{"id":23720,"date":"2019-09-03T11:03:23","date_gmt":"2019-09-03T15:03:23","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=23720"},"modified":"2019-09-03T11:04:12","modified_gmt":"2019-09-03T15:04:12","slug":"a-agricultura-camponesa-nao-produz-mercadoria-mas-alimento-afirma-membro-do-mst","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2019\/09\/03\/a-agricultura-camponesa-nao-produz-mercadoria-mas-alimento-afirma-membro-do-mst\/","title":{"rendered":"&#8220;A agricultura camponesa n\u00e3o produz mercadoria, mas alimento&#8221;, afirma membro do MST"},"content":{"rendered":"<header>\n<h1 class=\"title\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/farm66.staticflickr.com\/65535\/48671090533_533da7c234_z.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"Feiras da Reforma Agr\u00e1ria pelo pa\u00eds s\u00e3o a marca do MST para levar os alimentos produzidos no campo at\u00e9 a cidade - Cr\u00e9ditos: Foto: Brasil de Fato\" \/><\/h1>\n<figure><figcaption>Feiras da Reforma Agr\u00e1ria pelo pa\u00eds s\u00e3o a marca do MST para levar os alimentos produzidos no campo at\u00e9 a cidade \/ Foto: Brasil de Fato<\/figcaption><\/figure>\n<h1 class=\"title\">Movimentos agr\u00e1rios e ambientais criam frente de enfrentamento \u00e0s pol\u00edticas ambiental e agr\u00e1ria do atual governo<\/h1>\n<p><!--more--><\/p>\n<div class=\"details-bar\">\n<div class=\"author-time\">\n<div class=\"author\">Emilly Dulce<\/div>\n<div class=\"place-and-time\">\n<div class=\"place\">\n<p>Brasil de Fato | S\u00e3o Paulo (SP)<\/p>\n<p>A pol\u00edtica ambiental tornou-se um dos principais temas em debate no Brasil nas \u00faltimas semanas, principalmente ap\u00f3s\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2019\/08\/23\/biodiversidade-perdida-em-queimadas-na-amazonia-levara-decadas-para-se-recuperar\/\" target=\"_blank\">o avan\u00e7o\u00a0das\u00a0queimadas na Floresta Amaz\u00f4nica com o aval do governo\u00a0Jair Bolsonaro (PSL)<\/a>. Para propor alternativas ao agroneg\u00f3cio e debater a quest\u00e3o agr\u00e1ria e ambiental, a C\u00e2mara dos Deputados realiza, nesta ter\u00e7a-feira (3), o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.camara.leg.br\/eventos-divulgacao\/evento;jsessionid=681710F5081D518E721549ABA03E9B68.prod1n1-secomp.camara.gov.br?id=69620\" target=\"_blank\">\u201cSemin\u00e1rio &#8211; Terra e Territ\u00f3rios: alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel e redu\u00e7\u00e3o de agrot\u00f3xicos&#8221;<\/a>. Durante o\u00a0evento haver\u00e1, entre outras atividades,\u00a0o lan\u00e7amento da Frente Parlamentar de Agroecologia.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"content\">\n<div class=\"text-content\">\n<p>\u00c0s v\u00e9speras do semin\u00e1rio, o\u00a0<strong>Brasil de Fato<\/strong>\u00a0conversou com Luiz Zarref, membro da coordena\u00e7\u00e3o nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), uma das organiza\u00e7\u00f5es que comp\u00f5em o semin\u00e1rio, sobre as possibilidades de resist\u00eancia ao agroneg\u00f3cio no Brasil. O dirigente analisa que os inc\u00eandios na Amaz\u00f4nia s\u00e3o mais uma etapa do processo de desmonte da pol\u00edtica ambiental em curso desde o golpe parlamentar contra a ex-presidenta Dilma Rousseff (PT) e a aprova\u00e7\u00e3o da\u00a0<a href=\"https:\/\/www2.camara.leg.br\/legin\/fed\/emecon\/2016\/emendaconstitucional-95-15-dezembro-2016-784029-publicacaooriginal-151558-pl.html\" target=\"_blank\">Emenda Constitucional (EC) 95<\/a>.