{"id":1656,"date":"2016-06-15T08:05:33","date_gmt":"2016-06-15T12:05:33","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=1656"},"modified":"2016-06-15T08:05:33","modified_gmt":"2016-06-15T12:05:33","slug":"as-dicas-de-braulio-tavares-na-corrente-literaria","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2016\/06\/15\/as-dicas-de-braulio-tavares-na-corrente-literaria\/","title":{"rendered":"As dicas de Br\u00e1ulio Tavares na corrente liter\u00e1ria"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"1657\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2016\/06\/15\/as-dicas-de-braulio-tavares-na-corrente-literaria\/image-358\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/image-54.jpeg?fit=220%2C280\" data-orig-size=\"220,280\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"image\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/image-54.jpeg?fit=220%2C280\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/image-54.jpeg?fit=220%2C280\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/image-54.jpeg?resize=220%2C280\" alt=\"image\" width=\"220\" height=\"280\" class=\"alignnone size-full wp-image-1657\" \/><\/p>\n<p>Tem circulado no Facebook uma esp\u00e9cie de corrente (que me foi repassada) pedindo que a gente cite 15 autores que nos marcaram.  <!--more--><\/p>\n<p>Tempos atr\u00e1s fiz uma dessas listas, e uma amiga, cuja opini\u00e3o respeito muito, chamou minha lista de machista, porque s\u00f3 citei autores homens. Eu nem tinha reparado. Claro que n\u00e3o foi proposital.  Como a maior parte dos preconceitos, meu machismo deve ser inconsciente, embutido no piloto autom\u00e1tico. O que n\u00e3o me impede de ter grande carinho e gratid\u00e3o por cada escritora da lista abaixo (que poderia ser maior, evidentemente). Vamos \u00e0s damas, portanto.<\/p>\n<p>1. Agatha Christie. Era a autora preferida de minha av\u00f3 Clotilde. Os primeiros dos mais de 30 livros seus que li foram, aos dez ou onze anos, O Caso dos Dez Negrinhos e O Assassinato de Roger Ackroyd. Com ela me acostumei a admitir o maquiavelismo por tr\u00e1s das apar\u00eancias bonachonas, das reputa\u00e7\u00f5es inatac\u00e1veis dos cidad\u00e3os acima de qualquer suspeita. E aprendi que \u00e0s vezes quem est\u00e1 contando a hist\u00f3ria do crime n\u00e3o \u00e9 um narrador neutro, \u00e9 o pr\u00f3prio criminoso. (Vale para na\u00e7\u00f5es, civiliza\u00e7\u00f5es inteiras.)<\/p>\n<p>2. Cec\u00edlia Meireles. Os primeiros livros papel-b\u00edblia que comprei, aos 14 anos, foram as poesias completas dela e as de Manuel Bandeira. Que releio at\u00e9 hoje. O Romanceiro da Inconfid\u00eancia j\u00e1 bastaria para tornar qualquer pessoa um Poeta Maior. Posso ter herdado dela um certo desligamento, uma certa aus\u00eancia da vida pr\u00e1tica, um jeito mais de contemplar do que de agir. N\u00e3o me arrependo.<\/p>\n<p>3. Emily Bronte. Li O Morro dos Ventos Uivantesna adolesc\u00eancia. Foi o \u00fanico livro dela que li, mas \u00e9 como dizer: \u201cfoi a \u00fanica bomba at\u00f4mica que caiu em cima de mim\u201d. Meus referenciais de literatura g\u00f3tico-rom\u00e2ntica passam todos por ali, misturados \u00e0s ilustra\u00e7\u00f5es de Fritz Eichenberg na edi\u00e7\u00e3o da Jos\u00e9 Olympio. <\/p>\n<p>4. Mary Shelley. Outra de quem s\u00f3 li um livro (e alguns contos esparsos, tentando achar algo que coubesse numa das minhas antologias). Frankenstein fundou, para alguns, o romance moderno de terror, aquilo que chamo de \u201cci\u00eancia g\u00f3tica\u201d. Grande escritor \u00e9 aquele que cria um personagem e desaparece por tr\u00e1s dele. E neste livro pela primeira vez simpatizei com o monstro, entendi o lado do monstro, senti que por um triz o monstro n\u00e3o era eu.