{"id":19948,"date":"2019-01-05T13:26:24","date_gmt":"2019-01-05T17:26:24","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=19948"},"modified":"2019-01-05T13:26:24","modified_gmt":"2019-01-05T17:26:24","slug":"o-homem-mediano-assume-o-poder","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2019\/01\/05\/o-homem-mediano-assume-o-poder\/","title":{"rendered":"O homem mediano assume o poder"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"19949\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2019\/01\/05\/o-homem-mediano-assume-o-poder\/4344ce6f-ccff-4a32-b789-e27a8050af57\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/4344CE6F-CCFF-4A32-B789-E27A8050AF57.jpeg?fit=980%2C476\" data-orig-size=\"980,476\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"4344CE6F-CCFF-4A32-B789-E27A8050AF57\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/4344CE6F-CCFF-4A32-B789-E27A8050AF57.jpeg?fit=300%2C146\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/4344CE6F-CCFF-4A32-B789-E27A8050AF57.jpeg?fit=600%2C291\" class=\"alignnone size-full wp-image-19949\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/4344CE6F-CCFF-4A32-B789-E27A8050AF57.jpeg?resize=600%2C291\" alt=\"4344CE6F-CCFF-4A32-B789-E27A8050AF57\" width=\"600\" height=\"291\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/4344CE6F-CCFF-4A32-B789-E27A8050AF57.jpeg?w=980 980w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/4344CE6F-CCFF-4A32-B789-E27A8050AF57.jpeg?resize=300%2C146 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/4344CE6F-CCFF-4A32-B789-E27A8050AF57.jpeg?resize=768%2C373 768w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/4344CE6F-CCFF-4A32-B789-E27A8050AF57.jpeg?resize=618%2C300 618w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p>O que significa transformar o ordin\u00e1rio em \u201cmito\u201d e dar a ele o Governo do pa\u00eds? <!--more--><\/p>\n<p>No El Pa\u00eds<br \/>\nEliane Brum<\/p>\n<p>Desde 1 de janeiro de 2019, o Brasil tem como presidente um personagem que jamais havia ocupado o poder pelo voto. Jair Bolsonaro \u00e9 o homem que nem pertence \u00e0s elites nem fez nada de excepcional. Esse homem mediano representa uma ampla camada de brasileiros. \u00c9 necess\u00e1rio aceitar o desafio de entender o que ele faz ali. E com que segmentos da sociedade brasileira se aliou para desenhar um Governo que une for\u00e7as distintas que v\u00e3o disputar a hegemonia. Embora existam v\u00e1rias propostas e s\u00edmbolos do passado na elei\u00e7\u00e3o do novo presidente, a configura\u00e7\u00e3o encarnada por Bolsonaro \u00e9 in\u00e9dita. Neste sentido, ele \u00e9 uma novidade. Mesmo que seja uma dif\u00edcil de engolir para a maioria dos brasileiros que n\u00e3o votou nele, escolhendo o candidato oposto ou votando branco, nulo ou simplesmente n\u00e3o comparecendo \u00e0s urnas. Bolsonaro encarna tamb\u00e9m o primeiro presidente de extrema direita da democracia brasileira. O \u201ccoiso\u201d est\u00e1 no poder. O que significa?<\/p>\n<p>Quando Luiz In\u00e1cio Lula da Silva chegou ao Pal\u00e1cio do Planalto pela primeira vez, na elei\u00e7\u00e3o de 2002, depois de tr\u00eas derrotas consecutivas, foi um marco hist\u00f3rico. Quem testemunhou o com\u00edcio da vit\u00f3ria na Avenida Paulista, tendo votado ou n\u00e3o em Lula, compreendeu que naquele momento se riscava o ch\u00e3o do Brasil. N\u00e3o haveria volta. Pela primeira vez um oper\u00e1rio, um l\u00edder sindical, um homem que fez com a fam\u00edlia a peregrina\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica do sert\u00e3o seco do Nordeste para a industrializada S\u00e3o Paulo de concreto, alcan\u00e7ava o poder. Algu\u00e9m com o \u201cDNA do Brasil\u201d, como diria sua bi\u00f3grafa, a historiadora Denise Paran\u00e1.<\/p>\n<p>O Lula que conquistou o poder pelo voto era excepcional. \u201cHomem do povo\u201d, sem d\u00favida, mas excepcional. Um l\u00edder brilhante, que comandou as greves do ABC Paulista no final da ditadura militar (1964-1985) e se tornou a figura central do novo Partido dos Trabalhadores criado para disputar a democracia que retornava depois de 21 anos de ditadura. Independentemente da opini\u00e3o que cada um possa ter dele hoje, \u00e9 preciso aceitar os fatos: quantos homens com a trajet\u00f3ria de Lula se tornaram Lula?