<\/p>\n<p>Zarref avalia que, desde 2016, o Estado tem estimulado e legitimado a \u201cind\u00fastria da morte\u201d protagonizada pelo agroneg\u00f3cio,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2018\/07\/18\/o-agro-e-sujo-veneno-mortes-e-destruicao-da-natureza-definem-agronegocio\/\" target=\"_blank\">modelo de produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola baseado no monocultivo, nos latif\u00fandios e no uso intensivo de agrot\u00f3xicos<\/a>. Respons\u00e1vel por explorar cerca de 70% dos recursos de terra e \u00e1gua do planeta, conforme dados do\u00a0<a href=\"https:\/\/www.etcgroup.org\/\" target=\"_blank\">ETC Group<\/a>, o agroneg\u00f3cio opera na l\u00f3gica de \u201cmercantiliza\u00e7\u00e3o e financeiriza\u00e7\u00e3o da natureza\u201d, explica o membro do MST no estado de Goi\u00e1s.<\/p>\n<p>O faturamento anual do agroneg\u00f3cio representa US$ 29 bilh\u00f5es, frente aos US$ 55 bilh\u00f5es produzidos pelas m\u00e3os dos camponeses e camponesas brasileiros, que fazem do Brasil\u00a0<a href=\"http:\/\/www.mda.gov.br\/sitemda\/noticias\/agricultura-familiar-do-brasil-%C3%A9-8%C2%AA-maior-produtora-de-alimentos-do-mundo\" target=\"_blank\">o oitavo maior produtor de alimentos do mundo<\/a>. Isso significa, segundo Zarref, que o crescimento do Brasil passa pela agricultura familiar. No entanto, o modelo do agroneg\u00f3cio ainda \u00e9 prioridade,\u00a0amea\u00e7ando a sobreviv\u00eancia de comunidades tradicionais produtoras de alimentos saud\u00e1veis e diversificados, al\u00e9m de violar a base da pol\u00edtica ambiental brasileira sustentada pelo\u00a0<a href=\"https:\/\/www.senado.leg.br\/atividade\/const\/con1988\/con1988_26.06.2019\/art_225_.asp\" target=\"_blank\">artigo 225 da Constitui\u00e7\u00e3o Federal<\/a>.<\/p>\n<p>A legisla\u00e7\u00e3o considera a Floresta Amaz\u00f4nica, a Mata Atl\u00e2ntica e outras reservas como patrim\u00f4nio nacional e define que\u00a0\u201csua utiliza\u00e7\u00e3o far-se-\u00e1, na forma da lei, dentro de condi\u00e7\u00f5es que assegurem a preserva\u00e7\u00e3o do meio ambiente, inclusive quanto ao uso dos recursos naturais\u201d.\u00a0Nesse sentido, Zarref ressalta a centralidade de um projeto para o campo brasileiro que tenha a\u00a0reforma agr\u00e1ria popular como prioridade.<\/p>\n<p>Leia a entrevista na \u00edntegra:<\/p>\n<p><strong>Brasil de Fato: Quais os aspectos mais importantes da pol\u00edtica ambiental no Brasil desde o golpe parlamentar de 2016? De que forma a\u00a0austeridade fiscal afeta essa \u00e1rea?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Luiz Zarref:<\/strong>\u00a0N\u00f3s precisamos compreender que o golpe veio no sentido de avan\u00e7ar a acumula\u00e7\u00e3o capitalista no Brasil,\u00a0retroceder\u00a0nos direitos dos trabalhadores\u00a0e capturar os bens comuns \u2013\u00a0floresta, petr\u00f3leo, \u00e1gua \u2013\u00a0para o capital internacional, e aumentar a explora\u00e7\u00e3o do capital dos nossos bens comuns. Ent\u00e3o, a pol\u00edtica de austeridade vem colada. Ao mesmo tempo que voc\u00ea reduz o recurso p\u00fablico, o papel do Estado na pol\u00edtica ambiental, voc\u00ea libera essas \u00e1reas para que elas sejam expropriadas pelo capital.<\/p>\n<p>Historicamente, a pol\u00edtica ambiental no Brasil teve dificuldades financeiras, mesmo nos governos democr\u00e1ticos. Desde 2003, temos a consolida\u00e7\u00e3o de algumas pol\u00edticas importantes\u00a0de monitoramento do desmatamento, de controle, comando e fiscaliza\u00e7\u00e3o ambiental, algumas pol\u00edticas importantes de produ\u00e7\u00e3o das comunidades tradicionais que vivem nos biomas. Mas o or\u00e7amento era muito restrito.