{"id":21973,"date":"2019-05-29T10:30:12","date_gmt":"2019-05-29T14:30:12","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=21973"},"modified":"2019-05-29T10:30:12","modified_gmt":"2019-05-29T14:30:12","slug":"para-entender-a-conjuntura-neoliberalismo-neofascismo-e-burguesia-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2019\/05\/29\/para-entender-a-conjuntura-neoliberalismo-neofascismo-e-burguesia-no-brasil\/","title":{"rendered":"Para entender a conjuntura: Neoliberalismo, neofascismo e burguesia no Brasil"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"21974\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2019\/05\/29\/para-entender-a-conjuntura-neoliberalismo-neofascismo-e-burguesia-no-brasil\/d73fbe3a-9a0f-4660-8796-cb1ad5a67397\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/D73FBE3A-9A0F-4660-8796-CB1AD5A67397.jpeg?fit=768%2C512\" data-orig-size=\"768,512\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"D73FBE3A-9A0F-4660-8796-CB1AD5A67397\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/D73FBE3A-9A0F-4660-8796-CB1AD5A67397.jpeg?fit=300%2C200\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/D73FBE3A-9A0F-4660-8796-CB1AD5A67397.jpeg?fit=600%2C400\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/D73FBE3A-9A0F-4660-8796-CB1AD5A67397.jpeg?resize=600%2C400\" alt=\"D73FBE3A-9A0F-4660-8796-CB1AD5A67397\" width=\"600\" height=\"400\" class=\"alignnone size-full wp-image-21974\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/D73FBE3A-9A0F-4660-8796-CB1AD5A67397.jpeg?w=768 768w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/D73FBE3A-9A0F-4660-8796-CB1AD5A67397.jpeg?resize=300%2C200 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/D73FBE3A-9A0F-4660-8796-CB1AD5A67397.jpeg?resize=450%2C300 450w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p>No Le Monde &#8211; O objetivo deste texto \u00e9 discutir a conjuntura imediata que, nas \u00faltimas semanas, tem se acelerado de forma impressionante. Para isso, se faz necess\u00e1rio tentar identificar e estabelecer o nexo, as rela\u00e7\u00f5es existentes, entre neoliberalismo, neofascismo e burguesia no Brasil; tal como se evidenciou a partir do movimento social de massa que desembocou no impeachment da ex-presidente Dilma Roussef.<!--more--><\/p>\n<p>Dessa forma, espera-se conseguir contextualizar a conjuntura para al\u00e9m de sua apar\u00eancia imediata, reconstituindo-se a disputa dos interesses de classe, e fra\u00e7\u00f5es de classe, que est\u00e3o subjacentes. Acredita-se que essa contextualiza\u00e7\u00e3o permitir\u00e1 identificar e compreender melhor as poss\u00edveis a\u00e7\u00f5es das distintas classes, fra\u00e7\u00f5es de classe e sujeitos em disputa; permitindo especular acerca do futuro do Governo Bolsonaro.<\/p>\n<p>Neofascismo e Estado de Exce\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Os movimentos, governos e l\u00edderes de extrema direita, presentes hoje em v\u00e1rios pa\u00edses, estejam estes no centro ou na periferia do sistema capitalista mundial, s\u00e3o produtos genu\u00ednos da nova forma e din\u00e2mica de funcionamento desse modo de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O \u201ccapitalismo flex\u00edvel\u201d, impulsionado e moldado pelas novas tecnologias, a financeiriza\u00e7\u00e3o da acumula\u00e7\u00e3o e as reformas e pol\u00edticas neoliberais, revolucionou o modo de produzir e consumir, reconfigurou o trabalho e as classes sociais, impondo uma nova racionalidade em todas as esferas da vida social \u2013 que tem como centro e guia a competi\u00e7\u00e3o e o individualismo.<\/p>\n<p>Essa \u201cgrande transforma\u00e7\u00e3o\u201d estrutural, entendida como a derradeira mundializa\u00e7\u00e3o do capital e que vem ocorrendo desde os \u00faltimos quarenta anos, implicou, tanto no centro quanto na periferia do sistema capitalista, em maior concentra\u00e7\u00e3o de renda e da propriedade, aumento do desemprego estrutural e difus\u00e3o da precariza\u00e7\u00e3o do trabalho, crescimento da pobreza absoluta e relativa, desenraizamento social e grandes movimentos migrat\u00f3rios. Como consequ\u00eancia generalizou-se, em todas as sociedades, a volatilidade, instabilidade, incerteza e crises econ\u00f4micas \u2013 que levaram a sentimentos de inseguran\u00e7a, raiva e o \u00f3dio difuso, fobias de todos os tipos, ressentimentos com rela\u00e7\u00e3o a algum ou alguns \u201coutros\u201d.<\/p>\n<p>Como j\u00e1 evidenciado por outros per\u00edodos da hist\u00f3ria mundial, esse \u00e9 o tipo de ambiente econ\u00f4mico-social e pol\u00edtico no qual vicejam, prosperam e s\u00e3o difundidas as mais variadas formas e express\u00f5es de ideologias, movimentos, governos e l\u00edderes pol\u00edticos de extrema direita: pertencentes, ou n\u00e3o, \u00e0 grande fam\u00edlia do fascismo.<\/p>\n<p>O fen\u00f4meno contempor\u00e2neo mundial que ora se vive, embora n\u00e3o seja c\u00f3pia do chamado fascismo hist\u00f3rico (It\u00e1lia e Alemanha), tem fortes caracter\u00edsticas dessa grande fam\u00edlia; da\u00ed sua denomina\u00e7\u00e3o de neofascismo. Entre outras:<\/p>\n<p>1- o apelo ao autoritarismo e contra o \u201csistema\u201d e o Estado de Direito;<\/p>\n<p>2- o uso da legalidade democr\u00e1tica e de suas institui\u00e7\u00f5es para constitui\u00e7\u00e3o de um Estado de Exce\u00e7\u00e3o, por dentro da ordem democr\u00e1tica;<\/p>\n<p>3- o ataque raivoso a todas as tend\u00eancias de esquerda (comunistas, socialistas e socialdemocratas);<\/p>\n<p>4- a defesa do nacionalismo (real ou apenas ret\u00f3rico) xen\u00f3fobo, com a nega\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia de classes e conflitos de classe no interior da na\u00e7\u00e3o;<\/p>\n<p>5- a desqualifica\u00e7\u00e3o e, no limite, destrui\u00e7\u00e3o das organiza\u00e7\u00f5es dos trabalhadores (Partidos, sindicatos, associa\u00e7\u00f5es etc.);<\/p>\n<p>6- a escolha de algum \u201coutro\u201d como causador e bode expiat\u00f3rio de todos os males, fobias e ressentimentos;<\/p>\n<p>7- o exerc\u00edcio de uma \u201cguerra cultural-ideol\u00f3gica\u201d permanente, na qual se destaca a ado\u00e7\u00e3o de narrativas e explica\u00e7\u00f5es de car\u00e1ter m\u00edstico-religioso e de natureza anti-intelectual, uma esp\u00e9cie de anti-iluminismo que agride a raz\u00e3o, e que procura desacreditar o conhecimento cient\u00edfico, hist\u00f3rico e cultural acumulados durante mais de cinco s\u00e9culos, desde a \u00e9poca do \u201cRenascimento\u201d.