{"id":22649,"date":"2019-07-04T10:59:22","date_gmt":"2019-07-04T14:59:22","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=22649"},"modified":"2019-07-04T10:59:22","modified_gmt":"2019-07-04T14:59:22","slug":"como-e-o-aborto-legal-no-brasil-e-por-que-ele-esta-sob-ataque","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2019\/07\/04\/como-e-o-aborto-legal-no-brasil-e-por-que-ele-esta-sob-ataque\/","title":{"rendered":"Como \u00e9 o aborto legal no Brasil e por que ele est\u00e1 sob ataque"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"22650\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2019\/07\/04\/como-e-o-aborto-legal-no-brasil-e-por-que-ele-esta-sob-ataque\/979f28fd-c3ae-4d5f-bf81-84097119b38a\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/979F28FD-C3AE-4D5F-BF81-84097119B38A.jpeg?fit=640%2C360\" data-orig-size=\"640,360\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"979F28FD-C3AE-4D5F-BF81-84097119B38A\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/979F28FD-C3AE-4D5F-BF81-84097119B38A.jpeg?fit=300%2C169\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/979F28FD-C3AE-4D5F-BF81-84097119B38A.jpeg?fit=600%2C338\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/979F28FD-C3AE-4D5F-BF81-84097119B38A.jpeg?resize=600%2C338\" alt=\"979F28FD-C3AE-4D5F-BF81-84097119B38A\" width=\"600\" height=\"338\" class=\"alignnone size-full wp-image-22650\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/979F28FD-C3AE-4D5F-BF81-84097119B38A.jpeg?w=640 640w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/979F28FD-C3AE-4D5F-BF81-84097119B38A.jpeg?resize=300%2C169 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/979F28FD-C3AE-4D5F-BF81-84097119B38A.jpeg?resize=533%2C300 533w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p>Entrevista com o ginecologista Jefferson Drezett Ferreira, que realizou 2,2 mil abortos garantidos por lei \u00e0s mulheres<!--more--><\/p>\n<p>Anelize Moreira<br \/>\nBrasil de Fato <\/p>\n<p>A chegada de Jair Bolsonaro (PSL) \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica coloca os direitos reprodutivos e a sa\u00fade das mulheres no alvo. Ministra da Mulher, Fam\u00edlia e Direitos Humanos, Damares Alves j\u00e1 se posicionou contra o aborto em qualquer circunst\u00e2ncia. Al\u00e9m disso, no Legislativo, o aumento do n\u00famero de pol\u00edticos conservadores com vi\u00e9s ideol\u00f3gico de extrema direita no Congresso Nacional encorajou o desarquivamento de propostas retr\u00f3gradas.<\/p>\n<p>No dia 12 de junho, o deputado federal Diego Garcia (Pode-PR) apresentou o relat\u00f3rio favor\u00e1vel ao projeto de lei 4642\/2016 que cria o Programa Nacional de Preven\u00e7\u00e3o e Conscientiza\u00e7\u00e3o sobre os Riscos e Consequ\u00eancias do Aborto. A proposta tramita na Comiss\u00e3o de Seguridade Social e Fam\u00edlia e passar\u00e1 ainda pelas Comiss\u00f5es de Finan\u00e7as e Tributa\u00e7\u00e3o e Constitui\u00e7\u00e3o, Justi\u00e7a e Cidadania. \u201cO est\u00edmulo \u00e0 dissemina\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es sobre as consequ\u00eancias do aborto e sobre a alternativa de dar a crian\u00e7a para ado\u00e7\u00e3o \u00e9 instrumento importante para sanar as d\u00favidas que muitas vezes assolam a mulher.\u201d, diz o relat\u00f3rio.