{"id":23967,"date":"2019-09-18T09:42:30","date_gmt":"2019-09-18T13:42:30","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=23967"},"modified":"2019-09-18T09:42:30","modified_gmt":"2019-09-18T13:42:30","slug":"a-destruicao-das-indias-brasileiras","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2019\/09\/18\/a-destruicao-das-indias-brasileiras\/","title":{"rendered":"A destrui\u00e7\u00e3o das \u201c\u00cdndias brasileiras\u201d"},"content":{"rendered":"<div class=\"article__lead\">\n<picture><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" title=\" (Foto: Sidney Oliveira\/Ag. Par\u00e1 | Isac N\u00f3brega\/PR)\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/publisher-publish.s3.eu-central-1.amazonaws.com\/pb-brasil247\/swp\/jtjeq9\/media\/20190918120940_af0f701f-ef13-4d15-8f73-8bb8bb507b1f.jpeg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"\" \/><\/picture>(Foto: Sidney Oliveira\/Ag. Par\u00e1 | Isac N\u00f3brega\/PR)<\/p>\n<div class=\"article__lead\">\n<p>\u00c9 extremamente ofensiva \u00e0 dignidade dos \u00edndios &#8220;a forma como o estado brasileiro, especialmente sob o governo de Bolsonaro, os trata e maltrata com suas pol\u00edticas indigenistas como se fossem primitivos e infantis&#8221;, afirma o te\u00f3logo e escritor Leonardo Boff. &#8220;Essa, seguramente, \u00e9 a grande miss\u00e3o dos povos origin\u00e1rios e o seu maior desafio: ajudar-nos a salvar a Terra, nossa M\u00e3e, que a todos gera e sustenta e sem a qual nada neste mundo \u00e9 poss\u00edvel&#8221;.<!--more--><\/p>\n<\/div>\n<p>No 247<\/p>\n<p>Leonardo Boff<\/p>\n<div class=\"article__lead\">\n<p>Em fun\u00e7\u00e3o do S\u00ednodo panamaz\u00f4nico de outubro, conv\u00e9m relembrar o que foi a destrui\u00e7\u00e3o das Indias Brasileiras, no linguajar de Bartolom\u00e9 de las Casas com refer\u00eancia \u00e0 Am\u00e9rica Central.<\/p>\n<p>O primeiro encontro a 21 de abril de 1500, narrado idilicamente pelo cronista Pero Vaz de Caminha, logo se transformou num profundo desencontro. Por culpa da voracidade dos colonizadores, n\u00e3o ocorreu uma reciprocidade entre o portugu\u00eas e o \u00edndio, mas um confronto, desigual e violento, com desastrosas consequ\u00eancias para o futuro de todas as na\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>Como no resto da Am\u00e9rica Latina, negou-se-lhes a eles a condi\u00e7\u00e3o de seres humanos. Ainda em 1704 a C\u00e2mara de Aguiras, no Cear\u00e1, escrevia em carta ao rei de Portugal que \u201cmiss\u00f5es com esses b\u00e1rbaros s\u00e3o excusadas, porque de humano s\u00f3 tem a forma, e quem disser outra coisa \u00e9 engano conhecido\u201d. Foi preciso que o Papa Paulo III, com uma bula\u00a0<i>Sublimis Deus<\/i>\u00a0de 9 de julho de 1537, interviesse e proclamasse a eminente dignidade dos ind\u00edgenas como verdadeiros seres humanos, livres e donos de suas terras.<\/p>\n<p>Pelas doen\u00e7as dos brancos contra as quais eles n\u00e3o tinham imunidade \u2013 a gripe, a catapora, o sarampo, a mal\u00e1ria, e a s\u00edfilis \u2013 pela cruz, pela espada, pelo esbulho de suas terras, impossibilitando a ca\u00e7a e as planta\u00e7\u00f5es, pela escraviza\u00e7\u00e3o, por guerras declaradas oficialmente como por Dom Jo\u00e3o VI em 13 de maio de 1808 contra os Krenak no Vale do Rio Doce. Modernamente, ao se abrirem as grandes estradas e hidrel\u00e9tricas na Amaz\u00f4nia usaram-se contra eles desfolhantes qu\u00edmicos, ataques com