{"id":21219,"date":"2019-04-11T07:33:33","date_gmt":"2019-04-11T11:33:33","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=21219"},"modified":"2019-04-11T07:33:33","modified_gmt":"2019-04-11T11:33:33","slug":"ser-trans-e-cruzar-uma-fronteira-politica","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2019\/04\/11\/ser-trans-e-cruzar-uma-fronteira-politica\/","title":{"rendered":"Ser \u2018trans\u2019 \u00e9 cruzar uma fronteira pol\u00edtica"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"21220\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2019\/04\/11\/ser-trans-e-cruzar-uma-fronteira-politica\/tran-5\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/tran.jpg?fit=1960%2C1197\" data-orig-size=\"1960,1197\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"tran\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/tran.jpg?fit=300%2C183\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/tran.jpg?fit=600%2C366\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/tran.jpg?resize=600%2C366\" alt=\"tran\" width=\"600\" height=\"366\" class=\"alignnone size-full wp-image-21220\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/tran.jpg?w=1960 1960w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/tran.jpg?resize=300%2C183 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/tran.jpg?resize=768%2C469 768w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/tran.jpg?resize=1024%2C625 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/tran.jpg?resize=491%2C300 491w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/tran.jpg?w=1200 1200w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/tran.jpg?w=1800 1800w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p>O fil\u00f3sofo transg\u00eanero Paul B. Preciado relata sua experi\u00eancia como viajante entre a feminilidade e a masculinidade e denuncia que estas transi\u00e7\u00f5es ainda s\u00e3o consideradas heresias<!--more--><\/p>\n<p>No El Pa\u00eds<\/p>\n<p>Eu me atrevo a dizer quais s\u00e3o os processos de cruzamento que melhor nos permitem compreender a transi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica global que estamos enfrentando. A mudan\u00e7a de sexo e a migra\u00e7\u00e3o s\u00e3o as duas pr\u00e1ticas de travessia que, ao porem em xeque a arquitetura pol\u00edtica e legal do colonialismo patriarcal, da diferen\u00e7a sexual e do Estado-na\u00e7\u00e3o, situam um corpo humano vivo nos limites da cidadania e at\u00e9 do que entendemos por humanidade. O que caracteriza as duas viagens, para al\u00e9m do deslocamento geogr\u00e1fico, lingu\u00edstico ou corporal, \u00e9 a transforma\u00e7\u00e3o radical n\u00e3o s\u00f3 do viajante, mas tamb\u00e9m da comunidade humana que o acolhe ou rejeita. O antigo regime (pol\u00edtico, sexual, ecol\u00f3gico) criminaliza todas a pr\u00e1ticas de travessia. Mas onde a travessia \u00e9 poss\u00edvel, o mapa de uma nova sociedade come\u00e7a a ser desenhado, com novas formas de produ\u00e7\u00e3o e de reprodu\u00e7\u00e3o da vida.<\/p>\n<p>No meu caso, o cruzamento come\u00e7ou em 2004, quando comecei a me administrar pequenas doses de testosterona. Durante alguns anos, transitando por um espa\u00e7o de reconhecimento de g\u00eanero que oscilava entre o feminino e o masculino, entre a masculinidade l\u00e9sbica e a feminilidade King [ou feminilidade masculina], experimentei a posi\u00e7\u00e3o que agora \u00e9 chamada de g\u00eanero fluido. A fluidez das encarna\u00e7\u00f5es sucessivas se chocava com a resist\u00eancia social para aceitar a exist\u00eancia de um corpo fora do bin\u00e1rio sexual. Essa &#8220;fluidez&#8221; foi poss\u00edvel durante os anos em que me administrei uma dose de testosterona que chamamos de &#8220;limiar&#8221;, porque desencadeia a prolifera\u00e7\u00e3o no corpo dos chamados &#8220;caracteres secund\u00e1rios&#8221; do sexo masculino.