eas filhos no col\u00e9gio e o marido trabalhando o dia todo, minha amiga tentava forjar uma carreira fazendo frilas e escrevendo livros. Uma nuvem de intensa ambi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria cobria a casa, como um microclima tormentoso. Era dia de semana; todos dever\u00edamos ter ido dormir, mas l\u00e1 est\u00e1vamos, tomando vinho e falando de trabalho. O marido me pareceu encantador, o que significa que ele ria de todas as minhas piadas. Estava muito tenso e alerta, talvez porque, como escritor, n\u00e3o estava tendo muito sucesso. J\u00e1 a mulher tinha, e muito.<\/p>\n<p>Ela mencionou um relato breve que acabava de escrever e publicar.<\/p>\n<p>\u201cAh, voc\u00ea se refere \u00e0 \u00faltima desculpa para abandonar as crian\u00e7as e a mim?\u201d, perguntou o inteligente e encantador marido.<\/p>\n<p>A mulher havia se transformado num monstro capaz de terminar sua obra. O marido, n\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 a monstruosidade feminina: abandonar os filhos. Sempre. O monstro feminino \u00e9 Doris Lessing deixando seus filhos para se entregar a uma vida liter\u00e1ria em Londres. O monstro feminino \u00e9 Sylvia Plath, que, como se seu suic\u00eddio fosse pouco, ainda se preocupou em fechar o quarto dos filhos. E em deixar p\u00e3o e leite para eles, uma esp\u00e9cie de poema terr\u00edvel em si mesmo. Ela sonhava em devorar homens como o ar, mas era monstruosa porque deixou os filhos sem m\u00e3e.<\/p>\n<p>Talvez, como uma mulher escritora, voc\u00ea n\u00e3o se mate nem abandone seus filhos. Mas voc\u00ea abandona alguma coisa, alguma parte vital de si mesma. Quando voc\u00ea acaba um livro, o que aparece espalhado no ch\u00e3o s\u00e3o pequenas coisas quebradas: encontros cancelados, promessas n\u00e3o cumpridas, compromissos desfeitos. E outros esquecimentos e falhas mais importantes: os deveres dos filhos sem ter sido revisados, as chamadas n\u00e3o realizadas aos pais, o sexo conjugal esquecido. Todas essas coisas t\u00eam que se romper para que um livro seja escrito.<\/p>\n<p>Claro que possuo a monstruosidade corrente de uma pessoa normal, as profundezas insond\u00e1veis, o Hyde reprimido. Mas tamb\u00e9m tenho outra monstruosidade mais vis\u00edvel e quantific\u00e1vel, a da artista que termina seu trabalho. Os artistas que terminam suas obras sempre s\u00e3o monstros. Woody Allen n\u00e3o s\u00f3 tenta rodar um filme por ano; tenta estrear um filme por ano.<\/p>\n<p>No meu caso, a monstruosidade de terminar meu trabalho sempre se pareceu muito com a solid\u00e3o: me afastar da fam\u00edlia, ficar fechada numa casa de campo emprestada ou num quarto de hotel. Se n\u00e3o posso me distanciar fisicamente, me escondo em meu frio escrit\u00f3rio, com echarpes e luvas sem dedo, com um gorro de pele na cabe\u00e7a, isolada do mundo, tentando terminar.<\/p>\n<p>Porque terminar \u00e9 o que faz o artista. O artista deve ser monstruoso o bastante para n\u00e3o s\u00f3 come\u00e7ar, mas tamb\u00e9m terminar uma obra. E cometer todas as barbaridades que salpicam o caminho entre o princ\u00edpio e o fim.<\/p>\n<p>Minha amiga e eu n\u00e3o hav\u00edamos feito nada mais monstruoso do que esperar que algu\u00e9m se encarregasse de nossos filhos enquanto termin\u00e1vamos nossa obra. N\u00e3o \u00e9 algo t\u00e3o ruim quanto o estupro nem, por exemplo, quanto obrigar algu\u00e9m a te olhar enquanto voc\u00ea se masturba perto de um vaso de planta. Pode parecer que estou misturando as coisas \u2014 os homens predadores e as mulheres artistas \u2014 de um jeito preocupante. \u00c9 poss\u00edvel. Porque, quando n\u00f3s, mulheres, fazemos o que deve ser feito para escrever ou criar arte, \u00e0s vezes nos sentimos monstruosas. E outros se apressam em nos qualificar como tais.<\/p>\n<p>A escritora Martha Gellhorn, namorada de Hemingway, n\u00e3o pensava que o artista tivesse que ser um monstro; pensava que o monstro precisava se transformar em artista. \u201cUm homem deve ser um grande g\u00eanio para compensar o fato de ser uma pessoa t\u00e3o abomin\u00e1vel\u201d (suponho que ela sabia do que falava). O que diz ela \u00e9 que, se voc\u00ea \u00e9 realmente horr\u00edvel, se sente compelido a ser um g\u00eanio para compensar o mundo por todas as coisas espantosas que vai fazer a ele. De certo modo, \u00e9 uma revis\u00e3o feminista de toda a hist\u00f3ria da arte; uma hist\u00f3ria que ela, com uma \u00fanica frase \u00e1cida e brilhante, transforma numa alegoria moral de compensa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em qualquer caso, restam perguntas para responder. O que fazemos com os monstros? Podemos e devemos amar suas obras? Todos os artistas ambiciosos s\u00e3o monstros? E, em voz muito baixa: sou um monstro?<\/p>\n<p>Claire Dederer \u00e9 autora das mem\u00f3rias Love and Trouble. Est\u00e1 escrevendo um livro sobre a rela\u00e7\u00e3o entre o mau comportamento e a arte de qualidade. Este artigo foi publicado em ingl\u00eas no The Paris Review Daily.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eles fizeram ou disseram algo horr\u00edvel, mas criaram algo maravilhoso. A biografia de um artista deve influir na aprecia\u00e7\u00e3o de sua obra? 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