helic\u00f3pteros e voos rasantes de avi\u00f5es at\u00e9 por bact\u00e9rias intencionalmente introduzida. Pela sistem\u00e1tica humilha\u00e7\u00e3o e nega\u00e7\u00e3o de sua identidade, os cinco milh\u00f5es foram reduzidos ao n\u00famero atual de 930.00 mil. Vigorou, na rela\u00e7\u00e3o aos ind\u00edgenas, o prop\u00f3sito pol\u00edtico de sua erradica\u00e7\u00e3o, seja pela acultura\u00e7\u00e3o for\u00e7ada, seja micegeniza\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea e planejada, seja pela pura e simples extermina\u00e7\u00e3o, como fez o Governador Geral do Brasil, Mendes S\u00e1 com os Tupiniquim de Ih\u00e9us:\u201dos corpos foram \u00a0colocados ao longo da praia, alinhados, na extens\u00e3o \u00a0de uma l\u00e9gua\u201d.<\/p>\n<p>Citemos apenas um exemplo paradigm\u00e1tico que representa a l\u00f3gica da \u201cdestrui\u00e7\u00e3o das Indias brasileiras\u201d. No come\u00e7o do s\u00e9culo quando os padres dominicanos iniciaram uma miss\u00e3o \u00e0s margens do rio Araguaia, havia 6-8 mil Kaiap\u00f3 em conflito com os seringueiros da regi\u00e3o. Em 1918 foram reduzidos a 500. Em 1927 a 27. Em 1958 a um \u00fanico sobrevivente. Em 1962 eram dados como extintos em toda aquela regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Com a dizima\u00e7\u00e3o de mais de mil povos, em 500 anos de hist\u00f3ria brasileira, desapareceu para sempre uma heran\u00e7a humana constru\u00edda em milhares de anos de trabalho cultural, de dialoga\u00e7\u00e3o com a natureza, de inven\u00e7\u00e3o de l\u00ednguas e de constru\u00e7\u00e3o de uma vis\u00e3o do mundo, amiga da vida e respeitosa da natureza. Sem eles todos ficamos mais pobres.<\/p>\n<div class=\"contentAd contentAd--noBackground marginBottom30\">\n<p>O sonho de um \u00edndio Terena, recolhido por um bom conhecedor da alma brasileira e ind\u00edgena, mostra o impacto desta devasta\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica sobre as pessoas e os povos: \u201cFui at\u00e9 o velho cemit\u00e9rio guarani na Reserva e l\u00e1 vi uma grande cruz. Uns homens brancos chegaram e me pregaram na cruz de cabe\u00e7a para baixo. Eles foram embora e eu fiquei l\u00e1 pregado e desesperado. Acordei com muito medo\u201d (Roberto Gambini, O\u00a0<i>espelho \u00edndio<\/i>, Rio de Janeiro 1980. p. 9).<\/p>\n<p>Esse medo, pela continuada agress\u00e3o do homem branco e b\u00e1rbaro (arrogantemente se auto-denomina \u00a0civilizado), se transformou, nos povos ind\u00edgenas, em pavor de que sejam exterminados para sempre da face da Terra.<\/p>\n<p>Gra\u00e7as \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas, \u00e0s novas legisla\u00e7\u00f5es proteccionistas do estado, ao apoio da sociedade civil, das Igrejas e da press\u00e3o internacional, os povos ind\u00edgenas est\u00e3o se fortalecendo e, mais, est\u00e3o crescendo numericamente. Suas organiza\u00e7\u00f5es revelam o alto n\u00edvel de consci\u00eancia e de articula\u00e7\u00e3o que eles atingiram. Sentem-se cidad\u00e3os adultos que querem participar dos destinos da comunidade nacional, sem renunciar \u00e0 sua identidade e colaborando junto com outros sujeitos hist\u00f3ricos com sua riqueza cultural, \u00e9tica e espiritual.