{"id":18673,"date":"2018-07-17T11:25:47","date_gmt":"2018-07-17T15:25:47","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=18673"},"modified":"2018-07-17T11:25:47","modified_gmt":"2018-07-17T15:25:47","slug":"com-crise-e-cortes-na-ciencia-jovens-doutores-encaram-o-desemprego-titulo-nao-paga-aluguel","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2018\/07\/17\/com-crise-e-cortes-na-ciencia-jovens-doutores-encaram-o-desemprego-titulo-nao-paga-aluguel\/","title":{"rendered":"Com crise e cortes na ci\u00eancia, jovens doutores encaram o desemprego: &#8216;T\u00edtulo n\u00e3o paga aluguel&#8217;"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"18674\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2018\/07\/17\/com-crise-e-cortes-na-ciencia-jovens-doutores-encaram-o-desemprego-titulo-nao-paga-aluguel\/alu\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/alu.png?fit=976%2C549\" data-orig-size=\"976,549\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"alu\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/alu.png?fit=300%2C169\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/alu.png?fit=600%2C338\" class=\"alignnone size-full wp-image-18674\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/alu.png?resize=600%2C338\" alt=\"alu\" width=\"600\" height=\"338\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/alu.png?w=976 976w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/alu.png?resize=300%2C169 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/alu.png?resize=768%2C432 768w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/alu.png?resize=533%2C300 533w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p>Na BBC,\u00a0<span class=\"byline__name\">Juliana Sayuri,\u00a0<\/span>O estat\u00edstico Paulo Tadeu Oliveira, de 55 anos, defendeu seu doutorado na Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) em agosto de 2008. Dez anos depois, ainda n\u00e3o conseguiu ingressar no mercado de trabalho. O pesquisador, que \u00e9 deficiente visual, emendou tr\u00eas p\u00f3s-doutorados em busca de especializa\u00e7\u00e3o e experi\u00eancia, mas n\u00e3o passou nas diversas sele\u00e7\u00f5es para o quadro de universidades p\u00fablicas. Atualmente, est\u00e1 no quarto est\u00e1gio p\u00f3s-doutoral, desta vez sem apoio financeiro.<!--more--><\/p>\n<p>Em busca de trabalho na iniciativa privada, ele consultou 18 headhunters para tentar enquadrar seu curr\u00edculo ao mercado, mas encontrou respostas similares: o estat\u00edstico n\u00e3o possui experi\u00eancia corporativa e, ao mesmo tempo, \u00e9 considerado overqualified (qualificado demais) para as posi\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis. Em maio, ele relatou sua hist\u00f3ria \u00e0 Comiss\u00e3o de Direitos Humanos da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci\u00eancia (SBPC) e espera resposta.<\/p>\n<p>Assim como Oliveira, diversos jovens doutores (ou seja, titulados recentemente) est\u00e3o patinando profissionalmente. A concorr\u00eancia continua crescendo: no ano passado, foram formados 21.609 novos doutores \u2013 ao todo, s\u00e3o 302.298, incluindo estrangeiros residentes no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Em 2006, o pa\u00eds atingiu a meta de formar 10 mil doutores e 40 mil mestres por ano, segundo dados da Coordena\u00e7\u00e3o de Aperfei\u00e7oamento de Pessoal de N\u00edvel Superior (Capes) divulgados \u00e0 \u00e9poca. Em 2014, o Plano Nacional de Educa\u00e7\u00e3o estabeleceu uma nova meta: a forma\u00e7\u00e3o de 25 mil doutores por ano at\u00e9 2020.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que o principal destino de doutores, a \u00e1rea da educa\u00e7\u00e3o \u2013 74,5% dos empregados est\u00e3o nas universidades ou institutos de pesquisa \u2013 sentiu os efeitos da crise econ\u00f4mica no pa\u00eds.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"story-body\">\n<div class=\"story-body__inner\">\n<p>O or\u00e7amento do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o (MEC) sofreu cortes de R$ 7,7 bilh\u00f5es em 2015 e de R$ 10,7 bilh\u00f5es em 2016, segundo dados da pr\u00f3pria pasta. No Minist\u00e9rio da Ci\u00eancia, Tecnologia, Inova\u00e7\u00f5es e Comunica\u00e7\u00f5es (MCTIC) 44% (R$ 2,5 bilh\u00f5es) foram congelados em 2017, de acordo com n\u00fameros do governo.