{"id":20968,"date":"2019-03-25T13:10:54","date_gmt":"2019-03-25T17:10:54","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=20968"},"modified":"2019-03-25T13:12:42","modified_gmt":"2019-03-25T17:12:42","slug":"operando-com-10-do-orcamento-funai-abandona-postos-e-coordenacoes-em-areas-indigenas","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2019\/03\/25\/operando-com-10-do-orcamento-funai-abandona-postos-e-coordenacoes-em-areas-indigenas\/","title":{"rendered":"Operando com 10% do or\u00e7amento, Funai abandona postos e coordena\u00e7\u00f5es em \u00e1reas ind\u00edgenas"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"20969\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2019\/03\/25\/operando-com-10-do-orcamento-funai-abandona-postos-e-coordenacoes-em-areas-indigenas\/8316e5fd-4663-43fe-bf7e-e8d35403cdd6\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/8316E5FD-4663-43FE-BF7E-E8D35403CDD6.jpeg?fit=768%2C645\" data-orig-size=\"768,645\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"8316E5FD-4663-43FE-BF7E-E8D35403CDD6\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/8316E5FD-4663-43FE-BF7E-E8D35403CDD6.jpeg?fit=300%2C252\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/8316E5FD-4663-43FE-BF7E-E8D35403CDD6.jpeg?fit=600%2C504\" class=\"alignnone size-full wp-image-20969\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/8316E5FD-4663-43FE-BF7E-E8D35403CDD6.jpeg?resize=600%2C504\" alt=\"8316E5FD-4663-43FE-BF7E-E8D35403CDD6\" width=\"600\" height=\"504\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/8316E5FD-4663-43FE-BF7E-E8D35403CDD6.jpeg?w=768 768w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/8316E5FD-4663-43FE-BF7E-E8D35403CDD6.jpeg?resize=300%2C252 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/8316E5FD-4663-43FE-BF7E-E8D35403CDD6.jpeg?resize=357%2C300 357w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p>Da Ag\u00eancia P\u00fablica &#8211; Nos \u00faltimos anos, a Funda\u00e7\u00e3o Nacional do \u00cdndio (Funai) vem atuando com cerca de um ter\u00e7o de sua for\u00e7a de trabalho, uma situa\u00e7\u00e3o-limite agravada por decis\u00f5es tomadas no atual governo, em especial pelo Decreto 9.711\/2019, que contingenciou em 90% o or\u00e7amento da Funai previsto na Lei Or\u00e7ament\u00e1ria Anual.<!--more--><\/p>\n<p>A falta de funcion\u00e1rios atinge toda a institui\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 nas estruturas mais descentralizadas, as Coordena\u00e7\u00f5es T\u00e9cnicas Locais (CTLs) e as Frentes de Prote\u00e7\u00e3o Etnoambiental (FPEs) \u2013 as mais pr\u00f3ximas das comunidades ind\u00edgenas \u2013 que a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 mais grave. Em regi\u00f5es de intensa disputa fundi\u00e1ria nos processos por demarca\u00e7\u00e3o e altos \u00edndices de viol\u00eancia, \u00e9 comum que o quadro de pessoal conte com apenas um servidor. Na regi\u00e3o de Caarap\u00f3, ao sul do Mato Grosso do Sul, palco de conflitos intensos entre fazendeiros e ind\u00edgenas Guarani-Kaiow\u00e1, uma \u00fanica servidora da Funai atende 10 mil ind\u00edgenas, trabalhando dentro do carro.<\/p>\n<p>Ellen Cristina de Almeida\/Arquivo pessoalNo Mato Grosso do Sul, uma \u00fanica servidora da Funai atende 10 mil ind\u00edgenas<br \/>\nDe acordo com um levantamento feito com dados de 2017 pelo ex-servidor do \u00f3rg\u00e3o Helton Soares dos Santos, em trabalho apresentado na Escola Nacional de Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica (Enap), 101 das 240 CTLs da Funai contavam com menos de dois servidores ativos. Destas, 22 n\u00e3o contavam com nenhum servidor ativo no per\u00edodo analisado.