<\/p>\n<p>No Senado, uma Proposta de Emenda \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o (PEC) chamada \u201cPEC da Vida\u201d prev\u00ea constar na Constitui\u00e7\u00e3o Federal, que o direito \u00e0 vida est\u00e1 seja garantido \u201cdesde a concep\u00e7\u00e3o\u201d. A PEC 29\/2015 foi desarquivada a pedido do senador Eduardo Gir\u00e3o (Pode-CE), chegou a ter relat\u00f3rio favor\u00e1vel da senadora Selma Arruda (PSL-MT), mas est\u00e1 parada.<\/p>\n<p>O acesso aborto legal permanece desigual no mundo, mesmo com n\u00fameros altos sobre mortalidade materna. Na Am\u00e9rica Latina o aborto \u00e9 descriminalizado sem restri\u00e7\u00f5es apenas no Uruguai, Cuba e M\u00e9xico. <\/p>\n<p>A ofensiva contra o aborto legal vai do Congresso at\u00e9 as c\u00e2maras municipais. Em S\u00e3o Paulo (SP), o vereador Fernando Holiday, membro do Movimento Brasil Livre (MBL), prop\u00f4s um projeto de lei que determina uma s\u00e9rie de obrigatoriedades para mulheres que sofreram estupro para realizar aborto na rede p\u00fablica. O projeto causou pol\u00eamica sobre o endurecimento das regras para interrup\u00e7\u00e3o da gravidez.<\/p>\n<p>No Brasil, o acesso ao aborto \u00e9 restrito e \u00e9 permitido somente em casos de estupro (at\u00e9 22 semanas), risco de morte para a m\u00e3e e o beb\u00ea e fetos com anencefalia, essa \u00faltima conquistada em uma decis\u00e3o do Supremo Tribunal Federal em 2012. Para entender a situa\u00e7\u00e3o do aborto legal no Brasil e as perspectivas sobre o esse tema, o Brasil de Fato conversou com o ginecologista e obstetra Jefferson Drezett Ferreira, professor do Departamento de Sa\u00fade, Ciclos de Vida e Sociedade da Faculdade de Sa\u00fade P\u00fablica da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP).<\/p>\n<p>Durante 25 anos, ele afirma que realizou 2,2 mil abortos legais, quando coordenou um dos servi\u00e7os p\u00fablicos de refer\u00eancia de aborto legal no Brasil , P\u00e9rola Byington \u2013 Centro de Refer\u00eancia da Sa\u00fade da Mulher, no centro da capital paulista. A unidade presta atendimento integral para mulheres, meninas e meninos de at\u00e9 12 anos em situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Confira a entrevista na \u00edntegra:<\/p>\n<p>Brasil de Fato: Existe algo em comum nas mulheres que buscam o aborto legal?<\/p>\n<p>Jefferson Drezett Ferreira: A maior parte dos casos que atendi no P\u00e9rola Byington eram de viol\u00eancia sexual. Se for pensar principalmente nesse grupo, os casos mais frequentes eram de mulheres jovens estupradas por agressores desconhecidos em suas atividades cotidianas de ir e vir do trabalho, t\u00edpico de cidades grandes, como S\u00e3o Paulo. Outra circunst\u00e2ncia s\u00e3o os estupros cometidos por parceiros \u00edntimos, maridos, &#8220;ex&#8221; ou namorados. Outra situa\u00e7\u00e3o bastante relevante s\u00e3o os casos de incesto de crian\u00e7as e adolescentes, v\u00edtimas de crime praticado por pessoas do conv\u00edvio familiar com rela\u00e7\u00e3o de parentesco, como irm\u00e3o, pai, padrasto. <\/p>\n<p>S\u00e3o experi\u00eancias muito diferentes e h\u00e1 uma din\u00e2mica pr\u00f3pria de atendimento dessas mulheres. O ponto em comum \u00e9 que elas est\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de brutal viola\u00e7\u00e3o de direitos reprodutivos e que buscam seu direito de interromper esse processo de viol\u00eancia. Hoje n\u00f3s n\u00e3o temos d\u00favida que a maior parte dos agressores s\u00e3o pessoas conhecidas. No Brasil, 14% das mulheres declaram que j\u00e1 sofreram ato sexual imposto e humilhante. Embora a viol\u00eancia sexual seja maior pelo parceiro intimo isso n\u00e3o se reverte nos n\u00fameros dos atendimentos dos servi\u00e7os p\u00fablicos, pois eles n\u00e3o captam todos os casos de viol\u00eancia sexual. <\/p>\n<p>Qual o perfil socioecon\u00f4mico dessas mulheres que buscam o servi\u00e7o de aborto legal? S\u00e3o mulheres com maior vulnerabilidade social?