{"id":22676,"date":"2019-07-06T13:24:13","date_gmt":"2019-07-06T17:24:13","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=22676"},"modified":"2019-07-06T13:25:05","modified_gmt":"2019-07-06T17:25:05","slug":"22676","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2019\/07\/06\/22676\/","title":{"rendered":""},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"22677\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2019\/07\/06\/22676\/f88f589f-bae0-4100-a7ff-2bf4aa237bea\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/F88F589F-BAE0-4100-A7FF-2BF4AA237BEA.jpeg?fit=639%2C651\" data-orig-size=\"639,651\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"F88F589F-BAE0-4100-A7FF-2BF4AA237BEA\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/F88F589F-BAE0-4100-A7FF-2BF4AA237BEA.jpeg?fit=294%2C300\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/F88F589F-BAE0-4100-A7FF-2BF4AA237BEA.jpeg?fit=600%2C611\" class=\"alignnone size-full wp-image-22677\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/F88F589F-BAE0-4100-A7FF-2BF4AA237BEA.jpeg?resize=600%2C611\" alt=\"F88F589F-BAE0-4100-A7FF-2BF4AA237BEA\" width=\"600\" height=\"611\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/F88F589F-BAE0-4100-A7FF-2BF4AA237BEA.jpeg?w=639 639w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/F88F589F-BAE0-4100-A7FF-2BF4AA237BEA.jpeg?resize=294%2C300 294w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p>bacia do rio Amazonas \u00e9 mais ou menos do tamanho da Austr\u00e1lia. Formada ainda na inf\u00e2ncia do planeta pelo choque entre placas tect\u00f4nicas, ela foi o ber\u00e7o de mares interiores e lagos continentais. H\u00e1 milh\u00f5es de anos, ela possui um rico ecossistema tropical, com 400 bilh\u00f5es de \u00e1rvores e uma vegeta\u00e7\u00e3o t\u00e3o densa e \u00famida que chega a ser respons\u00e1vel por 20% do oxig\u00eanio da Terra, pela armazenagem de s\u00e9culos de emiss\u00f5es de carbono e pela absor\u00e7\u00e3o de uma quantidade consider\u00e1vel do calor solar. Um quinto da \u00e1gua doce do mundo passa por seus rios, plantas, solo e ar. Toda esta umidade alimenta e regula diversos sistemas planet\u00e1rios, como a forma\u00e7\u00e3o de \u201crios voadores\u201d por evapotranspira\u00e7\u00e3o \u2013 nome dado ao incessante fluxo de \u00e1gua expelida pela floresta, formando grandes corredores a\u00e9reos que levam chuva \u00e0s regi\u00f5es agr\u00edcolas da Argentina e do Meio-Oeste dos EUA.<!--more--><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div data-reactid=\"195\">\n<p>Nos \u00faltimos 50 anos, por\u00e9m, cerca de um quinto desta mata \u2013 algo em torno de 780.000km\u00b2 \u2013 foi derrubada e queimada no Brasil, em cujo territ\u00f3rio est\u00e3o quase dois ter\u00e7os da Bacia Amaz\u00f4nica. A \u00e1rea devastada \u00e9 maior do que a do Texas \u2013 estado americano com o qual ela guarda agora uma triste semelhan\u00e7a, com seus pastos silenciosos castigados pelo sol, seus campos de soja e suas igrejas evang\u00e9licas. Esse desmatamento hist\u00f3rico \u2013 aliado a n\u00edveis compar\u00e1veis de degrada\u00e7\u00e3o e fragmenta\u00e7\u00e3o florestal \u2013 tem alterado os regimes de chuvas e climas regionais. A libera\u00e7\u00e3o de carbono armazenado na atmosfera \u00e9 t\u00e3o grande que vem neutralizando a atua\u00e7\u00e3o da floresta como sumidouro de carbono \u2013 o maior do mundo depois dos oceanos. Cientistas alertam que a perda de mais um quinto da mata tropical brasileira causaria um c\u00edrculo vicioso conhecido como dieback, que ocorre quando o decl\u00ednio da floresta \u00e9 t\u00e3o grande que acarreta uma perda cada vez maior \u2013 e irrevers\u00edvel \u2013 de biomassa. O colapso da Amaz\u00f4nia lan\u00e7aria na atmosfera uma bomba de carbono de efeitos apocal\u00edpticos; o vapor que reflete a radia\u00e7\u00e3o solar antes que ela se converta em calor desapareceria; e os rios a\u00e9reos e terrestres encolheriam.<\/p>\n<p>A perda catastr\u00f3fica de mais um quinto da floresta tropical brasileira pode virar realidade em uma gera\u00e7\u00e3o. J\u00e1 aconteceu uma vez e est\u00e1 acontecendo de novo.<\/p>\n<div class=\"img-wrap align-center width-fixed\">\n<p><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/theintercept.imgix.net\/wp-uploads\/sites\/1\/2019\/07\/amazon-map-1-1-01-1562257234.png?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-article-large wp-image-257686\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/theintercept.imgix.net\/wp-uploads\/sites\/1\/2019\/07\/amazon-map-1-1-01-1562257234.png?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"amazon-map-1-1-01-1562257234\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"caption source\">Mapa: Soohee Cho\/The Intercept<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<h3 id=\"one\" class=\"chapter chapter--toc-anchor\" data-reactid=\"196\"><span class=\"chapter-number\" data-reactid=\"197\">1<\/span><span class=\"chapter-title\" data-reactid=\"199\">A ZONA VERMELHA<\/span><\/h3>\n<div data-reactid=\"200\">\n<p><u>CERTA MANH\u00c3 DE ABRIL,<\/u> uma piroga equipada com um pequeno motor apareceu na aldeia apurin\u00e3 de Kamarapa, no sudoeste da Amaz\u00f4nia. A d\u00fazia de \u00edndios apertados na estreita embarca\u00e7\u00e3o era a \u00faltima de uma s\u00e9rie de delega\u00e7\u00f5es aguardadas no povoado. Os barcos haviam come\u00e7ado a chegar na manh\u00e3 anterior, atracando no pequeno ancoradouro de lama depois de quatro, seis ou at\u00e9 dez horas de viagem atrav\u00e9s do labirinto de \u00e1guas profundas que \u00e9 o sul da plan\u00edcie aluvial da Amaz\u00f4nia na esta\u00e7\u00e3o das chuvas.<\/p>\n<p>Os apurin\u00e3s estavam reunidos para discutir uma emerg\u00eancia. Nos \u00faltimos anos, criminosos armados de motosserras \u2013 os chamados grileiros \u2013 vinham penetrando cada vez mais nas reservas ind\u00edgenas e outros territ\u00f3rios protegidos da Amaz\u00f4nia. Encorajados pela elei\u00e7\u00e3o de Jair Bolsonaro, eles passaram a agir com ainda mais ousadia nas \u00e1reas mais isoladas do Amazonas, o maior estado do Brasil e dono da maior extens\u00e3o cont\u00ednua de floresta tropical do planeta. \u201cCom Bolsonaro, as invas\u00f5es pioraram e v\u00e3o piorar ainda mais\u201d, diz Francisco Umanari, 42, um cacique apurin\u00e3. \u201cO projeto dele para a Amaz\u00f4nia \u00e9 o agroneg\u00f3cio. Se ningu\u00e9m fizer nada, ele vai atropelar os nossos direitos e permitir uma invas\u00e3o enorme da floresta. A grilagem n\u00e3o \u00e9 nenhuma novidade, mas agora virou uma quest\u00e3o de vida ou morte\u201d, alerta.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"PhotoGrid PhotoGrid--2-column PhotoGrid--xtra-large\" data-reactid=\"201\">\n<div class=\"PhotoGrid-rows\" data-reactid=\"202\">\n<div class=\"PhotoGrid-row PhotoGrid-row--2-of-2\" data-reactid=\"203\">\n<div class=\"PhotoGrid-cell PhotoGrid-cell--1\" data-reactid=\"204\"><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"400\" width=\"600\" decoding=\"async\" class=\"PhotoGrid-photo\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/theintercept.com\/wp-uploads\/sites\/1\/2019\/07\/deforestation-02-1562182241-1562358740-1000x667.jpg?resize=600%2C400&#038;ssl=1\" alt=\"deforestation-02-1562182241-1562358740\" data-reactid=\"205\" \/><\/div>\n<div class=\"PhotoGrid-cell PhotoGrid-cell--2\" data-reactid=\"206\"><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"400\" width=\"600\" decoding=\"async\" class=\"PhotoGrid-photo\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/theintercept.com\/wp-uploads\/sites\/1\/2019\/07\/deforestation-01-1562182244-1562358734-1000x667.jpg?resize=600%2C400&#038;ssl=1\" alt=\"deforestation-01-1562182244-1562358734\" data-reactid=\"207\" \/><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p class=\"PhotoGrid-description\" data-reactid=\"208\"><span class=\"PhotoGrid-description-caption\" data-reactid=\"209\">Imagens de desmatamento em \u00e1reas da Amaz\u00f4nia em 24 de setembro de 2016. A escalada do desmatamento teve um pico em 2004, declinou na d\u00e9cada seguinte, mas come\u00e7ou a crescer de novo em 2012, movida pelo boom das commodities e expans\u00e3o do agroneg\u00f3cio.<\/span><span class=\"PhotoGrid-description-credit\" data-reactid=\"210\">Fotos: Gabriel Uchida<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div data-reactid=\"211\">\n<p>Durante dois dias, uma centena de apurin\u00e3s \u2013 homens, mulheres e crian\u00e7as \u2013 se re\u00fanem em uma maloca de teto de palha na beira do rio para discutir seus temores e planos. \u00c9 uma corrida contra o rel\u00f3gio clim\u00e1tico da Amaz\u00f4nia: em julho e agosto as chuvas cessam, diminuindo o volume dos rios e tornando ainda mais longas as viagens de barco entre as aldeias e as cidades mais pr\u00f3ximas. A esta\u00e7\u00e3o da seca tamb\u00e9m traz novas queimadas. Em 2018, depois que os sat\u00e9lites do governo detectaram colunas de fuma\u00e7a, um grupo de apurin\u00e3s foi ao local e descobriu que mil hectares de sua mata ancestral haviam desaparecido. \u201cFicamos chocados com o tamanho da devasta\u00e7\u00e3o\u201d, conta Marcelino da Silva, um dos membros do grupo. Para criar pastos, os grileiros abriram, a golpes de fac\u00e3o, quil\u00f4metros de caminhos pela mata, para que motocicletas pudessem transportar motosserras e barris de querosene floresta adentro. Como a \u00e1rea era remota demais para a extra\u00e7\u00e3o de madeira, at\u00e9 as \u00e1rvores mais valiosas foram usadas como combust\u00edvel, e sementes de capim foram jogadas de helic\u00f3ptero sobre as cinzas ainda fumegantes.