{"id":18360,"date":"2018-06-07T09:59:59","date_gmt":"2018-06-07T13:59:59","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=18360"},"modified":"2018-06-07T09:59:59","modified_gmt":"2018-06-07T13:59:59","slug":"uma-sociedade-que-naturaliza-pessoas-vivendo-nas-ruas-e-hipocrita-e-autodestruidora","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2018\/06\/07\/uma-sociedade-que-naturaliza-pessoas-vivendo-nas-ruas-e-hipocrita-e-autodestruidora\/","title":{"rendered":"\u201cUma sociedade que naturaliza pessoas vivendo nas ruas \u00e9 hip\u00f3crita e autodestruidora\u201d"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_18361\" aria-describedby=\"caption-attachment-18361\" style=\"width: 1500px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"18361\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2018\/06\/07\/uma-sociedade-que-naturaliza-pessoas-vivendo-nas-ruas-e-hipocrita-e-autodestruidora\/children-from-homeless-families-that-were-living-in-the-building-that-caught-on-fire-have-lunch-donated-by-well-wishers-next-to-a-church-at-largo-do-painsandu-square-in-sao-paulo\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/alo.jpg?fit=1500%2C1000\" data-orig-size=\"1500,1000\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;REUTERS&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;Children from homeless families that were living in the building that caught on fire, have lunch donated by well-wishers, next to a church at Largo do Painsandu Square in Sao Paulo, Brazil May 2, 2018. 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REUTERS\/Nacho Doce<\/figcaption><\/figure>\n<p>O urbanista Luiz Kohara diz que a trag\u00e9dia com o edif\u00edcio Wilton Paes, que desabou em S\u00e3o Paulo, exp\u00f4s a solidariedade paulistana e a demagogia dos governantes sobre o grave problema de habita\u00e7\u00e3o na cidade<!--more--><\/p>\n<p>No El Pa\u00eds, por CARLA JIM\u00c9NEZ<\/p>\n<p>O dia primeiro de maio parece ter ficado mais distante do que \u00e9 de fato. O pa\u00eds que acaba de passar por uma convuls\u00e3o com a greve dos caminhoneiros j\u00e1 deixou bem para o fundo da mem\u00f3ria a trag\u00e9dia do edif\u00edcio Wilton Paes, que desabou em pleno feriado do dia do trabalho, no centro de S\u00e3o Paulo. Ao menos quatro v\u00edtimas fatais foram confirmadas, moradores que n\u00e3o conseguiram fugir a tempo quando o fogo come\u00e7ou a derreter as estruturas do pr\u00e9dio que foi ao ch\u00e3o. Outras centenas de pessoas ficaram desabrigadas, e muitas se instalaram no Largo do Paissandu , a poucos metros de onde ocorreu o desabamento. A prefeitura ofereceu recursos para aluguel social ou transfer\u00eancia para um dos albergues municipais, mas eles se negam. Querem manter-se ali, apoiados pelos l\u00edderes do movimento de moradia que os acompanha, como forma de press\u00e3o. Embora a fatalidade da metr\u00f3pole com mais de 20 milh\u00f5es de habitantes pare\u00e7a se diluir no tempo, ela reflete um problema grave e perene, que deixa ao menos 1 milh\u00e3o de fam\u00edlias em situa\u00e7\u00e3o vulner\u00e1vel, explica o urbanista Luiz Kohara, doutor em arquitetura e urbanismo, e p\u00f3s doutor em sociologia urbana. \u201cN\u00e3o \u00e9 a primeira e nem a \u00faltima trag\u00e9dia do g\u00eanero\u201d, diz ele, que aponta a falta de mobilidade do poder p\u00fablico para olhar, de uma vez por todas, para o problema habitacional como algo pass\u00edvel de solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Pergunta. Passado um m\u00eas da trag\u00e9dia que atingiu o edif\u00edcio Wilton Paes, o que fica de aprendizado sobre esse acidente que chocou o pa\u00eds?