<\/p>\n<p>A baix\u00edssima frequ\u00eancia de concursos para a institui\u00e7\u00e3o j\u00e1 foi alvo de cr\u00edtica at\u00e9 do Tribunal de Contas da Uni\u00e3o (TCU) em uma s\u00e9rie de an\u00e1lises sobre a Funai, a \u00faltima delas em 2015. O \u00faltimo concurso para a contrata\u00e7\u00e3o de servidores foi feito no ano seguinte, em 2016, mas as nomea\u00e7\u00f5es s\u00f3 come\u00e7aram em dezembro de 2017. Nos primeiros meses do governo Jair Bolsonaro, as nomea\u00e7\u00f5es de pessoal v\u00eam ocorrendo principalmente em capitais como Cuiab\u00e1, Bras\u00edlia e Rio de Janeiro, enquanto as estruturas perif\u00e9ricas est\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia \u2013 o que \u00e9 alvo de uma a\u00e7\u00e3o judicial movida por um grupo de servidores da Funai que tomou posse ap\u00f3s o \u00faltimo concurso para contrata\u00e7\u00e3o de pessoal.<\/p>\n<p>Os servidores acionaram a Justi\u00e7a em fevereiro, depois de o Minist\u00e9rio da Economia ter publicado uma portaria em 24 de janeiro autorizando a contrata\u00e7\u00e3o de um excedente de 50% do n\u00famero de aprovados no \u00faltimo concurso. O edital previa 202 servidores, mas o minist\u00e9rio autorizou a contrata\u00e7\u00e3o de outros 101, o que em tese seria positivo n\u00e3o fosse um detalhe: das 47 vagas ofertadas na \u00faltima leva, 25 foram na sede da Funai, em Bras\u00edlia, e as demais, em capitais estaduais ou em locais pr\u00f3ximos a elas. De acordo com a advogada dos servidores, Blenda Nascimento, \u201cisso fere a ordem de classifica\u00e7\u00e3o do concurso e vai contra a ideia de que a institui\u00e7\u00e3o est\u00e1 precisando de servidores e infraestrutura nas suas pontas\u201d. Os servidores conseguiram uma liminar na 7\u00aa Vara da Justi\u00e7a Federal em Bras\u00edlia suspendendo as nomea\u00e7\u00f5es, mas ainda assim uma servidora foi nomeada em Bras\u00edlia nesse per\u00edodo. O caso ainda tramita na Justi\u00e7a. Em ju\u00edzo, a Funai se defendeu dizendo que \u201ctem grande d\u00e9ficit de pessoal, eis que sua for\u00e7a de trabalho equivale a apenas um ter\u00e7o da ideal\u201d e que \u201ctodas as unidades da Funai tem car\u00eancia de m\u00e3o de obra e necessitam de servidores\u201d. A funda\u00e7\u00e3o diz que n\u00e3o sabia que haveria o excedente autorizado pelo Minist\u00e9rio da Economia e entende que a primeira nomea\u00e7\u00e3o de servidores j\u00e1 havia atendido \u00e0s necessidades priorit\u00e1rias da institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Henrique*, lotado em uma CTL no Mato Grosso, discorda. Trabalhando sozinho, como \u00e9 comum nas CTLs, sente o peso de representar a pauta ind\u00edgena em um munic\u00edpio fortemente vinculado ao agroneg\u00f3cio. \u201cA gente tem que ter muita cautela pra trabalhar com indigenismo. Tem que saber o que falar, onde falar. O ambiente \u00e9 muito hostil. Algumas \u00e1reas de demarca\u00e7\u00e3o sobrep\u00f5em grandes fazendas de lavoura e pecu\u00e1ria, isso acaba gerando muito atrito\u201d, avalia. \u201cO fato de ser um \u00fanico servidor traz esse sentimento de certa vulnerabilidade. \u00c9 uma cidade pequena. Todo mundo sabe quem sou eu, onde eu moro, a minha rotina. Isso deixa a gente vulner\u00e1vel\u201d, diz.<\/p>\n<p>Questionada pela P\u00fablica, a Funai afirmou em nota que \u201ca equipe t\u00e9cnica da Coordena\u00e7\u00e3o de Gest\u00e3o de Pessoas (CGGP) est\u00e1 buscando medidas que permitam a participa\u00e7\u00e3o dos servidores nomeados no \u00faltimo certame no II Concurso Interno de Remo\u00e7\u00e3o, tendo em vista as atuais limita\u00e7\u00f5es legais. As vagas ser\u00e3o abertas em unidades de todas as regi\u00f5es do pa\u00eds e os crit\u00e9rios de sele\u00e7\u00e3o ser\u00e3o divulgados ainda em mar\u00e7o\u201d.