<\/p>\n<p>\u201cSab\u00edamos que a zona vermelha estava vindo em nossa dire\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o esper\u00e1vamos um avan\u00e7o t\u00e3o r\u00e1pido e de todas as dire\u00e7\u00f5es\u201d, diz Marcelino, referindo-se ao termo local para a fronteira agr\u00edcola que avan\u00e7a h\u00e1 cinco d\u00e9cadas sobre o sul do Amazonas. \u201cJ\u00e1 sabemos o que acontece quando o Estado n\u00e3o faz nada. J\u00e1 sabemos o qu\u00e3o r\u00e1pido a floresta pode desaparecer\u201d, afirma.<\/p>\n<blockquote class=\"stylized pull-right\" data-shortcode-type=\"pullquote\" data-pull=\"right\"><p>\u201cA grilagem n\u00e3o \u00e9 nenhuma novidade, mas agora virou uma quest\u00e3o de vida ou morte\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>Segundo o Imazon, um centro de pesquisa brasileiro, nos primeiros meses de 2019 o desmatamento <a href=\"https:\/\/imazon.org.br\/publicacoes\/boletim-do-desmatamento-da-amazonia-legal-janeiro-2019-sad\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aumentou em mais de 50%<\/a> com rela\u00e7\u00e3o ao mesmo per\u00edodo do ano anterior. Metade disso ocorreu ilegalmente em \u00e1reas protegidas, inclusive nas centenas de reservas ind\u00edgenas que cobrem um quarto da Amaz\u00f4nia brasileira e funcionam como uma barreira de prote\u00e7\u00e3o para o resto da floresta (no Amazonas, as terras ind\u00edgenas respondem por quase um ter\u00e7o da \u00e1rea verde do estado).<\/p>\n<p>Os povos ind\u00edgenas da regi\u00e3o j\u00e1 viram esse filme. Durante o desmatamento desenfreado dos anos 1970, 1980 e 1990, eles sofreram com o avan\u00e7o de um \u201carco de fogo\u201d ao longo das primeiras estradas de penetra\u00e7\u00e3o do oeste da Amaz\u00f4nia. No fim da d\u00e9cada de 1980, um verdadeiro crescente de fogo varria a floresta a partir de Bel\u00e9m, passando pelo interior do Par\u00e1, Mato Grosso, Rond\u00f4nia e Acre. As chamas eram mais intensas em Rond\u00f4nia, onde as centenas de queimadas eram vis\u00edveis at\u00e9 do espa\u00e7o.<\/p>\n<div class=\"img-wrap align-bleed full-bleed width-auto\">\n<p><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/theintercept.imgix.net\/wp-uploads\/sites\/1\/2019\/07\/GettyImages-115155264-arc-of-fire-1562182394-1562358978.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"150\" width=\"150\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-thumbnail wp-image-257865\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/theintercept.imgix.net\/wp-uploads\/sites\/1\/2019\/07\/GettyImages-115155264-arc-of-fire-1562182394-1562358978.jpg?resize=150%2C150&#038;ssl=1\" alt=\"Legenda.\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"caption overlayed\">Imagem da devasta\u00e7\u00e3o ap\u00f3s inc\u00eandio na Amaz\u00f4nia em agosto de 1989. Desde a d\u00e9cada de 1930, governos de direita no Brasil promoveram a coloniza\u00e7\u00e3o da floresta em termos nacionalistas.<\/p>\n<p class=\"caption source pullright\">Foto: Gamma-Rapho via Getty Images<\/p>\n<\/div>\n<p>Agora aquele arco de fogo foi reavivado pelo mesmo motivo: o avan\u00e7o da fronteira do agroneg\u00f3cio, dominada pelo gado e pela soja. Bolsonaro e seus aliados no Congresso e no governo do Amazonas est\u00e3o determinados a acelerar este processo em nome do progresso. Para isso, seria necess\u00e1rio extinguir leis e organismos criados para proteger a Amaz\u00f4nia \u2013 que abriga a maioria das esp\u00e9cies da Terra \u2013 e seus habitantes aut\u00f3ctones, cuja pr\u00f3pria exist\u00eancia \u00e9 execrada e negada por Bolsonaro e sua equipe, incapazes de compreender seu modo de vida.<\/p>\n<p><u>AS ASSEMBLEIAS DOS APURIN\u00c3S<\/u>s\u00e3o longas at\u00e9 para os padr\u00f5es das democracias participativas de aldeia. No idioma deste povo, apurin\u00e3 significa \u201co povo que fala\u201d, um h\u00e1bito incentivado pelo gosto deles pelo awyry, um estimulante verde feito de sementes trituradas. Pontuadas aqui e ali pelo som de awyry sendo aspirado atrav\u00e9s de tubos de osso polido, a assembleia do in\u00edcio de abril vai durar at\u00e9 o cair da noite em Kamarapa. H\u00e1 muito o que discutir: o aumento das patrulhas armadas; uma rede de postos de monitoramento equipados com r\u00e1dios; uma maior coopera\u00e7\u00e3o com etnias vizinhas, inclusive com inimigos tradicionais; buscar aliados em potencial no Brasil e junto \u00e0 opini\u00e3o p\u00fablica e governos europeus e asi\u00e1ticos, os principais mercados da carne e soja brasileiras. \u201cEstamos fazendo o que podemos, nos organizando, monitorando e pedindo ajuda\u201d, conta Fabiana Apurin\u00e3, uma jovem de 23 anos que veio de uma aldeia situada a horas dali, rio abaixo. \u201cSomos guerreiros e vamos nos mobilizar para defender o nosso povo e a floresta. Mas precisamos de ajuda\u201d, acrescenta.<\/p>\n<div class=\"img-wrap align-center width-fixed\">\n<p><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/theintercept.imgix.net\/wp-uploads\/sites\/1\/2019\/07\/uru-house-1562182557-1562359042.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-article-large wp-image-257866\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/theintercept.imgix.net\/wp-uploads\/sites\/1\/2019\/07\/uru-house-1562182557-1562359042.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"uru-house-1562182557-1562359042\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"caption\">Uma crian\u00e7a corre dentro de uma casa Uru-Eu-Wau-Wau na vila da tribo em 10 de junho de 2019. O contato com homens brancos nos anos 1970 causou uma guerra e trouxe ao povo ind\u00edgena doen\u00e7as devastadoras. Hoje, apenas 200 membros da tribo ainda est\u00e3o vivos.<\/p>\n<p class=\"caption source\">Foto: Gabriel Uchida<\/p>\n<\/div>\n<blockquote class=\"stylized pull-left\" data-shortcode-type=\"pullquote\" data-pull=\"left\"><p>\u201cJ\u00e1 sabemos o que acontece quando o Estado n\u00e3o faz nada. J\u00e1 sabemos o qu\u00e3o r\u00e1pido a floresta pode desaparecer\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>A assembleia terminou com a reda\u00e7\u00e3o de uma carta para a Funda\u00e7\u00e3o Nacional do \u00cdndio (Funai), \u00f3rg\u00e3o sob ataque do governo, e para o Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal. O documento alerta contra a expans\u00e3o da zona vermelha e o esvaziamento dos organismos estatais de monitoramento e prote\u00e7\u00e3o ambiental. \u201cNosso territ\u00f3rio est\u00e1 sendo invadido, e estamos nos sentindo abandonados\u201d, diz a carta. \u201cPedimos que o governo d\u00ea valor ao nosso passado e \u00e0 nossa profunda liga\u00e7\u00e3o com esta terra. O desmatamento est\u00e1 avan\u00e7ando em nossa dire\u00e7\u00e3o. Nossos territ\u00f3rios devem ser garantidos para nossos filhos, respeitando nossos direitos previstos na Constitui\u00e7\u00e3o. Se o governo n\u00e3o o fizer, n\u00f3s o faremos.\u201d<\/p>\n<\/div>\n<h3 id=\"two\" class=\"chapter chapter--toc-anchor\" data-reactid=\"212\"><span class=\"chapter-number\" data-reactid=\"213\">2<\/span><span class=\"chapter-title\" data-reactid=\"215\">A MARCHA PARA O OESTE<\/span><\/h3>\n<div data-reactid=\"216\">\n<p><u>N\u00c3O H\u00c1 SINAL<\/u> de r\u00e1dio ou celular nas aldeias da plan\u00edcie aluvial do rio Purus, no sul do Amazonas. Aqui as novidades chegam devagar, de barco. Na manh\u00e3 do dia 2 de abril, uma embarca\u00e7\u00e3o traz a Kamarapa a not\u00edcia de que, nas ruas distantes do Rio e de Bras\u00edlia, apoiadores de Bolsonaro haviam ido \u00e0s vias de fato com manifestantes contr\u00e1rios ao decreto que ordenava que as For\u00e7as Armadas comemorassem o anivers\u00e1rio do golpe militar de 1964. Bolsonaro, ex-capit\u00e3o do ex\u00e9rcito, havia feito uma campanha com elogios \u00e0s pol\u00edticas de terra arrasada e tortura da ditadura. Em aldeias como Kamarapa, onde o governo militar \u00e9 lembrado por um programa que, na pr\u00e1tica, era uma campanha de exterm\u00ednio, a not\u00edcia foi recebida como uma declara\u00e7\u00e3o de guerra.<\/p>\n<p>\u201cBolsonaro est\u00e1 aperfei\u00e7oando o modelo da ditadura. \u00c9 o mesmo racismo, os mesmos planos para a Amaz\u00f4nia\u201d, diz um morador de 34 anos chamado Wallace. O pingente com a imagem de Che Guevara em seu colar de dentes de on\u00e7a e seus discursos inflamados, permeados de amea\u00e7as separatistas, ilustram bem a ala militante da Coordena\u00e7\u00e3o das Organiza\u00e7\u00f5es Ind\u00edgenas da Amaz\u00f4nia Brasileira (Coiab), da qual ele \u00e9 membro consultivo. \u201cEsse governo usa a mesma linguagem que os generais usaram quando tentaram destruir o nosso povo e a nossa cultura. Mas n\u00f3s resistimos e sobrevivemos. E vamos resistir de novo. Precisamos agora \u00e9 de coragem\u201d, declara.