<\/p>\n<p>Lula era o melhor entre os seus, o melhor entre aqueles que os brancos do Sul discriminavam com a pecha de \u201ccabe\u00e7a chata\u201d. Se sua origem e percurso levavam uma enorme novidade ao poder central de um dos pa\u00edses mais desiguais do mundo, a ideia de que aquele que \u00e9 considerado o melhor deve ser o escolhido para governar atravessa a pol\u00edtica e o conceito de democracia. N\u00e3o se escolhe um qualquer para comandar o pa\u00eds, mas aquele ou aquela em que se enxergam qualidades que o tornam capaz de realizar a esperan\u00e7a da maioria. Neste sentido, n\u00e3o havia novidade. Quando parte das elites se sentiu pressionada a dividir o poder (para manter o poder), e depois da Carta ao Povo Brasileiro assinada por Lula garantindo a continuidade da pol\u00edtica econ\u00f4mica, era o excepcional que chegava ao Planalto pelo voto.<\/p>\n<p>O que a chegada de Lula ao poder fez pelo Brasil e como influenciou o imagin\u00e1rio e a mentalidade dos brasileiros \u00e9 algo que merece todos os esfor\u00e7os de pesquisa e an\u00e1lise para que se alcance a justa dimens\u00e3o. Mas grande parte j\u00e1 foi assimilada por quem viveu esses tempos. Os efeitos do que Lula representou apenas por chegar l\u00e1 sequer s\u00e3o percebidos por muitos porque j\u00e1 foram incorporados. J\u00e1 est\u00e3o. Como disse uma vez o historiador Nicolau Sevcenko (1952-2014), em outro contexto: \u201cH\u00e1 coisas que n\u00e3o devemos perguntar o que far\u00e3o por n\u00f3s. Elas J\u00e1 fizeram\u201d.<\/p>\n<p>Marina Silva, derrotada nas \u00faltimas tr\u00eas elei\u00e7\u00f5es consecutivas, em cada uma delas perdendo uma fatia maior de capital eleitoral, seria outra representante in\u00e9dita de uma parcela da popula\u00e7\u00e3o que nunca ocupou a cadeira mais importante da Rep\u00fablica. Diferentemente de Lula, como j\u00e1 escrevi neste espa\u00e7o, Marina encarna um outro amplo segmento de brasileiros, muito mais invis\u00edvel, representado pelos povos da floresta. Carrega no corpo alquebrado por contamina\u00e7\u00f5es e tamb\u00e9m por doen\u00e7as que j\u00e1 n\u00e3o deveriam existir no Brasil uma experi\u00eancia de vida totalmente diversa de algu\u00e9m como Lula e outros pobres urbanos. Mas este \u00e9 o passado de Marina.<\/p>\n<p>A mulher negra, que se alfabetizou aos 16 anos e trabalhou como empregada dom\u00e9stica depois de deixar o seringal na floresta amaz\u00f4nica, empreendeu uma busca pelo conhecimento acad\u00eamico e hoje fala mais como uma intelectual da universidade do que como uma intelectual da floresta. Tamb\u00e9m deixou a Igreja Cat\u00f3lica ligada \u00e0 Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o para se converter numa evang\u00e9lica genu\u00edna, daquelas que vivem a religi\u00e3o no cotidiano em vez de instrumentaliz\u00e1-la nas elei\u00e7\u00f5es, como tantos pastores neopentecostais. Se Marina tivesse conseguido chegar ao poder, ela representaria toda essa complexa trajet\u00f3ria, mas tamb\u00e9m encarnaria uma excepcionalidade entre os seus. Quantas mulheres com o percurso de Marina se tornaram Marina?<\/p>\n<p>Jair Bolsonaro, filho de um dentista pr\u00e1tico do interior paulista, oriundo de uma fam\u00edlia que poderia ser definida como de classe m\u00e9dia baixa, n\u00e3o \u00e9 representante apenas de um estrato social. Ele representa mais uma vis\u00e3o de mundo. N\u00e3o h\u00e1 nada de excepcional nele. Cada um de n\u00f3s conheceu v\u00e1rios Jair Bolsonaro na vida. Ou tem um Jair Bolsonaro na fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Durante as v\u00e1rias fases republicanas do Brasil, a candidatura e os candidatos foram acertos das elites que disputavam o poder \u2013 ou resultado de uma disputa entre elas. O mais popular presidente do Brasil do s\u00e9culo 20, Get\u00falio Vargas (1882-1954), que em parte de sua trajet\u00f3ria pol\u00edtica foi tamb\u00e9m um ditador, era um estancieiro, filho da elite ga\u00facha. Ainda que tenha havido alguns presidentes apenas medianos durante a Rep\u00fablica, eram por regra homens oriundos de algum tipo de elite e alicer\u00e7ados por ela.<\/p>\n<p>Lula foi exce\u00e7\u00e3o. E Bolsonaro \u00e9 exce\u00e7\u00e3o. Mas representam opostos. N\u00e3o apenas por um ser de centro esquerda e outro de extrema direita. Mas porque Bolsonaro rompe com a ideia da excepcionalidade. Em vez de votar naquele que reconhecem como detentor de qualidades superiores, que o tornariam apto a governar, quase 58 milh\u00f5es de brasileiros escolheram um homem parecido com seu tio ou primo. Ou consigo mesmos.