<\/p>\n<p>Uma servidora, uma caminhonete e um conflito em \u00e1rea com 10 mil ind\u00edgenas<\/p>\n<p>Como Henrique, a servidora Ellen Cristina de Almeida \u00e9 a \u00fanica lotada em Caarap\u00f3 (MS), uma das regi\u00f5es com maior conflito envolvendo popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas no pa\u00eds. A \u00fanica estrutura da Funai de que disp\u00f5e em sua CTL para atender 10 mil ind\u00edgenas \u00e9 uma caminhonete. At\u00e9 o ano passado, ainda funcionava um prec\u00e1rio posto de atendimento localizado na aldeia Teyi Ku\u00ea, mas hoje n\u00e3o h\u00e1 mais nem um balc\u00e3o para os ind\u00edgenas fazerem contato com o Estado brasileiro.<\/p>\n<p>Ellen Cristina de Almeida\/Arquivo pessoalAt\u00e9 o ano passado, ainda funcionava um prec\u00e1rio posto de atendimento na aldeia Teyi Ku\u00ea<br \/>\nTodos os dias, Ellen vai \u00e0 Coordena\u00e7\u00e3o Regional em Dourados, recolhe o material necess\u00e1rio para desempenhar seu trabalho \u2013 de documenta\u00e7\u00e3o a cestas b\u00e1sicas, lonas e utens\u00edlios agr\u00edcolas \u2013, e entra na caminhonete branca sem logotipo da Funai. \u201cA gente costuma brincar que a CTL de Caarap\u00f3 funciona dentro de um carro\u201d, relata a servidora Paula*, lotada na CR em Dourados.<\/p>\n<p>Pelo telefone, a voz de Ellen parece cansada. Quando conversou com a reportagem, acabava de voltar de uma entrega de cestas b\u00e1sicas em diversas comunidades na regi\u00e3o de Navira\u00ed (MS). \u201c\u00c9 estressante ficar nesse tr\u00e2nsito. \u00c9 por uma BR supermovimentada, que \u00e9 a BR-163, voc\u00ea acaba tendo um tempo de deslocamento at\u00e9 as \u00e1reas que a gente gasta em m\u00e9dia duas horas e meia, tr\u00eas horas.\u201d Pedindo desculpas pelas interrup\u00e7\u00f5es \u2013 ela s\u00f3 conseguiu tempo para falar na hora do jantar, l\u00e1 pelas nove da noite, Ellen desabafa: \u201cA Funai est\u00e1 numa situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica em que n\u00e3o d\u00e1 conta de fazer o que tem que ser feito. A CTL de Caarap\u00f3 \u00e9 um caso muito simb\u00f3lico. \u00c9 uma estrutura que s\u00f3 existe no papel. Voc\u00ea tem um servidor, no caso eu, e esse \u00e9 um quadro que j\u00e1 vem ao longo de v\u00e1rios anos, pra atender tr\u00eas munic\u00edpios [Navira\u00ed, Juti e Caarap\u00f3], 10 mil pessoas, uma reserva, e isso em um local de intenso conflito, de tensionamento. \u00c9 muito delicado. A forma como temos que estabelecer contato com as institui\u00e7\u00f5es, a forma como a gente tem que atuar nessas \u00e1reas de conflito\u2026\u201d, relata.<\/p>\n<div class=\"jetpack-video-wrapper\"><iframe loading=\"lazy\" title=\"Posto de atendimento aldeia Teyi Ku\u00ea\" width=\"600\" height=\"338\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/L7jYlQHhtDU?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/div>\n<p>Em junho de 2016, o agente de sa\u00fade ind\u00edgena Clodiode de Souza foi morto e outros seis ind\u00edgenas da etnia Guarani-Kaiow\u00e1 ficaram feridos ap\u00f3s um ataque armado contra uma \u00e1rea de retomada, local ocupado e reivindicado como territ\u00f3rio tradicional pelos ind\u00edgenas, em Caarap\u00f3. Segundo a Secretaria Especial de Sa\u00fade Ind\u00edgena (Sesai), um comboio com 60 caminhonetes com homens armados disparou contra um agrupamento de mil ind\u00edgenas \u2013 o epis\u00f3dio foi batizado de Massacre de Caarap\u00f3. \u201cDepois disso, tudo mudou\u201d, diz Ellen. \u201c\u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o de muito tensionamento, um clima de hostilidade. Vira e mexe n\u00f3s temos que fazer atendimentos em \u00e1rea em que uma caminhonete para e d\u00e1 tiros nos ind\u00edgenas, a\u00ed os \u00edndios se mobilizam e fecham estradas\u2026 Voc\u00ea tem, desde 2016, uma situa\u00e7\u00e3o de conflito iminente na regi\u00e3o e mesmo assim o Estado, a Funai n\u00e3o articularam uma a\u00e7\u00e3o pra garantir uma presen\u00e7a mais efetiva nessas \u00e1reas. Nessa \u00e9poca, a CTL s\u00f3 tinha um servidor tamb\u00e9m. Hoje a coisa permanece igual. A pol\u00edtica indigenista do Estado est\u00e1 longe de ser considerada uma pol\u00edtica p\u00fablica\u201d, critica.