<\/p>\n<p>A posi\u00e7\u00e3o de Bolsonaro com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Amaz\u00f4nia pertence a uma tradi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que precede a ditadura militar. Ela mistura autoritarismo e o medo de uma suposta vulnerabilidade da Amaz\u00f4nia \u00e0 conquista estrangeira \u2013 ou, em sua vers\u00e3o moderna, \u00e0 \u201cinternacionaliza\u00e7\u00e3o\u201d. Nos anos 1930, o presidente Get\u00falio Vargas, um simpatizante do fascismo, convocou uma \u201cMarcha para o Oeste\u201d com o objetivo de povoar, desenvolver e defender a posse da floresta contra a cobi\u00e7a de outros pa\u00edses. Trinta anos depois, o governo militar retomou o sonho n\u00e3o realizado de Vargas com planos de desenvolvimento para \u201cinundar de civiliza\u00e7\u00e3o\u201d a Amaz\u00f4nia. Engenheiros militares comandavam equipes de oper\u00e1rios que trabalhavam o dia inteiro para abrir as primeiras estradas a oeste do Mato Grosso \u2013 muitas delas copiavam o tra\u00e7ado das antigas trilhas de ca\u00e7a dos \u00edndios. An\u00fancios do governo na TV ofereciam terras e cr\u00e9dito para incentivar a emigra\u00e7\u00e3o do superpopuloso litoral e das terras j\u00e1 cultivadas do cerrado. Imaginava-se uma Amaz\u00f4nia transformada: os colonos fariam daquele ermo impenetr\u00e1vel um centro de pecu\u00e1ria e pequenas propriedades agr\u00edcolas, todas conectadas a portos mar\u00edtimos e ao mercado global por uma vasta rede de estradas. \u00cdndios ou n\u00e3o, os habitantes da floresta que levavam um modo de vida tradicional teriam que se adaptar e abrir passagem. \u201cA ocupa\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia ser\u00e1 conduzida estrategicamente como uma guerra\u201d, disse Castelo Branco, um dos l\u00edderes do golpe de 1964.<\/p>\n<div class=\"img-wrap align-bleed xtra-large-bleed width-auto\">\n<p><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/theintercept.imgix.net\/wp-uploads\/sites\/1\/2019\/07\/AP_6403130328-brazil-coup-1562184245-1562359192.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"150\" width=\"150\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-thumbnail wp-image-257867\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/theintercept.imgix.net\/wp-uploads\/sites\/1\/2019\/07\/AP_6403130328-brazil-coup-1562184245-1562359192.jpg?resize=150%2C150&#038;ssl=1\" alt=\"Rally in 1964\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"caption overlayed\">Um menino observa soldados do Ex\u00e9rcito num com\u00edcio do ent\u00e3o presidente Jo\u00e3o Goulart, no Rio, em mar\u00e7o de 1964. O atual presidente Jair Bolsonaro, um ex-capit\u00e3o do Ex\u00e9rcito, \u00e9 um nost\u00e1lgico da ditadura que dep\u00f4s Goulart e governou o pa\u00eds por 21 anos.<\/p>\n<p class=\"caption source pullright\">Foto: Dom\u00edcio Pinheiro\/Ag\u00eancia Estado via AP<\/p>\n<\/div>\n<p>Contudo, como tantos outros sonhos amaz\u00f4nicos, os planos de ocupa\u00e7\u00e3o da selva malograram. O desafio log\u00edstico de colonizar o \u201cinferno verde\u201d era maior do que se imaginava na caserna \u2013 e a qualidade do solo, muito pior. Os generais n\u00e3o conseguiram construir seu para\u00edso de pequenos propriet\u00e1rios sobre as cinzas da Amaz\u00f4nia. Mas as cinzas, essas ficaram. Em 1988, quando uma nova Constitui\u00e7\u00e3o foi promulgada, tr\u00eas anos depois do fim da ditadura, mais de um d\u00e9cimo da Amaz\u00f4nia brasileira havia sido queimada ou degradada por colonos e empres\u00e1rios, com o apoio do governo. Os \u00edndios sofreram ainda mais: se, no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, seu n\u00famero era estimado em alguns milh\u00f5es, no fim da d\u00e9cada de 1980 s\u00f3 restavam cerca de 200 mil.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o a popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena quadruplicou, um renascimento que se deve aos esfor\u00e7os do Brasil em conter e reverter a onda de desmatamento que come\u00e7ou a se intensificar no fim dos anos 1960. A Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 demarcou 43% da Amaz\u00f4nia como zona proibida para a atividade industrial e o desmatamento \u2013 uma \u00e1rea que inclui centenas de novos parques, reservas e mais de 400 terras ind\u00edgenas, equivalente a duas vezes o tamanho da Espanha \u2013, e estabeleceu normas e limites para os 57% restantes. Foi criado um \u00f3rg\u00e3o de fiscaliza\u00e7\u00e3o, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renov\u00e1veis (Ibama), e a Funai foi reformulada para ajudar comunidades ind\u00edgenas a protegerem suas terras e desenvolverem atividades silv\u00edcolas sustent\u00e1veis. Al\u00e9m disso, os bancos de desenvolvimento internacionais endureceram os requisitos ambientais e sociais de ajudas e empr\u00e9stimos, e ONGs e ativistas organizaram boicotes internacionais de sucesso, culminando na hist\u00f3rica <a href=\"https:\/\/news.mongabay.com\/2015\/01\/brazils-soy-moratorium-dramatically-reduced-amazon-deforestation\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Morat\u00f3ria da Soja<\/a>, em 2006. Embora as queimadas e derrubadas n\u00e3o tenham cessado, a taxa de desmatamento, que havia atingido seu auge em 2004, entrou em um per\u00edodo de decl\u00ednio.<\/p>\n<blockquote class=\"stylized pull-center\" data-shortcode-type=\"pullquote\" data-pull=\"center\"><p>Os \u00edndios sofreram ainda mais: se, no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, seu n\u00famero era estimado em alguns milh\u00f5es, no fim da d\u00e9cada de 1980 s\u00f3 restavam cerca de 200 mil.<\/p><\/blockquote>\n<p>O boom das <em>commodities<\/em> da \u00faltima d\u00e9cada interrompeu essa tend\u00eancia. O desmatamento \u2013 legal e ilegal \u2013 voltou a aumentar em 2012, impelido por um agroneg\u00f3cio em expans\u00e3o e pelo crescimento do poder pol\u00edtico dos ruralistas, que desejam levantar as restri\u00e7\u00f5es trazidas pela redemocratiza\u00e7\u00e3o \u00e0 explora\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia. Essa bancada apoiou um <a href=\"https:\/\/theintercept.com\/2016\/05\/19\/assista-primeira-entrevista-com-a-presidente-dilma-rousseff-depois-de-sua-suspensao\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">golpe parlamentar<\/a> contra a presidenta de centro-esquerda Dilma Rousseff, em 2016, e ajudou a blindar seu sucessor, Michel Temer, cujo governo concedeu anistia a grileiros e tentou <a href=\"https:\/\/www.reuters.com\/article\/us-brazil-slavery\/brazils-fight-against-slavery-seen-at-risk-with-new-labor-rules-idUSKBN1CO2PW\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">afrouxar as leis antiescravid\u00e3o<\/a> do pa\u00eds. Em 2016, o Mato Grosso se tornou o primeiro estado a revogar a proibi\u00e7\u00e3o do \u201ccorrent\u00e3o\u201d, um m\u00e9todo de retirada de vegeta\u00e7\u00e3o que consiste em uma grande corrente puxada por dois tratores, destruindo tudo em seu caminho.<\/p>\n<div class=\"img-wrap align-bleed xtra-large-bleed width-auto\">\n<p><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/theintercept.imgix.net\/wp-uploads\/sites\/1\/2019\/07\/funai-sign-1562184449-1562359337.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"150\" width=\"150\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-thumbnail wp-image-257868\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/theintercept.imgix.net\/wp-uploads\/sites\/1\/2019\/07\/funai-sign-1562184449-1562359337.jpg?resize=150%2C150&#038;ssl=1\" alt=\"funai-sign-1562184449-1562359337\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"caption overlayed\">Placa que indica \u00e1rea administrada pela Funai furada por tiros. O \u00f3rg\u00e3o de prote\u00e7\u00e3o aos ind\u00edgenas n\u00e3o consegue conter o ataque de grileiros.<\/p>\n<p class=\"caption source pullright\">Foto: Gabriel Uchida<\/p>\n<\/div>\n<p><u>MEU GUIA EM KAMARAPA<\/u> e em outras aldeias do sul da plan\u00edcie aluvial do Amazonas \u00e9 Luiz Fernandes, um homem grande e simp\u00e1tico, mas cuja espessa barba negra muitas vezes esconde um semblante taciturno. Grande conhecedor da hist\u00f3ria, biologia e culturas do oeste da Amaz\u00f4nia, Fernandes se encaixa no estere\u00f3tipo rom\u00e2ntico do funcion\u00e1rio da Funai: respeitoso e defensor de seus parceiros ind\u00edgenas, mas consciente do paternalismo e de outros males entranhados na cultura institucional do \u00f3rg\u00e3o. Ao v\u00ea-lo entregando barris de combust\u00edvel e conversando com caciques no caminho para Kamarapa, \u00e9 evidente que se trata de uma rela\u00e7\u00e3o de afeto e confian\u00e7a m\u00fatua.<\/p>\n<p>Enquanto nossa lancha desce o rio, contornando grandes troncos submersos, Fernandes descreve uma dupla emerg\u00eancia nas comunidades do interior da floresta, onde ele passa a maior parte do tempo. \u201cPor volta de 2012, as coisas come\u00e7aram a piorar todo ano\u201d, conta. \u201cMais invas\u00f5es, queimadas maiores, cortes no or\u00e7amento da Funai e do Ibama. Desde a elei\u00e7\u00e3o, a situa\u00e7\u00e3o piora a cada dia. Todo santo dia tem alguma coisa\u201d, lamenta.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"PhotoGrid PhotoGrid--2-column PhotoGrid--xtra-large\" data-reactid=\"217\">\n<div class=\"PhotoGrid-rows\" data-reactid=\"218\">\n<div class=\"PhotoGrid-row PhotoGrid-row--2-of-2\" data-reactid=\"219\">\n<div class=\"PhotoGrid-cell PhotoGrid-cell--1\" data-reactid=\"220\"><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"400\" width=\"600\" decoding=\"async\" class=\"PhotoGrid-photo\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/theintercept.com\/wp-uploads\/sites\/1\/2019\/07\/illegal-logging-02-1562184675-1562359413-1000x667.jpg?resize=600%2C400&#038;ssl=1\" alt=\"illegal-logging-02-1562184675-1562359413\" data-reactid=\"221\" \/><\/div>\n<div class=\"PhotoGrid-cell PhotoGrid-cell--2\" data-reactid=\"222\"><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"400\" width=\"600\" decoding=\"async\" class=\"PhotoGrid-photo\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/theintercept.com\/wp-uploads\/sites\/1\/2019\/07\/illegal-logging-01-1562184692-1562359408-1000x667.jpg?resize=600%2C400&#038;ssl=1\" alt=\"illegal-logging-01-1562184692-1562359408\" data-reactid=\"223\" \/><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p class=\"PhotoGrid-description\" data-reactid=\"224\"><span class=\"PhotoGrid-description-caption\" data-reactid=\"225\">Uma patrulha da Funai e membros da tribo Uru-Eu-Wau-Wau flagram a derrubada de \u00e1rvores de grileiros na reserva em abril de 2018. Segundo os ind\u00edgenas, um grupo de 15 homens invadiu o local de derrubou 20 km de florestas em uma semana.