{"id":19319,"date":"2018-11-03T00:30:50","date_gmt":"2018-11-03T04:30:50","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=19319"},"modified":"2018-11-03T00:30:50","modified_gmt":"2018-11-03T04:30:50","slug":"o-fascismo-brasileiro-do-seculo-xxi","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2018\/11\/03\/o-fascismo-brasileiro-do-seculo-xxi\/","title":{"rendered":"O fascismo brasileiro do s\u00e9culo XXI"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"19320\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2018\/11\/03\/o-fascismo-brasileiro-do-seculo-xxi\/43091f7a-f39c-4fec-bbe9-2eed5d9d4233\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/43091F7A-F39C-4FEC-BBE9-2EED5D9D4233.jpeg?fit=938%2C536\" data-orig-size=\"938,536\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"43091F7A-F39C-4FEC-BBE9-2EED5D9D4233\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/43091F7A-F39C-4FEC-BBE9-2EED5D9D4233.jpeg?fit=300%2C171\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/43091F7A-F39C-4FEC-BBE9-2EED5D9D4233.jpeg?fit=600%2C343\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/43091F7A-F39C-4FEC-BBE9-2EED5D9D4233.jpeg?resize=600%2C343\" alt=\"43091F7A-F39C-4FEC-BBE9-2EED5D9D4233\" width=\"600\" height=\"343\" class=\"alignnone size-full wp-image-19320\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/43091F7A-F39C-4FEC-BBE9-2EED5D9D4233.jpeg?w=938 938w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/43091F7A-F39C-4FEC-BBE9-2EED5D9D4233.jpeg?resize=300%2C171 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/43091F7A-F39C-4FEC-BBE9-2EED5D9D4233.jpeg?resize=768%2C439 768w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/43091F7A-F39C-4FEC-BBE9-2EED5D9D4233.jpeg?resize=525%2C300 525w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p>Sem compreender a singularidade do movimento pol\u00edtico liderado por Bolsonaro, agora no governo do Brasil, n\u00e3o se derrotar\u00e1 o seu esfor\u00e7o em criar um regime fascista a partir da destrui\u00e7\u00e3o neoliberal da democracia em nosso pa\u00eds<!--more--><\/p>\n<p>Na Carta Maior<br \/>\nPor Juarez Guimar\u00e3es  <\/p>\n<p>Em 1939, o maior escritor alem\u00e3o do s\u00e9culo XX, Thomas Mann, \u201cmunindo-se de um certo auto-dom\u00ednio, de mais a mais sempre em risco de tornar-se imoral\u201d, escreveu um ensaio chamando Hitler , \u201c essa criatura miser\u00e1vel, ainda que fat\u00eddica\u201d, de \u201cmeu irm\u00e3o\u201d. \u00c9 que, ele pr\u00f3prio, como maior herdeiro da tradi\u00e7\u00e3o humanista e universalista de Goethe, reconhecia que Hitler era uma possibilidade de desenvolvimento da tradi\u00e7\u00e3o alem\u00e3 inserida em seus impasses da Modernidade. \u201cO auto-reconhecimento\u201d, afirmava, \u201c\u00e9 mais qualificante, mais sincero e satisfat\u00f3rio, mais produtivo at\u00e9 que o \u00f3dio\u201d. J\u00e1 havia escrito que \u201cmais felizes e justos se me afiguram os momentos em que o \u00f3dio sucumbe ao desejo de liberdade\u201d.<\/p>\n<p>Um fascismo brasileiro do s\u00e9culo XXI? Como estudioso e membro de uma tradi\u00e7\u00e3o de estudos da cultura pol\u00edtica brasileira, com \u00eanfase no que ela tem de generoso, universalista, libert\u00e1rio e criador \u2013 republicana, popular e socialista -, causa repugn\u00e2ncia tratar um movimento fascista como brasileiro. Mas, como se disse, se a liberdade \u00e9 auto-conhecimento, \u00e9 preciso reconhecer que Bolsonaro \u00e9 um&#8230; brasileiro.