{"id":24400,"date":"2019-10-14T16:27:06","date_gmt":"2019-10-14T20:27:06","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=24400"},"modified":"2019-10-14T16:27:44","modified_gmt":"2019-10-14T20:27:44","slug":"24400","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2019\/10\/14\/24400\/","title":{"rendered":"A hist\u00f3ria por tr\u00e1s da foto mais emblem\u00e1tica dos protestos no Equador"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"24401\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2019\/10\/14\/24400\/1b7b86f7-90c3-4017-9c15-65dca2117e42\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/1B7B86F7-90C3-4017-9C15-65DCA2117E42.jpeg?fit=375%2C210\" data-orig-size=\"375,210\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"1B7B86F7-90C3-4017-9C15-65DCA2117E42\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/1B7B86F7-90C3-4017-9C15-65DCA2117E42.jpeg?fit=300%2C168\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/1B7B86F7-90C3-4017-9C15-65DCA2117E42.jpeg?fit=375%2C210\" class=\"alignnone size-full wp-image-24401\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/1B7B86F7-90C3-4017-9C15-65DCA2117E42.jpeg?resize=375%2C210\" alt=\"1B7B86F7-90C3-4017-9C15-65DCA2117E42\" width=\"375\" height=\"210\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/1B7B86F7-90C3-4017-9C15-65DCA2117E42.jpeg?w=375 375w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/1B7B86F7-90C3-4017-9C15-65DCA2117E42.jpeg?resize=300%2C168 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 375px) 100vw, 375px\" \/><\/p>\n<p>Mat\u00edas Zibell,\u00a0Da BBC News Mundo no Equador &#8211; Em 9 de outubro, dia de uma greve nacional dos equatorianos contra as medidas de austeridade do presidente Len\u00edn Moreno, o fot\u00f3grafo David D\u00edaz Arcos estava no centro hist\u00f3rico de Quito, capital do Equador, perto de uma das barricadas formadas pela pol\u00edcia. A poucos passos dele, uma das fotografias de sua vida estava \u00e0 sua espera.<!--more--><\/p>\n<p>Seu registro de uma mulher ind\u00edgena da prov\u00edncia de Cotopaxi em meio a uma nuvem de g\u00e1s lacrimog\u00eaneo, com uma m\u00e1scara cobrindo seu rosto, tornou-se imediatamente um dos retratos mais emblem\u00e1ticos dos protestos no Equador.<br \/>\n&#8220;Eu havia sido atingido por um tiro de chumbinho na perna. Por isso, comecei a descer uma rua, mancando um pouco. Foi quando a vi de p\u00e9, a meio quarteir\u00e3o de dist\u00e2ncia, como na foto. Ela n\u00e3o posou para mim&#8221;, conta Arco, que \u00e9 produtor audiovisual de forma\u00e7\u00e3o e trabalha como fot\u00f3grafo h\u00e1 oito anos.<br \/>\nEle fez tr\u00eas fotos da mulher e depois se aproximou para conversar com ela, porque queria repetir o clique. &#8220;Mas n\u00e3o houve como, porque jogaram mais g\u00e1s e fugimos. N\u00f3s nos perdemos, e eu n\u00e3o a vi novamente.&#8221;<br \/>\nArco integrava o grupo fotogr\u00e1fico Fluxus Foto, que cobria as marchas na capital equatoriana. Sua imagem da ind\u00edgena foi enviada \u00e0 ag\u00eancia de not\u00edcias Bloomberg, com a qual ele colabora, e assim foi publicada pelo jornal americano The Washington Post.