{"id":19103,"date":"2018-10-17T08:40:56","date_gmt":"2018-10-17T12:40:56","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=19103"},"modified":"2018-10-17T08:40:56","modified_gmt":"2018-10-17T12:40:56","slug":"a-roupa-nova-do-rei-brasil-uma-fabula-para-todas-as-epocas","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2018\/10\/17\/a-roupa-nova-do-rei-brasil-uma-fabula-para-todas-as-epocas\/","title":{"rendered":"A ROUPA NOVA DO REI BRASIL \u2013 UMA F\u00c1BULA PARA TODAS AS \u00c9POCAS"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"19104\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2018\/10\/17\/a-roupa-nova-do-rei-brasil-uma-fabula-para-todas-as-epocas\/624e5041-439a-4bfb-8c86-2007531e8566\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/624E5041-439A-4BFB-8C86-2007531E8566.jpeg?fit=400%2C357\" data-orig-size=\"400,357\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"624E5041-439A-4BFB-8C86-2007531E8566\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/624E5041-439A-4BFB-8C86-2007531E8566.jpeg?fit=300%2C268\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/624E5041-439A-4BFB-8C86-2007531E8566.jpeg?fit=400%2C357\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/624E5041-439A-4BFB-8C86-2007531E8566.jpeg?resize=400%2C357\" alt=\"624E5041-439A-4BFB-8C86-2007531E8566\" width=\"400\" height=\"357\" class=\"alignnone size-full wp-image-19104\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/624E5041-439A-4BFB-8C86-2007531E8566.jpeg?w=400 400w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/624E5041-439A-4BFB-8C86-2007531E8566.jpeg?resize=300%2C268 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/624E5041-439A-4BFB-8C86-2007531E8566.jpeg?resize=336%2C300 336w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/p>\n<p>O Rei era muito vaidoso. Um vaidoso de marca maior. E tinha um fraco especial por roupas novas. Com cal\u00e7\u00f5es e mangas bufantes, mantos arrastando pelo ch\u00e3o. Quanto mais comprido melhor. Sua grande distra\u00e7\u00e3o e o ponto alto de seu reinado era quando desfilava por seus dom\u00ednios com suas roupas novas. <!--more--><\/p>\n<p>Os arautos corriam todos os vilarejos avisando a data e a hora, colocavam cartazes, e todos os s\u00faditos eram obrigados a estar ali a postos para assistir \u00e0 passagem da nova roupa real.<\/p>\n<p>O Rei vaidoso, filho de pais exc\u00eantricos, que o batizaram com o nome de uma \u00e1rvore ex\u00f3tica, de um continente remoto, o Pau Brasil,  j\u00e1 tinha provado dos talentos dos maiores alfaiates do mundo. Os Saint-Laurents, Givenchys, Dolce&#038;Gabbanas, Armanis, Versaces da \u00e9poca, todos j\u00e1 tinham estagiado no pal\u00e1cio costurando uma roupa nova para o Rei. Quem seria o pr\u00f3ximo?<\/p>\n<p>E foi nesse momento de majestosa indecis\u00e3o que apareceu l\u00e1 pelos lados do reino um vigarista de terras distantes, tremendo 171, que, sabedor da fraqueza do soberano, fez-se passar por um alfaiate muito famoso l\u00e1 de onde vinha e prometeu ao Rei que criaria para ele a mais linda das roupas que jamais ele tivera ou sonhara ter. Um modelito haute couture, refinad\u00e9rrimo, que sairia muito caro, car\u00edssimo, pois necessitava aviamentos especiais, linhas de ouro e prata, mi\u00e7angas de diamantes, esmeraldas, safiras, colchetes de platina e por a\u00ed foi.