<\/p>\n<p>Resposta. A trag\u00e9dia, al\u00e9m de explicitar o grave problema de habita\u00e7\u00e3o que temos na cidade de S\u00e3o Paulo, evidenciou a solidariedade da sociedade paulistana nos momentos emergenciais de trag\u00e9dia e a uni\u00e3o de todos os movimentos de moradia comprometidos com o direito \u00e0 moradia da popula\u00e7\u00e3o mais pobre, em apoio \u00e0s fam\u00edlias que residiam no edif\u00edcio. Por outro lado, tamb\u00e9m mostrou que os governantes tratam o grave problema de habita\u00e7\u00e3o e a popula\u00e7\u00e3o mais pobre com discursos demag\u00f3gicos para a sociedade de r\u00e1pidas solu\u00e7\u00f5es. Passado mais de um m\u00eas, ainda continuamos sem solu\u00e7\u00e3o definitiva. O mais grave foram os discursos dos governantes e candidatos \u00e0s pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es no momento da trag\u00e9dia. De forma oportunista e voraz, foi a da criminaliza\u00e7\u00e3o dos movimentos de moradia e das fam\u00edlias que residiam no edif\u00edcio, tamb\u00e9m, como forma de fugir de suas responsabilidades. O aprendizado maior dessa trag\u00e9dia \u00e9 que se o problema da moradia das fam\u00edlias dos trabalhadores de baixa renda n\u00e3o for enfrentado de forma massiva, trag\u00e9dias como esta e outras silenciosas continuar\u00e3o ocorrendo. Logicamente, enfrentar o problema da moradia \u00e9 ter pol\u00edticas urbanas que favore\u00e7am o direito \u00e0 cidade para todos e \u00e9 enfrentar a quest\u00e3o fundi\u00e1ria urbana.<\/p>\n<p>P. A prefeitura disse que faria um controle acurado com outros pr\u00e9dios em situa\u00e7\u00e3o de risco para evitar trag\u00e9dia semelhante. Qual sua opini\u00e3o?<\/p>\n<p>R. H\u00e1 muitos edif\u00edcios na cidade de S\u00e3o Paulo que apresentam situa\u00e7\u00e3o de risco, n\u00e3o \u00e9 caso apenas das ocupa\u00e7\u00f5es. Devido \u00e0 grande repercuss\u00e3o do inc\u00eandio, a prefeitura formou um grupo executivo para vistoria das ocupa\u00e7\u00f5es. No entanto, se n\u00e3o tiver objetivo de identificar os problemas e contribuir para solucion\u00e1-los de nada servir\u00e1. Digo isto porque a fiscaliza\u00e7\u00e3o para justificar apenas as remo\u00e7\u00f5es do problema somente servir\u00e1 para gerar novos problemas sociais e transfer\u00eancia das situa\u00e7\u00f5es de riscos para outros endere\u00e7os. \u00c9 importante destacar que nenhuma pessoa quer viver em situa\u00e7\u00e3o de risco, e quando isso ocorre \u00e9 devido \u00e0 falta de alternativa.<\/p>\n<p>P. O Largo do Paissandu virou o espa\u00e7o de resist\u00eancia das fam\u00edlias que moravam no Wilton Paes antes. O que isso significa?<\/p>\n<p>R. As fam\u00edlias se mant\u00eam no Largo do Paissandu por resist\u00eancia \u00e0 falta de solu\u00e7\u00e3o efetiva dos \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos, que prop\u00f5em como alternativa centros de acolhidas, os albergues, ou ajudam com aluguel de valores de 400 reais, que s\u00e3o insuficientes para locar um quarto prec\u00e1rio no corti\u00e7o. Al\u00e9m de que as fam\u00edlias perderam todos os seus poucos m\u00f3veis que possu\u00edam. O Largo do Paissandu expressa a continua\u00e7\u00e3o da trag\u00e9dia das fam\u00edlias e das crian\u00e7as que se encontram em situa\u00e7\u00e3o de extrema precariedades (frio, falta de sanit\u00e1rios, sem espa\u00e7os para dormir, inseguran\u00e7as) e sujeitos a todos os tipos de riscos. O Largo expressa resist\u00eancia, dor, sofrimento e descaso p\u00fablico aos mais pobres.