<\/p>\n<div class=\"contentAd contentAd--noBackground marginBottom30\"><\/div>\n<p>Por isso, \u00e9 extremamente ofensiva \u00e0 sua dignidade, a forma como o estado brasileiro, especialmente sob o governo de Bolsonaro, os trata e maltrata com suas pol\u00edticas indigenistas como se fossem primitivos e infantis. Na verdade, eles guardam uma integralidade que n\u00f3s ocidentais perdemos, ref\u00e9ns de um paradigma civilizacional que divide, atomiza e contrap\u00f5e para mais dominar. Eles s\u00e3o guardi\u00e3es da unidade sagrada e complexa do ser humano, mergulhado com outros na natureza da qual somos parte e parcela. Eles conservam a consci\u00eancia bem-aventurada de nossa perten\u00e7a ao Todo e da alian\u00e7a imorredoura entre o c\u00e9u e a terra, origem de todas as coisas.<\/p>\n<p>Quanto em outubro de 1999 estive encontrando os ind\u00edgenas noruegueses \u2013 os samis ou esquim\u00f3s \u2013 em Umeo, eles me fizeram uma primeira pergunta, pr\u00e9via \u00e0 conversa\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>\u2013 Os \u00edndios brasileiros conservam ou n\u00e3o o casamento entre o c\u00e9u e a terra?<\/p>\n<p>Eu, entendi logo a quest\u00e3o e respondi resolutamente:<\/p>\n<p>\u2013 L\u00f3gico, eles mant\u00e9m este casamento. Pois do casamento entre o c\u00e9u e a terra nascem todas as coisas.Eles, felizes, responderam:<\/p>\n<p>\u2013 Ent\u00e3o, s\u00e3o ainda, verdadeiramente, \u00edndios como n\u00f3s. Eles n\u00e3o s\u00e3o como os nossos irm\u00e3os de Estecolmo que esqueceram o c\u00e9u e s\u00f3 ficaram s\u00f3 com a terra. Por isso se sentem infelizes e muitos se suicidam. Se mantivermos unidos c\u00e9u e terra, esp\u00edrito e mat\u00e9ria, o Grande Esp\u00edrito e o esp\u00edrito humano ent\u00e3o salvaremos a humanidade e a nossa Grande M\u00e3e Terra.<\/p>\n<p>Essa, seguramente, \u00e9 a grande miss\u00e3o dos povos origin\u00e1rios e o seu maior desafio: ajudar-nos a salvar a Terra, nossa M\u00e3e, que a todos gera e sustenta e sem a qual nada neste mundo \u00e9 poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Precisamos ouvir sua mensagem e incorporarmo-nos em seu compromisso, para fazermo-nos tamb\u00e9m n\u00f3s, como eles, testemunhos da beleza, da riqueza e da vitalidade da M\u00e3e Terra.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<figure><\/figure>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Foto: Sidney Oliveira\/Ag. Par\u00e1 | Isac N\u00f3brega\/PR) \u00c9 extremamente ofensiva \u00e0 dignidade dos \u00edndios &#8220;a forma como o estado brasileiro, especialmente sob o governo de Bolsonaro, os trata e maltrata com suas pol\u00edticas indigenistas como se fossem primitivos e infantis&#8221;, afirma o te\u00f3logo e escritor Leonardo Boff. &#8220;Essa, seguramente, \u00e9 a grande miss\u00e3o dos povos&#8230;<a class=\"more-link\" href=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2019\/09\/18\/a-destruicao-das-indias-brasileiras\/\">Continue a leitura <span class=\"meta-nav\">&raquo;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-23967","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-6ez","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23967","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23967"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23967\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":23968,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23967\/revisions\/23968"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23967"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23967"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23967"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}