<\/p>\n<p>8- a explora\u00e7\u00e3o das emo\u00e7\u00f5es e afetos regressivos, com o est\u00edmulo e uso da viol\u00eancia, brutalidade e grosseria;<\/p>\n<p>9- e, por fim, como instrumento de difus\u00e3o e implementa\u00e7\u00e3o deste \u201cprograma\u201d, a mobiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de massa, com a constitui\u00e7\u00e3o de um movimento ativo, agressivo e, no limite, violento.<\/p>\n<p>Essas caracter\u00edsticas s\u00e3o comuns a todas as formas de neofascismo que se manifestam concretamente hoje nos mais diversos pa\u00edses, quer estejam ainda apenas na forma de movimentos quer j\u00e1 tenham alcan\u00e7ado a posi\u00e7\u00e3o de governo ou, em alguns casos, tenham se constitu\u00eddo em regimes neofascistas.<\/p>\n<p>No entanto, como j\u00e1 dito no in\u00edcio, o Neofascismo contempor\u00e2neo \u00e9 um produto pol\u00edtico das consequ\u00eancias econ\u00f4mico-sociais da forma de funcionamento do<\/p>\n<p>\u201ccapitalismo flex\u00edvel\u201d, mundializado, financeirizado e neoliberal. Portanto, est\u00e1-se diante de um \u201cneofascismo neoliberal\u201d: uma esp\u00e9cie de combina\u00e7\u00e3o aparentemente bizarra de nacionalismo xen\u00f3fobo com neoliberalismo. Mas, ao mesmo tempo, o Estado de Exce\u00e7\u00e3o acompanhado, ou n\u00e3o, de um movimento\/regime neofascista parece ser, cada vez mais, a forma pol\u00edtica mais adequada ao capitalismo neoliberal \u2013 tendo em vista a incapacidade estrutural deste em incorporar os interesses dos \u201cde baixo\u201d.<\/p>\n<p>Em suma o Estado de Exce\u00e7\u00e3o (de natureza neofascista ou n\u00e3o) \u00e9 a resposta que decorre do conflito, cada vez mais agudo, entre capitalismo e democracia, ao mesmo tempo em que expressa a crise do Estado nacional colocado em \u201cxeque\u201d pela mundializa\u00e7\u00e3o do capital. Por isso, e diferentemente do fascismo hist\u00f3rico, o Neofascismo contempor\u00e2neo, de bra\u00e7os dados com o neoliberalismo, n\u00e3o consegue mobilizar o Estado como condutor de um projeto nacional totalizante, que incorpore as distintas esferas constitutivas da sociedade: econ\u00f4mica, social, pol\u00edtica e cultural.<\/p>\n<p>Neofascismo no Brasil<\/p>\n<p>No caso do Brasil, o \u201cbolsonarismo\u201d \u00e9 um \u201cmovimento neofascista\u201d efetivamente constitu\u00eddo, pol\u00edtica e ideologicamente mobilizador, tendo ra\u00edzes em certos segmentos e fra\u00e7\u00f5es de classe da sociedade brasileira \u2013 embora aparente ser inorg\u00e2nico, em virtude da inexist\u00eancia, ainda, de um Partido pol\u00edtico que unifique, organize, discipline e represente os seus v\u00e1rios grupos e tend\u00eancias. Esse papel vem sendo cumprido, at\u00e9 aqui, pelas redes sociais e a denominada guerra h\u00edbrida, com o uso de algor\u00edtmicos e rob\u00f4s que constituem as mil\u00edcias digitais bolsonaristas e que alcan\u00e7am seus correligion\u00e1rios, efetivos e potenciais, individualmente, na solid\u00e3o de seus equipamentos digitais. Essa \u00e9 uma diferen\u00e7a fundamental de alguns neofascismos contempor\u00e2neos, inclusive o bolsonarismo, em rela\u00e7\u00e3o ao \u201cfascismo hist\u00f3rico\u201d ocorrido na Alemanha e It\u00e1lia na primeira metade do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>Esse movimento se faz presente no \u00e2mbito da sociedade civil e no interior do aparelho de Estado, em especial parcelas do Poder Judici\u00e1rio e do Minist\u00e9rio P\u00fablico; cuja express\u00e3o maior \u00e9 a chamada \u201cRep\u00fablica de Curitiba\u201d. Tem participa\u00e7\u00e3o ativa de v\u00e1rios segmentos da \u201cclasse m\u00e9dia\u201d, em especial a sua parcela propriet\u00e1ria e \u201caut\u00f4noma\u201d, e do grande empresariado (identificado ideologicamente ou por oportunismo). Al\u00e9m disso, conta com a milit\u00e2ncia das Igrejas Evang\u00e9licas, principalmente as suas denomina\u00e7\u00f5es Neopentecostais, caracterizadas por uma leitura fundamentalista da B\u00edblia e praticantes da Teologia da Prosperidade (\u00e9 dando que se recebe) \u2013 justificadoras da meritocracia e do empreendedorismo.<\/p>\n<p>Desse modo, podem ser identificados no movimento neofascista brasileiro tr\u00eas n\u00facleos (todos eles representados no Governo Bolsonaro) que atuam de forma relativamente independente, mas que convergem, podendo vir a se constituir na base de um futuro Partido Neofascista: 1- as mil\u00edcias digitais presentes nas redes sociais e que constituem o n\u00facleo original e central do bolsonarismo; 2- as Igrejas Evang\u00e9licas, pol\u00edtico-ideologicamente neoliberais e reacion\u00e1rias na cultura, na moral e nos costumes; 3- a Lava jato, entendida no seu sentido amplo, pol\u00edtico, que agrega segmentos do Judici\u00e1rio, inclusive membros do STF e do Minist\u00e9rio P\u00fablico, e a Pol\u00edcia Federal. Pairando sobre todos eles, encontram-se Institui\u00e7\u00f5es privadas de extrema direita (algumas financiadas pelo imperialismo), grupos de empres\u00e1rios e organiza\u00e7\u00f5es empresariais do grande capital (de diversos setores) com uma agenda neoliberal extremada e fundamentalista.