<\/p>\n<p>Apesar de o Brasil ter toda a dimens\u00e3o territorial e a import\u00e2ncia de seus bens comuns, o papel do Estado \u00e9 bastante restrito. Com o golpe, isso praticamente \u00e9 retirado da pauta do Estado. Ent\u00e3o, toda a pol\u00edtica de austeridade, com a Emenda 95, vem impor uma presen\u00e7a cada vez mais forte do agroneg\u00f3cio e da minera\u00e7\u00e3o, e um papel do Estado subserviente a essa l\u00f3gica de explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, sim, a pol\u00edtica ambiental \u00e9 impactada pela austeridade, porque ela reduz capacidade de comando, controle, fiscaliza\u00e7\u00e3o e aplica\u00e7\u00e3o de multas, por ser um territ\u00f3rio muito grande. Ela reduz ou prejudica a capacidade de monitoramento do desmatamento, das queimadas. E, fundamentalmente, ela acaba com as pol\u00edticas de agroecologia e desenvolvimento produtivo baseado na perspectiva territorial das comunidades.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-img-caption\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/farm66.staticflickr.com\/65535\/48668653926_6a9b531df7_o.jpg?ssl=1\" target=\"_blank\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/farm66.staticflickr.com\/65535\/48668653926_6a9b531df7_o.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"\" \/><\/a><\/p>\n<p>Em 200 dias, Brasil liberou mais agrot\u00f3xicos que a Uni\u00e3o Europeia em oito anos. (Foto: Reginaldo Teodoro de Souza\/Embrapa)<\/p>\n<p><strong>Como a pol\u00edtica ambiental influencia na prosperidade socioecon\u00f4mica do pa\u00eds? A reforma agr\u00e1ria \u00e9 uma quest\u00e3o de desenvolvimento?<\/strong><\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma quest\u00e3o estrutural e secular do Brasil: a quest\u00e3o agr\u00e1ria e ambiental. N\u00f3s n\u00e3o podemos olh\u00e1-las de forma separada. N\u00e3o existe natureza intocada, como alguns fazem crer. Cada quil\u00f4metro quadrado do nosso pa\u00eds foi um processo de coevolu\u00e7\u00e3o entre os povos e o meio ambiente.<\/p>\n<p>Quando a gente fala de um projeto de na\u00e7\u00e3o democr\u00e1tico, justo e popular, n\u00f3s estamos falando de uma perspectiva em que a quest\u00e3o ambiental e agr\u00e1ria tem centralidade a partir do projeto formulado pelos povos, pelo campesinato em sua diversidade e na rela\u00e7\u00e3o com a classe trabalhadora, para produ\u00e7\u00e3o de alimentos saud\u00e1veis, diversificados e em quantidade acess\u00edvel para o povo.<\/p>\n<p>N\u00f3s n\u00e3o estamos falando de preservacionismo, de separar milhares de hectares onde o ser humano n\u00e3o toca. N\u00f3s estamos falando em potencializar as pr\u00e1ticas populares que, historicamente, conservaram os bens comuns: \u00e1gua, floresta, cerrado, enfim, os ecossistemas que est\u00e3o no campo, nas \u00e1guas e nas florestas. Um projeto de desenvolvimento do pa\u00eds passa por a\u00ed. \u00c9 um projeto de desenvolvimento soberano, que n\u00e3o esteja anexado aos interesses das grandes empresas transnacionais.<\/p>\n<p>A reforma agr\u00e1ria \u00e9, junto com a defesa dos territ\u00f3rios, o elemento basilar de uma pol\u00edtica de desenvolvimento nessa perspectiva. Temos os territ\u00f3rios quilombolas, ind\u00edgenas, dos povos e comunidades tradicionais que resistiram historicamente. Mas\u00a0a defesa desses territ\u00f3rios tem que estar vinculada a uma pol\u00edtica de reforma agr\u00e1ria, fim do latif\u00fandio, redistribui\u00e7\u00e3o das terras e, mais do que isso, de destina\u00e7\u00e3o dessas terras para a produ\u00e7\u00e3o de alimentos. Quando a gente fala em um projeto de reforma agr\u00e1ria popular, n\u00f3s estamos falando justamente disso.<\/p>\n<p>Uma pol\u00edtica ampla de cria\u00e7\u00e3o de assentamentos, n\u00e3o de resolu\u00e7\u00e3o de conflitos, mas produ\u00e7\u00e3o de alimentos saud\u00e1veis em sistemas agroecol\u00f3gicos, que vai\u00a0ser de acordo com cada bioma: sistemas agroflorestais, sistemas de plantio direto, com diversifica\u00e7\u00e3o. Esse \u00e9 o eixo de um desenvolvimento soberano, democr\u00e1tico, popular e sustent\u00e1vel para o pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>Com o atual modelo ambiental e agr\u00edcola, quais as condi\u00e7\u00f5es de sobreviv\u00eancia de\u00a0ind\u00edgenas, quilombolas, outras comunidades tradicionais, o MST e a agricultura camponesa?