{"id":18865,"date":"2018-08-29T18:11:00","date_gmt":"2018-08-29T22:11:00","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=18865"},"modified":"2018-08-29T18:11:00","modified_gmt":"2018-08-29T22:11:00","slug":"da-sutileza-de-puxar-os-fios-da-propria-historia","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2018\/08\/29\/da-sutileza-de-puxar-os-fios-da-propria-historia\/","title":{"rendered":"Da sutileza de puxar os fios da pr\u00f3pria hist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"18866\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2018\/08\/29\/da-sutileza-de-puxar-os-fios-da-propria-historia\/marcia\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/marcia.jpg?fit=960%2C720\" data-orig-size=\"960,720\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"marcia\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/marcia.jpg?fit=300%2C225\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/marcia.jpg?fit=600%2C450\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/marcia.jpg?resize=600%2C450\" alt=\"marcia\" width=\"600\" height=\"450\" class=\"alignnone size-full wp-image-18866\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/marcia.jpg?w=960 960w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/marcia.jpg?resize=300%2C225 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/marcia.jpg?resize=768%2C576 768w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/marcia.jpg?resize=400%2C300 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p>No Instituto Humanitas Unisinos, por Ricardo Machado, Julie Dorrico e Leno Danner &#8211; M\u00e1rcia Mura, doutora em Hist\u00f3ria Social, encontrou na sua ancestralidade e na sua atua\u00e7\u00e3o profissional uma forma de retomar a identidade de um povo extinto pela historiografia, os Mura.<!--more--><\/p>\n<p>M\u00e1rcia Mura \u00e9 dona de uma luta que \u00e9, a uma s\u00f3 vez, pr\u00f3pria e coletiva. Diante do muro da incompreens\u00e3o burocrata, baseada em uma historiografia etnoc\u00eantrica que afirma que sua etnia, os Mura, n\u00e3o mais existem, M\u00e1rcia ergue sua ponte de conex\u00e3o entre mundos. \u201cQuando essa retomada se d\u00e1 de forma individual os desafios s\u00e3o maiores, pois h\u00e1 toda uma luta para ser reconhecido por uma comunidade que muitas vezes, devido \u00e0 pr\u00f3pria a\u00e7\u00e3o do Estado, sofreu o processo de desterritorializa\u00e7\u00e3o que criou o afastamento ao territ\u00f3rio de origem, fazendo com que n\u00e3o haja o reconhecimento da comunidade origin\u00e1ria. Isso aumenta o desafio em descolonizar a pr\u00f3pria vis\u00e3o dos parentes que n\u00e3o reconhecem esse processo de coloniza\u00e7\u00e3o que causou esse afastamento, afinal, todos os povos ind\u00edgenas sofreram interfer\u00eancias colonizadoras, ent\u00e3o precisamos todos fazer essa descoloniza\u00e7\u00e3o\u201d, relata M\u00e1rcia Mura, em entrevista por e-mail \u00e0 IHU On-Line.