{"id":19211,"date":"2018-10-25T13:59:14","date_gmt":"2018-10-25T17:59:14","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=19211"},"modified":"2018-10-25T13:59:14","modified_gmt":"2018-10-25T17:59:14","slug":"opiniao-o-crescimento-do-fascismo-no-brasil-e-os-desafios-da-resistencia","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2018\/10\/25\/opiniao-o-crescimento-do-fascismo-no-brasil-e-os-desafios-da-resistencia\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: O crescimento do fascismo no Brasil e os desafios da resist\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"19212\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2018\/10\/25\/opiniao-o-crescimento-do-fascismo-no-brasil-e-os-desafios-da-resistencia\/vi-4\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/vi.jpg?fit=960%2C720\" data-orig-size=\"960,720\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"vi\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/vi.jpg?fit=300%2C225\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/vi.jpg?fit=600%2C450\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/vi.jpg?resize=600%2C450\" alt=\"vi\" width=\"600\" height=\"450\" class=\"alignnone size-full wp-image-19212\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/vi.jpg?w=960 960w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/vi.jpg?resize=300%2C225 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/vi.jpg?resize=768%2C576 768w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/vi.jpg?resize=400%2C300 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p>O crescimento do fascismo no Brasil atual n\u00e3o \u00e9 equivalente ao fascismo de Estado consolidado, tal como na It\u00e1lia de Mussolini, apesar das semelhan\u00e7as. N\u00e3o obstante, a mentalidade fascista est\u00e1 presente, de forma cada vez mais expl\u00edcita, tanto nos discursos e pr\u00e1ticas de pol\u00edticos e celebridades, quanto nos cidad\u00e3os comuns. Por isso, o fascismo de Estado torna-se uma amea\u00e7a concreta. <\/p>\n<p>Por Vitor Cei<\/p>\n<p>O que \u00e9 fascismo? Grosso modo, fascista seria todo regime pol\u00edtico autorit\u00e1rio, antidemocr\u00e1tico, nacionalista (\u201cBrasil acima de tudo\u201d), baseado na for\u00e7a, na censura e na supress\u00e3o violenta da oposi\u00e7\u00e3o (\u201cvamos fuzilar a petralhada\u201d). As caracter\u00edsticas principais s\u00e3o as seguintes: culto ao l\u00edder (o mito); uniformiza\u00e7\u00e3o do vestu\u00e1rio (camisa da CBF ou do mito); exist\u00eancia de um inimigo ao qual atribuem todos os males do pa\u00eds (o PT); defesa da viol\u00eancia e do militarismo (\u201co erro da Ditadura foi torturar e n\u00e3o matar\u201d); anti-intelectualismo (\u201cH\u00e1 uma certa tara por parte da garotada em ter um diploma\u201d); pauta pol\u00edtica \u00fanica (seguran\u00e7a p\u00fablica), ignorando as m\u00faltiplas necessidades da popula\u00e7\u00e3o; vis\u00e3o distorcida da tradi\u00e7\u00e3o e defesa de um conceito \u00fanico para ideias abrangentes como p\u00e1tria e fam\u00edlia; desprezo pelos Direitos Humanos; simplifica\u00e7\u00e3o da linguagem (reduzida a frases feitas, gritos de guerra ou hashtags). <\/p>\n<p>Nos livros Brasil em crise (Praia Editora, 2015) e O que resta das jornadas de junho (Editora Fi, 2017), n\u00f3s mostramos o crescimento do fascismo no Brasil desde as jornadas de junho de 2013. Aquele movimento, apesar de difuso, se consolidou em algumas agendas com pautas que apontam para a crise do espa\u00e7o p\u00fablico e o acirramento das lutas de classes, onde se produzem e se enfrentam posi\u00e7\u00f5es heterog\u00eaneas e antag\u00f4nicas. Constatamos que a ascens\u00e3o do fascismo que vivemos hoje no pa\u00eds \u00e9 resultado do niilismo pol\u00edtico que deixou um vazio preenchido pelos agitadores da turba.