<\/p>\n<p>A Capes, vinculada ao MEC, perdeu R$ 1 bilh\u00e3o por ano desde 2015; o Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico (CNPq), ligado ao MCTIC, tamb\u00e9m perdeu cerca de R$ 1 bilh\u00e3o no caixa de 2015 para 2016, o que afeta programas de p\u00f3s-doutorado, por exemplo.<\/p>\n<p>Nas institui\u00e7\u00f5es particulares, o quadro tamb\u00e9m \u00e9 pessimista, com a demiss\u00e3o de milhares de professores &#8211; a Est\u00e1cio de S\u00e1, por exemplo, demitiu 1,2 mil docentes em dezembro de 2017 \u2013 e o trancamento de matr\u00edculas de alunos, que registrou um aumento de 22,4% entre 2011 e 2015, segundo dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep).<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Novo cen\u00e1rio<\/h2>\n<p>Entre 1996 e 2014, o n\u00famero de programas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o stricto sensu (mestrado e doutorado) triplicou no pa\u00eds, informa o relat\u00f3rio Mestres e Doutores 2015, o mais recente da s\u00e9rie. Elaborado pelo Centro de Gest\u00e3o e Estudos Estrat\u00e9gicos (CGEE), o estudo revela que o per\u00edodo tamb\u00e9m registrou um boom na forma\u00e7\u00e3o de mestres (379%) e doutores (486%) no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Um novo estudo em andamento no CGEE revela tamb\u00e9m a taxa de empregabilidade de doutores rec\u00e9m-titulados: entre 2009 e 2014, o \u00edndice se estabilizou em cerca de 73%, mas em 2016 caiu para 69,3%.<\/p>\n<p>&#8220;Historicamente, a taxa de emprego \u00e9 mais est\u00e1vel, fruto de uma pol\u00edtica constante, passando por governos variados. Apesar de ter cada vez mais doutores, podemos afirmar que at\u00e9 2015 eles foram absorvidos pelo mercado, p\u00fablico e privado&#8221;, diz a coordenadora da pesquisa, Sofia Daher, de 55 anos.<\/p>\n<p>&#8220;A queda n\u00e3o \u00e9 dr\u00e1stica, mas sinaliza uma tend\u00eancia nova. Houve uma redu\u00e7\u00e3o consider\u00e1vel de concursos para professores universit\u00e1rios&#8221;, disse ela \u00e0 BBC News Brasil.<\/p>\n<p>O pesquisador Ronaldo Ruy, de 36 anos, \u00e9 um retrato desse novo cen\u00e1rio: est\u00e1 desempregado desde a defesa de seu doutorado na Universidade Federal do Cear\u00e1 (UFC), em 2016. &#8220;Estou buscando p\u00f3s-doutorado para n\u00e3o tirar definitivamente os dois p\u00e9s da ci\u00eancia&#8221;, diz ele, que fez cursos no Smithsonian Research Tropical Institute e no Florida Museum of Natural History, nos EUA.<\/p>\n<p>Atualmente dependendo da ajuda financeira da fam\u00edlia, Ruy buscar\u00e1 trabalho fora de sua \u00e1rea de atua\u00e7\u00e3o. &#8220;O amor pela ci\u00eancia n\u00e3o as paga contas. No meu caso particular, a situa\u00e7\u00e3o chegou ao ponto da minha fam\u00edlia ter dado prazo para que eu saia de casa e inevitavelmente terei que seguir outro caminho (profissional)&#8221;, conta.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/E1DD\/production\/_102512875_ronaldo-ruy.jpg?resize=600%2C338&#038;ssl=1\" alt=\"Ronaldo Ruy\" width=\"600\" height=\"338\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><span class=\"off-screen\">Direito de imagem<\/span><span class=\"story-image-copyright\">ARQUIVO PESSOAL<\/span><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"off-screen\">Image caption<\/span><span class=\"media-caption__text\">Ronaldo Ruy diz que tenta o p\u00f3s-doutorado como forma de permanecer na ci\u00eancia<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>Foi o que fez Karen Carvalho, de 36 anos, doutora em neuroci\u00eancias pela USP.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a conclus\u00e3o da pesquisa no Instituto Butantan, em novembro, ela tentou ingressar na ind\u00fastria farmac\u00eautica, sem sucesso.<\/p>\n<p>&#8220;Durante o doutorado, desenvolvi depress\u00e3o. Uma ironia, pois meu campo de estudo \u00e9 estresse e depress\u00e3o&#8221;, diz a bi\u00f3loga, que hoje atua como corretora de im\u00f3veis.<\/p>\n<p>De acordo com uma investiga\u00e7\u00e3o com 2 mil estudantes de 26 pa\u00edses, publicada na revista Nature Biotechnology em mar\u00e7o, os p\u00f3s-graduandos t\u00eam seis vezes mais chance de sofrer ansiedade e depress\u00e3o do que a popula\u00e7\u00e3o geral.