{"id":25212,"date":"2019-11-27T15:58:25","date_gmt":"2019-11-27T19:58:25","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=25212"},"modified":"2019-11-27T15:58:35","modified_gmt":"2019-11-27T19:58:35","slug":"falta-de-diversidade-nas-redacoes-esconde-racismo-estrutural-do-jornalismo-e-dificulta-o-debate-sobre-desigualdade-entre-negros-e-brancos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2019\/11\/27\/falta-de-diversidade-nas-redacoes-esconde-racismo-estrutural-do-jornalismo-e-dificulta-o-debate-sobre-desigualdade-entre-negros-e-brancos\/","title":{"rendered":"Falta de diversidade nas reda\u00e7\u00f5es esconde racismo estrutural do jornalismo e dificulta o debate sobre desigualdade entre negros e brancos"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-gallery columns-1 is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\"><ul class=\"blocks-gallery-grid\"><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"600\" height=\"364\" data-attachment-id=\"25213\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2019\/11\/27\/falta-de-diversidade-nas-redacoes-esconde-racismo-estrutural-do-jornalismo-e-dificulta-o-debate-sobre-desigualdade-entre-negros-e-brancos\/c1f5d1e1-9585-4b58-a39d-92a68a77be3b\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/C1F5D1E1-9585-4B58-A39D-92A68A77BE3B.png?fit=768%2C466\" data-orig-size=\"768,466\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"C1F5D1E1-9585-4B58-A39D-92A68A77BE3B\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/C1F5D1E1-9585-4B58-A39D-92A68A77BE3B.png?fit=300%2C182\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/C1F5D1E1-9585-4B58-A39D-92A68A77BE3B.png?fit=600%2C364\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/C1F5D1E1-9585-4B58-A39D-92A68A77BE3B.png?resize=600%2C364\" alt=\"\" data-id=\"25213\" data-full-url=\"https:\/\/i1.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/C1F5D1E1-9585-4B58-A39D-92A68A77BE3B.png?fit=768%2C466\" data-link=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?attachment_id=25213\" class=\"wp-image-25213\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/C1F5D1E1-9585-4B58-A39D-92A68A77BE3B.png?w=768 768w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/C1F5D1E1-9585-4B58-A39D-92A68A77BE3B.png?resize=300%2C182 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/C1F5D1E1-9585-4B58-A39D-92A68A77BE3B.png?resize=494%2C300 494w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/figure><\/li><\/ul><\/figure>\n\n\n\n<p><br>A presen\u00e7a ou n\u00e3o de diversidade e pluralidade na m\u00eddia reflete os princ\u00edpios e valores da organiza\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m da sociedade que representa. Talvez por isso haja t\u00e3o pouco debate sobre o racismo e o abismo de oportunidades entre negros e brancos no Brasil. Essa realidade ficou bastante clara no dia 20 de novembro, quando \u00e9 celebrado o Dia da Consci\u00eancia Negra. Apesar de fazer parte da agenda nacional e em v\u00e1rias cidades brasileiras ser at\u00e9 feriado, a pauta ganhou pouca valoriza\u00e7\u00e3o entre os dez jornais com maior circula\u00e7\u00e3o m\u00e9dia em 2018, segundo o Instituto Verificador de Circula\u00e7\u00e3o (IVC). <br><\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, em outros peri\u00f3dicos regionais, o assunto tamb\u00e9m ganhou pouco destaque. Muitos sequer o abordaram. Como \u00e9 poss\u00edvel, num pa\u00eds com mais da metade da popula\u00e7\u00e3o negra ou parda, n\u00e3o priorizar essa pauta?