<\/p>\n<p>Voc\u00ea deve se lembrar da hashtag \u201c#contra-tudo-isso-que-est\u00e1-a\u00ed\u201d, muito popular em 2013. Ela foi utilizada pelos niilistas: aqueles que n\u00e3o acreditavam em nenhuma proposta pol\u00edtica, criticavam a tudo e a todos e adotavam o discurso de que ningu\u00e9m poderia dar solu\u00e7\u00e3o \u00e0 sociedade brasileira atual. Essas pessoas estavam insatisfeitas com tudo, negavam tudo, queriam mudar tudo, mas sem saber bem como; negavam a esquerda, negavam a direita, negavam o governo, queriam mudan\u00e7a, mas n\u00e3o sabiam para onde. Os niilistas creem que todos os pol\u00edticos s\u00e3o iguais \u2013 igualmente corruptos \u2013 e por isso n\u00e3o haveria sa\u00edda para a crise.<\/p>\n<p>Entre 2013 e 2016, v\u00edamos insatisfa\u00e7\u00f5es de todo tipo nas ruas e redes sociais. Como se uma bolha tivesse estourado, os brasileiros tivessem finalmente olhado para a barb\u00e1rie em volta e, aterrorizados, conclu\u00eddo que n\u00e3o estavam satisfeitos com o estado de coisas que a\u00ed est\u00e1. Diante de tanta insatisfa\u00e7\u00e3o, os niilistas apontavam o dedo para todos os pol\u00edticos e todos os partidos. \u201cDireita? Esquerda? Eu quero \u00e9 ir pra frente!\u201d, gritavam os coxinhas niilistas, especialmente nas manifesta\u00e7\u00f5es de 2013. <\/p>\n<p>Exemplar \u00e9 o discurso do coletivo Anonymous Brasil, formado por pessoas que, segundo as palavras deles mesmos, no post dispon\u00edvel hoje como publica\u00e7\u00e3o fixada: \u201cN\u00e3o estamos aqui para defender posi\u00e7\u00f5es consideradas de esquerda, direita, militarista, comunista ou socialista. N\u00f3s estamos aqui para promover a conscientiza\u00e7\u00e3o, e, a partir dela, a cria\u00e7\u00e3o conjunta de um novo modelo organizacional mais justo com todos\u201d. O detalhe \u00e9 que eles n\u00e3o definem o que seria o modelo justo. Tamb\u00e9m merece men\u00e7\u00e3o a P\u00e1gina do Partido Militar Brasileiro no Facebook. Em 2014 pod\u00edamos ler coment\u00e1rios como o seguinte: \u201cManterei a minha cara de palha\u00e7o no perfil do Facebook at\u00e9 que o Brasil volte a ter o m\u00ednimo de dec\u00eancia que este vigente Regime Comunista nos subtraiu\u201d. O detalhe \u00e9 que nunca existiu Regime Comunista no Brasil. Hoje eles fazem campanha para um candidato que \u00e9 militar.<\/p>\n<p>Parafraseando Nietzsche, eu defino o niilismo pol\u00edtico como o cansa\u00e7o do povo brasileiro com a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do pa\u00eds. A vis\u00e3o da pol\u00edtica agora cansa \u2013 o que \u00e9 hoje o niilismo, se n\u00e3o isto? Nesse sentido, o discurso niilista pode ser considerado uma indigna\u00e7\u00e3o sem dire\u00e7\u00e3o, um grande desabafo inoperante, que gera a indiferencia\u00e7\u00e3o axiol\u00f3gica do \u201ctudo \u00e9 igual e nada faz sentido\u201d. Nesse sentido, o niilismo \u00e9 oposto \u00e0 utopia. A utopia nega valores institu\u00eddos a fim de defender outras perspectivas. O niilismo apenas nega e n\u00e3o defende nada. De acordo com Lu\u00eds Eust\u00e1quio Soares, no artigo Cinismo, niilismo e utopia, n\u00e3o \u00e9 circunstancial que os niilistas desacreditem, diminuam e neguem precisamente a perspectiva ut\u00f3pica de povos e movimentos sociais, acusando-a de in\u00fatil quimera idealista de ignorantes.