{"id":20152,"date":"2019-01-21T09:54:03","date_gmt":"2019-01-21T13:54:03","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=20152"},"modified":"2019-01-21T09:54:03","modified_gmt":"2019-01-21T13:54:03","slug":"sem-debate-franco-sobre-genero-mulheres-estao-fadadas-a-violencia-domestica-entrevista-especial-com-fernanda-de-vasconcellos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2019\/01\/21\/sem-debate-franco-sobre-genero-mulheres-estao-fadadas-a-violencia-domestica-entrevista-especial-com-fernanda-de-vasconcellos\/","title":{"rendered":"Sem debate franco sobre g\u00eanero, mulheres est\u00e3o fadadas \u00e0 viol\u00eancia dom\u00e9stica. Entrevista especial com Fernanda de Vasconcellos"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"20153\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2019\/01\/21\/sem-debate-franco-sobre-genero-mulheres-estao-fadadas-a-violencia-domestica-entrevista-especial-com-fernanda-de-vasconcellos\/viti\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/viti.jpg?fit=800%2C588\" data-orig-size=\"800,588\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"viti\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/viti.jpg?fit=300%2C221\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/viti.jpg?fit=600%2C441\" class=\"alignnone size-full wp-image-20153\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/viti.jpg?resize=600%2C441\" alt=\"viti\" width=\"600\" height=\"441\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/viti.jpg?w=800 800w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/viti.jpg?resize=300%2C221 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/viti.jpg?resize=768%2C564 768w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/viti.jpg?resize=408%2C300 408w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p><strong>Tatiane Spitzner<\/strong>, de 29 anos, e<strong>\u00a0Tatiane Rodrigues da Silva<\/strong>, de 30 anos. Uma era advogada e a outra cabelereira, mas o que elas t\u00eam em comum? Ambas foram mortas pelos parceiros,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/584722-brasil-concentrou-40-dos-feminicidios-da-america-latina-em-2017\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">v\u00edtimas de feminic\u00eddio<\/a>, uma no\u00a0<strong>Paran\u00e1<\/strong>\u00a0e a outra em<strong>\u00a0Minas Gerais<\/strong>. S\u00e3o dois dos in\u00fameros casos que t\u00eam sido noticiados de mulheres que passam a sofrer viol\u00eancia at\u00e9 chegarem a ser mortas.<!--more--><\/p>\n<div class=\"author\">\n<p>Por:\u00a0<strong>Jo\u00e3o Vitor Santos\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>No Humanitas Unisinos<\/p>\n<\/div>\n<p>A soci\u00f3loga\u00a0<strong>Fernanda de Vasconcellos<\/strong>\u00a0lembra que esses casos todos que vemos nos notici\u00e1rios ainda s\u00e3o uma pequena ponta do iceberg. Segundo dados do<strong>\u00a0Instituto Maria da Penha<\/strong>, a cada dois segundos, no\u00a0<strong>Brasil<\/strong>, uma\u00a0<strong>mulher<\/strong>\u00a0\u00e9\u00a0<strong>v\u00edtima de viol\u00eancia<\/strong>. Para\u00a0<strong>Fernanda<\/strong>, n\u00e3o existe um padr\u00e3o dessas v\u00edtimas. \u201cA\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/581774-a-banalizacao-da-violencia-domestica\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">viol\u00eancia<\/a>\u00a0est\u00e1 presente em todas as classes sociais: o que varia s\u00e3o as formas como o conflito costuma ser administrado pelas partes nele envolvidas\u201d, pontua. Entretanto, a soci\u00f3loga pondera que \u201co que as v\u00edtimas deste tipo de viol\u00eancia t\u00eam em comum \u00e9 o fato de que, em algum momento de suas trajet\u00f3rias pessoais, descumpriram alguma expectativa vinculada aos\u00a0<strong>pap\u00e9is sociais de g\u00eanero<\/strong>tradicionalmente atribu\u00eddos \u00e0\u00a0<strong>mulher<\/strong>: boa esposa, boa m\u00e3e, boa dona de casa, possuidora de uma sexualidade \u2018controlada\u2019\u201d. Ou seja, se h\u00e1 uma quest\u00e3o de fundo nessas hist\u00f3rias, ela passa necessariamente pela reflex\u00e3o sobre as quest\u00f5es de g\u00eanero e os pap\u00e9is sociais atribu\u00eddos a homens e mulheres.<\/p>\n<p>Na entrevista concedida por e-mail \u00e0<strong>\u00a0IHU On-Line<\/strong>,\u00a0<strong>Fernanda<\/strong>\u00a0ainda lembra que os\u00a0<strong>agressores<\/strong>costumam ter em comum a necessidade de reafirmar suas expectativas de g\u00eanero, \u201cas quais est\u00e3o fortemente relacionadas a uma percep\u00e7\u00e3o de que a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/586150-se-como-homem-voce-se-ofende-com-o-anuncio-da-gillette-voce-tem-um-problema\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">masculinidade<\/a>\u00a0deve ser violenta, patriarcal, viril e honrada\u201d. Por isso, embora reconhe\u00e7a avan\u00e7os nas a\u00e7\u00f5es do Estado no que diz respeito \u00e0 prote\u00e7\u00e3o da mulher \u2013 vide a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/570419-aos-11-anos-da-lei-maria-da-penha-uma-mulher-e-agredida-a-cada-dois-segundos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Lei Maria da Penha<\/a>\u00a0\u2013, a professora acredita que para estancar a chaga da viol\u00eancia contra a mulher \u00e9 preciso a\u00e7\u00f5es mais amplas, embora complexas. \u201cDebates sobre g\u00eanero s\u00e3o fundamentais para a exist\u00eancia de uma pol\u00edtica de preven\u00e7\u00e3o de viol\u00eancias contra a mulher\u201d, enfatiza. \u201cN\u00e3o existe a possibilidade de enfrentamento do problema por qualquer via que desconsidere a import\u00e2ncia destas discuss\u00f5es no contexto da educa\u00e7\u00e3o: se o debate for evitado no espa\u00e7o escolar ou for apresentado de modo a manter uma estrutura social com pap\u00e9is de g\u00eanero tradicionalmente atribu\u00eddos a homens e mulheres (dentro da l\u00f3gica \u201cmenino veste azul e menina veste rosa\u201d), possivelmente seguiremos observando \u00edndices crescentes de\u00a0<strong>viol\u00eancia<\/strong>\u00a0n\u00e3o s\u00f3 contra a\u00a0<strong>mulher<\/strong>, mas tamb\u00e9m contra grupos que desrespeitam crit\u00e9rios de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/578318-a-cada-19-horas-uma-pessoa-lgbt-e-assassinada-ou-se-suicida-no-brasil\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">heteronormatividade<\/a>\u201d, completa.<\/p>\n<p>A professora ainda faz quest\u00e3o de evidenciar que esse \u00e9 um debate que tem centralidade na escola, mas que tamb\u00e9m deve transbordar esse espa\u00e7o. \u201c\u00c9 necess\u00e1ria a cont\u00ednua forma\u00e7\u00e3o de profissionais que atuam nos diversos \u00e2mbitos do sistema de justi\u00e7a e demais institui\u00e7\u00f5es que fa\u00e7am parte da rede de atendimento a\u00a0<strong>mulheres<\/strong>\u00a0em\u00a0<strong>situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia<\/strong>. Sem estas a\u00e7\u00f5es de capacita\u00e7\u00e3o e aperfei\u00e7oamento, a possibilidade de revitimiza\u00e7\u00e3o \u00e9 enorme\u201d, adverte.