<\/p>\n<p>Os protestos come\u00e7aram ap\u00f3s a decis\u00e3o de Moreno de dar fim a 40 anos de subs\u00eddios aos combust\u00edveis e terminaram neste domingo com um acordo entre o governo e os l\u00edderes ind\u00edgenas. O decreto presidencial foi revogado, e, como contrapartida, as manifesta\u00e7\u00f5es realizadas h\u00e1 quase duas semanas foram suspensas.<\/p>\n<p>Para David, apaixonado por quest\u00f5es de direitos humanos, g\u00eanero e territ\u00f3rio, sua foto mostra &#8220;o papel vital das mulheres ind\u00edgenas nos protestos, uma vez que elas estavam na linha de frente tanto quanto os homens&#8221;.<\/p>\n<p>Mulheres, m\u00e3es e filhas<br \/>\nDireito de imagemMAT\u00cdAS ZIBELLImage caption&#8217;Somos m\u00e3es, mulheres e filhas. Estamos vindo das diferentes Prov\u00edncias para exigir que o Estado n\u00e3o mate nosso povo&#8217;, disse Marta Chango (2\u00aa \u00e0 esq.)<br \/>\nNaquele 9 de outubro, eu estava a poucos quarteir\u00f5es de Arcos, cobrindo pela primeira vez um protesto ind\u00edgena como jornalista, e fiquei impressionado ao ver centenas de mulheres marcharem pelo centro de Quito, muitas com seus filhos a tira colo e trajando blusas bordadas, saias e len\u00e7os. Al\u00e9m desse cuidado com sua apar\u00eancia, outra marca era a forma enf\u00e1tica com que faziam suas reivindica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8220;Vamos resistir at\u00e9 o fim. Somos m\u00e3es, mulheres e filhas. Estamos vindo das diferentes Prov\u00edncias do pa\u00eds para exigir que o Estado, abusando de seu poder, n\u00e3o mate nosso povo. N\u00e3o permitiremos isso&#8221;, disse Marta Chango, do povoado de Salasaca e coordenadora do movimento pol\u00edtico Pachakutik na Prov\u00edncia de Tungurahua.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a de tantas mulheres nas marchas ind\u00edgenas em Quito n\u00e3o surpreendeu s\u00f3 os correspondentes estrangeiros, mas tamb\u00e9m alguns equatorianos.<\/p>\n<p>&#8220;H\u00e1 um preconceito prodominante no Equador de que os \u00edndios batem nas mulheres, do \u00edndio machista e da \u00edndia submissa, essa \u00e9 a vis\u00e3o hegem\u00f4nica&#8221;, diz Adriana Rodr\u00edguez, professora de direito da Universidade Andina e especialista em direitos humanos dos povos ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>&#8220;Acredito que as imagens que surgiram nos dias de resist\u00eancia, imagens superfortes, posicionam socialmente quem s\u00e3o as mulheres ind\u00edgenas, que historicamente est\u00e3o na vanguarda da reivindica\u00e7\u00e3o de seus direitos.&#8221;<\/p>\n<p>Roupas tradicionais e crian\u00e7as<br \/>\nMariana Yumbay, de 46 anos, integra as organiza\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas Conaie e Ecuarunari desde os 14. &#8220;Quase uma vida inteira&#8221;, diz ela, que \u00e9 de uma comunidade chamada Corral, na cidade de Guaranda, na Prov\u00edncia de Bol\u00edvar, e foi a Quito protestar.<\/p>\n<p>&#8220;As mulheres ind\u00edgenas sofrem uma viola\u00e7\u00e3o tripla de seus direitos: porque s\u00e3o mulheres, porque s\u00e3o ind\u00edgenas e porque s\u00e3o pobres. Os dados oficiais mostram que as mulheres ind\u00edgenas continuam sofrendo com esse alto n\u00edvel de pobreza, de viol\u00eancia psicol\u00f3gica, sexual, f\u00edsica e cultural.