{"id":16930,"date":"2018-03-07T11:22:12","date_gmt":"2018-03-07T15:22:12","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=16930"},"modified":"2018-03-07T11:22:12","modified_gmt":"2018-03-07T15:22:12","slug":"o-problema-do-brasil-e-o-odio-ao-pobre-hegemonia-das-ideias-arcaicas-e-conservadoras","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2018\/03\/07\/o-problema-do-brasil-e-o-odio-ao-pobre-hegemonia-das-ideias-arcaicas-e-conservadoras\/","title":{"rendered":"O problema do Brasil \u00e9 o \u00f3dio ao pobre &#8211; HEGEMONIA DAS IDEIAS ARCAICAS E CONSERVADORAS"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"16932\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2018\/03\/07\/o-problema-do-brasil-e-o-odio-ao-pobre-hegemonia-das-ideias-arcaicas-e-conservadoras\/odio_aos_pobres\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/ODIO_AOS_POBRES.jpg?fit=1000%2C482\" data-orig-size=\"1000,482\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;1503965558&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;1&quot;}\" data-image-title=\"ODIO_AOS_POBRES\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/ODIO_AOS_POBRES.jpg?fit=300%2C145\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/ODIO_AOS_POBRES.jpg?fit=600%2C289\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/ODIO_AOS_POBRES.jpg?resize=600%2C289\" alt=\"ODIO_AOS_POBRES\" width=\"600\" height=\"289\" class=\"alignnone size-full wp-image-16932\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/ODIO_AOS_POBRES.jpg?w=1000 1000w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/ODIO_AOS_POBRES.jpg?resize=300%2C145 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/ODIO_AOS_POBRES.jpg?resize=768%2C370 768w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/ODIO_AOS_POBRES.jpg?resize=622%2C300 622w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p>Este artigo \u00e9 o resumo parcial de um fio condutor que percorre meu \u00faltimo livro, lan\u00e7ado em setembro pela editora Leya com o t\u00edtulo A elite do atraso: da escravid\u00e3o \u00e0 Lava Jato. <!--more--><\/p>\n<p>Le Monde Diplomatique, por Jess\u00e9 Sousa &#8211; Na publica\u00e7\u00e3o, busco enfrentar o desafio ambicioso de formular uma g\u00eanese hist\u00f3rica alternativa \u00e0 narrativa hoje dominante, seja na direita, seja na esquerda do espectro pol\u00edtico, da sociedade brasileira contempor\u00e2nea. Como j\u00e1 defendi em outras obras,1 minha tese \u00e9 a de que o liberalismo conservador \u00e9 a narrativa oficial do Brasil moderno, inclusive para a esquerda colonizada intelectualmente pela direita. Os pais fundadores dessa leitura s\u00e3o S\u00e9rgio Buarque e Raymundo Faoro. A partir da entroniza\u00e7\u00e3o desses autores como refer\u00eancia universit\u00e1ria para a forma\u00e7\u00e3o de todas as elites e, como consequ\u00eancia dessa consagra\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m de tudo que a grande imprensa diz sobre o pa\u00eds, passa a existir um grande consenso inarticulado e pr\u00e9-reflexivo que contamina praticamente tudo que se formule sobre o pa\u00eds no n\u00edvel mais expl\u00edcito dos argumentos.<\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio quebrar a hegemonia dessas ideias arcaicas e conservadoras para que a teoria e a pr\u00e1tica pol\u00edtica brasileira possam mudar de modo efetivo. A histeria acerca da corrup\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, por exemplo, identificada pela popula\u00e7\u00e3o e pela imprensa como o maior problema nacional, adv\u00e9m do dom\u00ednio dessas ideias. A identifica\u00e7\u00e3o de uma suposta elite todo-poderosa no Estado, e n\u00e3o no mercado, suprema tolice que possibilita a virtual invisibilidade da a\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria dos oligop\u00f3lios e da intermedia\u00e7\u00e3o financeira, tamb\u00e9m \u00e9 fruto dessa hegemonia. De