<\/span><span class=\"PhotoGrid-description-credit\" data-reactid=\"226\">Fotos: Gabriel Uchida<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div data-reactid=\"227\">\n<p>Horas depois de assumir a presid\u00eancia, no dia 2 de janeiro, Bolsonaro entregou a pol\u00edtica florestal do pa\u00eds ao Minist\u00e9rio da Agricultura, administrada pela sisuda ruralista Tereza Cristina Costa. Tamb\u00e9m foi inclu\u00edda no pacote a demarca\u00e7\u00e3o de terras ind\u00edgenas, tradicional prerrogativa da Funai, entregue \u00e0 secret\u00e1ria adjunta de Assuntos Fundi\u00e1rios, Luana Ruiz, herdeira de uma conhecida fam\u00edlia do agroneg\u00f3cio. A Funai em si foi transferida do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a para a pasta de Direitos Humanos, tamb\u00e9m rebaixada (o Congresso acabou <a href=\"https:\/\/www.reuters.com\/article\/us-brazil-politics-indigenous\/brazil-lawmakers-undo-bolsonaro-move-to-weaken-indigenous-agency-idUSKCN1ST2HH\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">revertendo<\/a> a decis\u00e3o). Em seguida, o governo mutilou o or\u00e7amento da Funda\u00e7\u00e3o. Desde janeiro, a Funai vem operando com 70% do or\u00e7amento previsto. V\u00e1rios postos de monitoramento em \u00e1reas de alto risco na Amaz\u00f4nia foram abandonados, e opera\u00e7\u00f5es j\u00e1 planejadas tiveram que ser reduzidas, muitas vezes deixando apenas um funcion\u00e1rio para mediar conflitos violentos em \u00e1reas remotas da floresta.<\/p>\n<blockquote class=\"stylized pull-center\" data-shortcode-type=\"pullquote\" data-pull=\"center\"><p>\u201cOs \u00edndios entenderam o v\u00ednculo entre esses sistemas fr\u00e1geis muito antes de n\u00f3s: a conex\u00e3o entre as florestas e os rios, como o desmatamento afeta a chuva e o clima\u2026 Quando ainda n\u00e3o se falava de mudan\u00e7a clim\u00e1tica, eles j\u00e1 tentavam nos alertar\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>O ministro do Meio Ambiente de Bolsonaro, Ricardo Salles, 44, cortou funcion\u00e1rios e verbas do parceiro mais importante da Funai no governo, o Ibama. Ele substituiu o conselho do Instituto Chico Mendes de Conserva\u00e7\u00e3o da Biodiversidade (ICMBio) <a href=\"https:\/\/riotimesonline.com\/brazil-news\/rio-politics\/national-politics\/environment-minister-slashes-own-budget-and-has-military-occupy-key-posts\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">por oficiais<\/a>da PM de S\u00e3o Paulo, parte do que o seman\u00e1rio Brasil de Fato chama de \u201cmilitariza\u00e7\u00e3o do setor ambiental\u201d. Uma das exce\u00e7\u00f5es dignas de nota \u00e9 a Coordena\u00e7\u00e3o de Pol\u00edticas de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel: depois de demitir todo mundo, Salles deixou-a vazia.<\/p>\n<p>Fernandes \u00e9 pessimista na hora de explicar o que est\u00e1 em jogo: \u201cDaqui a 30 anos, quem sabe 15 com este governo, talvez todas as terras daqui at\u00e9 L\u00e1brea j\u00e1 estejam desmatadas\u201d, prognostica. L\u00e1brea, a cidade mais pr\u00f3xima, est\u00e1 a centenas de quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia dali.<\/p>\n<p>\u201cIsso seria o fim do Purus e da infinidade de plantas que os apurin\u00e3s estudam h\u00e1 tanto tempo. O Purus e seus afluentes des\u00e1guam no Solim\u00f5es [trecho superior do rio Amazonas], ent\u00e3o isso teria s\u00e9rias consequ\u00eancias mais ao norte, aonde o desmatamento ainda n\u00e3o chegou. Os \u00edndios entenderam o v\u00ednculo entre esses sistemas fr\u00e1geis muito antes de n\u00f3s: a conex\u00e3o entre as florestas e os rios, como o desmatamento afeta a chuva e o clima\u2026 Quando ainda n\u00e3o se falava de mudan\u00e7a clim\u00e1tica, eles j\u00e1 tentavam nos alertar\u201d, diz Fernandes.<\/p>\n<div class=\"img-wrap align-bleed full-bleed width-auto\">\n<p><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/theintercept.imgix.net\/wp-uploads\/sites\/1\/2019\/07\/cattle-road-1562184830-1562359604.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"150\" width=\"150\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-thumbnail wp-image-257871\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/theintercept.imgix.net\/wp-uploads\/sites\/1\/2019\/07\/cattle-road-1562184830-1562359604.jpg?resize=150%2C150&#038;ssl=1\" alt=\"cattle-road-1562184830-1562359604\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"caption overlayed\">Gado ao longo da rodovia BR-364, perto do munic\u00edpio de Ariquemes, em Rond\u00f4nia, em 2018. O Brasil tem uma pecu\u00e1ria de US$ 4 bi, mas segundo uma estimativa, um hectare de soja ou gado pode render entre US$ 25 a US$250, enquanto o de uma floresta com manejo sustent\u00e1vel rende US$ 850.<\/p>\n<p class=\"caption source pullright\">Foto: Gabriel Uchida<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<h3 id=\"three\" class=\"chapter chapter--toc-anchor\" data-reactid=\"228\"><span class=\"chapter-number\" data-reactid=\"229\">3<\/span><span class=\"chapter-title\" data-reactid=\"231\">A ESTRADA<\/span><\/h3>\n<div data-reactid=\"232\">\n<p><u>PERCORRENDO O INTERIOR<\/u> de Rond\u00f4nia ao longo das duas faixas da BR-364, \u00e9 preciso muita imagina\u00e7\u00e3o para visualizar a paisagem que Arima Jupa\u00fa conheceu na inf\u00e2ncia. No fim dos anos 1960, os pastos que hoje v\u00e3o at\u00e9 onde a vista alcan\u00e7a estavam cobertos de mata virgem, exuberante e cheia de vida. Ele n\u00e3o sabia o que era a fronteira da floresta, porque nenhum dos 10 mil jupa\u00fas que ali viviam jamais havia visto tal coisa. Foi s\u00f3 em 1970, quando os engenheiros militares abriram uma estrada de terra ligando o Mato Grosso a Porto Velho, que ele conheceu na pr\u00e1tica o conceito de fronteira. \u00c0 medida em que os colonos iam chegando \u2013 meio milh\u00e3o ao longo da d\u00e9cada \u2013, os jupa\u00fas aprenderam a temer a beira da mata como um lugar de doen\u00e7as e viol\u00eancia, uma gigantesca l\u00e2mina que os deixaria \u00e0 beira da extin\u00e7\u00e3o. \u201cN\u00f3s fug\u00edamos, e toda vez que olh\u00e1vamos l\u00e1 do alto, a sensa\u00e7\u00e3o era de seguran\u00e7a\u201d, recorda Arima, um dos 200 jupa\u00fas que restaram. \u201cAch\u00e1vamos que eles nunca nos alcan\u00e7ariam. Que a floresta era grande demais\u201d, acrescenta.<\/p>\n<p>O homem branco n\u00e3o parava de chegar. Ele vinha semear a terra, criar gado, extrair madeira e garimpar ouro e cassiterita, o principal min\u00e9rio do estanho. Os colonos mais agressivos formavam esquadr\u00f5es da morte e massacravam todos os \u00edndios que encontrassem. Uma das primeiras lembran\u00e7as de Arima foi a pele do seu tio esticada por peda\u00e7os de pau, como um espantalho \u2013 um recado de um grupo de garimpeiros do local. Os jupa\u00fas reagiram. \u201cFalamos para os brancos irem embora, mas eles n\u00e3o ouviram\u201d, conta Arima, que, ainda adolescente, comandava os ataques e era famoso pela pontaria no arco. \u201cN\u00f3s os matamos e queimamos as casas deles. Perdemos a conta de quantos\u201d, relata.<\/p>\n<blockquote class=\"stylized pull-right\" data-shortcode-type=\"pullquote\" data-pull=\"right\"><p>O desmatamento est\u00e1 desestabilizando microclimas e climas regionais no oeste da Amaz\u00f4nia, causando um atraso percept\u00edvel no in\u00edcio da esta\u00e7\u00e3o das chuvas, que est\u00e1 ficando mais curta e mais quente.<\/p><\/blockquote>\n<p>Em 1981, dizimados pela tuberculose, gripe e sarampo, os l\u00edderes dos \u00faltimos jupa\u00fas se reuniram com a Funai para negociar uma tr\u00e9gua. \u201cAceitamos a paz porque eles disseram que protegeriam a nossa terra\u201d, recorda. (Durante a reuni\u00e3o, por causa de um mal-entendido, um funcion\u00e1rio pensou que a tribo se chamava uru-eu-wau-wau, nome pelo qual os jupa\u00fas ficaram conhecidos mundialmente.)<\/p>\n<p>Por volta da mesma \u00e9poca, funcion\u00e1rios do Banco Mundial em Washington aceitaram as garantias dos generais brasileiros, que pediam 1,6 bilh\u00e3o de d\u00f3lares para tirar sua desastrosa ocupa\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia da lama \u2013 literalmente. A BR-364, um art\u00e9ria crucial para o plano de desenvolvimento da regi\u00e3o, virava um verdadeiro atoleiro no inverno, a esta\u00e7\u00e3o das chuvas \u2013 e a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o era muito melhor nos meses de estio. Para desbravar o oeste, a estrada precisava ser pavimentada. O Banco Mundial apoiou o projeto, apesar de um parecer interno que alertava: a pavimenta\u00e7\u00e3o de 1.400km de estrada intensificaria as cat\u00e1strofes ambientais e humanas que j\u00e1 ocorriam na regi\u00e3o. E foi exatamente o que aconteceu. Quando o clamor da comunidade internacional obrigou o banco a suspender os pagamentos, cinco anos depois, Rond\u00f4nia tinha a maior taxa de desmatamento do Brasil, acompanhada de um aumento de 3.000% no n\u00famero de cabe\u00e7as de gado. O estado estava a caminho de se tornar o primeiro \u201cdeserto verde\u201d da Amaz\u00f4nia at\u00e9 1990.<\/p>\n<div class=\"img-wrap align-center width-fixed\">\n<p><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/theintercept.imgix.net\/wp-uploads\/sites\/1\/2019\/07\/first-contact-1562184966-1562360758.