{"id":22908,"date":"2019-07-27T11:20:15","date_gmt":"2019-07-27T15:20:15","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=22908"},"modified":"2019-07-27T11:20:15","modified_gmt":"2019-07-27T15:20:15","slug":"500-dias-como-assim-mataram-a-marielle","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2019\/07\/27\/500-dias-como-assim-mataram-a-marielle\/","title":{"rendered":"500 dias: COMO ASSIM MATARAM A MARIELLE?"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"22909\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2019\/07\/27\/500-dias-como-assim-mataram-a-marielle\/ma-4\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/ma.jpg?fit=1922%2C962\" data-orig-size=\"1922,962\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;1&quot;}\" data-image-title=\"ma\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/ma.jpg?fit=300%2C150\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/ma.jpg?fit=600%2C301\" class=\"alignnone size-full wp-image-22909\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/ma.jpg?resize=600%2C300\" alt=\"ma\" width=\"600\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/ma.jpg?w=1922 1922w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/ma.jpg?resize=300%2C150 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/ma.jpg?resize=768%2C384 768w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/ma.jpg?resize=1024%2C513 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/ma.jpg?resize=599%2C300 599w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/ma.jpg?w=1200 1200w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/ma.jpg?w=1800 1800w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p>Mulheres negras relatam a dor e o significado do assassinato da vereadora do PSOL e do seu motorista, Anderson Gomes, h\u00e1 um ano<!--more--><\/p>\n<p>Por Rute Pina, S\u00e3o Paulo (SP)<br \/>\nBrasil De Fato<\/p>\n<article>\n<div class=\"blocks\">\n<section class=\"text vertical-spacing\">Neste s\u00e1bado (27), completam-se 500 dias do assassinato de Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes. O crime aconteceu em 14 de mar\u00e7o 2018, na cidade do Rio de Janeiro (RJ). Apesar da repercuss\u00e3o, o caso ainda n\u00e3o foi solucionado e o pa\u00eds n\u00e3o sabe quem s\u00e3o os respons\u00e1veis pela morte da vereadora.<\/p>\n<p>Confira o especial que o Brasil de Fato fez relembrando o primeiro ano do crime.<\/p>\n<p>Em uma padaria nos arredores da Praia Vermelha, em Salvador (BA), pares de olhos marejados estavam vidrados no notici\u00e1rio na televis\u00e3o. Era a quinta-feira do dia 15 de mar\u00e7o de 2018 e o clima de perplexidade n\u00e3o era de uma manh\u00e3 qualquer. Na orla da praia, uma faixa improvisada, em papel pardo, j\u00e1 anunciava uma pergunta que iria ecoar incessantemente pelo pr\u00f3ximo ano: \u201cQuem matou Marielle Franco?\u201d<\/p>\n<p>Cerca de 12 horas depois do assassinato, no fim da noite do dia 14 de mar\u00e7o de 2018, a capital soteropolitana teve o registro de um dos primeiros atos em homenagem e em luto pela vereadora do PSOL e seu motorista, Anderson Gomes. E que tamb\u00e9m se tornou um espa\u00e7o de acolhimento aos ativistas de diversos movimentos populares e entidades de todo o pa\u00eds que estavam na cidade, participando da\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/F%C3%B3rum_Social_Mundial\">13\u00aa edi\u00e7\u00e3o do F\u00f3rum Social Mundial<\/a>.<\/p>\n<p>Ali, muitos eram amigos, conhecidos ou tiveram algum tipo de contato com Marielle. Este \u00e9 o caso da jornalista carioca Camila Marins, ativista l\u00e9sbica e editora da\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/revistabrejeiras\/\">Revista Brejeiras<\/a>. Ela soube do assassinato da vereadora logo ap\u00f3s o ocorrido. Ela tinha acabado de chegar onde estava hospedada quando recebeu uma mensagem de uma amiga pelo WhatsApp.<\/p>\n<p>\u201cEm um primeiro momento, eu achei que era fake news. Depois, logo em seguida, veio a confirma\u00e7\u00e3o. E foi aterrorizante, apavorante. Me arrepio s\u00f3 de pensar nesse dia novamente\u201d, lembra Marins.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m filiada ao PSOL, ela conhecia Marielle da milit\u00e2ncia pol\u00edtica. A jornalista atuou na constru\u00e7\u00e3o do\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2017\/08\/18\/camara-do-rio-de-janeiro-rejeita-projeto-pela-visibilidade-lesbica\/\">Projeto de Lei da Visibilidade L\u00e9sbica<\/a>, que foi entregue na C\u00e2mara Municipal do Rio de Janeiro pelo gabinete de Marielle e movimentou diversas ativistas em uma campanha pela sua aprova\u00e7\u00e3o em agosto de 2017.\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2017\/08\/18\/camara-do-rio-de-janeiro-rejeita-projeto-pela-visibilidade-lesbica\/\">O projeto foi derrotado por apenas dois votos de diferen\u00e7a<\/a>.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o parei de chorar em momento algum, fiquei mandando mensagem para todas as pessoas, tentando, de alguma forma, entender o que tinha acontecido e elaborar o impacto que isso teve na gente\u201d, relata a jornalista.<\/p>\n<h2><strong>A manh\u00e3 de luto<\/strong><\/h2>\n<p>Naquele dia, todas as atividades do F\u00f3rum Social Mundial foram suspensas e os movimentos organizaram uma passeata que saiu da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Uma instala\u00e7\u00e3o art\u00edstica que denunciava o feminic\u00eddio ganhou uma cruz com o nome de Marielle.<\/p>\n<p>\u201cEm v\u00e1rios momentos, paralisei. N\u00e3o conseguia caminhar. Mas as mulheres vinham, segurando umas \u00e0s outras, para gente conseguir fazer essa caminhada. \u00c9 uma not\u00edcia que paralisou todas n\u00f3s, mulheres negras\u201d, rememora.<\/p>\n<p>A ativista negra Valqu\u00edria Rosa, da Partida Feminista e integrante da\u00a0<a href=\"http:\/\/baoba.org.br\/\">Funda\u00e7\u00e3o Baob\u00e1<\/a>, estava ajudando na organiza\u00e7\u00e3o de um debate sobre Vulnerabilidade, Pol\u00edtica e Poder que ocorreria na manh\u00e3 do dia 15, no F\u00f3rum.<\/p>\n<p>Ela lembra que sua primeira rea\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m foi de desalento quando uma companheira da Marcha das Mulheres Negras de S\u00e3o Paulo anunciou o fato:\u00a0<em>\u201cComo assim mataram a Marielle?\u201d<\/em>, ela questionou no momento. \u201cPara mim, ficou muito expl\u00edcito que, naquele momento, naquele dia, naquela conjuntura, tudo mudou\u201d, lembra Valqu\u00edria, um ano depois.<\/p>\n<p>\u201cEu cruzei com a Marielle em poucas situa\u00e7\u00f5es, em encontros feministas. Ela era sempre uma presen\u00e7a marcante em todos os lugares que ela chegava para falar do processo de elei\u00e7\u00e3o, da candidatura, as dificuldades que ela vinha enfrentando no mandato. Ent\u00e3o, a gente sabia das dificuldades, mas a gente n\u00e3o sabia que essa viol\u00eancia chegaria nesse n\u00edvel. Foi um impacto muito grande.\u201d<\/p>\n<p>O cortejo de mulheres que gritava\u00a0<em>\u201cMarielle, Presente\u201d<\/em>\u00a0e\u00a0<em>\u201cParem de nos matar\u201d<\/em>nos arredores da UFBA na manh\u00e3 daquela quinta-feira se espalhou espontaneamente pelo pa\u00eds. Capitais como S\u00e3o Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza, Bras\u00edlia e outras cidades registraram manifesta\u00e7\u00f5es espont\u00e2neas e volumosas naquela data.<\/p>\n<p>O sentimento de luto por Marielle tamb\u00e9m ganhava contornos de uma identifica\u00e7\u00e3o em mulheres negras, militantes, perif\u00e9ricas, lembra a estudante de servi\u00e7o social Geslaine Oliveira, que vive em Juiz de Fora (MG).<\/p>\n<p>\u201cAssim como a Marielle, eu tamb\u00e9m militava em um partido na \u00e9poca, compunha a dire\u00e7\u00e3o de um coletivo feminista, sou uma mulher negra, perif\u00e9rica, sou bissexual. Ent\u00e3o, para falar a verdade, eu comecei a ficar com medo de militar\u201d, relata a estudante. G\u00ea conta que teve crise de ansiedade por duas semanas e, at\u00e9 hoje, tenta elaborar esse sentimento.<\/p>\n<p>\u201cEu acho que esse medo tem que se transformar em um momento para se refletir sobre nossa seguran\u00e7a, mas tamb\u00e9m que ele se transforme em luta. Ela n\u00e3o viveu tudo o que viveu para gente, com medo, parar de lutar pelo que ela lutou a vida inteira\u201d, prop\u00f5e.<\/p>\n<p>Distante do pa\u00eds, a mais de 9 mil quil\u00f4metros da sua cidade natal, a jornalista carioca Caroline Cavassa, soube da morte da vereadora nas redes sociais, apenas no dia seguinte. Ela mora em Roma, na It\u00e1lia, h\u00e1 tr\u00eas anos.\u00a0<em>&#8220;Foi uma dor muito solit\u00e1ria&#8221;<\/em>, conta.<\/p>\n<p>&#8220;Como tem a quest\u00e3o do fuso hor\u00e1rio, que na \u00e9poca eram cinco horas de diferen\u00e7a, eu n\u00e3o soube no hor\u00e1rio exato, eu estava dormindo. Eu acordei por volta das 8h da manh\u00e3 e abri o Instagram e vi v\u00e1rias fotos da Marielle no meu feed. Eu n\u00e3o entendi o que estava acontecendo&#8221;, relembra.<\/p>\n<p>\u201cFoi muito dif\u00edcil porque eu estava sozinha. Eu n\u00e3o pude compartilhar aquela dor com outras pessoas que entendessem o que estava sentindo. E como aquilo me golpeou forte n\u00e3o s\u00f3 por uma quest\u00e3o de ter sido um assassinato brutal, mas porque era mulher que me representava.\u201d<\/p>\n<p>A not\u00edcia reverberou nos jornais italianos e em outros pa\u00edses. Em Londres, por exemplo, brasileiros se mobilizaram algumas semanas depois. Ela afirma que a comunidade continua denunciando o assassinato de Marielle em inst\u00e2ncias internacionais. Ela participa, desde ent\u00e3o, de atos no exterior, para continuar dando repercuss\u00e3o internacional ao fato.<\/p>\n<p>\u201cPode at\u00e9 parecer um pouco clich\u00ea, mas foram realmente sementes que ela deixou. Eu fico feliz hoje de ver outras mulheres negras que conseguiram ser eleitas para dar continuidade ao trabalho que ela fazia na C\u00e2mara\u201d, diz Carol.<\/p>\n<\/section>\n<section class=\"image vertical-spacing\"><picture><source srcset=\"\/\/farm8.staticflickr.com\/7836\/33496054948_fed56444ce_o.jpg\" media=\"(min-width: 690px)\" \/><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" title=\" \" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/farm8.staticflickr.com\/7870\/46457341645_58a7550477_o.