{"id":23961,"date":"2019-09-18T08:42:45","date_gmt":"2019-09-18T12:42:45","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=23961"},"modified":"2019-09-18T08:42:45","modified_gmt":"2019-09-18T12:42:45","slug":"marighella-condenado-a-semiclandestinidade","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2019\/09\/18\/marighella-condenado-a-semiclandestinidade\/","title":{"rendered":"Marighella \u2013 condenado \u00e0 semiclandestinidade?"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"23962\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2019\/09\/18\/marighella-condenado-a-semiclandestinidade\/3c84ec9b-3db4-421d-8179-7e4e7784ae58\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/3C84EC9B-3DB4-421D-8179-7E4E7784AE58.jpeg?fit=1200%2C630\" data-orig-size=\"1200,630\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"3C84EC9B-3DB4-421D-8179-7E4E7784AE58\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/3C84EC9B-3DB4-421D-8179-7E4E7784AE58.jpeg?fit=300%2C158\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/3C84EC9B-3DB4-421D-8179-7E4E7784AE58.jpeg?fit=600%2C315\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/3C84EC9B-3DB4-421D-8179-7E4E7784AE58.jpeg?resize=600%2C315\" alt=\"3C84EC9B-3DB4-421D-8179-7E4E7784AE58\" width=\"600\" height=\"315\" class=\"alignnone size-full wp-image-23962\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/3C84EC9B-3DB4-421D-8179-7E4E7784AE58.jpeg?w=1200 1200w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/3C84EC9B-3DB4-421D-8179-7E4E7784AE58.jpeg?resize=300%2C158 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/3C84EC9B-3DB4-421D-8179-7E4E7784AE58.jpeg?resize=768%2C403 768w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/3C84EC9B-3DB4-421D-8179-7E4E7784AE58.jpeg?resize=1024%2C538 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/3C84EC9B-3DB4-421D-8179-7E4E7784AE58.jpeg?resize=571%2C300 571w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p>No cinquenten\u00e1rio do assassinato de Carlos Marighella, o filme inspirado na magn\u00edfica biografia Marighella: o Guerrilheiro que Incendiou o Mundo (Companhia das Letras, 2012), de M\u00e1rio Magalh\u00e3es, estar\u00e1 condenado a ser semiclandestino? Apesar de exibido no Festival de Berlim deste ano, e em v\u00e1rios outros festivais de menor import\u00e2ncia (Hong Kong, Istambul, Bari, Seattle, Sydney, Santiago etc.), permanecer\u00e1 in\u00e9dito no Brasil? <!--more--><\/p>\n<p>Na Revista Piau\u00ed<br \/>\nEDUARDO ESCOREL<\/p>\n<p>Seria ironia cruel se essa hip\u00f3tese fosse confirmada, embora n\u00e3o possa ser tida como surpresa diante das \u201ctrevas que dominam o poder do Estado\u201d, conforme escreveu o ministro do Supremo Tribunal Federal Celso de Mello.<\/p>\n<p>O lan\u00e7amento do filme Marighella chegou a ser anunciado para o dia 20 de novembro, nove meses depois de ter estreado fora da competi\u00e7\u00e3o na mostra oficial do Festival de Berlim. Na semana passada, por\u00e9m, uma ins\u00f3lita nota oficial dos produtores anunciou que o lan\u00e7amento estava cancelado.<\/p>\n<p>Em Berlim, Wagner Moura, diretor de Marighella, assumiu posi\u00e7\u00e3o inequ\u00edvoca ao politizar a apresenta\u00e7\u00e3o do projeto: \u201cNosso filme n\u00e3o \u00e9 obviamente somente sobre os que resistiram nas d\u00e9cadas de 1960 e 1970, mas \u00e9 tamb\u00e9m sobre os que est\u00e3o resistindo agora\u201d afirmou, arrancando aplausos da plateia, segundo a Deutsche Welle (DW). Reconheceu, al\u00e9m disso, que seria extremamente dif\u00edcil lan\u00e7ar o filme no Brasil, mencionando a polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica existente no pa\u00eds. Disse, ainda, que participar da Berlinale iria promover Marighella internacionalmente e era importante para a estreia do filme em solo brasileiro.