<\/p>\n<p>Essa disposi\u00e7\u00e3o dos eleitores foi bastante explorada pela bem sucedida campanha eleitoral de Bolsonaro, que apostou na vida \u201ccomum\u201d, falseando o cotidiano prosaico, o improviso e a gambiarra nas comunica\u00e7\u00f5es do candidato com seus eleitores pelas redes sociais. Bolsonaro n\u00e3o deveria parecer melhor, mas igual. N\u00e3o deveria parecer excepcional, mas \u201ccomum\u201d.<\/p>\n<p>A mesma estrat\u00e9gia foi mantida depois de eleito, como a mesa bagun\u00e7ada de caf\u00e9 da manh\u00e3 com que recebeu John Bolton, o conselheiro de Seguran\u00e7a Nacional do presidente americano Donald Trump. Neste sentido, Bolsonaro jamais pode ser considerado o \u201cTrump brasileiro\u201d. Trump, al\u00e9m pertencer a uma parcela muito particular das elites americanas, tem uma trajet\u00f3ria de destaque. Bolsonaro n\u00e3o. Como militar, ele s\u00f3 se notabilizou por quebrar as regras ao dar uma entrevista para a revista Veja reclamando do valor dos soldos. Como parlamentar por quase tr\u00eas d\u00e9cadas, conseguiu aprovar apenas dois projetos de lei. Era mais conhecido como personagem burlesco e criador de caso.<\/p>\n<p>Quando Tiririca foi eleito, por exemplo, sua grande vota\u00e7\u00e3o foi interpretada como a prova de que era necess\u00e1ria uma reforma pol\u00edtica urgente. Mas Tiririca foi um grande palha\u00e7o. Num mundo dif\u00edcil para a profiss\u00e3o desde a decad\u00eancia dos circos, Tiririca conseguiu encontrar um caminho na TV, fazer seu nome e ganhar a vida. N\u00e3o \u00e9 pouco.<\/p>\n<p>\u201cEu n\u00e3o sou ningu\u00e9m aqui\u201d, afirmou em 2011<\/p>\n<p>Bolsonaro n\u00e3o. O grande achado foi se eleger deputado e conseguir continuar se elegendo deputado. Em seguida, colocar todos os filhos no caminho dessa profiss\u00e3o altamente rent\u00e1vel e com muitos privil\u00e9gios. A \u201cfam\u00edlia\u201d Bolsonaro tornou-se um cl\u00e3 de pol\u00edticos profissionais que, nesta elei\u00e7\u00e3o, conseguiu um n\u00famero assombroso de votos. Mas n\u00e3o pela excepcionalidade de seus projetos e ideias.<\/p>\n<p>O novo presidente do Brasil passou quase tr\u00eas d\u00e9cadas como um pol\u00edtico daquilo que no Congresso brasileiro se chama \u201cbaixo clero\u201d, grupo que faz volume mas n\u00e3o det\u00e9m influ\u00eancia nem arquiteta as grandes decis\u00f5es. A alcunha \u00e9 uma alus\u00e3o injusta ao clero religioso que faz o trabalho de formiguinha, o mais dif\u00edcil e persistente, seguidamente perigoso, no mundo das igrejas. O pr\u00f3prio Bolsonaro j\u00e1 comentou que n\u00e3o tinha prest\u00edgio. Quando disputou a presid\u00eancia da C\u00e2mara, em 2017, s\u00f3 obteve quatro votos dos mais de 500 poss\u00edveis. \u201cEu n\u00e3o sou ningu\u00e9m aqui\u201d, afirmou em um discurso no plen\u00e1rio, em 2011.<\/p>\n<p>Os deputados do \u201cbaixo clero\u201d do Congresso descobriram a sua for\u00e7a nos \u00faltimos anos e tamb\u00e9m como podem se locupletar unindo-se e fazendo n\u00famero a favor dos interesses que lhes beneficiam. Ou simplesmente chantageando com o seu voto. Bolsonaro \u00e9 dessa estirpe. Se ocupava um lugar no Congresso, era o de buf\u00e3o. At\u00e9 um ano atr\u00e1s poucos acreditavam que poderia se eleger presidente. Parecia imposs\u00edvel que algu\u00e9m que dizia as barbaridades que ele dizia poderia ser escolhido para o cargo m\u00e1ximo do pa\u00eds.<\/p>\n<p>A massa que foi assistir \u00e0 posse gritava: \u201cWhatsApp! Facebook!\u201d<\/p>\n<p>O que se deixou de perceber \u00e9 que quase todos tinham um tio ou um primo exatamente como Bolsonaro. Logo essa evid\u00eancia ficou clara nos almo\u00e7os de domingo ou nas datas festivas da fam\u00edlia. Mas ainda assim parecia apenas uma continua\u00e7\u00e3o do que as redes sociais j\u00e1 tinham antecipado, ao revelar o que realmente pensavam pessoas que at\u00e9 ent\u00e3o pareciam razo\u00e1veis. Deixou-se de enxergar, talvez por nega\u00e7\u00e3o, o quanto esse contingente de pessoas era numeroso. Os preconceitos e os ressentimentos recalcados em nome da conviv\u00eancia eram agora liberados e fortalecidos pelo comportamento de grupo das bolhas da internet. As redes sociais permitiram \u201cdesrecalcar\u201d os recalcados, fen\u00f4meno que tanto beneficiou Bolsonaro.<\/p>\n<p>Os gritos das pessoas que ocuparam o gramado da Esplanada dos Minist\u00e9rios, em Bras\u00edlia, foram a parte mais reveladora da posse de Bolsonaro, em 1o de Janeiro. Euf\u00f3rica, a massa berrava: \u201cWhatsApp! WhatsApp! Facebook! Facebook!\u201d. Quem quiser compreender esse momento hist\u00f3rico ter\u00e1 que passar anos dedicado a analisar a profundidade contida no fato de eleitores berrarem o nome de um aplicativo e de uma rede social da internet, ambos de Mark Zuckerberg, na posse de um presidente que as elegeu como um canal direto com a popula\u00e7\u00e3o e deu a isso o nome de democracia.