<\/p>\n<p>Paradoxalmente, renunciei \u00e0 fluidez porque desejava a mudan\u00e7a. A decis\u00e3o de &#8220;mudar de sexo&#8221; \u00e9 necessariamente acompanhada disso que \u00c9douard Glissant chama de &#8220;um tremor&#8221;. A travessia \u00e9 o lugar da incerteza, da n\u00e3o-evid\u00eancia, do estranho. E tudo isso n\u00e3o \u00e9 uma fraqueza, mas um poder. &#8220;O pensamento do tremor&#8221;, diz Glissant, &#8220;n\u00e3o \u00e9 o pensamento do medo. \u00c9 o pensamento que se op\u00f5e ao sistema &#8220;. Em setembro de 2014, iniciei um protocolo m\u00e9dico-psiqui\u00e1trico de redesigna\u00e7\u00e3o de g\u00eanero na Audre Lorde Clinic, em Nova York.<\/p>\n<p>\u201cMudar de sexo\u201d n\u00e3o \u00e9, como quer a guarda do antigo regime sexual, dar um salto para a psicose. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9, como pretende a nova gest\u00e3o neoliberal da diferen\u00e7a sexual, um mero tr\u00e2mite m\u00e9dico-legal que pode ser completado durante a puberdade para dar lugar a uma normalidade absoluta. Um processo de redesigna\u00e7\u00e3o de g\u00eanero em uma sociedade dominada pelo axioma cient\u00edfico-mercantil do binarismo sexual, onde os espa\u00e7os sociais, trabalhistas, afetivos, econ\u00f4micos e gestacionais est\u00e3o segmentados em termos de masculinidade ou feminilidade, de heterossexualidade ou homossexualidade, \u00e9 cruzar aquela que talvez seja, juntamente com a ra\u00e7a, a mais violenta das fronteiras pol\u00edticas inventadas pela humanidade. Cruz\u00e1-la \u00e9 ao mesmo tempo saltar uma parede vertical intermin\u00e1vel e caminhar sobre uma linha desenhada no ar. Se o regime heteropatriarcal da diferen\u00e7a sexual \u00e9 a religi\u00e3o cient\u00edfica do Ocidente, ent\u00e3o mudar de sexo s\u00f3 pode ser um ato de heresia.<\/p>\n<p>\u00c0 medida que aumentava a dose de testosterona, as mudan\u00e7as se intensificavam: o pelo facial \u00e9 um mero detalhe em compara\u00e7\u00e3o com a for\u00e7a com que a voz precipita uma mudan\u00e7a de reconhecimento social. A testosterona provoca uma varia\u00e7\u00e3o da grossura das cordas vocais, um m\u00fasculo que, ao ter sua forma modificada, varia o tom e o registro da voz. A mudan\u00e7a de voz \u00e9 experimentada pelo viajante de g\u00eanero como uma posse, um ato de ventriloquia que o for\u00e7a a se identificar com o desconhecido. Sem d\u00favida, essa muta\u00e7\u00e3o \u00e9 uma das coisas mais bonitas que j\u00e1 vivi. Ser trans \u00e9 desejar um processo de criouliza\u00e7\u00e3o interior: aceitar que s\u00f3 somos n\u00f3s mesmos gra\u00e7as \u00e0 \u2014 e atrav\u00e9s da \u2014 mudan\u00e7a, da mesti\u00e7agem, da mistura. A voz que a testosterona impulsiona em minha garganta n\u00e3o \u00e9 uma voz de homem, \u00e9 a voz do cruzamento. A voz que treme em mim \u00e9 a voz da fronteira. Como diz Glissant, \u201centendemos melhor o mundo quando trememos com ele, porque o mundo est\u00e1 tremendo em todas dire\u00e7\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p>Junto com a mudan\u00e7a de voz veio a mudan\u00e7a de nome. Durante algum tempo, desejei que meu nome feminino fosse declinado em masculino. Ou seja, quis me chamar Beatriz e ser tratado, segundo as gram\u00e1ticas, com pronomes e adjetivos masculinos. Mas aquela tor\u00e7\u00e3o gramatical era ainda mais dif\u00edcil que a fluidez de g\u00eanero. Decidi ent\u00e3o procurar um nome masculino. Em maio de 2014, o subcomandante Marcos anunciou, em uma carta aberta enviada \u201cda realidade zapatista\u201d, a morte do personagem Marcos, que tinha sido inventado como