<\/p>\n<p>Meses ap\u00f3s o massacre, Ellen conta que ela e o antigo coordenador da CTL, Ad\u00e3o Candado, passaram por uma situa\u00e7\u00e3o de constrangimento em uma reuni\u00e3o com a Pol\u00edcia Militar local. \u201cChegou um policial diretamente para o coordenador e disse: \u2018O que t\u00e1 acontecendo com esses \u00edndios? Como voc\u00ea pode atuar pra segurar os \u00edndios?\u2019.\u201d Em outra ocasi\u00e3o, ap\u00f3s os Guarani-Kaiow\u00e1 terem fechado uma estrada em um protesto, ela diz ter recebido liga\u00e7\u00f5es de um fazendeiro vizinho dizendo que \u201ca situa\u00e7\u00e3o ia ficar feia\u201d. <\/p>\n<p>\u201cCotidianamente acontecem esses constrangimentos\u201d, relata.<\/p>\n<p>Esgotada, Ellen diz que pretende pedir exonera\u00e7\u00e3o, como fez seu antecessor. \u201cA Funai, na situa\u00e7\u00e3o em que est\u00e1, n\u00e3o d\u00e1 conta de responder \u00e0s demandas, e voc\u00ea fica nesse questionamento interno de receber a demanda dos \u00edndios e ao mesmo tempo ter a consci\u00eancia que voc\u00ea n\u00e3o d\u00e1 conta de responder tudo. A gente vai entrando num processo de cansa\u00e7o mental muito forte, acaba sentindo no corpo a falta de seriedade do Estado com a popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena. Em uma \u00fanica visita a uma aldeia, voc\u00ea sai com um volume de demandas que levariam dias e dias para serem resolvidas. Fora isso tem um volume enorme de a\u00e7\u00f5es judiciais em que temos que atuar\u201d, lamenta. \u201cTenho pensado em sair todos os dias. Fico num n\u00edvel de ansiedade que eu perco a fome, n\u00e3o como direito. J\u00e1 resolvi sair. A gente est\u00e1 num dos cargos mais baixos que tem nos quadros da Funai. Eu e o Ad\u00e3o doamos bastante pela popula\u00e7\u00e3o. Trabalhamos pela causa, n\u00e3o por dinheiro. Mas chega uma hora que cansa voc\u00ea atuar sozinho com um monte de demanda que voc\u00ea n\u00e3o d\u00e1 conta de responder. Assim que surgir um outro trabalho, vou pedir exonera\u00e7\u00e3o. Eu n\u00e3o tenho vida na CTL\u201d, diz com a voz embargada.<\/p>\n<p>Funai perdeu quase 2 mil servidores nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas<\/p>\n<p>Atualmente no Corpo de Bombeiros do Distrito Federal, Helton Soares dos Santos viu de perto os efeitos da falta de bra\u00e7os para desempenhar seu papel como chefe do Servi\u00e7o de Avalia\u00e7\u00e3o de Desempenho da Coordena\u00e7\u00e3o de Desenvolvimento de Pessoal da entidade, onde ficou cinco anos. \u201cEu trabalhava na sede da Funai, atendendo todo o Brasil. Fazia um servi\u00e7o que era para, no m\u00ednimo, tr\u00eas ou quatro pessoas. Era eu e mais uma pessoa atendendo mais de 2 mil servidores dentro da \u00e1rea de pessoal. T\u00ednhamos que acumular muitas tarefas. Isso serviu at\u00e9 de motiva\u00e7\u00e3o para realizar o estudo\u201d, relata. Em seu trabalho de conclus\u00e3o da especializa\u00e7\u00e3o em gest\u00e3o p\u00fablica feita na Escola Nacional de Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica (Enap), Helton se debru\u00e7ou sobre o hist\u00f3rico da gest\u00e3o de pessoas da Funai.