<\/p>\n<p>Em resposta \u00e0 pergunta se Marighella \u00e9 declara\u00e7\u00e3o [dirigida] ao \u201cnovo governo brasileiro\u201d, Moura disse, segundo a DW, \u201cn\u00e3o [sic] se tratar de uma resposta ao presidente Jair Bolsonaro, que em diversas ocasi\u00f5es j\u00e1 saiu em defesa da ditadura militar e manifestou abertamente apoio \u00e0 tortura: \u2018Esse filme \u00e9 provavelmente um dos primeiros produtos culturais da arte brasileira que est\u00e1 em contraste com o grupo que est\u00e1 no poder no Brasil\u2019\u201d, declarou.<\/p>\n<p>Nesses termos, era previs\u00edvel que houvesse rea\u00e7\u00e3o contra o filme por parte do novo presidente e do seu c\u00edrculo mais pr\u00f3ximo, como realmente ocorreu.<\/p>\n<p>A raz\u00e3o alegada para cancelar o lan\u00e7amento no Brasil, al\u00e9m de vaga, tem car\u00e1ter autopunitivo \u2013 a produtora O2 Filmes n\u00e3o teria conseguido \u201ccumprir a tempo todos os tr\u00e2mites exigidos pela Ancine (Ag\u00eancia Nacional do Cinema)\u201d, o que \u00e9 um bizarro atestado de inefici\u00eancia dado a si mesma pela O2.<\/p>\n<p>Marighella levou cerca de tr\u00eas anos para ser feito e quando foi finalizado, em 2018, o pa\u00eds estava prestes a mudar com a posse de um presidente da Rep\u00fablica de extrema direita, admirador confesso da ditadura civil-militar instaurada em 1964 que, a partir do Ato Institucional n\u00ba 5, em dezembro de 1968, fez da tortura uma pol\u00edtica de governo. Foi contra esse regime ditatorial que Marighella se insurgiu, optando pela luta armada e fundando a A\u00e7\u00e3o Libertadora Nacional (ALN), ap\u00f3s tr\u00eas d\u00e9cadas de milit\u00e2ncia no Partido Comunista Brasileiro (PCB), do qual se desligara em 1966.<\/p>\n<p>Empossado Bolsonaro, seria prova de grande ingenuidade acreditar que Marighella n\u00e3o iria enfrentar dificuldades para ser lan\u00e7ado no Brasil, mesmo se nos primeiros meses da Presid\u00eancia pudessem persistir, para alguns, d\u00favidas quanto ao extremo a que o governo federal iria chegar. Hoje, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 outra. Temos um presidente da Rep\u00fablica intrometido, insolente e grosseiro, com n\u00edtida propens\u00e3o autorit\u00e1ria e \u00e9 dif\u00edcil imaginar que deixe de se imiscuir quanto puder para impedir a exibi\u00e7\u00e3o p\u00fablica de Marighella no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Se a pr\u00f3pria O2 d\u00e1 sinal de receio, e caso n\u00e3o haja mobiliza\u00e7\u00e3o a favor do filme, como Marighella poder\u00e1 ser exibido no circuito comercial de salas de cinema do Brasil, o que sempre teria sido \u201cobjetivo principal\u201d da produtora, segundo a nota oficial? A O2 e a distribuidora Paris Filmes declaram que \u201cv\u00e3o seguir trabalhando para que isso aconte\u00e7a\u201d. De que maneira, por\u00e9m, n\u00e3o esclarecem.<\/p>\n<p>Mesmo sem ter base para opinar sobre o m\u00e9rito das solicita\u00e7\u00f5es da produtora feitas em agosto \u00e0 Ancine, e que foram negadas, \u00e9 poss\u00edvel dizer que elas comprovam o excessivo grau de depend\u00eancia que o cinema brasileiro tem do Estado. Al\u00e9m disso, esses vetos aos pedidos da O2 atestam a incompatibilidade existente entre a fun\u00e7\u00e3o reguladora e a de fomento quando reunidas no mesmo \u00f3rg\u00e3o de governo. Comprometida com o fomento do projeto Marighella desde 2014, quando aprovou a capta\u00e7\u00e3o de recursos atrav\u00e9s da Lei do Audiovisual, a Ancine tem obriga\u00e7\u00e3o de cooperar para que o filme seja lan\u00e7ado no pa\u00eds, ao inv\u00e9s de criar entraves a esse compromisso pelo qual tamb\u00e9m \u00e9 respons\u00e1vel.<\/p>\n<p>No contexto atual, por\u00e9m, em particular no caso de Marighella, os vetos parecem fazer parte do conjunto de restri\u00e7\u00f5es que v\u00eam sendo feitas pelo governo federal, incluindo desde a inten\u00e7\u00e3o declarada de fechar a Ancine at\u00e9 a de \u201cfiltrar\u201d o conte\u00fado de projetos incentivados, al\u00e9m do corte de 43% do or\u00e7amento do Fundo Setorial do Audiovisual para 2020. Apesar dessa redu\u00e7\u00e3o dr\u00e1stica, a garantia de R$ 415,3 milh\u00f5es seria significativa caso fosse assegurada autonomia e obtida maior efici\u00eancia do \u00f3rg\u00e3o fomentador.