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-article-large wp-image-257876\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/theintercept.imgix.net\/wp-uploads\/sites\/1\/2019\/07\/first-contact-1562184966-1562360758.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"first-contact-1562184966-1562360758\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"caption\">Tari, um membro da tribo Jupa\u00fa, como os Uru-Eu-Wau-Wau se autodeclaram, segura uma foto do primeiro contato da tribo com servidores da Funai. Embora ainda haja povos isolados, muitos ind\u00edgenas querem contato com o mundo al\u00e9m da aldeia e pensam juntos em modelos alternativos de desenvolvimento que preserve a floresta.<\/p>\n<p class=\"caption source\">Foto: Gabriel Uchida<\/p>\n<\/div>\n<p>Saio de Porto Velho pela BR-364, acompanhado do filho de Arima, Awapu, um jovem de 27 anos e fala mansa. Ele mora em uma aldeia de quatro fam\u00edlias em uma reserva ind\u00edgena no sul de Rond\u00f4nia com os pais, a esposa e dois filhos. Nos dias seguintes, vou acompanh\u00e1-lo em patrulhas na fronteira do territ\u00f3rio Uru-Eu-Wau-Wau, onde o n\u00famero de grileiros j\u00e1 voltou ao patamar da gera\u00e7\u00e3o anterior.<\/p>\n<p>Ao longo da espinha dorsal da pecu\u00e1ria de Rond\u00f4nia \u2013 uma ind\u00fastria de 15 bilh\u00f5es de reais \u2013 a paisagem \u00e9 s\u00f3 pasto e campos de soja. Enquanto percorremos a estrada, Awapu descreve as v\u00e1rias zonas de conflito das terras ind\u00edgenas do estado. No oeste, os karipunas enfrentam uma invas\u00e3o em tr\u00eas frentes; no nordeste, a mata dos suru\u00eds foi t\u00e3o devastada pelo garimpo ilegal de diamante que as opini\u00f5es na comunidade se dividem entre resistir ou participar. (Em mar\u00e7o, o ministro de Minas e Energia anunciou que acabaria com as restri\u00e7\u00f5es \u00e0 minera\u00e7\u00e3o em reservas ind\u00edgenas.)<\/p>\n<p>Segundo Awapu, o problema n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 as terras ind\u00edgenas. A extra\u00e7\u00e3o ilegal de madeira est\u00e1 crescendo nos parques e reservas naturais do estado, uma consequ\u00eancia direta dos acenos e pol\u00edticas do governo. Em abril, Bolsonaro <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ambiente\/2019\/04\/bolsonaro-desautoriza-operacao-em-andamento-do-ibama-contra-madeira-ilegal-em-ro.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">interveio pessoalmente<\/a> para impedir que agentes do Ibama destru\u00edssem m\u00e1quinas confiscadas em uma opera\u00e7\u00e3o contra madeireiros ilegais na Floresta Nacional do Jamari, em Rond\u00f4nia. A prerrogativa de destruir o caro maquin\u00e1rio de madeireiros e garimpeiros ilegais \u00e9 a ferramenta de dissuas\u00e3o mais eficaz do Ibama. Mas o \u00f3rg\u00e3o foi desautorizado pelo presidente em um v\u00eddeo postado nas redes sociais: \u201cN\u00e3o \u00e9 pra queimar nada, maquin\u00e1rio, trator, seja o que for, n\u00e3o \u00e9 esse procedimento, n\u00e3o \u00e9 essa a nossa orienta\u00e7\u00e3o\u201d, sentenciou.<\/p>\n<p>Contudo, a orienta\u00e7\u00e3o de queimar \u00e1rvores em vez de m\u00e1quinas ilegais pode prejudicar o pr\u00f3prio agroneg\u00f3cio. J\u00e1 existem estudos que confirmam o que os \u00edndios come\u00e7aram a notar h\u00e1 d\u00e9cadas: o desmatamento est\u00e1 desestabilizando microclimas e climas regionais no oeste da Amaz\u00f4nia, causando um atraso percept\u00edvel no in\u00edcio da esta\u00e7\u00e3o das chuvas, que est\u00e1 ficando mais curta e mais quente.<\/p>\n<p>Se as terras ind\u00edgenas de Rond\u00f4nia forem devastadas, o estado virar\u00e1 sin\u00f4nimo de desastre pela segunda vez na hist\u00f3ria recente, levando consigo a atividade econ\u00f4mica constru\u00edda sobre as cinzas da floresta. \u201c\u00c9 nas matas protegidas de Uru-Eu-Wau-Wau que se encontram as principais bacias hidrogr\u00e1ficas do estado\u201d, diz Daniel Peixoto, um delegado da Policial Federal que comandou opera\u00e7\u00f5es contra a m\u00e1fia dos grileiros no territ\u00f3rio ind\u00edgena de Uru-Eu-Wau-Wau. \u201cToda a nossa \u00e1gua vem de l\u00e1. \u00c9 por isso que n\u00e3o temos seca. Sua conserva\u00e7\u00e3o \u00e9 estrat\u00e9gica at\u00e9 para o agroneg\u00f3cio e a pecu\u00e1ria\u201d, explica.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"PhotoGrid PhotoGrid--2-column PhotoGrid--xtra-large\" data-reactid=\"233\">\n<div class=\"PhotoGrid-rows\" data-reactid=\"234\">\n<div class=\"PhotoGrid-row PhotoGrid-row--2-of-2\" data-reactid=\"235\">\n<div class=\"PhotoGrid-cell PhotoGrid-cell--1\" data-reactid=\"236\"><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"400\" width=\"600\" decoding=\"async\" class=\"PhotoGrid-photo\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/theintercept.com\/wp-uploads\/sites\/1\/2019\/07\/patrol-01-1562185493-1562360819-1000x667.jpg?resize=600%2C400&#038;ssl=1\" alt=\"patrol-01-1562185493-1562360819\" data-reactid=\"237\" \/><\/div>\n<div class=\"PhotoGrid-cell PhotoGrid-cell--2\" data-reactid=\"238\"><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"400\" width=\"600\" decoding=\"async\" class=\"PhotoGrid-photo\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/theintercept.com\/wp-uploads\/sites\/1\/2019\/07\/patrol-02-1562185508-1562360824-1000x666.jpg?resize=600%2C400&#038;ssl=1\" alt=\"patrol-02-1562185508-1562360824\" data-reactid=\"239\" \/><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"PhotoGrid-row PhotoGrid-row--2-of-2\" data-reactid=\"240\">\n<div class=\"PhotoGrid-cell PhotoGrid-cell--1\" data-reactid=\"241\"><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"400\" width=\"600\" decoding=\"async\" class=\"PhotoGrid-photo\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/theintercept.com\/wp-uploads\/sites\/1\/2019\/07\/patrol-03-1562185554-1562360830-1000x667.jpg?resize=600%2C400&#038;ssl=1\" alt=\"patrol-03-1562185554-1562360830\" data-reactid=\"242\" \/><\/div>\n<div class=\"PhotoGrid-cell PhotoGrid-cell--2\" data-reactid=\"243\"><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"400\" width=\"600\" decoding=\"async\" class=\"PhotoGrid-photo\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/theintercept.com\/wp-uploads\/sites\/1\/2019\/07\/patrol-04-1562185569-1562360835-1000x667.jpg?resize=600%2C400&#038;ssl=1\" alt=\"patrol-04-1562185569-1562360835\" data-reactid=\"244\" \/><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p class=\"PhotoGrid-description\" data-reactid=\"245\"><span class=\"PhotoGrid-description-caption\" data-reactid=\"246\">Membros da tribo Jupa\u00fa, incluindo Arima e seu filho, Awapu, fazendo uma ronda para detectar invas\u00f5es ou grilagem. A reserva abriga importantes bacias hidrogr\u00e1ficas que servem toda a floresta.<\/span><span class=\"PhotoGrid-description-credit\" data-reactid=\"247\">Fotos: Gabriel Uchida<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div data-reactid=\"248\">\n<p><u>AO RAIAR DO DIA,<\/u> vou com Awapu tomar caf\u00e9 e suco de a\u00e7a\u00ed sem a\u00e7\u00facar antes de embarcar em uma piroga em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 ponta noroeste de Uru-Eu-Wau-Wau, um territ\u00f3rio de quase 18.000km\u00b2 no sul de Rond\u00f4nia. A \u00e1rea est\u00e1 no cora\u00e7\u00e3o da zona vermelha local, onde o n\u00famero de invasores pagos por pecuaristas est\u00e1 em alta. Dois outros moradores nos acompanham: Djurip, com seu arco e flechas de bambu, e Potei, armado de uma carabina enferrujada. \u201cDepois da elei\u00e7\u00e3o, os grileiros ficaram mais atrevidos\u201d, diz Awapu enquanto amarramos a canoa para entrar na mata. \u201cEles sabem que Bolsonaro pensa como eles \u2013 que a gente n\u00e3o trabalha e n\u00e3o merece tanta terra. Dizem que o presidente vai dar nosso territ\u00f3rio para eles. Eles acham que ningu\u00e9m pode det\u00ea-los\u201d, afirma.<\/p>\n<blockquote class=\"stylized pull-right\" data-shortcode-type=\"pullquote\" data-pull=\"right\"><p>A Comiss\u00e3o Pastoral da Terra registrou mais de 600 assassinatos ligados \u00e0 luta pela terra desde 2003, a maioria deles na Amaz\u00f4nia, e um aumento de 20% de casos em 2018.<\/p><\/blockquote>\n<p>Passamos a manh\u00e3 quase toda percorrendo em sil\u00eancio uma trilha de monitoramento. A mata \u00e9 densa e adornada de cip\u00f3s. Potei vai na frente. Ele para ao topar com outra trilha \u2013 mais rudimentar do que a nossa, por\u00e9m perfeitamente vis\u00edvel. Os homens se espalham para investigar. Eles voltam de cara fechada. Awapu se ajoelha, esfrega a terra e desenha um \u00e2ngulo reto com um graveto. \u201cEles come\u00e7am com essa forma de \u2018L\u2019\u201d, diz ele, apontando para o caminho. \u201cQuinze homens de fac\u00e3o podem abrir uma trilha de 20km em uma semana. Para marcar o terreno, fazer entradas. Quando as chuvas passam, eles voltam com motosserras para cortar as \u00e1rvores menores e abrir caminho para os tratores, se houver alguma estrada por perto. O resto eles queimam. Em novembro, antes de as chuvas voltarem, eles plantam capim, que cresce rapidinho. E logo aquilo vira pasto. Ent\u00e3o eles vendem para algum fazendeiro, que diz n\u00e3o ter conhecimento de nenhuma grilagem. \u00c9 uma esp\u00e9cie de lavagem\u201d, explica.