resto, toda a cantilena da corrup\u00e7\u00e3o como heran\u00e7a cultural portuguesa, do advento de um patrimonialismo pr\u00e9-moderno cujo racismo impl\u00edcito j\u00e1 critiquei,2 serve para que supostas \u201cheran\u00e7as culturais\u201d pensadas como \u201cheran\u00e7as de sangue\u201d fiquem no lugar de uma an\u00e1lise cient\u00edfica dos conflitos sociais e da g\u00eanese da desigualdade social. A tese dominante do patrimonialismo, como leitura hegem\u00f4nica sobre a sociedade brasileira, foi a respons\u00e1vel por tomar a corrup\u00e7\u00e3o pol\u00edtica como aspecto central e a desigualdade social como quest\u00e3o secund\u00e1ria. \u00c9 essa invers\u00e3o absurda de perspectiva e de prioridade que o livro pretende corrigir.<\/p>\n<p>Essa tese do patrimonialismo ocupa o lugar da centralidade da escravid\u00e3o entre n\u00f3s e representa uma estrat\u00e9gia de tornar invis\u00edvel a pr\u00f3pria heran\u00e7a desta. Embora no livro eu reconstrua a escravid\u00e3o e seus efeitos desde o Brasil Col\u00f4nia, aqui a limita\u00e7\u00e3o de espa\u00e7o me obriga a inquirir acerca de sua fei\u00e7\u00e3o mais moderna. Como se constr\u00f3i, no s\u00e9culo XX, uma sociedade que reproduz todas as iniquidades do \u00f3dio, humilha\u00e7\u00e3o e desprezo contra os mais fr\u00e1geis que caracterizam a escravid\u00e3o?<\/p>\n<p>Minha tese \u00e9 que isso foi realizado como programa pol\u00edtico conduzido conscientemente pela elite econ\u00f4mica, em primeiro lugar a elite paulistana, como forma de assegurar para si a condu\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica da sociedade e limitar a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos setores populares mesmo em um contexto de sufr\u00e1gio universal. A ast\u00facia da elite foi perceber, j\u00e1 no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, quando uma classe m\u00e9dia come\u00e7a a despontar de modo incipiente nas grandes cidades brasileiras, que, se os pobres poderiam ser oprimidos pelo cassetete e pelo fuzil dos policiais, a classe m\u00e9dia exigia uma estrat\u00e9gia alternativa. Ao contr\u00e1rio da viol\u00eancia material, aplicada indiscriminadamente contra os pobres, contra a classe m\u00e9dia a viol\u00eancia teria de ser \u201csimb\u00f3lica\u201d para produzir coopta\u00e7\u00e3o e \u201cconvencimento\u201d.<\/p>\n<p>A perda do poder pol\u00edtico para Get\u00falio Vargas vai ser o ponto de inflex\u00e3o dessa estrat\u00e9gia. Nesse momento, a elite econ\u00f4mica paulistana vai procurar se utilizar de seu \u201cpoder material\u201d para construir as bases do seu \u201cpoder simb\u00f3lico\u201d. A ideia-guia foi construir uma hegemonia ideol\u00f3gica como forma tanto de reconquistar o poder pol\u00edtico como de limitar o poder dos eventuais inimigos de classe al\u00e7ados ao controle do Estado.<\/p>\n<p>A classe m\u00e9dia n\u00e3o \u00e9 uma classe necessariamente conservadora. Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 uma classe homog\u00eanea. O Movimento Tenentista, conhecido como o primeiro movimento pol\u00edtico comandado pelos \u201csetores m\u00e9dios\u201d no Brasil, revela bem essas caracter\u00edsticas. Ainda que tenha sido protagonizado por oficiais militares de baixa e m\u00e9dia patente (da\u00ed o nome \u201ctenentismo\u201d) a partir dos anos 1920, o movimento refletia j\u00e1 a nova sociedade mais urbana e moderna que se criava. A parte rebelde da institui\u00e7\u00e3o militar era uma express\u00e3o desses novos anseios.