{"id":21205,"date":"2019-04-10T08:49:24","date_gmt":"2019-04-10T12:49:24","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=21205"},"modified":"2019-04-10T08:49:24","modified_gmt":"2019-04-10T12:49:24","slug":"chineses-robos-e-a-uberizacao-das-relacoes-de-trabalho-diga-adeus-as-ferias-e-ao-13","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2019\/04\/10\/chineses-robos-e-a-uberizacao-das-relacoes-de-trabalho-diga-adeus-as-ferias-e-ao-13\/","title":{"rendered":"CHINESES, ROB\u00d4S E A \u201cUBERIZA\u00c7\u00c3O\u201d DAS RELA\u00c7\u00d5ES DE TRABALHO: DIGA ADEUS \u00c0S F\u00c9RIAS E AO 13\u00b0"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"21206\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2019\/04\/10\/chineses-robos-e-a-uberizacao-das-relacoes-de-trabalho-diga-adeus-as-ferias-e-ao-13\/1091eded-0e4a-4256-8958-999c49cf1acc\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/1091EDED-0E4A-4256-8958-999C49CF1ACC.jpeg?fit=440%2C220\" data-orig-size=\"440,220\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"1091EDED-0E4A-4256-8958-999C49CF1ACC\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/1091EDED-0E4A-4256-8958-999C49CF1ACC.jpeg?fit=300%2C150\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/1091EDED-0E4A-4256-8958-999C49CF1ACC.jpeg?fit=440%2C220\" class=\"alignnone size-full wp-image-21206\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/1091EDED-0E4A-4256-8958-999C49CF1ACC.jpeg?resize=440%2C220\" alt=\"1091EDED-0E4A-4256-8958-999C49CF1ACC\" width=\"440\" height=\"220\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/1091EDED-0E4A-4256-8958-999C49CF1ACC.jpeg?w=440 440w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/1091EDED-0E4A-4256-8958-999C49CF1ACC.jpeg?resize=300%2C150 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 440px) 100vw, 440px\" \/><\/p>\n<p>The Intercept &#8211; UMA DAS GRANDES maravilhas do capitalismo \u00e9 a inova\u00e7\u00e3o. Inovar significa, de maneira simples, criar algo novo ou fazer algo velho de uma nova maneira. E nisso o capitalismo \u00e9 craque.<\/p>\n<p>Talvez dois mais importantes economistas pol\u00edticos que analisaram o fen\u00f4meno da inova\u00e7\u00e3o foram o alem\u00e3o Karl Marx (escudado por vezes por seu amigo Friedrich Engels) e o austr\u00edaco Joseph Schumpeter.<!--more--><\/p>\n<div class=\"PostContent\">\n<div>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ebooksbrasil.org\/adobeebook\/manifestocomunista.pdf\" target=\"_blank\">No Manifesto de 1848<\/a>, numa das passagens mais famosas do texto, Marx e Engels afirmam:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cA burguesia n\u00e3o pode existir sem revolucionar permanentemente os instrumentos de produ\u00e7\u00e3o, portanto as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, portanto as rela\u00e7\u00f5es sociais todas\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>Enquanto as sociedades baseadas em outros modos de produ\u00e7\u00e3o se caracterizavam pela estabilidade das rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e sociais, o capitalismo \u00e9 marcado pela revolu\u00e7\u00e3o permanente. E \u00e9 essa instabilidade que permitiu que a burguesia realizasse em poucos s\u00e9culos de dom\u00ednio maravilhas maiores que \u201cas pir\u00e2mides eg\u00edpcias, dos aquedutos romanos e das catedrais g\u00f3ticas\u201d.