<\/p>\n<p>Em que sentido \u00e9 fascista e em qual \u00e9 brasileiro? No ensaio \u201cUm fascismo do s\u00e9culo XXI\u201d, a partir de um di\u00e1logo com Roger Griffin, Marilena Chau\u00ed e Newton Bignotto, trabalhamos o conceito de \u201cfascismo gen\u00e9rico\u201d, em pol\u00eamica com uma certa interpreta\u00e7\u00e3o liberal de que Bolsonaro n\u00e3o era de extrema-direita, identificando-o como uma tradi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da Modernidade que visa promover um renascimento nacional e\/ou racial a partir da elimina\u00e7\u00e3o da parte da sociedade que \u00e9 considerada doente ou criminosa. O ensaio \u201cAs tr\u00eas vit\u00f3ria de Gramsci sobre o fascismo\u201d buscou reconstituir o sentido hist\u00f3rico e contempor\u00e2neo das reflex\u00f5es do marxista italiano no c\u00e1rcere. O fascismo representaria, sobretudo, o uso da viol\u00eancia legitimada por uma disputa de valores civilizat\u00f3rios contra o socialismo e de forma alternativa ao liberalismo sobre como organizar a sociedade, a economia e o poder. Para Gramsci, \u00e9 somente atrav\u00e9s da constru\u00e7\u00e3o da hegemonia em defesa da democracia, da liberdade, do auto-governo e de um humanismo radical que o marxismo poderia triunfar sobre o fascismo.<\/p>\n<p>Em entrevista postada na rede, o fil\u00f3sofo e professor da USP Vladmir Safatle enumera quatro dimens\u00f5es centrais do fascismo: o culto \u00e0 viol\u00eancia, a defesa de um Estado-Na\u00e7\u00e3o em uma vers\u00e3o paran\u00f3ica, a insensibilidade com os mais vulner\u00e1veis e a defesa de uma for\u00e7a pr\u00f3pria, agindo fora da lei, contra as institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas. Certamente, o conceito gen\u00e9rico de fascismo de Roger Griffin dialoga com a defini\u00e7\u00e3o de Safatle.<\/p>\n<p>J\u00e1 o professor Wanderley Guilherme dos Santos, uma das intelig\u00eancias centrais da nossa cultura democr\u00e1tica, recusa o conceito de fascismo por n\u00e3o identificar no movimento pol\u00edtico de Bolsonaro, como no fascismo ou nazismo, uma \u201corganiza\u00e7\u00e3o paramilitar, toda a popula\u00e7\u00e3o organizada com uma hierarquia e uma estrat\u00e9gia de a\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia, mas sob coordena\u00e7\u00e3o\u201d. \u201cHaveria todo um caldo de cultura fascist\u00f3ide no sentido trivial, n\u00e3o no sentido pol\u00edtico do termo\u201d. O primeiro argumento, como se viu, tem sido h\u00e1 d\u00e9cadas criticado por Griffin em sua pol\u00eamica com a identifica\u00e7\u00e3o do fascismo ou do nazismo por tra\u00e7os hist\u00f3ricos espec\u00edficos que, \u00e9 evidente, n\u00e3o se repetem da mesma forma. Liberalismo e socialismo, afirma Griffin, s\u00e3o tamb\u00e9m tradi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas que variam muito no tempo e no espa\u00e7o, sem deixar de se constitu\u00edrem como tradi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. Tamb\u00e9m esta separa\u00e7\u00e3o entre \u201ccaldo de cultura\u201d e \u201cpol\u00edtica\u201d seria criticada por Gramsci: s\u00e3o exatamente vit\u00f3rias no campo da disputa de valores, que permitem a ascens\u00e3o do fascismo e sua viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Como autor do brilhante \u201cA democracia impedida\u201d, o professor Wanderley Guilherme provavelmente discorda da aplica\u00e7\u00e3o da \u00faltima caracteriza\u00e7\u00e3o de Safatle para o caso brasileiro. Bolsonoro representaria um prov\u00e1vel \u201cataque \u00e0 democracia pela pr\u00f3pria democracia\u201d, por dentro das institui\u00e7\u00f5es e reinterpretando instrumentalmente a pr\u00f3pria