{"id":16603,"date":"2018-02-16T09:38:44","date_gmt":"2018-02-16T13:38:44","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=16603"},"modified":"2018-02-16T09:38:44","modified_gmt":"2018-02-16T13:38:44","slug":"pedro-casaldaliga-90-anos-de-vida-50-do-bispo-do-povo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2018\/02\/16\/pedro-casaldaliga-90-anos-de-vida-50-do-bispo-do-povo\/","title":{"rendered":"Pedro Casald\u00e1liga: 90 anos de vida, 50 do \u201cbispo do povo\u201d"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"16604\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2018\/02\/16\/pedro-casaldaliga-90-anos-de-vida-50-do-bispo-do-povo\/casal\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/casal.jpg?fit=1960%2C1251\" data-orig-size=\"1960,1251\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"casal\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/casal.jpg?fit=300%2C191\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/casal.jpg?fit=600%2C383\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/casal.jpg?resize=600%2C383\" alt=\"casal\" width=\"600\" height=\"383\" class=\"alignnone size-full wp-image-16604\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/casal.jpg?w=1960 1960w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/casal.jpg?resize=300%2C191 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/casal.jpg?resize=768%2C490 768w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/casal.jpg?resize=1024%2C654 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/casal.jpg?resize=470%2C300 470w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/casal.jpg?w=1200 1200w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/casal.jpg?w=1800 1800w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p>T\u00e3o mistificado por sua luta pelos pobres brasileiros como prisioneiro do \u201cirm\u00e3o Parkinson\u201d, o espanhol mais admirado do mundo cat\u00f3lico vive recluso em Mato Grosso<!--more--><\/p>\n<p>No El Pa\u00eds, por TOM C. AVENDA\u00d1O &#8211; A \u00faltima vez que Pedro Casald\u00e1liga, o bispo do povo segundo seus numerosos partid\u00e1rios e o bispo vermelho para seus c\u00e1usticos inimigos, apareceu diante de uma multid\u00e3o poucos esperavam v\u00ea-lo. Era julho de 2016 e n\u00e3o estava claro se dessa vez o religioso claretiano, de 88 anos, iria participar da Romaria dos M\u00e1rtires da Caminhada, um evento quinquenal que ele criou em 1986, quando era bispo desta regi\u00e3o selv\u00e1tica do Estado de Mato Grosso. A Romaria \u00e9 realizada a 268 quil\u00f4metros de S\u00e3o F\u00e9lix do Araguaia, o munic\u00edpio onde ele vive, e n\u00e3o se sabia se aguentaria os inc\u00f4modos de tamanha viagem. Mas havia aceitado a contragosto ir de avi\u00e3o, e n\u00e3o de \u00f4nibus, como at\u00e9 ent\u00e3o costumava viajar pelo pa\u00eds (para ir, segundo suas palavras, &#8220;\u00e0 altura do povo&#8221;), de modo que a\u00ed estava esse catal\u00e3o, discretamente disposto a ver a cerim\u00f4nia de inaugura\u00e7\u00e3o. Banhado em aplausos e flashes de celulares, o morador espanhol mais c\u00e9lebre do Brasil n\u00e3o disse uma palavra. Em parte, pode-se imaginar, porque n\u00e3o tinha ido dar uma homilia; em parte, pelos estragos que foi causando em suas habilidades motoras o que ele chama de &#8220;o irm\u00e3o Parkinson&#8221;. Vendo-o, fr\u00e1gil, calado, prostrado em sua cadeira de rodas, qualquer coisa que tivesse dito teria soado como uma despedida.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, o mundo soube pouco dele, como ele do mundo. &#8220;A pol\u00edtica local, a estatal ou a nacional, ele j\u00e1 n\u00e3o acompanha muito&#8221;, admite por telefone o padre Ivo, um dos quatro agostinianos que se organizam para atender nas 24 horas do dia o bispo em\u00e9rito em sua casa de S\u00e3o F\u00e9lix do Araguaia. Mant\u00eam-no em forma com a rotina: cuidados f\u00edsicos pela manh\u00e3 e leitura do correio \u2013eletr\u00f4nico ou tradicional\u2013 pela tarde. &#8220;N\u00e3o responde todas as mensagens porque j\u00e1 lhe custa muito falar, mas as pessoas as mandam, cheias de carinho, sem esperar uma resposta. S\u00e3o quase como uma defer\u00eancia&#8221;, acrescenta Ivo.<\/p>\n<p>Assim, meio custodiado e meio mistificado, faz anivers\u00e1rio esta semana um dos homens espanh\u00f3is mais admirados do mundo cat\u00f3lico. Em sua casa de sempre em S\u00e3o F\u00e9lix do Araguaia, um munic\u00edpio de pouco mais de 10.500 habitantes ao qual s\u00f3 se chega depois de 16 horas de estrada de terra desde o aeroporto mais pr\u00f3ximo, o de Cuiab\u00e1, capital do Mato Grosso. Aqui se encontra este sacerdote de Montju\u00efc desde que chegou ao Brasil como mission\u00e1rio em 1968, fugindo de uma Espanha congelada pelo franquismo. Em 1971 foi nomeado primeiro bispo da diocese e converteu sua casa, pequena, rural e pobre, na sede.