<\/p>\n<p>N\u2019<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/marx\/1867\/ocapital-v1\/index.htm\" target=\"_blank\">O Capital de 1867<\/a>, Marx volta a mostrar seu alumbramento com as inova\u00e7\u00f5es, no cap\u00edtulo 13, intitulado \u201cMaquinaria e Grande Ind\u00fastria\u201d. Mas o tema perpassa todo seu sistema. No modelo de Marx, o capitalista busca aumentar a massa de mais-valor que extrai de seus trabalhadores. Se estamos em um mundo de produtos id\u00eanticos \u2013 camisas brancas, por exemplo \u2013, o capitalista pode aumentar seus lucros fazendo seus oper\u00e1rios trabalharem por mais horas que a concorr\u00eancia (mais-valor absoluto), ou fazer com que seus trabalhadores produzam mais mercadorias em menos tempo (mais-valor relativo).<\/p>\n<p>Para Marx, a dificuldade estava no mais-valor relativo. Para produzir mais em menos tempo, s\u00e3o necess\u00e1rias novas m\u00e1quinas e equipamentos, novas formas de comunica\u00e7\u00e3o, de transporte, de organiza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o, novos sistemas de log\u00edstica etc. O capitalista que conseguir criar ou fazer uso dessas inova\u00e7\u00f5es ter\u00e1 uma maior taxa e uma maior massa de lucro, conquistando cada vez mais participa\u00e7\u00e3o no mercado. Caminhar\u00e1 para se tornar um dos gigantes do setor.<\/p>\n<p>Quem n\u00e3o for capaz \u2013 ou n\u00e3o tiver recursos para inovar \u2013 ser\u00e1 engolido. Ali\u00e1s, mesmo a empresa l\u00edder do mercado \u2013 como contam as hist\u00f3rias da <a href=\"https:\/\/www.forbes.com\/sites\/chunkamui\/2012\/01\/18\/how-kodak-failed\/#665c6a8d6f27\" target=\"_blank\">Kodak<\/a> e da <a href=\"https:\/\/www.newyorker.com\/business\/currency\/where-nokia-went-wrong\" target=\"_blank\">Nokia<\/a> \u2013 mostra que a bancarrota est\u00e1 sempre na esquina.<\/p>\n<p>Em 1911, na sua obra <a href=\"https:\/\/edisciplinas.usp.br\/mod\/resource\/view.php?id=102926\" target=\"_blank\">Teoria do Desenvolvimento Econ\u00f4mico<\/a>, Schumpeter fez bom uso das teorias de Marx, a partir de uma \u00f3tica liberal. Para Schumpeter, a mudan\u00e7a n\u00e3o nasce a partir de modifica\u00e7\u00f5es nos gostos dos consumidores. Na verdade, s\u00e3o os empres\u00e1rios inovadores que criam novos produtos e \u201ceducam\u201d (esse \u00e9 o termo usado pelo autor) os consumidores sobre sua necessidade.<\/p>\n<blockquote class=\"stylized pull-right\" data-shortcode-type=\"pullquote\" data-pull=\"right\"><p>Toda cria\u00e7\u00e3o est\u00e1 carregada de destrui\u00e7\u00e3o.<\/p><\/blockquote>\n<p>Um exemplo pessoal. Nos meus tempos de faculdade, a viagem de \u00f4nibus era embalada por m\u00fasica ouvida atrav\u00e9s de um CD player e, principalmente, um walkman. Eu andava com tr\u00eas ou quatro fitas na mochila, e o mundo parecia bom.<\/p>\n<p>Jamais imaginei que um dia, poucos anos mais tarde, haveria uma coisa chamada Ipod \u2013 ou o MP3 da feira, seu primo pobre ao qual tive acesso \u2013, no qual cabiam as m\u00fasicas de todos os CD\u2019s que eu tinha na minha casa (sobrando espa\u00e7o, ali\u00e1s). N\u00f3s jamais demandamos um telefone celular que fosse tamb\u00e9m um computador, uma televis\u00e3o e um Ipod (ali\u00e1s, <a href=\"https:\/\/www.wired.com\/story\/goodbye-ipod-and-thanks-for-all-the-tunes\/\" target=\"_blank\">o smartphone matou o Ipod de modo lento e cruel<\/a>).