<\/p>\n<div class=\"news-image-credits\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.ihu.unisinos.br\/images\/ihu\/2016\/ESCOLHER_A_FOTO.jpg?w=600\" alt=\"\" \/><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.ihu.unisinos.br\/images\/ihu\/2019\/01\/18_01_fernanda_vasconceloz_foto_arquivo_pessoal.jpg?w=600\" alt=\"\" \/><strong>Bestetti de Vasconcellos<\/strong>\u00a0(Foto: Arquivo Pessoal)<\/div>\n<p><strong>Fernanda Bestetti de Vasconcellos<\/strong>\u00a0\u00e9 professora adjunta do Departamento de Sociologia e do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Seguran\u00e7a Cidad\u00e3 da Universidade Federal do Rio Grande do Sul &#8211; UFRGS. Doutora em Ci\u00eancias Sociais pela Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica do Rio Grande do Sul &#8211; PUCRS, possui mestrado em Ci\u00eancias Sociais pela PUCRS e bacharelado em Ci\u00eancias Sociais pela UFRGS. \u00c9 pesquisadora visitante no Departamento de Criminologia da Universidade de Ottawa, no Canad\u00e1, e atua como pesquisadora do Grupo de Pesquisa em Pol\u00edticas P\u00fablicas de Seguran\u00e7a e Administra\u00e7\u00e3o da Justi\u00e7a Penal &#8211; GPESC e do Instituto Nacional de Estudos Comparados em Administra\u00e7\u00e3o Institucional de Conflitos &#8211; INCT-INEAC.<\/p>\n<p><strong>Confira a entrevista.<\/strong><\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 O ano de 2019 come\u00e7ou com uma s\u00e9rie de not\u00edcias sobre casos de viol\u00eancia contra mulheres. Vivemos um recrudescimento desses ataques? Ou esses casos s\u00e3o recorrentes, sendo que neste in\u00edcio de ano a imprensa apenas tem dado mais aten\u00e7\u00e3o a esses fatos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fernanda de Vasconcellos \u2013<\/strong>\u00a0Podemos dizer, sim, que vivemos um momento em que a\u00a0<strong>viol\u00eancia sofrida por mulheres<\/strong>\u00a0em seu ambiente dom\u00e9stico e\/ou familiar passa por um processo de acirramento. De acordo com dados da pr\u00f3pria\u00a0<strong>Secretaria de Seguran\u00e7a P\u00fablica do Rio Grande do Sul<\/strong>, por exemplo, ocorreu um aumento de 40,9% em\u00a0<strong>homic\u00eddios de mulheres<\/strong>\u00a0j\u00e1 no ano de 2018, em compara\u00e7\u00e3o ao ano anterior.<\/p>\n<div class=\"news-citacao\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<p class=\"tweet-quote\">Vivemos um momento em que a viol\u00eancia sofrida por mulheres em seu ambiente dom\u00e9stico e\/ou familiar passa por um processo de acirramento \u2013 Fernanda de Vasconcellos<\/p>\n<p><a class=\"button-tweet-intent tweet-intent\" href=\"https:\/\/twitter.com\/intent\/tweet?text=Vivemos%20um%20momento%20em%20que%20a%20viol%C3%AAncia%20sofrida%20por%20mulheres%20em%20seu%20ambiente%20dom%C3%A9stico%20e\/ou%20familiar%20passa%20por%20um%20processo%20de%20acirramento%20%E2%80%93%20Fernanda%20de%20Vasconcellos%20http%3A%2F%2Fwww.ihu.unisinos.br%2F586182-sem-debate-franco-sobre-genero-mulheres-estao-fadadas-a-violencia-domestica-entrevista-especial-com-fernanda-de-vasconcellos+via+%40_ihu\"><i class=\"fa fa-twitter tweet-intent\"><\/i>\u00a0Tweet<\/a><\/div>\n<\/div>\n<p>O\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/586043-especialistas-alertam-para-o-recrudescimento-da-violencia-contra-meninas-e-mulheres-no-pais\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">aumento de morte de mulheres<\/a>, perpetradas por homens que fazem ou fizeram parte de seu contexto relacional dom\u00e9stico ou familiar, n\u00e3o ocorreu somente no\u00a0<strong>Rio Grande do Sul<\/strong>. Estas mortes fazem parte de uma realidade que se estende por todo o territ\u00f3rio brasileiro e que podem estar vinculadas a situa\u00e7\u00f5es que se relacionam com caracter\u00edsticas culturais da sociedade brasileira (como o patriarcalismo, por exemplo) e com poss\u00edveis rea\u00e7\u00f5es conservadoras ao que seria um processo (discursivo) de\u00a0<strong>empoderamento feminino<\/strong>, vivenciado no\u00a0<strong>Brasil<\/strong>\u00a0a partir de meados da primeira d\u00e9cada dos anos 2000.<\/p>\n<p>Este crescente processo de exacerba\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia torna-se objeto de interesse social, em grande parte, pela aten\u00e7\u00e3o que a imprensa vem direcionando \u00e0 quest\u00e3o. De forma similar ao que ocorreu com a entrada em vigor da\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/581607-falta-protecao-contra-violencia-domestica-nas-cidades-pequenas-diz-maria-da-penha\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Lei Maria da Penha<\/a>\u00a0em agosto de 2006, quando come\u00e7am a ser veiculados na m\u00eddia nacional discursos que apontam para a ideia de que \u201c\u00e9 errado bater em mulher\u201d, com a cria\u00e7\u00e3o da figura jur\u00eddica do\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/584768-a-praga-do-feminicidio-na-america-latina-quase-tres-mil-mulheres-assassinadas-em-2017\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">feminic\u00eddio<\/a>\u00a0em 2015, a possibilidade de nomear os homic\u00eddios de mulheres motivados pelo n\u00e3o cumprimento de expectativas de g\u00eanero deu a imprensa a chance de pautar esta viol\u00eancia de modo mais organizado. Historicamente,\u00a0<strong>mulheres<\/strong>\u00a0s\u00e3o\u00a0<strong>v\u00edtimas de homic\u00eddios<\/strong>motivados pela n\u00e3o aceita\u00e7\u00e3o do companheiro com o final do relacionamento e as taxas destes crimes crescem anualmente (a despeito da exist\u00eancia de uma lei que criminaliza a viol\u00eancia contra a mulher). Por\u00e9m, a coloca\u00e7\u00e3o da figura do\u00a0<strong>feminic\u00eddio<\/strong>\u00a0no nosso ordenamento jur\u00eddico permitiu dar uma maior visibilidade social a estas mortes, e n\u00e3o podemos negar que a imprensa tem um papel central neste processo.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Existe um padr\u00e3o no perfil das mulheres v\u00edtimas de viol\u00eancia? E com rela\u00e7\u00e3o ao agressor, existe um padr\u00e3o? Esses padr\u00f5es s\u00e3o recorrentes ou tamb\u00e9m t\u00eam se transformado ao longo dos tempos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fernanda de Vasconcellos \u2013<\/strong>\u00a0\u00c9 complicado afirmar que exista um perfil padr\u00e3o de\u00a0<strong>mulheres<\/strong>\u00a0que sofrem\u00a0<strong>viol\u00eancia dom\u00e9stica<\/strong>\u00a0ou\u00a0<strong>familiar<\/strong>. Afirmar isso significaria dizer que a viol\u00eancia est\u00e1 relacionada apenas a quest\u00f5es de\u00a0<strong>vulnerabilidade social<\/strong>, uma vez que a maior parte dos casos oficialmente registrados t\u00eam como v\u00edtimas mulheres que fazem parte de classes sociais menos abastadas. Podemos dizer que a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/557230-caso-luiza-brunet-mostra-que-violencia-contra-a-mulher-nao-escolhe-classe-social\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">viol\u00eancia est\u00e1 presente em todas as classes sociais<\/a>: o que varia s\u00e3o as formas como o conflito costuma ser administrado pelas partes nele envolvidas. Neste sentido, fatores como maior escolaridade, exist\u00eancia de recursos financeiros (que possibilitam um acesso mais f\u00e1cil a servi\u00e7os de sa\u00fade, por exemplo), normalmente, permitem a administra\u00e7\u00e3o dos conflitos de modo a evitar o acirramento da viol\u00eancia.