{"id":22320,"date":"2019-06-14T19:16:44","date_gmt":"2019-06-14T23:16:44","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=22320"},"modified":"2019-06-14T19:16:44","modified_gmt":"2019-06-14T23:16:44","slug":"do-primeiro-titulo-ao-preconceito-explicito-copa-america-cravou-mancha-do-racismo-na-camisa-da-selecao","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2019\/06\/14\/do-primeiro-titulo-ao-preconceito-explicito-copa-america-cravou-mancha-do-racismo-na-camisa-da-selecao\/","title":{"rendered":"Do primeiro t\u00edtulo ao preconceito expl\u00edcito, Copa Am\u00e9rica cravou mancha do racismo na camisa da sele\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"22321\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2019\/06\/14\/do-primeiro-titulo-ao-preconceito-explicito-copa-america-cravou-mancha-do-racismo-na-camisa-da-selecao\/827396df-c2c2-45ad-adf8-967af476088f\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/827396DF-C2C2-45AD-ADF8-967AF476088F.jpeg?fit=980%2C582\" data-orig-size=\"980,582\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"827396DF-C2C2-45AD-ADF8-967AF476088F\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/827396DF-C2C2-45AD-ADF8-967AF476088F.jpeg?fit=300%2C178\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/827396DF-C2C2-45AD-ADF8-967AF476088F.jpeg?fit=600%2C356\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/827396DF-C2C2-45AD-ADF8-967AF476088F.jpeg?resize=600%2C356\" alt=\"827396DF-C2C2-45AD-ADF8-967AF476088F\" width=\"600\" height=\"356\" class=\"alignnone size-full wp-image-22321\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/827396DF-C2C2-45AD-ADF8-967AF476088F.jpeg?w=980 980w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/827396DF-C2C2-45AD-ADF8-967AF476088F.jpeg?resize=300%2C178 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/827396DF-C2C2-45AD-ADF8-967AF476088F.jpeg?resize=768%2C456 768w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/827396DF-C2C2-45AD-ADF8-967AF476088F.jpeg?resize=505%2C300 505w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p>Veto a negros percorre hist\u00f3ria do futebol brasileiro desde a primeira conquista no torneio<!--more--><\/p>\n<p>No El Pa\u00eds<\/p>\n<p>Nesta sexta-feira, o Brasil volta a sediar uma Copa Am\u00e9rica e estreia contra a Bol\u00edvia, no Morumbi, em um uniforme retr\u00f4. A camisa branca homenageia o centen\u00e1rio do primeiro t\u00edtulo da sele\u00e7\u00e3o no torneio, antes conhecido como Campeonato Sul-Americano, em 1919. Na ocasi\u00e3o, os brasileiros tamb\u00e9m jogavam em casa e derrotaram o Uruguai na final. O ineditismo da conquista, por\u00e9m, serviu de ensejo para uma passagem infame na hist\u00f3ria do escrete nacional. Dois anos mais tarde, o racismo institucional daria as caras de forma expl\u00edcita com o veto \u00e0 convoca\u00e7\u00e3o de jogadores negros.<\/p>\n<p>Naquela \u00e9poca, Arthur Friedenreich era o craque do time. Filho de um descendente de alem\u00e3es com uma brasileira negra, ele foi o artilheiro do Brasil no Sul-Americano de 1919, marcando, inclusive, o gol do t\u00edtulo na decis\u00e3o. Por causa de uma rixa entre as federa\u00e7\u00f5es de Rio de Janeiro e S\u00e3o Paulo, a edi\u00e7\u00e3o do ano seguinte foi disputada sem os principais jogadores dos times paulistas, entre eles Friedenreich, que atuava pelo Paulistano. O desempenho da sele\u00e7\u00e3o no torneio sediado no Chile ficou marcado pela maior goleada sofrida em todos os tempos \u2013 6 a 0 para o Uruguai, marca que seria superada somente em 2014, com o 7 a 1 diante da Alemanha.