<\/p>\n<p>Para interromper o processo antes da queimada e do plantio, \u00e9 preciso enfrentar grileiros armados em \u00e1reas isoladas, em meio \u00e0s ossadas de meio s\u00e9culo de conflito. Agora que o Estado est\u00e1 saindo da floresta, ser\u00e3o necess\u00e1rios outros m\u00e9todos de dissuas\u00e3o, como as patrulhas de \u00edndios capazes de se deslocar e se comunicar imperceptivelmente, e cujas flechas surgem da mata como um suspiro. Mas sempre existiu um desequil\u00edbrio de for\u00e7as. A Comiss\u00e3o Pastoral da Terra, \u00f3rg\u00e3o da Igreja Cat\u00f3lica brasileira, registrou mais de 600 assassinatos ligados \u00e0 luta pela terra desde 2003, a maioria deles na Amaz\u00f4nia, e um aumento de 20% de casos em 2018. A maioria das v\u00edtimas s\u00e3o \u00edndios e outros habitantes tradicionais da floresta que tentam organizar uma defesa conjunta contra o extrativismo ilegal.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"PhotoGrid PhotoGrid--2-column PhotoGrid--xtra-large\" data-reactid=\"249\">\n<div class=\"PhotoGrid-rows\" data-reactid=\"250\">\n<div class=\"PhotoGrid-row PhotoGrid-row--2-of-2\" data-reactid=\"251\">\n<div class=\"PhotoGrid-cell PhotoGrid-cell--1\" data-reactid=\"252\"><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"400\" width=\"600\" decoding=\"async\" class=\"PhotoGrid-photo\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/theintercept.com\/wp-uploads\/sites\/1\/2019\/07\/deforestation-aerial-1562186048-1562361243-1000x667.jpg?resize=600%2C400&#038;ssl=1\" alt=\"deforestation-aerial-1562186048-1562361243\" data-reactid=\"253\" \/><\/div>\n<div class=\"PhotoGrid-cell PhotoGrid-cell--2\" data-reactid=\"254\"><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"400\" width=\"600\" decoding=\"async\" class=\"PhotoGrid-photo\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/theintercept.com\/wp-uploads\/sites\/1\/2019\/07\/cattle-1562186051-1562361239-1000x667.jpg?resize=600%2C400&#038;ssl=1\" alt=\"cattle-1562186051-1562361239\" data-reactid=\"255\" \/><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div data-reactid=\"256\">\n<div><\/div>\n<div class=\"img-wrap align-bleed xtra-large-bleed width-auto\">\n<p><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/theintercept.imgix.net\/wp-uploads\/sites\/1\/2019\/07\/farms-cattle-1562186054-1562361286.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-article-large wp-image-257884\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/theintercept.imgix.net\/wp-uploads\/sites\/1\/2019\/07\/farms-cattle-1562186054-1562361286.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"farms-cattle-1562186054-1562361286\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"caption overlayed\">Na fronteira da reserva ind\u00edgena dos Jupa\u00fas, a floresta encontra por\u00e7\u00f5es de terra ocupadas por gado. Sem a vegeta\u00e7\u00e3o nativa, a solo superficial da regi\u00e3o seca e se esgota rapidamente. A maioria das pastagens \u00e9 degradada e abandonada dentro de 10 ou 15 anos.<\/p>\n<p class=\"caption source pullright\">Foto: Gabriel Uchida<\/p>\n<\/div>\n<p>Uma hora de caminhada depois, a trilha chega ao fim. \u00c9 ali que a floresta acaba e a fronteira do agroneg\u00f3cio come\u00e7a. \u201cFronteira\u201d n\u00e3o \u00e9 uma met\u00e1fora ou um conceito em um relat\u00f3rio da ONU, e sim uma coisa concreta, que pode ser vista, tocada e atravessada. De um instante para outro, o frescor e a sombra da mata fechada d\u00e3o lugar a uma ofuscante fornalha de capim, tostando sob o sol equatorial. De um lado, o que Euclides da Cunha chamou de \u201ca \u00faltima p\u00e1gina a escrever-se do G\u00eanesis\u201d. Do outro, uma manada de zebus ruminando estupidamente. Awapu aponta para a \u00fanica vegeta\u00e7\u00e3o presente do lado das vacas: o capim que serve de forragem animal. \u201c\u00c9 isso que elas comem\u201d, ele diz. E acrescenta, levantando o dedo para o horizonte: \u201cTudo isso era floresta quando eu era jovem.\u201d<\/p>\n<p>Paramos para comer biscoitos e peixe seco bem ali, na fronteira entre o G\u00eanesis e o Apocalipse. Depois, enquanto nos preparamos para voltar ao rio, Djurip, o mais calado dos tr\u00eas, fala pela primeira vez: \u201cOs brancos nunca respeitaram a nossa cultura porque n\u00e3o \u00e9 uma cultura de dinheiro. N\u00e3o \u00e9 uma cultura do agroneg\u00f3cio. Eles dizem que somos gananciosos e queremos terra demais. Mas s\u00e3o os brancos que t\u00eam um apetite insaci\u00e1vel. S\u00e3o eles que est\u00e3o devorando tudo\u201d, protesta.<\/p>\n<div class=\"img-wrap align-bleed full-bleed width-auto\">\n<p><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/theintercept.imgix.net\/wp-uploads\/sites\/1\/2019\/07\/AP_880201084-chico-mendes-1562186251-1562361058.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"150\" width=\"150\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-thumbnail wp-image-257881\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/theintercept.imgix.net\/wp-uploads\/sites\/1\/2019\/07\/AP_880201084-chico-mendes-1562186251-1562361058.jpg?resize=150%2C150&#038;ssl=1\" alt=\"O ambientalista Francisco \u201cChico\u201d Mendes em fevereiro de 1988.\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"caption overlayed\">O ambientalista Francisco \u201cChico\u201d Mendes em fevereiro de 1988.<\/p>\n<p class=\"caption source pullright\">Foto: AP<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<h3 id=\"four\" class=\"chapter chapter--toc-anchor\" data-reactid=\"257\"><span class=\"chapter-number\" data-reactid=\"258\">4<\/span><span class=\"chapter-title\" data-reactid=\"260\">O FANTASMA DE CHICO MENDES<\/span><\/h3>\n<div data-reactid=\"261\">\n<p><u>ENQUANTO O SUDOESTE<\/u> da Amaz\u00f4nia era devorado nos anos 1970, a floresta produzia um anticorpo. Um movimento social e pol\u00edtico surgiu para refutar o falso dilema entre preserva\u00e7\u00e3o e desenvolvimento. Unindo os povos da floresta \u2013 ind\u00edgenas ou n\u00e3o \u2013, ele falava a l\u00edngua moderna da justi\u00e7a, uma novidade na Amaz\u00f4nia. Seu l\u00edder era um seringueiro e sindicalista do sul do Acre chamado Chico Mendes. Enquanto as queimadas lambiam Rond\u00f4nia em dire\u00e7\u00e3o ao oeste, Mendes organizou uma coaliz\u00e3o de pessoas que dependiam da conserva\u00e7\u00e3o da floresta. Essa alian\u00e7a criou uma forma de a\u00e7\u00e3o n\u00e3o-violenta chamada \u201cempate\u201d. Em alguns empates, homens, mulheres e crian\u00e7as formavam barreiras humanas em volta de \u00e1rvores, desafiando os invasores \u2013 pobres como eles \u2013 a mat\u00e1-los. Em outros, grupos armados atacavam as bases dos desmatadores, destruindo equipamentos e fazendo ref\u00e9ns. O jornalista Andrew Revkin presenciou aulas de ecologia e teoria marxista ministradas aos prisioneiros pelos homens de Mendes antes da destrui\u00e7\u00e3o de um desses acampamentos.<\/p>\n<p>Mendes ganhou o apelido de \u201cGandhi da Amaz\u00f4nia\u201d antes de ser assassinado em 1988. Ele chegou ao auge da fama numa \u00e9poca em que o mundo come\u00e7ava a reconhecer os perigos da mudan\u00e7a clim\u00e1tica e o Brasil se redemocratizava. Gra\u00e7as a essa feliz coincid\u00eancia hist\u00f3rica, o legado do l\u00edder seringueiro sobreviveu na nova Constitui\u00e7\u00e3o e no novo governo, principalmente por meio da cria\u00e7\u00e3o de um arquip\u00e9lago de \u201creservas extrativistas\u201d destinadas \u00e0 extra\u00e7\u00e3o de borracha, castanha, frutas e outras atividades silv\u00edcolas sustent\u00e1veis. Em 2007, o ent\u00e3o presidente Lula criou um instituto de conserva\u00e7\u00e3o no seio do Minist\u00e9rio do Meio Ambiente. O \u00f3rg\u00e3o foi batizado com o nome de Chico Mendes, seu colega de sindicalismo no in\u00edcio dos anos 1980.<\/p>\n<div class=\"img-wrap align-right width-fixed\">\n<p><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/theintercept.imgix.net\/wp-uploads\/sites\/1\/2019\/07\/AP_8812250168-lula-chico-1562186412-1562361337.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-article-large wp-image-257885\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/theintercept.imgix.net\/wp-uploads\/sites\/1\/2019\/07\/AP_8812250168-lula-chico-1562186412-1562361337.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"Lula discursa em funeral de Chico Mendes, no dia 25 de dezembro de 1988.\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"caption\">Lula discursa em funeral de Chico Mendes, no dia 25 de dezembro de 1988.<\/p>\n<p class=\"caption source\">Foto: Ricardo Chaves\/Ag\u00eancia Estado via AP<\/p>\n<\/div>\n<p>O nome de Mendes \u00e9 tabu no governo Bolsonaro, e tem for\u00e7a o suficiente para incomodar. Quando questionado pela imprensa sobre o desmonte do Instituto Chico Mendes, Ricardo Salles sibilou: <a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/world\/2019\/feb\/12\/brazil-environment-ministers-dismissal-of-slain-amazon-defender-stirs-outrage\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u201cQue diferen\u00e7a faz quem \u00e9 Chico Mendes nesse momento?\u201d<\/a>. Este sentimento encontra eco no estado de nascen\u00e7a do seringueiro, o Acre, que em outubro elegeu Gladson Cameli \u2013 um bar\u00e3o da soja de segunda gera\u00e7\u00e3o \u2013 para governador, cargo que j\u00e1 havia sido ocupado por um ex-conselheiro de Chico Mendes, o ecologista Jorge Viana. Cameli comemorou a vit\u00f3ria convocando uma reuni\u00e3o com executivos do agroneg\u00f3cio em Porto Velho. \u201cA salva\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do Acre \u00e9 o agroneg\u00f3cio. Rond\u00f4nia, nosso vizinho e irm\u00e3o, \u00e9 a prova disso\u201d, declarou.<\/p>\n<p>O enfraquecimento do legado de Chico Mendes atinge at\u00e9 a reserva extrativista que leva o seu nome, na fronteira do Acre com o Peru e a Bol\u00edvia. Com a decad\u00eancia da ind\u00fastria da borracha, os filhos e netos da gera\u00e7\u00e3o do \u201cempate\u201d \u2013 que cresceram ouvindo hist\u00f3rias de tratores sabotados, correntes humanas em volta de \u00e1rvores e latifundi\u00e1rios fugindo com o rabo entre as pernas \u2013 est\u00e3o virando pecuaristas. Estima-se que a Reserva Chico Mendes contenha mais de 30 mil cabe\u00e7as de gado em terras desmatadas, e muitas cria\u00e7\u00f5es est\u00e3o acima do limite legal imposto a \u00e1reas protegidas.