<\/p>\n<p>A oposi\u00e7\u00e3o ao pacto conservador da Rep\u00fablica Velha, com suas elei\u00e7\u00f5es fraudadas e restritas, era o ponto de uni\u00e3o entre os tenentistas. Dentro do movimento, no entanto, conviviam desde as demandas liberais por voto secreto e por maior liberdade de imprensa at\u00e9 o desejo de um Estado forte como meio de se contrapor ao mandonismo rural. Parte do grupo se radicalizou politicamente na Coluna Prestes, cujo l\u00edder, Carlos Prestes, seria o fundador do partido comunista brasileiro. Parte do grupo se alinhou desde a Revolu\u00e7\u00e3o de 1930 com Get\u00falio Vargas, enquanto outra parte exerceu ferrenha oposi\u00e7\u00e3o a ele todo o tempo. O nosso primeiro movimento pol\u00edtico com claro suporte e apoio da classe m\u00e9dia j\u00e1 mostra a extraordin\u00e1ria multiplicidade de posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que essa classe pode abrigar.<\/p>\n<p>Quando S\u00e9rgio Buarque elegia o \u201cpatrimonialismo\u201d das elites que habitam o Estado como o grande problema nacional, ele n\u00e3o estava dando vida, portanto, a nenhum sentimento novo. A \u201ccorrup\u00e7\u00e3o do Estado\u201d era uma das bandeiras centrais do tenentismo. Poder-se-ia, por exemplo, perceber a corrup\u00e7\u00e3o do Estado como efeito da captura deste pela pr\u00f3pria elite econ\u00f4mica que o usa para defender e aprofundar seus privil\u00e9gios. Isso teria levado a uma conscientiza\u00e7\u00e3o coletiva dos desmandos de uma elite apenas interessada na perpetua\u00e7\u00e3o de seus privil\u00e9gios.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi essa a interpreta\u00e7\u00e3o que prevaleceu. A elite do dinheiro paulista, que havia perdido o poder pol\u00edtico, ainda que mantido o econ\u00f4mico, agiu de modo astucioso, calculado e planejado. Percebeu claramente os sinais do novo tempo. A trucul\u00eancia do \u201cvoto de cabresto\u201d estava com os dias contados. No lugar da \u201cviol\u00eancia f\u00edsica\u201d deveria entrar a \u201cviol\u00eancia simb\u00f3lica\u201d como meio de garantir a sobreviv\u00eancia e a longevidade dos propriet\u00e1rios e seus privil\u00e9gios.<\/p>\n<p>Com o Estado na m\u00e3o dos inimigos, a elite do dinheiro paulistana descobre a \u201cesfera p\u00fablica\u201d como arma. Se n\u00e3o se controla mais a sociedade com a farsa eleitoral acompanhada da trucul\u00eancia e da viol\u00eancia f\u00edsica, a nova forma de controle olig\u00e1rquico tem de assumir novas vestes para se preservar. O dom\u00ednio da \u201copini\u00e3o p\u00fablica\u201d parece ser a arma adequada contra inimigos tamb\u00e9m poderosos. O que estava em jogo aqui era a captura agora intelectual e simb\u00f3lica da classe m\u00e9dia letrada pela elite do dinheiro, formando a \u201calian\u00e7a de classe dominante\u201d que marcaria o Brasil da\u00ed em diante.<\/p>\n<p>Como se construiu esse projeto no alvorecer do s\u00e9culo XX?<\/p>\n<p>A USP, a universidade do estado de S\u00e3o Paulo, foi criada por essa mesma elite desbancada do poder pol\u00edtico e pensada como a base simb\u00f3lica, uma esp\u00e9cie de think tank gigantesco do liberalismo brasileiro a partir de ent\u00e3o, desse projeto bem urdido de contrapor a for\u00e7a das ideias generalizadas na sociedade contra o poder estatal, desde que este seja ocupado pelo inimigo pol\u00edtico, \u00e0 \u00e9poca representado por Get\u00falio Vargas.<\/p>\n<p>S\u00e9rgio Buarque \u00e9 menos o criador e mais o sistematizador mais convincente do moralismo \u201cvira-lata\u201d que ir\u00e1 valer, a partir de ent\u00e3o, como vers\u00e3o oficial pseudocr\u00edtica do pa\u00eds acerca de si mesmo. Como o \u201cEstado corrupto\u201d passa a ser identificado como o mal maior da na\u00e7\u00e3o, a elite do dinheiro ganha uma esp\u00e9cie de \u201ccarta na manga\u201d que pode ser usada sempre que a \u201csoberania popular\u201d ponha no governo, inadvertidamente, algu\u00e9m contr\u00e1rio aos interesses do poder econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>Com base nesse eixo intelectual eivado de prest\u00edgio, essa concep\u00e7\u00e3o se torna dominante no pa\u00eds inteiro. Toda a vida intelectual e letrada vai respirar os novos ares. Isso n\u00e3o significa obviamente dizer que a USP n\u00e3o tenha produzido