<\/p>\n<p>De acordo com os dados da pr\u00f3pria entidade, entre 1991 e 2017 a funda\u00e7\u00e3o admitiu 1.172 servidores. No mesmo per\u00edodo, no entanto, 1.330 servidores se aposentaram e outros 1.818 foram exclu\u00eddos dos quadros da entidade \u2013 foram quase 2 mil servidores perdidos pela Funai nesses 26 anos. As baixas se deram ao longo de anos em que o \u00f3rg\u00e3o foi ganhando mais e mais atribui\u00e7\u00f5es, como, por exemplo, os projetos de etnodesenvolvimento, voltados para a gera\u00e7\u00e3o de renda e produ\u00e7\u00e3o sustent\u00e1vel nas aldeias. E os cortes permanecem: entre janeiro de 2017 e novembro de 2018, a Funai perdeu cerca de 10% de sua for\u00e7a de trabalho \u2013 cerca de 261 funcion\u00e1rios. Em novembro de 2018, eram 2.293 servidores para atender uma popula\u00e7\u00e3o de cerca de 897 mil ind\u00edgenas \u2013 m\u00e9dia de 2,56 servidores para cada mil ind\u00edgenas aproximadamente, a metade dos n\u00fameros do servi\u00e7o p\u00fablico brasileiro em geral, que \u00e9 de pouco mais de cinco servidores para cada mil habitantes. No per\u00edodo analisado por Helton, a Funai operava com apenas 30% de sua capacidade: de 5.584 cargos aprovados, contava apenas com 2.078 ocupados, o que vem sendo alvo de protesto dos indigenistas.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o do d\u00e9ficit de servidores do \u00f3rg\u00e3o indigenista preocupa ainda mais pela idade avan\u00e7ada da for\u00e7a de trabalho \u2013 60% do total de servidores que estavam na Funai \u00e0 \u00e9poca da an\u00e1lise de Helton estar\u00e3o aptos a se aposentar em 2020. Al\u00e9m deles, 567 servidores j\u00e1 cumpriam os requisitos para a aposentadoria, mas preferiram permanecer trabalhando no per\u00edodo analisado pelo estudo. Pela proje\u00e7\u00e3o, outros 500 servidores poder\u00e3o se aposentar at\u00e9 2023.<\/p>\n<p>An\u00e1lise do TCU apontou \u201cenfraquecimento cr\u00f4nico da for\u00e7a de trabalho\u201d na Funai<\/p>\n<p>Reunida no Ac\u00f3rd\u00e3o 2.626\/2015, uma avalia\u00e7\u00e3o sobre a Funai feita em 2015 pelo TCU j\u00e1 apontava o prec\u00e1rio quadro de pessoal como um dos principais problemas da institui\u00e7\u00e3o. Entre os nove fatores apontados como prejudiciais ao funcionamento adequado da Funai, est\u00e1 o \u201cenfraquecimento cr\u00f4nico da for\u00e7a de trabalho\u201d, causado pela baixa remunera\u00e7\u00e3o dos servidores, baixa regularidade na admiss\u00e3o de pessoal, capacita\u00e7\u00e3o insuficiente dos servidores, quantidade insuficiente de servidores, potencial redu\u00e7\u00e3o do quadro em fun\u00e7\u00e3o das aposentadorias, dificuldade de fixa\u00e7\u00e3o de servidores em localidades remotas e alta taxa de evas\u00e3o dos servidores, especialmente entre os rec\u00e9m-ingressados.<\/p>\n<p>\u201cA escassez de capital humano compromete o funcionamento de uma organiza\u00e7\u00e3o sob in\u00fameros aspectos. Sem pessoal qualificado em quantidade suficiente, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel desempenhar e conduzir bem qualquer processo interno existente, desde o mais b\u00e1sico ao mais complexo. As defici\u00eancias da Funai relacionadas \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o institucional, planejamento, licenciamento, projetos sociais e de etnodesenvolvimento, controles de processo e patrim\u00f4nio t\u00eam entre suas principais causas, diretas ou indiretas, a situa\u00e7\u00e3o do quadro de pessoal da Funda\u00e7\u00e3o\u201d, conclui o TCU.<\/p>\n<p>\u201cPensei em sair da Funai\u201d, diz servidor retido por ind\u00edgenas no Amazonas<\/p>\n<p>Uma semana antes do \u00faltimo carnaval, Fernando*, que ainda n\u00e3o tinha nem um ano de Funai, passou por uma experi\u00eancia assustadora. Convidado pela filha de uma lideran\u00e7a a visitar duas \u00e1reas de retomada ind\u00edgena pr\u00f3ximas \u00e0 Coordena\u00e7\u00e3o Regional em que trabalha, no Amazonas, acabou sendo detido por um grupo de ind\u00edgenas e mantido em c\u00e1rcere privado em uma das \u00e1reas que visitou.