<\/p>\n<div class=\"news-citacao\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<p class=\"tweet-quote\">A viol\u00eancia est\u00e1 presente em todas as classes sociais: o que varia s\u00e3o as formas como o conflito costuma ser administrado pelas partes nele envolvidas \u2013 Fernanda de Vasconcellos<\/p>\n<p><a class=\"button-tweet-intent tweet-intent\" href=\"https:\/\/twitter.com\/intent\/tweet?text=A%20viol%C3%AAncia%20est%C3%A1%20presente%20em%20todas%20as%20classes%20sociais:%20o%20que%20varia%20s%C3%A3o%20as%20formas%20como%20o%20conflito%20costuma%20ser%20administrado%20pelas%20partes%20nele%20envolvidas%20%E2%80%93%20Fernanda%20de%20Vasconcellos%20http%3A%2F%2Fwww.ihu.unisinos.br%2F586182-sem-debate-franco-sobre-genero-mulheres-estao-fadadas-a-violencia-domestica-entrevista-especial-com-fernanda-de-vasconcellos+via+%40_ihu\"><i class=\"fa fa-twitter tweet-intent\"><\/i>\u00a0Tweet<\/a><\/div>\n<\/div>\n<p>O que as v\u00edtimas deste tipo de\u00a0<strong>viol\u00eancia<\/strong>\u00a0t\u00eam em comum \u00e9 o fato de que, em algum momento de suas trajet\u00f3rias pessoais, descumpriram alguma expectativa vinculada aos pap\u00e9is sociais de g\u00eanero tradicionalmente atribu\u00eddos \u00e0 mulher: boa esposa, boa m\u00e3e, boa dona de casa, possuidora de uma sexualidade \u201ccontrolada\u201d. Quanto aos agressores, eles costumam ter em comum a necessidade de reafirmar outras expectativas de g\u00eanero, as quais est\u00e3o fortemente relacionadas a uma percep\u00e7\u00e3o de que a\u00a0<strong>masculinidade<\/strong>\u00a0deve ser violenta, patriarcal, viril e honrada.<\/p>\n<div class=\"news-image-credits\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.ihu.unisinos.br\/images\/ihu\/2016\/ESCOLHER_A_FOTO.jpg?w=600\" alt=\"\" \/><\/div>\n<p>O que muda com passar do tempo (de forma bastante lenta, pois estamos falando de expectativas acerca de pap\u00e9is sociais, algo intrinsecamente ligado \u00e0 cultura de uma sociedade) s\u00e3o as concep\u00e7\u00f5es que os indiv\u00edduos internalizam durante suas vidas sobre estes\u00a0<strong>pap\u00e9is de g\u00eanero<\/strong>. Uma\u00a0<strong>mulher<\/strong>divorciada certamente era socialmente julgada de forma mais pejorativa h\u00e1 30, 40 anos, assim como era socialmente inadmiss\u00edvel um homem dividir as tarefas dom\u00e9sticas e o cuidado dos filhos com a sua companheira. Ou seja, se nos perguntarmos hoje sobre o que significa ser uma \u201cboa m\u00e3e\u201d ou uma \u201cboa esposa\u201d, possivelmente teremos varia\u00e7\u00f5es nas respostas dadas h\u00e1 40 anos, o que n\u00e3o significa que tenham deixado de existir expectativas sociais sobre a necessidade moralizante de ser uma \u201cboa m\u00e3e\u201d ou \u201cboa esposa\u201d nos dias de hoje.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, quando consideramos o\u00a0<strong>acirramento da viol\u00eancia dom\u00e9stica e familiar contra a mulher<\/strong>, no momento em que ela se torna letal, \u00e9 poss\u00edvel dizer que existem marcadores sociais de classe e de vulnerabilidade (situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica inst\u00e1vel, consumo de \u00e1lcool e\/ou outras subst\u00e2ncias, por exemplo) que comumente est\u00e3o presentes nos perfis de v\u00edtimas e agressores.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 O quanto a vulnerabilidade social pesa como ingrediente para um contexto de viol\u00eancia contra a mulher?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fernanda de Vasconcellos \u2013<\/strong>\u00a0A\u00a0<strong>vulnerabilidade social<\/strong>\u00a0tem um peso bastante expressivo. Tanto no que se refere \u00e0 utiliza\u00e7\u00e3o do sistema de justi\u00e7a criminal para a administra\u00e7\u00e3o dos<strong>\u00a0conflitos violentos contra a mulher<\/strong>, quanto na transforma\u00e7\u00e3o do conflito em\u00a0<strong>viol\u00eancia letal<\/strong>. Se passarmos um dia em uma delegacia especializada para o atendimento a mulheres, observaremos que a grande maioria das mulheres em situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia que procuram a institui\u00e7\u00e3o pertence a classes sociais menos abastadas. Observaremos esse fen\u00f4meno tamb\u00e9m se observarmos as audi\u00eancias realizadas nos juizados de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/574134-como-a-violencia-domestica-atinge-as-mulheres-no-nordeste\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">viol\u00eancia dom\u00e9stica e familiar<\/a>\u00a0contra a\u00a0<strong>mulher<\/strong>. Mas, novamente, \u00e9 preciso pontuar que a viol\u00eancia perpetrada contra a mulher em seu contexto dom\u00e9stico e\/ou familiar n\u00e3o \u00e9 exclusiva de uma ou outra classe social, ainda que os conflitos oficialmente registrados ocorram, em sua grande maioria, em contextos de vulnerabilidade.<\/p>\n<p>Nestes espa\u00e7os institucionais, as falas de\u00a0<strong>mulheres em situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia<\/strong>\u00a0costumam apontar abuso de \u00e1lcool, desemprego, impossibilidade de manuten\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica das partes envolvidas no conflito (se separadas). Muitas dessas mulheres, ainda que estejam buscando a administra\u00e7\u00e3o do conflito de que s\u00e3o parte pelo sistema de justi\u00e7a criminal (o qual normalmente n\u00e3o possui condi\u00e7\u00f5es de atender a expectativas que estejam al\u00e9m de uma resposta baseada na l\u00f3gica bin\u00e1ria culpado\/inocente), esperam que o mesmo fa\u00e7a cessar o\u00a0<strong>ciclo de viol\u00eancia<\/strong>\u00a0da qual s\u00e3o v\u00edtimas, mas sem, necessariamente, buscar o fim do relacionamento com o agressor. \u00c9 algo bastante paradoxal, mas, em grande parte dos casos, o registro criminal em uma delegacia pode significar o acesso (ou informa\u00e7\u00e3o de como acessar) a servi\u00e7os de assist\u00eancia social ou de sa\u00fade, os quais poderiam, de alguma forma, prevenir o acirramento de viol\u00eancias sofridas por estas mulheres.<\/p>\n<p>Os casos em que a\u00a0<strong>viol\u00eancia<\/strong>\u00a0sofrida por estas\u00a0<strong>mulheres<\/strong>\u00a0\u00e9 exacerbada, resultando em mortes, normalmente est\u00e3o ligados \u00e0 n\u00e3o aceita\u00e7\u00e3o por parte do companheiro\/ex-companheiro da op\u00e7\u00e3o pelo t\u00e9rmino do relacionamento. Uma maioria expressiva das mulheres v\u00edtimas deste tipo de homic\u00eddios j\u00e1 havia procurado o sistema de justi\u00e7a criminal em um momento anterior, seja em um primeiro contato buscando alguma resolutividade para o conflito atrav\u00e9s da puni\u00e7\u00e3o do agressor ou n\u00e3o. Esse fato aponta para a dificuldade das institui\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a p\u00fablica, respons\u00e1veis pela prote\u00e7\u00e3o da mulher em situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia, em atender a demanda por prote\u00e7\u00e3o de parte de sua clientela.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Quais foram os maiores avan\u00e7os do Estado no que diz respeito \u00e0 preven\u00e7\u00e3o e puni\u00e7\u00e3o nos casos de viol\u00eancia contra a mulher?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fernanda de Vasconcellos \u2013<\/strong>\u00a0A entrada em vigor da\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/185-noticias\/noticias-2016\/558654-lei-maria-da-penha-completa-dez-anos-entre-comemoracoes-e-preocupacoes\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Lei Maria da Penha<\/a>\u00a0em 7 de agosto de 2006 configura-se em uma importante conquista referente ao reconhecimento formal do Estado brasileiro da extens\u00e3o do fen\u00f4meno da viol\u00eancia dom\u00e9stica e familiar contra a mulher. Essa conquista representa o que pode ser denominado como uma vit\u00f3ria da luta encabe\u00e7ada pelo\u00a0<strong>movimento feminista brasileiro<\/strong>, a qual foi iniciada nos anos 1970 e fortalecida com o processo de reabertura pol\u00edtica do\u00a0<strong>Brasil<\/strong>\u00a0nos anos 1980, que denunciava a exist\u00eancia de uma<strong>\u00a0cultura patriarcal<\/strong>\u00a0nacional que possibilitava um tratamento discriminat\u00f3rio em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres e leniente em rela\u00e7\u00e3o aos homens agressores.