<\/p>\n<p>Mais de trinta anos depois, a vis\u00e3o de Chico Mendes continua sendo v\u00e1lida: no fim da contas, uma floresta que renova a si mesma e permanece rica em biodiversidade traz mais benef\u00edcios \u2013 tanto econ\u00f4micos quanto ambientais \u2013 do que a cria\u00e7\u00e3o de um semi\u00e1rido bovino, cuja expans\u00e3o acaba tendo como resultado a seca. Mas este fato n\u00e3o \u00e9 suficiente para convencer fam\u00edlias \u00e0 merc\u00ea das vicissitudes de um mercado global que valoriza madeiras de lei e hamb\u00fargueres. \u201cA pecu\u00e1ria \u00e9 um neg\u00f3cio seguro. D\u00e1 pra ter uma boa renda vendendo um bezerro ou um boi\u201d, afirmou um morador da Reserva Chico Mendes a Lisa Song, rep\u00f3rter da ProPublica, que escreveu uma mat\u00e9ria recentemente sobre o fracasso da comunidade internacional em incentivar e proteger economias silv\u00edcolas sustent\u00e1veis.<\/p>\n<blockquote class=\"stylized pull-left\" data-shortcode-type=\"pullquote\" data-pull=\"left\"><p>Uma floresta que renova a si mesma e permanece rica em biodiversidade traz mais benef\u00edcios \u2013 tanto econ\u00f4micos quanto ambientais \u2013 do que a cria\u00e7\u00e3o de um semi\u00e1rido bovino, cuja expans\u00e3o acaba tendo como resultado a seca.<\/p><\/blockquote>\n<p>Na Assembleia Legislativa do Acre, uma bancada minorit\u00e1ria de deputados vem tentando modernizar a vis\u00e3o de Chico Mendes e impedir que um novo arco de fogo devore as florestas do estado, ainda intactas em sua maioria. O grupo \u00e9 capitaneado por Janilson Leite, m\u00e9dico ind\u00edgena e vice-presidente da Assembleia. Conheci Leite certa noite em um audit\u00f3rio na sede do governo estadual, em Rio Branco. De \u00f3culos, vestindo um elegante terno azul-escuro, o deputado fala pausadamente, mas com uma veem\u00eancia que surpreende quem se deixa levar por sua apar\u00eancia de menino.<\/p>\n<p>\u201cDepois da ditadura, o Acre investiu nas comunidades rurais e na conserva\u00e7\u00e3o, tornando-se mais dependente de recursos federais. E, segundo certos crit\u00e9rios, \u00e1reas de floresta como a nossa parecem \u2018improdutivas\u2019\u201d, afirma Leite. \u201cN\u00e3o estou dizendo que a floresta \u00e9 intoc\u00e1vel, mas derrub\u00e1-la n\u00e3o \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o. Se agregarmos valor \u00e0 gest\u00e3o sustent\u00e1vel que os povos ind\u00edgenas e outros fazem dos recursos da floresta, veremos que eles contribuem muito mais para economia do que a pecu\u00e1ria e a soja. O potencial medicinal da floresta \u00e9 enorme. Temos que construir laborat\u00f3rios de pesquisa. Promover o ecoturismo e ind\u00fastrias aliment\u00edcias que n\u00e3o demandem um plantio anual. A\u00e7a\u00ed, castanha, frutas\u2026\u201d<\/p>\n<p>A riqueza da biodiversidade da Amaz\u00f4nia se deve aos nutrientes gerados pela constante decomposi\u00e7\u00e3o de sua abundante vegeta\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o \u00e0s finas camadas de solo que est\u00e3o por baixo. Sem essa flora, a camada f\u00e9rtil do solo seca e se esgota rapidamente. Para que a produ\u00e7\u00e3o se mantenha, \u00e9 preciso fazer uso de onerosos sistemas de fertiliza\u00e7\u00e3o ou sair \u00e0 procura de novas terras. A maioria dos pastos se degradam e s\u00e3o abandonados depois de 10 ou 15 anos. Ou seja, a pr\u00f3pria exist\u00eancia desta atividade (para n\u00e3o falar de sua expans\u00e3o) depende de um ciclo intermin\u00e1vel de destrui\u00e7\u00e3o: \u00e9 preciso desmatar mais para superar os problemas causados pela \u00faltima derrubada, que eliminou a fonte natural de nutrientes do solo. A ind\u00fastria da soja na Amaz\u00f4nia tamb\u00e9m tenta lidar com a r\u00e1pida degrada\u00e7\u00e3o do solo criando mais terras cultiv\u00e1veis, saturando-as de doses cada vez maiores de fertilizantes e agrot\u00f3xicos. A ministra da Agricultura de Bolsonaro, Tereza Cristina Costa, ganhou o apelido de \u201cMusa do Veneno\u201d por sua cruzada contra a proibi\u00e7\u00e3o de pesticidas altamente t\u00f3xicos.<\/p>\n<div class=\"img-wrap align-bleed xtra-large-bleed width-auto\">\n<p><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/theintercept.imgix.net\/wp-uploads\/sites\/1\/2019\/07\/rainforest-1562186558-1562361548.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"150\" width=\"150\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-thumbnail wp-image-257888\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/theintercept.imgix.net\/wp-uploads\/sites\/1\/2019\/07\/rainforest-1562186558-1562361548.jpg?resize=150%2C150&#038;ssl=1\" alt=\"rainforest-1562186558-1562361548\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"caption overlayed\">Imagem a\u00e9rea da reserva ind\u00edgena dos Jupa\u00fas em setembro de 2016. Cerca de 400 tribos vivem na bacia amaz\u00f4nica que forma um \u201ccorredor sagrado de vida\u201d que vai dos Andes ao Atl\u00e2ntico.<\/p>\n<p class=\"caption source pullright\">Foto: Gabriel Uchida<\/p>\n<\/div>\n<p>Al\u00e9m do mais, a maioria dos empregos criados por essas atividades \u00e9 tempor\u00e1ria: derrubar \u00e1rvores.<\/p>\n<p>Joaquim Francisco de Carvalho, ex-diretor do Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal, diz que uma hectare de gado ou soja pode valer de R$ 100 at\u00e9 R$ 1.000, enquanto o mesmo hectare de florestas exploradas de forma sustent\u00e1vel pode render mais de R$ 3.000. Mas a diferen\u00e7a mais importante n\u00e3o pode ser quantificada. O manejo florestal conserva a biodiversidade e o que o etnobot\u00e2nico e antrop\u00f3logo Wade Davis chama de \u201cetnosfera\u201d da Amaz\u00f4nia \u2013 as \u00faltimas culturas com uma vis\u00e3o de mundo fundamentalmente diferente daquelas que nos conduziram \u00e0 Era Antropoc\u00eanica. Os habitantes origin\u00e1rios da selva s\u00e3o seus defensores mais eficazes justamente por n\u00e3o v\u00ea-la como um dep\u00f3sito de recursos a serem extra\u00eddos e vendidos \u2013 sejam eles ouro, madeira ou cr\u00e9ditos de carbono.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o significa que a linguagem do com\u00e9rcio e desenvolvimento seja estranha aos habitantes da Amaz\u00f4nia. Com exce\u00e7\u00e3o de um n\u00famero cada vez menor de tribos que nunca tiveram ou se recusam a ter contato com o homem branco, os \u00edndios querem se desenvolver e se comunicar com o mundo exterior. Marcos Apurin\u00e3, por exemplo, est\u00e1 tentando reviver a Alian\u00e7a dos Povos da Floresta, uma iniciativa de Chico Mendes que uniu \u00edndios, quilombolas e outros grupos que praticam o extrativismo em pequena escala no Brasil.<\/p>\n<p>\u201cTemos nossas diferen\u00e7as, mas temos um inimigo em comum, que \u00e9 o agroneg\u00f3cio e os ruralistas\u201d, diz Marcos. \u201cPrecisamos de uma tr\u00edplice alian\u00e7a na fronteira, um plano comum de defesa e desenvolvimento da regi\u00e3o. Tamb\u00e9m precisamos do Judici\u00e1rio brasileiro, das cortes internacionais, das ONGs\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Marcos \u00e9 membro fundador do Comit\u00ea Nacional de Pol\u00edtica Indigenista, um \u00f3rg\u00e3o consultivo criado em 2015 para servir de ponte entre grupos ind\u00edgenas e organismos governamentais de desenvolvimento e sustentabilidade. \u201cTemos ideias de desenvolvimento alternativas para gerar a renda de que precisamos para viver no mundo moderno. Passamos essas ideias ao governo. Mas, como em todo o resto, o processo parou quando Bolsonaro foi eleito. N\u00e3o sabemos o vai acontecer\u201d, inquieta-se.<\/p>\n<div class=\"img-wrap align-bleed xtra-large-bleed width-auto\">\n<p><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/theintercept.imgix.net\/wp-uploads\/sites\/1\/2019\/07\/boca-port-1562186698-1562361602.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"150\" width=\"150\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-thumbnail wp-image-257889\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/theintercept.imgix.net\/wp-uploads\/sites\/1\/2019\/07\/boca-port-1562186698-1562361602.jpg?resize=150%2C150&#038;ssl=1\" alt=\"Porto em Boca do Acre.\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"caption overlayed\">Porto em Boca do Acre.<\/p>\n<p class=\"caption source pullright\">Foto: Gabriel Uchida<\/p>\n<\/div>\n<p><u>O CAMINHO DO ACRE AO AMAZONAS,<\/u> ao longo da BR-317, \u00e9 similar \u00e0 paisagem de Rond\u00f4nia vista da BR-364: uma viagem mon\u00f3tona atrav\u00e9s de pastos sem fim, com pequenos trechos de mata quando a estrada atravessa uma reserva ind\u00edgena. As cria\u00e7\u00f5es de gado acabam junto com a estrada, na Boca do Acre, uma pr\u00f3spera e asseada cidade de 35 mil habitantes na beira do maior bloco de floresta tropical do mundo. Capital da pecu\u00e1ria do sul do Amazonas, Boca ostenta um estilo texano comum no interior do Brasil, com bares de caub\u00f3is e homens vestidos como o garoto-propaganda da Marlboro: camisa quadriculada desabotoada, cruz de ouro no peito, jeans, fivela desproporcionalmente grande, botas e chap\u00e9u de aba larga de palha ou couro \u2013 abaixado sobre os olhos, claro.