<\/p>\n<p>5. Simone de Beauvoir. Quando li O Segundo Sexo, com vinte e tantos anos, eu j\u00e1 estava arriado-dos-quatro-pneus por ela, gra\u00e7as \u00e0s Mem\u00f3rias de uma Mo\u00e7a Bem Comportada, A For\u00e7a da Idade, Sob o Signo da Hist\u00f3ria. Vieram ainda A Cerim\u00f4nia do Adeus, A Am\u00e9rica Dia a Dia e algum outro que n\u00e3o lembro agora. Eu a achava linda, e mesmo com a propalada vis\u00e3o-cr\u00edtica-que-\u00e9-apan\u00e1gio-da-maturidade continuo achando.<\/p>\n<p>6. N\u00e9lida Pi\u00f1on. Nos anos 1970 ela foi uma autora que li miudamente, atentamente, decifrando livros densos, impressionantes, meio on\u00edricos, meio po\u00e9ticos, como Guia-Mapa de Gabriel Arcanjo (sua estr\u00e9ia, pela editora GRD), A Casa da Paix\u00e3o, Sala de Armas e outros. Em mat\u00e9ria de \u201cprosa elevada\u201d entre n\u00f3s, para ombrear com ela s\u00f3 mesmo Osman Lins e muito poucos. <\/p>\n<p>7. Shere Hite &#038; Nancy Friday. Vou trapacear um pouco e dar uma s\u00f3 vaga para estas duas compiladoras enciclop\u00e9dicas da vida sexual nos EUA. Shere Hite publicou dois Relat\u00f3rios Hite, um sobre mulheres, outro sobre homens (li os dois na \u00edntegra). Nancy Friday escreveu livros sobre fantasias sexuais pesquisadas por correspond\u00eancia (My Secret Garden, O Homem e o Amor). Depois de ler estes quatro livros a gente percebe que toda exce\u00e7\u00e3o n\u00e3o passa de uma regra que ainda n\u00e3o cresceu o bastante, que em sexo tudo \u00e9 poss\u00edvel, que tudo pode ser normal entre quatro paredes e em p\u00e9 de igualdade, que cada um gosta do que gosta, e que n\u00e3o existe um chinelo velho que n\u00e3o encontre um p\u00e9 doente.<\/p>\n<p>8. Karen Blixen. Tamb\u00e9m conhecida como Isak Dinesen, era uma baronesa dinamarquesa que escrevia em ingl\u00eas como gente grande. Suas hist\u00f3rias correm o tempo todo numa raia do ins\u00f3lito que a faz de vez em quando triscar no fant\u00e1stico. Sua prosa \u00e9 brilhante em Winter Tales, Sete Contos G\u00f3ticos, Last Tales.<\/p>\n<p>9. Emily Dickinson. Acho essa \u201csolteirona reclusa\u201d o maior mist\u00e9rio liter\u00e1rio da Am\u00e9rica. Inventou uma linguagem pr\u00f3pria, pontua\u00e7\u00e3o, nota\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria, imagens surpreendentes de um poder simb\u00f3lico desconcertante, e que s\u00f3 se revela em parte. \u00c9 uma dessas poetas que inventam n\u00e3o apenas uma obra, mas uma po\u00e9tica s\u00f3 sua. Parecem vers\u00edculos b\u00edblicos, pequenas adivinha\u00e7\u00f5es, bilhetes an\u00f4nimos e incompletos. Muito dif\u00edcil de traduzir.<\/p>\n<p>10. Dorothy Parker. \u00c9 o oposto sim\u00e9trico de Dickinson. Extrovertida, famosa, l\u00edngua ferina, teve uma vida atribulada e cheia de paix\u00f5es e sexo. Contista  mordaz e precisa (Big Loira), poetisa de versos curtos, compactos, dolorosamente verdadeiros. Tamb\u00e9m dif\u00edcil de traduzir, embora mais coloquial, mais urbana, mais moderna.