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/EB-6GtJcS6g\" width=\"100%\" height=\"400\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p>A\u00a0<strong>criminaliza\u00e7\u00e3o das viol\u00eancias f\u00edsica e psicol\u00f3gica<\/strong>\u00a0contra a\u00a0<strong>mulher<\/strong>\u00a0em seu espa\u00e7o privado apresentou-se como op\u00e7\u00e3o tomada pelo Estado para dar visibilidade, prevenir, proteger e punir os conflitos violentos que foram reconhecidos pela legisla\u00e7\u00e3o. Neste sentido, foi prevista a articula\u00e7\u00e3o entre governo federal, governos estaduais e municipais, de modo a possibilitar a implementa\u00e7\u00e3o de uma\u00a0<strong>rede de assist\u00eancia e prote\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres<\/strong>\u00a0em situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia. Considerando a viol\u00eancia contra a mulher um fen\u00f4meno complexo e multifacetado, a Lei previu a integra\u00e7\u00e3o de diversas institui\u00e7\u00f5es formais ligadas ao sistema de justi\u00e7a, seguran\u00e7a p\u00fablica, assist\u00eancia social, educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade. Al\u00e9m do desenvolvimento de uma rede que oferecesse servi\u00e7os de forma integrada, a Lei Maria da Penha previu um processo cont\u00ednuo de qualifica\u00e7\u00e3o dos profissionais envolvidos no atendimento \u00e0s mulheres em situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia, no sentido de garantir a presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os capazes de promover os objetivos da Lei.<\/p>\n<p>Independentemente da exist\u00eancia de an\u00e1lises favor\u00e1veis ou desfavor\u00e1veis \u00e0s previs\u00f5es legais e op\u00e7\u00f5es formais de administra\u00e7\u00e3o de conflitos abarcadas pela\u00a0<strong>Lei Maria da Penha<\/strong>, sua entrada em vigor e o funcionamento das estruturas previstas no sistema de justi\u00e7a criminal e seguran\u00e7a p\u00fablica n\u00e3o ocorreu sem entraves. Para al\u00e9m de todos os procedimentos de capacita\u00e7\u00e3o de profissionais que atuam no atendimento \u00e0s mulheres em situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia, da cria\u00e7\u00e3o de redes de atendimento e prote\u00e7\u00e3o eficazes, disponibiliza\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os vinculados \u00e0 assist\u00eancia social e sa\u00fade previstos na Lei, os quais n\u00e3o ocorreram de forma a proporcionar a efetividade pretendida pela mesma, a cria\u00e7\u00e3o de novos procedimentos burocr\u00e1ticos e de novas atribui\u00e7\u00f5es para o sistema de justi\u00e7a criminal acabaram por revelar efeitos imprevistos da mesma.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Quando da sua institui\u00e7\u00e3o, a Lei Maria da Penha freou os \u00edndices, diminuindo casos de viol\u00eancia. Entretanto, um per\u00edodo depois da vig\u00eancia da Lei, os casos voltaram a crescer. Que leitura a senhora faz desse cen\u00e1rio?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fernanda de Vasconcellos \u2013<\/strong>\u00a0\u00c9 bastante complicado dizer que os\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/574078-numero-de-mulheres-vitimas-de-abuso-sexual-e-violencia-domestica-crescem-no-brasil\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">\u00edndices de viol\u00eancia contra a mulher<\/a>\u00a0tenham sido freados em algum momento, mesmo com a entrada em vigor da<strong>\u00a0Lei Maria da Penha<\/strong>. O que se viu, na pr\u00e1tica, foi uma explos\u00e3o na demanda pelo atendimento nas\u00a0<strong>DEAMs<\/strong>(Delegacias Especializadas para o Atendimento de Mulheres), a qual, no primeiro ano da Lei, significou mais do que o dobro de registros policiais de casos de viol\u00eancia, se considerarmos o caso da<strong>DEAM de Porto Alegre<\/strong>\u00a0(parte substancial de tal acr\u00e9scimo pode ser explicada pelas crescentes campanhas informativas criadas a partir da\u00a0<strong>Lei Maria da Penha<\/strong>, voltadas para propiciar o conhecimento da mesma pela popula\u00e7\u00e3o brasileira, buscando dar visibilidade ao problema da viol\u00eancia contra a mulher e prestar informa\u00e7\u00f5es \u00e0quelas em situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia sobre seus direitos de atendimento e prote\u00e7\u00e3o). Mas isso tamb\u00e9m n\u00e3o significa que os casos de\u00a0<strong>viol\u00eancia contra a mulher<\/strong>\u00a0tenham mais do que dobrado na \u00e9poca.<\/p>\n<p>Pesquisadores da tem\u00e1tica geralmente concordam que existe uma cifra oculta enorme relacionada aos casos de<strong>\u00a0viol\u00eancia contra a mulher<\/strong>. Isso significa que existe uma parcela enorme de casos que n\u00e3o chegam ao conhecimento do sistema de justi\u00e7a criminal. Logo, os \u00edndices deste tipo de viol\u00eancia possivelmente s\u00e3o mais elevados do que aqueles oficialmente registrados.<\/p>\n<div class=\"news-citacao\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<p class=\"tweet-quote\">Se h\u00e1 um crescimento anual de homic\u00eddios de mulheres, n\u00e3o se pode dizer que a Lei Maria da Penha conseguiu, em algum momento, frear os casos de viol\u00eancia contra a mulher \u2013 Fernanda de Vasconcellos<\/p>\n<p><a class=\"button-tweet-intent tweet-intent\" href=\"https:\/\/twitter.com\/intent\/tweet?text=Se%20h%C3%A1%20um%20crescimento%20anual%20de%20homic%C3%ADdios%20de%20mulheres,%20n%C3%A3o%20se%20pode%20dizer%20que%20a%20Lei%20Maria%20da%20Penha%20conseguiu,%20em%20algum%20momento,%20frear%20os%20casos%20de%20viol%C3%AAncia%20contra%20a%20mulher%20%E2%80%93%20Fernanda%20de%20Vasconcellos%20http%3A%2F%2Fwww.ihu.unisinos.br%2F586182-sem-debate-franco-sobre-genero-mulheres-estao-fadadas-a-violencia-domestica-entrevista-especial-com-fernanda-de-vasconcellos+via+%40_ihu\"><i class=\"fa fa-twitter tweet-intent\"><\/i>\u00a0Tweet<\/a><\/div>\n<\/div>\n<p>Os dados s\u00e3o mais precisos se pensarmos nos casos em que a viol\u00eancia \u00e9 acirrada e torna-se letal. E se observarmos os \u00edndices anuais desses crimes, podemos observar que h\u00e1 um crescimento exponencial no\u00a0<strong>Brasil<\/strong>\u00a0(sendo apresentadas quedas nos \u00edndices de mortes de mulheres brancas e aumento de mortes de mulheres negras). Neste sentido, se h\u00e1 um crescimento anual de\u00a0<strong>homic\u00eddios de mulheres<\/strong>, n\u00e3o se pode dizer que a\u00a0<strong>Lei Maria da Penha<\/strong>\u00a0conseguiu, em algum momento, frear os<strong>casos de viol\u00eancia contra a mulher<\/strong>.