<\/p>\n<p>\u201cHouve amea\u00e7as de me amarrar e fiquei com aquela tens\u00e3o psicol\u00f3gica de me deixarem preso no lugar, sem saber o que ia acontecer, at\u00e9 que ponto poderiam chegar\u201d, relembra Fernando, que havia entrado na \u00e1rea de retomada com outros dois ind\u00edgenas. Um deles conseguiu escapar e voltou ao local com a Pol\u00edcia Militar, o que possibilitou a liberta\u00e7\u00e3o do servidor, que ficou detido por cerca de sete horas. \u201cEles me falaram que estavam fazendo isso apenas para eu respeitar a organiza\u00e7\u00e3o do movimento de que eles fazem parte. N\u00e3o havia nenhuma reivindica\u00e7\u00e3o, foi apenas uma demonstra\u00e7\u00e3o de poder gratuita de um grupo do movimento ind\u00edgena que tem sido hegem\u00f4nico na regi\u00e3o nas \u00faltimas d\u00e9cadas e que, segundo muitos ind\u00edcios, tem se envolvido em v\u00e1rias irregularidades\u201d, relata.<\/p>\n<p>Ele v\u00ea rela\u00e7\u00e3o entre a falta de bra\u00e7os na Coordena\u00e7\u00e3o Regional e o epis\u00f3dio que viveu, j\u00e1 que estava atuando sozinho em uma \u00e1rea de conflito. \u201cCom mais pessoal poder\u00edamos nos distribuir e estar mais presentes nos munic\u00edpios de jurisdi\u00e7\u00e3o da CR, administrando todos os conflitos nas aldeias e evitando este tipo de situa\u00e7\u00e3o\u201d, avalia. \u201cNossa jurisdi\u00e7\u00e3o de Coordena\u00e7\u00e3o Regional engloba 15 munic\u00edpios, e h\u00e1 v\u00e1rios casos complexos como esse de conflitos entre aldeias ou entre aldeias e comunidades ribeirinhas n\u00e3o ind\u00edgenas. Precisar\u00edamos de muita estrutura pra dar conta dessa dimens\u00e3o e complexidade. S\u00e3o cerca de 80 mil ind\u00edgenas, de provavelmente 20 etnias. Somos muito poucos servidores. Muitos est\u00e3o se aposentando. Do ano passado pra c\u00e1, ser\u00e3o talvez mais de dez se aposentando. A maioria do pessoal s\u00e3o esses que v\u00e3o se aposentar e n\u00e3o entraram por concurso p\u00fablico, entraram na \u00e9poca [da gest\u00e3o] do [Romero] Juc\u00e1 na Funai, e foram admitidos posteriormente. Sem receberem capacita\u00e7\u00e3o e treinamento posterior, sem uma atualiza\u00e7\u00e3o, que qualquer servidor p\u00fablico precisa\u201d, diz.<\/p>\n<p>Quando indagado se pensou em desistir da Funai, \u00e9 categ\u00f3rico. \u201cPensei sim\u201d, afirma. Ele diz que a namorada o vem ajudando a esquecer do epis\u00f3dio e seguir em seu posto \u2013 nem contou sobre o epis\u00f3dio aos filhos pequenos. Mas diz que o clima pode esquentar nos pr\u00f3ximos meses. \u201cPor enquanto, n\u00e3o. Mas estamos tentando reerguer a atividade de demarca\u00e7\u00e3o por aqui, e talvez comece a vir bronca nesse sentido. Aqui \u00e9 um dos lugares com maior n\u00famero de pedidos de demarca\u00e7\u00e3o no pa\u00eds.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Da Ag\u00eancia P\u00fablica &#8211; Nos \u00faltimos anos, a Funda\u00e7\u00e3o Nacional do \u00cdndio (Funai) vem atuando com cerca de um ter\u00e7o de sua for\u00e7a de trabalho, uma situa\u00e7\u00e3o-limite agravada por decis\u00f5es tomadas no atual governo, em especial pelo Decreto 9.711\/2019, que contingenciou em 90% o or\u00e7amento da Funai previsto na Lei Or\u00e7ament\u00e1ria Anual.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-20968","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-5sc","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20968","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20968"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20968\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20972,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20968\/revisions\/20972"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20968"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20968"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20968"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}