<\/p>\n<p>As elei\u00e7\u00f5es de 2014 foram marcadas por essa vis\u00e3o niilista. Os coxinhas niilistas, que manifestavam a indiferen\u00e7a do niilismo, crendo que tudo \u00e9 igual e nada faz sentido, tornaram-se eleitores cansados da pol\u00edtica e dos pol\u00edticos. Sem uma concep\u00e7\u00e3o \u00e9tica subjacente, as mesmas pessoas que durante os protestos de 2013 ofereciam apenas frases de efeito e gritos de guerra esvaziados de sentido, se juntaram a diversos brasileiros que passaram a adotar o princ\u00edpio do mal menor. Muitos eleitores insatisfeitos escolheram seu candidato a partir desse princ\u00edpio: dos males o menor. E a hist\u00f3ria se repete agora nas elei\u00e7\u00f5es de 2018. <\/p>\n<p>Quem soube se aproveitar da situa\u00e7\u00e3o e conseguiu preencher esse vazio foi a extrema direita. Surgiram uma s\u00e9rie de \u201cincitadores da turba\u201d, categoria usada pelo fil\u00f3sofo Theodor Adorno no ensaio Teoria Freudiana e o Padr\u00e3o da Propaganda Fascista para expressar a atmosfera de agressividade emocional promovida com o intuito de provocar na multid\u00e3o a a\u00e7\u00e3o violenta sem qualquer objetivo pol\u00edtico sensato. Assim como os fascistas norte-americanos descritos pelo fil\u00f3sofo de Frankfurt, os agitadores brasileiros preocupam-se pouco com quest\u00f5es pol\u00edticas concretas e tang\u00edveis. A maioria esmagadora de suas declara\u00e7\u00f5es s\u00e3o fake news moralistas, como o kit gay que nunca existiu. <\/p>\n<p>Para dar nomes aos bois: os agitadores da turba podem ser jornalistas como Rachel Sheherazade e Reinaldo Azevedo, que parecem ter se arrependido do papel; oportunistas como Kim Kataguiri, fundador do MBL e eleito Deputado Federal de S\u00e3o Paulo; artistas em fim de carreira como Lob\u00e3o, Roger Moreira e Alexandre Frota, este \u00faltimo eleito Deputado Federal de S\u00e3o Paulo, em defesa da fam\u00edlia tradicional; o deputado que amea\u00e7ou fechar o STF; e o presidenci\u00e1vel que defende tortura e amea\u00e7a assassinar os opositores. Al\u00e9m das celebridades, existem os pequenos disseminadores provincianos de \u00f3dio \u2013 os cidad\u00e3os que compartilham not\u00edcias falsas, reproduzem o discurso de \u00f3dio e ainda se fantasiam de caixa 2.<\/p>\n<p>Uma outra vertente de agitadores, eu diria que a mais perigosa, \u00e9 a do \u201ccristofascismo\u201d, express\u00e3o cunhada pela te\u00f3loga alem\u00e3 Dorothee S\u00f6lle em 1970 para descrever segmentos das igrejas crist\u00e3s que ela caracterizou como totalit\u00e1rios. No Brasil n\u00f3s temos a Frente Parlamentar Evang\u00e9lica do Congresso Nacional, que trava uma \u201cbatalha espiritual\u201d contra os Direitos Humanos e o Multiculturalismo. A sua Teologia da Batalha Espiritual, que inclui discursos de \u00f3dio e pr\u00e1ticas de intoler\u00e2ncia religiosa, tem ganhado for\u00e7a nos \u00faltimos anos, com fortes poderes eclesi\u00e1stico, econ\u00f4mico, midi\u00e1tico e pol\u00edtico. <\/p>\n<p>A bancada evang\u00e9lica \u00e9 um bloco suprapartid\u00e1rio que desempenha uma fun\u00e7\u00e3o policial, pois se articula apenas quando h\u00e1 converg\u00eancia em temas institucionais e morais, especialmente em duas situa\u00e7\u00f5es: garantir privil\u00e9gios para algumas igrejas evang\u00e9licas (tais como concess\u00f5es de r\u00e1dio e televis\u00e3o e isen\u00e7\u00e3o de impostos) e impedir que todos os cidad\u00e3os brasileiros tenham acesso a direitos liberais b\u00e1sicos que contrariam o moralismo dos deputados da bancada. Assim, eles se op\u00f5em a temas como Direitos Humanos, educa\u00e7\u00e3o sexual, igualdade racial e de g\u00eanero, direito ao aborto, eutan\u00e1sia, descriminaliza\u00e7\u00e3o do uso de drogas, casamento civil entre pessoas do mesmo sexo e criminaliza\u00e7\u00e3o da homofobia. E vale deixar claro que nem todos os evang\u00e9licos e nem todas as igrejas concordam com as pr\u00e1ticas e doutrinas fundamentalistas da Frente Parlamentar Evang\u00e9lica.