<\/p>\n<p>Antes de retornar ao Brasil, a delega\u00e7\u00e3o parou em Buenos Aires para disputar um amistoso contra a Argentina. A charge racista publicada por um jornal local, que retratava jogadores brasileiros como macacos e ironizava que \u201cos macaquitos j\u00e1 chegaram em terras argentinas\u201d, revoltou parte da equipe brasileira. O capit\u00e3o Sisson e outros seis atletas decidiram boicotar o jogo. J\u00e1 a Confedera\u00e7\u00e3o Brasileira de Desportos (CBD) \u2013hoje CBF\u2013 permaneceu irredut\u00edvel no prop\u00f3sito de realizar a partida. Contando at\u00e9 mesmo com o chefe da delega\u00e7\u00e3o, Oswaldo Gomes, na linha, a sele\u00e7\u00e3o entrou em campo com sete jogadores e perdeu por 3 a 1.<\/p>\n<p>Como a edi\u00e7\u00e3o de 1921 do Sul-Americano seria abrigada pela Argentina, a CBD buscava uma maneira de se afastar de novas \u201canimosidades\u201d com os rivais. Influente nos bastidores do esporte, o presidente da Rep\u00fablica Epit\u00e1cio Pessoa, preocupado com a imagem do pa\u00eds no exterior, teria recomendado \u00e0 confedera\u00e7\u00e3o que n\u00e3o levasse jogadores negros para a competi\u00e7\u00e3o em territ\u00f3rio vizinho. De fato, craques que brilharam na campanha do t\u00edtulo em 1919, como Friedenreich e o ponta-esquerda Neco \u2014que, embora n\u00e3o tivesse pele escura, era conhecido como Neguinho e exercia trabalhos bra\u00e7ais fora do futebol\u2013 n\u00e3o foram chamados.<\/p>\n<p>Havia ainda o clamor popular pela convoca\u00e7\u00e3o do zagueiro Luiz da Guia, irm\u00e3o de Domingos da Guia, que se destacava pelo Bangu, mas acabou ignorado. Apesar das provoca\u00e7\u00f5es de cunho racista que desferia a Pedro Lessa, ent\u00e3o ministro do Supremo Tribunal Federal, Epit\u00e1cio Pessoa sempre negou qualquer tipo de veto a negros na sele\u00e7\u00e3o. Atribu\u00eda a aus\u00eancia deles no Sul-Americano \u00e0 queda de bra\u00e7o nos bastidores envolvendo as federa\u00e7\u00f5es carioca e paulista.<\/p>\n<p>Em tempos de amadorismo, o futebol protagonizado por times tradicionais ainda era reduto da aristocracia e dominado pelos brancos. De acordo com o historiador Jos\u00e9 Ant\u00f4nio Santos, autor do livro Liga das Canelas Pretas, que mostra como os negros que atuavam na modalidade eram marginalizados no Rio Grande do Sul, tra\u00e7os como os de Friedenreich, que tinha olhos claros, descend\u00eancia alem\u00e3 e integrava clubes de elite, conferiam uma esp\u00e9cie de \u201cverniz social\u201d aos jogadores mesti\u00e7os. \u201cA grande barreira era a quest\u00e3o de classe\u201d, diz o historiador. \u201cOs filhos de imigrantes tinham suas caracter\u00edsticas f\u00edsicas \u2018maquiadas\u2019 para ser bem aceitos socialmente e pela torcida.\u201d<\/p>\n<p>O time essencialmente branco de 1921 voltou a fracassar. Perdeu na estreia, no mesmo est\u00e1dio onde o combinado de sete jogadores havia sido improvisado no ano anterior, para a Argentina, que acabaria sagrando-se campe\u00e3 do torneio pela segunda vez. Em 1922, o Brasil voltaria a sediar o Sul-Americano. Para n\u00e3o correr o risco de dar vexame em casa, a CBD resolveu aparar arestas entre federa\u00e7\u00f5es e suspendeu o veto a jogadores negros, como o r\u00e1pido e driblador meia, Tatu, do Corinthians. Neco tamb\u00e9m reapareceu no time ao lado de Friedenreich, que se machucou no primeiro jogo e acabou desfalcando o Brasil no restante da competi\u00e7\u00e3o. Em que pese a baixa de peso, a sele\u00e7\u00e3o conseguiu faturar seu segundo t\u00edtulo com uma vit\u00f3ria de 3 a 0 sobre o Paraguai, no est\u00e1dio das Laranjeiras.