<\/p>\n<p>P. Na sequ\u00eancia da trag\u00e9dia, o que estava mais em pauta era o debate sobre o papel do movimento social que liderava a ocupa\u00e7\u00e3o do edif\u00edcio e menos a falta de moradia, um n\u00f3 que carrega o pa\u00eds h\u00e1 d\u00e9cadas. Como jogar luz a esse problema?<\/p>\n<p>R. No momento da trag\u00e9dia, do inc\u00eandio que levou o edif\u00edcio ao ch\u00e3o, houve presen\u00e7a permanente da imprensa nacional e internacional e grande como\u00e7\u00e3o de toda a sociedade. Parte da imprensa estava mais preocupada em culpabilizar os movimentos sociais de moradia sobre trag\u00e9dia, sem tratar a quest\u00e3o geradora da trag\u00e9dia que \u00e9 o problema da habita\u00e7\u00e3o. N\u00f3s procuramos explicar que as fam\u00edlias s\u00e3o v\u00edtimas do problema da habita\u00e7\u00e3o devido \u00e0 insufici\u00eancia de pol\u00edticas p\u00fablicas e dos baixos sal\u00e1rios que s\u00e3o insuficientes para acessar uma moradia adequada, porque n\u00e3o era a primeira e nem a \u00faltima trag\u00e9dia do g\u00eanero anunciada. Tamb\u00e9m destacamos o \u201camanh\u00e3\u201d das fam\u00edlias, ap\u00f3s a forte presen\u00e7a da imprensa e abrandamento da como\u00e7\u00e3o. Era sim uma trag\u00e9dia anunciada, n\u00e3o s\u00f3 do inc\u00eandio do edif\u00edcio, mas porque para as popula\u00e7\u00f5es mais pobres morar \u00e9 um risco. A proposta do Plano Municipal de Habita\u00e7\u00e3o, que est\u00e1 na C\u00e2mara Municipal para ser aprovada, identifica que na cidade de S\u00e3o Paulo h\u00e1 445.112 domic\u00edlios em favelas e 385.080 em loteamentos irregulares que necessitam de melhorias nas unidades habitacionais ou instala\u00e7\u00f5es de infraestruturas ou mesmo situa\u00e7\u00f5es de remo\u00e7\u00f5es de devido ao alto grau de risco. H\u00e1, ainda, 80.399 domic\u00edlios em corti\u00e7os, 15.905 pessoas que est\u00e3o morando nas rua, 103.664 lares coabitados por mais de uma fam\u00edlia por falta de condi\u00e7\u00f5es financeiras. Outros 187.612 domic\u00edlios em que as fam\u00edlias t\u00eam \u00f4nus excessivos com os alugueis. S\u00e3o mais de 1 milh\u00e3o de fam\u00edlias vivendo precariamente. Isso tem muito a ver tamb\u00e9m com a mercantiliza\u00e7\u00e3o da moradia e o baixo sal\u00e1rio dos trabalhadores. Um quarto prec\u00e1rio de dez metros quadrado num corti\u00e7o, na regi\u00e3o central de S\u00e3o Paulo custa entre 800 a 900 reais. Como pagar aluguel ganhando um sal\u00e1rio m\u00ednimo? Se pagar aluguel, n\u00e3o come, n\u00e3o estuda. \u00c9 um problema de contradi\u00e7\u00e3o muito grande. O custo dos im\u00f3veis est\u00e1 cada vez mais caro.<\/p>\n<p>P. Uma equa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o fecha&#8230;<\/p>\n<p>R. Entre janeiro de 2008 e mar\u00e7o de 2018, um levantamento da FIPE\/ZAP mostrou que os pre\u00e7os dos im\u00f3veis cresceram 257% e o sal\u00e1rio m\u00ednimo, 130%. Esses n\u00fameros mostram que o problema da habita\u00e7\u00e3o \u00e9 o problema do acesso \u00e0 terra que esta sujeito \u00e0 especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria. Mesmo com grande produ\u00e7\u00e3o de habita\u00e7\u00e3o, com o Programa Minha Casa Minha Vida, entre 2009 a 2015, o d\u00e9ficit entre as fam\u00edlias de baixa renda cresceu. Os trabalhadores de baixa renda est\u00e3o em um beco sem sa\u00edda, entre morar em edif\u00edcios ou \u00e1reas de risco, ou ter\u00e3o que morar nas ruas que \u00e9 uma trag\u00e9dia humana. E para quem tem filho \u00e9 um risco muito grande. Uma sociedade que naturaliza as desigualdades e as pessoas vivendo nas ruas \u00e9 hip\u00f3crita e autodestruidora.