<\/p>\n<p>Cada um desses n\u00facleos atua, principalmente, em um \u00e2mbito espec\u00edfico, cumprindo pap\u00e9is distintos, mas complementares:<\/p>\n<p>1- As mil\u00edcias digitais, apoiadas em algor\u00edtmicos e rob\u00f4s, inundam as redes sociais de propaganda, palavras de ordem, fake news e ataques aos \u201cinimigos\u201d e \u00e0s Institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas (com o intuito de desmoraliz\u00e1-las) e, no limite, convocam e mobilizam para a\u00e7\u00f5es e atos no \u201cmundo real\u201d. Elas atingem o indiv\u00edduo em sua solid\u00e3o e de acordo com seus valores e pr\u00e9-conceitos (com a constru\u00e7\u00e3o de \u201cperfis\u201d pol\u00edtico-econ\u00f4micos, possibilitados pelo atual capitalismo de vigil\u00e2ncia).<\/p>\n<p>2- As Igrejas Evang\u00e9licas trabalham direta e diariamente as classes populares, explorando politicamente a f\u00e9 de seus crentes, redirecionando-os (reafirmando) para valores e causas reacion\u00e1rios. Travam uma permanente guerra cultural-ideol\u00f3gica, criando uma forte identidade de seita. Junto com tr\u00e1fico de drogas, elas passaram a ocupar o espa\u00e7o que era anteriormente da esquerda da Igreja Cat\u00f3lica (a Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o) e do Partido dos Trabalhadores. A primeira esmagada pelo Vaticano de Jo\u00e3o Paulo II e Bento XVI; e o segundo abandonando voluntariamente o trabalho pol\u00edtico na periferia. Al\u00e9m disso, as Igrejas Evang\u00e9licas se fazem presentes na pol\u00edtica institucional (no Congresso Nacional e em algumas prefeituras), constituindo-se em uma bancada parlamentar que d\u00e1 apoio \u00e0 aprova\u00e7\u00e3o de leis e decretos reacion\u00e1rios e antipopulares.<\/p>\n<p>3- A Lava Jato cumpre um papel pol\u00edtico-ideol\u00f3gico fundamental para a difus\u00e3o e defesa do neofascismo, em virtude do \u00e2mbito privilegiado no qual atua: o poder judici\u00e1rio, o minist\u00e9rio p\u00fablico e os \u00f3rg\u00e3os de repress\u00e3o. Tem o potencial de atacar (acusar, reprimir, julgar e condenar) os inimigos do neofascismo e, ao mesmo tempo, dar cobertura \u201clegal\u201d \u00e0s a\u00e7\u00f5es do movimento neofascista \u2013 contribuindo fortemente para a instaura\u00e7\u00e3o de um Estado de Exce\u00e7\u00e3o. Esse n\u00facleo \u00e9 fundamental; sem ele o movimento neofascista n\u00e3o conseguir\u00e1 implantar um Estado (Regime) Exce\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por fim, o bolsonarismo, como todo neofascismo na periferia do capitalismo, s\u00f3 \u00e9 nacionalista retoricamente; a condi\u00e7\u00e3o dependente das burguesias perif\u00e9ricas n\u00e3o levou \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o de na\u00e7\u00f5es completas, os seus interesses estiveram<\/p>\n<p>historicamente, desde sempre, articulados de forma subalterna aos interesses do imperialismo em suas distintas fases. O papel do falso nacionalismo no Neofascismo Neoliberal Perif\u00e9rico tem por objetivo pol\u00edtico-ideol\u00f3gico negar a exist\u00eancia de classes sociais e seus distintos interesses, sobretudo desconstruindo a possibilidade de uma identidade pol\u00edtica pr\u00f3pria das classes trabalhadoras. Em s\u00edntese, a dimens\u00e3o nacional substitui e apaga a dimens\u00e3o social, inclusive deslegitimando distin\u00e7\u00f5es \u00e9tnicas, de g\u00eanero e de orienta\u00e7\u00e3o sexual.<\/p>\n<p>Finalmente, \u00e9 importante anotar que o Governo Bolsonaro \u00e9 um governo neoliberal de extrema direita, mas n\u00e3o se constitui ainda em um regime neofascista, por pelo menos duas raz\u00f5es: 1- A corrente bolsonarista divide espa\u00e7os e iniciativas com a extrema direita tradicional (n\u00e3o fascista) de origem militar; apesar de ambas serem neoliberais, h\u00e1 importantes contradi\u00e7\u00f5es entre elas na forma de implementa\u00e7\u00e3o dos interesses do grande capital e de travar a luta pol\u00edtico-ideol\u00f3gica com a esquerda. Da\u00ed as tens\u00f5es permanentes entre ambas, que se expressam na desorganiza\u00e7\u00e3o, no funcionamento e no discurso ca\u00f3tico desse governo. 2- As institui\u00e7\u00f5es do Estado n\u00e3o foram ainda apropriadas pelo bolsonarismo; h\u00e1 resist\u00eancia no Judici\u00e1rio, no Minist\u00e9rio P\u00fablico e nos diversos \u00f3rg\u00e3os do Poder Executivo. Al\u00e9m disso, h\u00e1 a presen\u00e7a de movimentos sociais organizados e forte oposi\u00e7\u00e3o nas Universidades e nas escolas, assim como no Parlamento.<\/p>\n<p>Em suma, este \u00e9 um processo em andamento, que depender\u00e1 muito da resili\u00eancia das institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas da sociedade brasileira e, principalmente, da capacidade das for\u00e7as democr\u00e1ticas se unirem em torno de um programa m\u00ednimo de a\u00e7\u00e3o contra a extrema direita em geral, e o neofascismo\/bolsonarismo em particular. \u00c9 sempre bom lembrar, que foi essa incapacidade na Alemanha e na It\u00e1lia, da primeira metade do s\u00e9culo XX, que abriu as portas para a ascens\u00e3o e consolida\u00e7\u00e3o do nazismo e do fascismo nesses pa\u00edses.<\/p>\n<p>Burguesia e Neofascismo<\/p>\n<p>O ponto de partida para se compreender a rela\u00e7\u00e3o entre burguesia e neofascismo no Brasil \u00e9 o reconhecimento de que a burguesia brasileira n\u00e3o \u00e9 uma classe homog\u00eanea; ela \u00e9 constitu\u00edda por distintas fra\u00e7\u00f5es, segundo o recorte que se privilegie: pequena, m\u00e9dia e grande burguesia; burguesia agr\u00e1ria, industrial, comercial, de servi\u00e7os, financeira ou mesmo multisetorial; burguesia exportadora e de mercado interno; e, o corte mais significativo e que nos interessa mais diretamente para o que se quer discutir aqui, qual seja, burguesia cosmopolita e burguesia interna.