<\/p>\n\n\n\n<p>Para se ter uma ideia, na lista dos dez jornais com maior circula\u00e7\u00e3o,&nbsp;<em>Estado de S.Paulo<\/em>,&nbsp;<em>Extra<\/em>,&nbsp;<em>O Tempo<\/em>,&nbsp;<em>Super Not\u00edcia<\/em>&nbsp;e&nbsp;<em>Daqui<\/em>&nbsp;n\u00e3o apresentaram qualquer men\u00e7\u00e3o \u00e0 data na capa da edi\u00e7\u00e3o impressa. J\u00e1&nbsp;<em>Folha de S.Paulo<\/em>,&nbsp;<em>O Globo<\/em>,&nbsp;<em>Zero Hora<\/em>,&nbsp;<em>O Tempo<\/em>,&nbsp;<em>Correio do Povo<\/em>&nbsp;e&nbsp;<em>Di\u00e1rio Ga\u00fach<\/em>o trouxeram mat\u00e9rias sobre a data, alguns desenvolveram pautas especiais, mas, no geral, em tom comemorativo ou valorizando algum projeto social em busca do \u201cresgate\u201d da cultura negra. A desigualdade social e o preconceito sofridos pela popula\u00e7\u00e3o negra no pa\u00eds mereceram pouco destaque nas chamadas de capa.<\/p>\n\n\n\n<p>Apenas&nbsp;<em>O Tempo<\/em>&nbsp;trouxe manchete sobre o problema da preval\u00eancia de negros e pardos entre os desempregados do pa\u00eds.&nbsp;<em>Folha<\/em>&nbsp;e&nbsp;<em>O Globo<\/em>apresentaram fotos de destaque sobre o tema, mas o primeiro abordou o resgate da cultura pelo turismo e a necessidade de ir al\u00e9m da negritude, e o segundo apresentou um factual sobre o sal\u00e3o de livros carioca. Com menos destaque, abordou a falta de diversidade em carreiras de \u201celite\u201d, nas quais os negros t\u00eam baixa entrada. O termo \u201celite\u201d, de alguma forma, j\u00e1 apresenta um sinal de diferencia\u00e7\u00e3o entre negros e brancos. Por mais que se busque debater a lacuna social, o tratamento ajuda a ampliar a desigualdade. O mesmo se verifica na chamada de&nbsp;<em>O Estado de Minas<\/em>&nbsp;(n\u00e3o listado entre os dez com maior circula\u00e7\u00e3o). Na capa, a manchete buscava valorizar o legado da popula\u00e7\u00e3o negra, por\u00e9m destacava sua import\u00e2ncia ao lado de ind\u00edgenas e portugueses. Considerando a data, existe a\u00ed um elemento que reduz o protagonismo dos descendentes de africanos no pa\u00eds, mesmo sem querer.<\/p>\n\n\n\n<p>No jornal&nbsp;<em>Correio do Povo<\/em>, um especial buscou lembrar as ra\u00edzes negras do Rio Grande do Sul, \u201cembranquecida\u201d ao longo dos anos num processo de esquecimento da presen\u00e7a dos negros (e da escravid\u00e3o) no estado. Na p\u00e1gina online do ve\u00edculo,&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.correiodopovo.com.br\/especial\/onde-est%C3%A3o-os-negros-do-rio-grande-do-sul-1.381578\">o especial traz o depoimento do jornalista Fl\u00e1vio Bandeira, de 34 anos<\/a>, que denuncia a invisibiliza\u00e7\u00e3o do negro e questiona: \u201cQual o medo da sociedade de que algum negro chegue a uma posi\u00e7\u00e3o de destaque? Isso \u00e9 uma coisa que eu penso muito todo dia. Vemos que somos praticamente invis\u00edveis\u201d. Segundo seu depoimento, ele nunca se viu representado nos livros de hist\u00f3ria, nos monumentos. Apesar de essa ser uma abordagem relacionada a um estado sulista, ela est\u00e1 presente em todo o pa\u00eds e tamb\u00e9m na m\u00eddia.