<\/p>\n<p>P. Como surgem os movimentos de moradia nesse contexto?<\/p>\n<p>R. As pessoas n\u00e3o t\u00eam renda suficiente nem para pagar um quarto de corti\u00e7o ou aluguel em outro tipo de habita\u00e7\u00e3o sofrem despejos e para n\u00e3o irem para a rua emergencialmente apelam para a ocupa\u00e7\u00e3o pr\u00e9dios abandonados \u2013 que n\u00e3o cumprem fun\u00e7\u00e3o social conforme estabelecidos pela Constitui\u00e7\u00e3o Federal &#8211; para n\u00e3o ficarem com os filhos nas ruas. Assim, os movimentos de moradia que atuam no centro nascem a partir dessa necessidade com objetivo de lutar coletivamente e solidariamente por justi\u00e7a social, direito \u00e0 cidade e direito \u00e0 moradia digna. As ocupa\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m s\u00e3o estrat\u00e9gias para denunciar a contradi\u00e7\u00e3o social do grande n\u00famero de im\u00f3veis abandonados, muitos desses sem pagar IPTU, descumprindo o estabelecido no Estatuto das Cidades, enquanto muitos n\u00e3o t\u00eam moradia. \u00c9 tamb\u00e9m uma forma de pressionar os \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos para viabilizar programas habitacionais de interesse social. Sem press\u00e3o social n\u00e3o ter\u00edamos nenhum programa habitacional no Pa\u00eds. Os movimentos tornam uma for\u00e7a coletiva e voz de dezenas de milhares que s\u00f3 n\u00e3o s\u00e3o ouvidos nas ruas reivindica\u00e7\u00f5es. Os movimentos de moradia al\u00e9m da luta por direitos s\u00e3o respons\u00e1veis pela formula\u00e7\u00e3o, elabora\u00e7\u00e3o e implementa\u00e7\u00e3o da maioria dos programas habitacionais existentes no Pa\u00eds.<\/p>\n<p>P. Quantos movimentos do g\u00eanero existem?<\/p>\n<p>R. Na cidade de S\u00e3o Paulo, h\u00e1 mais 100 movimentos sociais de moradia ou grupos organizados pelo direito a moradia com diferentes focos dos problemas habitacionais.<\/p>\n<p>P. Mas tem oportunistas no meio&#8230;<\/p>\n<p>R. Parte da luta dos movimentos de moradia \u00e9 que n\u00e3o haja explora\u00e7\u00e3o para o acesso \u00e0 moradia e as suas organiza\u00e7\u00f5es sejam transparentes, participativas e justas. Como em qualquer segmento da sociedade pode haver pessoas que se aproveitam dessa situa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o cumprindo o que estabelecem os movimentos.<\/p>\n<p>P. Voc\u00ea conhecia o MLSM?<\/p>\n<p>R. Eu n\u00e3o tinha contato.<\/p>\n<p>P. Educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, luta contra a corrup\u00e7\u00e3o. Tudo isso s\u00e3o reconhecidos como consensos nacionais. Moradia \u00e9 consenso no Brasil?<\/p>\n<p>R. N\u00e3o. A moradia no Brasil n\u00e3o \u00e9 compreendida como um direito humano. Como a moradia gera muito dinheiro, a sua concep\u00e7\u00e3o \u00e9 que se trata de uma mercadoria, onde as pessoas t\u00eam acesso conforme a renda. Isso est\u00e1 totalmente errado. A moradia digna \u00e9 um direito constitucional, ent\u00e3o o seu acesso deveria ser tratada como servi\u00e7o p\u00fablico, assim como \u00e9 a educa\u00e7\u00e3o, assist\u00eancia m\u00e9dica, previd\u00eancia. A moradia de interesse social deve ser entendida como parte estrutural do