<\/p>\n<p>A grande burguesia interna, conceito cunhado por Nicolas Poulantzas (1974; 1977), n\u00e3o \u00e9 sin\u00f4nimo de burguesia nacional; diferentemente desta \u00faltima, que j\u00e1 n\u00e3o existe no Brasil h\u00e1 d\u00e9cadas, n\u00e3o possui contradi\u00e7\u00f5es incontorn\u00e1veis com os capitais estrangeiros e o imperialismo, n\u00e3o \u00e9 nacionalista; mas possui um espa\u00e7o pr\u00f3prio de reprodu\u00e7\u00e3o do capital que n\u00e3o passa necessariamente pela alian\u00e7a com estes \u00faltimos \u2013 portanto, diferencia-se tamb\u00e9m da burguesia cosmopolita associada, pol\u00edtica e objetivamente, ao imperialismo. Essa fra\u00e7\u00e3o da burguesia brasileira est\u00e1 presente, e pode ser identificada, em v\u00e1rios ramos da ind\u00fastria de transforma\u00e7\u00e3o (t\u00eaxtil, alimentos, bebidas, bens de capital, entre outros), na cadeia produtiva do petr\u00f3leo, na constru\u00e7\u00e3o civil pesada, na produ\u00e7\u00e3o de commodities agr\u00edcolas e minerais, em segmentos do grande com\u00e9rcio varejista e do agroneg\u00f3cio.<\/p>\n<p>A fra\u00e7\u00e3o da burguesia cosmopolita, associada pol\u00edtica e objetivamente ao imperialismo, tem presen\u00e7a e pode ser reconhecida no Brasil, principalmente, nos seguintes setores: atividades e mercados financeiros (bancos, fundos de investimento e de pens\u00e3o, empresas de consultoria e assessoria financeira, seguradoras, corretoras, planos de sa\u00fade); empresas brasileiras fornecedoras e prestadoras de servi\u00e7os, articuladas ou associadas \u00e0s multinacionais em v\u00e1rios tipos de neg\u00f3cio; alta ger\u00eancia das empresas multinacionais na ind\u00fastria e no agroneg\u00f3cio; grandes grupos de marketing e comunica\u00e7\u00e3o; grandes escrit\u00f3rios de advocacia e auditoria; e, mais recentemente, grandes universidades privadas, muitas delas j\u00e1 de propriedade do capital estrangeiro.<\/p>\n<p>Desde o in\u00edcio dos anos 1990, a disputa entre essas duas fra\u00e7\u00f5es da burguesia se expressou nos sucessivos governos que passaram pelo pa\u00eds e nas suas pol\u00edticas econ\u00f4micas. Esse conflito se explicitou de forma mais aguda com a ascens\u00e3o dos governos do PT, cujo projeto \u201cneodesenvolvimentista\u201d, e suas pol\u00edticas, privilegiaram os interesses da grande burguesia interna, financiando a centraliza\u00e7\u00e3o de seus capitais e internacionalizando grandes grupos econ\u00f4micos nacionais dessa fra\u00e7\u00e3o. Isto se fez atrav\u00e9s do uso dos bancos p\u00fablicos (BNDES, Banco do Brasil, Caixa Econ\u00f4mica Federal), da Petrobr\u00e1s como centro da constru\u00e7\u00e3o da cadeia produtiva do petr\u00f3leo, da pol\u00edtica de fortalecimento do mercado interno (cr\u00e9dito, aumento real do sal\u00e1rio m\u00ednimo, Bolsa-Fam\u00edlia e Previd\u00eancia Social), e da pol\u00edtica externa com \u00eanfase na Am\u00e9rica Latina e \u00c1frica.<\/p>\n<p>Apesar desses governos n\u00e3o baterem de frente com a burguesia cosmopolita, e esta n\u00e3o ter deixado de ganhar no per\u00edodo, ela foi deslocada de sua hegemonia (tal como exercida nos governos de FHC) no interior do bloco no poder que ocupa o Estado brasileiro. V\u00e1rios projetos do capital financeiro foram contrariados e adiados, ao mesmo tempo em que segmentos populares importantes passaram a ter protagonismo pol\u00edtico-social no interior do projeto \u201cneodesenvolvimentista\u201d. Em particular a descoberta e a forma estabelecida para a explora\u00e7\u00e3o do pr\u00e9-sal contrariou profundamente o imperialismo, parceiro fundamental da burguesia cosmopolita.<\/p>\n<p>A partir da piora do cen\u00e1rio internacional, com a crise de 2008, o projeto \u201cneodesenvolvimentista\u201d passou a ter dificuldades em sua implementa\u00e7\u00e3o; a desacelera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica ficou evidente a partir do primeiro Governo Dilma e, refor\u00e7ada por pol\u00edticas econ\u00f4micas equivocadas nesse per\u00edodo (desonera\u00e7\u00f5es fiscais) e pelo ajuste fiscal no in\u00edcio do segundo governo, transformou-se em uma recess\u00e3o econ\u00f4mica, que se aprofundou no Governo Temer. Nesse novo contexto interno e internacional a burguesia cosmopolita e o imperialismo recuperaram o protagonismo pol\u00edtico e voltaram \u00e0 carga, patrocinando, incentivando e redirecionando as manifesta\u00e7\u00f5es populares de 2013 (originalmente pela conten\u00e7\u00e3o dos reajustes das tarifas do transporte p\u00fablico) contra o Governo Dilma e o PT, tendo como mote central a den\u00fancia da exist\u00eancia de corrup\u00e7\u00e3o generalizada nas obras da Copa do Mundo e das Olimp\u00edadas.<\/p>\n<p>Nesse momento nasceu o processo que levou ao golpe de 2016 e, ao mesmo tempo, come\u00e7ou a se constituir o movimento neofascista no Brasil. Ap\u00f3s o golpe, o programa pol\u00edtico-econ\u00f4mico da burguesia cosmopolita e do imperialismo voltou \u00e0 ordem do dia, sendo implementado com uma rapidez impressionante: desestrutura\u00e7\u00e3o da cadeia produtiva do petr\u00f3leo e da pol\u00edtica de conte\u00fado nacional, redefini\u00e7\u00e3o na forma de explora\u00e7\u00e3o do pr\u00e9-sal com a entrega de grande parte dessa riqueza \u00e0s corpora\u00e7\u00f5es multinacionais, aprova\u00e7\u00e3o de um ajuste fiscal permanente (por vinte anos) e de uma reforma trabalhista absurdamente regressiva e precarizante das rela\u00e7\u00f5es de trabalho.