<\/p>\n<p>Nos casos mais comuns que s\u00e3o de viol\u00eancia sexual, nenhuma mulher est\u00e1 protegida pela sua condi\u00e7\u00e3o socioecon\u00f4mica, cor ou escolaridade. Ou seja, n\u00e3o existe uma condi\u00e7\u00e3o protetora para mulher em nenhuma parte do mundo. O que n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o existem mulheres que est\u00e3o mais sujeitas, mais vulner\u00e1veis a sofrer essa viol\u00eancia sexual. Como \u00e9 o caso das mulheres mais pobres, negras e jovens que est\u00e3o mais suscet\u00edveis essa viol\u00eancia e a engravidar dessa viol\u00eancia e tamb\u00e9m aquelas que est\u00e3o vivendo em lugares violentos.<\/p>\n<p>Pela sua experi\u00eancia, qual a import\u00e2ncia do aborto legal? A lei brasileira deveria ser modificada para abranger outros casos?<\/p>\n<p>O Brasil \u00e9 classificado como um dos pa\u00edses com legisla\u00e7\u00e3o extremamente restritiva em rela\u00e7\u00e3o ao aborto. Se retir\u00e1ssemos as condi\u00e7\u00f5es permitidas por lei, entrar\u00edamos para um conjunto de pa\u00edses que t\u00eam uma legisla\u00e7\u00e3o com proibi\u00e7\u00e3o absoluta ao aborto como \u00e9 o caso do Vaticano, Nicar\u00e1gua e Malta.<\/p>\n<p>Temos dificuldades de encontrar um ponto consensual em rela\u00e7\u00e3o ao aborto. No continente africano, em torno de 32% dos pa\u00edses contam com leis que permitem, por exemplo, o aborto em caso de anomalia fetal grave. N\u00e3o estamos falando de eugenia, mas de situa\u00e7\u00f5es de aborto seletivo por uma doen\u00e7a absolutamente limitante da vida do feto. Na Am\u00e9rica Latina e Caribe, cai para 17% os pa\u00edses que t\u00eam uma legisla\u00e7\u00e3o nesse sentido e n\u00f3s n\u00e3o somos um deles.<\/p>\n<p>Vivemos em pa\u00eds com uma cultura restritiva at\u00e9 para casos de anomalia fetal grave em que n\u00e3o temos nenhuma alternativa para cuidar e tratar ainda que os pais queiram, infelizmente n\u00e3o h\u00e1 meio de salvar esses rec\u00e9m-nascidos.  A \u00faltima coisa que conseguimos foi deixar descriminalizar casos de anencefalia, dando um pouco de paz para esses casais que escolhem n\u00e3o levar a gesta\u00e7\u00e3o adiante.<\/p>\n<p>O que impede o avan\u00e7o do debate no pa\u00eds?<\/p>\n<p>As pessoas precisam ter o direito de escolha. \u00c9 interessante pensar que consideramos que o aborto \u00e9 poss\u00edvel desde que esse motivo esteja de acordo com o que concordamos. O Estado brasileiro concorda que uma mulher realize uma interrup\u00e7\u00e3o de gesta\u00e7\u00e3o decorrente de um estupro. Aceita-se o aborto desde que o motivo seja aceito. O aborto n\u00e3o deve ser feito pela minha convic\u00e7\u00e3o, mas pela convic\u00e7\u00e3o de cada mulher, ela que deve decidir se isso \u00e9 poss\u00edvel ou n\u00e3o. Os motivos n\u00e3o deveriam ser do Estado, mas da mulher. <\/p>\n<p>Ela decide em quais circunst\u00e2ncias pode manter a gesta\u00e7\u00e3o. O aborto n\u00e3o deveria ser crime em nenhuma circunst\u00e2ncia, seja qual for o motivo, por uma gravidade fetal, por quest\u00f5es econ\u00f4micas, pelo m\u00e9todo contraceptivo falhou, por n\u00e3o considerar que \u00e9 o momento oportuno. Depois de