<\/p>\n<p>Bolsonaro representa, sim \u2013 e muito \u2013 um tipo de brasileiro que se sentia acuado h\u00e1 bastante tempo. E particularmente nos \u00faltimos anos. E que estava dentro de cada fam\u00edlia, quando n\u00e3o era a fam\u00edlia inteira. Todas as fam\u00edlias gostam de se pensar como diferentes \u2013 ou, pelo menos, melhores (ou piores, conforme o ponto de vista) que as outras. A experi\u00eancia de um confronto pol\u00edtico determinado pelos afetos \u2013 \u00f3dio, amor etc \u2013 nestas elei\u00e7\u00f5es deixou marcas profundas.<\/p>\n<p>Bolsonaro representa, principalmente, o brasileiro que nos \u00faltimos anos perdeu privil\u00e9gios<\/p>\n<p>N\u00e3o engendrasse tantas possibilidades destruidoras para o pa\u00eds, o fen\u00f4meno Bolsonaro seria bastante fascinante quando olhado como objeto de estudo. Sugiro algumas hip\u00f3teses para compreender como o mediano entre os medianos se tornou presidente do Brasil. As pesquisas de inten\u00e7\u00e3o de voto mostraram que Bolsonaro era o preferido especialmente entre os homens e especialmente entre os brancos e especialmente entre os que ganhavam mais. Isso n\u00e3o significa que n\u00e3o tenha tido uma vota\u00e7\u00e3o significativa entre as mulheres, os negros e os que ganham menos. Se n\u00e3o tivesse, Bolsonaro n\u00e3o conseguiria se eleger. Mesmo no Nordeste, a \u00fanica regi\u00e3o do Brasil em que perdeu para Fernando Haddad (PT), no segundo turno das elei\u00e7\u00f5es, Bolsonaro recebeu uma vota\u00e7\u00e3o significativa.<\/p>\n<p>O novo presidente representa, principalmente, o brasileiro que nos \u00faltimos anos sentiu que perdeu privil\u00e9gios. Nem sempre os privil\u00e9gios s\u00e3o bem entendidos. N\u00e3o se trata apenas de poder de compra, o que \u00e9 determinante numa elei\u00e7\u00e3o, mas daquilo que d\u00e1 ch\u00e3o a uma experi\u00eancia de existir, aquilo com que faz com que aquele que caminha se sinta em terra mais ou menos firme, conhe\u00e7a as placas de sinaliza\u00e7\u00e3o e entenda como se mover para chegar onde precisa.<\/p>\n<p>V\u00e1ria irrup\u00e7\u00f5es perturbaram esse sentimento de caminhar em territ\u00f3rio conhecido, em especial para o homem branco e heterossexual. As mulheres disseram a eles com uma \u00eanfase in\u00e9dita que n\u00e3o seria mais poss\u00edvel fazer gracinhas nas ruas nem assedi\u00e1-las nos trabalho ou em qualquer lugar. A viol\u00eancia sexual foi exposta e reprimida. A viol\u00eancia dom\u00e9stica, quase t\u00e3o comum quanto o feij\u00e3o com arroz (\u201cum tapinha n\u00e3o d\u00f3i\u201d) foi confrontada pela Lei Maria da Penha. Afirmar que uma \u201cmulher era mal comida\u201d se tornou coment\u00e1rio inaceit\u00e1vel de um neandertal.<\/p>\n<p>Na mesma dire\u00e7\u00e3o, os LGBTI se fizeram mais vis\u00edveis na exig\u00eancia dos seus direitos, entre eles o de existir, e passaram a denunciar a homofobia e a transfobia. Figuras p\u00fablicas como Laerte Coutinho anunciaram-se como mulher sem fazer cirurgia para tirar o p\u00eanis. O que h\u00e1 entre as pernas j\u00e1 n\u00e3o define ningu\u00e9m. E a posi\u00e7\u00e3o de homem heterossexual no topo da hierarquia nunca foi t\u00e3o questionada como nos \u00faltimos anos.<\/p>\n<p>Tanto que, como rea\u00e7\u00e3o, surgiram proposi\u00e7\u00f5es como criar o \u201cDia do Orgulho Heterossexual\u201d ou o \u201cDia do Homem\u201d e at\u00e9 o \u201cDia do Branco\u201d. N\u00e3o faz sentido criar datas para quem tem todos os privil\u00e9gios, mas as propostas apontam como mesmo a perda destes privil\u00e9gios em particular parece balan\u00e7ar o mundo de quem sempre teve a cole\u00e7\u00e3o completa de vantagens como direito inalien\u00e1vel.<\/p>\n<p>Em discurso, Bolsonaro prometeu \u201clibertar\u201d o Brasil do \u201cpoliticamente correto\u201d<\/p>\n<p>O que a maioria dos homens entendia como direito \u2013 falar o que bem entendesse, especialmente para uma mulher \u2013 j\u00e1 n\u00e3o era poss\u00edvel. \u201cN\u00e3o d\u00e1 para falar mais nada\u201d se tornou uma frase cl\u00e1ssica na boca destes homens. As j\u00e1 tradicionais piadas de \u201cviado\u201d, um tema cl\u00e1ssico de fortalecimento da identidade de macho, tornaram-se inaceit\u00e1veis. O \u201cpoliticamente correto\u201d, que Bolsonaro e seus seguidores tanto atacaram nesta elei\u00e7\u00e3o, foi interpretado como agress\u00e3o direta a privil\u00e9gios que eram considerados direitos.