um nome sem rosto para dar voz ao processo revolucion\u00e1rio de Chiapas. Naquele mesmo comunicado, o subcomandante afirmou que deixava de se chamar Marcos para se chamar Galeano, em homenagem a Jos\u00e9 Luis Sol\u00eds L\u00f3pez, conhecido como Galeano, assassinado em maio de 2014. Pensei ent\u00e3o em me chamar Marcos. Queria usar o nome de Marcos como uma balaclava que cobrisse meu rosto e meu nome. Marcos seria uma forma de desprivatizar meu antigo nome, de coletivizar meu rosto. Minha decis\u00e3o foi denunciada imediatamente nas redes pelos ativistas latino-americanos como um gesto colonial. Afirmavam que, sendo branco e espanhol, eu n\u00e3o podia usar o nome de Marcos. A fic\u00e7\u00e3o pol\u00edtica durou poucos dias. Esse nome, enxerto pol\u00edtico fracassado, existe apenas como um tra\u00e7o ef\u00eamero inserido na assinatura do artigo do Lib\u00e9ration de 7 de junho de 2014. Sem d\u00favida, eles tinham raz\u00e3o. Havia naquele gesto arrog\u00e2ncia colonial e vaidade pessoal, mas tamb\u00e9m uma busca desesperada de prote\u00e7\u00e3o. Quem se atreve a abandonar seu nome para adotar um nome sem hist\u00f3ria, sem mem\u00f3ria, sem vida? Aprendi duas coisas, aparentemente contradit\u00f3rias, com o fracasso do enxerto do nome Marcos: eu teria de lutar por meu nome e, ao mesmo tempo, meu nome teria de ser uma oferenda, teria de ser presenteado a mim como um talism\u00e3. (\u2026)<\/p>\n<p>A ci\u00eancia, a tecnologia e o mercado est\u00e3o redesenhando os limites do que \u00e9 e ser\u00e1 um corpo humano vivo. Esses limites s\u00e3o definidos hoje n\u00e3o s\u00f3 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 animalidade e \u00e0s formas de vida consideradas at\u00e9 agora subumanas (os corpos n\u00e3o brancos, prolet\u00e1rios, n\u00e3o masculinos, trans, com defici\u00eancia, doentes, migrantes\u2026), mas tamb\u00e9m frente \u00e0 m\u00e1quina, frente \u00e0 intelig\u00eancia artificial, frente \u00e0 automatiza\u00e7\u00e3o dos processos produtivos e reprodutivos. Se a primeira Revolu\u00e7\u00e3o Industrial foi caracterizada pela inven\u00e7\u00e3o da m\u00e1quina a vapor, pela acelera\u00e7\u00e3o das formas de produ\u00e7\u00e3o, a revolu\u00e7\u00e3o industrial atual, marcada pela engenharia gen\u00e9tica, pela nanotecnologia, pelas tecnologias de comunica\u00e7\u00e3o, pela farmacologia e pela intelig\u00eancia artificial, afeta em cheio os processos de reprodu\u00e7\u00e3o da vida. O corpo e a sexualidade ocupam na atual muta\u00e7\u00e3o industrial o lugar que a f\u00e1brica ocupou no s\u00e9culo XIX. H\u00e1, ao mesmo tempo, uma revolu\u00e7\u00e3o dos subalternos e ap\u00e1tridas em andamento e uma frente contrarrevolucion\u00e1ria lutando pelo controle dos processos de reprodu\u00e7\u00e3o da vida. Em cada canto do mundo, de Atenas a Kassel, de Rojava a Chiapas, de S\u00e3o Paulo a Johannesburgo, \u00e9 poss\u00edvel sentir n\u00e3o s\u00f3 o esgotamento das formas tradicionais de fazer pol\u00edtica, mas tamb\u00e9m o surgimento de centenas de milhares de pr\u00e1ticas de experimenta\u00e7\u00e3o social, sexual, pol\u00edtica, art\u00edstica&#8230; Fazendo frente ao aumento das for\u00e7as ed\u00edpicas e fascistas surgem, por toda parte, as micropol\u00edticas do cruzamento.<\/p>\n<p>Paul B. Preciado \u00e9 um fil\u00f3sofo transg\u00eanero feminista, autor, entre outras obras, de \u2018Manifesto Contrassexual\u2019 (N-1 Edi\u00e7\u00f5es). Este texto \u00e9 um fragmento de seu novo livro \u2018Un Apartamento en Urano\u2019, lan\u00e7ado nesta quarta-feira na Espanha pela editora Anagrama.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O fil\u00f3sofo transg\u00eanero Paul B. 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