&#8221;<\/p>\n<p>Direito de imagemMART\u00cdAS ZIBELLImage captionNos protestos em Quito, os ind\u00edgenas lembraram as mulheres que fizeram hist\u00f3ria dentro do movimento<br \/>\nEla considera que essa situa\u00e7\u00e3o for\u00e7ou a mulher ind\u00edgena a travar uma luta dupla: por seus direitos como mulher, fora e dentro do movimento, e tamb\u00e9m pelas causas fundamentais dos povos ind\u00edgenas, como quest\u00f5es territoriais, de identidade cultural e de educa\u00e7\u00e3o bil\u00edngue.<\/p>\n<p>Quando pergunto por que elas marcham com seus trajes tradicionais, ele responde que a mulher \u00e9 a guardi\u00e3 da cultura, de tudo o que a identidade cultural implica, e o uso destas roupas faz parte desta identidade.<\/p>\n<p>&#8220;Eu mesma uso sombrero (chap\u00e9u), anaco (a saia), bayeta (o xale), colar, blusas bordadas. N\u00e3o \u00e9 que n\u00f3s trocamos de roupa para ir \u00e0 marcha. E, como estamos na cidade, as mulheres v\u00eam com suas melhores roupas para participar dessa luta.&#8221;<\/p>\n<p>No entanto, o que aconteceu em Quito nesta semana pode fazer com que essas mulheres repensem o uso de roupas tradicionais.<\/p>\n<p>&#8220;Nunca esper\u00e1vamos essa repress\u00e3o \u00e0 qual fomos submetidos. Quando eles lan\u00e7aram g\u00e1s, eu n\u00e3o pude correr por causa do meu traje e fiquei sentada. Ent\u00e3o, no in\u00edcio da marcha, conversamos e dissemos que n\u00e3o pod\u00edamos mais vir assim, porque n\u00e3o pod\u00edamos fugir. Fica mais f\u00e1cil para a pol\u00edcia nos pegar e nos reprimir.&#8221;<\/p>\n<p>Direito de imagemMAT\u00cdAS ZIBELLImage captionAs mulheres participam das marchas junto com seus filhos<br \/>\nOutro elemento que diferencia homens e mulheres ind\u00edgenas nas marchas \u00e9 que elas carregam seus filhos, geralmente nas costas, envoltos nas roupas das m\u00e3es.<\/p>\n<p>&#8220;Muitos n\u00e3o entendem por que levamos nossos filhos pequenos e nos questionam por que n\u00e3o os deixamos em casa, mas isso \u00e9 n\u00e3o entender a realidade dos povos ind\u00edgenas&#8221;, explica Yumbaya.<\/p>\n<p>Ela ressalta que a m\u00e3e ind\u00edgena tem uma rela\u00e7\u00e3o muito \u00edntima com seu beb\u00ea: deixar a crian\u00e7a em uma creche n\u00e3o faz parte da vis\u00e3o de mundo de seu povo \u2014 n\u00e3o h\u00e1 o costume de confiar a outra pessoa os cuidados com a crian\u00e7a \u2014 e que n\u00e3o h\u00e1 como dizer a uma pessoa &#8220;para olhar o beb\u00ea at\u00e9 que eu volte da marcha&#8221;.<\/p>\n<p>Rodr\u00edguez acrescenta que participar nessas marchas com toda a fam\u00edlia tamb\u00e9m \u00e9 algo relacionado ao senso de comunidade dos \u00edndios equatorianos. &#8220;Por que eles v\u00eam com seus filhos? Por ser uma resist\u00eancia comunit\u00e1ria, vem a m\u00e3e, av\u00f4, av\u00f3, v\u00eam todos.&#8221;<\/p>\n<p>O papel hist\u00f3rico das mulheres ind\u00edgenas<br \/>\nO historiador Franklin Cepeda diz que os protestos ind\u00edgenas come\u00e7aram nesta regi\u00e3o dos Andes muito antes de o Estado equatoriano ser estabelecido. &#8220;H\u00e1 revoltas desde o in\u00edcio do s\u00e9culo 19, em 1803, que prenunciam os levantes subsequentes no Equador como tal.