<\/p>\n<p>Para um homem pobre, seja ele branco ou negro, tripudiar sobre gays e\/ou mulheres na vida cotidiana pode ser a \u00fanica prova de \u201csuperioridade\u201d enquanto enfrenta o massacre di\u00e1rio de uma jornada extenuante e mal paga. Bolsonaro compreendeu isso muito bem. Em seu discurso para a popula\u00e7\u00e3o aglomerada na Pra\u00e7a dos Tr\u00eas Poderes, nesta ter\u00e7a-feira, o presidente rec\u00e9m-empossado colocou o combate ao \u201cpoliticamente correto\u201d como uma das prioridades do seu governo. N\u00e3o a assombrosa desigualdade social, que at\u00e9 mesmo presidentes conservadores achavam de bom tom citar, mas a necessidade de \u201clibertar\u201d a na\u00e7\u00e3o do jugo do \u201cpoliticamente correto\u201d.<\/p>\n<p>Logo no in\u00edcio do discurso, Bolsonaro afirmou: \u201c\u00c9 com humildade e honra que me dirijo a todos voc\u00eas como presidente do Brasil e me coloco diante de toda a na\u00e7\u00e3o neste dia como um dia em que o povo come\u00e7ou a se libertar do socialismo, se libertar da invers\u00e3o de valores, do gigantismo estatal e do politicamente correto\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 esse brasileiro \u201cacorrentado\u201d que votou para retomar seus privil\u00e9gios, incluindo o de ofender as minorias, como seu representante fez durante toda a carreira pol\u00edtica e tamb\u00e9m na campanha eleitoral. Para muitos, o privil\u00e9gio de voltar a ter assunto na mesa de bar \u2013 ou o de n\u00e3o ser reprimido pela sobrinha empoderada e feminista no almo\u00e7o de domingo.<\/p>\n<p>Somado a isso, as cotas raciais nas universidades, assim como o Estatuto da Igualdade Racial, conquistas dos movimentos negros reconhecidas pelos governos do PT, atingiram fundo os privil\u00e9gios de ra\u00e7a, t\u00e3o enraizados quanto os privil\u00e9gios de classe e de g\u00eanero no Brasil, possivelmente mais.<\/p>\n<p>Os negros passaram a n\u00e3o aceitar passivamente ser maioria nas piores estat\u00edsticas, ter menos tudo, assim como morrer mais e mais cedo. \u00c9 desse confronto que vem a frase sem qualquer lastro na realidade, mas repetida com persist\u00eancia por Bolsonaro e seus seguidores: a de que \u201co PT inventou os conflitos raciais\u201d. \u00c9 claro que, enquanto os negros seguissem aceitando o seu lugar subalterno e mort\u00edfero na sociedade brasileira, n\u00e3o haveria conflito. Mas esse tempo acabou e at\u00e9 mesmo lugares que pareciam reservados apenas aos filhos dos brancos, como as carreiras mais disputadas das universidades p\u00fablicas, come\u00e7aram a ser ocupados pelos negros.<\/p>\n<p>Para as fam\u00edlias, especialmente as brancas, outra mudan\u00e7a atingiu profundamente um privil\u00e9gio arraigado que est\u00e1 na forma\u00e7\u00e3o do Brasil, e que foi pouco alterado pela aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o negra. No in\u00edcio da segunda d\u00e9cada do s\u00e9culo, a \u201cPEC (Proposta de Emenda Constitucional) das Dom\u00e9sticas\u201d deu a essa categoria formada majoritariamente por mulheres, a maioria delas negras, direitos trabalhistas que outras categorias tinham h\u00e1 d\u00e9cadas mas que sempre foram negados a elas, como o limite da jornada de trabalho e o FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Servi\u00e7o).<\/p>\n<p>O \u00f3dio dos bolsonaristas se expressa n\u00e3o pela a\u00e7\u00e3o, mas pela rea\u00e7\u00e3o: a de quem se defende do que acredita ser um ataque<\/p>\n<p>Isso fez com que muitas fam\u00edlias de classe m\u00e9dia temessem n\u00e3o poder mais manter a sua escrava contempor\u00e2nea fazendo todo o servi\u00e7o dentro de casa e\/ou cuidando dos filhos dos patr\u00f5es por um tempo ilimitado de horas. Essa medida afetou profundamente as mulheres brancas de classe m\u00e9dia, ainda hoje em grande parte respons\u00e1veis pela administra\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica, apesar dos avan\u00e7os feministas. As reclama\u00e7\u00f5es ocupavam todos os espa\u00e7os. Os direitos das empregadas dom\u00e9sticas eram compreendidos como privil\u00e9gios, quando na verdade era o privil\u00e9gio dos brancas de ter uma mulher negra explorada e mal paga fazendo o servi\u00e7o dom\u00e9stico que estava em jogo.