{"id":20518,"date":"2019-02-14T12:53:07","date_gmt":"2019-02-14T16:53:07","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=20518"},"modified":"2019-02-14T12:53:07","modified_gmt":"2019-02-14T16:53:07","slug":"nao-e-preciso-pensar-nem-estudar-so-propor-cliches-para-cimentar-consensos-nao-e-preciso-pensar-nem-estudar-so-propor-cliches-para-cimentar-consensos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2019\/02\/14\/nao-e-preciso-pensar-nem-estudar-so-propor-cliches-para-cimentar-consensos-nao-e-preciso-pensar-nem-estudar-so-propor-cliches-para-cimentar-consensos\/","title":{"rendered":"N\u00e3o \u00e9 preciso pensar nem estudar, s\u00f3 propor clich\u00eas para cimentar consensos N\u00e3o \u00e9 preciso pensar nem estudar, s\u00f3 propor clich\u00eas para cimentar consensos"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"20519\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2019\/02\/14\/nao-e-preciso-pensar-nem-estudar-so-propor-cliches-para-cimentar-consensos-nao-e-preciso-pensar-nem-estudar-so-propor-cliches-para-cimentar-consensos\/cona\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/cona.jpg?fit=540%2C281\" data-orig-size=\"540,281\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"cona\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/cona.jpg?fit=300%2C156\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/cona.jpg?fit=540%2C281\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/cona.jpg?resize=540%2C281\" alt=\"cona\" width=\"540\" height=\"281\" class=\"alignnone size-full wp-image-20519\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/cona.jpg?w=540 540w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/cona.jpg?resize=300%2C156 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 540px) 100vw, 540px\" \/><\/p>\n<p>Gostaria de escrever um livro que, desde o t\u00edtulo, condensasse, numa palavra s\u00f3, quem somos e em que mundo vivemos \u2014tipo Era da Turbul\u00eancia, da Incerteza, dos Extremos etc.<\/p>\n<p>A cr\u00edtica mais banal do esp\u00edrito de nossos tempos diz que estar\u00edamos na (&#8220;escandalosa&#8221;) era dos prazeres imediatos. Ser\u00e1 que eu concordaria?<\/p>\n<p>Certamente n\u00e3o, mas essa cr\u00edtica \u00e9 um bom exemplo, pois ela nunca \u00e9 acompanhada de fatos que a justifiquem. Ela apenas pede que a gente comungue numa indigna\u00e7\u00e3o comum.<!--more--><\/p>\n<p>No caso, os fatos dizem que nossa cultura \u00e9 declaradamente contra os prazeres h\u00e1 18 ou 17 s\u00e9culos. Primeiro, os prazeres mandavam voc\u00ea para o inferno. Depois, os prazeres foram ruins para a sa\u00fade. Com o prazer, voc\u00ea perde a vida eterna ou, se n\u00e3o acreditar naquela, perde anos desta tua vida na Terra.<\/p>\n<p>Mas os fatos n\u00e3o interessam. O que importa \u00e9 a expectativa de que a afirma\u00e7\u00e3o (por exemplo, que nossa \u00e9poca seria hedonista) corresponda ao que muitos querem ouvir (no caso, para se indignar).<\/p>\n<p>Essa procura de um consenso talvez seja o estilo que define nossa era.<\/p>\n<p>Consequ\u00eancia, estamos na era da facilidade: n\u00e3o \u00e9 preciso pensar nem estudar, devemos apenas propor clich\u00eas, que possam cimentar consensos.<\/p>\n<p>Os clich\u00eas ganham c\u00famplices ou esbarram em inimigos. Em ambos os casos, eles s\u00e3o confirmados, quer seja pela ades\u00e3o dos &#8220;nossos&#8221;, quer seja pela recusa pelos outros.<\/p>\n<p>Nada contra a facilidade: n\u00e3o acho que penar e se sacrificar nos ganhem m\u00e9rito algum. Mas, infelizmente, a facilidade dos clich\u00eas empobrece o mundo e deixa s\u00f3 duas posi\u00e7\u00f5es \u2014&#8221;a favor&#8221; e &#8220;contra&#8221;. E eu, entre &#8220;a favor&#8221; e &#8220;contra&#8221;, sempre escolho um terceiro ou um quarto lugar, que n\u00e3o foram sequer mencionados.