<\/p>\n\n\n\n<p>Existe uma invisibiliza\u00e7\u00e3o do negro no discurso da imprensa: pela baixa diversidade de vozes, pela falta de representatividade nas imagens, as pautas que n\u00e3o debatem criticamente a desigualdade estrutural, na composi\u00e7\u00e3o das reda\u00e7\u00f5es. Recentemente,&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/p\/B3DDz4MJG09\/\">uma foto postada por Maju Coutinho<\/a>, apresentadora do&nbsp;<em>Jornal Hoje<\/em>, denunciou a falta de diversidade da equipe na qual ela trabalha. Na imagem, a \u00fanica negra era Maju. A reda\u00e7\u00e3o retratada n\u00e3o diverge muito da realidade da imprensa brasileira: em geral, a m\u00eddia \u00e9 branca, de classe m\u00e9dia, e fala para brancos, de classes m\u00e9dia e alta (\u00e9 esta a parcela da popula\u00e7\u00e3o com maior empregabilidade, educa\u00e7\u00e3o e renda). A baixa aten\u00e7\u00e3o de alguns dos principais jornais brasileiros repercute, ent\u00e3o, a baixa diversidade racial das reda\u00e7\u00f5es, bem como o racismo latente existente na sociedade brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p>Em fevereiro de 2019, Dairan Paul debateu a normaliza\u00e7\u00e3o do racismo no discurso jornal\u00edstico a partir do caso de um jovem morto por um seguran\u00e7a de supermercado.&nbsp;<a href=\"https:\/\/objethos.wordpress.com\/2019\/02\/18\/jornalismo-passivo-racismo-naturalizado\/\">No coment\u00e1rio para o objETHOS<\/a>, ele avaliou as manchetes sobre o caso e pontuou o racismo impl\u00edcito na m\u00eddia por meio da suaviza\u00e7\u00e3o do fato e, em certa medida, de sua \u201cbanaliza\u00e7\u00e3o\u201d. O pesquisador apresentou outros casos relacionados \u00e0 seguran\u00e7a p\u00fablica em que o racismo aparece de forma naturalizada e, em alguns, existe a responsabiliza\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria v\u00edtima. \u201cNo jornalismo, a formula\u00e7\u00e3o de estere\u00f3tipos e preconceitos s\u00e3o alguns dos marcos sociais que atravessam julgamentos tomados nas reda\u00e7\u00f5es\u201d, afirma Dairan Paul.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas se o papel do jornalismo \u00e9 o interesse p\u00fablico, como \u00e9 poss\u00edvel que a maior parcela da popula\u00e7\u00e3o seja invisibilizada \u2013 e \u00e0s vezes at\u00e9 criminalizada \u2013 pelo discurso da m\u00eddia? Apostamos que, al\u00e9m da heran\u00e7a escravagista e da extrema desigualdade social do pa\u00eds, a falta de diversidade das reda\u00e7\u00f5es contribua para isso.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Falta de representatividade nas pautas \u00e9 reflexo da falta de diversidade das reda\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para se ter uma ideia, o percentual de pessoas negras entre os jornalistas \u00e9 inferior \u00e0 metade da presen\u00e7a de pretos e pardos no Brasil. Entre a popula\u00e7\u00e3o brasileira, negros s\u00e3o 55,8% da popula\u00e7\u00e3o; entre os jornalistas, s\u00e3o s\u00f3 23% (5% negros e 18% pardos), de acordo com o Perfil do Jornalista Brasileiro (<a href=\"https:\/\/perfildojornalista.ufsc.br\/files\/2013\/04\/Perfil-do-jornalista-brasileiro-Sintese.pdf\">MICK; LIMA, 2012<\/a>). A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda mais desigual entre colunistas de grandes jornais: segundo estudo feito pelo Grupo de Estudos Multidisciplinares da A\u00e7\u00e3o Afirmativa (GEMAA),&nbsp;<a href=\"http:\/\/gemaa.iesp.uerj.br\/infografico\/jornalismo-brasileiro-genero-cor-raca-dos-colunistas-dos-principais-jornais\/\">mais de 70% dos formadores de opini\u00e3o da&nbsp;<em>Folha<\/em>,&nbsp;<em>Globo<\/em>&nbsp;e&nbsp;<em>Estad\u00e3o<\/em>&nbsp;s\u00e3o homens, e mais de 90% s\u00e3o brancos<\/a>&nbsp;(chegando a 99% no&nbsp;<em>Estad\u00e3o<\/em>). O GEMAA afirma ainda que o perfil profissional desses colunistas tamb\u00e9m \u00e9 pouco aberto a um ponto de vista popular acerca dos problemas sociais e pol\u00edticos do pa\u00eds. \u00c9 preocupante saber que a m\u00eddia brasileira tem um olhar pouco conectado \u00e0 realidade nacional, quando deveria ser o oposto.