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\" \" \/><\/picture><\/section>\n<section class=\"text vertical-spacing\">\n<h2><strong>O amanh\u00e3 por respostas<\/strong><\/h2>\n<p>Um ano depois, a pergunta que se estendeu na Orla de Praia Vermelha permanece. Camila Marins conta que se apoia no legado de Marielle para continuar seguindo com as pautas de Marielle contra o racismo e o exterm\u00ednio da popula\u00e7\u00e3o negra, pobre e perif\u00e9rica.<\/p>\n<p>\u201cN\u00f3s j\u00e1 somos alvos dessa sociedade racista. E isso ficou ainda mais evidente com o assassinato dela. Somos os corpos mais vulner\u00e1veis nesses espa\u00e7os. Por isso \u00e9 t\u00e3o importante que a gente apoie todas as mulheres negras que est\u00e3o na pol\u00edtica, as que est\u00e3o acessando o parlamento pela institucionalidade,\u00a0<em>para que consigamos fazer um corpo coletivo de apoio, de seguran\u00e7a, de cuidado dessas mulheres negras<\/em>. E a morte dela simbolizou isso.\u201d<\/p>\n<p>J\u00e1 Valqu\u00edria Rosa afirma que o assassinato de Marielle colocou num lugar de alerta e percep\u00e7\u00e3o. \u201cFoi um ano emblem\u00e1tico porque existe um prop\u00f3sito muito grande de elimina\u00e7\u00e3o de quadros pol\u00edticos. Tanto quadro pol\u00edticos mais antigos quanto quadro pol\u00edticos mais novos. Ou matando, ou levando ao desgaste m\u00e1ximo\u201d, avalia.<\/p>\n<p>A ativista avalia que o crime tamb\u00e9m explicitou uma viol\u00eancia que \u00e9 presente e di\u00e1ria: \u201cA gente viveu este desgaste tendo que restabelecer energia criativa, de luta de vida, mas dentro de um desgaste muito grande. N\u00f3s, popula\u00e7\u00e3o negra, LGBT, mulheres e pobres, n\u00e3o temos acesso ao direito e \u00e0 justi\u00e7a. O Brasil vive explicitamente em um estado de exce\u00e7\u00e3o. Dentro disso, \u00e9 o salve-se quem puder\u201d.<\/p>\n<p>\u201cA gente precisa mudar as nossas estrat\u00e9gias, quando a gente precisa realmente prestar muita aten\u00e7\u00e3o umas \u00e0s outras e nos protegermos entre n\u00f3s. E entender que somos n\u00f3s por n\u00f3s\u201d, diz.<\/p>\n<p>Hoje, Valqu\u00edria afirma que, para ela,\u00a0<em>\u00e9 um dever lembrar a imagem de Marielle em todos os lugares que houver oportunidade<\/em>. Para n\u00e3o se esquecer, em nome e pela vida de todas as mulheres negras, l\u00e9sbicas, pobres e perif\u00e9ricas que, como ela, esperam h\u00e1 mais de 365 dias por respostas.<\/p>\n<\/section>\n<section class=\"embedMedia vertical-spacing\">\n<div class=\"container\"><\/div>\n<\/section>\n<section class=\"image vertical-spacing\"><picture><source srcset=\"\/\/farm8.staticflickr.com\/7865\/46649128124_0cb6d444f9_o.jpg\" media=\"(min-width: 690px)\" \/><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" title=\" \" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/farm8.staticflickr.com\/7899\/40406798613_c497a814f2_o.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\" \" \/><\/picture><\/section>\n<section class=\"text vertical-spacing\">\n<h1>Deputadas estaduais eleitas Renata Souza, M\u00f4nica Francisco e Dani Monteiro carregam legado de Marielle e tamb\u00e9m novas propostas<\/h1>\n<p><em>Por Mariana Pitasse,<\/em>\u00a0<em>Rio de Janeiro (RJ)<\/em><\/p>\n<\/section>\n<section class=\"embedMedia vertical-spacing\">\n<div class=\"container\">\n<div class=\"radiocont\"><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/w.soundcloud.com\/player\/?url=https%3A\/\/api.soundcloud.com\/tracks\/589978521&amp;color=%238f4c2a&amp;inverse=false&amp;auto_play=false&amp;show_user=true\" width=\"100%\" height=\"20\" frameborder=\"no\" scrolling=\"no\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<section class=\"text vertical-spacing\">Ap\u00f3s o crime brutal de 14 de mar\u00e7o de 2018, a figura de Marielle Franco ultrapassou as fronteiras do Rio de Janeiro e se multiplicou ao ser referenciada nos quatro cantos do pa\u00eds como s\u00edmbolo de lutas das mulheres, dos pobres, dos negros, dos favelados e da popula\u00e7\u00e3o LGBT. No entanto, ainda em vida\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2018\/03\/15\/marielle-franco-or-ser-mulher-negra-e-resistir-e-sobreviver-o-tempo-todo\/\">Marielle j\u00e1 se constitu\u00eda como refer\u00eancia e tinha como um dos seus objetivos ajudar a impulsionar a representatividade das mulheres negras nos espa\u00e7os de decis\u00e3o<\/a>.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do trabalho que desenvolvia como vereadora, um dos principais projetos de Marielle chamava\u00a0<a href=\"https:\/\/www.politize.com.br\/mulheres-na-politica\/\">\u201cMulheres na Pol\u00edtica\u201d<\/a>\u00a0e estava em fase de desenvolvimento. A ideia era estimular um movimento de mulheres que tivesse participa\u00e7\u00e3o mais efetiva na pol\u00edtica institucional. Alguns encontros e debates aconteceram at\u00e9 serem interrompidos pelo crime, em mar\u00e7o do ano passado. Mas n\u00e3o se encerraram por a\u00ed. Ap\u00f3s o assassinato, foi pensando no projeto e em outras conversas que\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/RenataSouzaPSOL\/\">Renata Souza<\/a>,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.monicafrancisco.com.br\/\">M\u00f4nica Francisco<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/danimonteiro.psol\/\">Dani Monteiro<\/a>, todas do PSOL, tr\u00eas mulheres negras, que trabalhavam como assessoras do mandato de Marielle, constru\u00edram suas candidaturas como deputadas estaduais do Rio de Janeiro e foram eleitas.<\/p>\n<p>\u201c<em>A gente sabe que a luta institucional \u00e9 s\u00f3 um meio pra gente fortalecer e utilizar como ferramenta para as lutas sociais<\/em>. Sabemos tamb\u00e9m que estar hoje nesta Casa, que historicamente negou espa\u00e7o para as mulheres, as mulheres negras, a popula\u00e7\u00e3o de favela e periferia, n\u00e3o s\u00f3 de se sentirem representados, mas terem voz e vez \u00e9, sem d\u00favida, uma responsabilidade enorme\u201d, afirma\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/RenataSouzaPSOL\/\">Renata Souza<\/a>, ex-chefe de gabinete de Marielle.<\/p>\n<p>Ela foi eleita com quase 64 mil votos &#8211; a deputada estadual mais votada entre os partidos de esquerda do Rio. Mulher, negra e criada na favela da Mar\u00e9, na zona norte da cidade, ela se formou jornalista na PUC-Rio com bolsa integral e hoje, aos 36 anos, \u00e9 p\u00f3s-doutoranda em comunica\u00e7\u00e3o pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Assim como Marielle, trabalhou por 10 anos com\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Marcelo_Freixo\">Marcelo Freixo<\/a>\u00a0(PSOL), atualmente deputado federal, na\u00a0<a href=\"https:\/\/www.marcelofreixo.com.br\/comissao-de-direitos-humanos\">Comiss\u00e3o de Defesa dos Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio<\/a>. Na \u00faltima semana de fevereiro, Renata voltou a atuar na mesma comiss\u00e3o, agora como a primeira mulher negra a assumir a sua presid\u00eancia.<\/p>\n<p>Colega de Marielle e Renata na Comiss\u00e3o de Direitos Humanos,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.monicafrancisco.com.br\/\">M\u00f4nica Francisco<\/a>, de 48 anos, assumiu no \u00faltimo m\u00eas a presid\u00eancia da Comiss\u00e3o de Trabalho e Renda, al\u00e9m da vice-presid\u00eancia da\u00a0<a href=\"https:\/\/www.monicafrancisco.com.br\/\">CPI do Feminic\u00eddio da Alerj<\/a>. Ela foi eleita tamb\u00e9m com vota\u00e7\u00e3o expressiva, somando 40,6 mil votos. Nascida no Morro do Borel, na zona norte do Rio, M\u00f4nica \u00e9 cientista social, pastora evang\u00e9lica e militante dos direitos humanos h\u00e1 mais de 30 anos.<\/p>\n<p>J\u00e1\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/danimonteiro.psol\/\">Dani Monteiro<\/a>, de 27 anos, foi a mais jovem deputada estadual eleita no Rio nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es e agora ocupa a vice-presid\u00eancia da Comiss\u00e3o de Defesa dos Direitos da Mulher. Natural do Morro de S\u00e3o Carlos, tamb\u00e9m na zona norte, Dani \u00e9 estudante cotista do curso de Ci\u00eancias Sociais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Ela constr\u00f3i o setorial de favelas do PSOL do Rio, \u00e9 membro do\u00a0<a href=\"http:\/\/mnu.org.br\/\">Movimento Negro Unificado<\/a>\u00a0(MNU) e uma das fundadoras do Movimento RUA Juventude Anticapitalista.<\/p>\n<p>\u201cDesde quando a gente foi eleita tem uma frase que est\u00e1 sendo norteadora da nossa atua\u00e7\u00e3o aqui dentro que \u00e9:\u00a0<em>\u2018um p\u00e9 na institucionalidade, mil p\u00e9s fora dela\u2019<\/em>. A gente est\u00e1 aqui dentro da institucionalidade por meio de um mandato que tem como foco quest\u00f5es que s\u00e3o invisibilizadas no nosso estado, que \u00e9 juventude negra, mulheres, favela. A gente traz essas quest\u00f5es para dentro, mas o mais importante \u00e9 que a gente quer levar isso tamb\u00e9m para fora\u201d, explica Monteiro.<\/p>\n<\/section>\n<section class=\"embedMedia vertical-spacing\">\n<div class=\"container\">\n<div class=\"video-wrapper content-wrapper\"><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/QZXILv42IH0\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<section class=\"text vertical-spacing\">\n<h2><strong>Elei\u00e7\u00f5es<\/strong><\/h2>\n<p>O Rio de Janeiro foi o segundo estado que mais elegeu mulheres no pleito de 2018, somando 12 parlamentares, quatro delas s\u00e3o negras. Al\u00e9m de Renata, M\u00f4nica e Dani, o estado tamb\u00e9m escolheu\u00a0<a href=\"https:\/\/www.taliriapetrone.com.br\/\">Tal\u00edria Petrone<\/a>\u00a0(PSOL) para ocupar uma cadeira na C\u00e2mara Federal. O n\u00famero total de mulheres eleitas no estado \u00e9 o dobro das elei\u00e7\u00f5es de 2014, j\u00e1 o total de mulheres negras eleitas \u00e9 quatro vezes maior.<\/p>\n<p>Para M\u00f4nica Francisco o resultado \u00e9 consequ\u00eancia de um processo, que \u00e9 anterior \u00e0s elei\u00e7\u00f5es. \u201c\u00c9 um processo resultante da mobiliza\u00e7\u00e3o das mulheres no mundo. Eu vejo tanto as nossas candidaturas, quanto as nossas elei\u00e7\u00f5es, como tamb\u00e9m uma resposta, resposta e resultado.\u00a0<em>Resposta de uma parcela da sociedade que tamb\u00e9m responde ao fundamentalismo, ao feminic\u00eddio e \u00e0 execu\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria Marielle<\/em>. Mas n\u00e3o s\u00f3. \u00c9 um contexto. \u00c9 um mosaico. \u00c9 um s\u00e9rie de situa\u00e7\u00f5es\u201d, explica.<\/p>\n<p>Ainda que os n\u00fameros apresentem mudan\u00e7as na composi\u00e7\u00e3o do parlamento do Rio de Janeiro, a propor\u00e7\u00e3o \u00e9 pequena.