coisa distinta do liberalismo conservador das elites. Florestan Fernandes e sua aten\u00e7\u00e3o aos conflitos sociais realmente fundamentais provam o contr\u00e1rio. Existe uma tradi\u00e7\u00e3o nesse sentido tamb\u00e9m por l\u00e1. Mas essa tend\u00eancia \u00e9 menos poderosa que a vers\u00e3o dominante, posto que sem a network com as editoras, as ag\u00eancias de financiamento, a grande imprensa e seus mecanismos de consagra\u00e7\u00e3o; al\u00e9m de ela pr\u00f3pria ter assimilado aspectos importantes da tradi\u00e7\u00e3o conservadora elitista como a aceita\u00e7\u00e3o impl\u00edcita ou expl\u00edcita da tese do patrimonialismo.<\/p>\n<p>Desde essa \u00e9poca o \u201cliberalismo conservador\u201d, baseado no falso moralismo da \u201chigiene moral\u201d da na\u00e7\u00e3o, vai ser a pedra de toque da arregimenta\u00e7\u00e3o da classe m\u00e9dia. Isso n\u00e3o significa dizer que o moralismo n\u00e3o tenha eco tamb\u00e9m nas outras classes. Em alguma medida esse discurso nos toca a todos. Mas na classe m\u00e9dia ele est\u00e1 em \u201ccasa\u201d. \u00c9 que as classes sociais est\u00e3o sempre disputando n\u00e3o apenas bens materiais e sal\u00e1rios, mas tamb\u00e9m prest\u00edgio e reconhecimento, ou em uma palavra: legitima\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio comportamento e da pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p>As classes superiores, que monopolizam capital econ\u00f4mico e cultural, t\u00eam de justificar, portanto, seus privil\u00e9gios. O capital econ\u00f4mico se legitima com o \u201cempreendedorismo\u201d de quem \u201cd\u00e1 emprego\u201d e ergue imp\u00e9rios, e com o suposto bom gosto inato de seu estilo de vida, como se a posse do dinheiro fosse mero detalhe sem import\u00e2ncia.<\/p>\n<p>A legitima\u00e7\u00e3o dos privil\u00e9gios da classe m\u00e9dia \u00e9 distinta. Como seu privil\u00e9gio \u00e9 invis\u00edvel pela reprodu\u00e7\u00e3o da socializa\u00e7\u00e3o familiar que esconde seu trabalho pr\u00e9vio de \u201cformar vencedores\u201d, ela \u00e9 a classe por excel\u00eancia da meritocracia e da superioridade moral. Estas servem para distingui-la e para justificar seus privil\u00e9gios em rela\u00e7\u00e3o tanto aos pobres como aos ricos. \u00c9 que, se os pobres s\u00e3o desprezados, os ricos s\u00e3o invejados. Existe uma ambiguidade nesse sentimento, em rela\u00e7\u00e3o aos ricos, que vincula admira\u00e7\u00e3o e ressentimento.<\/p>\n<p>A suposta superioridade moral da classe m\u00e9dia d\u00e1 \u00e0 sua clientela tudo aquilo que ela mais deseja: o sentimento de representar o melhor da sociedade. N\u00e3o s\u00f3 \u00e9 a classe que \u201cmerece\u201d o que tem por esfor\u00e7o pr\u00f3prio, conforto que a falsa ideia da meritocracia propicia, mas tamb\u00e9m a classe que tem algo que ningu\u00e9m tem, nem os ricos, que \u00e9 a certeza de sua \u201cperfei\u00e7\u00e3o moral\u201d.<\/p>\n<p>Como na imensa maioria dos casos n\u00e3o possui os meios para se envolver nas grandes negociatas que manipulam milh\u00f5es, a classe m\u00e9dia n\u00e3o tem sequer, na pr\u00e1tica, o dilema moral de se deixar ou n\u00e3o corromper. Como justifica\u00e7\u00e3o e legitima\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria vida, o esquema moralista \u00e9, portanto, perfeito. Em rela\u00e7\u00e3o aos poderosos, a classe m\u00e9dia pode se ver sempre como \u201cvirgem imaculada\u201d e moralmente perfeita.<\/p>\n<p>A elite do dinheiro soube muito bem aproveitar as necessidades de justifica\u00e7\u00e3o e de autojustifica\u00e7\u00e3o dos setores m\u00e9dios. \u201cComprou\u201d uma intelig\u00eancia para formular uma \u201cteoria liberal moralista\u201d feita com precis\u00e3o de alfaiate para as necessidades do p\u00fablico que queria arregimentar e controlar. Esse tipo de \u201ccompra\u201d da elite intelectual pela elite do dinheiro n\u00e3o se d\u00e1 apenas nem principalmente com dinheiro. S\u00e3o os \u201cmecanismos de consagra\u00e7\u00e3o\u201d de um autor e de uma ideia seguindo, aparentemente, todas as regras espec\u00edficas do campo cient\u00edfico.