<\/p>\n<p>Mas como fica evidente nesses dois exemplos, toda cria\u00e7\u00e3o est\u00e1 carregada de destrui\u00e7\u00e3o. O Ipod destruiu o <em>discman<\/em>, o smartphone destruiu o Ipod. Isso \u00e9 parte do fen\u00f4meno que Schumpeter chamou de <a href=\"https:\/\/economics.mit.edu\/files\/1785\">\u201c<\/a><a href=\"https:\/\/economics.mit.edu\/files\/1785\" target=\"_blank\">destrui\u00e7\u00e3o criativa\u201d<\/a>. O novo produto\u00a0ou o novo processo destr\u00f3i o que era velho.<\/p>\n<p>M\u00eas passado\u00a0foi divulgado que, com o fechamento de uma loja na Austr\u00e1lia, h\u00e1 hoje <a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2019\/03\/06\/business\/last-blockbuster-store.html\">apenas uma \u00fanica <\/a><a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2019\/03\/06\/business\/last-blockbuster-store.html\" target=\"_blank\">Blockbuster<\/a><a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2019\/03\/06\/business\/last-blockbuster-store.html\"> no mundo<\/a>. H\u00e1 uma d\u00e9cada, eram 9 mil lojas, com p\u00e9s nos quatro cantos do mundo, no Brasil inclusive. Uma rede literalmente global foi morta por uma inova\u00e7\u00e3o: Netflix.<\/p>\n<p>Outro exemplo: h\u00e1 poucos anos atr\u00e1s ter frota de t\u00e1xis era um \u00f3timo investimento. Para obter uma licen\u00e7a de taxista, o sujeito precisava desembolsar uma pequena fortuna. Hoje qualquer um pode se cadastrar no Uber e operar como t\u00e1xi.<\/p>\n<p>Mas nem tudo s\u00e3o rosas. Muitos s\u00e3o os trabalhadores ao longo da hist\u00f3ria que sofreram (e sofrer\u00e3o) com o desemprego derivado de alguma inova\u00e7\u00e3o poupadora de m\u00e3o de obra. No in\u00edcio do s\u00e9culo 19, os chamados ludistas destru\u00edram as m\u00e1quinas que lhes roubavam os empregos. O drama dos trabalhadores instigou os economistas: seria a inova\u00e7\u00e3o boa tamb\u00e9m para os trabalhadores?<\/p>\n<blockquote class=\"stylized pull-left\" data-shortcode-type=\"pullquote\" data-pull=\"left\"><p>As condi\u00e7\u00f5es m\u00e9dias de trabalho no mundo todo t\u00eam piorado pelo mundo.<\/p><\/blockquote>\n<p>Para os marxistas, a resposta seria negativa. Essas inova\u00e7\u00f5es, num sistema capitalista, for\u00e7ariam os sal\u00e1rios para baixo, reduzindo o poder de barganha dos trabalhadores, jogando alguns na mis\u00e9ria, outros no subemprego e muitos em empregos prec\u00e1rios.<\/p>\n<p>Os liberais, via de regra, respondem essa pergunta afirmativamente. Ainda que a inova\u00e7\u00e3o destrua alguns empregos, ela cria fundos que permitem investimentos e aumento da produ\u00e7\u00e3o que far\u00e3o com que a regi\u00e3o inovadora seja capaz de criar mais vagas de trabalho, que pagam sal\u00e1rios maiores.<\/p>\n<p>Depois de um come\u00e7o vacilante, as evid\u00eancias pareciam corroborar a vis\u00e3o liberal. Os pa\u00edses mais inovadores s\u00e3o os que oferecem mais e melhores empregos. Enquanto pa\u00edses atrasados tecnologicamente t\u00eam menos vagas e piores sal\u00e1rios.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 algumas d\u00e9cadas, desde o in\u00edcio da hiperglobaliza\u00e7\u00e3o ap\u00f3s o fim da Guerra Fria, um movimento contradit\u00f3rio vem acontecendo. Com a entrada de mais de 1 bilh\u00e3o de chineses no mercado de trabalho capitalista \u2013 sem contar os de outros lugares \u2013, <a href=\"https:\/\/www.bloomberg.com\/opinion\/articles\/2019-03-07\/global-poverty-is-in-retreat-as-poor-countries-catch-up\" target=\"_blank\">multid\u00f5es de trabalhadores de pa\u00edses subdesenvolvidos t\u00eam escapado da mis\u00e9ria<\/a>. Por\u00e9m, as condi\u00e7\u00f5es m\u00e9dias de trabalho no mundo todo t\u00eam piorado. Nos pa\u00edses centrais, por exemplo, <a href=\"https:\/\/www.epi.org\/productivity-pay-gap\/\" target=\"_blank\">os ganhos de produtividade n\u00e3o parecem se materializar em aumentos de sal\u00e1rios<\/a>(ainda que esse dado seja <a href=\"https:\/\/www.forbes.com\/sites\/timworstall\/2016\/10\/03\/us-wages-have-been-rising-faster-than-productivity-for-decades\/#66fa6ece7342\" target=\"_blank\">controverso<\/a>).