\u00a0<em>Nacionalmente, do total de candidaturas para todos os cargos, 31% foram mulheres e 69% foram homens<\/em>. Ainda que a maioria da popula\u00e7\u00e3o brasileira, em torno de 52,5%, seja de mulheres. Tratando especificamente das mulheres negras, houve um pequeno aumento, passando de 13%, em 2014, para 14%, em 2018, sendo que as mulheres negras representam 25% da popula\u00e7\u00e3o brasileira. Os dados foram compilados pelo especial\u00a0<a href=\"https:\/\/thinkolga.com\/2018\/09\/20\/especial-olga-mulheres-na-politica\/\">\u201cMulheres na Pol\u00edtica\u201d, produzido pela ONG Think Olga<\/a>.<\/p>\n<p>\u201cA gente vai conquistando o mundo do trabalho, todas essas ondas do feminismo, mas a pol\u00edtica ainda \u00e9 incipiente. Mesmo com isso que a gente fala: &#8216;nossa, em 2019 n\u00f3s temos mais mulheres na pol\u00edtica, mais mulheres negras, mais mulheres perif\u00e9ricas e tal&#8217;. Mas a gente ainda \u00e9 uma parcela \u00ednfima no legislativo e no executivo\u201d, acrescenta M\u00f4nica.<\/p>\n<p>Para Dani Monteiro, ainda \u00e9 necess\u00e1rio avaliar de forma mais aprofundada o que foi o resultado das \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es. \u201cMas tenho um palpite de que as nossas candidaturas foram um fio de esperan\u00e7a, n\u00e3o s\u00f3 aqui no estado do Rio, mas no Brasil inteiro.\u00a0<em>O resultado reflete o clamor de uma nova pol\u00edtica<\/em>. Pelos nossos corpos, pela nossa trajet\u00f3ria, nossas viv\u00eancias hist\u00f3ricas. Viv\u00eancias de quem conhece e sente na pele a atua\u00e7\u00e3o do estado\u201d, completa.<\/p>\n<h2><strong>Mandato<\/strong><\/h2>\n<p>Logo que assumiram as cadeiras na Alerj, Renata, M\u00f4nica e Dani propuseram tr\u00eas projetos de lei que foram elaborados com o objetivo de expandir para todo o estado propostas que Marielle tinha feito para o \u00e2mbito municipal. O primeiro projeto trata sobre uma\u00a0<a href=\"https:\/\/www.assedionaoepassageiro.mariellefranco.com.br\/\">campanha de preven\u00e7\u00e3o ao ass\u00e9dio<\/a>\u00a0em transportes coletivos p\u00fablicos e privados; o segundo visa instituir assist\u00eancia t\u00e9cnica gratuita para elabora\u00e7\u00e3o de projetos de habita\u00e7\u00e3o para fam\u00edlias de baixa renda e o terceiro tem como objetivo criar um programa de efetiva\u00e7\u00e3o das medidas socioeducativas para jovens em regime meio aberto.<\/p>\n<p>\u201cA gente apresentou esse pacote de projetos logo de cara porque \u00e9 simb\u00f3lico: estamos insistindo, em nome de Marielle, que n\u00e3o seremos interrompidas, mas tamb\u00e9m s\u00e3o projetos de extrema relev\u00e2ncia para a popula\u00e7\u00e3o\u201d, afirma Dani.<\/p>\n<p>Ainda que tenham apresentado os projetos de Marielle na Alerj e que sejam definidas como bra\u00e7os de continuidade pol\u00edtica da ex-vereadora, as parlamentares defendem que suas atua\u00e7\u00f5es na C\u00e2mara n\u00e3o se esgotam por a\u00ed.<\/p>\n<p>\u201cA ideia \u00e9 muito mais de continuidade dessa mem\u00f3ria, guardadas as devidas propor\u00e7\u00f5es, porque eu acho que\u00a0<em>a gente n\u00e3o est\u00e1 aqui s\u00f3 para aprovar projetos da Marielle, mas para fazer uma constru\u00e7\u00e3o em cima de cada um dos nossos perfis<\/em>. Claro que as pautas convergem muito, olhando para gente voc\u00ea pode imaginar o porqu\u00ea. Voc\u00ea tem uma pauta de favela, pauta de mulheres negras, voc\u00ea tem pauta de g\u00eanero, voc\u00ea tem pauta de negritude e direitos humanos. Ent\u00e3o voc\u00ea acaba tendo converg\u00eancia de temas\u201d, destaca M\u00f4nica.<\/p>\n<p>Para Renata, a ideia n\u00e3o \u00e9 carregar um legado, mas continuar construindo as pautas e as lutas a partir da experi\u00eancia que compartilharam com Marielle. \u201c<em>O legado dela \u00e9 universal, n\u00e3o \u00e9 de uma pessoa, n\u00e3o \u00e9 de uma luta<\/em>. \u00c9 das pessoas que se entendem como humanas e que lutam para superar as desigualdades sociais. Para a gente continuar essa luta precisamos voltar para as bases, construir di\u00e1logo com as pessoas, entendendo a favela e os espa\u00e7os de periferia como pot\u00eancias. Porque quando a gente olha para a favela e para a periferia e diz que aquilo l\u00e1 \u00e9 um problema de pol\u00edcia, ao inv\u00e9s de ser uma quest\u00e3o de pol\u00edtica, a gente j\u00e1 disse quem s\u00e3o os inimigos dessa sociedade\u201d, completa.<\/p>\n<h2><strong>Seguran\u00e7a p\u00fablica<\/strong><\/h2>\n<p>A fala de Renata vai na contram\u00e3o das pol\u00edticas implementadas em \u00e2mbito nacional e estadual na \u00e1rea da seguran\u00e7a p\u00fablica. Em apenas um m\u00eas do governo de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2019\/01\/10\/especialistas-criticam-proposta-de-witzel-de-prisao-com-torturas\/\">Wilson Witzel<\/a>\u00a0(PSC) no Rio de Janeiro, as opera\u00e7\u00f5es da Pol\u00edcia Militar bateram recordes de mortes. Em uma sequ\u00eancia sangrenta de 10 dias, entre janeiro e o come\u00e7o de fevereiro deste ano,\u00a0<a href=\"https:\/\/extra.globo.com\/casos-de-policia\/operacoes-da-pm-tiveram-42-pessoas-mortas-em-10-dias-no-rio-23445739.html\">os policiais militares mataram 42 pessoas no Rio de Janeiro<\/a>. A m\u00e9dia \u00e9 de quatro mortes por dia. Witzel \u00e9 o mesmo que em\u00a0<a href=\"https:\/\/oglobo.globo.com\/fato-ou-fake\/e-fato-que-deputados-eleitos-pelo-psl-quebraram-placa-com-nome-de-marielle-franco-em-comicio-de-wilson-witzel-23140096\">campanha eleitoral participou de ato que quebrou a placa em homenagem a Marielle<\/a>\u00a0e declarou que a pol\u00edcia agora vai ser autorizada a fazer\u00a0<a href=\"https:\/\/www.opovo.com.br\/noticias\/politica\/ae\/2018\/11\/a-policia-vai-mirar-na-cabecinha-e-fogo-afirma-wilson-witzel.html\">\u201co correto: vai mirar na cabecinha e\u2026 fogo! Para n\u00e3o ter erro&#8221;<\/a>.<\/p>\n<p>Somada a essa realidade que se desenha no Rio,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2019\/02\/26\/por-que-o-pacote-anticrime-de-moro-e-uma-licenca-para-matar\/\">est\u00e1 o pacote intitulado \u201canticrime\u201d proposto pelo ex-juiz e atual ministro da Justi\u00e7a da S\u00e9rgio Moro<\/a>, que pode agravar ainda mais a viol\u00eancia dos agentes do Estado nas favelas e periferias. Uma das medidas prev\u00ea que o policial que mata possa n\u00e3o ser penalizado se a a\u00e7\u00e3o decorrer de escus\u00e1vel &#8220;medo, surpresa ou violenta emo\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>\u201cO pacote do Moro vai em dire\u00e7\u00e3o a essa l\u00f3gica n\u00e3o s\u00f3 do Estado abrir m\u00e3o de fazer o seu papel, que \u00e9 preservar o direito \u00e0 vida, mas tamb\u00e9m garantir que as pessoas que vierem a matar possam ser absorvidas por esse crime. \u00c9 algo assustador. A pena de morte j\u00e1 foi decretada pelo governador Witzel, pelo Moro, pelo Bolsonaro h\u00e1 muito tempo. Ent\u00e3o essa \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o que a gente v\u00ea hoje: da barb\u00e1rie virando pol\u00edtica p\u00fablica de Estado\u201d, destaca Renata.<\/p>\n<p>Dani complementa que a atual pol\u00edtica de seguran\u00e7a p\u00fablica pautada no exterm\u00ednio tem rela\u00e7\u00e3o direta com o assassinato de Marielle. \u201cA pr\u00f3pria bala que a atingiu foi um lote desviado da Pol\u00edcia Federal, que inclusive foi o mesmo lote de balas que foi a maior chacina de S\u00e3o Paulo, que foi Osasco e Barueri, em que foram mortos 21 jovens em uma \u00fanica noite. E s\u00e3o todos lotes de balas do Estado. Ent\u00e3o a primeira resguarda tem que ser dentro da institucionalidade. Se tem desvio de arma, como esse desvio acontece e como o Estado pode intervir nisso? Se a gente quer desmantelar as m\u00e1fias que existem a mil\u00edcia, o Escrit\u00f3rio do Crime no nosso estado, a gente precisa desmantelar as fac\u00e7\u00f5es. Mas essas n\u00e3o s\u00e3o quest\u00f5es para os atuais governos\u201d, afirma.<\/p>\n<h2><strong>Inspira\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h2>\n<p>As tr\u00eas avaliam que tem um trabalho \u00e1rduo pela frente e garantem que seus mandatos t\u00eam a postura de enfrentamento ao conservadorismo, com inspira\u00e7\u00e3o na atua\u00e7\u00e3o de Marielle.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 muito engra\u00e7ado porque quando eu tava no mandato a gente ficava assim: &#8216;ai, a Marielle reclama demais, a Marielle isso, a Marielle aquilo&#8217;. S\u00f3 que dali a pouco voc\u00ea se v\u00ea estando numa situa\u00e7\u00e3o e voc\u00ea fica perdida, em seguida voc\u00ea lembra: &#8216;ah, a Marielle nessa situa\u00e7\u00e3o faria exatamente isso&#8217;. E a\u00ed voc\u00ea faz. Ent\u00e3o, \u00e9 no dia a dia. No assinar um projeto, no encarar um deputado do PSL. &#8216;A Marielle ficava assim, eu vou ficar assim tamb\u00e9m&#8217;\u201d, explica Dani.<\/p>\n<p>Para M\u00f4nica, a inspira\u00e7\u00e3o na for\u00e7a de Marielle encontra espa\u00e7o nas lutas di\u00e1rias mas tamb\u00e9m simb\u00f3licas. \u201c<em>Ela inspira o sentimento de cumplicidade da dor das mulheres negras<\/em>. Da dor, da for\u00e7a, da capacidade de resistir, da resili\u00eancia, de superar. E n\u00e3o \u00e9 aquela supera\u00e7\u00e3o de frase de efeito, \u00e9 de superar as pr\u00f3prias limita\u00e7\u00f5es, os medos, as ang\u00fastias. A Marielle \u00e9 inspira\u00e7\u00e3o n\u00e3o porque ela virou um s\u00edmbolo numa camiseta ou numa bandeira ou porque foi executada, mas pelo que ela era em vida realmente\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Renata complementa que\u00a0<em>Marielle se tornou um s\u00edmbolo porque lutou para evitar que humanidade se desumanize<\/em>. \u201cEla ousou estar nesse espa\u00e7o que \u00e9 t\u00e3o homof\u00f3bico, LGBTf\u00f3bico, racista, machista, classista. Ousou dizer que as mulheres estariam onde elas quisessem ou deveriam estar. A luta \u00e9 maior do que o corpo dela, do que sua presen\u00e7a f\u00edsica. E a Marielle \u00e9 gigante porque ela continua presente\u201d, conclui.<\/p>\n<\/section>\n<section class=\"image vertical-spacing\"><picture><source srcset=\"\/\/farm8.staticflickr.com\/7817\/47309795392_db6df4cb70_o.jpg\" media=\"(min-width: 690px)\" \/><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" title=\" \" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/farm8.staticflickr.com\/7827\/33486439738_bf98411cdb_o.