{"id":16679,"date":"2018-02-21T11:54:02","date_gmt":"2018-02-21T15:54:02","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=16679"},"modified":"2018-02-21T11:54:02","modified_gmt":"2018-02-21T15:54:02","slug":"fingi-ser-gari-por-8-anos-e-vivi-como-um-ser-invisivel","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2018\/02\/21\/fingi-ser-gari-por-8-anos-e-vivi-como-um-ser-invisivel\/","title":{"rendered":"&#8220;Fingi ser gari por 8 anos e vivi como um ser invis\u00edvel&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"16680\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2018\/02\/21\/fingi-ser-gari-por-8-anos-e-vivi-como-um-ser-invisivel\/fingi\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/fingi.jpg?fit=600%2C400\" data-orig-size=\"600,400\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"fingi\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/fingi.jpg?fit=300%2C200\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/fingi.jpg?fit=600%2C400\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/fingi.jpg?resize=600%2C400\" alt=\"fingi\" width=\"600\" height=\"400\" class=\"alignnone size-full wp-image-16680\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/fingi.jpg?w=600 600w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/fingi.jpg?resize=300%2C200 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/fingi.jpg?resize=450%2C300 450w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p>Psic\u00f3logo varreu as ruas da USP para concluir sua tese de mestrado da<br \/>\n&#8216;invisibilidade p\u00fablica&#8217;. Ele comprovou que, em geral, as pessoas<br \/>\nenxergam apenas a fun\u00e7\u00e3o social do outro. Quem n\u00e3o est\u00e1 bem posicionado<br \/>\nsob esse crit\u00e9rio, vira mera sombra social. <!--more--><\/p>\n<p>Pl\u00ednio Delphino, Di\u00e1rio de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>O psic\u00f3logo social Fernando Braga da Costa vestiu uniforme e trabalhou<br \/>\noito anos como gari, varrendo ruas da Universidade de S\u00e3o Paulo. Ali,<br \/>\nconstatou que, ao olhar da maioria, os trabalhadores bra\u00e7ais s\u00e3o &#8216;seres<br \/>\ninvis\u00edveis, sem nome&#8217;. Em sua tese de mestrado, pela USP, conseguiu<br \/>\ncomprovar a exist\u00eancia da &#8216;invisibilidade p\u00fablica&#8217;, ou seja, uma<br \/>\npercep\u00e7\u00e3o humana totalmente prejudicada e condicionada \u00e0 divis\u00e3o<br \/>\nsocial do trabalho, onde enxerga-se somente a fun\u00e7\u00e3o e n\u00e3o a pessoa.<br \/>\nBraga trabalhava apenas meio per\u00edodo como gari, n\u00e3o recebia o sal\u00e1rio de<br \/>\nR$ 400 como os colegas de vassoura, mas garante que teve a maior li\u00e7\u00e3o<br \/>\nde sua vida:<\/p>\n<p>&#8216;Descobri que um simples bom dia, que nunca recebi como gari, pode<br \/>\nsignificar um sopro de vida, um sinal da pr\u00f3pria exist\u00eancia&#8217;, explica o<br \/>\npesquisador.<\/p>\n<p>O psic\u00f3logo sentiu na pele o que \u00e9 ser tratado como um objeto e n\u00e3o<br \/>\ncomo um ser humano. &#8216;Professores que me abra\u00e7avam nos corredores da USP<br \/>\npassavam por mim, n\u00e3o me reconheciam por causa do uniforme. \u00c0s vezes,<br \/>\nesbarravam no meu ombro e, sem ao menos pedir desculpas, seguiam me<br \/>\nignorando, como se tivessem encostado em um poste, ou em um orelh\u00e3o&#8217;,<br \/>\ndiz.