<\/p>\n<p>Os direitos de g\u00eanero, classe e ra\u00e7a est\u00e3o conectados. O reconhecimento destes direitos e a amplia\u00e7\u00e3o do acesso dos negros a espa\u00e7os at\u00e9 ent\u00e3o reservados aos brancos teve grande impacto no resultado eleitoral e tamb\u00e9m no antipetismo. O \u00f3dio dos bolsonaristas se expressa n\u00e3o na a\u00e7\u00e3o, mas na rea\u00e7\u00e3o: a de quem se defende do que acredita ser um ataque. Tamb\u00e9m por isso sentem ser leg\u00edtimo lan\u00e7ar as piores e mais violentas palavras contra o outro. Acreditavam \u2013 e ainda acreditam \u2013 estar apenas se defendendo, o que na sua vis\u00e3o de mundo justificaria qualquer viol\u00eancia. Tamb\u00e9m por isso o outro \u00e9 inimigo \u2013 e n\u00e3o opositor.<\/p>\n<p>Quando Bolsonaro assume o poder, este homem sente que tamb\u00e9m ele volta a governar um mundo que j\u00e1 n\u00e3o compreendia<\/p>\n<p>Mas qual \u00e9 o ataque que acreditam estar sofrendo? A suspens\u00e3o de privil\u00e9gios que consideravam direitos, acirrada pelo desamparo que uma crise econ\u00f4mica e a amea\u00e7a de desemprego provocam. Era gente \u2013 principalmente homens, heterossexuais e brancos \u2013 que nos \u00faltimos anos via o ch\u00e3o desaparecer debaixo dos seus p\u00e9s. Exclu\u00eddos das elites intelectuais, pressionados a ser \u201cpoliticamente corretos\u201d porque outros saberiam mais do que eles, ridicularizados na sua macheza fora de \u00e9poca, assombrados por mulheres at\u00e9 mesmo dentro de casa, reagem. Como se sentem fracos, reagem com for\u00e7a desproporcional.<\/p>\n<p>Esses brasileiros n\u00e3o querem um homem melhor do que eles na presid\u00eancia. O que querem \u00e9 um homem igual a eles no governo. Numa \u00e9poca em que at\u00e9 as met\u00e1foras se literalizaram, Bolsonaro lhes devolve \u2013 literalmente \u2013 aquilo que sentem que lhes foi tirado. Ao assumir o poder, Bolsonaro mostra que a ordem do mundo volta ao \u201cnormal\u201d. Com Bolsonaro, eles voltam tamb\u00e9m ao Governo de suas pr\u00f3prias vidas, sem serem questionados nem precisarem ser questionados sobre temas t\u00e3o espinhosos como, por exemplo, a sexualidade e seu lugar na fam\u00edlia e na sociedade.<\/p>\n<p>S\u00e3o principalmente homens, mas tamb\u00e9m s\u00e3o mulheres que sentem que a opress\u00e3o \u00e9 um pre\u00e7o baixo a pagar para voltar a um territ\u00f3rio que, mesmo asfixiante, \u00e9 conhecido e supostamente mais seguro num mundo movedi\u00e7o. S\u00e3o brasileiros que pertencem a diferentes religi\u00f5es, mas a vota\u00e7\u00e3o mais expressiva recebida por Bolsonaro foi entre os evang\u00e9licos. As igrejas evang\u00e9licas neopentecostais t\u00eam multiplicado o n\u00famero de fi\u00e9is e aumentado sua representa\u00e7\u00e3o no Congresso nos \u00faltimos anos, encarnando uma das mais importantes mudan\u00e7as culturais \u2013 e pol\u00edticas \u2013 do Brasil.<\/p>\n<p>Como disse Bolsonaro em seu discurso \u00e0s massas, logo ap\u00f3s ser ungido com a faixa presidencial: \u201cN\u00e3o podemos deixar que ideologias nefastas venham a dividir os brasileiros. Ideologias que destroem nossos valores e tradi\u00e7\u00f5es, destroem nossas fam\u00edlias, alicerce da nossa sociedade. Podemos, eu, voc\u00ea e as nossas fam\u00edlias, todos juntos, reestabelecer padr\u00f5es \u00e9ticos e morais que transformar\u00e3o nosso Brasil\u201d.<\/p>\n<p>Bolsonaro se torna her\u00f3i porque enfrenta o \u201cpoliticamente correto\u201d e liberta os sentimentos reprimidos de seus iguais<\/p>\n<p>Como se sentiam burros diante da intelectualidade acad\u00eamica que sempre lhes torceu o nariz pontudo, os bolsonaristas adotaram seus pr\u00f3prios intelectuais. E tamb\u00e9m foram adotados por eles, como fez Olavo de Carvalho, que gra\u00e7as a isso se tornou um autor best-seller e passou a exercer seu autoproclamado \u201canarquismo\u201d de forma bastante interessante.<\/p>\n<p>Bolsonaro torna-se ent\u00e3o aquele que \u201cn\u00e3o tem medo de dizer o que pensa\u201d ou \u201caquele que diz a verdade\u201d. Bolsonaro se torna her\u00f3i porque enfrenta o \u201cpoliticamente correto\u201d e liberta os sentimentos reprimidos de seus iguais. Eles, que come\u00e7am a se sentir uns merdas diante de mulheres cada vez mais assertivas e de negros que n\u00e3o aceitam mais um lugar subalterno podem ent\u00e3o voltar a mentir sobre privil\u00e9gios serem direitos \u2013 e afirmar que esta \u00e9 \u201ca verdade\u201d. Bolsonaro prega \u201ctransforma\u00e7\u00e3o\u201d, mas s\u00f3 se elegeu porque sua proposta de \u201cmudan\u00e7a\u201d trabalha com a ilus\u00e3o do retorno. Essa \u201cnova direita\u201d compreende muito bem os anseios de uma parcela dos homens desesperados desse tempo.