muito pensar sobre todos os pontos ou as j\u00e1 previstas em lei, as mulheres que deveriam ser donas da decis\u00e3o sobre o aborto, n\u00e3o o Estado brasileiro, um marido ou um vizinho. <\/p>\n<p>Para isso precisar\u00edamos caminhar como os pa\u00edses desenvolvidos entendendo que a criminaliza\u00e7\u00e3o do aborto n\u00e3o tem nenhum sentido, ela n\u00e3o reduz a taxa de aborto, mas ela cria uma obstru\u00e7\u00e3o para que os servi\u00e7os p\u00fablicos e privados prestem assist\u00eancia adequada, empurrando essas mulheres para a clandestinidade. Isso \u00e9 t\u00e3o grave no mundo que 95% de todos os abortos praticados em situa\u00e7\u00e3o de risco acontecem em pa\u00edses em desenvolvimento que mant\u00e9m leis restritivas contra o aborto, esses dados s\u00e3o da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade. Como \u00e9 o caso do Brasil.<\/p>\n<p>Como \u00e9 o aborto nesses pa\u00edses que voc\u00ea cita?<\/p>\n<p>O aborto inseguro n\u00e3o \u00e9 um problema para o Canad\u00e1, Su\u00e9cia, Holanda, Alemanha e Dinamarca. Em pa\u00edses em desenvolvimento sim, o risco a sa\u00fade recai sobre mulheres pobres e pretas, n\u00e3o por que elas abortem mais, mas por estar em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade econ\u00f4mica diante de uma gravidez. N\u00e3o h\u00e1 sentido em manter uma legisla\u00e7\u00e3o que est\u00e1 na contram\u00e3o do resto do mundo. Os pa\u00edses desenvolvidos entendem que a criminaliza\u00e7\u00e3o do aborto n\u00e3o tem efic\u00e1cia para evitar esse fen\u00f4meno e ele precisa ser tratado de outra maneira. A Holanda, por exemplo, n\u00e3o tem nenhum tipo de restri\u00e7\u00e3o para as mulheres, e elas t\u00eam liberdade de escolher se deve ou n\u00e3o manter uma gesta\u00e7\u00e3o independente de qual \u00e9 a circunst\u00e2ncia. L\u00e1 elas t\u00eam o direito de decidir se mant\u00e9m a gravidez at\u00e9 o t\u00e9rmino. Ou seja, n\u00e3o h\u00e1 burocracia do estado, o servi\u00e7o p\u00fablico \u00e9 de qualidade e gratuito para atender essas mulheres.  Por\u00e9m, mesmo elas tendo toda essa facilidade, a Holanda \u00e9 um dos pa\u00edses onde menos as mulheres precisam fazer o aborto.<\/p>\n<p>O que faz a mulher buscar n\u00e3o \u00e9 se a lei permite ou se pro\u00edbe, mas se ela tem uma gravidez indesejada, e esse processo para evitar isso, vai muito al\u00e9m da lei. Ele passa pelo planejamento reprodutivo de alta qualidade, pela redu\u00e7\u00e3o viol\u00eancia de g\u00eanero, uma educa\u00e7\u00e3o sexista e sexual, enfim passam por um monte de coisa que n\u00e3o necessariamente passa tem a ver com a proibi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O que sua experi\u00eancia como m\u00e9dico no sistema p\u00fablico te ensinou?<\/p>\n<p>Depois de todos anos trabalhando com isso, eu entendo que o aborto n\u00e3o deveria ser criminalizado em nenhum circunst\u00e2ncia e que dever\u00edamos oferecer a possibilidade de interromper essa gesta\u00e7\u00e3o de forma segura, quando elas entendessem que n\u00e3o seria poss\u00edvel manter a gesta\u00e7\u00e3o pelos motivos justos para ela e n\u00e3o justo para o Estado. O aborto n\u00e3o \u00e9 um benef\u00edcio que uma mulher deseje, planeje ou almeje alcan\u00e7ar durante a sua vida. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel conceber um pensamento de que porque o aborto \u00e9 permitido, ent\u00e3o as mulheres v\u00e3o querer abortar mais.  