<\/p>\n<p>Puxar os fios do passado requer uma sutileza que nem sempre \u00e9 poss\u00edvel de ser interpretado pelo c\u00e2none do pensamento branco. \u201cPara tecer tradi\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas \u00e9 preciso se reconectar espiritualmente aos antepassados e ir puxando os fios de mem\u00f3ria e vivenciar coletivamente o modo de ser ind\u00edgena na base cultural e no comprometimento com as lutas das causas ind\u00edgenas\u201d, explica a entrevistada. \u201cMinha afirma\u00e7\u00e3o ind\u00edgena s\u00f3 refor\u00e7ou minha atua\u00e7\u00e3o como cidad\u00e3 e ser humano, pois ao lutarmos por demarca\u00e7\u00e3o de nossos territ\u00f3rios estamos lutando por um mundo melhor para toda a humanidade\u201d, frisa. Tais gestos, por mais singelos que pare\u00e7am, confluem para o rio da legitima\u00e7\u00e3o pol\u00edtica t\u00e3o necess\u00e1ria a estes povos, sobretudo no atual momento de ataque massivo dessas popula\u00e7\u00f5es. \u201cA situa\u00e7\u00e3o dos Povos Ind\u00edgenas nunca foi boa desde a chegada dos colonizadores, mas resistimos a 518 anos e vamos continuar resistindo. Atualmente, a pol\u00edtica governamental tem se tornado cada vez mais ofensiva. A viol\u00eancia contra os Povos Ind\u00edgenas est\u00e1 cada vez mais acirrada\u201d, sustenta.<\/p>\n<p>M\u00e1rcia Nunes Maciel \u00e9 da etnia Mura e seu sentimento de identidade \u00e9 respaldado coletivamente pelos Mura do rio Itataparan\u00e3. Faz parte junto aos Mura do Itataparan\u00e3 e Capan\u00e3 Grande do Movimento de retomada territorial, identidade e cultura Mura. Em 2010 ganhou o pr\u00eamio de interc\u00e2mbio cultural do Minist\u00e9rio da Cultura &#8211; Minc, para apresentar sua pesquisa de mestrado sobre mulheres que vivenciam o espa\u00e7o do seringal na Amaz\u00f4nia, realizada na Universidade Federal do Amazonas &#8211; UFAM. \u00c9 autora do livro: O Espa\u00e7o Lembrado &#8211; Experi\u00eancias de Vidas em Seringais da Amaz\u00f4nia. Faz parte do Instituto Madeira Vivo e do N\u00facleo de Estudos em Hist\u00f3ria Oral &#8211; NEHO\/USP. \u00c9 doutora em Hist\u00f3ria Social na Universidade de S\u00e3o Paulo &#8211; USP.<\/p>\n<p>Confira a entrevista.<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2013 Conte-nos um pouco sobre sua recupera\u00e7\u00e3o da ancestralidade ind\u00edgena, em particular de sua perten\u00e7a Mura. Que desafios voc\u00ea enfrentou nessa caminhada de reafirma\u00e7\u00e3o?<br \/>\nM\u00e1rcia Mura \u2013 Como Rigoberta Mench\u00fa , tamb\u00e9m posso dizer eu me chamo M\u00e1rcia Mura e assim nasceu minha consci\u00eancia. A minha ancestralidade Ind\u00edgena foi repassada por minha av\u00f3 materna, que mesmo n\u00e3o dizendo em palavras que era ind\u00edgena, me ensinou a ser. A rela\u00e7\u00e3o que tenho com a natureza foi minha av\u00f3 que me ensinou, mas politicamente s\u00f3 passei a me afirmar como Mura em 2012 quando me sentia forte o suficiente para enfrentar tudo que viesse pela frente, todo preconceito, toda falta de compreens\u00e3o. Esta minha tomada de consci\u00eancia tamb\u00e9m foi um processo que se construiu por meio das partilhas, das viv\u00eancias, das lutas junto aos outros parentes ind\u00edgenas Mura e de outras etnias. Ap\u00f3s minha afirma\u00e7\u00e3o de pertencimento \u00e0 etnia Mura passei a me entender mais. Hoje me sinto segura, forte e protegida por Namatuyki que, para n\u00f3s Mura, \u00e9 o criador de todas as coisas.<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2013 Como voc\u00ea percebe e compreende essa reafirma\u00e7\u00e3o do ser e do modo de ser ind\u00edgenas?