<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, tem crescido, desde os anos 1970, o n\u00famero de horas trabalhadas pelos americanos, bem como a<a href=\"https:\/\/www.thenation.com\/article\/americans-work-too-much-already\/\" target=\"_blank\">propor\u00e7\u00e3o daqueles que trabalham mais de 40 horas semanais<\/a>. Quarenta horas semanais foram uma conquista de trabalhadores ingleses (uma pequena por\u00e7\u00e3o, \u00e9 verdade) ainda em 1889.<\/p>\n<p>Um cen\u00e1rio melanc\u00f3lico, se pensarmos no otimismo de um <a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/reference\/subject\/economics\/keynes\/1930\/our-grandchildren.htm\" target=\"_blank\">J. M. Keynes que, em 1930,<\/a> acreditava que os netos de seus contempor\u00e2neos poderiam viver em abund\u00e2ncia trabalhando tr\u00eas horas por dia. Hoje o fantasma dos rob\u00f4s e da chamada \u201cuberiza\u00e7\u00e3o\u201d das rela\u00e7\u00f5es trabalhistas \u00e9 um espectro que ronda todo o mundo.<\/p>\n<p>Um n\u00famero crescente de profiss\u00f5es pode facilmente ser substitu\u00edda por algoritmos, rob\u00f4s e outras tecnologias digitais (como a minha, de professor universit\u00e1rio). O Uber, que tem sido a t\u00e1bua de salva\u00e7\u00e3o de milh\u00f5es de pessoas em pa\u00edses como o Brasil, tem um modelo de neg\u00f3cio em que<em> seu funcion\u00e1rio sequer \u00e9 seu funcion\u00e1rio. <\/em>H\u00e1 a liberdade aparente de trabalhar quando e quanto quiser, que se materializa em jornadas intermin\u00e1veis \u2013 h\u00e1 casos de <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=9abrZwnPThE\" target=\"_blank\">motoristas que vivem literalmente em seus carros nos EUA<\/a> \u2013 e em uma virtual aus\u00eancia absoluta de direitos trabalhistas em caso de acidentes, doen\u00e7as, incapacidades etc.<\/p>\n<p>Estamos caminhando para o mundo do \u201cfreela\u201d, das rela\u00e7\u00f5es pautadas pela <em>uberiza\u00e7\u00e3o<\/em>. A reforma trabalhista de Temer e a <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/10\/22\/politica\/1540230714_377475.html\" target=\"_blank\">carteira de trabalho verde-amarela de Bolsonaro<\/a> s\u00e3o passos nessa dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Enquanto gera\u00e7\u00f5es passadas podiam sonhar em construir uma carreira de 30 anos numa mesma empresa, \u00e9 prov\u00e1vel que as novas tenham que se acostumar com a instabilidade do desenho \u201cuber\u201d de trabalho.<\/p>\n<p>Como j\u00e1 se disse uma vez: tudo o que era s\u00f3lido se desmancha no ar.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"InlineDonationPromo\"><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>The Intercept &#8211; UMA DAS GRANDES maravilhas do capitalismo \u00e9 a inova\u00e7\u00e3o. Inovar significa, de maneira simples, criar algo novo ou fazer algo velho de uma nova maneira. E nisso o capitalismo \u00e9 craque. 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