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\" \" \/><\/picture><\/section>\n<section class=\"text vertical-spacing\">\n<h1>Dos cinco projetos aprovados em sess\u00e3o extraordin\u00e1ria ap\u00f3s seu assassinato, apenas um foi implementado<\/h1>\n<p><em>Por Mariana Pitasse<\/em>\u00a0<em>Rio de Janeiro (RJ)<\/em><\/p>\n<p>Durante a curta carreira parlamentar, em pouco mais de um ano de mandato, Marielle Franco (PSOL) apresentou 16 projetos de lei na C\u00e2mara dos Vereadores do Rio de Janeiro, sendo oito individuais e oito assinados com outros vereadores. Cinco desses projetos foram aprovados em sess\u00e3o extraordin\u00e1ria, em agosto do ano passado, cinco meses ap\u00f3s seu assassinato. No entanto, mesmo ap\u00f3s terem se tornado lei, a maioria dos projetos encontra barreiras em sua implementa\u00e7\u00e3o e apenas um deles passou a valer na pr\u00e1tica: a\u00a0<a href=\"https:\/\/leismunicipais.com.br\/a\/rj\/r\/rio-de-janeiro\/lei-ordinaria\/2018\/638\/6389\/lei-ordinaria-n-6389-2018-inclui-o-dia-da-tereza-de-benguela-e-da-mulher-negra-no-calendario-oficial-da-cidade-do-rio-de-janeiro-consolidado-pela-lei-n-5146-2010\">Lei 6389\/2018<\/a>, que institui o 25 de julho como o \u201cDia\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Teresa_de_Benguela\">Tereza de Benguela<\/a>\u00a0e da Mulher Negra\u201d no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Os outros quatro projetos encontram-se em diferentes situa\u00e7\u00f5es. Dois deles est\u00e3o em queda de bra\u00e7o com o prefeito Marcelo Crivella (PRB),\u00a0<em>tendo sido vetados com a justificativa de que criariam um aumento das despesas p\u00fablicas<\/em>. Em seguida, tiveram o veto derrubado pela C\u00e2mara dos Vereadores, o que os tornou leis, mas n\u00e3o foram efetivados enquanto pol\u00edticas p\u00fablicas. Um deles tem por objetivo a cria\u00e7\u00e3o de um \u201cEspa\u00e7o Infantil Noturno\u201d (ver abaixo) de acolhimento para crian\u00e7as, no per\u00edodo em que pais est\u00e3o no trabalho ou na escola, o outro visa dar continuidade ao processo de forma\u00e7\u00e3o dos adolescentes que cumpriram medidas socioeducativas.<\/p>\n<p>\u201cOu seja, a gente tem importantes leis aprovadas, mas que a prefeitura n\u00e3o implementa\u201d, sintetiza o vereador e colega de partido de Marielle, Tarc\u00edsio Motta (PSOL). De acordo com a assessoria de comunica\u00e7\u00e3o da Prefeitura do Rio, o governo ainda est\u00e1 analisando as medidas que ser\u00e3o adotadas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s leis.<\/p>\n<p>Aprovados e sancionados pelo prefeito do Rio, outros dois projetos ainda n\u00e3o foram efetivados na pr\u00e1tica. S\u00e3o eles: a\u00a0<a href=\"http:\/\/mail.camara.rj.gov.br\/APL\/Legislativos\/contlei.nsf\/7cb7d306c2b748cb0325796000610ad8\/125d556691e7dc70832582fe0072aef1?OpenDocument\">Lei 6394\/2018<\/a>, que cria o\u00a0<a href=\"http:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/politica\/noticia\/2018-09\/projeto-de-marielle-franco-sobre-dossie-mulher-carioca-vira-lei-no-rio\">\u201cDossi\u00ea Mulher Carioca\u201d<\/a>, uma esp\u00e9cie de estat\u00edstica peri\u00f3dica sobre as mulheres atendidas pelas pol\u00edticas p\u00fablicas no munic\u00edpio, e tamb\u00e9m a\u00a0<a href=\"http:\/\/mail.camara.rj.gov.br\/APL\/Legislativos\/contlei.nsf\/7cb7d306c2b748cb0325796000610ad8\/baec2bcb984ed2278325831a0070d0f1?OpenDocument\">Lei 6415\/2018<\/a>, que trata sobre a elabora\u00e7\u00e3o de uma\u00a0<a href=\"https:\/\/thinkolga.com\/2019\/02\/14\/o-assedio-e-a-lei-de-importunacao-sexual\/\">campanha permanente de enfrentamento ao ass\u00e9dio em locais p\u00fablicos da cidade<\/a>.<\/p>\n<p>\u201cEla batizou esse projeto de \u2018Ass\u00e9dio n\u00e3o \u00e9 passageiro\u2019, e essa lei est\u00e1 valendo. A ideia \u00e9, por exemplo, que as empresas coloquem cartazes nos transportes p\u00fablicos, anunciando a quest\u00e3o do ass\u00e9dio como crime. Tamb\u00e9m dizendo o n\u00famero que a mulher assediada pode ligar, al\u00e9m de algumas mensagens educativas para os homens. Precisamos pressionar a prefeitura para implementar essas leis. \u00c9 uma luta permanente\u201d, acrescenta Motta.<\/p>\n<p>A sess\u00e3o extraordin\u00e1ria de agosto do ano passado foi precedida de uma reuni\u00e3o dos vereadores do campo progressista com os outros parlamentares para alinhar o parecer favor\u00e1vel \u00e0 maioria dos projetos de Marielle. Na ocasi\u00e3o, os parlamentares tamb\u00e9m aprovaram a lei que passou a nomear o plen\u00e1rio do Pal\u00e1cio Pedro Ernesto com o nome de Marielle Franco. Segundo Tarc\u00edsio Motta, um dos articuladores da sess\u00e3o extraordin\u00e1ria,\u00a0<em>houve resist\u00eancia de parlamentares fundamentalistas aos projetos que tratavam de quest\u00f5es de g\u00eanero<\/em>.<\/p>\n<p>Projetos como o 72\/2017 que pretende instituir o \u201cDia da luta contra a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.rcdh.es.gov.br\/pagina\/homofobia-lesbofobia-e-transfobia\">homofobia, lesbofobia, bifobia e transfobia<\/a>\u201d e o 82\/2017 com o objetivo de criar o\u00a0<a href=\"https:\/\/medium.com\/todxs\/visibilidade-lesbica-agosto-d701658d1df\">\u201cDia da visibilidade l\u00e9sbica\u201d<\/a>\u00a0tiveram vota\u00e7\u00f5es adiadas por gerar pol\u00eamica entre os parlamentares. J\u00e1 o projeto que trata sobre tratamento humanizado na rede p\u00fablica de sa\u00fade em casos de aborto legal, n\u00e3o foi sequer discutido e est\u00e1 fora de pauta desde 2017.<\/p>\n<p>\u201cMesmo assim n\u00e3o acredito que foi apenas uma aprova\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica. S\u00e3o as ideias dela concretizadas em projetos de lei que podem mudar a vida das pessoas. Mas n\u00e3o basta s\u00f3 aprovar, a prefeitura tem a responsabilidade de implementar esses projetos. Nossa luta agora \u00e9 essa. Muitos precisam de um decreto da prefeitura regulamentando para que sejam implementados\u201d, destacou Motta.<\/p>\n<p>Projetos assinados por Marielle e outros vereadores, de forma coletiva, est\u00e3o ainda sendo colocados em pauta para vota\u00e7\u00e3o por parlamentares do PSOL. Um dos que est\u00e1 mais pr\u00f3ximo do in\u00edcio da fila para ser votado, conforme informa\u00e7\u00f5es disponibilizadas no site da C\u00e2mara dos Vereadores do Rio, \u00e9 o\u00a0<a href=\"http:\/\/mail.camara.rj.gov.br\/Apl\/Legislativos\/scpro1720.nsf\/f6d54a9bf09ac233032579de006bfef6\/53ce928ce92c68f1832581fd00514380?OpenDocument\">PL 642\/2017<\/a>\u00a0que pretende instituir assist\u00eancia t\u00e9cnica gratuita para habita\u00e7\u00f5es de interesse social, elaborado em parceria com o Tarc\u00edsio Motta.<\/p>\n<h2><strong>Espa\u00e7o Coruja<\/strong><\/h2>\n<p>Principais bandeiras de sua atua\u00e7\u00e3o, os projetos apresentados ao plen\u00e1rio da Casa legislativa logo na primeira semana de mandato foram os apelidados de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.espacocoruja.mariellefranco.com.br\/\">\u201cEspa\u00e7o Coruja\u201d<\/a>, o PL 17\/2017, e\u00a0<a href=\"https:\/\/www.prafazervaler.mariellefranco.com.br\/\">\u201cPra fazer valer o aborto legal\u201d<\/a>, PL 16\/2017.<\/p>\n<p>O primeiro, que se tornou lei, tem como objetivo criar um Espa\u00e7o Infantil Noturno que prev\u00ea o uso de creches e outras estruturas infantis da rede municipal para receber e desenvolver atividades com crian\u00e7as de seis meses a cinco anos com o objetivo de \u201catender \u00e0 demanda de fam\u00edlias que tenham suas atividades profissionais ou acad\u00eamicas concentradas no hor\u00e1rio noturno\u201d, segundo o texto que descreve a iniciativa.<\/p>\n<p><em>Enquanto a prefeitura n\u00e3o implementa a lei, milhares de m\u00e3es e pais continuam sem amparo do poder p\u00fablico. \u00c9 o caso de Nathalia Correa, de 27 anos, moradora de Iraj\u00e1, na zona Norte do Rio de Janeiro<\/em>. Para ela, o projeto \u00e9 urgente. Nathalia \u00e9 m\u00e3e de Arthur, de cinco anos, e estudante de pedagogia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Ela \u00e9 m\u00e3e solo, ou seja, assume todas as responsabilidades pela crian\u00e7a, sejam financeiras ou por disponibilidade de tempo.<\/p>\n<p>\u201cEu fa\u00e7o faculdade no hor\u00e1rio noturno e n\u00e3o tenho uma solu\u00e7\u00e3o fixa para meu filho. Tem dias que deixo com a minha m\u00e3e, mas nem sempre ela pode. Tem dias que eu deixo de estar na faculdade para estar com ele ou \u00e0s vezes o levo comigo, mas isso pode ser um problema porque tem professores que n\u00e3o aceitam\u201d, explica.<\/p>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o de Nat\u00e1lia, a lei pode beneficiar principalmente as mulheres, que ainda s\u00e3o as principais respons\u00e1veis pelos cuidados com os filhos e correm o risco de perderem seus empregos ou terem que largar seus estudos por n\u00e3o terem condi\u00e7\u00f5es de contratar algu\u00e9m para cuidar deles.<\/p>\n<p>\u00c9 o que comprova uma pesquisa do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o feita em 2016. Segundo o levantamento, 18,1% das mulheres, entre 15 e 29 anos, indicaram a gravidez como motivo para largar os estudos. J\u00e1 entre os homens da mesma faixa et\u00e1ria, somente 1,3% interrompem os estudos pela mesma raz\u00e3o.<\/p>\n<h2><strong>Aborto legal<\/strong><\/h2>\n<p>O outro projeto apresentado por Marielle logo que assumiu o mandato foi pensado para garantir o direito de atendimento humanizado e sem viol\u00eancias \u00e0s mulheres que est\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de aborto legal. No Brasil,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-45052975\">o aborto \u00e9 um direito garantido \u00e0s mulheres em caso de anencefalia, risco de morte e gravidez decorrente de estupro<\/a>. Apesar disso, muitas mulheres nessas situa\u00e7\u00f5es esbarram no preconceito, com a falta de informa\u00e7\u00e3o e at\u00e9 com maus tratos de profissionais da sa\u00fade que as atendem. Nesse sentido, a ideia do projeto \u00e9 garantir o que j\u00e1 est\u00e1 previsto em lei, e assim, evitar mortes e tratamento inadequado para as mulheres que precisam de cuidados da rede p\u00fablica de sa\u00fade.<\/p>\n<p>Em 2014, quase 5% das mortes maternas no Brasil tiveram como causa o aborto, de acordo com levantamento feito pela\u00a0<a href=\"http:\/\/www.cfemea.org.br\/index.php\/dialogos-e-mobilizacoes\/4683-legal-e-seguro-campanha-do-cfemea-observatorio-de-sexualidade-e-politica-spw-e-ipas\">campanha \u201cLegal e Seguro&#8221;<\/a>, promovida pelas organiza\u00e7\u00f5es Centro Feminista de Estudos e Assessoria (Cfemea), Observat\u00f3rio de Sexualidade e Pol\u00edtica (SPW) e IPAS \u2013 Sa\u00fade, Acesso e Direitos.