<\/p>\n<p>Al\u00e9m das press\u00f5es do doutorado, Carvalho afirma que a falta de perspectiva agravou seu quadro.<\/p>\n<p>&#8220;No Brasil, a gente \u00e9 tratado como &#8216;s\u00f3 estudante&#8217; durante a p\u00f3s. Falta olhar para o cientista como um profissional, muitas vezes muit\u00edssimo qualificado. Voc\u00ea se mata para fazer mestrado e doutorado, e depois pensa: e agora, vou fazer o que com os t\u00edtulos? S\u00f3 perdi meu tempo? \u00c9 uma tristeza, perde-se o brilho olhando para a situa\u00e7\u00e3o atual da ci\u00eancia. A gente est\u00e1 no limbo.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Doutores demais?<\/h2>\n<p>O bi\u00f3logo professor da Universidade de Bras\u00edlia (UnB) Marcelo Hermes-Lima, de 53 anos, vem criticando o que v\u00ea como uma forma\u00e7\u00e3o excessiva de doutores desde 2008.<\/p>\n<p>&#8220;Teve uma inunda\u00e7\u00e3o de &#8216;c\u00e9rebros&#8217;. \u00c9 a lei do mercado: se voc\u00ea tem essa &#8216;commodity&#8217; demais, desvaloriza-se&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>Para Hermes-Lima, a \u00faltima d\u00e9cada registrou &#8220;uma alucinada prolifera\u00e7\u00e3o&#8221; de cursos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o no pa\u00eds, priorizando quantidade, e n\u00e3o qualidade da forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica. &#8220;A\u00ed chegou o teto &#8211; e o teto agora est\u00e1 come\u00e7ando a cair&#8221;, ilustra.<\/p>\n<p>&#8220;A crise econ\u00f4mica empurrou muita gente sem real motiva\u00e7\u00e3o cient\u00edfica para a universidade. Sem emprego, muita gente buscou ref\u00fagio na ci\u00eancia, de olho nas bolsas. A crise demorou para chegar na ci\u00eancia, mas agora chegou&#8221;, critica.<\/p>\n<p>O fil\u00f3sofo Renato Janine Ribeiro, ex-ministro da Educa\u00e7\u00e3o do governo Dilma Rousseff, pensa diferente. &#8220;Parar de investir na forma\u00e7\u00e3o doutoral \u00e9 um risco. Como um doutor demora em regra quatro anos para se titular, uma parada significar\u00e1 que, quando precisarmos de mais doutores, eles n\u00e3o estar\u00e3o dispon\u00edveis&#8221;, analisa.<\/p>\n<p>Para ele, a dificuldade de manter o ritmo de investimento para jovens doutores est\u00e1 relacionada &#8220;por um lado, \u00e0 crise econ\u00f4mica; por outro, \u00e0s prioridades diferentes do novo governo&#8221;.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/3D4A\/production\/_102509651_karen-carvalho.jpg?resize=600%2C338&#038;ssl=1\" alt=\"Karen Carvalho\" width=\"600\" height=\"338\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><span class=\"off-screen\">Direito de imagem<\/span><span class=\"story-image-copyright\">ARQUIVO PESSOAL<\/span><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"off-screen\">Image caption<\/span><span class=\"media-caption__text\">Karen Carvalho, doutora em neuroci\u00eancias, hoje trabalha como corretora de im\u00f3veis<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>Procurado pela BBC News Brasil, o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o diz n\u00e3o ser &#8220;verdade que falte recurso para as universidades&#8221;. &#8220;A expans\u00e3o das universidades federais trouxe impactos significativos para o or\u00e7amento do MEC, que precisam ser compreendidos em sua plenitude&#8221;, escreve a pasta, em nota.<\/p>\n<p>Essa expans\u00e3o, acrescenta, &#8220;foi realizada sem planejamento&#8221;. &#8220;O ano de 2014 foi influenciado pelas elei\u00e7\u00f5es e por um momento econ\u00f4mico em que a gest\u00e3o anterior n\u00e3o mensurou os efeitos dos gastos exagerados e sem controle. Diversos programas aumentaram recursos fora da realidade, fazendo com que a pr\u00f3pria gest\u00e3o anterior iniciasse as redu\u00e7\u00f5es, a partir de 2015&#8221;, conclui.<\/p>\n<p>De 2003 a 2010, houve um salto de 45 para 59 universidades federais, o que representa uma amplia\u00e7\u00e3o de 31%; e de 148 c\u00e2mpus para 274 c\u00e2mpus\/unidades, crescimento de 85%. A expans\u00e3o tamb\u00e9m proporcionou uma interioriza\u00e7\u00e3o \u2013 o n\u00famero de munic\u00edpios atendidos por universidades federais foi de 114 para 272, um crescimento de 138%, segundo dados do pr\u00f3prio MEC.