<\/p>\n<p>Nesse processo do golpe, a desmoraliza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica e dos pol\u00edticos foi pe\u00e7a central no carro-chefe da corrup\u00e7\u00e3o, tendo na Lava Jato, no Mist\u00e9rio P\u00fablico, na Pol\u00edcia Federal e no Judici\u00e1rio, al\u00e9m da m\u00eddia corporativa, seus instrumentos fundamentais. Ap\u00f3s atingir o PT e os partidos da base aliada de seus governos, foram atingidos quase todos os partidos, em especial o PSDB e o DEM. Todo o sistema pol\u00edtico foi posto em quest\u00e3o, abrindo as portas, como sempre acontece nessas situa\u00e7\u00f5es, a algum outsider (verdadeiro ou falso, n\u00e3o interessa) e aos oportunistas de todos os tipos. Nesse contexto, e empurrado pelo movimento neofascista em crescimento, Bolsonaro encarnou (falsamente) o antissistema e, em particular, o antipetismo (de fato) e ocupou o espa\u00e7o da anti-pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Esse resultado inesperado do golpe, para a burguesia, foi por ela absorvido pragmaticamente, que colocou, no final das contas, todas as suas fichas na elei\u00e7\u00e3o de Bolsonaro \u2013 calculando que, uma vez eleito, poderia enquadr\u00e1-lo e utiliz\u00e1-lo sem maiores dificuldades para continuar implementando o seu projeto, em especial a Reforma da Previd\u00eancia. O problema \u00e9 que ela n\u00e3o \u201ccombinou com os russos\u201d: o movimento neofascista e a fam\u00edlia de milicianos n\u00e3o s\u00e3o enquadr\u00e1veis, t\u00eam objetivos, din\u00e2mica e modus operandi pr\u00f3prios.<\/p>\n<p>Os cinco primeiros meses de um governo h\u00edbrido \u2013 no qual convivem conflituosamente uma extrema direita neofascista, uma extrema direita tradicional (militar) e uma extrema direita neoliberal \u2013 mostraram a sua inviabilidade em geral e, em particular, cada vez mais, a sua incapacidade para tocar os interesses da burguesia cosmopolita e do imperialismo: disputas internas grotescas e trapalhadas de todos os tipos se acumularam e, agora, com a agress\u00e3o \u00e0s universidades e \u00e0 educa\u00e7\u00e3o em geral, despertou definitivamente as ruas e o movimento social.<\/p>\n<p>No momento atual, diversos interesses, acontecimentos e circunst\u00e2ncias est\u00e3o convergindo fortemente contra o Governo Bolsonaro, fragilizando-o de tal forma que a possibilidade de um novo impeachment voltou \u00e0 cena pol\u00edtica: a volta do movimento social e das ruas; a investiga\u00e7\u00e3o de Fl\u00e1vio Bolsonaro, Queir\u00f3z e de mais 80 pessoas a eles relacionadas; a dificuldade da tramita\u00e7\u00e3o da Reforma da Previd\u00eancia no Congresso Nacional; a desmoraliza\u00e7\u00e3o de Bolsonaro e de seu governo no plano internacional; a desilus\u00e3o evidente de seus eleitores e at\u00e9 mesmo de muitos de seus seguidores neofascistas; as v\u00e1rias derrotas que vem sofrendo no Parlamento e as in\u00fameras a\u00e7\u00f5es endere\u00e7adas ao STF contra as suas medidas. Nesse contexto, como ficam a burguesia cosmopolita e o imperialismo, a esquerda e os movimentos sociais, a classe m\u00e9dia e o movimento neofascista?<\/p>\n<p>A Conjuntura Imediata<\/p>\n<p>Existem alguns fatos, uns imediatos outros nem tanto, que anunciam, e apontam, para uma inflex\u00e3o significativa da conjuntura pol\u00edtica, quais sejam:<\/p>\n<p>1- O deslocamento da disputa pol\u00edtica no interior do Governo Bolsonaro, que o vem marcando desde o in\u00edcio, entre a extrema direita neofascista e a extrema direita militar, em dire\u00e7\u00e3o ao confronto direto e nas ruas entre, de um lado, o movimento social e as for\u00e7as democr\u00e1ticas e, de outro, o Governo Bolsonaro com suas a\u00e7\u00f5es tresloucadas. Essa disputa, detonada a partir da quest\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o, objeto de ataques do movimento neofascista e de Bolsonaro antes mesmo do in\u00edcio do governo (\u201cEscola Sem Partido\u201d), transbordou, como se viu nas grandes manifesta\u00e7\u00f5es de 15 de maio, para a luta contra a Reforma da Previd\u00eancia e, indo mais longe, colocou em quest\u00e3o o Governo Bolsonaro e suas a\u00e7\u00f5es como um todo. Da\u00ed o centro dos protestos ter sido Bolsonaro e o seu governo, e n\u00e3o o MEC e o seu ministro, sintetizado sem eufemismo nas palavras de ordem, faixas e cartazes, como \u201cBolsonaro inimigo da educa\u00e7\u00e3o\u201d e \u201cFora Bolsonaro\u201d.<\/p>\n<p>2- A investiga\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia Bolsonaro, e suas liga\u00e7\u00f5es com o crime organizado (as mil\u00edcias) no Rio de Janeiro, acionada pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico e o Judici\u00e1rio, atrav\u00e9s da quebra do sigilo banc\u00e1rio de Fl\u00e1vio Bolsonaro, Queir\u00f3z e mais 80 pessoas ligadas direta ou indiretamente a um grande esquema pol\u00edtico corrupto que articula o crime organizado e o Parlamento. E sintomaticamente, mais uma vez, com sucessivos vazamentos do conte\u00fado da investiga\u00e7\u00e3o (peculato, lavagem de dinheiro e organiza\u00e7\u00e3o criminosa) para os \u00f3rg\u00e3os de imprensa.<\/p>\n<p>3- Na esfera econ\u00f4mica, a informa\u00e7\u00e3o de que o PIB no primeiro trimestre recuou evidenciou o que j\u00e1 se sabia intuitivamente: a estagna\u00e7\u00e3o da economia brasileira, com quase 13 milh\u00f5es de desempregados (taxa de desemprego de 12,7%), \u00e9 um fato. A completa inexist\u00eancia de qualquer pol\u00edtica econ\u00f4mica por parte do Governo tornou-se escandalosa e o chav\u00e3o de que a solu\u00e7\u00e3o para retomar o crescimento \u00e9 a Reforma da Previd\u00eancia n\u00e3o \u201ccola\u201d: efeitos positivos ou negativos que da\u00ed possam advir n\u00e3o ter\u00e3o qualquer influ\u00eancia na situa\u00e7\u00e3o presente, e nem mesmo no curto e m\u00e9dio prazo futuro. Para piorar, a infla\u00e7\u00e3o d\u00e1 sinais de crescimento.