<\/p>\n<p>Lamento n\u00e3o poder comentar o pr\u00f3prio Marighella, em vez de me ater \u00e0s circunst\u00e2ncias que o cercam, pois, apesar de reiterada manifesta\u00e7\u00e3o de interesse da minha parte, n\u00e3o me foi dado acesso ao filme. Temo que essa t\u00e1tica de avestruz, que denota inseguran\u00e7a dos produtores quanto ao resultado de bilheteria, possa agravar a situa\u00e7\u00e3o e dificulte ainda mais encontrar os meios necess\u00e1rios para garantir que o filme seja difundido entre n\u00f3s, em vez de condenado ao ineditismo.<\/p>\n<p>Na impossibilidade de formar ju\u00edzo pessoal sobre Marighella, recorri \u00e0 cobertura da cr\u00edtica internacional publicada em fevereiro, ap\u00f3s a estreia no Festival de Berlim. Li aleatoriamente alguns coment\u00e1rios, ciente de que podem n\u00e3o refletir sequer a m\u00e9dia da opini\u00e3o sobre o filme, mesmo quando levantam quest\u00f5es de interesse.<\/p>\n<p>A Variety de 15 de fevereiro d\u00e1 conta da preocupa\u00e7\u00e3o dos produtores naquele momento, temendo que \u201ca crescente tens\u00e3o pol\u00edtica no Brasil [pudesse] atrapalhar o lan\u00e7amento dom\u00e9stico de Marighella\u201d. Andrea Barata Ribeiro, produtora do filme, teria dito: \u201cN\u00f3s vamos lutar por isso. N\u00f3s queremos lan\u00e7ar Marighella no Brasil logo depois de Berlim. Se for necess\u00e1rio, vamos lan\u00e7\u00e1-lo de forma independente recorrendo a crowdfunding.\u201d<\/p>\n<p>O que ter\u00e1 impedido o financiamento da distribui\u00e7\u00e3o da forma anunciada? Ter\u00e1 sido a posi\u00e7\u00e3o da Paris Filmes que, segundo o mesmo The Guardian, em 20 de fevereiro, declarou \u201cn\u00e3o ter nenhuma previs\u00e3o de data para o lan\u00e7amento do filme e estar esperando o momento certo, em fun\u00e7\u00e3o do calend\u00e1rio competitivo de estreias\u201d?<\/p>\n<p>A Variety publicou tamb\u00e9m uma cr\u00edtica que define Marighella como uma \u201cbiografia hagiogr\u00e1fica\u201d. O tom do texto \u00e9 impertinente e as restri\u00e7\u00f5es s\u00e3o duras, mas levanta quest\u00f5es pol\u00edticas e est\u00e9ticas importantes a serem debatidas. Sem poder discordar dos termos do cr\u00edtico da Variety, ou eventualmente endoss\u00e1-los, por n\u00e3o ter visto o filme, deixo de reproduzi-los aqui.<\/p>\n<p>Em entrevista \u00e0 DW, M\u00e1rio Magalh\u00e3es diz que \u201cn\u00e3o cabe ao autor de uma biografia jornal\u00edstica ser juiz ou promotor acusador ou advogado. Cabe ao autor contar a hist\u00f3ria. N\u00e3o foi uma biografia [escrita] para promover o Marighella. N\u00e3o fa\u00e7o ju\u00edzo de valor sobre a escolha dele pela luta armada\u201d.<\/p>\n<p>O diretor Wagner Moura, coautor do roteiro de Marighella, escrito com Felipe Braga, parece ter adotado posi\u00e7\u00e3o diversa de Magalh\u00e3es, amparado na liberdade concedida ao filme por ser obra definida como fic\u00e7\u00e3o, sem os mesmos compromissos do jornalismo ou do document\u00e1rio. Da\u00ed Marighella ser, necessariamente, pol\u00eamico, em especial no Brasil dos nossos dias \u2013 direito dos seus autores que deve ser respeitado, concordando ou n\u00e3o com o tratamento dado ao personagem principal.<\/p>\n<p>Para Magalh\u00e3es, \u201cas pessoas falam muito de Marighella, mas costumam conhecer muito pouco sobre ele. Seria existencialmente interessante e intelectualmente indispens\u00e1vel que elas conhecessem mais para poderem se pronunciar. O filme vai ser uma grande oportunidade para isso\u201d.<\/p>\n<p>Que essa oportunidade lhe seja garantida, \u00e9 o que se espera.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No cinquenten\u00e1rio do assassinato de Carlos Marighella, o filme inspirado na magn\u00edfica biografia Marighella: o Guerrilheiro que Incendiou o Mundo (Companhia das Letras, 2012), de M\u00e1rio Magalh\u00e3es, estar\u00e1 condenado a ser semiclandestino? 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