<\/p>\n<h3>Limita\u00e7\u00f5es da justi\u00e7a criminal<\/h3>\n<p>Este cen\u00e1rio de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/185-noticias\/noticias-2016\/563136-pais-por-pais-o-mapa-que-mostra-os-tragicos-numeros-dos-feminicidios-na-america-latina\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">crescimento das taxas de viol\u00eancia<\/a>\u00a0demonstra as limita\u00e7\u00f5es do sistema de justi\u00e7a criminal de lidar com o problema e a perman\u00eancia de caracter\u00edsticas patriarcais e violentas da sociedade brasileira. O ato de criminalizar uma conduta ou aumentar as penas previstas para outras j\u00e1 existentes tem se mostrado uma estrat\u00e9gia bastante ineficaz para a diminui\u00e7\u00e3o de viol\u00eancias e\/ou crimes em contextos em que sua aplica\u00e7\u00e3o se d\u00e1 de modo isolado. E ainda que algumas experi\u00eancias ligadas \u00e0s \u00e1reas da sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e assist\u00eancia social tenham sido (parcamente) realizadas, a emerg\u00eancia do conflito penal acaba por \u201cengolir\u201d as outras l\u00f3gicas de administra\u00e7\u00e3o. Aderir \u00e0 l\u00f3gica do direito penal enquanto mecanismo central de resolu\u00e7\u00e3o de conflitos satisfaz em muito a demanda da sociedade por puni\u00e7\u00e3o, o que n\u00e3o significa de maneira alguma que resultar\u00e1 em efic\u00e1cia no que se refere \u00e0 preven\u00e7\u00e3o de novos crimes.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Quais as limita\u00e7\u00f5es da administra\u00e7\u00e3o dos conflitos conjugais violentos atrav\u00e9s da utiliza\u00e7\u00e3o do Direito Penal? E quais os desafios para superar esses limites?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fernanda de Vasconcellos \u2013<\/strong>\u00a0Pode-se dizer que uma das inova\u00e7\u00f5es trazidas pela\u00a0<strong>Lei Maria da Penha<\/strong>\u00a0esteve relacionada \u00e0 tentativa de observar a\u00a0<strong>viol\u00eancia dom\u00e9stica contra a mulher<\/strong>\u00a0como um fen\u00f4meno complexo, como imerso em uma realidade permeada por conflitos de natureza c\u00edvel e criminal. Esta leitura parece bastante apropriada no sentido de que tenta ultrapassar a din\u00e2mica de fragmenta\u00e7\u00e3o de um processo que, normalmente, necessita de solu\u00e7\u00f5es que deem conta n\u00e3o s\u00f3 de um crime, mas orientem formalmente as separa\u00e7\u00f5es, o conv\u00edvio das partes em conflito com os filhos comuns e a manuten\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica dos mesmos e a divis\u00e3o de bens existentes. Com isso, esperava-se dar celeridade aos casos e simplificar o processamento.<\/p>\n<div class=\"news-citacao\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<p class=\"tweet-quote\">A urg\u00eancia da quest\u00e3o criminal acabou por organizar as atividades de modo a deixar os demais conflitos para depois \u2013 Fernanda de Vasconcellos<\/p>\n<p><a class=\"button-tweet-intent tweet-intent\" href=\"https:\/\/twitter.com\/intent\/tweet?text=A%20urg%C3%AAncia%20da%20quest%C3%A3o%20criminal%20acabou%20por%20organizar%20as%20atividades%20de%20modo%20a%20deixar%20os%20demais%20conflitos%20para%20depois%20%E2%80%93%20Fernanda%20de%20Vasconcellos%20http%3A%2F%2Fwww.ihu.unisinos.br%2F586182-sem-debate-franco-sobre-genero-mulheres-estao-fadadas-a-violencia-domestica-entrevista-especial-com-fernanda-de-vasconcellos+via+%40_ihu\"><i class=\"fa fa-twitter tweet-intent\"><\/i>\u00a0Tweet<\/a><\/div>\n<\/div>\n<p>A urg\u00eancia da quest\u00e3o criminal acabou por organizar as atividades de modo a deixar os demais conflitos para depois. Uma das consequ\u00eancias disso \u00e9 o pouco espa\u00e7o das audi\u00eancias destinado \u00e0 discuss\u00e3o do processo de reestrutura\u00e7\u00e3o dos la\u00e7os entre as partes, nos casos em que esta \u00e9 necess\u00e1ria pela exist\u00eancia de filhos comuns. A prioridade do conflito criminal direcionou os contornos do juizado, sendo os demais conflitos c\u00edveis pr\u00e9-discutidos, parcamente mediados e posteriormente encaminhados para uma vara de fam\u00edlia, a fim de que sejam homologados por outro(a) magistrado(a).<\/p>\n<p>A tentativa da<strong>\u00a0Lei Maria da Penha<\/strong>\u00a0de romper com o paradigma que tradicionalmente separa as esferas criminal e c\u00edvel obriga a utiliza\u00e7\u00e3o de uma l\u00f3gica bastante confusa nas audi\u00eancias referentes aos conflitos abarcados pela legisla\u00e7\u00e3o, a qual primeiramente (para tratar da quest\u00e3o penal) impossibilita o uso de mecanismos de media\u00e7\u00e3o e, posteriormente (para tratar das quest\u00f5es c\u00edveis\/de fam\u00edlia), se volta para a m\u00e1xima aplica\u00e7\u00e3o poss\u00edvel da media\u00e7\u00e3o do conflito entre as partes envolvidas. A impossibilidade desta l\u00f3gica de relevar as necessidades e as poss\u00edveis demandas das mulheres em situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia dom\u00e9stica, que costumam estar voltadas para outra dire\u00e7\u00e3o daquela da utiliza\u00e7\u00e3o de um c\u00f3digo bin\u00e1rio culpado(a) versus inocente pode ser apontada como uma limita\u00e7\u00e3o central da\u00a0<strong>Lei Maria da Penha<\/strong>.<\/p>\n<h3>Falta de uma rede de assist\u00eancia e sa\u00fade<\/h3>\n<p>Acompanhada dessa limita\u00e7\u00e3o, a inexist\u00eancia de uma\u00a0<strong>rede adequada de servi\u00e7os<\/strong>\u00a0vinculados \u00e0 assist\u00eancia social e sa\u00fade tamb\u00e9m \u00e9 frequentemente apontada como uma das principais fragilidades do contexto de aplica\u00e7\u00e3o da\u00a0<strong>Lei Maria da Penha<\/strong>. Novamente, pode-se ler esta situa\u00e7\u00e3o como uma consequ\u00eancia da l\u00f3gica penal invadindo os demais contextos em que est\u00e3o imersos os conflitos dom\u00e9sticos violentos, a qual est\u00e1 materializada no fortalecimento de uma rede de servi\u00e7os vinculados \u00e0 seguran\u00e7a p\u00fablica e justi\u00e7a penal e na pouca aten\u00e7\u00e3o dirigida aos programas de assist\u00eancia social e sa\u00fade, que s\u00e3o frequentemente citados pelos diversos operadores\/gestores como insuficientes.<\/p>\n<div class=\"news-citacao\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<p class=\"tweet-quote\">\u00c9 pouco prov\u00e1vel que uma mulher em situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia dom\u00e9stica encontre uma solu\u00e7\u00e3o para o seu problema no sistema de justi\u00e7a penal \u2013 Fernanda de Vasconcellos<\/p>\n<p><a class=\"button-tweet-intent tweet-intent\" href=\"https:\/\/twitter.com\/intent\/tweet?text=%C3%89%20pouco%20prov%C3%A1vel%20que%20uma%20mulher%20em%20situa%C3%A7%C3%A3o%20de%20viol%C3%AAncia%20dom%C3%A9stica%20encontre%20uma%20solu%C3%A7%C3%A3o%20para%20o%20seu%20problema%20no%20sistema%20de%20justi%C3%A7a%20penal%20%E2%80%93%20Fernanda%20de%20Vasconcellos%20http%3A%2F%2Fwww.ihu.unisinos.br%2F586182-sem-debate-franco-sobre-genero-mulheres-estao-fadadas-a-violencia-domestica-entrevista-especial-com-fernanda-de-vasconcellos+via+%40_ihu\"><i class=\"fa fa-twitter tweet-intent\"><\/i>\u00a0Tweet<\/a><\/div>\n<\/div>\n<p>\u00c9 pouco prov\u00e1vel que uma\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/568593-numero-de-mulheres-vitimas-de-agressao-domestica-cresceu-61-em-dois-anos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">mulher em situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia dom\u00e9stica<\/a>\u00a0encontre uma solu\u00e7\u00e3o (que considere adequada) para o seu problema no sistema de justi\u00e7a penal, j\u00e1 que a motiva\u00e7\u00e3o para viol\u00eancia sofrida tem, para al\u00e9m da\u00a0<strong>desigualdade de g\u00eaneros<\/strong>, uma origem social. A resposta que \u00e9 dada pelo\u00a0<strong>Direito Penal<\/strong>\u00a0configura-se em um aux\u00edlio pontual e secund\u00e1rio, o que, geralmente, resulta na frustra\u00e7\u00e3o das expectativas da v\u00edtima (sendo que essa experi\u00eancia certamente ser\u00e1 relevada se ela necessitar procurar o sistema de justi\u00e7a penal novamente).