<\/strong><\/p>\n<p>O que n\u00f3s temos \u00e9 uma disputa pelos bens comuns, uma disputa territorial. O capital financeiro tem cada vez mais dificuldade de se reproduzir nas bolsas de valores, e portanto ele busca lastro nos territ\u00f3rios, que s\u00e3o ricos em minerais, \u00e1gua, biodiversidade \u2013\u00a0tudo isso constru\u00eddo em um processo de coevolu\u00e7\u00e3o com as comunidades que neles est\u00e3o.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, o projeto de acumula\u00e7\u00e3o capitalista,\u00a0que ganha muita for\u00e7a com o golpe,\u00a0busca justamente expropriar as popula\u00e7\u00f5es que est\u00e3o nesses territ\u00f3rios e os assentamentos que foram conquistados ao longo dos 35 anos de luta \u2013\u00a0do MST e de outras organiza\u00e7\u00f5es \u2013\u00a0pela reforma agr\u00e1ria, para que eles sejam incorporados no agroneg\u00f3cio, na minera\u00e7\u00e3o ou no hidroneg\u00f3cio.<\/p>\n<p>Esse projeto colocado em curso, desde a d\u00e9cada de 1990, de um capital financeiro que organiza a explora\u00e7\u00e3o capitalista no campo brasileiro, mas que ganha muita for\u00e7a com o golpe,\u00a0afronta diretamente os direitos dos povos e comunidades tradicionais. Ele busca destruir as conquistas dos movimentos populares, como a titula\u00e7\u00e3o dos assentamentos.<\/p>\n<p>Por outro lado, as organiza\u00e7\u00f5es populares t\u00eam constitu\u00eddo uma diversidade incr\u00edvel de iniciativas, experi\u00eancias e alternativas concretas do que fazer com esses territ\u00f3rios. Hoje, a principal base de alimenta\u00e7\u00e3o do povo brasileiro vem desses territ\u00f3rios, apesar de todos esses avan\u00e7os da explora\u00e7\u00e3o capitalista.<\/p>\n<p>A agricultura camponesa n\u00e3o produz mercadoria, mas alimento, em sistemas cada vez mais complexos, sustent\u00e1veis e agroecol\u00f3gicos. E que leva em considera\u00e7\u00e3o a din\u00e2mica de cada territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>Hoje, se voc\u00ea vai no bioma Amaz\u00f4nia ou Pampa, voc\u00ea vai encontrar uma diversidade muito grande de experi\u00eancias em diferentes escalas: artesanal e at\u00e9 agroindustrial, que consegue fornecer grande quantidade de alimentos para o povo brasileiro.\u00a0Apesar da aus\u00eancia do Estado ou da debilidade do Estado de fortalecer essas experi\u00eancias e propostas, elas se concretizam como um caminho real e poss\u00edvel de desenvolvimento do campo brasileiro.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-img-caption\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/farm66.staticflickr.com\/65535\/48668820787_b5c3f50f0c_o.jpg?ssl=1\" target=\"_blank\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/farm66.staticflickr.com\/65535\/48668820787_b5c3f50f0c_o.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"\" \/><\/a><\/p>\n<p>Cerca de 305 etnias de povos ind\u00edgenas integram as comunidades tradicionais brasileiras (Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/p>\n<p><strong>Por que a agenda ambiental e agr\u00e1ria \u00e9 colocada de lado? A quem interessa a escassez de recursos nessas \u00e1reas?<\/strong><\/p>\n<p>A destrui\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica ambiental brasileira e o bloqueio total da reforma agr\u00e1ria \u2013\u00a0na realidade uma contrarreforma agr\u00e1ria, que \u00e9 destruir as conquistas das fam\u00edlias sem-terra \u2013\u00a0interessam justamente a esse per\u00edodo do capitalismo, que \u00e9 devastador.