&#8221;<\/p>\n<p>Direito de imagemMAT\u00cdAS ZIBELLImage captionMarchas ind\u00edgenas ocorreram ao longo da hist\u00f3ria do Equador<br \/>\nNo s\u00e9culo 20, a mulher ind\u00edgena se torna mais consciente de seu papel hist\u00f3rico, afirma Cepeda. &#8220;Talvez elas ainda n\u00e3o tivessem visibilidade suficiente, mas conquistaram espa\u00e7os importantes, principalmente na arena pol\u00edtica, com cargos de vereadoras e deputadas.&#8221;<\/p>\n<p>Na luta por essa visibilidade, diz o historiador, eles tiveram de lutar at\u00e9 contra outras mulheres. &#8220;Por exemplo, em 1919, em Riobamba, na f\u00e1brica t\u00eaxtil El Prado, houve um protesto das trabalhadoras contra a decis\u00e3o dos propriet\u00e1rios de colocar as mulheres ind\u00edgenas para aprenderem junto com as mesti\u00e7as-brancas da cidade.&#8221;<\/p>\n<p>Mas Cepeda indica que n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio idealizar o papel da mulher ind\u00edgena. &#8220;Moro em Riobamba, e h\u00e1 queixas constantes de mulheres camponesas que s\u00e3o levadas para as marchas sob a amea\u00e7a, por exemplo, da retirada do servi\u00e7o de \u00e1gua para irriga\u00e7\u00e3o. Podem ser casos excepcionais, mas h\u00e1 divis\u00f5es. N\u00e3o h\u00e1 entre os ind\u00edgenas do Equador uma posi\u00e7\u00e3o \u00fanica.&#8221;<\/p>\n<p>Para Rodr\u00edguez, trata-se de analisar as rela\u00e7\u00f5es de poder. &#8220;O importante \u00e9 entender nessas rela\u00e7\u00f5es o papel da mulher e como ela alcan\u00e7a a lideran\u00e7a pol\u00edtica e na pr\u00e1tica.&#8221;<\/p>\n<p>Essa lideran\u00e7a pol\u00edtica remonta, de acordo com a professora da Universidade Andina, \u00e0 d\u00e9cada de 1930, quando mulheres como Dolores Cacuango e Tuagua Amagua\u00f1a participaram da funda\u00e7\u00e3o da Federa\u00e7\u00e3o Equatoriana de \u00cdndios, bem como das primeiras uni\u00f5es agr\u00edcolas e as primeiras escolas bil\u00edngues de espanhol e kichwa.<\/p>\n<p>&#8220;Ent\u00e3o, nas d\u00e9cadas de 1960 e 1970, Blanca Chancoso assume a frente. At\u00e9 hoje, ela est\u00e1 na luta e participou da marcha no s\u00e1bado passado, formada apenas por mulheres.&#8221;<\/p>\n<p>Mas podemos dizer que as mulheres ind\u00edgenas s\u00e3o feministas? &#8220;Eles n\u00e3o se identificam assim, mas s\u00e3o mais feministas do que pensamos. Sempre reivindicam uma presen\u00e7a constante em suas comunidades. Chamo isso de feminismo comunit\u00e1rio pr\u00e1tico. H\u00e1 alguns intelectuais ind\u00edgenas que falam sobre um patriarcado ancestral, e o que as mulheres ind\u00edgenas fizeram foi combater esse patriarcado&#8221;, diz Rodr\u00edguez.<\/p>\n<p>Para o fot\u00f3grafo David D\u00edaz Arcos, que nunca imaginou que sua foto fosse viralizar, o registro que ele fez daquela ind\u00edgena, com quem trocou apenas algumas palavras e depois n\u00e3o voltou a ver, ilustra exatamente essa luta. &#8220;A foto fala por si&#8221;, diz.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mat\u00edas Zibell,\u00a0Da BBC News Mundo no Equador &#8211; Em 9 de outubro, dia de uma greve nacional dos equatorianos contra as medidas de austeridade do presidente Len\u00edn Moreno, o fot\u00f3grafo David D\u00edaz Arcos estava no centro hist\u00f3rico de Quito, capital do Equador, perto de uma das barricadas formadas pela pol\u00edcia. 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