<\/p>\n<h3>A rela\u00e7\u00e3o entre as partes<\/h3>\n<p>A l\u00f3gica do\u00a0<strong>Direito Penal<\/strong>\u00a0n\u00e3o leva em considera\u00e7\u00e3o a rela\u00e7\u00e3o \u00edntima existente entre as partes e n\u00e3o \u00e9 capaz de levar em conta os sentimentos das\u00a0<strong>mulheres<\/strong>\u00a0em situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia ou suas necessidades, j\u00e1 que as mulheres atendidas n\u00e3o procuram no sistema de justi\u00e7a formal, necessariamente, a condena\u00e7\u00e3o criminal ou mesmo a separa\u00e7\u00e3o de seus parceiros. A administra\u00e7\u00e3o dos conflitos violentos familiares e\/ou dom\u00e9sticos atrav\u00e9s da justi\u00e7a penal coloca frente \u00e0 frente pessoas com um hist\u00f3rico afetivo anterior, n\u00e3o redut\u00edvel a uma l\u00f3gica bin\u00e1ria (culpado versus inocente, v\u00edtima versus agressor). Al\u00e9m disso, essa l\u00f3gica exige que as figuras de v\u00edtima e agressor envolvidas nos conflitos configurem-se em elementos estanques, desconsiderando o car\u00e1ter din\u00e2mico das rela\u00e7\u00f5es anteriores das quais s\u00e3o membros as partes do processo. As din\u00e2micas relacionais que desembocam nos casos de\u00a0<strong>viol\u00eancia dom\u00e9stica e familiar<\/strong>\u00a0s\u00e3o muito mais complexas do que isso.<\/p>\n<h3>Direito Penal e preven\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia<\/h3>\n<p>As quest\u00f5es sobre as\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/566111-combate-ao-feminicidio-nao-pode-ser-reduzido-ao-direito-penal-entrevista-especial-com-luanna-tomaz\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">limita\u00e7\u00f5es do Direito Penal<\/a>\u00a0enquanto mecanismo de preven\u00e7\u00e3o de viol\u00eancias v\u00eam sendo discutidas desde os anos 1960, a partir de uma virada criminol\u00f3gica iniciada pelo<em>\u00a0labeling approach<\/em>, que demonstraram que os efeitos do etiquetamento produzido pelos processos de criminaliza\u00e7\u00e3o acabam por engendrar efeitos n\u00e3o previstos pelo sistema penal de aumento da viol\u00eancia e da criminalidade. Mesmo no contexto brasileiro, n\u00e3o s\u00e3o raros os estudos que apontam para o crescimento ou manuten\u00e7\u00e3o de\u00a0<strong>taxas de criminalidade<\/strong>, ainda que penas maiores sejam previstas. Um exemplo emblem\u00e1tico \u00e9 o da legisla\u00e7\u00e3o (Lei 8.072\/90 \u2013 Lei dos Crimes Hediondos) que fixou, na d\u00e9cada de 1990, a obrigatoriedade de cumprimento de toda a pena de pris\u00e3o em regime fechado, nos casos de cometimento de crime hediondo. Este endurecimento n\u00e3o foi acompanhado de uma\u00a0<strong>redu\u00e7\u00e3o das taxas de homic\u00eddio<\/strong>, o que era um efeito esperado.<\/p>\n<h3>A tipifica\u00e7\u00e3o do feminic\u00eddio<\/h3>\n<p>Nesta linha de racioc\u00ednio, pensar na inclus\u00e3o da qualificadora\u00a0<strong>feminic\u00eddio<\/strong>\u00a0nos homic\u00eddios de mulheres, a qual aumenta substancialmente a previs\u00e3o de pena m\u00e1xima para o crime, enquanto pol\u00edtica de enfrentamento e preven\u00e7\u00e3o de novos casos pode nos levar a um questionamento sobre sua efetividade. Sem d\u00favidas, esta \u201ccategoria\u201d tem se mostrado bastante \u00fatil para dar visibilidade social ao fen\u00f4meno, mas ainda existem muitas indaga\u00e7\u00f5es a serem feitas se a observarmos como estrat\u00e9gia de preven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ainda que n\u00e3o seja apresentada uma efic\u00e1cia no que se refere \u00e0 redu\u00e7\u00e3o das\u00a0<strong>viol\u00eancias<\/strong>\u00a0\u00e0s quais est\u00e1 direcionada, a\u00a0<strong>criminaliza\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00a0de um comportamento considerado inadequado (ou agravamento da puni\u00e7\u00e3o prevista) tem o papel de dar visibilidade a um problema social. Neste sentido, mesmo que o conte\u00fado moral fixado formalmente (em forma de lei penal) n\u00e3o garanta a n\u00e3o realiza\u00e7\u00e3o destes comportamentos, ele tem como mensagem a condena\u00e7\u00e3o da sociedade de uma conduta que considera injustific\u00e1vel.<\/p>\n<div class=\"news-citacao\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<p class=\"tweet-quote\">Criminalizar a homofobia, a\u00a0viol\u00eancia cometida no espa\u00e7o dom\u00e9stico contra a mulher, significa, deste modo, denunciar as agress\u00f5es sofridas por indiv\u00edduos que n\u00e3o seguem um padr\u00e3o de comportamento considerado ajustado pelos seus agressores\u00a0\u2013 Fernanda de Vasconcellos<\/p>\n<p><a class=\"button-tweet-intent tweet-intent\" href=\"https:\/\/twitter.com\/intent\/tweet?text=Criminalizar%20a%20homofobia,%20a%C2%A0viol%C3%AAncia%20cometida%20no%20espa%C3%A7o%20dom%C3%A9stico%20contra%20a%20mulher,%20significa,%20deste%20modo,%20denunciar%20as%20agress%C3%B5es%20sofridas%20por%20indiv%C3%ADduos%20que%20n%C3%A3o%20seguem%20um%20padr%C3%A3o%20de%20comportamento%20considerado%20ajustado%20pelos%20seus%20agressores%C2%A0%E2%80%93%20Fernanda%20de%20Vasconcellos%20http%3A%2F%2Fwww.ihu.unisinos.br%2F586182-sem-debate-franco-sobre-genero-mulheres-estao-fadadas-a-violencia-domestica-entrevista-especial-com-fernanda-de-vasconcellos+via+%40_ihu\"><i class=\"fa fa-twitter tweet-intent\"><\/i>\u00a0Tweet<\/a><\/div>\n<\/div>\n<p>Quando se parte deste ponto, n\u00e3o se percebe como conden\u00e1vel a demanda de\u00a0<strong>movimentos sociais<\/strong>(como \u00e9 o caso do movimento\u00a0<strong>LGBT<\/strong>\u00a0e do pr\u00f3prio movimento\u00a0<strong>feminista<\/strong>) direcionada para a cria\u00e7\u00e3o de tipos penais que condenem a viol\u00eancia \u00e0 qual seus membros est\u00e3o expostos.\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/537726-projeto-que-criminaliza-homofobia-so-deve-ser-discutido-em-2015\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Criminalizar a homofobia<\/a>, a<strong>\u00a0viol\u00eancia cometida no espa\u00e7o dom\u00e9stico contra a mulher<\/strong>, significa, deste modo, denunciar as agress\u00f5es sofridas por indiv\u00edduos que n\u00e3o seguem um padr\u00e3o de comportamento considerado ajustado pelos seus agressores.<\/p>\n<p>A<strong>\u00a0demanda por criminaliza\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00a0vinda dos movimentos sociais pode ser lida como um esfor\u00e7o para que o Estado efetive os direitos humanos destes grupos, que a sociedade como um todo os reconhe\u00e7a. A utiliza\u00e7\u00e3o do\u00a0<strong>Direito Penal<\/strong>\u00a0configurar-se-ia em uma estrat\u00e9gia para a promo\u00e7\u00e3o de direitos j\u00e1 garantidos desde a\u00a0<strong>Constitui\u00e7\u00e3o Federal de 1988<\/strong>, mas n\u00e3o distribu\u00eddos a estes grupos. Portanto, n\u00e3o h\u00e1 como questionar a legitimidade desta demanda.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 A senhora pesquisou o atendimento de mulheres, crian\u00e7as e adolescentes v\u00edtimas de viol\u00eancia pelo sistema de seguran\u00e7a p\u00fablica em Porto Alegre, Belo Horizonte e Distrito Federal. O que essa experi\u00eancia revelou?