<\/p>\n<p>Mas a quem pertencem os jornais, as editoras e os bancos e empresas que financiam os pr\u00eamios cient\u00edficos? Desse modo, sem parecer \u201ccompra\u201d, o expediente \u00e9 muito mais bem-sucedido. Depois, usou sua posi\u00e7\u00e3o de propriet\u00e1ria dos meios de produ\u00e7\u00e3o material para se apropriar dos meios simb\u00f3licos de produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o da sociedade. \u00c9 aqui que entra a rela\u00e7\u00e3o que existe at\u00e9 hoje entre imprensa, universidade, editoras e capital econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>Todo o discurso elitista e conservador do liberalismo brasileiro est\u00e1 contido em duas no\u00e7\u00f5es que foram desenvolvidas na USP \u2013 a universidade criada pela elite antiestatal paulistana \u2013 e depois ganharam o Brasil: as ideias de \u201cpatrimonialismo\u201d e de \u201cpopulismo\u201d.<\/p>\n<p>Se o patrimonialismo torna invis\u00edvel a base real do poder social ao estigmatizar o Estado e seus ocupantes sempre que as elei\u00e7\u00f5es ponham algu\u00e9m n\u00e3o palat\u00e1vel pela elite da rapina econ\u00f4mica na disputa eleitoral, o populismo estigmatiza qualquer pretens\u00e3o popular.<\/p>\n<p>A no\u00e7\u00e3o de \u201cpopulismo\u201d, atrelada a qualquer pol\u00edtica de interesse dos mais pobres, serve para mitigar a import\u00e2ncia da soberania popular como crit\u00e9rio fundamental de qualquer sociedade democr\u00e1tica. Afinal, como os pobres, coitadinhos, n\u00e3o t\u00eam mesmo nenhuma consci\u00eancia pol\u00edtica, a soberania popular e sua validade podem ser sempre, em graus variados, postas em quest\u00e3o.<\/p>\n<p>O \u201cvoto inconsciente\u201d corromperia a validade do princ\u00edpio democr\u00e1tico por dentro. A prolifera\u00e7\u00e3o dessa ideia na \u201cesfera p\u00fablica\u201d por meio da sua \u201crespeitabilidade cient\u00edfica\u201d e depois pelo aparato legitimador midi\u00e1tico, que o repercute todos os dias de modos variados, \u00e9 impressionante. Os best-sellers da ci\u00eancia pol\u00edtica conservadora comprovam a efic\u00e1cia dessa balela.3<\/p>\n<p>As no\u00e7\u00f5es de patrimonialismo e de populismo, distribu\u00eddas em p\u00edlulas pelo veneno midi\u00e1tico diariamente, s\u00e3o as ideias-guia que permitem \u00e0 elite arregimentar a classe m\u00e9dia como sua \u201ctropa de choque\u201d sempre que necess\u00e1rio. Elas, afinal, s\u00e3o as guardi\u00e3s da \u201cdist\u00e2ncia social\u201d em rela\u00e7\u00e3o aos pobres, que \u00e9 a pedra de toque da alian\u00e7a antipopular constru\u00edda no Brasil para preservar o privil\u00e9gio, acesso aos capitais econ\u00f4mico e cultural, de 20% contra os 80% de exclu\u00eddos em alguma medida significativa.<\/p>\n<p>O segundo ponto da justifica\u00e7\u00e3o da classe m\u00e9dia para baixo, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s classes populares, \u00e9 o ponto mais interessante e que a transforma definitivamente na marionete perfeita da elite do dinheiro. A classe m\u00e9dia brasileira possui um \u00f3dio e um desprezo pelo \u201cpovo\u201d cevados secularmente. Essa \u00e9 talvez nossa maior heran\u00e7a intocada da escravid\u00e3o, nunca verdadeiramente compreendida e criticada entre n\u00f3s. Para que se possa odiar o pobre e humilh\u00e1-lo, tem-se de constru\u00ed-lo como culpado de sua pr\u00f3pria (falta de) sorte e ainda torn\u00e1-lo perigoso e amea\u00e7ador. Se poss\u00edvel, deve-se humilh\u00e1-lo, engan\u00e1-lo, desumaniz\u00e1-lo, maltrat\u00e1-lo e mat\u00e1-lo cotidianamente. Era isso que se fazia com o escravo e \u00e9 exatamente a mesma coisa que se faz com a \u201cral\u00e9 de novos escravos\u201d hoje em dia. Transformava-se o trabalho manual e produtivo em vergonha suprema, como \u201ccoisa de preto\u201d, e depois se espantava que o negro n\u00e3o enfrentasse o trabalho produtivo com a mesma naturalidade que os imigrantes estrangeiros, para quem o trabalho era s\u00edmbolo de dignidade. Dificultava-se de todas as formas a forma\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia escrava, e nos espantamos com as fam\u00edlias desestruturadas dos nossos exclu\u00eddos de hoje, mera continuidade de um ativismo perverso para desumanizar os escravos de ontem e de hoje.