Constitui\u00e7\u00e3o. Na mesma dire\u00e7\u00e3o, embora com argumentos diferentes, vai um ensaio \u201cEl populismo fascista no ha hecho m\u00e1s que empezar\u201ddo dirigente pol\u00edtico da esquerda portuguesa Francisco Lou\u00e7\u00e3. N\u00e3o haveria ainda um \u201cpoder absoluto, censura de imprensa, proibi\u00e7\u00e3o de partidos, a repress\u00e3o massiva do movimento oper\u00e1rio, o endeusamento do chefe\u201d. Os elementos fascistas contidos no movimento pol\u00edtico liderado por Bolsonaro poderiam ganhar corpo atrav\u00e9s da sua rela\u00e7\u00e3o com os militares, a partir da sua condi\u00e7\u00e3o de governo do Brasil.<\/p>\n<p>Este argumento parece sensato, importante e correto: neste ensaio se procurar\u00e1 exatamente projetar a id\u00e9ia de que o pr\u00f3ximo per\u00edodo ser\u00e1 marcado exatamente pela din\u00e2mica do governo fascista de Bolsonaro em construir um regime fascista, isto \u00e9, amoldar institui\u00e7\u00f5es, leis e a m\u00e1quina de viol\u00eancia para cumprir o seu programa de refundar o Brasil.<\/p>\n<p>A defini\u00e7\u00e3o alternativa proposta pelo professor Wanderley Guilherme \u00e9 a de um governo de ocupa\u00e7\u00e3o: \u201cquando ele externa considerar o MST como organiza\u00e7\u00e3o terrorista ou diz que ou os vermelhos v\u00e3o embora ou v\u00e3o para a cadeia, isto \u00e9 um governo de ocupa\u00e7\u00e3o que transforma toda oposi\u00e7\u00e3o em inimigo. A vis\u00e3o que Bolsonaro tem \u00e9 que seus opositores s\u00e3o estrangeiros no Brasil. N\u00e3o s\u00e3o brasileiros propriamente ditos\u201d. Esta caracteriza\u00e7\u00e3o \u00e9, na verdade, muito pr\u00f3xima ao que Griffin chama de \u201cfascista\u201d: a elimina\u00e7\u00e3o da parte considerada \u201cpodre\u201d ou \u201cdoente\u201d para se operar a forma\u00e7\u00e3o de uma nova unidade org\u00e2nica.<\/p>\n<p>O professor Wanderley Guilherme diz, enfim, corretamente que \u201cn\u00e3o existem 50 milh\u00f5es de fascistas no Brasil\u201d. Evidente que n\u00e3o: apenas uma parte dos eleitores de Bolsonaro cultivam valores identificados com o que chamamos de fascismo. Mas como entender essa ascens\u00e3o de um movimento pol\u00edtico fascista no Brasil e a forma\u00e7\u00e3o de uma ampla base eleitoral para seu projeto de poder?<\/p>\n<p>Este ensaio pretende refletir sobre esta pergunta e se divide em tr\u00eas partes. A primeira identifica o fascismo de Bolsonaro como um americanismo agindo na cultura pol\u00edtica brasileira. A segunda pretende mostrar as ra\u00edzes org\u00e2nicas do bolsonarismo na pol\u00edtica e na hist\u00f3ria brasileira. E a terceira, como enfrent\u00e1-lo, a partir de seu desafio de transitar de um governo fascista para um regime fascista atrav\u00e9s da forma\u00e7\u00e3o de uma frente democr\u00e1tica. <\/p>\n<p>O bolsonarismo \u00e9 um americanismo<\/p>\n<p>Para os que estudam as tradi\u00e7\u00f5es do pensamento pol\u00edtico brasileiro, o americanismo designa um duplo movimento de id\u00e9ias, interesses e valores: de um lado, a atra\u00e7\u00e3o exercida desde o s\u00e9culo XIX pelos EUA sobre setores liberais da sociedade brasileira e, depois de 1945, com a hegemonia pol\u00edtica e cultural norte-americana nos tempos da chamada guerra fria, um vasto movimento de rela\u00e7\u00e3o, influ\u00eancia, coloniza\u00e7\u00e3o e inser\u00e7\u00e3o dos EUA na cultura e na pol\u00edtica brasileira. <\/p>\n<p>O bolsonarismo \u00e9 certamente um americanismo e n\u00e3o poderia ser explicado ou entendido fora deste eixo geopol\u00edtico e cultural. Mesmo a forma como aborda o nacional \u2013 \u201c O Brasil acima de todos \u201c \u2013 \u00e9 americanista, isto \u00e9, significa submeter o Brasil direta e profundamente, no plano geopol\u00edtico, aos EUA. Assim, n\u00e3o h\u00e1 contradi\u00e7\u00e3o nesta linguagem da guerra fria em bater contin\u00eancia \u00e0 bandeira americana e honrar a bandeira verde e amarela. O Brasil funciona para este movimento fascista \u2013 diferentemente do que significou para Mussolini ou Hitler, empenhados em uma expans\u00e3o imperialista \u2013 o recurso a uma imagem simb\u00f3lica de unidade s\u00e3 e normalizada exorcizada da parte doente (comunista) e que traz a peste da divis\u00e3o (da luta de classes, do anti-racismo, do feminismo e dos direitos LGBTs).<\/p>\n<p>O programa do bolsonarismo \u00e9 explicitamente o programa neoliberal de Wall Sreet. \u00c9 dif\u00edcil de tra\u00e7ar a diferen\u00e7a entre o programa encarnado pelo financista internacionalizado Paulo Guedes e o programa Arm\u00ednio Fraga de A\u00e9cio Neves em 2014. P\u00e9rsio Arida, outro financista neoliberal, chamou Paulo Guedes de \u201cmit\u00f4mano\u201d, fazendo refer\u00eancia a sua ades\u00e3o ao fascista Bolsonaro. Mas a primeira entrevista do porta-voz da Eur\u00e1sia, que administra fundos de investimentos financeiros europeus, \u00e9 que Bolsonaro preocupa menos em sua rela\u00e7\u00e3o com a democracia do que em sua rela\u00e7\u00e3o com a governan\u00e7a (entenda-se, as condi\u00e7\u00f5es \u00f3timas e est\u00e1veis para o rentismo e a preda\u00e7\u00e3o dos fundos p\u00fablicos e e empresas estatais).<\/p>\n<p>A base popular do bolsonarismo, as igrejas pentecostais fundamentalistas, constitui um claro fen\u00f4meno americanista na cultura religiosa brasileira. \u00c9 um fen\u00f4meno em claro contraste com as tradi\u00e7\u00f5es cat\u00f3licas brasileiras, mesmo as conservadoras ou carism\u00e1ticas, que acompanham a pauta conservadora no plano da moralidade. A chamada \u201cteologia da prosperidade\u201d e a corros\u00e3o de alguns valores piedosos que existem mesmo em tradi\u00e7\u00f5es cat\u00f3licas conservadoras engatam-se bem com as teses neoliberais mais radicais. \u201cO Deus acima de todos\u201d de Bolsonaro \u00e9 ressignificado em uma chave estranha \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica ib\u00e9rica brasileira e em claro confronto \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es progressistas e da liberta\u00e7\u00e3o encarnadas na hist\u00f3ria da CNBB. <\/p>\n<p>Por fim, o modus operandi da campanha pol\u00edtica de Bolsonaro, diretamente orientada pelos marqueteiros de Trump, campanhas de \u00f3dio e fake news nas redes sociais, \u00e9 certamente um americanismo. Bolsonaro n\u00e3o \u00e9 Trump mas h\u00e1 certamente aqui uma rede de rela\u00e7\u00f5es interessadas e corrompidas pelo capital que opera \u00e0s margens da legalidade democr\u00e1tica.<\/p>\n<p>O que seria mesmo Bolsonaro sem o discurso da guerra fria, sem evang\u00e9licos fundamentalistas, sem programa neoliberal e sem fake news? Seria ainda um Bolsonaro?