<\/p>\n<p>4- A informa\u00e7\u00e3o de que o chamado \u201ccentr\u00e3o\u201d estaria articulando a substitui\u00e7\u00e3o da Reforma da Previd\u00eancia de Paulo Guedes pela proposta anterior, do Governo Temer, evidencia a enorme dificuldade do Governo Bolsonaro em acelerar e aprovar essa Reforma. Some-se a isso a derrota de Moro, que viu o COAF ser retirado de seu Minist\u00e9rio e ser devolvido ao Minist\u00e9rio da Economia; al\u00e9m da enorme dificuldade dos parlamentares aceitarem o seu \u201cpacote anticrime\u201d encaminhado ao Congresso.<\/p>\n<p>5- O isolamento pol\u00edtico do Governo Bolsonaro no plano internacional, em diversos \u00f3rg\u00e3os e acordos multilaterais, com cr\u00edticas duras de revistas, jornais e demais ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o expressivos das mais distintas correntes de pensamento. Al\u00e9m disso, os atritos provocados com a China e os pa\u00edses \u00e1rabes anunciam consequ\u00eancias desastrosas, do ponto de vista econ\u00f4mico, para setores importantes do agroneg\u00f3cio brasileiro.<\/p>\n<p>6- Crise, disputas e confus\u00e3o no PSL, suposto partido do governo, com v\u00e1rios de seus parlamentares criticando Bolsonaro e seu governo; al\u00e9m do desembarque de personalidades \u201cfamosas\u201d (pol\u00edticos, artistas e jornalistas principalmente) que fizeram parte ou apoiaram o bolsonarismo em sua primeira hora. Tudo isso acompanhado de coment\u00e1rios no interior do Congresso Nacional e em grupos de redes sociais aventando a possibilidade de Bolsonaro n\u00e3o terminar o seu mandato.<\/p>\n<p>7- Converg\u00eancia da m\u00eddia corporativa, associada ao golpe de 2016 e \u00e0 elei\u00e7\u00e3o de Bolsonaro, nas cr\u00edticas pessoais a Bolsonaro e ao seu desgoverno (inclusive em editoriais); com v\u00e1rios de seus colunistas tamb\u00e9m colocando a possibilidade de impeachment e a dificuldade cada vez maior de se conseguir passar a Reforma da Previd\u00eancia.<\/p>\n<p>Por fim, e para fechar o clima de final de festa, a divulga\u00e7\u00e3o por parte de Bolsonaro de uma carta escrita por um an\u00f4nimo (depois, soube-se que \u00e9 um ex-candidato a vereador derrotado, integrante do Partido Novo), na qual se subtende duas possibilidades para Bolsonaro e o seu governo: 1- um golpe de Estado, com o fechamento do Congresso, do STF e outras Institui\u00e7\u00f5es do Estado de Direito, e a instala\u00e7\u00e3o de uma ditadura; ou 2- a ren\u00fancia de Bolsonaro, com a justificativa que o pa\u00eds \u00e9 ingovern\u00e1vel, pois h\u00e1 in\u00fameros inimigos que n\u00e3o deixariam o Presidente governar.<\/p>\n<p>Diante desse cen\u00e1rio, como est\u00e3o se movimentando as distintas classes sociais e suas fra\u00e7\u00f5es; quais as alternativas colocadas para elas? E, o mais importante, e tendo em vista a compreens\u00e3o do significado dessa nova conjuntura, como devem atuar as for\u00e7as democr\u00e1ticas, os movimentos sociais e os Partidos de oposi\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Iniciando-se pela burguesia, em especial a sua fra\u00e7\u00e3o cosmopolita, fica cada vez mais claro a sua dificuldade em marchar com Bolsonaro; o seu principal interesse nesse momento, a Reforma da Previd\u00eancia, corre s\u00e9rio risco de ser fortemente \u201cdesidratada\u201d ou mesmo ser substitu\u00edda por outra proposta. A sua expectativa e c\u00e1lculo de que poderia se utilizar de Bolsonaro, enquadrando-o dentro de limites aceit\u00e1veis, n\u00e3o se confirmou; as rea\u00e7\u00f5es protagonizadas pelo mercado financeiro (a sua cara mais vis\u00edvel) evidencia uma grande instabilidade, com quedas sucessivas da Bolsa e valoriza\u00e7\u00e3o do d\u00f3lar, vocalizadas fortemente pela m\u00eddia corporativa. Vai ficando claro que Bolsonaro, a esta altura, mais atrapalha do que ajuda na implementa\u00e7\u00e3o da agenda das classes dominantes; por isso, conseguir se desvencilhar dele seria um grande al\u00edvio. Em princ\u00edpio, com o vice assumindo (que j\u00e1 demonstrou a sua total ades\u00e3o ao projeto neoliberal de extrema direita) as coisas poderiam se tornar mais tranquilas para burguesia.<\/p>\n<p>Mas como faz\u00ea-lo, sem interromper a tramita\u00e7\u00e3o da Reforma da Previd\u00eancia e sem refor\u00e7ar o campo pol\u00edtico democr\u00e1tico-popular e de esquerda? O melhor dos mundos para a burguesia, o menos traum\u00e1tico, seria a ren\u00fancia de Bolsonaro (que poderia ser for\u00e7ada nos bastidores, atrav\u00e9s da amea\u00e7a da pris\u00e3o de toda a fam\u00edlia, que decorreria da evolu\u00e7\u00e3o correta da investiga\u00e7\u00e3o disparada pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico contra um dos filhos e outros parentes). Nessa hip\u00f3tese, assumiria imediatamente o vice Mour\u00e3o (com uma reforma ministerial radical) e tudo o mais, em especial a Reforma da Previd\u00eancia, continuaria a tramitar normalmente no Congresso Nacional. Essa situa\u00e7\u00e3o caracterizaria a continua\u00e7\u00e3o do Golpe de 2016 e seria uma boia de salva\u00e7\u00e3o para Bolsonaro e a extrema direita.<\/p>\n<p>A alternativa, o impeachment, \u00e9 mais complicada porque, al\u00e9m de paralisar a agenda parlamentar, refor\u00e7aria o movimento das ruas j\u00e1 em andamento e fortaleceria o campo pol\u00edtico democr\u00e1tico-popular (a depender de como este se comportar), podendo desembocar em novas elei\u00e7\u00f5es. Esse \u00e9 um risco tamb\u00e9m presente na hip\u00f3tese da ren\u00fancia. A hip\u00f3tese do impeachment, se prevalecer, significar\u00e1 uma derrota monumental do movimento e da extrema direita neofascista no pa\u00eds.