acesso de outros direitos e da inser\u00e7\u00e3o social. Sem moradia digna \u00e9 imposs\u00edvel a estrutura\u00e7\u00e3o familiar, ter sa\u00fade, ter educa\u00e7\u00e3o adequada. Temos que mudar a concep\u00e7\u00e3o do acesso \u00e0 moradia digna. Se \u00e9 um direito n\u00e3o pode ser tratado como uma mercadoria que voc\u00ea compra conforme sua capacidade financeira. H\u00e1 muitas experi\u00eancias em v\u00e1rios pa\u00edses europeus e de outros lugares do mundo, onde as pessoas n\u00e3o acessam a moradia por meio da aquisi\u00e7\u00e3o da propriedade privada, mas por meio de Programas de Loca\u00e7\u00e3o Social realizado pelo poder p\u00fablico. A Loca\u00e7\u00e3o Social pode ser por produ\u00e7\u00e3o p\u00fablica de habita\u00e7\u00e3o ou por media\u00e7\u00e3o do poder p\u00fablico para acessar moradia no mercado privado. O acesso \u00e0 propriedade privada \u00e9 um segundo passo, mas essencial \u00e9 o acesso a moradia digna.<\/p>\n<p>P. Como est\u00e1 a situa\u00e7\u00e3o do aluguel social em S\u00e3o Paulo?<\/p>\n<p>R. O Programa de Loca\u00e7\u00e3o Social em S\u00e3o Paulo foi iniciada em 2002 com a resolu\u00e7\u00e3o aprovada no Conselho Municipal de Habita\u00e7\u00e3o. Atualmente h\u00e1 seis empreendimentos p\u00fablicos onde residem cerca de 1.000 fam\u00edlias. Tamb\u00e9m, em 2004, foi aprovada a Resolu\u00e7\u00e3o da Bolsa Aluguel que \u00e9 uma forma de possibilitar o acesso da popula\u00e7\u00e3o de baixa renda \u00e0 moradia no mercado privado por meio de subs\u00eddio da prefeitura at\u00e9 a moradia definitiva. Depois a prefeitura criou o Programa de Parceria Social e Programa de Ajuda de Aluguel, devido \u00e0s exig\u00eancias estabelecidas pelo Programa do Bolsa Aluguel e fazendo atendimentos aleat\u00f3rios para situa\u00e7\u00f5es de remo\u00e7\u00f5es e outros interesses. O Programa de Loca\u00e7\u00e3o Social deve estar articulado com programas de produ\u00e7\u00e3o habitacional, para que a utiliza\u00e7\u00e3o das unidades seja din\u00e2micas. O Programa de Loca\u00e7\u00e3o Social e do Bolsa Aluguel, por apresentarem concep\u00e7\u00f5es diferentes dos programas que sempre existiram no Brasil, onde o problema da habita\u00e7\u00e3o \u00e9 considerado solucionado com a entrega da chave e da propriedade. \u00c9 necess\u00e1rio mudan\u00e7as nas estrutura p\u00fablica para a gest\u00e3o patrimonial, condominial e social. Conhe\u00e7o muitas pessoas e fam\u00edlias que avan\u00e7aram socialmente com o acesso ao programa de loca\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>P. Um programa de habita\u00e7\u00e3o para quem mais precisa teria de ser bancado pelo Estado, pois o empresariado n\u00e3o vai se interessar pelo que n\u00e3o d\u00e1 lucro. Como se resolve essa equa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>R. Empresas visam lucros, mas os interesses de lucros n\u00e3o podem se sobrepor ao interesse p\u00fablico e ao interesse social. N\u00e3o pode ser permitida o lucro atrav\u00e9s da especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria, na qual o empres\u00e1rio da constru\u00e7\u00e3o ganha sem fazer investimentos ou tem ganho devido a de investimentos p\u00fablicos feitos no entorno pago por toda a sociedade. Deve haver regulamenta\u00e7\u00f5es para evitar ganhos especulativos. Onde h\u00e1 esse controle \u00e9 poss\u00edvel maior viabiliza\u00e7\u00e3o de habita\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>P. Mas qual tipo de controle?