<br \/>\nNo primeiro dia de trabalho paramos pro caf\u00e9. Eles colocaram uma<br \/>\ngarrafa t\u00e9rmica sobre uma plataforma de concreto. S\u00f3 que n\u00e3o tinha<br \/>\ncaneca. Havia um clima estranho no ar, eu era um sujeito vindo de outra<br \/>\nclasse, varrendo rua com eles. Os garis mal conversavam comigo, alguns<br \/>\nse aproximavam para ensinar o servi\u00e7o. Um deles foi at\u00e9 o lat\u00e3o de lixo<br \/>\npegou duas latinhas de refrigerante cortou as latinhas pela metade e<br \/>\nserviu o caf\u00e9 ali, na latinha suja e grudenta. E como a gente estava num<br \/>\ngrupo grande, esperei que eles se servissem primeiro. Eu nunca apreciei<br \/>\no sabor do caf\u00e9. Mas, intuitivamente, senti que deveria tom\u00e1-lo, e<br \/>\nclaro, n\u00e3o livre de sensa\u00e7\u00f5es ruins. Afinal, o cara tirou as latinhas de<br \/>\nrefrigerante de dentro de uma lixeira, que tem sujeira, tem formiga, tem<br \/>\nbarata, tem de tudo. No momento em que empunhei a caneca improvisada,<br \/>\nparece que todo mundo parou para assistir \u00e0 cena, como se perguntasse:<br \/>\n&#8216;E a\u00ed, o jovem rico vai se sujeitar a beber nessa caneca?&#8217; E eu bebi.<br \/>\nImediatamente a ansiedade parece que evaporou. Eles passaram a conversar<br \/>\ncomigo, a contar piada, brincar.<\/p>\n<p>O que voc\u00ea sentiu na pele, trabalhando como gari?<br \/>\nUma vez, um dos garis me convidou pra almo\u00e7ar no bandej\u00e3o central. A\u00ed<br \/>\neu entrei no Instituto de Psicologia para pegar dinheiro, passei pelo<br \/>\nandar t\u00e9rreo, subi escada, passei pelo segundo andar, passei na<br \/>\nbiblioteca, desci a escada, passei em frente ao centro acad\u00eamico, passei<br \/>\nem frente a lanchonete, tinha muita gente conhecida. Eu fiz todo esse<br \/>\ntrajeto e ningu\u00e9m em absoluto me viu. Eu tive uma sensa\u00e7\u00e3o muito ruim. O<br \/>\nmeu corpo tremia como se eu n\u00e3o o dominasse, uma angustia, e a tampa da<br \/>\ncabe\u00e7a era como se ardesse, como se eu tivesse sido sugado. Fui almo\u00e7ar,<br \/>\nn\u00e3o senti o gosto da comida e voltei para o trabalho atordoado.<\/p>\n<p>E depois de oito anos trabalhando como gari? Isso mudou?<br \/>\nFui me habituando a isso, assim como eles v\u00e3o se habituando tamb\u00e9m a<br \/>\nsitua\u00e7\u00f5es pouco saud\u00e1veis. Ent\u00e3o, quando eu via um professor se<br \/>\naproximando &#8211; professor meu &#8211; at\u00e9 parava de varrer, porque ele ia passar<br \/>\npor mim, podia trocar uma id\u00e9ia, mas o pessoal passava como se tivesse<br \/>\npassando por um poste, uma \u00e1rvore, um orelh\u00e3o.<\/p>\n<p>E quando voc\u00ea volta para casa, para seu mundo real?<br \/>\nEu choro. \u00c9 muito triste, porque, a partir do instante em que voc\u00ea est\u00e1<br \/>\ninserido nessa condi\u00e7\u00e3o psicossocial, n\u00e3o se esquece jamais.<br \/>\nAcredito que essa experi\u00eancia me deixou curado da minha doen\u00e7a burguesa.<\/p>\n<p>Esses homens hoje s\u00e3o meus amigos. Conhe\u00e7o a fam\u00edlia deles, freq\u00fcento a casa<br \/>\ndeles nas periferias. Mudei. Nunca deixo de cumprimentar um trabalhador.<br \/>\nFa\u00e7o quest\u00e3o de o trabalhador saber que eu sei que ele existe. <\/p>\n<p>Eles s\u00e3o tratados pior do que um animal dom\u00e9stico, que sempre \u00e9 chamado pelo<br \/>\nnome. <\/p>\n<p>S\u00e3o tratados como se fossem uma &#8216;COISA&#8217;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Psic\u00f3logo varreu as ruas da USP para concluir sua tese de mestrado da &#8216;invisibilidade p\u00fablica&#8217;. Ele comprovou que, em geral, as pessoas enxergam apenas a fun\u00e7\u00e3o social do outro. 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