<\/p>\n<p>J\u00e1 no extremo pol\u00edtico oposto, o movimento democr\u00e1tico-popular e a esquerda, finalmente, e atrav\u00e9s das ruas, conseguiram trazer o Governo Bolsonaro e o movimento neofascista para o confronto direto; desmoralizando-os e evidenciando a sua completa incapacidade de dirigir os rumos do pa\u00eds. Conseguiram trazer para o centro da luta e dos protestos n\u00e3o apenas a educa\u00e7\u00e3o e a Reforma da Previd\u00eancia, mas o pr\u00f3prio Governo Bolsonaro no seu todo, expresso na palavra de ordem \u201cFora Bolsonaro\u201d. Mas como j\u00e1 visto anteriormente, essa \u00e9 uma perspectiva que est\u00e1 se espalhando para o conjunto da sociedade, inclusive no interior da burguesia. Como ent\u00e3o se posicionar sobre o impeachment, tendo em vista que esse tamb\u00e9m poder\u00e1 ser um caminho a ser perseguido pela burguesia \u2013 que conforme vimos, apostaria num governo (Mour\u00e3o-Maia) mais consistente e menos tumultuado para tocar os seus interesses?<\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o complicada para o movimento democr\u00e1tico-popular e a esquerda, mas n\u00e3o nos parece que haja uma alternativa: a prioridade hoje \u00e9 derrotar o movimento neofascista e parar Bolsonaro. O conjunto de sua obra at\u00e9 aqui, e o que mais poder\u00e1 vir adiante, \u00e9 um processo de destrui\u00e7\u00e3o de tudo que funciona no pa\u00eds: a Petrobr\u00e1s e o pr\u00e9-sal, os bancos p\u00fablicos, a Previd\u00eancia Social solid\u00e1ria, o IBGE, as universidades e a educa\u00e7\u00e3o em geral (cortes de verbas e monitoramento de suas dire\u00e7\u00f5es), a<\/p>\n<p>diferen\u00e7as, a pol\u00edtica ambiental etc. Ele e seu governo s\u00e3o diferentes de tudo que j\u00e1 se viu no pa\u00eds e j\u00e1 deram raz\u00f5es e motivos de sobra para ca\u00edrem; o impeachment de Bolsonaro n\u00e3o \u00e9 um golpe, \u00e9 uma imposi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica para se come\u00e7ar a reconstru\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. Essa \u00e9 uma tarefa inadi\u00e1vel e n\u00e3o depende da burguesia vir assumi-la ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>O movimento democr\u00e1tico-popular n\u00e3o pode abrir m\u00e3o de tentar ser o protagonista maior na execu\u00e7\u00e3o dessa tarefa, n\u00e3o pode assistir o processo de camarote, deixando a sua condu\u00e7\u00e3o nas m\u00e3os da burguesia se esta vier a se engajar. Vai defender a legitimidade de Bolsonaro porque ele foi eleito pelo voto, porque est\u00e1 com receio das consequ\u00eancias do impeachment e das dificuldades futuras para travar a luta pol\u00edtica contra a burguesia? Nunca \u00e9 demais lembrar que o a tradi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica fascista \u00e9 de se utilizar das institui\u00e7\u00f5es e mecanismos democr\u00e1ticos para acender ao poder e, depois, perpetrar um golpe contra o Estado de Direito e implantar uma ditadura.<\/p>\n<p>Se, de fato, houver ren\u00fancia, a mobiliza\u00e7\u00e3o popular tem que se aprofundar e radicalizar contra a Reforma da Previd\u00eancia e exigir novas elei\u00e7\u00f5es. Mour\u00e3o, tal como Temer, tamb\u00e9m n\u00e3o foi eleito e \u00e9 um \u201cpato manco\u201d pior do que Temer. Al\u00e9m disso, a atua\u00e7\u00e3o competente no Parlamento, como est\u00e1 sendo feita por alguns parlamentares da oposi\u00e7\u00e3o, \u00e9 fundamental. Em suma, a derrubada de Bolsonaro ser\u00e1 uma grande vit\u00f3ria do movimento democr\u00e1tico-popular e da esquerda; com ou sem Mour\u00e3o o jogo recome\u00e7a com esse campo fortalecido.<\/p>\n<p>E mais, pelo conjunto da obra o impeachment est\u00e1 dado; falta construir as condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas para que o processo deslanche e aconte\u00e7a. Nas \u00faltimas semanas essas condi\u00e7\u00f5es v\u00eam sendo constru\u00eddas aceleradamente. Em sentido oposto, n\u00e3o h\u00e1 a menor possibilidade de ruptura institucional a partir da extrema direita neofascista e de Bolsonaro, j\u00e1 completamente desmoralizados. Esse \u00e9 outro tipo de receio que anda povoando a cabe\u00e7a de alguns segmentos da esquerda, para ficarem contra o \u201cFora Bolsonaro\u201d.<\/p>\n<p>Em suma, o \u201cfora Bolsonaro\u201d j\u00e1 est\u00e1 na ordem do dia: na grande m\u00eddia, nos blogs e personagens de direita e esquerda, nas ruas, no Congresso; porque j\u00e1 est\u00e1 claro que o Governo Bolsonaro destr\u00f3i todas as possibilidades do pa\u00eds em todos os campos, e n\u00e3o apenas na educa\u00e7\u00e3o. O \u201cFora Bolsonaro\u201d j\u00e1 come\u00e7ou a se impor a partir da vontade das massas e do movimento social. Se as dire\u00e7\u00f5es n\u00e3o assumirem perder\u00e3o o \u201cbonde da hist\u00f3ria\u201d<\/p>\n<p>No entanto, a defesa de que o movimento democr\u00e1tico-popular deve encampar, e dirigir, a luta pelo impeachment, n\u00e3o deve ignorar os interesses, os objetivos e as a\u00e7\u00f5es da burguesia caso ela venha a se incorporar ao processo. Mas isso \u00e9 um elemento a ser considerado na t\u00e1tica de luta desse movimento e n\u00e3o uma prova de que n\u00e3o se deve ser a favor do impeachment, porque a burguesia tamb\u00e9m tem interesse nele. Significa reconhecer que a luta pol\u00edtica \u00e9 dif\u00edcil e contradit\u00f3ria, que n\u00e3o combina com racioc\u00ednios bin\u00e1rios nem comportamentos contemplativos; exatamente porque h\u00e1 a possibilidade da burguesia encampar o impeachment \u00e9 que o movimento democr\u00e1tico-popular e a esquerda devem sair na frente \u2013 colocando claramente o seu projeto alternativo.