<\/p>\n<p>Na tentativa de volta ao passado que j\u00e1 n\u00e3o pode ser, mesmo com Bolsonaro no poder, os privil\u00e9gios perdidos foram tachados de \u201cideologia\u201d. Aqueles que ideologizam tudo, at\u00e9 mesmo a orienta\u00e7\u00e3o sexual e a religi\u00e3o alheias, culpam a ideologia por tudo. Se n\u00e3o gostam dos fatos, como o aquecimento global, convertem-nos em \u201cideologia marxista\u201d. Transformam \u201cpoliticamente correto\u201d num palavr\u00e3o. Qualquer limite torna-se uma afronta \u00e0 liberdade, em especial a liberdade de ser violento. Chamam todos aqueles que apontam a necessidade de limites de \u201ccomunistas\u201d ou \u201cesquerdistas\u201d, como se ambas as palavras significassem uma esp\u00e9cie de pecado capital.<\/p>\n<p>Bolsonaro e seus seguidores corrompem a realidade e afirmam sua mediocridade como valor<\/p>\n<p>Como sentiam-se oprimidos por conceitos que n\u00e3o compreendiam, os bolsonaristas descobriram que poderiam dar \u00e0s palavras o significado que lhes conviesse porque o grupo os respaldaria. E, gra\u00e7as \u00e0s redes sociais, o grupo os respalda. O significado das palavras \u00e9 dado pelo n\u00famero de \u201ccurtir\u201d nas redes sociais. Esvaziadas de conte\u00fado, hist\u00f3ria e consenso, esvaziadas at\u00e9 mesmo das contradi\u00e7\u00f5es e das disputas, as palavras se tornaram gritos, for\u00e7a bruta.<\/p>\n<p>\u00c9 assim que um homem med\u00edocre como Bolsonaro vira \u201cmito\u201d. Amea\u00e7ados de perder a diferen\u00e7a que lhes garante privil\u00e9gios que j\u00e1 n\u00e3o podem ter, Bolsonaro e seus seguidores corrompem a realidade e afirmam sua mediocridade como valor. Macho. Branco. Sujeito Homem.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 este brasileiro que chega ao poder com Bolsonaro? Em parte sim. Mas em parte n\u00e3o. Este \u00e9 o enredo que assistiremos a partir de agora. Tornar-se adulto n\u00e3o \u00e9 apenas uma condi\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica. \u00c9, no sentido mais amplo, reconhecer seus limites e responsabilizar-se pelas pr\u00f3prias escolhas. Bolsonaro, claramente, \u00e9 uma crian\u00e7a voluntariosa e mal educada que precisa da aprova\u00e7\u00e3o dos maiores.<\/p>\n<p>Ao vislumbrarem que Bolsonaro poderia ganhar a elei\u00e7\u00e3o, diferentes grupos das elites se aproximaram e respaldaram sua candidatura. Cada um com seu projeto pr\u00f3prio. H\u00e1 Paulo Guedes, o ultraliberal ambicioso e intoxicado pela pr\u00f3pria import\u00e2ncia que quer marcar a hist\u00f3ria, comandando o superminist\u00e9rio da Economia. H\u00e1 Sergio Moro, o juiz que mostrou que pode violar a lei caso ela perturbe seu projeto pessoal, porque acredita que seu projeto pessoal \u00e9 p\u00fablico e acredita saber o que \u00e9 melhor para a na\u00e7\u00e3o, como acreditam todos os que se creem superiores ou mesmo super-her\u00f3is.<\/p>\n<p>Como o garoto Bolsonaro vai lidar com as disputas no mundo dos adultos?<\/p>\n<p>H\u00e1 os representantes do \u201cagroneg\u00f3cio\u201d, ramo que no Brasil se confunde com crimes como grilagem (roubo) de terras p\u00fablicas e conflitos agr\u00e1rios causadores de dezenas de assassinatos a cada ano. Fiadores do governo de Michel Temer (MDB) e tamb\u00e9m da candidatura de Bolsonaro, os ruralistas n\u00e3o apenas est\u00e3o no governo, mas \u201cs\u00e3o\u201d o governo.<\/p>\n<p>Esse grupo vai abrir a Amaz\u00f4nia para a explora\u00e7\u00e3o \u2013 soja, gado e minera\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de grandes obras. Isso significa, entre outras medidas, mudar ou \u201cregulamentar\u201d a Constitui\u00e7\u00e3o para abrir as terras p\u00fablicas de usufruto exclusivo dos ind\u00edgenas ou as terras coletivas dos quilombolas para lucros de grupos privados. Uma das primeiras medidas de Bolsonaro, logo ap\u00f3s ser empossado na presid\u00eancia, foi transferir a demarca\u00e7\u00e3o das terras ind\u00edgenas e das terras dos quilombolas para o Minist\u00e9rio da Agricultura. J\u00e1 no primeiro dia Bolsonaro entregou o futuro da floresta e do cerrado \u00e0queles que os destroem.<\/p>\n<p>No escal\u00e3o mais subalterno, h\u00e1 um ministro do Meio Ambiente condenado por violar o meio ambiente, um ruralista escolhido pelos ruralistas. H\u00e1 uma ministra da cota evang\u00e9lica que vai cuidar de temas t\u00e3o amplos como direitos humanos, mulheres e ind\u00edgenas, a partir de uma leitura literal da B\u00edblia. H\u00e1 um ministro de Cidadania que ser\u00e1 respons\u00e1vel tamb\u00e9m pela \u00e1rea da cultura, mas j\u00e1 afirmou n\u00e3o entender nada da \u00e1rea.