<\/p>\n<p>11. Hilda Hilst. Por falar em quem cria uma po\u00e9tica pr\u00f3pria, a paulista Hilda me deixou bambo nas cem primeiras tentativas de ler sua poesia densa, ziguezagueante, de imagens consistentemente inesperadas. Seus poemas estavam espalhados pelas publica\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias da imprensa alternativa dos anos 1970 e eu os lia com o cuidado de quem desarma uma bomba. Depois de certa idade, come\u00e7ou a publicar narrativas fesceninas e virou uma \u201cvelha dama indigna\u201d igualmente deleit\u00e1vel.<\/p>\n<p>12. Shirley Jackson. \u00c9 engra\u00e7ado, nunca li o livro mais famoso dela, Hill House, tido como o melhor romance de casa mal assombrada. Mas os contos inclu\u00eddos em The Lottery e em Come Live With Me v\u00e3o do g\u00f3tico ao dom\u00e9stico, do bizarro ao cotidianamente banal, e ningu\u00e9m melhor do que ela escreve hist\u00f3rias de mulheres que de repente jogam tudo pro ar, chutam o pau da barraca, mudam de nome e v\u00e3o morar num hotel numa cidade desconhecida.<\/p>\n<p>13. Clotilde Tavares. Pode parecer nepotismo. Mas minha irm\u00e3 mais velha dividiu comigo livros, filmes e discos at\u00e9 que eu fiquei um rapazinho com 16 anos, capaz de escolher sozinho o que ia ler. Suas novelas de hist\u00f3rias encapsuladas (A Botija, O Monstro das Sete Bocas) reelaboram hist\u00f3rias que ouvimos na inf\u00e2ncia, mas ela tamb\u00e9m escreve teatro, poesia, cordel, ensaio, o escambau. N\u00e3o \u00e9 mais minha professora, \u00e9 minha colega, mas ainda influencia.<\/p>\n<p>14. Karen Joy Fowler. Minha professora na Clarion Workshop (em 1991) j\u00e1 foi publicada no Brasil, com O Clube de Leitura Jane Austen, mas ningu\u00e9m se animou a publicar seus contos brilhantes, premiad\u00edssimos, onde o protagonismo feminino \u00e9 colocado sem arrog\u00e2ncia nem coitadismo; e o romance Sarah Canary, sobre uma mulher alien\u00edgena (embora o livro nunca diga isto) que aparece na regi\u00e3o rural dos EUA por volta de 1880. Vi poucas pessoas falarem sobre literatura com mais propriedade e finesse.<\/p>\n<p>15. Rachel de Queiroz. Meu pai tinha um volume dela, da Jos\u00e9 Olympio, com o t\u00edtulo Tr\u00eas Romances, que inclu\u00eda O Quinze, Caminho das Pedras e Jo\u00e3o Miguel. Nunca me saiu da cabe\u00e7a a linha inicial deste \u00faltimo, algo como \u201cJo\u00e3o Miguel sentiu a peixeira rasgando a barriga do outro homem, depois puxou a arma, jogou longe, saiu correndo\u201d. N\u00e3o conhe\u00e7o melhor exemplo de in\u00edcio de narrativa in media res. Meio s\u00e9culo depois, coloquei o conto de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica dela, \u201cMa H\u00f4re\u201d, na minha antologia P\u00e1ginas do Futuro \u2013 Contos Brasileiro<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tem circulado no Facebook uma esp\u00e9cie de corrente (que me foi repassada) pedindo que a gente cite 15 autores que nos marcaram.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-1656","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-qI","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1656","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1656"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1656\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1658,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1656\/revisions\/1658"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1656"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1656"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1656"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}