<\/p>\n<p>Entende-se que o indiv\u00edduo da era da facilidade (o Homo F\u00e1cil) odeia os intelectuais, em geral. N\u00e3o tanto porque eles teriam ideias opostas.<\/p>\n<p>Com as ideias opostas o Homo F\u00e1cil sabe lidar: \u00e9 clich\u00ea contra clich\u00ea \u2014manda prender, quebra a cara, censura, grita mais alto etc. Intoler\u00e1vel para o Homo F\u00e1cil \u00e9 o intelectual que quer discutir e para isso traz ideias diferentes, ou, pior ainda, fatos &#8220;novos&#8221; \u2014ou seja, fatos que o Homo F\u00e1cil n\u00e3o tinha levado em considera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O intelectual detestado, em suma, \u00e9 o chato que gostaria de nos obrigar a pensar e a estudar. Que saco: a gente est\u00e1 t\u00e3o bem no conforto do nosso clich\u00ea coletivo.<\/p>\n<p>Nas m\u00eddias sociais, o Homo F\u00e1cil se sente em casa: \u00e9 uma arena de opini\u00f5es \u2014pura ideologia, sem espa\u00e7o nem tempo para fatos, pensamentos, estudo, reflex\u00e3o ou di\u00e1logo.<\/p>\n<p>Um exemplo perfeito de como funciona o Homo F\u00e1cil foi oferecido pela ministra Damares, que se atribui um mestrado em &#8220;estudos b\u00edblicos&#8221; (ou seja um &#8220;mestrado&#8221; em ideologia) e o confunde com mestrados acad\u00eamicos \u2014que s\u00e3o em disciplinas, n\u00e3o em ideologias.<\/p>\n<p>O Homo F\u00e1cil \u00e9 pregui\u00e7oso? \u00c9 s\u00f3 uma nova esp\u00e9cie, que n\u00e3o quer ler, estudar e pensar? Talvez, mas n\u00e3o s\u00f3.<\/p>\n<p>Desde os anos 1960, uma esp\u00e9cie de neoplatonismo tomou conta de nossa vis\u00e3o do que significa aprender. Aos poucos, fomos nos afastando dos ensinos de conte\u00fado e avan\u00e7ando na dire\u00e7\u00e3o de uma pedagogia pela qual tudo j\u00e1 estaria l\u00e1, dentro do indiv\u00edduo. Quer aprender sem esfor\u00e7o? S\u00f3 deixe seu \u00edntimo se expressar.<\/p>\n<p>Come\u00e7amos assim a encorajar nossos rebentos a ter opini\u00f5es e a formul\u00e1-las, mesmo sobre t\u00f3picos que eles ignoram totalmente.<\/p>\n<p>Uma m\u00e3e, ouvindo sua filha defender calorosamente uma opini\u00e3o sobre ass\u00e9dio moral, que ela (a crian\u00e7a) n\u00e3o sabe o que \u00e9: &#8220;Ela j\u00e1 tem opini\u00f5es, n\u00e3o \u00e9 maravilhoso?&#8221;. Eu: &#8220;N\u00e3o \u00e9 maravilhoso; \u00e9 idiota&#8221;.<\/p>\n<p>Talvez a era da facilidade seja filha de uma pedagogia (recente) que n\u00e3o valoriza os conte\u00fados e preza a opini\u00e3o antes que formular uma opini\u00e3o digna seja sequer poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Tem alguma esperan\u00e7a de nossa cultura voltar a pensar?<\/p>\n<p>Elizabeth Anderson \u00e9 uma ilustre professora de filosofia moral (em Ann Arbor, Michigan, EUA). Num recente perfil (na The New Yorker), aprendi que, recentemente, ela mudou os requisitos para seus estudantes de gradua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em vez de pedir ensaios opinativos, nos quais eles defenderiam suas ideias e sua posi\u00e7\u00e3o, ela pede que cada estudante discuta sua posi\u00e7\u00e3o com algu\u00e9m que pensa muito diferente dele, relate esse debate e explique por que e como a discuss\u00e3o mudou, por pouco que seja, o que ele ou ela pensavam antes disso.<\/p>\n<p>Talvez n\u00e3o seja tarde demais para introduzir no curr\u00edculo um novo tipo de disserta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Contardo Calligaris<br \/>\nPsicanalista, autor de \u201cHello, Brasil!\u201d e criador da s\u00e9rie PSI (HBO).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gostaria de escrever um livro que, desde o t\u00edtulo, condensasse, numa palavra s\u00f3, quem somos e em que mundo vivemos \u2014tipo Era da Turbul\u00eancia, da Incerteza, dos Extremos etc. A cr\u00edtica mais banal do esp\u00edrito de nossos tempos diz que estar\u00edamos na (&#8220;escandalosa&#8221;) era dos prazeres imediatos. 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