<br \/>\nM\u00e1rcia Mura \u2013 Essa retomada s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel porque, apesar de toda coloniza\u00e7\u00e3o, os modos de ser ind\u00edgenas se mant\u00eam vivos, mas muitas vezes, adormecidos dentro de n\u00f3s. A partir do momento que h\u00e1 um trabalho de descoloniza\u00e7\u00e3o, ou seja, de conscientiza\u00e7\u00e3o de que nossas mem\u00f3rias ancestrais foram roubadas pelos colonizadores, passamos a buscar esse renascimento de nossas ancestralidades. Quando \u00e9 coletivo tem muito mais for\u00e7a nas retomadas territoriais, culturais, ancestrais, como vem acontecendo com a retomada Mura na Amaz\u00f4nia em alguns territ\u00f3rios que haviam se tornado seringais no per\u00edodo da borracha. Na minha leitura hist\u00f3rica o seringal foi mais uma pol\u00edtica de introdu\u00e7\u00e3o dos ind\u00edgenas na sociedade nacional, pois esses territ\u00f3rios foram constru\u00eddos em cima de territ\u00f3rios ind\u00edgenas, onde houve sequestro de mulheres ind\u00edgenas, conflitos entre seringueiros que j\u00e1 haviam passado por processos de desterritorializa\u00e7\u00e3o, com os ind\u00edgenas livres e aldeados. Com isso, muitos ind\u00edgenas passaram a ser seringueiros e, devido \u00e0 discrimina\u00e7\u00e3o aliada \u00e0 pol\u00edtica de genoc\u00eddio ind\u00edgena, muitos deixaram de se afirmar ind\u00edgenas, dentre eles os Mura. Somente agora, a partir dos anos 2000, que os Mura entre Manicor\u00e9 e Humait\u00e1 passaram a fazer mais fortemente essa retomada. Neste ano de 2018 houve o primeiro encontro do Povo Mura na aldeia Sissaima no munic\u00edpio de Careiro da V\u00e1rzea; l\u00e1 eu pude ver que n\u00f3s Mura estamos numa bonita retomada e com mais for\u00e7a no Estado do Amazonas.<\/p>\n<p>Quando essa retomada se d\u00e1 de forma individual os desafios s\u00e3o maiores, pois h\u00e1 toda uma luta para ser reconhecido por uma comunidade que, muitas vezes, devido \u00e0 pr\u00f3pria a\u00e7\u00e3o do Estado, sofreu o processo de desterritorializa\u00e7\u00e3o que criou o afastamento ao territ\u00f3rio de origem, fazendo com que n\u00e3o haja o reconhecimento da comunidade origin\u00e1ria. Isso aumenta o desafio em descolonizar a pr\u00f3pria vis\u00e3o dos parentes que n\u00e3o reconhecem esse processo de coloniza\u00e7\u00e3o que causou esse afastamento, afinal, todos os povos ind\u00edgenas sofreram interfer\u00eancias colonizadoras, ent\u00e3o precisamos todos fazer essa descoloniza\u00e7\u00e3o. \u00c9 preciso retomar uma mem\u00f3ria e ancestralidade ind\u00edgena e se reconectar com a natureza e com os ancestrais de forma espiritual, pois, como bem me disse Ailton Krenak , \u201cN\u00e3o esque\u00e7a que a mem\u00f3ria ind\u00edgena \u00e9 ancestral e \u00e9 preciso ir puxando seus fios\u201d. Nesse sentido digo que para tecer tradi\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas \u00e9 preciso se reconectar espiritualmente aos antepassados e ir puxando os fios de mem\u00f3ria e vivenciar coletivamente o modo de ser ind\u00edgena na base cultural e no comprometimento com as lutas das causas ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2013 Conte-nos um pouco de sua hist\u00f3ria pessoal, de sua trajet\u00f3ria como mulher ind\u00edgena&#8230;<br \/>\nM\u00e1rcia Mura \u2013 Eu nasci na cidade de Porto Velho, em uma comunidade formada por seringueiros que migraram para a cidade na d\u00e9cada de 1960 devido \u00e0 decad\u00eancia da borracha. Essa comunidade fica no Bairro Tri\u00e2ngulo, \u00e0s margens do Rio Madeira, territ\u00f3rio ancestral Mura, marcado no mapa etno-hist\u00f3rico de