<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda os ministros da cota afetiva de Bolsonaro, como o chanceler Ernesto Ara\u00fajo, que assumiu para si a tarefa de construir a base intelectual da ideologia de Bolsonaro. Em artigo publicado numa revista americana, o diplomata que parece desprezar a diplomacia lan\u00e7ou uma esp\u00e9cie de nacionalismo religioso: \u201cDeus atrav\u00e9s da na\u00e7\u00e3o\u201d. E h\u00e1 o ministro da Educa\u00e7\u00e3o que acredita que o golpe que levou o Brasil a 21 anos de ditadura deve ser comemorado. O apagamento da hist\u00f3ria, sacrificando os fatos em nome da ideologia, \u00e9 uma das miss\u00f5es do governo Bolsonaro.<\/p>\n<p>E h\u00e1, finalmente, aquele que \u00e9 talvez o grupo mais significativo, composto por sete militares ocupando postos chaves no governo. Nem sempre esses grupos concordam sobre o que \u00e9 melhor para o Brasil. \u00c9 prov\u00e1vel que em alguns pontos possam discordar radicalmente. Como ent\u00e3o o garoto Bolsonaro vai lidar com a disputa de gente grande?<\/p>\n<p>Como o menino mimado vai se haver com a realidade, agora que a campanha acabou? Como vai ser quando a corros\u00e3o dos dias amea\u00e7ar a paix\u00e3o das massas? E, no lado oposto, como os adultos da sala v\u00e3o lidar com a crian\u00e7a cheia de vontades quando ela n\u00e3o puder ser manipulada \u2013 ou estiver sendo manipulada pelo grupo advers\u00e1rio \u2013 e amea\u00e7ar seu projeto de poder? Como se dar\u00e1 essa negocia\u00e7\u00e3o? Quais s\u00e3o os riscos de ruptura?<\/p>\n<p>Como todo med\u00edocre, Jair Bolsonaro arrota ignor\u00e2ncia como se fosse sabedoria. Mas, tamb\u00e9m como todo med\u00edocre, no fundo, bem no fundo, ele suspeita que \u00e9 med\u00edocre. E busca desesperadamente a aprova\u00e7\u00e3o dos adultos.<\/p>\n<p>No momento, Bolsonaro est\u00e1 encantado por ter um intelectual ligado \u00e0 Escola de Chicago dizendo a ele o quanto \u00e9 especial. Um her\u00f3i da Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato lhe tecendo elogios. E, principalmente, generais batendo contin\u00eancia ao capit\u00e3o. Mas a realidade \u00e9 implac\u00e1vel com as ilus\u00f5es.<\/p>\n<p>Para acirrar a possibilidade de conflitos, h\u00e1 ainda a fam\u00edlia de Bolsonaro, com seu trio de principezinhos, desta vez mimados pelo pai, que ainda chama marmanjos sem limites de \u201cgarotos\u201d. Extasiados com o poder, eles j\u00e1 mostraram o quanto gostam do palco e quanta confus\u00e3o podem aprontar. Como pai t\u00edpico deste momento hist\u00f3rico, Bolsonaro protege seus meninos. Neste caso, da pr\u00f3pria mediocridade. Os Bolsonaros J\u00fanior parecem ter certeza de que s\u00e3o excepcionais e que a realidade vai se dobrar \u00e0 sua vontade. Se n\u00e3o se dobra, sempre podem chamar \u201cum cabo e um soldado\u201d para fazer o servi\u00e7o.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia de Brasil que agora se inicia \u00e9 fascinante. Mas s\u00f3 se viv\u00eassemos em Marte e se a maior floresta tropical do planeta n\u00e3o estivesse amea\u00e7ada. Em algum momento, Jair Bolsonaro se olhar\u00e1 no espelho e ver\u00e1 apenas Fabr\u00edcio Queiroz, o PM e ex-assessor do filho que n\u00e3o consegue explicar de onde vem o dinheiro que depositou na conta da primeira-dama. Em algum momento, Jair Bolsonaro poder\u00e1 se olhar no espelho e ver\u00e1 apenas a imagem mais exata de si mesmo. Assombrado pela verdade que n\u00e3o poder\u00e1 chamar de \u201cfake news\u201d, ele correr\u00e1 para as ruas para ouvir os Queiroz gritarem: \u201cMito! Mito! Mito!\u201d. Mas o grito pode ter sido engolido pela realidade dos dias. Saberemos ent\u00e3o, em toda a sua magnitude, o que significa Bolsonaro no poder.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que significa transformar o ordin\u00e1rio em \u201cmito\u201d e dar a ele o Governo do pa\u00eds?<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-19948","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-5bK","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19948","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19948"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19948\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19950,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19948\/revisions\/19950"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19948"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19948"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19948"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}