<\/p>\n<p>Os escravos foram sistematicamente enganados, compravam a alforria nas minas e eram escravizados novamente e vendidos para outras regi\u00f5es, eram brutalizados, assassinados covardemente. A matan\u00e7a continua tamb\u00e9m agora, com os novos escravos de todas as cores. O Brasil tem mais assassinatos \u2013 de pobres \u2013 que qualquer outro pa\u00eds do mundo. S\u00e3o 60 mil pobres assassinados por ano no Brasil. Existe uma guerra de classes hoje declarada e aberta. Construiu-se toda uma percep\u00e7\u00e3o negativa dos escravos e dos seus descendentes como feios, fedorentos, incapazes, perigosos e pregui\u00e7osos, isso tudo de forma ir\u00f4nica, povoando o cotidiano com ditos e piadas preconceituosas, e hoje muitos se comprazem em ver a profecia realizada. N\u00e3o se entende a mis\u00e9ria permanente e secular dos nossos exclu\u00eddos sociais sem esse ativismo social e pol\u00edtico covarde e perverso de nossas classes \u201csuperiores\u201d.<\/p>\n<p>O \u00f3dio secular \u00e0s classes populares parece-me a mais brasileira de todas as nossas singularidades sociais. Como os preconceitos s\u00e3o sociais, e n\u00e3o individuais, como somos inclinados a pensar, todas as classes superiores no Brasil partilham desse preconceito. Ainda que, mais uma vez, ele esteja verdadeiramente \u201cem casa\u201d na classe m\u00e9dia. Ainda que a classe m\u00e9dia seja muito heterog\u00eanea, toda ela, sem exce\u00e7\u00e3o, inclusive o autor que aqui escreve, \u00e9 portadora em maior ou menor grau desse tipo de preconceito. De alguma maneira \u201cnascemos\u201d com ele, o introjetamos e o incorporamos, seja de modo inconsciente e pr\u00e9-reflexivo, seja de modo refletido e consciente, como \u00f3dio aberto. Mesmo quem critica os preconceitos os t\u00eam dentro de si, como qualquer outra pessoa criada no mesmo ambiente social. O que nos diferencia \u00e9 a vigil\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o a eles e a tentativa de critic\u00e1-los de modo refletido em alguns, e n\u00e3o em outros. Mas todos n\u00f3s somos suas v\u00edtimas.<\/p>\n<p>*Jess\u00e9 Souza \u00e9 soci\u00f3logo e autor, entre outros livros, de A elite do atraso: da escravid\u00e3o \u00e0 Lava Jato (Leya, 2017), lan\u00e7ado em setembro e do qual este artigo foi extra\u00eddo.<br \/>\n[Publicado na edi\u00e7\u00e3o 122 do Le Monde Diplomatique Brasil \u2013 setembro 2017]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este artigo \u00e9 o resumo parcial de um fio condutor que percorre meu \u00faltimo livro, lan\u00e7ado em setembro pela editora Leya com o t\u00edtulo A elite do atraso: da escravid\u00e3o \u00e0 Lava Jato.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-16930","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-4p4","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16930","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16930"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16930\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16933,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16930\/revisions\/16933"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16930"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16930"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16930"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}