<\/p>\n<p>Ainda segundo o levantamento, mulheres negras s\u00e3o as maiores v\u00edtimas de \u00f3bitos. Esse quadro se explica porque elas s\u00e3o levadas a buscar ajuda em situa\u00e7\u00e3o limite, seja por medo de serem maltratadas ou mesmo por falta de acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o qualificada. O projeto de Marielle trata justamente desses casos e n\u00e3o foi sequer colocado para vota\u00e7\u00e3o na C\u00e2mara dos Vereadores do Rio.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o \u00e9 um projeto que autoriza o aborto. Ele quer simplesmente garantir o que j\u00e1 estava previsto em lei: que a mulher que tem aborto espont\u00e2neo ou garantido por lei seja tratada humanamente dentro dos hospitais p\u00fablicos. Mas a gente tem uma C\u00e2mara de Vereadores muito conservadora. Muito afinada com todo esse debate intransigente em rela\u00e7\u00e3o ao aborto porque s\u00e3o fundamentalistas religiosos. Ent\u00e3o trazem para o Estado, que \u00e9 laico e que deveria legislar para todos, aqueles preceitos que eles acham que tem na B\u00edblia. Ent\u00e3o isso foi um problema completo\u201d, lembra a deputada estadual do Rio de Janeiro\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/RenataSouzaPSOL\/\">Renata Souza<\/a>\u00a0(PSOL), que foi chefe de gabinete de Marielle durante seu mandato.<\/p>\n<h2><strong>Figura p\u00fablica<\/strong><\/h2>\n<p>Mulher, negra e nascida na favela da Mar\u00e9, na zona Norte do Rio de Janeiro, Marielle teve a luta pelos direitos humanos como seu objetivo de vida desde cedo. Mas foi na luta institucional que ela se tornou figura p\u00fablica, reconhecida como lideran\u00e7a em ascens\u00e3o no Rio de Janeiro e tornando-se a quinta vereadora mais votada nas elei\u00e7\u00f5es municipais de 2016, com mais de 46 mil votos.<\/p>\n<p>Marielle era soci\u00f3loga, com mestrado em Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica. Antes de se tornar vereadora, j\u00e1 tinha atua\u00e7\u00e3o na pol\u00edtica institucional, com mais de 10 anos como assessora parlamentar do ent\u00e3o\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Marcelo_Freixo\">deputado estadual Marcelo Freixo<\/a>\u00a0(PSOL), per\u00edodo em que integrou a\u00a0<a href=\"https:\/\/www.marcelofreixo.com.br\/comissao-de-direitos-humanos\">Comiss\u00e3o de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj)<\/a>.<\/p>\n<p>\u201cA candidatura de Marielle foi fruto de for\u00e7a e vontade coletivas. Um dia ela entrou em minha sala e disse para mim que seria candidata. Respondi que ela estava pronta para se candidatar. Falei para ela: \u2018voa\u2019. Mari estava no momento certo, amadurecida, preparada. Ela trabalhou comigo desde o meu primeiro dia na Alerj. Fomos nos transformando e amadurecendo juntos no parlamento\u201d, conta Freixo.<\/p>\n<p>Quando assumiu o mandato como parlamentar, Marielle continuou defendendo os direitos das mulheres e da popula\u00e7\u00e3o mais pobre, combatendo o preconceito e a viol\u00eancia na C\u00e2mara do Rio. Foi presidente da Comiss\u00e3o da Mulher da C\u00e2mara de Vereadores e tamb\u00e9m relatora de uma comiss\u00e3o composta por quatro parlamentares, que tinha como objetivo monitorar a\u00a0<a href=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/colunas\/carlos-frederico-guazzelli\/2018\/03\/a-intervencao-militar-no-rio-e-a-execucao-de-marielle\/\">interven\u00e7\u00e3o militar no Rio de Janeiro<\/a>.<\/p>\n<p>\u201cInfelizmente, Marielle s\u00f3 se tornou esse s\u00edmbolo por causa de seu assassinato.\u00a0<em>Para n\u00f3s que convivemos com ela, sempre foi uma pot\u00eancia<\/em>, sempre teve capacidade de representar mulheres, negras e faveladas. Mas seu aparecimento como s\u00edmbolo ocorre, infelizmente, ap\u00f3s sua morte. A\u00ed deixo a minha cr\u00edtica.\u00a0<em>Por que o Brasil ou o mundo n\u00e3o conheceram Marielle antes?<\/em>Acho que no fundo, essa como\u00e7\u00e3o com seu assassinato, passa por um desejo frustrado, uma dor de quem n\u00e3o pode ter conhecido essa mulher incr\u00edvel quando ela estava viva\u201d, conclui o deputado.<\/p>\n<\/section>\n<section class=\"image vertical-spacing\"><picture><source srcset=\"\/\/farm8.staticflickr.com\/7926\/32430636217_0943d5771a_o.jpg\" media=\"(min-width: 690px)\" \/><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" title=\" \" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/farm8.staticflickr.com\/7847\/40406812163_0eebfb5292_o.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\" \" \/><\/picture><\/section>\n<section class=\"embedMedia vertical-spacing\">\n<div class=\"container\"><\/div>\n<\/section>\n<section class=\"image vertical-spacing\">\n<h2 class=\"image-title\"><\/h2>\n<picture><source srcset=\"\/\/farm8.staticflickr.com\/7825\/32421712747_7fb7ce258a_o.jpg\" media=\"(min-width: 690px)\" \/><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" title=\" \" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/farm8.staticflickr.com\/7893\/46640439774_465b69c2a7_o.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\" \" \/><\/picture><\/section>\n<section class=\"text vertical-spacing\">\n<h1>De acordo com o relat\u00f3rio sobre a interven\u00e7\u00e3o militar, a Delegacia de Homic\u00eddios do Rio amarga uma das piores taxas de elucida\u00e7\u00e3o de assassinatos do Brasil. Entenda o desenrolar da investiga\u00e7\u00e3o e como ela demonstra que o maior poder paralelo no Brasil \u00e9 o pr\u00f3prio Estado.<\/h1>\n<p><em>Por Jaqueline Deister,<\/em>\u00a0<em>Rio de Janeiro (RJ)<\/em><\/p>\n<\/section>\n<section class=\"embedMedia vertical-spacing\">\n<div class=\"container\">\n<div class=\"radiocont\"><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/w.soundcloud.com\/player\/?url=https%3A\/\/api.soundcloud.com\/tracks\/589625484&amp;color=%238f4c2a&amp;inverse=false&amp;auto_play=false&amp;show_user=true\" width=\"100%\" height=\"20\" frameborder=\"no\" scrolling=\"no\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/div>\n<p>berto<\/p><\/div>\n<\/section>\n<section class=\"text vertical-spacing\">Os grupos paramilitares, formados em grande maioria por militares, policiais e agentes de seguran\u00e7a, durante muitas d\u00e9cadas tiveram a chancela para agir.\u00a0<a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/materia\/agora-e-tolerancia-total\/\">C\u00e9sar Maia (DEM), por exemplo, quando prefeito da cidade do Rio de Janeiro, declarou em diversas oportunidades, \u00e0 revista Piau\u00ed e ao jornal O Globo<\/a>, que \u201cas mil\u00edcias s\u00e3o mais percebidas pela popula\u00e7\u00e3o e pelo pr\u00f3prio poder p\u00fablico como muito melhores do que o tr\u00e1fico de drogas\u201d. A fala n\u00e3o \u00e9 exclusividade de Maia: h\u00e1 parlamentares que at\u00e9 hoje permanecem elogiando e condecorando publicamente a a\u00e7\u00e3o criminosa e assassina dos milicianos.\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/jpcharleaux\/status\/1105783886636830720\">A fam\u00edlia Bolsonaro, em numerosas ocasi\u00f5es, louvou a iniciativa de &#8220;autodefesa&#8221; e os grupos de exterm\u00ednios em discursos p\u00fablicos<\/a>.<\/p>\n<p>\u201cEsse assassinato da Marielle se inclui nesta l\u00f3gica muito antiga das execu\u00e7\u00f5es sum\u00e1rias que surgem dentro da ditadura empresarial-militar em 1964. Ela \u00e9 uma pr\u00e1tica difundida a partir dos \u00f3rg\u00e3os de seguran\u00e7a que o Estado, naquele momento, est\u00e1 consolidando como a pol\u00edcia militar, como um \u00f3rg\u00e3o de aux\u00edlio ostensivo, de aux\u00edlio \u00e0 ditadura e \u00e0 repress\u00e3o\u201d, explica Jos\u00e9 Cl\u00e1udio Souza Alves, professor de Sociologia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).<\/p>\n<p>O pesquisador estuda h\u00e1 26 anos a viol\u00eancia na Baixada Fluminense. De acordo com ele, as mil\u00edcias que atuam no Rio s\u00e3o uma evolu\u00e7\u00e3o dos grupos de exterm\u00ednio da Baixada que existem desde os anos de chumbo.<\/p>\n<h2><strong>Licen\u00e7a para matar<\/strong><\/h2>\n<p>A licen\u00e7a para matar, que h\u00e1 mais de 50 anos foi dada para os grupos paramilitares, se tornou um sofisticado e rent\u00e1vel mecanismo de lucro para os integrantes do que se chama hoje de mil\u00edcia. Al\u00e9m de realizar assassinatos por encomenda, os milicianos dominam o com\u00e9rcio e o transporte em favelas cariocas e conhecem intimamente o funcionamento da m\u00e1quina p\u00fablica. Segundo Alves, a mil\u00edcia est\u00e1 \u201ccapilarizada\u201d por toda a estrutura do Estado, o que torna t\u00e3o dif\u00edcil conter o seu avan\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8220;<em>Eu nunca trabalhei com a l\u00f3gica de que s\u00e3o grupos paralelos ou de uma aus\u00eancia do Estado e a partir desta aus\u00eancia estes grupos se formaram, ao contr\u00e1rio. Eles s\u00f3 existem desta forma, a mil\u00edcia e, no passado, os grupos de exterm\u00ednio, gra\u00e7as a sua exist\u00eancia dentro do pr\u00f3prio Estado<\/em>. Por exemplo, na execu\u00e7\u00e3o da Marielle n\u00e3o h\u00e1 filmagens, acesso ao circuito de c\u00e2meras, h\u00e1 o apagamento de pistas, tudo isso combinado com a demora para a solu\u00e7\u00e3o demonstra que os grupos tiveram acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o privilegiada&#8221;, destaca o autor do livro\u00a0<a href=\"https:\/\/www.librarything.com\/work\/1279808\">\u201cDos bar\u00f5es ao exterm\u00ednio: uma hist\u00f3ria da viol\u00eancia na Baixada Fluminense\u201d<\/a>.<\/p>\n<h2><strong>Crime<\/strong><\/h2>\n<p>Marielle foi assassinada ap\u00f3s sair de um evento com mulheres negras, na regi\u00e3o central da cidade. O carro em que a vereadora estava foi emparelhado na rua Joaquim Palhares, no Est\u00e1cio, por um ve\u00edculo modelo Cobalt. Ao todo, foram 13 disparos efetuados. Quatro atingiram a cabe\u00e7a da vereadora e tr\u00eas o motorista Anderson Gomes. Ambos morreram na hora. A assessora de Marielle, Fernanda Chaves, foi a \u00fanica sobrevivente do atentado.<\/p>\n<p>De acordo com as informa\u00e7\u00f5es divulgadas pela imprensa, a arma utilizada foi uma submetralhadora alem\u00e3 HK MP5 9 mm e os tiros foram efetuados em uma dist\u00e2ncia de aproximadamente dois metros. O ent\u00e3o ministro da seguran\u00e7a p\u00fablica Raul Jungmann informou \u00e0 \u00e9poca que as muni\u00e7\u00f5es utilizadas no crime pertenciam a um lote vendido para a Pol\u00edcia Federal (PF) de Bras\u00edlia que foi roubado na sede dos Correios da Para\u00edba em 2006.