<\/p>\n<p>Foi entre essas quatro paredes que Casald\u00e1liga come\u00e7ou a dar mostras de sua espetacular ades\u00e3o aos ensinamentos do Evangelho, sobretudo o de se identificar com os mais desfavorecidos. E neste lado do Brasil selv\u00e1tico os mais desfavorecidos s\u00e3o centenas de milhares de camponeses sem-terra, pobres, analfabetos e oprimidos por coron\u00e9is e pol\u00edticos. Assim, ele rezava missa para os moradores no quintal de sua casa, entre as galinhas, e \u00e0 noite, deixava sua porta principal aberta para o caso de algu\u00e9m sem casa precisar usar uma cama que sempre estava dispon\u00edvel. Andava de jeans e chinelos e tinha duas mudas de cada roupa. Quando tinha que se reunir com o Episcopado em Bras\u00edlia, ia de \u00f4nibus, em uma viagem de tr\u00eas dias, porque era o meio de transporte de sua gente. Seu lema era inegoci\u00e1vel: &#8220;Nada possuir, nada carregar, nada pedir, nada calar e, sobretudo, nada matar&#8221;.<\/p>\n<p>Anos depois se lembraria de como no in\u00edcio, em sua diocese, &#8220;faltava tudo: em sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, administra\u00e7\u00e3o e justi\u00e7a; faltava, sobretudo, no povo a consci\u00eancia dos pr\u00f3prios direitos e a coragem e a possibilidade de reclamar&#8221;. Decidiu que esse era o caminho a seguir. Construiu escolas, ambulat\u00f3rios e se colocou ao lado dos camponeses sem-terra. Foi acusado repetidas vezes de interessar-se demais pelos problemas &#8220;materiais&#8221; dos pobres. Ele respondia que n\u00e3o concebia &#8220;a dicotomia entre evangeliza\u00e7\u00e3o e promo\u00e7\u00e3o humana&#8221;.<\/p>\n<p>Essas ideias progressistas lhe renderam seguidores que o cultuavam nas ruas e um \u00f3dio desenfreado em v\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es. Ele se posicionou em favor dos ind\u00edgenas da Amaz\u00f4nia, que para os interessados em se enriquecer eram os mais f\u00e1ceis de expulsar de cada territ\u00f3rio: aliou-se aos xavante de Mar\u00e3iwats\u00e9d\u00e9 para retirar grandes produtores rurais de suas \u00e1reas e aos tapirap\u00e9 e os caraj\u00e1, e isto o levou a se confrontar com os latifundi\u00e1rios e as multinacionais e a ditadura militar. Viu como pistoleiros matavam seus companheiros \u2013a conclus\u00e3o habitual dos conflitos nesta regi\u00e3o\u2013 e ele mesmo teve que viver escondido em um m\u00eas de 2012 por amea\u00e7as de morte. Rejeitou andar com escolta: &#8220;Eu a aceitarei quando for oferecida tamb\u00e9m a todos os camponeses de minha diocese amea\u00e7ados de morte como eu&#8221;, disse.<\/p>\n<p>O Vaticano o convocou em 1988 para que desse explica\u00e7\u00f5es por tanta proximidade da teologia da liberta\u00e7\u00e3o e para que visitasse o Papa Jo\u00e3o Paulo II, como deveria ter feito uma vez a cada cinco anos, segundo o C\u00f3digo do Direito Can\u00f4nico. Apresentou-se em camisa, sem anel e com um colar ind\u00edgena no pesco\u00e7o. Esclareceu ao Pont\u00edfice: &#8220;Estou disposto a dar minha vida por [S\u00e3o] Pedro [fundador da Igreja Cat\u00f3lica], mas pelo Vaticano \u00e9 outra coisa&#8221;. Ao sair do encontro, fez um resumo \u00e0 imprensa: &#8220;Me escutou e n\u00e3o me deu uma reprimenda. Poderia ter feito isso, como n\u00f3s podemos tamb\u00e9m fazer com ele&#8221;. E ponderou: &#8220;O Esp\u00edrito Santo tem duas asas e a Igreja gosta mais de cortar a da esquerda&#8221;.<\/p>\n<p>Em 2003, Casald\u00e1liga completou 75 anos, idade a partir da qual um bispo pode se aposentar. O Vaticano o substituiu de imediato. &#8220;Se o bispo que me suceder desejar seguir nosso trabalho de entrega aos mais pobres, eu poderia ficar com ele como sacerdote; do contr\u00e1rio, procurarei outro lugar onde possa terminar meus dias ao lado dos mais esquecidos&#8221;, insistiu ent\u00e3o. Se a pressa se devia a que fora f\u00e1cil encontrar um substituto, n\u00e3o deram nenhuma indica\u00e7\u00e3o disso. N\u00e3o voltaram a se manifestar at\u00e9 janeiro de 2005, quando anunciaram que j\u00e1 tinham substituto e que Casald\u00e1liga deveria abandonar a diocese. Ele se negou e ficou trabalhando, com seu substituto e depois com o seguinte.<\/p>\n<p>Pedro Casald\u00e1liga faz 90 anos na casa de sempre e no munic\u00edpio de sempre, mas o restante n\u00e3o \u00e9 o de sempre. A regi\u00e3o do Araguaia se transformou, entre esc\u00e2ndalos pol\u00edticos, em uma das principais \u00e1reas de planta\u00e7\u00f5es de soja do Mato Grosso: ou seja, parte das terras dos ind\u00edgenas e dos camponeses est\u00e1 nas m\u00e3os das grandes produtores agr\u00edcolas e de seus produtos qu\u00edmicos. Talvez n\u00e3o se possa fazer nada contra isso. Casald\u00e1liga perdeu essa batalha. Mas quando uma pessoa dedicou sua vida inteira \u00e0 luta, ganhar ou perder \u00e9 secund\u00e1rio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>T\u00e3o mistificado por sua luta pelos pobres brasileiros como prisioneiro do \u201cirm\u00e3o Parkinson\u201d, o espanhol mais admirado do mundo cat\u00f3lico vive recluso em Mato Grosso<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-16603","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-4jN","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16603","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16603"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16603\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16605,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16603\/revisions\/16605"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16603"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16603"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16603"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}