Curt Nimuendaju, come\u00e7ando por Porto Velho indo at\u00e9 o Rio Negro. Esse mapa marca os antigos territ\u00f3rios Mura, mas tamb\u00e9m sua dispers\u00e3o conforme o avan\u00e7o da coloniza\u00e7\u00e3o. Por esse motivo, hoje os Mura assumidos encontram-se mais fortes e em maior quantidade no Estado do Amazonas, enquanto que, em Porto Velho, Rond\u00f4nia, h\u00e1 muitas fam\u00edlias Mura, mas vivem na invisibilidade e a cartografia oficial da cidade apaga totalmente a ocupa\u00e7\u00e3o tradicional Mura. Ent\u00e3o, mesmo que eu n\u00e3o tenha nascido numa aldeia, nasci dentro do territ\u00f3rio ancestral do meu povo.<\/p>\n<p>Quando eu era crian\u00e7a eu n\u00e3o tinha consci\u00eancia que era ind\u00edgena, pois minha fam\u00edlia n\u00e3o se afirmava enquanto tal, por\u00e9m mantinha seu modo de ser ind\u00edgena mesmo na cidade e ligada sempre \u00e0s comunidades de Nazar\u00e9, \u00e0s margens do Rio Madeira, que foi antigo seringal e tamb\u00e9m ao s\u00edtio na beira da estrada BR-364 que vai para o munic\u00edpio de Guajar\u00e1 Mirim, que meu tio Manel, filho da minha av\u00f3 materna, tomava conta durante toda a minha inf\u00e2ncia, e depois na minha adolesc\u00eancia, mudou-se para a comunidade de S\u00e3o Miguel ainda nas margens do Rio Madeira. Esses lugares, as margens do Rio Madeira e as \u00e1reas de s\u00edtio na beira da estrada, possibilitaram que eu crescesse com uma forte liga\u00e7\u00e3o com a natureza, de pescar, pular n\u2019\u00e1gua, andar de canoa, coletar frutos na floresta. Tem uma lembran\u00e7a da minha inf\u00e2ncia muito bonita com meus primos e meu tio Manel l\u00e1 do s\u00edtio que ele morava na beira da estrada, indo para Guajar\u00e1 Mirim. Me lembro com muita afetividade do dia em que n\u00f3s est\u00e1vamos num igap\u00f3 que secou, estava s\u00f3 a lama, e nos enfiamos naquela lama cercando os peixes que ficavam nas proximidades ou entre ra\u00edzes de \u00e1rvores na maior alegria. Lembro tamb\u00e9m de um per\u00edodo da cheia do rio, quando o tio Manel j\u00e1 morava na comunidade S\u00e3o Miguel \u00e0s margens do rio Madeira, ele fez uma jangada de troncos de bananeira e eu com minha prima ia em cima dela nas casas dos parentes, e eu, \u00e0s vezes, ia sozinha pegar \u00e1gua no canal onde passava o rio, aceitando o desafio do meu tio para mostrar que eu era corajosa e capaz de conduzir a jangada sozinha. Lembro de uma pescaria com a tia Alvina, que eu me deslumbrava com os peixes que eu via na \u00e1gua transparente e que fez com que a minha tia n\u00e3o pegasse nenhum peixe nesse dia. Lembro das nossas idas e da minha av\u00f3 de canoa, saindo da vila de Nazar\u00e9 e indo para a casa de farinha do Tio Jo\u00e3o Lobato e da tia Maria l\u00e1 no lago do Peixe Boi. Lembro das brincadeiras com barro e de pular n\u2019\u00e1gua com primas e primos.<\/p>\n<p>Na cidade mesmo eu sempre ouvia o canto do Bem-te-vi e minha av\u00f3 dizia que era meu pai, o apelido dele era Bem-te-vi e ele era separado da minha m\u00e3e, ent\u00e3o toda vez que o p\u00e1ssaro Bem-te-vi cantava minha av\u00f3 dizia \u201cOlha o teu pai te chamando\u201d. Isso fez eu acreditar que eu era filha desse p\u00e1ssaro, ainda hoje quando eu estou me sentindo triste ou quando estou numa fase de tomadas de decis\u00e3o ele sempre aparece para cantar para mim. Aonde eu vou o Bem-te-vi me acompanha e aparece nos momentos que eu preciso de um \u00e2nimo, at\u00e9 mesmo quando eu estava em S\u00e3o Paulo fazendo o doutorado, ele aparecia para cantar para mim, por isso eu acredito mesmo que sou filha do Bem-te-vi.