<\/p>\n<p>Desse modo, n\u00e3o h\u00e1 qualquer ilus\u00e3o sobre a natureza da outra extrema direita (a militar, que ainda tem a Guerra Fria como refer\u00eancia pol\u00edtica) que participa do Governo Bolsonaro e que tender\u00e1 a assumir o comando ap\u00f3s o impeachment. A origem, o comportamento e as declara\u00e7\u00f5es de seus integrantes n\u00e3o deixam margem a d\u00favidas: s\u00e3o autorit\u00e1rios e tendem no limite a n\u00e3o respeitar o Estado de Direito (a voca\u00e7\u00e3o a querer tutelar a na\u00e7\u00e3o), defendem o alinhamento subalterno aos EUA, incorporam a ideologia e o programa pol\u00edtico-econ\u00f4mico neoliberal (n\u00e3o s\u00e3o nacionalistas), t\u00eam a mesma concep\u00e7\u00e3o de \u201cseguran\u00e7a\u201d da Rep\u00fablica de Curitiba e de S\u00e9rgio Moro. Em suma, o programa e a agenda (que \u00e9 da burguesia cosmopolita) permanecem os mesmos, sem, contudo, a guerra cultural permanente e a mobiliza\u00e7\u00e3o de massa pelas redes sociais; trata-se, de fato, de uma extrema direita militar tradicional, que se reciclou incorporando o neoliberalismo.<\/p>\n<p>Tudo isso est\u00e1 claro, e n\u00e3o pode ser ignorado. No entanto, essa \u201csinuca de bico\u201d deve ser enfrentada pelo movimento democr\u00e1tico-popular e a esquerda; n\u00e3o d\u00e1 para ficar assistindo ao processo, caso ele ocorra, e muito menos defender o mandato de Bolsonaro, com o argumento de que o seu impeachment \u00e9 um golpe \u2013 depois de tudo o que j\u00e1 se sabe sobre a sua elei\u00e7\u00e3o fraudulenta e, pior, depois de tudo do que o seu governo j\u00e1 promoveu, e est\u00e1 promovendo contra a democracia. Por isso, hoje, a forma de se enfrentar esse problema \u00e9 assumir com convic\u00e7\u00e3o, sem vacila\u00e7\u00f5es, a bandeira de \u201cFora Bolsonaro\u201d e procurar ser o protagonista maior desse processo e, ao mesmo tempo, vinculado ao impeachment, defender \u201cElei\u00e7\u00f5es Diretas J\u00e1\u201d. Em s\u00edntese, \u201cFora Bolsonaro e Elei\u00e7\u00f5es Diretas J\u00e1\u201d \u00e9 a luta a ser travada contra a extrema direita, neofascista e militar, e contra a agenda neoliberal da burguesia. E essa luta exige, obviamente e mais do que nunca, um movimento de massa, uma mobiliza\u00e7\u00e3o popular poderosa, e n\u00e3o apenas a atua\u00e7\u00e3o no Congresso Nacional.<\/p>\n<p>Por sua vez, a classe m\u00e9dia que se dividiu desde o impeachment de Dilma e as elei\u00e7\u00f5es para Presidente continua, e continuar\u00e1 dividida, entre o campo democr\u00e1tico e o campo da direita e da extrema direita. Contudo, parece claro que est\u00e1 havendo uma mudan\u00e7a de maioria no seu interior: o desengano e a decep\u00e7\u00e3o com os Governos Temer e, sobretudo, Bolsonaro (com medidas e pol\u00edticas que atingem amplamente os interesses de v\u00e1rios de seus segmentos) est\u00e3o empurrando de novo (tal como num movimento pendular) diversos de seus segmentos para o campo democr\u00e1tico.<\/p>\n<p>segmentos para o campo democr\u00e1tico.<\/p>\n<p>Manifesta\u00e7\u00e3o a favor do governo Bolsonaro na Esplanada dos Minist\u00e9rios<br \/>\nPor fim, o conjunto dos trabalhadores (assalariados, conta-pr\u00f3pria, informais, precarizados, servidores p\u00fablicos etc.) sentem na pr\u00f3pria pele os efeitos do Governo Temer e do desgoverno Bolsonaro. O desemprego cresceu, a precariza\u00e7\u00e3o cresceu, a subocupa\u00e7\u00e3o aumentou, os rendimentos ca\u00edram e, para piorar, a infla\u00e7\u00e3o est\u00e1 subindo. Apesar da crescente influ\u00eancia das Igrejas Evang\u00e9licas na periferia, a percep\u00e7\u00e3o da piora das condi\u00e7\u00f5es de vida e trabalho \u00e9 acachapante; n\u00e3o h\u00e1 discurso religioso e\/ou moral que supere isso. A defesa do Governo Bolsonaro \u00e9 cada vez mais dif\u00edcil.<\/p>\n<p>Conclus\u00e3o<\/p>\n<p>Esse texto, como toda an\u00e1lise de conjuntura, foi em boa medida escrito no calor dos acontecimentos; portanto, assume os riscos de poder estar errado, parcial ou totalmente. Mas isso \u00e9 inevit\u00e1vel, o futuro \u00e9 incerto por defini\u00e7\u00e3o, principalmente em uma sociedade capitalista localizada de forma subordinada na periferia; entretanto, procurou-se identificar as motiva\u00e7\u00f5es mais estruturais dos sujeitos pol\u00edticos, tentando identificar o atual processo pol\u00edtico como ele \u00e9, e n\u00e3o como se desejaria que fosse.<\/p>\n<p>Mas o que est\u00e1 cada vez mais claro \u00e9 que a esquerda tem que sair da sua zona de conforto e retornar ao trabalho pol\u00edtico cotidiano na periferia (como fazem as Igrejas Evang\u00e9licas) e nos locais de trabalho (que os sindicatos n\u00e3o fazem); revitalizar o movimento social e abrir espa\u00e7o efetivo para a participa\u00e7\u00e3o popular e n\u00e3o apenas convoca-la, de tempos em tempos, para estar presente em atos e manifesta\u00e7\u00f5es. A luta parlamentar, estrito senso, j\u00e1 demonstrou os seus limites e at\u00e9 onde se pode chegar, exclusivamente atrav\u00e9s dela, na limitad\u00edssima democracia brasileira.<\/p>\n<p>No caso particular da educa\u00e7\u00e3o desencadeou-se uma verdadeira campanha nacional que juntou, al\u00e9m das comunidades universit\u00e1rias (professores, estudantes e t\u00e9cnicos-administrativos), parlamentares, institui\u00e7\u00f5es da sociedade civil (OAB), Reitores e escolas; na qual se combinou a atua\u00e7\u00e3o no interior das Institui\u00e7\u00f5es (Parlamento e Judici\u00e1rio) com a mobiliza\u00e7\u00e3o nas ruas. \u00c9 necess\u00e1rio aprender com essa experi\u00eancia e amplifica-la na luta em defesa dos direitos, da democracia e da constru\u00e7\u00e3o de uma agenda alternativa \u00e0 barb\u00e1rie e ao neoliberalismo que esse governo representa e p\u00f5e em pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Luiz Filgueiras \u00e9 Professor Titular da Faculdade de Economia da Universidade Federal da Bahia \u2013 UFBA<\/p>\n<p>Gra\u00e7a Druck \u00e9  Professora Titular da Faculdade de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas da UFBA.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No Le Monde &#8211; O objetivo deste texto \u00e9 discutir a conjuntura imediata que, nas \u00faltimas semanas, tem se acelerado de forma impressionante. 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