<\/p>\n\n\n\n<p>Na edi\u00e7\u00e3o de outubro deste ano, a rep\u00f3rter da<em>&nbsp;piau\u00ed<\/em><a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/materia\/letra-preta\/\">Yasmin Santos publicou um texto sobre os negros na imprensa brasileira<\/a>&nbsp;e, a partir de sua pr\u00f3pria experi\u00eancia como jornalista negra, comenta a falta de diversidade nas reda\u00e7\u00f5es: \u201cCom poucas semanas de<em>piau\u00ed<\/em>, descobri que Coelho [Tiago Coelho, rep\u00f3rter] tinha sido o primeiro profissional negro contratado pela revista, em 2015, e eu, a primeira mulher negra. N\u00e3o era exatamente o que uma pessoa negra espera de um emprego dos sonhos. Aquilo me frustrou e ainda me frustra\u201d, revela. Em seu texto, ela traz dados de uma pesquisa feita pela revista&nbsp;<em>Imprensa<\/em>&nbsp;em 2001, que procurava saber quantas pessoas negras trabalham nesses espa\u00e7os e quantas ocupavam cargos de chefia. Das 230 reda\u00e7\u00f5es ouvidas, somente 85 disseram contar com algum(a) jornalista negro(a). O n\u00famero de chefes negros(as) era irris\u00f3rio: 57 em um universo de 3.400, ou seja, somente 1,6% do total.<\/p>\n\n\n\n<p>Os poucos profissionais negros das reda\u00e7\u00f5es brasileiras t\u00eam um grande desafio: enfrentar o isolamento e a solid\u00e3o causados pela sensa\u00e7\u00e3o de n\u00e3o pertencimento. \u201c<a href=\"http:\/\/www.guiaup.net\/2019\/11\/quando-voce-e-cota-nao-deseja-isso-pra.html\">Quando voc\u00ea \u00e9 a cota, n\u00e3o deseja isso pra ningu\u00e9m<\/a>\u201d, afirma Elena Wesley, jornalista negra, em texto publicado na newsletter do The Intercept Brasil no dia 16 de novembro. Ela conta que, mesmo entre os coletivos de esquerda na universidade onde se formou em jornalismo, a pauta da diversidade racial era tida como secund\u00e1ria: \u201c[Os coletivos] defendiam a assist\u00eancia estudantil como prioridade, sob o pretexto de que a pol\u00edtica beneficiaria todo mundo. Mas eu estava longe de ser todo mundo. Eu era a cota, a exce\u00e7\u00e3o. E, quando voc\u00ea \u00e9 a exce\u00e7\u00e3o, n\u00e3o deseja que ningu\u00e9m se sinta da mesma forma\u201d completa.<\/p>\n\n\n\n<p>A percep\u00e7\u00e3o da pouca representatividade de pessoas negras na reda\u00e7\u00e3o fez com que a rep\u00f3rter Yasmin Santos escolhesse esse tema para seu trabalho de conclus\u00e3o de curso da universidade. Seu estudo foi constru\u00eddo a partir da perspectiva de 47 profissionais negros(as) entrevistados(as) e, entre os resultados, aponta que a quest\u00e3o do n\u00e3o pertencimento \u00e9 uma constante que colabora para a intensifica\u00e7\u00e3o da inseguran\u00e7a. \u201c\u00c9 complicado ser o \u00fanico preto sempre\u201d, contou a ela um entrevistado de 23 anos. \u201cEnquanto os brancos est\u00e3o l\u00e1 se apoiando e dando tapinhas nas costas um do outro, voc\u00ea est\u00e1 lutando para n\u00e3o adoecer e pedir as contas.