<\/p>\n<p>Ser ind\u00edgena<\/p>\n<p>Embora eu tenha me criado vivenciando o modo de ser ind\u00edgena, minha tomada de consci\u00eancia enquanto ind\u00edgena s\u00f3 se firmou em 2012 quando passei a interagir com parentes ind\u00edgenas em S\u00e3o Paulo, os que s\u00e3o do Grupo de Trabalho ind\u00edgena de S\u00e3o Paulo, os outros de outras frentes ind\u00edgenas. Mas quem me orientou e me incentivou a assumir minha afirma\u00e7\u00e3o ind\u00edgena de forma pol\u00edtica foi o Borum, um parente e grande amigo que conheci em S\u00e3o Paulo. Antes disso, desde os meus 18 anos de idade eu atuava como apoiadora da causa ind\u00edgena. Aos 18 coordenava o grupo de apoio aos Povos Ind\u00edgenas em Porto Velho que era assessorado pelo Conselho Indigenista Mission\u00e1rio &#8211; Cimi; desde o in\u00edcio me enganchei na luta pela autonomia dos Povos Ind\u00edgenas. Devido a essa minha atua\u00e7\u00e3o no grupo de apoio aos Povos Ind\u00edgenas, quando entrei em 2006 na gradua\u00e7\u00e3o de Hist\u00f3ria na Universidade Federal de Rond\u00f4nia, em todos os trabalhos que fiz ligados \u00e0 Amaz\u00f4nia e ao Brasil abordei a quest\u00e3o Ind\u00edgena. Foi na gradua\u00e7\u00e3o que realizei meu primeiro trabalho de pesquisa engajada politicamente com Povos Ind\u00edgenas, minha monografia de Bacharelado intitulada A Constru\u00e7\u00e3o de uma Identidade \u2013 Hist\u00f3ria Oral com o Povo Ind\u00edgena Cassup\u00e1. Depois, j\u00e1 em 2004 atuei na educa\u00e7\u00e3o escolar ind\u00edgena por meio da Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o do Estado de Rond\u00f4nia. Em 2006 fui fazer o Mestrado em Sociedade e Cultura na Amaz\u00f4nia e l\u00e1 comecei a pensar na import\u00e2ncia pol\u00edtica da afirma\u00e7\u00e3o ind\u00edgena para combater o apagamento ind\u00edgena. Essa retrospectiva de atua\u00e7\u00f5es demonstra que mesmo quando eu n\u00e3o me assumia politicamente como ind\u00edgena, j\u00e1 estava na luta pelos direitos dos Povos Ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>Hoje na atua\u00e7\u00e3o no movimento ind\u00edgena me sinto fortalecida pela rede de lutas composta por parentes de diferentes Povos Ind\u00edgenas do Brasil e de outros pa\u00edses da amer\u00edndia.<\/p>\n<p>Como Mulher ind\u00edgena, aprendo muito com as mulheres mais velhas e com as que est\u00e3o nas frentes de lutas e tamb\u00e9m me sinto realizada quando uma parenta chega pra mim e me fala que me tem como refer\u00eancia de guerreira, isso me faz sentir ainda mais respons\u00e1vel em contribuir com o fortalecimento das mulheres ind\u00edgenas na luta por direitos junto aos homens ind\u00edgenas, pois juntos somos mais fortes.<\/p>\n<p>Minha afirma\u00e7\u00e3o ind\u00edgena s\u00f3 refor\u00e7ou minha atua\u00e7\u00e3o como cidad\u00e3 e ser humano, pois ao lutarmos por demarca\u00e7\u00e3o de nossos territ\u00f3rios estamos lutando por um mundo melhor para toda a humanidade.<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2013 Como voc\u00ea concebe seu trabalho como mulher professora, artista e militante ind\u00edgena?