<\/p>\n<p>Os agitadores da turba podem ser jornalistas, l\u00edderes de igrejas, partidos pol\u00edticos ou organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o-governamentais. N\u00e3o importa. A semelhan\u00e7a entre todos os agitadores \u00e9 t\u00e3o grande e os pr\u00f3prios discursos s\u00e3o t\u00e3o mon\u00f3tonos que, assim que se fica familiarizado com o n\u00famero muito limitado de dispositivos em estoque, o que se encontra s\u00e3o intermin\u00e1veis repeti\u00e7\u00f5es de memes e not\u00edcias falsas. Como observou o David Borges no livro Brasil em crise, os incitadores da turba fomentam um \u201cmedo vermelho\u201d contra qualquer discurso ou comportamento que se pudesse ser enquadrado como sendo \u201cde esquerda\u201d. E tudo o que \u00e9 de esquerda passa a ser taxado de comunista.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 t\u00e3o bizarra e surreal que temos crist\u00e3os defendendo \u00f3dio e viol\u00eancia; ator porn\u00f4 em defesa da fam\u00edlia tradicional; deputado com v\u00e1rios mandatos no Congresso Nacional se apresentando como renova\u00e7\u00e3o e novidade; not\u00edcias verdadeiras acusadas de serem falsas e not\u00edcias falsas apresentadas como verdadeiras. O cen\u00e1rio \u00e9 digno de uma fic\u00e7\u00e3o de realismo m\u00e1gico ou de uma fic\u00e7\u00e3o dist\u00f3pica. \u201cVivemos uma distopia\u201d, disse o David Borges no livro O que resta das jornadas de junho. <\/p>\n<p>Desde junho de 2013, grupos como MBL, pol\u00edticos profissionais e igrejas estimulam seus seguidores a se organizarem como um ex\u00e9rcito pronto para a guerra. Os Gladiadores do Altar da Igreja Universal do Reino de Deus n\u00e3o me deixam mentir. Da\u00ed a tend\u00eancia para o uso de s\u00edmbolos comuns, como o nariz de palha\u00e7o e a m\u00e1scara de Guy Fawkes (aquela do filme V de Vingan\u00e7a), que ca\u00edram em desuso, a camisa da sele\u00e7\u00e3o brasileira de futebol, que continua sendo usada, ainda que com menos frequ\u00eancia, apesar de todas as den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o contra a CBF, e agora a camisa com o rosto do candidato fascista.<\/p>\n<p>Esses grupos anseiam por uma autoridade absoluta, um l\u00edder que se afirme como possuidor de valores supremos e ufanistas. Vale lembrar que \u201cDeutschland \u00fcber alles, \u00dcber alles in der Welt\u201d (\u201cAlemanha acima de tudo, acima de tudo no mundo\u201d), era o slogan da Alemanha nazista.    <\/p>\n<p>A narrativa desses agitadores fascistas tem o suposto objetivo de salvar o povo brasileiro dos diversos males supostamente causados pelo suposto comunismo \u2013 a corrup\u00e7\u00e3o, o marxismo cultural, o feminismo, a \u201cditadura gay\u201d e o bolivarianismo. O rem\u00e9dio oferecido \u00e9 a restaura\u00e7\u00e3o dos valores morais e religiosos sustentadores da sociedade brasileira em tempos pregressos, al\u00e9m das institui\u00e7\u00f5es \u00e0s quais estes mesmos valores estiveram vinculados. Eles querem um Brasil semelhante \u00e0quele que t\u00ednhamos h\u00e1 40, 50 anos atr\u00e1s.