<\/p>\n<p>A raiz brasileira e de classe de Bolsonaro<\/p>\n<p>Mas se a orienta\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica, o programa, a base popular e o modus operandi do bolsonarismo \u00e9 americanista, \u00e9 preciso reconhecer igualmente sua raiz de classes brasileira. <\/p>\n<p>Em primeiro lugar, o \u00f3dio e desprezo que revela aos pobres, aos negros e \u00e0s mulheres, t\u00eam fundas ra\u00edzes no sistema colonial de aparta\u00e7\u00e3o social, de racismo e patriarcalismo que organizam desde sempre as vertentes da domina\u00e7\u00e3o de classes no Brasil. Bolsonaro n\u00e3o as inventou mas reorganizou a legitimidade de seu discurso p\u00fablico e as deu uma dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de poder. <\/p>\n<p>Em segundo lugar, a ascens\u00e3o do bolsonarismo revela tantos anos depois da trag\u00e9dia de 1964, a fraqueza hist\u00f3rica da tradi\u00e7\u00e3o liberal em construir hegemonia na sociedade brasileira. Bolsonaro n\u00e3o \u00e9 apenas o fracasso do PSDB mas aquele que derrotou Fernando Henrique Cardoso em seu pr\u00f3prio partido. O l\u00edder intelectual dos neoliberais brasileiros n\u00e3o \u00e9 certamente um fascista mas est\u00e1 hoje t\u00e3o distanciado dos valores democr\u00e1ticos que sequer p\u00f4de se posicionar no segundo turno contra o fascista. Se em 1964, os liberais em massa apoiaram o golpe militar, os neoliberais hoje ap\u00f3iam o fascismo em massa. Os tr\u00eas governadores eleitos pelo PSDB, com centralidade para o de S\u00e3o Paulo, fizeram campanha bolsonarista desde o primeiro turno. De partido de centro-direita a um partido de direita, de um partido de direita a um partido golpista, de um partido golpista a um partido proto-fascista!<\/p>\n<p>Em terceiro lugar, o sentido org\u00e2nico do bolsonarismo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 conjuntura hist\u00f3rica da luta de classes no Brasil revela-se no fato de que ele se imp\u00f4s como solu\u00e7\u00e3o poss\u00edvel , depois preferencial e, ap\u00f3s, necess\u00e1ria, diante da incapacidade da dire\u00e7\u00e3o da coaliz\u00e3o golpista que derrubou Dilma em 2016 em oferecer uma alternativa vi\u00e1vel para as elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 2018. Bolsonaro est\u00e1 muito longe de ser um outsider mas, de for\u00e7a de apoio, passou \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de l\u00edder da coaliz\u00e3o golpista, ali\u00e1s que n\u00e3o sofreu rupturas classistas burguesas ou pol\u00edticas importantes. A inteira base de classe, inclusive o engajamento das classes m\u00e9dias conservadoras, da lideran\u00e7a da Lava-Jato \u00e0s m\u00eddias corporativas \u2013 com exce\u00e7\u00e3o da Folha de S. Paulo &#8211; , das entidades empresariais da ind\u00fastria e com\u00e9rcio aos grandes bancos, nacionais e internacionais, o agro-neg\u00f3cio, que organizou o golpe est\u00e1 com Bolsonaro presidente. <\/p>\n<p>Bolsonaro presidente \u00e9, assim, a s\u00edntese de todas as derrotas das esquerdas brasileiras \u2013 em fornecer uma resposta democr\u00e1tica ao problema candente da seguran\u00e7a , em democratizar o Estado e imuniz\u00e1-lo contra as din\u00e2micas da corrup\u00e7\u00e3o, em construir uma cultura e organiza\u00e7\u00e3o cidad\u00e3 ativa e popular no pa\u00eds- e, ao mesmo tempo, a revanche contra todas as suas conquistas \u2013 a expans\u00e3o dos direitos do trabalho e dos direitos sociais, um in\u00edcio de reposi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica dos direitos dos negros e das mulheres e um certo reposicionamento do setor p\u00fablico e da soberania nacional.<\/p>\n<p>De um governo a um regime fascista?<\/p>\n<p>Desde Rousseau, pelo menos, se estabeleceu na filosofia pol\u00edtica uma clara distin\u00e7\u00e3o entre governo ( aquele que exerce o poder), o regime ( as formas institucionais e constitucionais de organiza\u00e7\u00e3o do poder) e o Estado ( com seu princ\u00edpio de legitima\u00e7\u00e3o ou, em linguagem hegeliana, seu princ\u00edpio \u00e9tico-pol\u00edtico que fundamenta os direitos e os deveres). O Brasil tem agora um governo fascista que vai exercer o seu mandato e programa em meio a institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas e constitucionais em franco processo de degrada\u00e7\u00e3o e um princ\u00edpio de legitimidade do estado em disputa.