<\/p>\n<p>Encantado com tantas extravag\u00e2ncias, o Rei lhe fez todas as vontades. O pilantra, ent\u00e3o, guardou no seu ba\u00fa todo aquele tesouro, e l\u00e1 ficou diante do tear tecendo com fios imagin\u00e1rios e bordando com pedras inexistentes dias e dias.<\/p>\n<p>Fazia isso com tal zelo, pompa, arrog\u00e2ncia, ares de import\u00e2ncia e convic\u00e7\u00e3o, que as pessoas, para n\u00e3o se fazerem passar por idiotas, confirmavam que, sim, elas o viram costurando a roupa do Rei!<\/p>\n<p>At\u00e9 que chegou o dia de \u201cMonsieur\u201d estilista vestir o Rei para a grande parada. O povo lotava as ruas ansioso. As bandeirolas, a expectativa, os cochichos: \u201cSer\u00e1 que a roupa dele vai ser mais bonita do que aquela do Gucci?\u201d, perguntavam-se alguns. Alguns at\u00e9 faziam bolo de apostas: \u201cJoguei todas as minhas economias naquela veste do Calvin Klein, com manto clean. Pra mim vai desbancar a desse Monsieur estrangeiro\u201d.<\/p>\n<p>E estava o pov\u00e3o nesse tit-ti-ti, enquanto o Monsieur costureiro provava, diante do espelho, a roupa no Rei, cercado dos usuais nobres puxa-sacos.<\/p>\n<p>O Rei Brasil, inicialmente inseguro e intrigado diante daquela roupa invis\u00edvel, que o estilista, afetado, requintado, sofisticado, exibia com tantos salamaleques, misturando o idioma local com v\u00e1rias palavras afrancesadas, porque era tr\u00e8s chic, come\u00e7ou a ficar impressionado e, j\u00e1 que nada enxergava, julgando estar sofrendo ou de catarata ou de Alzheimer, pra n\u00e3o dar bandeira, exclamou: \u201cQue lindas vestes! Voc\u00ea fez um trabalho magn\u00edfico!\u201d.<\/p>\n<p>Os aspones em volta fizeram coro, em franc\u00eas, naturalmente (porque era tr\u00e8s chic, repito)\u2026<\/p>\n<p>Primeiro vieram as bajula\u00e7\u00f5es em \u201cique\u201d. \u201cMagnifique\u201d, disse um. Seguido em coro por \u201cFantastique\u201d, \u201cF\u00e9erique\u201d, \u201cAristocratique\u201d, \u201cMonarchique\u201d, \u201cMirifique\u201d\u2026<\/p>\n<p>Depois, repetindo o ritual de sempre, nas provas das roupas, vieram os elogios em \u201cant\u201d: \u201c\u00c9clatant\u201d, \u201c\u00c9blouissant\u201d, \u201cResplendissant\u201d,\u201d\u00c9tincelant\u201d, \u201cFlamboyant\u201d, \u201cBrillant\u201d, \u201cRutilant\u201d, \u201cRayonnant\u201d, \u201cPuissant\u201d, \u201cImposant\u201d, \u201cImportant\u201d, \u201cMirobolant\u201d, \u201cMarquant\u201d, \u201c\u00c9tonnant\u201d&#8230;<\/p>\n<p>Em seguinda, com termina\u00e7\u00e3o em \u201cel\u201d: \u201cSensationnel\u201d, \u201cSurnaturel\u201d, \u201cSolennel\u201d\u2026<\/p>\n<p>Por fim a apoteose dos \u201ceux\u201d: \u201cSomptueux\u201d,\u201dMerveilleux\u201d, \u201cRadieux\u201d, \u201cFastueux\u201d, \u201cLumineux\u201d, \u201cLuxueux\u201d, \u201cMajestueux\u201d, \u201cGlorieux\u201d, \u201cFameux\u201d, \u201cPrestigieux\u201d, \u201cMiraculeux\u201d, \u201cProdigieux\u201d,\u201dFabuleux\u201d, \u201cCourageux\u201d\u2026<\/p>\n<p>Teve um, que n\u00e3o havia decorado o vocabul\u00e1rio franc\u00eas distribu\u00eddo pela assessoria real para ser pronunciado pela corte e soltou uns \u201cJabaculeux\u201d, \u201cCongel\u00ea\u201d (provavelmente referindo-se ao frio que o rei desnudo estaria sentindo em pleno inverno), \u201cVexam\u00ea\u201d. Mas, no meio de tantas palavras rococ\u00f3s, ningu\u00e9m percebeu e tamb\u00e9m ficaram valendo como elogios.