<br \/>\nPara ser bem breve: as investiga\u00e7\u00f5es mostram que a corrup\u00e7\u00e3o est\u00e1 presente em quase todos os partidos e aquele \u00e9 acusado de ser o mais corrupto, na verdade n\u00e3o \u00e9; o feminismo garantiu in\u00fameros direitos \u00e0s mulheres, dentre os quais o direito ao voto (por isso, mulher que \u00e9 contra o feminismo n\u00e3o deveria sair de casa para votar); n\u00e3o existe nada parecido com uma ditadura gay \u2013 os gays s\u00f3 reivindicam o direito de poder existir e viver normalmente, sem sofrer homofobia; com o fim da guerra fria, o comunismo deixou de ser uma amea\u00e7a potencial \u2013 nos \u00faltimos governos o Brasil se tornou um pa\u00eds cada vez mais capitalista. N\u00e3o obstante, as pessoas preferem acreditar em memes e not\u00edcias falsas. Como observou Theodor Adorno em Teoria Freudiana e o Padr\u00e3o da Propaganda Fascista, o material de propaganda fascista preocupa-se pouco com quest\u00f5es pol\u00edticas concretas. As declara\u00e7\u00f5es dos agitadores s\u00e3o obviamente mais baseadas em c\u00e1lculos psicol\u00f3gicos do que na inten\u00e7\u00e3o de conseguir seguidores por meio da express\u00e3o racional de objetivos racionais.<\/p>\n<p>Os atuais agitadores da turba brasileiros assemelham-se \u00e0queles falsos profetas estudados pelos pesquisadores da Escola de Frankfurt. Parece que, ontem como hoje, os agitadores da turba usam t\u00e9cnicas manipuladoras e se aproveitavam do descontentamento, dos medos e dos ressentimentos de parcelas da popula\u00e7\u00e3o, criando inimigos que corporificam a \u201cfor\u00e7a do mal\u201d que deve ser erradicada pelo movimento. No caso dos nazistas, o alvo eram os judeus. No caso brasileiro atual, voc\u00eas sabem qual \u00e9 o alvo. Em ambos os casos, os agitadores da turba s\u00e3o financiados por um p\u00fablico cativo, que inclui Igrejas, grandes e pequenas empresas, jornais, r\u00e1dios e canais de televis\u00e3o. Como resistir a isso? <\/p>\n<p>Os desafios da resist\u00eancia democr\u00e1tica<\/p>\n<p>Mesmo com ou justamente devido \u00e0 ascens\u00e3o do que h\u00e1 de pior no pa\u00eds, destaca-se a certeza de que \u00e9 preciso resistir. Resistir ao fascismo, resistir \u00e0 crescente opress\u00e3o das minorias que ousam elevar suas vozes, \u00e0 repress\u00e3o e \u00e0 tentativa de censura mais, ou menos velada, a manifesta\u00e7\u00f5es intelectuais e art\u00edsticas que primam pela liberdade de express\u00e3o.<br \/>\nPrecisamos encontrar um modo de curar o del\u00edrio coletivo e fazer as pessoas entenderem que o governo anterior n\u00e3o ofereceu mamadeiras em formato de p\u00eanis para as crian\u00e7as. Isso \u00e9 uma mentira. E muitas pessoas t\u00eam acreditado em qualquer mentira. Desmascarar as mentiras seria f\u00e1cil, se as pessoas recuperassem o bom senso. O dif\u00edcil \u00e9 curar o del\u00edrio coletivo e convencer as pessoas a raciocinarem. Como fazer isso? N\u00e3o sei. N\u00e3o sou psic\u00f3logo e n\u00e3o tenho f\u00f3rmula m\u00e1gica. <\/p>\n<p>Eu s\u00f3 sei que precisamos aprender a usar as novas m\u00eddias como ferramentas de express\u00e3o, cria\u00e7\u00e3o e ativismo democr\u00e1tico em favor do bem comum. Uma cidadania genu\u00edna exige que a comunidade tenha conhecimentos sobre a produ\u00e7\u00e3o da m\u00eddia e a elabora\u00e7\u00e3o de produtos divulg\u00e1veis. Nesse sentido, precisamos deslindar um m\u00e9todo cr\u00edtico capaz de auxiliar na decodifica\u00e7\u00e3o das not\u00edcias falsas veiculadas diariamente e na discrimina\u00e7\u00e3o de seu complexo espectro de efeitos, identificando os v\u00e1rios c\u00f3digos ideol\u00f3gicos presentes na cultura da m\u00eddia, criando e propondo alternativas contra-hegem\u00f4nicas