{"id":22633,"date":"2019-07-03T15:23:26","date_gmt":"2019-07-03T19:23:26","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=22633"},"modified":"2019-07-03T15:28:18","modified_gmt":"2019-07-03T19:28:18","slug":"a-forca-imaterial-de-elizeu-braga-poeta-e-performer-beradeiro","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2019\/07\/03\/a-forca-imaterial-de-elizeu-braga-poeta-e-performer-beradeiro\/","title":{"rendered":"A for\u00e7a imaterial de Elizeu Braga, poeta e performer beradeiro"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"22634\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2019\/07\/03\/a-forca-imaterial-de-elizeu-braga-poeta-e-performer-beradeiro\/1cb33e8e-1c0d-49a9-968f-2573ff6826b9\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/1CB33E8E-1C0D-49A9-968F-2573FF6826B9.jpeg?fit=960%2C955\" data-orig-size=\"960,955\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"1CB33E8E-1C0D-49A9-968F-2573FF6826B9\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/1CB33E8E-1C0D-49A9-968F-2573FF6826B9.jpeg?fit=300%2C298\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/1CB33E8E-1C0D-49A9-968F-2573FF6826B9.jpeg?fit=600%2C597\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/1CB33E8E-1C0D-49A9-968F-2573FF6826B9.jpeg?resize=600%2C597\" alt=\"1CB33E8E-1C0D-49A9-968F-2573FF6826B9\" width=\"600\" height=\"597\" class=\"alignnone size-full wp-image-22634\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/1CB33E8E-1C0D-49A9-968F-2573FF6826B9.jpeg?w=960 960w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/1CB33E8E-1C0D-49A9-968F-2573FF6826B9.jpeg?resize=150%2C150 150w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/1CB33E8E-1C0D-49A9-968F-2573FF6826B9.jpeg?resize=300%2C298 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/1CB33E8E-1C0D-49A9-968F-2573FF6826B9.jpeg?resize=768%2C764 768w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/1CB33E8E-1C0D-49A9-968F-2573FF6826B9.jpeg?resize=302%2C300 302w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p>Na Revista Csliban, por Vitor Cei[1] e Erl\u00e2ndia Ribeiro[2]<!--more--><\/p>\n<p>Elizeu Braga nasceu em 1985, na comunidade ribeirinha de Taco\u00e3, na beira do Rio Madeira, em Rond\u00f4nia. Atualmente vive em Porto Velho, capital do estado da regi\u00e3o norte do Brasil, onde \u00e9 poeta, performer, contador de hist\u00f3rias, ator da Beradera Companhia de Teatro e ativista cultural da Casa Arig\u00f3ca, importante espa\u00e7o cultural da cidade de Porto Velho, que desde 2013 promove lan\u00e7amentos de livros, saraus, rodas de conversas, oficinas, dentre outras atividades.<\/p>\n<p>O poeta beradeiro publicou dois livros editados artesanalmente: Cantigas (2015) e Morma\u00e7o (2016). Ambos est\u00e3o ligados \u00e0 oralidade ribeirinha da Amaz\u00f4nia e transformam-se em performances teatrais, individuais ou coletivas, que conjugam os recursos do pr\u00f3prio corpo, em particular a voz, delineando o perfil de performer contempor\u00e2neo com o qual se apresenta Elizeu Braga.<\/p>\n<p>Na entrevista que segue, concedida por e-mail em novembro de 2016 a Vitor Cei (UFES) e Erl\u00e2ndia Ribeiro (UNIR), para o projeto \u201cNot\u00edcia da atual literatura brasileira: entrevistas\u201d, Elizeu reflete a respeito de seu processo criativo e lan\u00e7a um olhar sobre a confec\u00e7\u00e3o artesanal de seus livros, discorrendo acerca de autores e aspectos das tradi\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias e culturais com as quais busca dialogar. Comenta, ainda, sobre a crise pol\u00edtica no Brasil e compartilha com o leitor outras reflex\u00f5es de ordem \u00e9tica e po\u00e9tica. <\/p>\n<p>Ao final, disponibilizamos tr\u00eas poemas do autor.