<\/p>\n<p>O que a gente tem visto, dos crimes de Mariana (MG) e Brumadinho (MG), na realidade, s\u00e3o reflexo disso:\u00a0uma acelera\u00e7\u00e3o brutal do n\u00edvel de expropria\u00e7\u00e3o que as empresas capitalistas t\u00eam feito dos bens comuns. Ent\u00e3o, essas a\u00e7\u00f5es t\u00eam essa perspectiva de atacar e fragilizar os territ\u00f3rios para aumentar seu lucro.<\/p>\n<p>No outro sentido, a constru\u00e7\u00e3o de um projeto popular para o campo \u00e9 o caminho que n\u00f3s temos elaborado. Ent\u00e3o, n\u00f3s temos dentro do Projeto Brasil Popular o grupo de trabalho &#8220;Agricultura, Meio Ambiente e Biodiversidade&#8221;, que tem elaborado justamente quais s\u00e3o as propostas para o campo.<\/p>\n<p>O MST \u00e9 o maior produtor de arroz agroecol\u00f3gico, \u00e9 produtor de caf\u00e9 agroecol\u00f3gico, de diversas frutas, hortali\u00e7as agroecol\u00f3gicas, de leite de base agroecol\u00f3gica. Junto com as outras comunidades tradicionais e do campesinato, n\u00f3s temos hoje condi\u00e7\u00e3o de produzir alimento. O que falta \u00e9 o papel do Estado.\u00a0Ele investe recurso de assist\u00eancia t\u00e9cnica para o agroneg\u00f3cio, recurso de cr\u00e9dito. Ent\u00e3o, por isso que a marginaliza\u00e7\u00e3o dessas pol\u00edticas fortalecem o agroneg\u00f3cio.<\/p>\n<p>Com um papel de\u00a0Estado forte, com pol\u00edtica ambiental e agr\u00e1ria consolidada com o vi\u00e9s de desenvolvimento popular, n\u00f3s ter\u00edamos uma outra realidade de pesquisa, de assist\u00eancia t\u00e9cnica, de agroindustrializa\u00e7\u00e3o, de comercializa\u00e7\u00e3o, de educa\u00e7\u00e3o, de sa\u00fade, para o campo.<\/p>\n<p>Tudo isso existe hoje, n\u00e3o s\u00f3 como elabora\u00e7\u00e3o, mas como propostas concretas que as comunidades desenvolveram ao longo dos \u00faltimos 30 anos. No per\u00edodo do governo democr\u00e1tico, algumas quest\u00f5es avan\u00e7aram bastante nesses sentidos, outras, ficaram muito falhas, principalmente na quest\u00e3o da reforma agr\u00e1ria concretamente.<\/p>\n<p>J\u00e1 dizia o deputado Ad\u00e3o Preto: &#8220;A\u00a0reforma agr\u00e1ria \u00e9 que nem feijoada&#8221;. A base da feijoada \u00e9 o feij\u00e3o, ent\u00e3o tem que ter terra, tem que ter o feij\u00e3o para se fazer reforma agr\u00e1ria. Agora, voc\u00ea n\u00e3o faz a reforma agr\u00e1ria s\u00f3 com o feij\u00e3o. Voc\u00ea faz com todos os outros ingredientes que s\u00e3o\u00a0assist\u00eancia t\u00e9cnica, educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade,\u00a0cultura popular, etc.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, essa pol\u00edtica de austeridade, de diminuir os recursos ou simplesmente desaparecer com esses recursos, ela vai nesse sentido de tentar fragilizar as organiza\u00e7\u00f5es de base popular do campesinato brasileiro.<\/p>\n<p><strong>Como combater o avan\u00e7o do agroneg\u00f3cio e a destrui\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia? Qual o cen\u00e1rio daqui para frente, e quais s\u00e3o as alternativas?<\/strong><\/p>\n<p>As contradi\u00e7\u00f5es desse modelo da morte, que \u00e9 como n\u00f3s chamamos\u00a0o agroneg\u00f3cio, a minera\u00e7\u00e3o, elas ficam cada vez mais evidentes. As contradi\u00e7\u00f5es da sa\u00fade j\u00e1 est\u00e3o na sociedade. Hoje, n\u00f3s sofremos uma epidemia de c\u00e2ncer por conta do alto n\u00edvel de agrot\u00f3xicos. As contradi\u00e7\u00f5es ambientais, que n\u00f3s j\u00e1 vivemos, de contamina\u00e7\u00e3o das \u00e1guas\u2026 Uma pesquisa recente mostra que a grande maioria das cidades t\u00eam, na sua \u00e1gua, at\u00e9 27 princ\u00edpios ativos de agrot\u00f3xicos. Ent\u00e3o, \u00e9 um coquetel qu\u00edmico.