e antifascistas. <\/p>\n<p>Tamb\u00e9m precisamos de uma pol\u00edtica da mem\u00f3ria. Por exemplo, na Alemanha e na Pol\u00f4nia, os campos de concentra\u00e7\u00e3o nazistas foram transformados em museus. Na Alemanha, os in\u00fameros museus e memoriais dedicados \u00e0 segunda guerra mundial e ao nazismo t\u00eam entrada gratuita. Em 2013 eu visitei, junto com uma amiga polonesa judia, os campos de Sachsenhausen e Auschwitz-Birkenau. Num determinado pavilh\u00e3o, atravessei uma sala forrada com os sapatos, brinquedos e cabelos de homens, mulheres e crian\u00e7as mortos nos campos. At\u00e9 hoje eu ainda fico arrepiado e com l\u00e1grimas nos olhos. A visita ao campo \u00e9 uma experi\u00eancia pedag\u00f3gica. O Brasil precisa de museus e memoriais da escravid\u00e3o, da ditadura e da tortura. Quantos museus e memoriais da escravid\u00e3o e da ditadura militar existem no Brasil? Que eu saiba, nenhum. Existem algumas iniciativas importantes, como o Museu do Negro no Rio de Janeiro, o Museu Afro Brasil e o Memorial da Resist\u00eancia, em S\u00e3o Paulo. Tamb\u00e9m est\u00e3o construindo um Museu da Escravid\u00e3o e da Liberdade no Rio de Janeiro. Mas \u00e9 muito pouco. E em contrapartida, em cidades brasileiras como Ouro Preto-MG, as senzalas viraram bares e restaurantes. Isso \u00e9 um absurdo que revela descaso com o nosso passado de viol\u00eancia. <\/p>\n<p>Em suma, se a pol\u00edtica n\u00e3o tem sentido a priori, depende de cada cidad\u00e3o conferir-lhe sentidos na medida em que afirmem seus valores. Que mudan\u00e7as esperamos? Que sociedade queremos? O que caracteriza um pa\u00eds melhor? Que pol\u00edtica desejamos? Sobre essa nossa decis\u00e3o pol\u00edtica e existencial se fundamenta a possibilidade de resist\u00eancia ao niilismo e ao fascismo. <\/p>\n<p>Refer\u00eancias<\/p>\n<p>ADORNO, Theodor W. Freudian Theory and the Pattern of Fascist Propaganda. In: ARATO, Andrew; GEBHARDT, Eike (org.). The Essential Frankfurt school reader. New York: The Continuum Publishing Company, 1982, pp. 118-137.<\/p>\n<p>BORGES, David G. \u201c1984\u201d e o Brasil de 2016. In: CEI, Vitor; DANNER, Leno; OLIVEIRA, Marcus Vinicius Xavier de; BORGES, David G. (orgs). O que resta das jornadas de junho. Porto Alegre: Editora Fi, 2017, pp. 163-178.<br \/>\nBORGES, David G. O \u201cred scare\u201d no Brasil. In: CEI, Vitor; BORGES, David G. (orgs.).  Brasil em crise: o legado das jornadas de junho. Vila Velha, ES: Praia Editora, 2015, pp. 171-179.<\/p>\n<p>CEI, Vitor. Cultura e pol\u00edtica, 2013-2016: os incitadores da turba. In: CEI, Vitor; DANNER, Leno; OLIVEIRA, Marcus Vinicius Xavier de; BORGES, David G. (orgs). O que resta das jornadas de junho. Porto Alegre: Editora Fi, 2017, pp. 205-224.<\/p>\n<p>CEI, Vitor. Contra-isso-que-est\u00e1-a\u00ed: o niilismo nas jornadas de junho. In: CEI, Vitor; BORGES, David G. (orgs.). Brasil em crise: o legado das jornadas de junho. Vila Velha, ES: Praia Editora, 2015, pp. 137-164.<\/p>\n<p>SOARES, Luis Eust\u00e1quio. Cinismo, niilismo, utopia. Observat\u00f3rio da Imprensa. S\u00e3o Paulo, n. 678, 24 de janeiro, 2012.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O crescimento do fascismo no Brasil atual n\u00e3o \u00e9 equivalente ao fascismo de Estado consolidado, tal como na It\u00e1lia de Mussolini, apesar das semelhan\u00e7as. N\u00e3o obstante, a mentalidade fascista est\u00e1 presente, de forma cada vez mais expl\u00edcita, tanto nos discursos e pr\u00e1ticas de pol\u00edticos e celebridades, quanto nos cidad\u00e3os comuns. 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