<\/p>\n<p>R. Em 2003 estive em Turim, e l\u00e1 havia valores referenciais, teto estabelecido pelo setor p\u00fablico para loca\u00e7\u00e3o por metro quadrado, conforme as regi\u00f5es da cidade. Havia controle sobre a quest\u00e3o do valor dos im\u00f3veis. No Brasil temos a Constitui\u00e7\u00e3o Federal e o Estatuto das Cidades que tratam da fun\u00e7\u00e3o social da cidade e da propriedade, que se aplicadas conforme instrumentos previstos permitiria que o poder p\u00fablico tivesse um estoque de terra para produ\u00e7\u00e3o habitacional. Se houvesse produ\u00e7\u00e3o massiva de loca\u00e7\u00e3o social ajudaria para regula\u00e7\u00e3o dos valores de alugueis do mercado. Tamb\u00e9m, como j\u00e1 disse \u00e9 preciso aplicar o Plano Diretor onde prev\u00ea a Cota de Solidariedade e tamb\u00e9m ver outras formas de assegurar terras para que o poder p\u00fablico possa viabilizar moradias.<\/p>\n<p>P. Mas neste contexto atual, com um governo que n\u00e3o pode investir por falta de recursos, de que forma se pode garantir subs\u00eddio continuado?<\/p>\n<p>R. Primeiro \u00e9 preciso que haja maior or\u00e7amento para a habita\u00e7\u00e3o em todos os n\u00edveis do Estado. Ter ou n\u00e3o ter recursos \u00e9 uma quest\u00e3o de prioridade. Parte do problema da habita\u00e7\u00e3o n\u00e3o depende de produ\u00e7\u00e3o de novas unidades habitacionais, mas melhorias das condi\u00e7\u00f5es da infraestrutura, servi\u00e7os p\u00fablicos ou melhorias das moradias que \u00e9 mais barato que construir novas moradias. O Estado precisa incentivar que propriet\u00e1rios como por exemplo desconto de impostos para que disponibilizem para loca\u00e7\u00e3o social. Ele pode por exemplo incentivar cooperativas de habita\u00e7\u00e3o, onde grupos se organizam e recebem incentivos para produ\u00e7\u00e3o de habita\u00e7\u00e3o a serem disponibilizados para habita\u00e7\u00e3o social. Tamb\u00e9m \u00e9 preciso acessar o mercado popular atrav\u00e9s de financiamento. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil resolver este assunto, pois \u00e9 um ac\u00famulo de problemas de muitas d\u00e9cadas. Ser\u00e1 preciso somar esfor\u00e7os dos \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos com os setores populares e da iniciativa privada para buscarem alternativas que seja orientada para a solu\u00e7\u00e3o da quest\u00e3o social e n\u00e3o para que a habita\u00e7\u00e3o social seja mais uma forma de alta lucratividade. Numa cidade como S\u00e3o Paulo, \u00e9 preciso ter todas as possibilidades funcionando juntos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O urbanista Luiz Kohara diz que a trag\u00e9dia com o edif\u00edcio Wilton Paes, que desabou em S\u00e3o Paulo, exp\u00f4s a solidariedade paulistana e a demagogia dos governantes sobre o grave problema de habita\u00e7\u00e3o na cidade<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-18360","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-4M8","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18360","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18360"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18360\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18362,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18360\/revisions\/18362"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18360"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18360"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18360"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}