<\/p>\n<p>Em minha primeira manh\u00e3 em Boca, fa\u00e7o uma visita surpresa a Dilermando Melo de Lima, figur\u00e3o da pecu\u00e1ria local e presidente do Sindicato Rural de Boca do Acre. Setenta e dois anos, barrigudo e dono de um nariz em forma de couve-flor, eu o encontro sentado na varanda, bebendo caf\u00e9 em companhia de um gato. Como todos na cidade, ele fala com prazer sobre gado e est\u00e1 otimista com rela\u00e7\u00e3o ao futuro. \u201cOlha, em Rond\u00f4nia, no Acre e no Amazonas a pecu\u00e1ria \u00e9 o futuro, pelo simples motivo de que a Amaz\u00f4nia tem as melhores condi\u00e7\u00f5es para se criar gado\u201d, acredita.<\/p>\n<p>Quando questionado sobre as preocupa\u00e7\u00f5es dos \u00edndios e outros grupos que dizem que o avan\u00e7o da fronteira agr\u00edcola pode destruir os sistemas naturais que tornam a pecu\u00e1ria poss\u00edvel, ele faz um gesto de desd\u00e9m.<\/p>\n<blockquote class=\"stylized pull-right\" data-shortcode-type=\"pullquote\" data-pull=\"right\"><p>\u201cA floresta vai ser derrubada de qualquer maneira. O regime militar foi bom para o desenvolvimento. Bolsonaro tem as mesmas ideias, e os criadores de gado est\u00e3o apostando no sucesso dele\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>\u201cN\u00f3s, pecuaristas, enfrentamos muitas dificuldades. H\u00e1 leis e restri\u00e7\u00f5es demais. \u00c1reas protegidas demais. A reserva Camicu\u00e3, aqui perto, tem 46 mil hectares de terra <em>virgem<\/em>. N\u00e3o podemos nem encostar nela! Deviam nos dar autoriza\u00e7\u00e3o. A floresta vai ser derrubada de qualquer maneira. O regime militar foi bom para o desenvolvimento. Bolsonaro tem as mesmas ideias, e os criadores de gado est\u00e3o apostando no sucesso dele\u201d, afirma.<\/p>\n<p>O velho pecuarista relaxa quando a conversa se afasta da pol\u00edtica. Filho de um fazendeiro que migrou para a regi\u00e3o nos anos 1930, Dilermando amolece ao descrever o vilarejo de pescadores e comerciantes da sua inf\u00e2ncia, quando as estradas de penetra\u00e7\u00e3o ainda n\u00e3o haviam trazido os rebanhos para o norte e a brisa da manh\u00e3 ainda n\u00e3o cheirava a matadouro. Ao recordar aqueles tempos que n\u00e3o voltam mais, ele parece mais um \u00edndio do que um fazendeiro. \u201cEra tudo mata e rio naquela \u00e9poca. Daqui at\u00e9 Rio Branco. Mata e rio\u201d, relembra.<\/p>\n<div class=\"img-wrap align-bleed full-bleed width-auto\">\n<p><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/theintercept.imgix.net\/wp-uploads\/sites\/1\/2019\/07\/rainforest-02-1562186876-1562361747.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"150\" width=\"150\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-thumbnail wp-image-257890\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/theintercept.imgix.net\/wp-uploads\/sites\/1\/2019\/07\/rainforest-02-1562186876-1562361747.jpg?resize=150%2C150&#038;ssl=1\" alt=\"rainforest-02-1562186876-1562361747\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"caption overlayed\">O valor real da floresta, como este peda\u00e7o do territ\u00f3rio dos Jupa\u00fas, n\u00e3o pode ser quantificado, e seus habitantes n\u00e3o a veem como um reposit\u00f3rio de recursos (embora haja ouro, madeira e cr\u00e9ditos de carbono) a ser explorado e vendido.<\/p>\n<p class=\"caption source pullright\">Foto: Gabriel Uchida<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<h3 id=\"five\" class=\"chapter chapter--toc-anchor\" data-reactid=\"262\"><span class=\"chapter-number\" data-reactid=\"263\">5<\/span><span class=\"chapter-title\" data-reactid=\"265\">NO LIMITE<\/span><\/h3>\n<div data-reactid=\"266\">\n<p><u>NO IN\u00cdCIO DE MAIO,<\/u> poucas semanas depois da conversa com Dilermando, a ONU publicou um hist\u00f3rico \u2013 e preocupante \u2013 relat\u00f3rio sobre biodiversidade. Realizado por especialistas das mais variadas disciplinas, o documento conclui que apenas uma \u201cmudan\u00e7a transformadora\u201d poderia evitar a extin\u00e7\u00e3o de um milh\u00e3o de esp\u00e9cies de plantas e animais. Esses milh\u00f5es de seres vivos que est\u00e3o morrendo em florestas tropicais degradadas e fragmentadas \u2013 ou em oceanos \u00e1cidos e esgotados pela pesca \u2013 s\u00e3o apenas as primeiras v\u00edtimas de um processo de desintegra\u00e7\u00e3o dos ecossistemas que amea\u00e7a \u201cas pr\u00f3prias bases da economia, subsist\u00eancia, seguran\u00e7a alimentar, sa\u00fade e qualidade de vida do mundo\u201d.<\/p>\n<p>Ao clamar por uma \u201cmudan\u00e7a transformadora\u201d, os cientistas n\u00e3o est\u00e3o apenas repetindo velhos apelos por uma economia ligeiramente mais verde, mas sem mudar as estruturas de nosso modelo de crescimento, produ\u00e7\u00e3o e consumo. \u201cEstamos falando de uma reorganiza\u00e7\u00e3o fundamental em todo o sistema, levando em conta fatores tecnol\u00f3gicos, econ\u00f4micos e sociais, incluindo paradigmas, metas e valores\u201d, diz Robert Watson, qu\u00edmico atmosf\u00e9rico brit\u00e2nico e diretor do painel de especialistas. Quanto \u00e0 inspira\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para uma transforma\u00e7\u00e3o desta envergadura, o relat\u00f3rio pede uma \u201cparticipa\u00e7\u00e3o plena e efetiva dos povos ind\u00edgenas\u201d no desenvolvimento de sistemas de governan\u00e7a ambiental baseados em \u201cconhecimentos, inova\u00e7\u00f5es, pr\u00e1ticas, institui\u00e7\u00f5es e valores (\u2026) ind\u00edgenas\u201d.<\/p>\n<div class=\"img-wrap align-center width-fixed\">\n<p><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/theintercept.imgix.net\/wp-uploads\/sites\/1\/2019\/07\/rainforest-03-1562187014-1562361812.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-article-large wp-image-257892\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/theintercept.imgix.net\/wp-uploads\/sites\/1\/2019\/07\/rainforest-03-1562187014-1562361812.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"rainforest-03-1562187014-1562361812\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"caption\">Ind\u00edgenas est\u00e3o explorando formas alternativas de viver na floresta sem cortar \u00e1rvores, como a pesquisa de novos medicamentos, ecoturismo e produ\u00e7\u00e3o sustent\u00e1vel de a\u00e7a\u00ed, oleaginosas e frutas.<\/p>\n<p class=\"caption source\">Foto: Gabriel Uchida<\/p>\n<\/div>\n<p>Este \u00e9 o fruto de um di\u00e1logo tardio, por\u00e9m cada vez mais intenso, entre a ci\u00eancia ocidental e as culturas ind\u00edgenas. Depois de d\u00e9cadas como espectadores \u00e0 margem, os \u00edndios est\u00e3o mais pr\u00f3ximos do centro do palco nas c\u00fapulas ambientais, apoiados por uma onda de estudos que confirmam sua antiga reivindica\u00e7\u00e3o de protetores mais naturais e eficazes da floresta. Em novembro de 2018, uma delega\u00e7\u00e3o amaz\u00f4nica entregou um documento \u2013 a Declara\u00e7\u00e3o de Bogot\u00e1 \u2013 \u00e0 14\u00aa Confer\u00eancia da Biodiversidade da ONU, na cidade eg\u00edpcia de Sharm El-Sheikh. Nela, 400 etnias da bacia amaz\u00f4nica tra\u00e7am um plano para criar um \u201ccorredor sagrado de vida\u201d, formado por territ\u00f3rios ind\u00edgenas cont\u00edguos dos Andes ao Atl\u00e2ntico. Dentro desses 200 milh\u00f5es de hectares de floresta, as na\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas reuniriam seus conhecimentos ancestrais, demonstrando modos alternativos de vida e desenvolvimento. A declara\u00e7\u00e3o descreve a proposta como \u201cum primeiro passo para garantir a exist\u00eancia de todas as formas de vida do planeta\u201d.<\/p>\n<p>Os signat\u00e1rios do documento buscam apoio e reconhecimento internacional para fazer frente aos governos que est\u00e3o loteando a floresta para o agroneg\u00f3cio e a explora\u00e7\u00e3o de metais, madeira e petr\u00f3leo. Para o governo Bolsonaro, a ideia de grupos ind\u00edgenas aliados a pa\u00edses ocidentais e \u00e0 ONU para enfrentar o desafio clim\u00e1tico confirma s\u00e9culos de paranoia nacionalista. Embora essa preocupa\u00e7\u00e3o seja infundada, a Declara\u00e7\u00e3o de Bogot\u00e1 enxerga o futuro da Amaz\u00f4nia da maneira certa: n\u00e3o como uma quest\u00e3o econ\u00f4mica ou um embate moral entre \u00edndios e caub\u00f3is, e sim como uma crise global que requer novas formas de ver o mundo e tudo o que ele cont\u00e9m.<\/p>\n<p><em>Com a contribui\u00e7\u00e3o de Mauro Toledo Rodrigues.<\/em><\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Bernardo Tonasse<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>bacia do rio Amazonas \u00e9 mais ou menos do tamanho da Austr\u00e1lia. Formada ainda na inf\u00e2ncia do planeta pelo choque entre placas tect\u00f4nicas, ela foi o ber\u00e7o de mares interiores e lagos continentais. H\u00e1 milh\u00f5es de anos, ela possui um rico ecossistema tropical, com 400 bilh\u00f5es de \u00e1rvores e uma vegeta\u00e7\u00e3o t\u00e3o densa e \u00famida&#8230;<a class=\"more-link\" href=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2019\/07\/06\/22676\/\">Continue a leitura <span class=\"meta-nav\">&raquo;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-22676","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/s7wKYW-22676","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22676","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22676"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22676\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":22679,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22676\/revisions\/22679"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22676"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22676"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22676"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}