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fernanda de Vasconcellos \u2013<\/strong>\u00a0A experi\u00eancia de realizar esta pesquisa em rede foi bastante importante no sentido de comprovar algumas hip\u00f3teses que foram sendo formuladas desde o ano de 2007, ano em que comecei a acompanhar o processo de implementa\u00e7\u00e3o do\u00a0<strong>Juizado de Viol\u00eancia Dom\u00e9stica e Familiar em Porto Alegre<\/strong>\u00a0e o atendimento dado a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/170-noticias\/noticias-2014\/531890-politicas-frageis-no-combate-a-violencia-contra-a-mulher\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">mulheres em situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia<\/a>\u00a0na\u00a0<strong>DEAM<\/strong>. Essas hip\u00f3teses estavam vinculadas \u00e0 percep\u00e7\u00e3o de que a realidade vivida pelas institui\u00e7\u00f5es respons\u00e1veis pelo atendimento e administra\u00e7\u00e3o de casos de viol\u00eancias perpetradas contra grupos vulner\u00e1veis estava bastante distante daquilo previsto nas legisla\u00e7\u00f5es que ordenavam o tratamento destes casos (e que isso ocorreria em grande parte do territ\u00f3rio brasileiro).<\/p>\n<p>O que pode ser observado foi a exist\u00eancia de uma fragmenta\u00e7\u00e3o do atendimento e de dificuldade das institui\u00e7\u00f5es em promoverem pol\u00edticas de aten\u00e7\u00e3o integradas, intersetoriais e com a abordagem de g\u00eanero\/geracional de forma interseccional com ra\u00e7a\/etnia e outros marcadores da diferen\u00e7a social. De maneira geral, e nas tr\u00eas capitais, observou-se que n\u00e3o existem protocolos compartilhados para o atendimento, a investiga\u00e7\u00e3o e o encaminhamento dos casos para a rede de atendimento.<\/p>\n<h3>Experi\u00eancias positivas<\/h3>\n<p>Claro que existem experi\u00eancias que se mostraram interessantes. Neste sentido, \u00e9 poss\u00edvel destacar o trabalho realizado pela\u00a0<strong>Patrulha Maria da Penha<\/strong>, desenvolvida pela\u00a0<strong>Brigada Militar<\/strong>\u00a0no\u00a0<strong>Rio Grande do Sul<\/strong>\u00a0e depois disseminada em diferentes estados brasileiros. Ainda assim, devemos considerar que a expressiva maioria destas experi\u00eancias ou programas desenvolvidos pelas institui\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a p\u00fablica apresentam contornos distintos no decorrer de sua atividade, uma vez que mudan\u00e7as de gest\u00f5es redefinem prioridades institucionais e percep\u00e7\u00f5es sobre como o trabalho deve ser organizado. Logo, \u00e9 poss\u00edvel que as din\u00e2micas desenvolvidas pelas institui\u00e7\u00f5es pesquisadas na \u00e9poca apresentem algumas caracter\u00edsticas distintas daquelas observadas, dadas mudan\u00e7as de governos, restri\u00e7\u00f5es or\u00e7ament\u00e1rias etc.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Os debates e abordagens acerca das quest\u00f5es de g\u00eanero podem impactar os casos de viol\u00eancia contra a mulher? De que forma?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fernanda de Vasconcellos \u2013<\/strong>\u00a0Debates sobre g\u00eanero s\u00e3o fundamentais para a exist\u00eancia de uma pol\u00edtica de preven\u00e7\u00e3o de\u00a0<strong>viol\u00eancias contra a mulher<\/strong>. N\u00e3o existe a possibilidade de enfrentamento do problema por qualquer via que desconsidere a import\u00e2ncia destas discuss\u00f5es no contexto da educa\u00e7\u00e3o: se o debate for evitado no espa\u00e7o escolar ou for apresentado de modo a manter uma estrutura social com pap\u00e9is de g\u00eanero tradicionalmente atribu\u00eddos a homens e mulheres (dentro da l\u00f3gica \u201c<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/586010-o-macho-assustado\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">menino veste azul e menina veste rosa<\/a>\u201d), possivelmente seguiremos observando \u00edndices crescentes de viol\u00eancia n\u00e3o s\u00f3 contra a mulher, mas tamb\u00e9m contra grupos que desrespeitam crit\u00e9rios de heteronormatividade.<\/p>\n<p>Sem trabalharmos no contexto educacional tais quest\u00f5es, estamos fadados a seguir \u201cenxugando gelo\u201d. Digo isso, porque s\u00e3o exatamente as expectativas sociais acerca do cumprimento de pap\u00e9is tradicionais de g\u00eanero que motivam, na maioria esmagadora dos casos, os casos de\u00a0<strong>viol\u00eancia contra a mulher<\/strong>. E essas expectativas tamb\u00e9m s\u00e3o respons\u00e1veis pelo tipo de atendimento que uma mulher v\u00edtima de viol\u00eancia ir\u00e1 receber no\u00a0<strong>sistema de justi\u00e7a criminal<\/strong>. A observa\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica destes atendimentos mostra que mulheres em situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia s\u00e3o tratadas de modo distinto: estes processos de classifica\u00e7\u00e3o s\u00e3o organizados por uma moral tradicional (bastante pr\u00f3xima daquela que torna socialmente leg\u00edtima a viol\u00eancia dom\u00e9stica contra a mulher) que percebe como merecedoras de aten\u00e7\u00e3o mulheres que atendem ao socialmente esperado (que sejam m\u00e3es de fam\u00edlia, demonstrem uma sexualidade passiva e sejam heterossexuais, que cuidem dos filhos e mantenham a casa organizada etc.). A<strong>\u00a0imagem da mulher como sujeito passivo<\/strong>\u00a0e como v\u00edtima \u00e9 refor\u00e7ada pelo sistema de justi\u00e7a penal, e aquelas que n\u00e3o correspondem a este ideal moralizador s\u00e3o percebidas como sujeitos que n\u00e3o necessitam da prote\u00e7\u00e3o da Lei.<\/p>\n<p>Neste sentido, para al\u00e9m do espa\u00e7o escolar, \u00e9 necess\u00e1ria a cont\u00ednua forma\u00e7\u00e3o de profissionais que atuam nos diversos \u00e2mbitos do sistema de justi\u00e7a e demais institui\u00e7\u00f5es que fa\u00e7am parte da rede de\u00a0<strong>atendimento a mulheres em situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia<\/strong>. Sem estas a\u00e7\u00f5es de capacita\u00e7\u00e3o e aperfei\u00e7oamento, a possibilidade de revitimiza\u00e7\u00e3o \u00e9 enorme.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Quais os caminhos para superar essa chaga da viol\u00eancia contra a mulher? Qual o papel do Estado, do Direito e da sociedade civil na busca pela supera\u00e7\u00e3o desse drama?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fernanda de Vasconcellos \u2013<\/strong>\u00a0N\u00e3o existe nenhum caminho f\u00e1cil, r\u00e1pido ou m\u00e1gico e, possivelmente, a forma de administra\u00e7\u00e3o dos conflitos priorizada pelo Estado n\u00e3o tem se mostrado capaz de dar conta do problema. Relegar ao<strong>\u00a0direito penal<\/strong>\u00a0(ou mais especificamente ao sistema de justi\u00e7a criminal e institui\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a p\u00fablica) a responsabilidade de prevenir a\u00a0<strong>viol\u00eancia contra a mulher<\/strong>\u00a0\u00e9 algo bastante perigoso e vem se mostrando uma pr\u00e1tica ineficiente.<\/p>\n<div class=\"news-citacao\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<p class=\"tweet-quote\">Questionar ou discutir os pap\u00e9is tradicionais de g\u00eanero significa disputar poderes que est\u00e3o historicamente atrelados ao masculino em nossa sociedade \u2013 Fernanda de Vasconcellos<\/p>\n<p><a class=\"button-tweet-intent tweet-intent\" href=\"https:\/\/twitter.com\/intent\/tweet?text=Questionar%20ou%20discutir%20os%20pap%C3%A9is%20tradicionais%20de%20g%C3%AAnero%20significa%20disputar%20poderes%20que%20est%C3%A3o%20historicamente%20atrelados%20ao%20masculino%20em%20nossa%20sociedade%20%E2%80%93%20Fernanda%20de%20Vasconcellos%20http%3A%2F%2Fwww.ihu.unisinos.br%2F586182-sem-debate-franco-sobre-genero-mulheres-estao-fadadas-a-violencia-domestica-entrevista-especial-com-fernanda-de-vasconcellos+via+%40_ihu\"><i class=\"fa fa-twitter tweet-intent\"><\/i>\u00a0Tweet<\/a><\/div>\n<\/div>\n<p>Possivelmente, a resposta para este problema esteja no incentivo ao debate sobre\u00a0<strong>pap\u00e9is de g\u00eanero<\/strong>no espa\u00e7o escolar (mediado por profissionais preparados para esta atividade, sob o risco de reprodu\u00e7\u00e3o de preconceitos e\/ou expectativas que s\u00e3o eles mesmos motes para a viol\u00eancia dom\u00e9stica e familiar contra a mulher) e em outros \u00e2mbitos do espa\u00e7o p\u00fablico tamb\u00e9m. Se a sociedade foge deste debate, n\u00e3o h\u00e1 questionamento. \u00c9 l\u00f3gico que n\u00e3o se trata de um debate simples. Questionar ou discutir os pap\u00e9is tradicionais de g\u00eanero significa disputar poderes que est\u00e3o historicamente atrelados ao\u00a0<strong>masculino<\/strong>\u00a0em nossa sociedade. \u00c9 um questionamento que implica criticar estruturas sociais que colocam a mulher no polo da passividade, da domesticidade, da sexualidade controlada.