<\/p>\n<p>Foi assim, cercado de suspiros de admira\u00e7\u00e3o, com o ego l\u00e1 em cima, espetado mais alto do que o rubi no topo de sua coroa, que o Rei sai, nuz\u00e3o, de cetro na m\u00e3o, e foi desfilar sua banha, depois de consumir dois javalis no almo\u00e7o, diante da multid\u00e3o.<\/p>\n<p>O povo at\u00e9 achou esquisito o rei pelado virar-se, pra l\u00e1 e pra c\u00e1, como se segurasse um manto (o estilista ensinou-o a fazer assim), fazendo piv\u00f4s com sua capa aristocr\u00e1tica, pretensamente coberta de pedras preciosas.<\/p>\n<p>Sim, porque os jornais locais j\u00e1 haviam descrito a roupa detalhadamente, at\u00e9 os croquis haviam sido divulgados em detalhes (o vigarista era bom desenhista) e todos sabiam como a roupa efetivamente era (ou seria).<\/p>\n<p>Como n\u00e3o a enxergaram, todos daquele reinado temeram sofrer ou de catarata ou de Alzheimer e, para n\u00e3o dar bandeira, exclamaram: \u201cQue marrrravilha!\u201d. \u201cAh, esta bateu o Fendi disparado\u201d. \u201cNem o Ferragamo faria melhor\u201d. \u201cQue Dior que nada, estilista bom \u00e9 o estrangeiro\u201d. Por fim: \u201cEstou ferrado, perdi todas as minhas economias!!!\u201d\u2026<\/p>\n<p>At\u00e9 que um menino, sim, uma despretensiosa e desimportante crian\u00e7a, apontou para o Rei com os olhos bem abertinhos e gritou: \u201cO Rei est\u00e1 nu!\u201d.<\/p>\n<p>E todos os olhos do Reino se abriram. E todos constataram que n\u00e3o tinham catarata, muito menos Alzheimer, e que estavam certos em seu julgamento inicial sobre o qu\u00e3o rid\u00edculo era aquele espet\u00e1culo de salamaleques falsos, piv\u00f4s pelados e manto fict\u00edcio balan\u00e7ando pra l\u00e1 e pra c\u00e1.<\/p>\n<p>O Rei estava nu, nuz\u00e3o, \u201cnuzinho, pelado, nu com a m\u00e3o no bolso\u201d, como dizia a can\u00e7\u00e3o da abertura da novela.<\/p>\n<p>E o povo p\u00f4de ver com os pr\u00f3prios olhos e pensar com a pr\u00f3pria cabe\u00e7a e julgar com o pr\u00f3prio ju\u00edzo. E riu e gargalhou e se fartou. E cantou e dan\u00e7ou, gozando o \u201cgrande mico\u201d do Rei.<\/p>\n<p>E naquela noite, naquele reino, houve uma festan\u00e7a inesquec\u00edvel, com todos opinando, comentando o qu\u00e3o rid\u00edculo e lastim\u00e1vel era ter um Rei t\u00e3o vaidoso a ponto de achar que podia dominar as mentes de um reino inteiro.<\/p>\n<p>Pois, seja num reino de contos de fadas ou num reino de contos de m\u00eddia, n\u00e3o basta mais do que um \u00fanico dedo que aponte para qualquer castelo constru\u00eddo sobre as funda\u00e7\u00f5es da mentira come\u00e7ar a desmoronar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Rei era muito vaidoso. Um vaidoso de marca maior. E tinha um fraco especial por roupas novas. Com cal\u00e7\u00f5es e mangas bufantes, mantos arrastando pelo ch\u00e3o. Quanto mais comprido melhor. 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