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o presidente dos Correios, Guilherme Campos J\u00fanior, dizer desconhecer o epis\u00f3dio, Jungmann explicou que usou o caso para exemplificar o extravio e desvio de muni\u00e7\u00e3o da PF que foi encontrada em outras cenas de crimes sob investiga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>De acordo com as informa\u00e7\u00f5es divulgadas, as muni\u00e7\u00f5es do assassinato de Marielle e Anderson foram usadas\u00a0<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/cotidiano\/2018\/03\/municao-liga-caso-marielle-a-maior-chacina-de-sp.shtml\">na chacina de Osasco<\/a>\u00a0na grande S\u00e3o Paulo, no ano de 2015, e tamb\u00e9m nos assassinatos de cinco pessoas em guerras de fac\u00e7\u00f5es de traficantes, no munic\u00edpio de S\u00e3o Gon\u00e7alo, na regi\u00e3o metropolitana do Rio.<\/p>\n<h2><strong>A ponta do iceberg<\/strong><\/h2>\n<p>O caso Marielle evidenciou um problema recorrente no estado do Rio de Janeiro. A dificuldade da pol\u00edcia para elucidar os crimes de homic\u00eddio. De acordo com o relat\u00f3rio \u201cInterven\u00e7\u00e3o Federal: um modelo para n\u00e3o copiar\u201d, lan\u00e7ado neste ano pelo\u00a0<a href=\"http:\/\/observatoriodaintervencao.com.br\/\">Observat\u00f3rio da Interven\u00e7\u00e3o<\/a>, a Delegacia de Homic\u00eddios do Rio de Janeiro amarga uma das piores taxas de elucida\u00e7\u00e3o de assassinatos do Brasil. O estudo aponta ainda que as unidades de per\u00edcia e os Institutos M\u00e9dicos Legais (IMLs) est\u00e3o sucateados e que as escalas de trabalho praticadas em diversas delegacias (24hx72h) n\u00e3o s\u00e3o adequadas \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cA\u00a0<a href=\"http:\/\/www.policiacivilrj.net.br\/\">PCERJ<\/a>\u00a0(Pol\u00edcia Civil do Estado do Rio de Janeiro), a despeito de ter passado por uma mudan\u00e7a profunda a partir de 1999, com o Programa Delegacia Legal, n\u00e3o criou uma cultura investigativa e de intelig\u00eancia para suas delegacias. As distritais s\u00e3o cart\u00f3rios de registros de ocorr\u00eancia e raramente se envolvem na investiga\u00e7\u00e3o de crimes que incidem naquelas \u00e1reas. Os delitos considerados importantes s\u00e3o transferidos para as especializadas\u201d, aponta o relat\u00f3rio.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.soudapaz.org\/upload\/pdf\/index_isdp_web.pdf\">Dados do levantamento de 2017 \u201cOnde mora a impunidade?\u201d do Instituto Sou da Paz<\/a>\u00a0revelam que o Rio de Janeiro solucionou somente 12% das ocorr\u00eancias de homic\u00eddios dolosos em 2015, de um total de 25,4 mortes por 100 mil habitantes \u2014 a 17\u00ba maior taxa de homic\u00eddios do pa\u00eds.<\/p>\n<h2><strong>Cortina de fuma\u00e7a<\/strong><\/h2>\n<p>O caso ocorreu 28 dias ap\u00f3s o in\u00edcio da interven\u00e7\u00e3o militar na seguran\u00e7a p\u00fablica do estado do Rio de Janeiro e tornou-se o calcanhar de aquiles das For\u00e7as Armadas. A repercuss\u00e3o internacional do crime e as press\u00f5es externas e internas para a solu\u00e7\u00e3o do caso fez com que o interventor \u00e0 \u00e9poca, general Walter Braga Netto, garantisse que at\u00e9 o fim da interven\u00e7\u00e3o, dia 31 de dezembro, o crime estaria resolvido. Contudo, a declara\u00e7\u00e3o n\u00e3o passou de especula\u00e7\u00e3o e falsa promessa, mais de nove meses depois, o crime permaneceu envolto sob uma cortina de fuma\u00e7a que nem mesmo os advogados que acompanham o caso conseguem adentrar.<\/p>\n<p>Uma advogada que acompanhou o caso Marielle e prefere n\u00e3o se identificar relata que houve quebra de prerrogativa dos advogados impedindo que ela e outros profissionais da \u00e1rea do Direito que acompanham o processo, acessassem o inqu\u00e9rito.<\/p>\n<p>\u201cA prerrogativa existe n\u00e3o s\u00f3 para o advogado, mas para a garantia de direito dos clientes. \u00c9 importante lermos o inqu\u00e9rito porque, desta forma, faz-se um controle sobre o que est\u00e1 acontecendo com as investiga\u00e7\u00f5es, se todos os ritos processuais est\u00e3o acontecendo, se o c\u00f3digo de processo est\u00e1 sendo cumprido e se todos os direitos est\u00e3o sendo garantidos. A falta de transpar\u00eancia nesse sentido, faz com que a gente fique muito inseguro sobre as investiga\u00e7\u00f5es\u201d, relata.<\/p>\n<p><code><\/code>`<\/p>\n<h2><strong>As novas pe\u00e7as do tabuleiro<\/strong><\/h2>\n<p>A dois dias de completar um ano do crime pol\u00edtico que assassinou Marielle Franco e Anderson Gomes a Pol\u00edcia Civil e Grupo Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO) prenderam o policial militar reformado Ronnie Lessa, acusado de ter efetuado os disparos que mataram a vereadora e o motorista e \u00c9lcio Queiroz, ex-sargento da PM, suspeito de dirigir o carro de onde partiram os tiros. Em coletiva de imprensa realizada na tarde de ter\u00e7a-feira (12), o delegado Giniton Lages, titular da Delegacia de Homic\u00eddios (DH) da Capital, detalhou a primeira fase da investiga\u00e7\u00e3o que levou a pris\u00e3o dos dois homens respons\u00e1veis pelo atentado. De acordo com Lages, a certeza do envolvimento de Lessa e Queiroz no crime j\u00e1 existe h\u00e1 cerca de tr\u00eas meses. O delegado apontou ainda que a investiga\u00e7\u00e3o contou com a participa\u00e7\u00e3o exclusiva de 47 policiais, ouviu mais de 230 testemunhas no caso e recebeu 190 den\u00fancias sobre o crime at\u00e9 agosto de 2018. Lages classificou o crime como \u201csofisticado\u201d.<\/p>\n<p>Segundo o pronunciamento do titular da DH, o carro modelo Cobalt que foi utilizado no crime saiu do Quebra-Mar, na Barra da Tijuca, na zona oeste, em dire\u00e7\u00e3o a Rua dos Inv\u00e1lidos, onde a vereadora participava de um evento e l\u00e1 os assassinos ficaram de \u201ctocaia\u201d aguardando o momento em que Marielle sairia.<\/p>\n<p>\u201cEntrou uma informa\u00e7\u00e3o para n\u00f3s dizendo que Ronnie Lessa estava no carro que saiu do Quebra-Mar e quando n\u00f3s visitamos o banco de imagens, estava o carro deixando o Quebra-Mar e isso nos obrigou a tra\u00e7ar o perfil psicossocial do apontado\u201d, relata.<\/p>\n<p>O Minist\u00e9rio P\u00fablico do Estado do Rio de Janeiro (MPERJ) tamb\u00e9m se pronunciou sobre o caso ap\u00f3s quase um ano de investiga\u00e7\u00e3o. De acordo com as promotoras Simone Sib\u00edlio e Let\u00edcia Petriz, que est\u00e3o a frente da investiga\u00e7\u00e3o, a motiva\u00e7\u00e3o do crime que matou Marielle e Anderson foi torpe, ou seja, ligado \u00e0s causas que a vereadora defendia. \u201cA motiva\u00e7\u00e3o abjeta \u00e9 decorrente da atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de Marielle, mas n\u00e3o repele o mando. Estamos numa primeira fase. Nenhuma linha \u00e9 descartada\u201d, afirma Sib\u00edlio que tamb\u00e9m \u00e9 coordenadora do GAECO. De acordo com o Minist\u00e9rio P\u00fablico, ainda n\u00e3o h\u00e1 provas contundentes que liguem Ronnie Lessa com a mil\u00edcia, mas h\u00e1 ind\u00edcios de que ele tenha envolvimento com grupos paramilitares. O \u00f3rg\u00e3o j\u00e1 investiga o ex-PM por liga\u00e7\u00e3o \u00e0 contraven\u00e7\u00e3o e pr\u00e1tica de homic\u00eddios. Quem s\u00e3o os acusados?<\/p>\n<p>Ronnie Lessa mora no mesmo condom\u00ednio que Jair Bolsonaro, na Barra da Tijuca. O PM reformado passou pela Pol\u00edcia Civil e tamb\u00e9m integrou o Batalh\u00e3o de Opera\u00e7\u00f5es Policiais Especiais (BOPE) e ficou conhecido por executar crimes de mando e pela efici\u00eancia e frieza em puxar o gatilho.<\/p>\n<p>Em 1998, Lessa recebeu uma homenagem na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). A mostra de admira\u00e7\u00e3o foi concedida pelo ex-deputado Pedro Fernandes Filho, j\u00e1 falecido, que era av\u00f4 de Pedro Fernandes Neto (PDT), que atualmente \u00e9 secret\u00e1rio de Educa\u00e7\u00e3o do governador Wilson Witzel (PSC). O autor da mo\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 pai da vereadora Rosa Fernandes (MDB). Segundo registros, ele seria homenageado \u201cpela maneira profissional como vem pautando sua vida profissional como policial militar\u201d.<\/p>\n<p>Lessa foi afastado da pol\u00edcia ap\u00f3s um atentado a bomba que sofreu no Rio de Janeiro, h\u00e1 10 anos. De acordo com a investiga\u00e7\u00e3o na \u00e9poca, a motiva\u00e7\u00e3o para o ataque teria sido uma briga entre fac\u00e7\u00f5es criminosas.<\/p>\n<p>A explos\u00e3o ocorreu quando o policial passava com o seu carro blindado, uma picape Toyota Hilux prata, pela rua Mirinduba, a poucos metros do 9\u00aa BPM, que fica em Rocha Miranda, zona norte carioca.<\/p>\n<p>J\u00e1 \u00c9lcio Queiroz, acusado de dirigir o Cobalt utilizado na a\u00e7\u00e3o que matou Marielle e Anderson, foi expulso da PM em 2016 por fazer seguran\u00e7a ilegal em uma casa de jogos de azar no Rio.<\/p>\n<h2><strong>D\u00favidas permanecem<\/strong><\/h2>\n<p>A advogada, que opta por manter o nome sob sigilo, revela que esperava novidades sobre o caso no m\u00eas de mar\u00e7o. Segundo ela, foi uma surpresa o suposto l\u00edder do Escrit\u00f3rio do Crime, Adriano Magalh\u00e3es da N\u00f3brega, n\u00e3o ser um dos envolvidos no atentado. A advogada relata que foi a primeira vez que viu um motivo torpe, que \u00e9 usado para agravar a pena, ser apontado como motivo de execu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cEu como advogada estou surpresa pela forma como eles fizeram essa entrega parcial, dividindo em etapas, entregando primeiro os executores. Eles alegam motivo torpe e encerram o inqu\u00e9rito para a execu\u00e7\u00e3o. Motivo torpe, tecnicamente, \u00e9 uma qualificadora visto pelo ju\u00edzo no momento do c\u00e1lculo de pena. Quando tem qualificadora h\u00e1 aumento de pena. Nunca vi isso ser um motivo. Encerraram a primeira etapa sem a motiva\u00e7\u00e3o do crime\u201d, explica.<\/p>\n<p>Um avan\u00e7o ocorreu na investiga\u00e7\u00e3o, por\u00e9m as pe\u00e7as do tabuleiro seguem faltantes e ainda n\u00e3o d\u00e3o conta de responder ao grito que ecoa pelo pa\u00eds e pelo mundo: Quem mandou matar Marielle?<\/p>\n<\/section>\n<section class=\"image-centralized vertical-spacing\"><picture><source srcset=\"\/\/farm8.staticflickr.com\/7831\/47378051391_0363225bd0_o.jpg\" media=\"(min-width: 690px)\" \/><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" title=\"   \" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/farm8.staticflickr.com\/7837\/33501895628_b444720e93_o.