{"id":20057,"date":"2019-01-14T13:51:09","date_gmt":"2019-01-14T17:51:09","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=20057"},"modified":"2019-01-14T13:51:09","modified_gmt":"2019-01-14T17:51:09","slug":"a-culpa-o-instrumento-de-controle-das-religioes","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2019\/01\/14\/a-culpa-o-instrumento-de-controle-das-religioes\/","title":{"rendered":"A culpa, o instrumento de controle das religi\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"20058\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2019\/01\/14\/a-culpa-o-instrumento-de-controle-das-religioes\/f2f93ad7-95a3-42bf-b664-d1c7b8e2c22e\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/F2F93AD7-95A3-42BF-B664-D1C7B8E2C22E.jpeg?fit=360%2C257\" data-orig-size=\"360,257\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"F2F93AD7-95A3-42BF-B664-D1C7B8E2C22E\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/F2F93AD7-95A3-42BF-B664-D1C7B8E2C22E.jpeg?fit=300%2C214\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/F2F93AD7-95A3-42BF-B664-D1C7B8E2C22E.jpeg?fit=360%2C257\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/F2F93AD7-95A3-42BF-B664-D1C7B8E2C22E.jpeg?resize=360%2C257\" alt=\"F2F93AD7-95A3-42BF-B664-D1C7B8E2C22E\" width=\"360\" height=\"257\" class=\"alignnone size-full wp-image-20058\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/F2F93AD7-95A3-42BF-B664-D1C7B8E2C22E.jpeg?w=360 360w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/F2F93AD7-95A3-42BF-B664-D1C7B8E2C22E.jpeg?resize=300%2C214 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 360px) 100vw, 360px\" \/><\/p>\n<p>Com o fim da cultura religiosa aprendemos a pensar que os erros n\u00e3o s\u00e3o nossos, que s\u00e3o dos grupos, das sociedades ou das estruturas. O inferno s\u00e3o os outros<!--more--><\/p>\n<p>No El Pa\u00eds<\/p>\n<p>MART\u00cdN CAPARR\u00d3S<br \/>\n14 JAN 2019 &#8211; 17:51\tCET<br \/>\nFOI UM dos inventos mais extraordin\u00e1rios que os manuais n\u00e3o registram: isso costuma acontecer com os inventos mais extraordin\u00e1rios. Antes dele, aqueles homens e mulheres viviam mais ou menos felizes. Ou preocupados, irritados, apavorados, mas sem o peso da culpa. Naqueles dias as coisas aconteciam e ningu\u00e9m sabia por qu\u00ea: a vida era assim ou, no m\u00e1ximo, eram assim caprichosos esses deusinhos que pululavam na \u00e1rvore, na \u00e1gua, na lua distante ou no poderoso sol.<\/p>\n<p>E ent\u00e3o aconteceu. N\u00e3o se sabe quando, quem, como, mas em algum momento, h\u00e1 quatro ou cinco mil anos, alguns homens e mulheres no Iraque, no Ir\u00e3 ou na S\u00edria come\u00e7aram a acreditar que a culpa era deles. Que se a sua colheita estava ferrada ou o quinto filho morresse ou o jumento estivesse mancando, n\u00e3o era por causa desses acasos da vida, mas porque tinham feito algo para merecer isso. E tudo, ent\u00e3o, come\u00e7ou a mudar: tinha surgido, escreveu Bott\u00e9ro, a ideia do pecado.<\/p>\n<p>(Jean Bott\u00e9ro nasceu pobre e proven\u00e7al em 1914, estudou com os padres, foi ordenado dominicano, se dedicou a ensinar e foi demitido por n\u00e3o querer dizer que o G\u00eanesis era um fato hist\u00f3rico. Ent\u00e3o, dedicou-se \u00e0 Mesopot\u00e2mia, aprendeu seus idiomas, casou-se, traduziu o C\u00f3digo de Hamurabi, foi s\u00e1bio e, ainda assim, publicou v\u00e1rios livros).<\/p>\n<p>Quando apareceu, disse Bott\u00e9ro, o pecado n\u00e3o era uma transgress\u00e3o que o pecador cometia em sua vida cotidiana. N\u00e3o era um conceito moral, era administrativo. Um sacerdote errava a invoca\u00e7\u00e3o a um deusinho e o deusinho se zangava. Uma fam\u00edlia sacrificava a cabra errada para uma pequena deusa, e a deusa se vingava. O sacerdote e a fam\u00edlia talvez n\u00e3o soubessem: acreditavam que haviam feito tudo certo e, de repente, aquela seca ou aquela tempestade ou aquela guerra lhes provavam que n\u00e3o. As desgra\u00e7as chegavam como castigos a erros que seu autor ignorava. Assim, a vida se tornou uma cont\u00ednua ansiedade por n\u00e3o saberem se tinham agido bem ou mal. E a prova de que se tinha feito algo errado \u2014n\u00e3o algo ruim, algo errado\u2014 era que algo ruim estava acontecendo com voc\u00ea.<\/p>\n<p>A culpa era sua, claro. A inven\u00e7\u00e3o mesopot\u00e2mica do pecado foi a forma de transferir a culpa do poder para o impotente: eram os homens \u2014cada homem\u2014 que estavam enganados, eram eles que causavam as desgra\u00e7as e deviam saber como e por qu\u00ea. Os deuses eram como aqueles pais que batem no filho enquanto dizem que ele j\u00e1 sabe por qu\u00ea.<\/p>\n<p>O cristianismo foi um avan\u00e7o: quando recorreu \u00e0 ideia de pecado para impor um c\u00f3digo de conduta, devolveu a seus fi\u00e9is uma certa autonomia. Pelo menos poderiam escolher quando e como quebrar as regras, pelo menos te castigavam por algo que voc\u00ea sabia que n\u00e3o deveria ter feito, mesmo que voc\u00ea n\u00e3o soubesse por que n\u00e3o deveria ter feito. Ou se voc\u00ea soubesse: n\u00e3o deveria porque o padre dizia que o deus era quem dizia \u2014e isso bastava.<\/p>\n<p>E a culpa continuava sendo sua. A culpa foi inventada para que fosse sua: de uma forma ou de outra, sua, e que voc\u00ea batesse no peito e grite minha culpa, minha m\u00e1xima culpa e todas essas asneiras. Funcionava: tudo de ruim acontecia por causa dos seus erros, pelos sues desvios, porque o poder \u2014o deus ou o que fosse\u2014 era justo, infinitamente justo.<\/p>\n<p>At\u00e9 que, com o fim da cultura verdadeiramente religiosa, esse grande truque de poder foi desarmado. Aprendemos a pensar o contr\u00e1rio: que a culpa n\u00e3o \u00e9 nossa, que \u00e9 dos grupos, das sociedades, das estruturas. Que o inferno s\u00e3o sempre os outros. \u00c9 curioso: para se livrar da forma mais brutal de opress\u00e3o, daqueles escritas ou n\u00e3o escritas que nos mantinham no terror, tivemos que come\u00e7ar a assumir que n\u00e3o somos respons\u00e1veis por aquilo que nos acontece. Mas agora o mal sempre \u00e9 culpa deles: os pol\u00edticos, os economistas, os ricos, os imigrantes, os infi\u00e9is, os outros.<\/p>\n<p>Agora somos t\u00e3o pobres que nem sequer temos a culpa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com o fim da cultura religiosa aprendemos a pensar que os erros n\u00e3o s\u00e3o nossos, que s\u00e3o dos grupos, das sociedades ou das estruturas. 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