<\/p>\n<p>Encarada como uma grande prova de afirma\u00e7\u00e3o internacional da sele\u00e7\u00e3o, a conquista pouco contribuiu para mitigar a marginaliza\u00e7\u00e3o do negro no futebol brasileiro. Dois anos depois, o Vasco foi exclu\u00eddo da liga carioca por se recusar a abrir m\u00e3o de seus jogadores negros. Apenas com o advento da profissionaliza\u00e7\u00e3o, no in\u00edcio da d\u00e9cada de 30, eles passaram a ser incorporados pelos clubes de elite. Mas a inclus\u00e3o nunca implicou em imunidade \u00e0 discrimina\u00e7\u00e3o. Ap\u00f3s a derrota para o Uruguai na Copa do Mundo de 1950, que ficou eternizada como o Maracanazo, os mesti\u00e7os Bigode, Juvenal e, especialmente, o goleiro Barbosa foram crucificados como respons\u00e1veis pela perda do t\u00edtulo. Negros do plantel que sucumbiu ao ex\u00edmio conjunto da Hungria em 1954 foram tachados de \u201cemocionalmente inst\u00e1veis\u201d por uma tese elaborada pelo chefe da delega\u00e7\u00e3o na Copa, Jo\u00e3o Lyra Filho. Em seu relat\u00f3rio entregue \u00e0 CBD, recorria ao racismo cient\u00edfico para culpar a miscigena\u00e7\u00e3o pela falta de controle psicol\u00f3gico da sele\u00e7\u00e3o diante de equipes europeias.<\/p>\n<p>\u201cO futebol est\u00e1 sempre buscando um bode expiat\u00f3rio\u201d, afirma Jos\u00e9 Ant\u00f4nio Santos. \u201cEssa tend\u00eancia de culpabiliza\u00e7\u00e3o do negro sempre esteve muito presente na hist\u00f3ria da sele\u00e7\u00e3o, tal qual na sociedade brasileira. Assim como no come\u00e7o da d\u00e9cada de 20, quando as institui\u00e7\u00f5es n\u00e3o queriam tornar a popula\u00e7\u00e3o negra vis\u00edvel fora do pa\u00eds, o futebol continua nos mostrando como o racismo \u00e9 algo expl\u00edcito por aqui.\u201d Na \u00faltima Copa, depois de marcar um gol contra na elimina\u00e7\u00e3o do Brasil para a B\u00e9lgica, nas quartas de final, o volante Fernandinho recebeu uma enxurrada de xingamentos racistas em suas redes sociais. Tite admitiu que deixou de convoc\u00e1-lo para \u201cpreservar a pessoa p\u00fablica\u201d.<\/p>\n<p>Um ano depois, ele est\u00e1 de volta \u00e0 sele\u00e7\u00e3o para disputar a Copa Am\u00e9rica. Na \u00e9poca das ofensas, a CBF repudiou os ataques com a mensagem de sua campanha antirracista \u201ctodos iguais\u201d. O posicionamento da confedera\u00e7\u00e3o, no entanto, n\u00e3o se expressa em atitudes mais en\u00e9rgicas contra o racismo al\u00e9m do discurso oficial. Em, 2015, por exemplo, a entidade preferiu omitir das autoridades a den\u00fancia do atacante Marcos Guilherme, que acusou um jogador uruguaio de xing\u00e1-lo de \u201cmacaco\u201d no Sul-Americano sub-20. Em seu site oficial, a entidade apresenta Friedenreich como o \u201cprimeiro \u00eddolo da sele\u00e7\u00e3o\u201d, mas n\u00e3o faz nenhuma men\u00e7\u00e3o ao epis\u00f3dio do veto em que ele foi preterido numa equipe t\u00e3o branca como a camisa que o Brasil exibe esta noite no Morumbi.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Veto a negros percorre hist\u00f3ria do futebol brasileiro desde a primeira conquista no torneio<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-22320","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-5O0","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22320","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22320"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22320\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":22322,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22320\/revisions\/22322"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22320"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22320"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22320"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}