<\/p>\n<p>Esta entrevista foi realizada como atividade do projeto \u201cNot\u00edcia da atual literatura brasileira: entrevistas\u201d, coordenador por Vitor Cei, com a colabora\u00e7\u00e3o dos professores Andr\u00e9 Tessaro Pelinser (UFRN), Let\u00edcia Malloy (UERN) e Andr\u00e9ia Delmaschio (IFES). O projeto \u00e9 um esfor\u00e7o de mapear a produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria brasileira do in\u00edcio do s\u00e9culo XXI a partir da perspectiva dos pr\u00f3prios escritores.<\/p>\n<p>Cada escritor possui um modus operandi, por assim dizer\u2026 Fale um pouco sobre o seu processo criativo. Houve um momento inaugural ou o caminho se fez gradualmente? Em que momento da vida voc\u00ea se percebeu um escritor de verdade?<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, acho que foi quando eu era menino, na vila de Taco\u00e3 onde nasci, aqui no Baixo Madeira, o universo das hist\u00f3rias cheias de realismo fant\u00e1stico que minha v\u00f3, minha m\u00e3e e minhas tias contavam, os velhos que sabiam versos de cabe\u00e7a, e faziam desafios no final do dia na beira do rio. Carreguei isso comigo pra cidade, a vida urbana que todos os dias se dedica a endurecer a gente, fui aprendendo a enxergar a poesia na cidade, porque nunca me desfiz dos olhos daquele menino assombrado que ao chegar na cidade teve de negar sua origem, sua mem\u00f3ria, porque segundo os entendidos em progresso o ribeirinho \u00e9 subdesenvolvido. A poesia me atraia porque eu lembrava daqueles poetas que atrav\u00e9s de seus versos me faziam enxergar o mundo, escrevi meu primeiro poema na sala de aula com 13 anos, eu estava triste, e escrevi como num transe, aquelas palavras que pareciam ferver dentro de mim, pus pra fora, ent\u00e3o gostei, senti um alivio, parecia que a tristeza tinha passado ou j\u00e1 n\u00e3o era t\u00e3o triste, a sess\u00e3o de sentir que o mundo podia caber dentro de mim, ent\u00e3o comecei a escrever como um doido, estudava em um col\u00e9gio interno, andava com uma pochete cheia de poemas escritos \u00e0 m\u00e3o, e vinha uma vontade de mostrar e ao mesmo tempo um medo, mas eu mostrava, lia, e o pessoal gostava, e eu continuava. Um professor de portugu\u00eas me aconselhou Manuel Bandeira, eu li, at\u00e9 ent\u00e3o eu n\u00e3o era de ler, mas Manuel Bandeira me atravessou. Enfim, acho que essa resposta est\u00e1 muito longa, passei por muita coisa na vida, poesia foi algo que eu sempre pratiquei por teimosia, pensei que ia chegar um momento em que eu ia desencanar, arranjar um emprego e buscar ser algu\u00e9m na vida, fui bastante aconselhado, mas fui teimando.<\/p>\n<p>Voc\u00ea poderia explicar como foi o processo de cria\u00e7\u00e3o e edi\u00e7\u00e3o artesanal da sua obra Morma\u00e7o (Edi\u00e7\u00e3o do autor, 2016)?<\/p>\n<p>Esse processo coletivo, onde houve oficinas de confec\u00e7\u00f5es das capas em conjunto com o p\u00fablico, o que representou para voc\u00ea? O que foi mais significativo o resultado ou o processo como um todo?