Ou que engravidariam porque querem abortar, \u00e9 rid\u00edculo porque \u00e9 um racioc\u00ednio pat\u00e9tico. Acreditar que as mulheres v\u00e3o aproveitar para interromper a gesta\u00e7\u00e3o ou v\u00e3o usar o aborto como m\u00e9todo contraceptivo.<\/p>\n<p>\u00c9 uma indignidade colocar a mulher nessa circunst\u00e2ncia, tratando ela como se fosse portadora de uma estupidez, portadora de uma insufici\u00eancia que precisasse da tutela do Estado e dos homens. N\u00e3o h\u00e1 conex\u00e3o entre o aumento do n\u00famero de aborto ap\u00f3s a descriminaliza\u00e7\u00e3o, embora o grupo pro-vida tente colocar que isso \u00e9 mentira, que esses dados n\u00e3o s\u00e3o verdadeiros, mas isso n\u00e3o existe em nenhum pa\u00eds do mundo. <\/p>\n<p>A bancada evang\u00e9lica sempre foi contra o aborto, mas estamos vivendo um momento em que houve um crescimento do conservadorismo, em que tem sido desengavetado no Congresso propostas que visam retroceder e criminalizar ainda mais o aborto. E por outro n\u00f3s temos um governo em que a sua equipe j\u00e1 se posicionou at\u00e9 contra o aborto legal. Qual \u00e9 a perspectiva do aborto legal nos pr\u00f3ximos anos? Que tipo de luta as mulheres v\u00e3o precisar fazer pra lutar pela sua sa\u00fade?<\/p>\n<p>Eu vejo com bastante indiferen\u00e7a o que pensa sobre aborto o presidente da rep\u00fablica Jair Bolsonaro e a sua ministra Damares. Acho indiferente o que ele pensa, assim como \u00e9 o que eu penso, porque n\u00e3o se trata de impor a toda a popula\u00e7\u00e3o uma cren\u00e7a pessoal, muito menos de cren\u00e7a religiosa como \u00e9 caso da ministra e do presidente. Esse pa\u00eds n\u00e3o \u00e9 evang\u00e9lico, nem cat\u00f3lico, \u00e9 laico. Ou seja, ele n\u00e3o tem que tomar ou deixar de tomar medidas de interesse p\u00fablico fundamentado em um dogma ou uma orienta\u00e7\u00e3o religiosa. Isso \u00e9 um principio fundamental, portanto \u00e9 indiferente qual a posi\u00e7\u00e3o do presidente ou da sua ministra do ponto de vista dos caminhos que a lei tem que tomar. Eles podem n\u00e3o gostar, mas n\u00e3o podem impor uma mudan\u00e7a da lei, mas o legislativo pode fazer isso de diferentes maneiras.<\/p>\n<p>Como por exemplo, pode aprovar um projeto de lei proibindo o aborto no Brasil, ent\u00e3o ser\u00edamos o 6\u00ba pa\u00eds do mundo a ter proibi\u00e7\u00e3o absoluta na contram\u00e3o de tudo. Mas, tamb\u00e9m a lei pode ser alterada por caminhos menos honestos, como tentar inserir no texto da Constitui\u00e7\u00e3o uma frase ou terminologia que coloque a vida como intoc\u00e1vel e inviol\u00e1vel em qualquer circunst\u00e2ncia desde a concep\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Se isso est\u00e1 na constitui\u00e7\u00e3o, a\u00ed torna inconstitucional o artigo 128 do c\u00f3digo penal. O caminho que a bancada religiosa, n\u00e3o s\u00f3 a evang\u00e9lica, mas a conservadora dos deputados e senadores eles t\u00eam caminhado bastante nesse sentido de fazer com que o Brasil que j\u00e1 tem uma lei extremamente restritiva, endure\u00e7a ainda mais e a lei brasileira s\u00f3 tem dois pontos.<\/p>\n<p>N\u00f3s n\u00e3o sabemos como esses projetos ser\u00e3o votados. Evidentemente o desejo da bancada evang\u00e9lica \u00e9 de impor uma vis\u00e3o evang\u00e9lica para todas as pessoas desse pa\u00eds, porque eles se acham donos de uma verdade c\u00f3smica que n\u00e3o est\u00e1 aberta a qualquer tipo de contesta\u00e7\u00e3o. \u00c9 dessa maneira que pensa essa bancada, completamente antidemocr\u00e1tica, mas n\u00e3o \u00e9 porque uma minoria o que quer que ela vai conseguir impor. <\/p>\n<p>Como \u00e9 entendido o aborto legal em casos de risco de morte?