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"   \" \/><\/picture><\/section>\n<section class=\"embedMedia vertical-spacing\">\n<div class=\"container\"><\/div>\n<\/section>\n<section class=\"image vertical-spacing\"><picture><source srcset=\"\/\/farm8.staticflickr.com\/7925\/46449142285_70c8f73b88_o.jpg\" media=\"(min-width: 690px)\" \/><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" title=\" \" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/farm8.staticflickr.com\/7926\/32422183437_ec716c44cd_o.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\" \" \/><\/picture><\/section>\n<section class=\"text vertical-spacing\">\n<h1>Para M\u00f4nica Ben\u00edcio, manter a execu\u00e7\u00e3o de Marielle sem respostas \u00e9 afirmar que pode se matar mulher, negro, LGBT e favelado no Brasil<\/h1>\n<p><em>Por Mariana Pitasse<\/em>\u00a0&#8211;\u00a0<em>Rio de Janeiro (RJ)<\/em><\/p>\n<\/section>\n<section class=\"embedMedia vertical-spacing\">\n<div class=\"container\"><\/div>\n<\/section>\n<section class=\"text vertical-spacing\">Era uma noite chuvosa de 14 de mar\u00e7o de 2018. Uma quarta-feira que parecia mais uma quarta-feira. M\u00f4nica havia falado ao telefone com a sua companheira Marielle e disse que a esperava para jantar em 20 minutos. Mas as horas se estenderam e Marielle n\u00e3o chegou em casa. A vereadora do Rio de Janeiro foi assassinada no meio do caminho, junto com seu motorista, Anderson Gomes. Na porta de casa, ela recebeu uma amiga e a not\u00edcia que mudou sua vida profundamente.<\/p>\n<p>Caiu, levantou, caiu de novo, recebeu apoio de familiares, amigos e desconhecidos, levantou. \u201cSe n\u00e3o fosse por isso, n\u00e3o conseguiria me manter de p\u00e9 por tanto tempo\u201d, diz em entrevista ao Brasil de Fato durante uma r\u00e1pida passagem pelo Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Convivendo com a dor e o luto, ela deixou de lado os projetos pessoais e tornou sua vida devotada \u00e0 campanha \u201cJusti\u00e7a por Marielle\u201d. Em meados de fevereiro deste ano, mudou-se para Bras\u00edlia e assumiu um cargo na lideran\u00e7a do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) na C\u00e2mara Federal. Hoje n\u00e3o se reconhece mais na arquiteta que tinha planos de se tornar professora universit\u00e1ria.<\/p>\n<p>\u201cExistia um entendimento de que era bom por quest\u00e3o de seguran\u00e7a, dar um pouco de tempo do Rio, mas o que me estimulou de fato foi ir para dentro do congresso, acompanhar de perto a pol\u00edtica institucional e construir o trabalho que virou minha vida em tempo integral, enquanto defensora dos direitos humanos, enquanto ativista LGBT, em torno de justi\u00e7a por Marielle\u201d, explica.<\/p>\n<p>Passado um ano da execu\u00e7\u00e3o de Marielle Franco, um crime que segue rodeado de mais perguntas que de respostas, M\u00f4nica afirma que a resolu\u00e7\u00e3o do inqu\u00e9rito n\u00e3o \u00e9 o fim de sua luta. \u00c9 o come\u00e7o. \u201cMarielle s\u00f3 vai ter justi\u00e7a quando tivermos uma sociedade de fato mais justa e igualit\u00e1ria, que \u00e9 pelo que ela lutava, e o que sempre lutei tamb\u00e9m\u201d, acrescenta.<\/p>\n<p>Na vit\u00f3ria da Mangueira, ela enxerga de forma otimista que h\u00e1 in\u00edcio do processo de justi\u00e7a por Marielle. \u201cA vit\u00f3ria nos diz que a gente pode fazer uma leitura de esperan\u00e7a quando a imagem de Marielle se torna uma refer\u00eancia, se torna um s\u00edmbolo de representatividade. Isso \u00e9 dizer n\u00e3o s\u00f3 que a vida dela n\u00e3o foi em v\u00e3o mas tamb\u00e9m que a morte n\u00e3o ser\u00e1\u201d, enfatiza.<\/p>\n<\/section>\n<section class=\"embedMedia vertical-spacing\">\n<div class=\"container\">\n<div class=\"video-wrapper content-wrapper\"><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/5v3CU0_M81Y\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<section class=\"text vertical-spacing\">\n<h2><strong>Confira a entrevista completa:<\/strong><\/h2>\n<p><strong>Brasil de Fato: Voc\u00ea disse que n\u00e3o foi \u00e0 Sapuca\u00ed para desfilar, mas para fazer um ato pol\u00edtico. Como foi estar l\u00e1?<\/strong><\/p>\n<p><strong>M\u00f4nica Ben\u00edcio:<\/strong>\u00a0Foi uma decis\u00e3o dif\u00edcil aceitar o convite para desfilar, mas eu entendi dessa forma. N\u00e3o estava indo para a avenida para desfilar, mas para fazer ato e participar de uma manifesta\u00e7\u00e3o, sobretudo porque sempre entendi o carnaval como espa\u00e7o popular de resist\u00eancia e a Mangueira trouxe um enredo urgente e necess\u00e1rio na nossa conjuntura pol\u00edtica. Ent\u00e3o, somando tudo isso, a visibilidade que isso estaria dando \u00e0 imagem da Marielle, entendendo tamb\u00e9m como preserva\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria dela e continuidade desse legado, eu aceitei o convite do carnavalesco que foi muito sens\u00edvel. Eu vim abrindo a \u00faltima ala, que \u00e9 a das comunidades, e est\u00e1 falando sobre pessoas de origem da favela que alcan\u00e7aram notoriedade com os seus feitos. Ent\u00e3o, eu enquanto mulher favelada, de origem da Mar\u00e9, me senti contemplada ali tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Foi a primeira vez que participei de um ato que estava trazendo felicidade, n\u00e3o tinha s\u00f3 a quest\u00e3o da luta, de transformar o luto em luta. Ouvir as pessoas gritando o nome da Marielle naquele samba que foi maravilhoso, foi muito emocionante. Tinha uma preocupa\u00e7\u00e3o se eu ia conseguir atravessar a avenida sem ser aos prantos o tempo inteiro. Impressionante, \u00e9 uma energia t\u00e3o positiva que ressignifica aquele momento. Inclusive eu acho que a vit\u00f3ria da Mangueira \u00e9 uma composi\u00e7\u00e3o do inicio de justi\u00e7a por Marielle, ressignificar a noite do 14 de mar\u00e7o n\u00e3o s\u00f3 como barb\u00e1rie que foi mas tamb\u00e9m a gente pode fazer uma leitura de esperan\u00e7a quando a imagem de Marielle se torna uma refer\u00eancia, se tornar um s\u00edmbolo de representatividade. Isso \u00e9 dizer n\u00e3o s\u00f3 que a vida dela n\u00e3o foi em v\u00e3o mas tamb\u00e9m que a morte n\u00e3o ser\u00e1.<\/p>\n<p><strong>E o que significou a vit\u00f3ria da Mangueira?<\/strong><\/p>\n<p>Ajudou a ressignificar. Eu fui para assistir a apura\u00e7\u00e3o na quadra e dei uma blusa \u201cLute como Marielle Franco\u201d em verde e rosa para a Cac\u00e1 [Nascimento], que \u00e9 uma das puxadoras do samba. Antes de ela cantar e fazer a interpreta\u00e7\u00e3o, eu entreguei a blusa e ela tirou a blusa que estava vestindo, vestiu essa blusa. Foi a primeira vez nesses meses que chorei de felicidade. Era uma menina, negra, de origem da Mangueira, lutando. Fez sentido toda a dor, toda a luta, todo o esfor\u00e7o que se faz para levantar de manh\u00e3 e seguir lutando.<\/p>\n<p><strong>Nos \u00faltimos dias alguns ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o veicularam que a Mangueira n\u00e3o convidou a outra parte da fam\u00edlia de Marielle para o desfile. Qual a sua avalia\u00e7\u00e3o sobre?<\/strong><\/p>\n<p>A outra parte da fam\u00edlia da Marielle estava ali representando, no desfile da Vila Isabel, a mem\u00f3ria da Marielle tamb\u00e9m. O convite da Vila n\u00e3o foi feito a mim, por motivos \u00f3bvios: eles estavam em uma ala que representava a negritude. J\u00e1 tinha tido uma nota p\u00fablica, de que a fam\u00edlia desfilaria, tanto que o carnavalesco da Mangueira quase n\u00e3o me convidou porque achou que o convite j\u00e1 tinha sido feito a mim. Quando ele soube que n\u00e3o foi que ele me convidou e o argumento que foi apresentado pela escola foi que causaria um constrangimento \u00e0 Vila Isabel por ter feito o convite primeiro. N\u00e3o sei avaliar isso, sei avaliar por mim que fiz uma reflex\u00e3o sobre isso e resolvi aceitar pelo o que poderia estar representando enquanto luta. Acho que de certa forma a Marielle foi representada nas duas escolas. Mas entendo o desconforto da outra parte da fam\u00edlia, quando diz que gostaria de ter participado do desfile da Mangueira tamb\u00e9m.\u00a0<strong>Como \u00e9 completar um ano sem respostas sobre o crime?<\/strong><\/p>\n<p>Dif\u00edcil em todos os sentidos, no emocional tamb\u00e9m. Quando a execu\u00e7\u00e3o da Marielle n\u00e3o \u00e9 respondida e quem mandou fazer n\u00e3o \u00e9 responsabilizado pelo que fez, a gente vive em uma sociedade que passa informa\u00e7\u00e3o de que pode se matar defensor de direitos humanos, de que pode se matar mulher, negro, LGBT e favelado. A Marielle tinha na vida e no corpo todas as constru\u00e7\u00f5es que ela defendia. Ent\u00e3o a execu\u00e7\u00e3o dela foi um recado claro \u00e0 popula\u00e7\u00e3o preta, para se sentir de novo a carne mais barata do mercado, \u00e0 popula\u00e7\u00e3o LGBT, que sempre ocupou as p\u00e1ginas de sangue do jornal, \u00e0s mulheres, que sempre conheceram a viol\u00eancia de muito perto, \u00e0 popula\u00e7\u00e3o favelada, que nunca teve voz nos espa\u00e7os de poder. Foi uma tentativa de silenciar tudo isso. N\u00e3o ter respostas h\u00e1 um ano de um dos crimes pol\u00edticos de maior repercuss\u00e3o no mundo, \u00e9 n\u00e3o s\u00f3 doloroso, mas vergonhoso tamb\u00e9m. A gente precisa concluir isso para acreditar que ainda h\u00e1 alguma coisa de democracia e esperan\u00e7a nesse pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>Qual foi a transforma\u00e7\u00e3o pessoal e pol\u00edtica que voc\u00ea sentiu ao longo desse um ano?<\/strong><\/p>\n<p>Nos primeiros meses, eu tenho flashes do que foi minha vida, n\u00e3o s\u00f3 de intensidade e dor de tudo o que aconteceu, mas porque tinha uma absten\u00e7\u00e3o de consci\u00eancia de fazer contato com a realidade. Eu fui me pronunciado a respeito da execu\u00e7\u00e3o de Marielle para cobrar por justi\u00e7a. Eu fiquei um tempo longe das redes sociais, eu n\u00e3o lia jornais, n\u00e3o acompanhava o que saia sobre o caso. Eu fiquei muito blindada. Pedi aos amigos que s\u00f3 chegasse para mim o que fosse bonito, constru\u00eddo com a mem\u00f3ria da Marielle. Ent\u00e3o, nos primeiros meses, eu fiquei muito ausente do que estava acontecendo ainda que j\u00e1 estivesse me pronunciando publicamente. Quando eu acordo desse momento eu j\u00e1 estou sendo reconhecida na rua, as pessoas vem me abra\u00e7ar, demonstrando afeto. Isso foi me dando for\u00e7a para sair um pouco desse transe e ter mais contato com a realidade. Foi uma mudan\u00e7a de vida completa. Um giro de 360 graus. Todos os projetos pessoais foram abandonados, o autocuidado tamb\u00e9m foi abandonado por muito tempo. Se n\u00e3o fosse o apoio dos amigos, da fam\u00edlia, das manifesta\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, das mensagens de solidariedade nas ruas e nas redes sociais, eu n\u00e3o conseguiria me manter de p\u00e9 por tanto tempo.