<\/p>\n<p>O\u00a0<strong>Estado<\/strong>\u00a0tem um papel muito importante no enfrentamento da\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/569540-violencia-contra-mulheres-assusta-na-america-central\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">viol\u00eancia contra a mulher<\/a>. E esta atua\u00e7\u00e3o est\u00e1 vinculada \u00e0 consecu\u00e7\u00e3o de uma agenda de pol\u00edticas p\u00fablicas interseccionais para aten\u00e7\u00e3o a mulheres em situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia ou vulnerabilidade social. Infelizmente, esta n\u00e3o \u00e9 uma atua\u00e7\u00e3o a ser vislumbrada se os pr\u00f3prios representantes do Estado pautam pol\u00edticas de governo em torno da retirada da discuss\u00e3o de g\u00eanero no espa\u00e7o escolar, da cr\u00edtica \u00e0 exist\u00eancia de um Estado laico, do reconhecimento de que existem muito mais cores do que o \u201crosa\u201d e o \u201cazul\u201d.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/-kO6Z2lj-Lw\" width=\"100%\" height=\"400\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 \u00c9 poss\u00edvel presumir algum impacto na viol\u00eancia dom\u00e9stica com a publica\u00e7\u00e3o do Decreto 9.685\/2019, que regulariza e amplia a posse de armas? Quais?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fernanda de Vasconcellos \u2013<\/strong>\u00a0O\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/586089-e-um-profundo-equivoco-pensar-que-a-posse-de-armas-trara-seguranca-a-populacao-afirma-rede-justica-criminal\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">decreto<\/a>\u00a0lan\u00e7ado pelo presidente\u00a0<strong>Jair Bolsonaro<\/strong>\u00a0possivelmente seja um elemento de\u00a0<strong>aumento de morte de mulheres<\/strong>\u00a0no seu ambiente dom\u00e9stico familiar sim. Se pararmos para pensar friamente no decreto, verificaremos que ele tem um efeito muito mais simb\u00f3lico do que pr\u00e1tico no que tange \u00e0 possibilidade de obten\u00e7\u00e3o de armamento pelas pessoas. Na pr\u00e1tica, o decreto n\u00e3o vai modificar o<strong>\u00a0Estatuto do Desarmamento<\/strong>, porque isso de fato n\u00e3o pode ser feito por decreto. Por isso acredito que, na pr\u00e1tica, se tem um efeito muito mais simb\u00f3lico no que diz respeito ao atendimento de uma demanda das pessoas que votaram no Bolsonaro, que tinha todo esse discurso armamentista.<\/p>\n<p>Esse decreto parece dar conta, tamb\u00e9m, de uma demanda de uma<strong>\u00a0ind\u00fastria armamentista<\/strong>. Basta observar que o decreto vai possibilitar que pessoas tenham at\u00e9 quatro armas dentro de casa \u2013 o que parece uma coisa totalmente sem sentido. Veja: a pessoa tem duas m\u00e3os, como isso vai funcionar? Nesse decreto, se fala tamb\u00e9m na necessidade de pessoas que ter\u00e3o a posse da arma de fogo, e que se na sua resid\u00eancia existam crian\u00e7as, ou pessoas com algum tipo de problema mental, que seria necess\u00e1rio a exist\u00eancia de um cofre, onde seria poss\u00edvel se manter o armamento. \u00c9 uma coisa totalmente maluca, porque, ao mesmo tempo que se diz isso, o pr\u00f3prio presidente diz que n\u00e3o vai haver uma fiscaliza\u00e7\u00e3o para ver se essa regra est\u00e1 sendo cumprida. Com isso, vemos que o discurso simb\u00f3lico que est\u00e1 por tr\u00e1s \u00e9 de que se pode ter a posse de arma e que n\u00e3o haver\u00e1 uma grande fiscaliza\u00e7\u00e3o a respeito disso. Por isso considero um efeito simb\u00f3lico muito grande, muito mais do que modificar as exig\u00eancias para poder se ter a\u00a0<strong>posse da arma de fogo<\/strong>.<\/p>\n<h3>A situa\u00e7\u00e3o das mulheres<\/h3>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 situa\u00e7\u00e3o das\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/556748-bolsonaro-e-a-violencia-contra-a-mulher-na-politica\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">mulheres<\/a>, se pensarmos um pouco mais, olhando os dados veremos que a grande parte das mulheres que foram mortas no \u00e2mbito dom\u00e9stico e familiar foram mortas por arma de fogo. Os casos que foram\u00a0<strong>tentativa de homic\u00eddio<\/strong>, em que o agressor n\u00e3o consegue matar a v\u00edtima, observamos que n\u00e3o foram perpetrados por arma de fogo. Ou seja, se pegou a arma de fogo, infelizmente a mulher ser\u00e1 v\u00edtima de homic\u00eddio.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, a possibilidade \u00e9 que haja um aumento dessas mortes se de fato for facilitada a posse da arma de fogo. Porque a arma n\u00e3o tem um outro sentido. O ministro\u00a0<strong>Onyx Lorenzoni<\/strong>\u00a0fez uma compara\u00e7\u00e3o absurda falando que arma seria como um liquidificador. \u00c9 um absurdo esse tipo de compara\u00e7\u00e3o, porque a arma tem um \u00fanico sentido de existir, que \u00e9 matar. N\u00e3o precisamos entrar nisso, mas o liquidificar obviamente n\u00e3o foi feito para matar. Ainda que a sociologia n\u00e3o se preste a fazer futurologia, a hip\u00f3tese de que haja um grande\u00a0<strong>aumento de mortes de mulheres<\/strong>\u00a0dentro do\u00a0<strong>espa\u00e7o dom\u00e9stico e familiar<\/strong>\u00a0a partir da facilita\u00e7\u00e3o da posse de arma de fogo \u00e9 real, \u00e9 algo que precisa ser pensado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tatiane Spitzner, de 29 anos, e\u00a0Tatiane Rodrigues da Silva, de 30 anos. Uma era advogada e a outra cabelereira, mas o que elas t\u00eam em comum? Ambas foram mortas pelos parceiros,\u00a0v\u00edtimas de feminic\u00eddio, uma no\u00a0Paran\u00e1\u00a0e a outra em\u00a0Minas Gerais. S\u00e3o dois dos in\u00fameros casos que t\u00eam sido noticiados de mulheres que passam a sofrer viol\u00eancia&#8230;<a class=\"more-link\" href=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2019\/01\/21\/sem-debate-franco-sobre-genero-mulheres-estao-fadadas-a-violencia-domestica-entrevista-especial-com-fernanda-de-vasconcellos\/\">Continue a leitura <span class=\"meta-nav\">&raquo;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-20152","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-5f2","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20152","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20152"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20152\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20154,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20152\/revisions\/20154"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20152"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20152"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20152"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}