<\/p>\n<p>O que a lei brasileira prev\u00ea \u00e9 n\u00e3o punir o aborto praticado por m\u00e9dico, se n\u00e3o houver outro meio de salvar a vida da gestante. N\u00e3o est\u00e1 previsto outra coisa sen\u00e3o evitar a morte. O Estado brasileiro entende que \u00e9 poss\u00edvel interromper uma gesta\u00e7\u00e3o para que uma mulher n\u00e3o morra, mas n\u00e3o est\u00e1 dizendo que \u00e9 poss\u00edvel interromper a gravidez se ela provoca um dano \u00e0 sa\u00fade f\u00edsica ou mental. O governo brasileiro acha razo\u00e1vel e toler\u00e1vel que uma mulher perca a fun\u00e7\u00e3o dos rins, mas n\u00e3o fa\u00e7a um aborto, que uma mulher perca a vis\u00e3o, mas que n\u00e3o fa\u00e7a o aborto, que uma mulher tenha uma grave complica\u00e7\u00e3o neurol\u00f3gica, que n\u00e3o morra, mas que n\u00e3o fa\u00e7a o aborto. Ou seja, ele n\u00e3o \u00e9 permitido para preservar a sa\u00fade da mulher.<\/p>\n<p>A maioria dos pa\u00edses desenvolvidos t\u00eam leis espec\u00edficas em que essas situa\u00e7\u00f5es est\u00e3o previstas, ou seja o aborto como preserva\u00e7\u00e3o da sa\u00fade f\u00edsica ou mental. E eles tratam isso de forma equivalente, colocando dentro do mesmo \u00e2mbito de prote\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade. Mas, o Estado brasileiro n\u00e3o abre essa possibilidade do aborto nesses casos por mais que estejam fundamentados os riscos e por mais graves que sejam. N\u00e3o estamos falando de problemas pequenos, mas que geram grande impacto para sa\u00fade das pessoas, inclusive com agravamento que pode levar \u00e0 morte, mas isso n\u00e3o \u00e9 levado em conta pelo governo brasileiro.<\/p>\n<p>Cerca de 30 a 35% da mortalidade materna brasileira \u2013 toda morte na gravidez, parto ou p\u00f3s-parto \u2013 s\u00e3o por causas indiretas que concomitante com a gesta\u00e7\u00e3o leva a um desfecho letal. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel dizer que esse problema est\u00e1 resolvido se 35% dos casos est\u00e3o associados com problemas de sa\u00fade como circulat\u00f3rios, neurol\u00f3gicos, de cora\u00e7\u00e3o.  Essas quest\u00f5es ficam no \u00e2mbito da percep\u00e7\u00e3o, convic\u00e7\u00e3o ou da cren\u00e7a ou do achismo que \u00e9 muito comum no presidente da rep\u00fablica ou da ministra Damares que transformam essa cren\u00e7a em uma ordem para todas as pessoas quando a evid\u00eancia cient\u00edfica mostra algo completamente diferente.<\/p>\n<p>Edi\u00e7\u00e3o: Pedro Ribeiro Nogueira<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista com o ginecologista Jefferson Drezett Ferreira, que realizou 2,2 mil abortos garantidos por lei \u00e0s mulheres<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-22649","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-5Tj","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22649","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22649"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22649\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":22651,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22649\/revisions\/22651"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22649"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22649"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22649"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}