<br \/>\nM\u00e1rcia Mura \u2013 Como professora sempre atuei na conscientiza\u00e7\u00e3o sobre os direitos dos Povos Ind\u00edgenas e na desconstru\u00e7\u00e3o dos estere\u00f3tipos. Depois fui me tornando pesquisadora engajada na causa ind\u00edgena e aos poucos fui tomando consci\u00eancia de mim como portadora de saberes n\u00e3o apenas como pesquisadora. Foi a\u00ed que comecei a n\u00e3o me prender \u00e0s regras acad\u00eamicas e passei a fazer as trocas de saberes, enfatizando o modo de fazer ind\u00edgena.<\/p>\n<p>N\u00e3o me considero uma artista, eu apenas escrevo algumas narrativas onde procuro expressar de uma forma mais subjetiva minha percep\u00e7\u00e3o ind\u00edgena e gosto tamb\u00e9m de compartilhar literatura, dan\u00e7as, hist\u00f3rias, alimentos ind\u00edgenas com as crian\u00e7as da comunidade e os meus alunos na escola, como forma de descolonizar a educa\u00e7\u00e3o. Uma das coisas que me deixa realizada \u00e9 estar com as crian\u00e7as, compartilhando narrativas ind\u00edgenas, cantos, dan\u00e7as, alimentos ind\u00edgenas, e mesmo um grande ritual.<\/p>\n<p>Minha milit\u00e2ncia se d\u00e1 diretamente na demarca\u00e7\u00e3o da terra ind\u00edgena Mura, no Itaparan\u00e3, ao sul do Amazonas; no movimento de retomada Mura na Amaz\u00f4nia; no coletivo Mura em Porto Velho na reivindica\u00e7\u00e3o do reconhecimento da cidade de Porto Velho como territ\u00f3rio de mem\u00f3ria Mura e na luta por direitos de todos os Povos Ind\u00edgenas a n\u00edvel local e nacional. Todas as minhas lutas est\u00e3o interligadas com minha atua\u00e7\u00e3o como educadora dentro e fora da sala de aula.<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2013 Ainda como professora, como voc\u00ea concebe a educa\u00e7\u00e3o e, nela, a imagem, o protagonismo e os valores propostos pelos povos ind\u00edgenas?<br \/>\nM\u00e1rcia Mura \u2013 Na escola Francisco Desmorest Passos a minha pr\u00f3pria presen\u00e7a j\u00e1 \u00e9 uma interven\u00e7\u00e3o ind\u00edgena. Todos os dias eu coloco meus adere\u00e7os ind\u00edgenas e meu risco no olho que j\u00e1 se tornou uma marca ind\u00edgena e que as minhas alunas gostam muito. Elas acham bonito meu jeito ind\u00edgena de me arrumar para ir para a escola. Ter uma professora ind\u00edgena em uma escola de contexto ribeirinho, mesmo estando na floresta e \u00e0s margens do Rio Madeira e com pessoas de ascend\u00eancia ind\u00edgena, contribuiu para que fosse constru\u00edda uma refer\u00eancia para as alunas e alunos se sentirem \u00e0 vontade para falar de seus av\u00f3s ind\u00edgenas, j\u00e1 que muitos deles t\u00eam vergonha de sua ascend\u00eancia. Tamb\u00e9m fazer grafismos ind\u00edgenas no corpo e provocar os alunos a fazerem seus pr\u00f3prios adere\u00e7os ind\u00edgenas, mesmo no caso daqueles que ainda n\u00e3o se assumem como ind\u00edgenas, passou a construir uma vis\u00e3o respeitosa sobre os Povos Ind\u00edgenas. Esse \u00e9 um processo que vem se dando aos poucos por meio do projeto de rodas de conversa de modos de ser ind\u00edgena no abril ind\u00edgena, do encontro de saberes e sabores, onde os alunos e alunas s\u00e3o motivados a apresentarem os alimentos, os rem\u00e9dios, as dan\u00e7as, o modo de explicar as coisas locais e tradicionais para dialogar com os saberes das disciplinas escolares. Al\u00e9m disso, as interven\u00e7\u00f5es com literatura ind\u00edgena e pesquisas de hist\u00f3ria oral \u2013 tradi\u00e7\u00e3o oral realizada na escola com alunas e alunos. Todas essas a\u00e7\u00f5es est\u00e3o interligadas ao projeto de descoloniza\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2013 A arte pode contribuir para a promo\u00e7\u00e3o e a valoriza\u00e7\u00e3o das culturas ind\u00edgenas? Da mesma forma, a arte pode assumir um papel de cr\u00edtica social, especialmente sobre a quest\u00e3o ind\u00edgena?