<br \/>\nEnt\u00e3o, pra mim tudo \u00e9 processo sabe, o resultado pode ser o processo de algo que ainda n\u00e3o iniciou e n\u00e3o o fim. Adorei compartilhar o processo do Morma\u00e7o, mostrar para as pessoas como \u00e9 fazer um livro, como \u00e9 m\u00e1gico, e tamb\u00e9m pr\u00e1tico. A proposta tamb\u00e9m vem com a ideia de mostrar para as pessoas, principalmente quem escreve, como elas podem produzir seu pr\u00f3prio livro. A ideia surgiu por conta do primeiro livro, o Cantigas, lan\u00e7ado em 2015. O processo artesanal das capas foi um pouco diferente do Morma\u00e7o, e durante a feitura do Cantigas eu pensei \u201co pr\u00f3ximo livro vou lan\u00e7ar dentro de uma proposta onde eu possa convidar as pessoas a verem e participarem do processo\u201d. Acho que compartilhar \u00e9 uma das coisas boas que a poesia ensina pra gente.<\/p>\n<p>Como voc\u00ea define a sua obra?<\/p>\n<p>Em processo, caminhando, de ess\u00eancia inquieta, ligada na minha alma, minha mem\u00f3ria, com indigna\u00e7\u00e3o e amor-coragem.<br \/>\nComo voc\u00ea v\u00ea a recep\u00e7\u00e3o de sua obra?<br \/>\nBom, estou bem feliz. Ano passado lancei o Cantigas, foram feitos trezentos livros. J\u00e1 est\u00e3o todos circulando, lancei na Arigoca, depois no Peru dentro do Col\u00f3quio de Literaturas Amaz\u00f4nicas, ent\u00e3o fui para Balada Liter\u00e1ria em SP e o livro foi indicado pelo site Livre Opini\u00e3o entre os vinte e cinco melhores lan\u00e7amentos de 2015. O Morma\u00e7o lan\u00e7ado esse ano [2016], foram feitos cento e cinquenta livros, que j\u00e1 sa\u00edram todos, preciso fazer mais. Estou feliz com a sa\u00edda dos livros, a demanda de pedidos, mas ainda rola uma inquieta\u00e7\u00e3o, eu preciso me organizar, produzir mais livros, distribuir, fazer parcerias, apresentar dizendo os poemas. Enfim, sou minha pr\u00f3pria editora, isso me d\u00e1 liberdade e tamb\u00e9m responsabilidade.<\/p>\n<p>Como voc\u00ea vive o ato de recitar?<\/p>\n<p>Pra mim \u00e9 como um ritual sabe, como se eu pudesse evocar, chamar para fora o que est\u00e1 dentro de mim. A poesia \u00e9 uma for\u00e7a imaterial que atravessa o tempo, quanto mais voc\u00ea se alimenta, mais ela pode mexer com voc\u00ea. O poema \u00e9 uma maneira de registrar essa for\u00e7a imaterial, ent\u00e3o tem o processo de colocar o poema dentro da gente, tem vezes que o poema atravessa a gente de uma vez s\u00f3 e parece que quer ficar morando no peito, ardendo como uma chama, e quando voc\u00ea declama, ele queima, acende, espanta, ent\u00e3o tem todo um outro processo, de voz, corpo, olhos, \u00e9 a for\u00e7a tomando conta, e o corpo vira um instrumento.<br \/>\nNo Brasil, a poesia tem um alcance bastante limitado em termos de p\u00fablico. Como voc\u00ea v\u00ea essa quest\u00e3o?<br \/>\nAcho que s\u00e3o leituras, a poesia escrita, liter\u00e1ria, sim, est\u00e1 distante do p\u00fablico, os livros, os autores contempor\u00e2neos, a literatura na escola virou uma mat\u00e9ria chata e o livro \u00e9 muitas vezes um objeto de tortura para castigar o aluno e na academia parece que o povo se ocupa de cultuar os \u00faltimos pav\u00f5es vivos. Mas eu acredito que a poesia \u00e9 uma for\u00e7a que est\u00e1 na rua e tamb\u00e9m dentro de n\u00f3s, o poeta tem de ser mais do que um escritor de poemas tem de ser um praticante da poesia e praticar poesia \u00e9 propor maneiras, a\u00e7\u00f5es, \u00e9 burlar o sistema engessado e propor medidas que se desloquem e dialogue com a realidade e saiba enxergar com sensibilidade onde \u00e9 poss\u00edvel incendiar ou contribuir com uma