<\/p>\n<p>Por sua vez, o MCTIC afirma que est\u00e1 atuando junto \u00e0 equipe econ\u00f4mica para maior disponibiliza\u00e7\u00e3o de recursos. &#8220;Em anos anteriores, os esfor\u00e7os do MCTIC para recomposi\u00e7\u00e3o or\u00e7ament\u00e1ria t\u00eam dado resultados, com a libera\u00e7\u00e3o de recursos contingenciados ao longo do ano. No cen\u00e1rio de restri\u00e7\u00f5es or\u00e7ament\u00e1rias, o MCTIC mant\u00e9m ainda permanente di\u00e1logo com os gestores de suas entidades vinculadas para que os recursos sejam otimizados, minimizando o impacto em suas atividades.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Cartas de rejei\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>Diante da falta de oportunidade no mercado, tanto na iniciativa privada quanto nas institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, muitos jovens doutores apostaram na possibilidade de um p\u00f3s-doutorado, conforme diversos relatos \u00e0 BBC Brasil. A bolsa mensal do CNPq \u00e9 de R$ 4,5 mil.<\/p>\n<p>Diferentemente do mestrado ou doutorado, o p\u00f3s-doutorado n\u00e3o \u00e9 um t\u00edtulo: \u00e9 uma especializa\u00e7\u00e3o ou um est\u00e1gio para aprimorar o n\u00edvel de excel\u00eancia de determinada \u00e1rea acad\u00eamica. \u00c9 visto como um aperfei\u00e7oamento do curr\u00edculo para processos seletivos para docente nas universidades p\u00fablicas.<\/p>\n<p>Para a maioria dos candidatos, por\u00e9m, as expectativas acabaram frustradas.<\/p>\n<p>&#8220;A proposta, apesar de merit\u00f3ria, n\u00e3o pode ser atendida nesta demanda, considerando-se a disponibilidade de recursos&#8221;, dizia a resposta-padr\u00e3o enviada a dezenas de doutores rec\u00e9m-titulados que tinham pedido bolsas na modalidade P\u00f3s-Doutorado J\u00fanior (PDJ), do CNPq.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/93BD\/production\/_102512873_lara-carlette.jpg?resize=600%2C338&#038;ssl=1\" alt=\"Laura Carlette\" width=\"600\" height=\"338\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><span class=\"off-screen\">Direito de imagem<\/span><span class=\"story-image-copyright\">ARQUIVO PESSOAL<\/span><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"off-screen\">Image caption<\/span><span class=\"media-caption__text\">&#8216;T\u00edtulo n\u00e3o paga aluguel&#8217;, diz Laura Carlette, que estuda o tema<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>Diante do resultado, divulgado em meados de junho, muitos doutores relataram sua indigna\u00e7\u00e3o ao serem rejeitados em depoimento em grupo de 6,6 mil pesquisadores brasileiros no Facebook. Sob a condi\u00e7\u00e3o de anonimato, um parecerista do CNPq conta que os avaliadores tamb\u00e9m ficaram frustrados. &#8220;N\u00e3o importa o quanto o projeto \u00e9 excelente, n\u00e3o h\u00e1 recursos para todo mundo; \u00e9 infrut\u00edfero para a ci\u00eancia do pa\u00eds&#8221;.<\/p>\n<p>No in\u00edcio deste ano, dos 2.550 pedidos recebidos pelo CNPq, foram concedidas 363 bolsas de PDJ. No primeiro calend\u00e1rio de 2017, foram 2392 pedidos e 359 concess\u00f5es.<\/p>\n<p>Doutor em psiquiatria pela UFRGS, com temporada de estudos na Tufts University, nos EUA, o pesquisador Dirson Jo\u00e3o Stein, de 44 anos, tentou quatro editais de p\u00f3s-doutorado desde abril, diante da falta de concursos na \u00e1rea. N\u00e3o conseguiu aprova\u00e7\u00e3o em nenhum.<\/p>\n<p>&#8220;Vejo como uma oportunidade de transi\u00e7\u00e3o entre a vida estudantil e a vida profissional. H\u00e1 possibilidade de praticar a doc\u00eancia, um dos principais pr\u00e9-requisitos para a sele\u00e7\u00e3o de professores&#8221;, considera. Assim como Ruy, Stein depende da fam\u00edlia e, agora, faz freelancer como gar\u00e7om para festas em S\u00e3o Leopoldo (RS).<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Peso emocional<\/h2>\n<p>A psic\u00f3loga Inara Le\u00e3o Barbosa, de 60 anos, que pesquisa desemprego desde 2003, destaca que um de seus efeitos psicossociais \u00e9 o isolamento dos amigos e da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 um sentimento de regress\u00e3o, um impacto muito violento. Eles, que eram considerados t\u00e3o inteligentes, passam a ser vistos como vagabundos que n\u00e3o querem trabalhar. Muitos voltam a morar com os pais e s\u00e3o tratados como adolescentes. Eles se culpam como indiv\u00edduos, esquecendo que a crise faz parte do sistema&#8221;, diz Barbosa, professora da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS).<\/p>\n<p>Muitos doutores v\u00e3o parar no subemprego. &#8220;E, se voc\u00ea n\u00e3o quiser (o subemprego), no momento de crise tem uma fila de gente que quer&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>Professor da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), o historiador Rodrigo Turin, 38, diz que a academia est\u00e1 sendo pautada por conceitos como &#8220;produtividade&#8221;, &#8220;inova\u00e7\u00e3o&#8221; e &#8220;excel\u00eancia&#8221;, respondendo a uma l\u00f3gica de mercado.<\/p>\n<p>&#8220;J\u00e1 come\u00e7aram a aparecer, inclusive, ofertas de postos n\u00e3o-remunerados, nos quais esses jovens acad\u00eamicos s\u00e3o induzidos a pesquisar e dar aulas apenas para poder &#8216;engordar&#8217; seus curr\u00edculos e, assim, se tornarem mais competitivos&#8221;, critica.<\/p>\n<p>Essa &#8220;ideologia da excel\u00eancia&#8221; \u00e9 um dos pontos estudados por Lara Carlette, de 29 anos. Sua tese\u00a0<i>Universidades de classe mundial e o consenso pela excel\u00eancia<\/i>, defendida no Departamento de Educa\u00e7\u00e3o da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em fevereiro, foi indicada ao Pr\u00eamio Capes pela originalidade do trabalho.<\/p>\n<p>Ao propor um desdobramento de sua pesquisa para o CNPq, ela recebeu dois pareceres positivos e uma decis\u00e3o negativa que, ironicamente, indicava falta de originalidade.<\/p>\n<p>Segundo Carlette, os jovens doutores vivem impasses: por um lado, muitos passam anos na condi\u00e7\u00e3o de bolsistas de dedica\u00e7\u00e3o exclusiva (o que pro\u00edbe v\u00ednculo empregat\u00edcio, assim limitando a possibilidade de experi\u00eancia docente); por outro lado, a experi\u00eancia \u00e9 cobrada nos concursos.<\/p>\n<p>Na mesma linha, os acad\u00eamicos precisam preservar a originalidade de suas teses (o que limita a publica\u00e7\u00e3o de artigos durante o doutorado), mas a produtividade (o n\u00famero de publica\u00e7\u00f5es) \u00e9 cobrada nos processos seletivos e nos editais.<\/p>\n<p>&#8220;Pode parecer dram\u00e1tico, mas conviver com isso diariamente \u00e9 torturante. Saber ler a conjuntura, e n\u00e3o individualizar a falta de oportunidades, \u00e9 essencial&#8221;, adiciona a pesquisadora, que j\u00e1 foi questionada inclusive pela juventude: foi chamada de &#8220;novinha&#8221; durante um processo seletivo.<\/p>\n<p>&#8220;Depois da alegria e do al\u00edvio de defender uma tese, voc\u00ea est\u00e1 desempregado no dia seguinte. T\u00edtulo n\u00e3o paga aluguel.&#8221;<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"tags-container\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na BBC,\u00a0Juliana Sayuri,\u00a0O estat\u00edstico Paulo Tadeu Oliveira, de 55 anos, defendeu seu doutorado na Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) em agosto de 2008. Dez anos depois, ainda n\u00e3o conseguiu ingressar no mercado de trabalho. O pesquisador, que \u00e9 deficiente visual, emendou tr\u00eas p\u00f3s-doutorados em busca de especializa\u00e7\u00e3o e experi\u00eancia, mas n\u00e3o passou nas diversas sele\u00e7\u00f5es&#8230;<a class=\"more-link\" href=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2018\/07\/17\/com-crise-e-cortes-na-ciencia-jovens-doutores-encaram-o-desemprego-titulo-nao-paga-aluguel\/\">Continue a leitura <span class=\"meta-nav\">&raquo;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-18673","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-4Rb","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18673","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18673"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18673\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18675,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18673\/revisions\/18675"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18673"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18673"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18673"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}