<br \/>\nM\u00e1rcia Mura \u2013 Sim, sem d\u00favida. Quando \u00e9 uma arte de resist\u00eancia que visa a valoriza\u00e7\u00e3o das culturas ind\u00edgenas, mas tenho me entristecido ao visitar exposi\u00e7\u00f5es de artes e galerias que se prop\u00f5em a apresentar a cultura humana nos diferentes tempos e apagam a cultura ind\u00edgena, parece que ela s\u00f3 tem lugar como algo \u00e0 parte. Uma vez fui numa exposi\u00e7\u00e3o em S\u00e3o Paulo onde havia as vestimentas e m\u00fasicas nos diferentes tempos e n\u00e3o vi nada referente aos ind\u00edgenas e isso me deixou entristecida. Sei que tem acontecido muita coisa no campo da arte em S\u00e3o Paulo com ind\u00edgenas e isso \u00e9 muito importante, mas estou falando que quando se fala em cultura de forma geral os ind\u00edgenas n\u00e3o s\u00e3o inclu\u00eddos.<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2013 Como voc\u00ea percebe a situa\u00e7\u00e3o dos povos ind\u00edgenas no pa\u00eds?<br \/>\nM\u00e1rcia Mura \u2013 A situa\u00e7\u00e3o dos Povos Ind\u00edgenas nunca foi boa desde a chegada dos colonizadores, mas resistimos a 518 anos e vamos continuar resistindo. Atualmente, a pol\u00edtica governamental tem se tornado cada vez mais ofensiva. A viol\u00eancia contra os Povos Ind\u00edgenas est\u00e1 cada vez mais acirrada. Acredito que a perspectiva do movimento ind\u00edgena \u00e9 continuar lutando pela demarca\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios ind\u00edgenas e pela garantia dos que j\u00e1 foram demarcados. Fortalecer as bases e continuar no enfrentamento \u00e0s pol\u00edticas de genoc\u00eddio Ind\u00edgena como, por exemplo, a Resolu\u00e7\u00e3o 001\/2017 da Advocacia Geral da Uni\u00e3o &#8211; AGU, dentre tantas outras. A luta \u00e9 por autonomia e garantia de direitos.<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2013 Desejaria acrescentar algo?<br \/>\nM\u00e1rcia Mura \u2013 S\u00f3 quero agradecer a oportunidade de compartilhar ideias, sonhos e lutas. Kwekatu Ret\u00e9! \u25a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No Instituto Humanitas Unisinos, por Ricardo Machado, Julie Dorrico e Leno Danner &#8211; M\u00e1rcia Mura, doutora em Hist\u00f3ria Social, encontrou na sua ancestralidade e na sua atua\u00e7\u00e3o profissional uma forma de retomar a identidade de um povo extinto pela historiografia, os Mura.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-18865","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-4Uh","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18865","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18865"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18865\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18867,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18865\/revisions\/18867"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18865"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18865"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18865"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}