mudan\u00e7a porque uma coisa \u00e9 certa, tem de mudar o sistema educacional, tem de parar de ser um recrutador de zumbis, que vivem repetindo a ladainha da desesperan\u00e7a, as bibliotecas nas escolas tem de funcionar como um espa\u00e7o de cultura, com oficinas de livros, rodas de leitura, conversa com autores, rodas de conversa sobre temas tabus, a literatura e as outras artes em geral servem para dar autonomia de pensamento ao indiv\u00edduo, porque mexe na sensibilidade, e esse sistema coloca a gente em um estado anest\u00e9sico, para que possamos aceitar a trag\u00e9dia como fatalidade e o conv\u00edvio social como um campo de disputa, com isso n\u00e3o podemos ser omissos, e a arte n\u00e3o pode ter o mesmo papel de uma igreja, que \u00e9 contribuir para o estado anest\u00e9sico de aliena\u00e7\u00e3o, a arte tem que ser questionadora e a poesia sem anestesia.<\/p>\n<p>O que voc\u00ea acha dos escritores brasileiros contempor\u00e2neos? Ou, afastando a pergunta de nomes espec\u00edficos, para pensar a poesia brasileira atual como um todo: O que voc\u00ea v\u00ea?<\/p>\n<p>Tem muitos, n\u00e9? Os que eu conhe\u00e7o, eu acho incr\u00edveis, inspiradores, pessoas com o discurso po\u00e9tico dentro da realidade. Vale a pena citar Marcelino Freire, Mel Duarte, Maria Rezende, Mariana Felix, Emerson Alcaide, Bob Baq, Eliaquim Rufino, Samuel Borges, Luna Vitrolira, Pedro Bomba, Allan Jones, Debora Arruda, Nicolas Nardi, Diego Moraes, Carlos Moreira, Alberto Lins, Joezer Alvarez, Binho, Dom Lauro, Angelica Freitas, Aline Bei, Carolina Rodrigues e muitos mais. Galera que tem uma pegada de alma na escrita e com isso acaba mexendo com o tempo, com esse, com o que passou e com o que vai chegar. E tamb\u00e9m vejo a galera muito na correria, produzindo o pr\u00f3prio trabalho, circulando, e propondo, participando das ocupa\u00e7\u00f5es nas escolas levantando movimentos em periferia, n\u00e3o posso deixar de citar o Sergio Vaz e a Eliza Lucinda, verdadeiros guerrilheiros dos livros, da literatura, da poesia, poesia na pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>O que mudou na (e para a) literatura depois da internet?<\/p>\n<p>A dist\u00e2ncia, ficaram menores, o tempo parece que deu uma acelerada, acho que rola uma independ\u00eancia maior, os contatos entre os que escrevem, as pontes entre os estados, a internet \u00e9 uma ferramenta revolucion\u00e1ria, olha essa nossa conversa, por exemplo. A internet \u00e9 uma ferramenta, ainda estamos aprendendo como nos movimentar por ela, \u00e9 importante aprender como potencializar a literatura e a leitura e a escrita atrav\u00e9s dela e as pr\u00e1ticas po\u00e9ticas.<br \/>\nA internet \u00e9 uma ferramenta que conecta utopias, mas tamb\u00e9m difunde o \u00f3dio. E j\u00e1 tem um tempo que a internet pauta a televis\u00e3o. Mas ainda rolam os embates das narrativas.<\/p>\n<p>Atualmente, no Brasil e no exterior, vivemos a ascens\u00e3o de uma onda reacion\u00e1ria que traz em si matizes racistas, fascistas, mis\u00f3ginos e homof\u00f3bicos. Gostar\u00edamos que voc\u00ea nos ajudasse a compreender: onde estava guardada tanta monstruosidade? Houve um ponto ou marco crucial para a detona\u00e7\u00e3o de uma circunst\u00e2ncia como esta que vivemos hoje? O que voc\u00ea imagina ou espera como desfecho do atual est\u00e1gio da humanidade?