<\/p>\n<p>Mais recentemente, vemos o\u00a0aumento das queimadas na Amaz\u00f4nia. Todas essas contradi\u00e7\u00f5es est\u00e3o se intensificando, e v\u00e3o se intensificar mais ainda, porque a l\u00f3gica desse governo, que veio desde o golpe, e agora \u00e9 aprofundada, \u00e9 justamente essa:\u00a0destruir a na\u00e7\u00e3o brasileira, entregando esses bens para as transnacionais e para os Estados Unidos.<\/p>\n<p>Como a gente enfrenta isso? Primeiro, \u00e9 necess\u00e1rio que a classe trabalhadora, como um todo, compreenda qual \u00e9 esse outro projeto. Porque ela est\u00e1 vivendo essas contradi\u00e7\u00f5es. A classe trabalhadora est\u00e1 ficando com c\u00e2ncer, tomando \u00e1gua envenenada e comendo uma mercadoria\u00a0podre.<\/p>\n<p>Uma reforma agr\u00e1ria popular, por isso, tem sentido para a classe trabalhadora, n\u00e3o apenas para o campesinato.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-img-caption\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/farm66.staticflickr.com\/65535\/48668334583_3c0c09331b_o.jpg?ssl=1\" target=\"_blank\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/farm66.staticflickr.com\/65535\/48668334583_3c0c09331b_o.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"\" \/><\/a><\/p>\n<p>Feira Nacional da Reforma Agr\u00e1ria, organizada pelo MST. (Foto: Joka Madruga)<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 terra para quem nela trabalha, mas \u00e9 terra para trabalhar nela e produzir alimentos saud\u00e1veis. Ent\u00e3o, esse \u00e9 o eixo do enfrentamento para o agroneg\u00f3cio. O agroneg\u00f3cio n\u00e3o produz comida, o agroneg\u00f3cio produz morte, envenenamento e destrui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A agricultura camponesa, de base agroecol\u00f3gica, busca a soberania alimentar, que \u00e9 a autonomia dos povos de decidirem o que querem comer, como e onde esse alimento deve ser produzido. Essa agricultura \u00e9 o caminho para o desenvolvimento do pa\u00eds. N\u00e3o \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o apenas de um problema social nem ambiental:\u00a0\u00e9, fundamentalmente, desenvolvimento econ\u00f4mico, pol\u00edtico, social e ambiental, para o povo brasileiro.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, esse \u00e9 o jeito de enfrentar o agroneg\u00f3cio, por suas contradi\u00e7\u00f5es. Suas contradi\u00e7\u00f5es s\u00e3o profundas, cada vez v\u00e3o\u00a0ficar mais evidentes, e n\u00f3s temos que responder e ter as respostas para isso. E a resposta \u00e9 reforma agr\u00e1ria, defesa dos territ\u00f3rios, constru\u00e7\u00e3o da soberania alimentar e agroecologia.<\/p>\n<p class=\"editor\">Edi\u00e7\u00e3o: Daniel Giovanaz<\/p>\n<div class=\"content-footer\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Feiras da Reforma Agr\u00e1ria pelo pa\u00eds s\u00e3o a marca do MST para levar os alimentos produzidos no campo at\u00e9 a cidade \/ Foto: Brasil de Fato Movimentos agr\u00e1rios e ambientais criam frente de enfrentamento \u00e0s pol\u00edticas ambiental e agr\u00e1ria do atual governo<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-23720","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-6aA","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23720","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23720"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23720\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":23722,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23720\/revisions\/23722"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23720"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23720"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23720"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}