<\/p>\n<p>No pr\u00f3ximo per\u00edodo, teremos um governo fascista for\u00e7ando as institui\u00e7\u00f5es e a pr\u00f3pria Constitui\u00e7\u00e3o a se formatar ou se instrumentalizar a um regime fascista no sentido de implementar um Estado plenamente neoliberal no Brasil. A din\u00e2mica pol\u00edtica do pa\u00eds, ent\u00e3o, se organizar\u00e1 em torno a este eixo da fascistiza\u00e7\u00e3o e da luta popular e democr\u00e1tica contra ela.<\/p>\n<p>Os tr\u00eas eixos de fascistiza\u00e7\u00e3o s\u00e3o a militariza\u00e7\u00e3o da vida pol\u00edtica, a criminaliza\u00e7\u00e3o da esquerda e dos movimentos sociais, os ataques \u00e0 liberdade de express\u00e3o, de ensino e de cria\u00e7\u00e3o cultural a partir de uma moral conservadora, racista e mis\u00f3gina. Estes tr\u00eas eixos de fascistiza\u00e7\u00e3o se articular\u00e3o \u00e0 implementa\u00e7\u00e3o selvagem de um programa de privatiza\u00e7\u00e3o e aprofundamento da agress\u00e3o aos direitos sociais. <\/p>\n<p>Mas o mandato desta for\u00e7a pol\u00edtica destrutiva se inicia com um alto grau de rejei\u00e7\u00e3o (perto de 40 % da popula\u00e7\u00e3o j\u00e1 rejeitam fortemente Bolsonaro), com uma representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica forte da resist\u00eancia democr\u00e1tica ( cerca de 45 % dos votos obtidos no segundo turno), com o princ\u00edpio de articula\u00e7\u00e3o internacional em defesa dos direitos humanos ( j\u00e1 capaz inclusive de incidir sobre posicionamentos da pr\u00f3pria ONU), com uma bel\u00edssima e cada vez mais ativa cria\u00e7\u00e3o dos artistas e intelectuais brasileiros, com uma recomposi\u00e7\u00e3o da presen\u00e7a da CNBB e mesmo dos evang\u00e9licos progressistas. Em particular no final do segundo turno, grandes manifesta\u00e7\u00f5es unit\u00e1rias e democr\u00e1ticas expressaram a disposi\u00e7\u00e3o de luta contra o bolsonarismo. \u00c9 preciso, pois, criar uma frente supra-partid\u00e1ria, que abarque os partidos e representa\u00e7\u00f5es da sociedade civil , em defesa da democracia.<\/p>\n<p>Como escreveu em artigo recente \u201c O neoliberalismo recorre ao fascismo para impor-se\u201d o poeta Hamilton Pereira, que de vez em quando assina Pedro Tierra: a palavra agora \u00e9 liberdade e a esperan\u00e7a s\u00f3 pode ser livre ou n\u00e3o ser\u00e1<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sem compreender a singularidade do movimento pol\u00edtico liderado por Bolsonaro, agora no governo do Brasil, n\u00e3o se derrotar\u00e1 o seu esfor\u00e7o em criar um regime fascista a partir da destrui\u00e7\u00e3o neoliberal da democracia em nosso pa\u00eds<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-19319","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-51B","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19319","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19319"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19319\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19321,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19319\/revisions\/19321"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19319"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19319"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19319"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}