<\/p>\n<p>Muito discurso de \u00f3dio n\u00e3o resiste ao vento da varanda de casa. Penso e tenho a esperan\u00e7a numa coisa, o movimento, a certeza que as coisas se movem me d\u00e3o esperan\u00e7a de viver. E se existe uma certeza, \u00e9 essa, estamos nos movendo. Mesmo parados, sentados, o planeta se movimenta, a luz muda, a gente sente e se mexe. Acredito que esse avan\u00e7o do movimento fascista \u00e9 uma rea\u00e7\u00e3o ao avan\u00e7o do movimento de descoloniza\u00e7\u00e3o. \u00c9 o patriarcado rachando e o machismo ficando nu. A rea\u00e7\u00e3o de um monstro se sentindo acuado \u00e9 gritar e atacar.<br \/>\nPrecisamos ver o livro como um objeto m\u00e1gico, n\u00e3o como uma ferramenta de tortura. A poesia deve ser encarada como atitude. E a rua se pauta nas experi\u00eancias revolucion\u00e1rias. As batalhas de rima, as oficinas, os Slams, os grafites, o Hip Hop, os saraus e casas coletivas, a galera que se junta e ocupa as pra\u00e7as. Que est\u00e3o propondo na pr\u00e1tica o exerc\u00edcio de uma sociedade que se relacione bem melhor.<br \/>\n*<br \/>\nmorma\u00e7o na flor na pele<br \/>\nno suor dos olhos o corre<br \/>\ndaquela senhora que anda<br \/>\npra cima e pra baixo<br \/>\ncom aquela menina escanchada no ombro<br \/>\ncom a cara aberta num sorriso<br \/>\nmorma\u00e7o na fila dobrando a esquina da caixa econ\u00f4mica<br \/>\no olhar que se perde numa lembran\u00e7a de n\u00e3o sei o que<br \/>\naqui pro rumo do norte \u00e9 bem forte o tro\u00e7o<br \/>\ndizem que somos terceiro mundo mal educados<br \/>\nmal falados esquentados criadores de caso e sem mem\u00f3ria<br \/>\ndizem que a cidade \u00e9 de todos<br \/>\ns\u00f3 pra gente acreditar que ela \u00e9 de ningu\u00e9m<br \/>\nmorma\u00e7o no pneu da bike encostando no asfalto quente<br \/>\nmorma\u00e7o naquele tempo fora do ar do escrit\u00f3rio<br \/>\npra pegar a marmita e um suco de graviola<br \/>\nmorma\u00e7o no rosto do pedreiro velho<br \/>\nque conhece a cidade como as marcas da m\u00e3o<br \/>\nmorma\u00e7o no suor escorrendo evaporando<br \/>\num horizonte quente subindo do ch\u00e3o<br \/>\nquem escuta a voz da cidade<br \/>\nquem ainda acredita nas lendas dos deuses colonizadores<br \/>\nquem se senta pra escutar os contadores do desenvolvimento<br \/>\ndemolidores que confundem lucro com sustento<br \/>\neles que nem vivem aqui que nem moram aqui<br \/>\nficam de longe porque n\u00e3o aguentam o nosso morma\u00e7o<br \/>\ntomando vinho as nossas custas olha j\u00e1<br \/>\nescuta aqui t\u00e1 me ouvindo<br \/>\nesse corpo aguenta \u00e9 cacha\u00e7a<br \/>\nminha coragem n\u00e3o fica de ressaca<br \/>\nesse calor me leva pra \u00e1gua<br \/>\nmeus olhos enxergam o rio<br \/>\nos ouvidos escutam os p\u00e1ssaros<br \/>\nsou bem daqui onde minha mem\u00f3ria costura<br \/>\ncomo essa gente acolhedora e cheia de esperan\u00e7a<br \/>\nque quando precisa sabe enfrentar o sol<br \/>\n*<br \/>\nMe chama de gay<br \/>\npensando que t\u00e1<br \/>\nme humilhando<br \/>\nPra que eu tome<br \/>\num jeito de homem<br \/>\nPra querer sujar<br \/>\nmeu nome<br \/>\nquando me chama de gay<br \/>\ncomo quem vem debochando<br \/>\nolho nos teus olhos<br \/>\ncom sorriso de que t\u00f4 gostando<br \/>\nporque t\u00f4 gostando<br \/>\ns\u00f3 tenho pena de voc\u00ea<br \/>\nassim se afirmando<br \/>\nser chamado de gay<br \/>\nn\u00e3o me envergonha<br \/>\nme sinto mais humano<br \/>\nE fico forte, elegante<br \/>\ncorajoso, bailarino<br \/>\ncozinheiro andarilho<br \/>\nfeiticeiro trapezista<br \/>\npoeta mulher<br \/>\nflor sem nome<br \/>\n*<br \/>\na cidade n\u00e3o tem rima mas tem muro<br \/>\ntem promessa de progresso mas nenhuma de futuro<br \/>\na cidade \u00e9 perna aberta pra quem chega de outros mundos<br \/>\na cidade obedece a moda da roda dos imundos<br \/>\nque s\u00f3 faz ela apodrecer<br \/>\nesconde o que de mais bonito tem<br \/>\npot\u00eancia no agroneg\u00f3cio arrebentando com a terra<br \/>\ne com quem nela se mant\u00e9m<br \/>\ncidade empresarial<br \/>\ncorta as \u00e1rvores nativas<br \/>\nplanta palmeira imperial<br \/>\ntrucida os povos ind\u00edgenas, trata o pobre como marginal<br \/>\nat\u00e9 ai tudo bem, nada de novo no fronte<br \/>\na situa\u00e7\u00e3o aqui \u00e9 exemplo pra Belo Monte<br \/>\nregi\u00e3o norte periferia do brasil<br \/>\na amaz\u00f4nia do teu cart\u00e3o postal j\u00e1 se destruiu<br \/>\nfelizmente por aqui ainda existem guerreiros<br \/>\ne guerreiras que lutam<br \/>\ne s\u00e3o tantos quantos os dan\u00e7arinos de boi bumbar<br \/>\nbalas lhes perseguem na floresta mas s\u00f3 viram pauta<br \/>\nna imprensa popular<br \/>\nfoi por isso que fiz essa toada pra poder na base da palavra<br \/>\na for\u00e7a desses guerreiros chamar<br \/>\ne grita l\u00e1 em corumbiara e no hugo chaves<br \/>\na resist\u00eancia e a luta<br \/>\nguerra contra os latifundi\u00e1rios<br \/>\nnot\u00edcia que os grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o<br \/>\ne o cacique do pmdb oculta<br \/>\nporque assim como um marighela<br \/>\num professor do movimento campon\u00eas lutou<br \/>\ne assim como chico mendes uma bala em seu peito estourou<br \/>\ne gritam as comunidades na beira do rio madeira<br \/>\nque mantiveram sua f\u00e9 e a tradi\u00e7\u00e3o da cultura beradeira<br \/>\nficaram em suas casas quando veio a grande alaga\u00e7\u00e3o<br \/>\nos outros preju\u00edzos trazidos pela destrui\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas irresponsabilidades de projetos que produzem energia<br \/>\npra outra regi\u00e3o<br \/>\na cidade segue explorada colonizada anestesiada<br \/>\nmas sonha sonha sonha com seus filhos que vir\u00e3o<br \/>\nn\u00e3o aqueles que buscam dela a riqueza<br \/>\nmas aqueles que por ela lutar\u00e3o<\/p>\n<p>[1] Doutor em Estudos Liter\u00e1rios (UFMG). Professor do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Letras da Universidade Federal do Esp\u00edrito Santo e do Mestrado em Estudos Liter\u00e1rios da Universidade Federal de Rond\u00f4nia.<\/p>\n<p>[2] Mestranda em Estudos Liter\u00e1rios na Universidade Federal de Rond\u00f4nia, escritora e autora de Superf\u00edcies Irregulares (Kotter, 2019).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na Revista Csliban, por Vitor Cei[1] e Erl\u00e2ndia Ribeiro[2]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-22633","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-5T3","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22633","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22633"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22633\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":22637,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22633\/revisions\/22637"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22633"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22633"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22633"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}