<\/p>\n<p><strong>Ao longo desse ano, foram constru\u00eddas narrativas para deslegitimar a mem\u00f3ria de Marielle, ao mesmo tempo em que sua imagem enquanto s\u00edmbolo de resist\u00eancia foi fortalecida. Voc\u00ea acredita que foi uma vit\u00f3ria dessa narrativa da esquerda?<\/strong><\/p>\n<p>Sem d\u00favida nenhuma. Quando eu pedi para n\u00e3o me avisarem, eu fui blindada sobre isso mas tinha algumas not\u00edcias do que estava acontecendo. O contato com as advogadas era para tomarem as provid\u00eancias cab\u00edveis quanto a isso para preservar a mem\u00f3ria dela. Mas eu acho que ver a vit\u00f3ria da Mangueira, as manifesta\u00e7\u00f5es que est\u00e3o acontecendo no campo global, tamb\u00e9m ver as mulheres se articulando em um movimento que j\u00e1 estava acontecendo antes de 14 de mar\u00e7o, mas que hoje tem a imagem da Marielle como um s\u00edmbolo de refer\u00eancia, somando nesta luta, \u00e9 sem d\u00favida nenhuma uma resposta muito positiva de que nosso movimento n\u00e3o dar\u00e1 nenhum passo atr\u00e1s, pelo contr\u00e1rio: a gente somou for\u00e7as diante de toda a viol\u00eancia e est\u00e1 se articulando para dizer que n\u00e3o aceitaremos a barb\u00e1rie, que n\u00e3o s\u00f3 a Marielle n\u00e3o ser\u00e1 interrompida, mas que nenhuma outra mulher ser\u00e1.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea est\u00e1 sempre fazendo viagens internacionais para buscar solidariedade de outros pa\u00edses para resolu\u00e7\u00e3o do caso da Marielle. Como as pessoas tem recebido internacionalmente?<\/strong><\/p>\n<p>A repercuss\u00e3o internacional da imagem de Marielle tem sido surpreendentemente bonita. Desde mar\u00e7o eu tenho convites de v\u00e1rios coletivos feministas e LGBT do mundo. Eu nunca tinha feito uma viagem internacional. A gente tinha tirado o passaporte em janeiro. Depois disso eu j\u00e1 conheci muitos pa\u00edses da Europa e Am\u00e9rica Latina. Todos com convites de eventos que tinham n\u00e3o s\u00f3 desejo pela luta e mem\u00f3ria de Marielle, mas tamb\u00e9m proporcionar o acolhimento e solidariedade a mim e minha luta. Isso de certa forma me faz sentir que tem uma continuidade de parceria e companheirismo com ela. \u00c9 uma forma de permanecer ainda. Tem sido muito surpreendente. Quando a foto da Marielle vai parar na porta da Prefeitura de Paris \u00e9 um marco. Em momento nenhum a gente podia esperar uma repercuss\u00e3o como essa. De toda a dor que a gente pode ter, como que a gente consegue algo positivo, dentro desse contexto. Mais importante que a porta da Prefeitura de Paris \u00e9 ver tantos grafites da Marielle em v\u00e1rias comunidades. Ver a imagem de Marielle pode ser vista por uma menina negra ou l\u00e9sbica e dar for\u00e7a para que elas possam ocupar todos os espa\u00e7os, inclusive os de poder, \u00e9 sem d\u00favida ressignificar em esperan\u00e7a a noite do 14 de mar\u00e7o.<\/p>\n<p><strong>Como est\u00e1 sendo o trabalho em Bras\u00edlia na lideran\u00e7a do PSOL na c\u00e2mara?<\/strong><\/p>\n<p>Desde o 14 de mar\u00e7o, todos os projetos pessoais foram abandonados, o que resta ainda hoje de forma muito lenta \u00e9 a tentativa de continuidade do mestrado mas que ainda assim muito dif\u00edcil, minha vida ficou completamente devotada \u00e0 campanha de \u201cJusti\u00e7a por Marielle\u201d que foi tomando uma propor\u00e7\u00e3o que jamais esperei que pudesse alcan\u00e7ar. Hoje eu assumo um lugar que jamais eu pensei que pudesse ocupar. Nunca tive a pretens\u00e3o de ser figura p\u00fablica, mas as coisas foram acontecendo, de certa forma impulsionada por um movimento que fui fazendo sem perceber que estava construindo.<\/p>\n<p>Hoje, a M\u00f4nica at\u00e9 o in\u00edcio da noite do 14 de mar\u00e7o \u00e9 uma pessoa que n\u00e3o consigo lembrar. Minha pretens\u00e3o era seguir carreira acad\u00eamica. Pode ser que isso aconte\u00e7a em algum momento mas a prioridade nesse momento \u00e9 outro. O PSOL fez o convite para a lideran\u00e7a. Existia um entendimento de que era bom por quest\u00e3o de seguran\u00e7a, dar um pouco de tempo do Rio, mas o que me estimulou de fato foi ir para dentro do congresso e acompanhar de perto a pol\u00edtica institucional e construir o trabalho que virou minha vida em tempo integral, enquanto defensora dos direitos humanos, enquanto ativista LGBT, em torno de justi\u00e7a por Marielle, que n\u00e3o vai se encerrar somente com o final do inqu\u00e9rito, mas quando tivermos uma sociedade de fato mais justa e igualit\u00e1ria, que \u00e9 o que a Marielle lutava, e o que sempre lutei tamb\u00e9m. A gente entende que isso come\u00e7ou muito antes da Marielle tombar porque muitas outras tombaram antes.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea j\u00e1 tinha uma aproxima\u00e7\u00e3o com essas pautas antes?<\/strong><\/p>\n<p>Eu sou militante dos direitos humanos desde os 17 anos, quando eu entro no pr\u00e9-vestibular comunit\u00e1rio na Mar\u00e9, atrav\u00e9s de um professor que tinha grande rela\u00e7\u00e3o com o MST [Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra] que na \u00e9poca eu tamb\u00e9m n\u00e3o conhecia. Ent\u00e3o eu come\u00e7o a ter contato com os movimentos sociais, participando de rodas de conversas, manifesta\u00e7\u00f5es. Eu nunca pretendi o palanque, o microfone, o megafone, pelo contr\u00e1rio, esse local de protagonismo sempre me deixou nervosa, sempre fui muito t\u00edmida na hora de fazer pronunciamento em p\u00fablico. Hoje tomou outra propor\u00e7\u00e3o, eu ocupo outro lugar e tenho desejo de fazer isso com o m\u00e1ximo de responsabilidade poss\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>Como era a vida de voc\u00eas antes do 14 de mar\u00e7o?<\/strong><\/p>\n<p>Olha, era uma vida corrida, mas nosso relacionamento n\u00e3o tinha nada de diferente de um casal comum. Ela era uma pessoa p\u00fablica e tinha uma agenda muito intensa pelo trabalho que fazia. Eu estava dedicada \u00e0 minha vida no mestrado. Quando ela \u00e9 eleita, nosso acordo \u00e9 que eu podia me voltar mais aos assuntos da casa e ela \u00e0 vida p\u00fablica. Ent\u00e3o tinha essa parceria. Eu gostava de cuidar das coisas da casa, de transformar em um ambiente acolhedor, que era nosso. N\u00e3o era muito o perfil dela isso. Ela gostava mais de se permitir ao acolhimento, sem necessariamente estar organizando, ela n\u00e3o tinha muito jeito para isso, de fato. A gente tinha muita parceria e cumplicidade mas era uma vida comum.<\/p>\n<p><strong>Por que Marielle se tornou o s\u00edmbolo que \u00e9 hoje?<\/strong><\/p>\n<p>Marielle tinha um trabalho que pouco era reconhecido, pelo menos n\u00e3o do tamanho que se tornou a imagem dela hoje. Mas eu acho que fala muito sobre uma urg\u00eancia que a gente tem de transforma\u00e7\u00e3o social. Eu acho que as balas disparadas contra Marielle atingiu toda a popula\u00e7\u00e3o preta, LGBT, mulheres que se sentiram violentadas mais uma vez por esse Estado que sempre foi truculento e esses governantes que nunca os representaram de fato. Foi a gota d\u2019\u00e1gua. A gente dizendo que n\u00e3o vai mais aceitar esse tipo de viol\u00eancia contra n\u00f3s. Ai usa a imagem da Marielle, transforma Marielle como s\u00edmbolo, mas fala muito de anseio social que a gente vem buscando h\u00e1 algum tempo. Inclusive a elei\u00e7\u00e3o da Marielle foi muito marcante por isso. No in\u00edcio da campanha por Marielle o cen\u00e1rio mais otimista achava que a gente poderia ter 5 mil votos, j\u00e1 no final da campanha o cen\u00e1rio mais otimista apontava para 10 e 15 mil votos. A\u00ed ela \u00e9 eleita com 42.506 votos, a segunda vereadora mais votada no Brasil e a quinta no Rio de Janeiro. Foi a resposta de que a gente quer mudan\u00e7a e depois da execu\u00e7\u00e3o dela, a resposta \u00e9 de que a gente n\u00e3o vai mais aceitar esse tipo de viol\u00eancia contra n\u00f3s.<\/p>\n<p><strong>Ela tinha consci\u00eancia da pot\u00eancia que ela era?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o. Tanto que no per\u00edodo da discuss\u00e3o do que ela viria a ser no per\u00edodo eleitoral ela tinha um desejo que era terminar o mandato como vereadora. \u00c9 \u00f3bvio que ela era uma figura pol\u00edtica em ascens\u00e3o. Ela era parada nas ruas para as pessoas abra\u00e7arem e dizerem que ela as representava. Sempre era com carinho e com afeto at\u00e9 nas redes sociais, mesmo quem discordava n\u00e3o tinha uma afronta direta a ela. Ela n\u00e3o tinha no\u00e7\u00e3o nem de que era a pot\u00eancia que a gente hoje consegue perceber claramente que era, nem que poderia estar em algum risco por n\u00e3o se perceber enquanto pot\u00eancia nesse sentido.<\/p>\n<p><strong>Em poucas palavras, o que a Marielle significa para voc\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p>Eu vou falar n\u00e3o enquanto M\u00f4nica companheira de Marielle, mas enquanto M\u00f4nica militante de direitos humanos, Marielle representa hoje para mim: resist\u00eancia e revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<\/section>\n<section class=\"embedMedia vertical-spacing\">\n<div class=\"container\">\n<div class=\"contenedor\">\n<section class=\"variable slick-initialized slick-slider\">\n<div class=\"slick-list draggable\">\n<div class=\"slick-track\">\n<div class=\"slick-slide slick-current slick-center\" data-slick-index=\"0\">\n<div>\n<div>\n<figure class=\"fotoTimeline\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" 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Badhar\u00f3 e Fernando Bertolo | Fotos e v\u00eddeos: Guilherme Weimann | Edi\u00e7\u00e3o de v\u00eddeos: Bruno Ferrari | Programa\u00e7\u00e3o: Fernando Bertolo | Vers\u00e3o para r\u00e1dio: Jaqueline Deister, Katarine Flor e Tayguara Ribeiro | Coordena\u00e7\u00e3o: Daniel Giovanaz, Jos\u00e9 Bruno Lima, Mariana Pitasse e Nina Fideles<\/p>\n<\/section>\n<div id=\"share-multimedia\" class=\"share-multimedia-middle share-multimedia-bottom\"><\/div>\n<\/div>\n<\/article>\n<footer id=\"page-footer\">\n<div class=\"footer-container-internal\"><\/div>\n<\/footer>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mulheres negras relatam a dor e o significado do assassinato da vereadora do PSOL e do seu motorista, Anderson Gomes, h\u00e1 um 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