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Outras descobertas interessantes de seu trabalho dizem respeito aos gargalos na profiss\u00e3o, que dificultam a entrada e a perman\u00eancia de jornalistas negros nas reda\u00e7\u00f5es. Um dos grandes fatores, segundo ela, \u00e9 a baixa remunera\u00e7\u00e3o, principalmente para profissionais iniciantes. Esse aspecto acaba afugentando pessoas negras e perif\u00e9ricas que dependem da pr\u00f3pria for\u00e7a de trabalho para viver, enquanto jornalistas de classe m\u00e9dia conseguem segurar as pontas (seja com economias ou com suporte financeiro da fam\u00edlia) numa realidade de baixos sal\u00e1rios, empregos vol\u00e1teis e \u201cpejotiza\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso sem falar no racismo estrutural das reda\u00e7\u00f5es, revelado em v\u00e1rios depoimentos dos entrevistados de Yasmin. Um dos mais chocantes \u00e9 o de um jornalista de 32 anos que cometeu um erro na sua \u00e9poca de estagi\u00e1rio. Sua chefe, branca, revoltou-se: \u201cQuantas chicotadas eu devo te dar?\u201d. A despeito disso, as reda\u00e7\u00f5es negam o racismo ou fingem que n\u00e3o existe. O peso emocional para quem o vive na pele \u00e9 enorme, conforme aponta a autora: \u201cQualquer negro que busca sobreviver num ambiente majoritariamente branco se v\u00ea tentado a andar com uma sacola de eufemismos debaixo do bra\u00e7o para que possa ser ouvido sem provocar mal-estar ou cair em descr\u00e9dito. \u00c9 tanto eufemismo que o senso de urg\u00eancia por vezes desaparece na nossa fala. Eu n\u00e3o vejo o mesmo esfor\u00e7o de comunica\u00e7\u00e3o do outro lado.\u201d Elena Wesley, do The Intercept Brasil, dialoga com essa afirma\u00e7\u00e3o mencionando que uma an\u00e1lise dos rostos e das reportagens do jornalismo brasileiro pode demonstrar que a figura do negro n\u00e3o est\u00e1 sob os holofotes, e sim em manchetes pejorativas que o apresentam como bandido, suspeito. \u201cQuando n\u00e3o somos invis\u00edveis, nos simplificam com estere\u00f3tipos\u201d, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A mudan\u00e7a \u00e9 urgente e os desafios para o jornalismo s\u00e3o muitos. Mas h\u00e1 caminhos<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Corrigir esse problema \u00e9 uma das quest\u00f5es mais importantes para o jornalismo, se ele quiser de fato cumprir sua fun\u00e7\u00e3o social e se tornar relevante para todas as pessoas. As solu\u00e7\u00f5es perpassam por perceber essa falta de diversidade, fazer autocr\u00edtica sobre as pr\u00e1ticas feitas at\u00e9 ent\u00e3o e elaborar estrat\u00e9gias para furar as bolhas, tornando as reda\u00e7\u00f5es verdadeiramente mais plurais. Afinal, \u201cpor que as pessoas confiariam em fontes e not\u00edcias onde n\u00e3o se v\u00eaem, e cujas reportagens n\u00e3o refletem a realidade que elas vivem?\u201d, questiona Paula Cesarino Costa, da&nbsp;<em>Folha de S.Paulo<\/em>, respons\u00e1vel pela editoria de diversidade do jornal, criada em maio deste ano. Durante sua&nbsp;<a href=\"https:\/\/ponte.org\/discussoes-sobre-inovacao-no-jornalismo-e-diversidade-nas-redacoes-dominam-festival-3i-no-rio\/?fbclid=IwAR3yjVOSfSvYW8tMOXlU2vpSaOrPNafPnTdQgpLCdtxgrDVqP1J0MoiYLc8\">palestra no Festival 3i<\/a>, que aconteceu no Rio de Janeiro no m\u00eas de outubro, ela aponta alguns avan\u00e7os, como o primeiro censo da hist\u00f3ria da reda\u00e7\u00e3o. \u201cAntes disso, n\u00e3o havia no\u00e7\u00e3o de quantas pessoas negras havia na reda\u00e7\u00e3o, porque sequer se perguntava sobre isso\u201d, conta.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir da cria\u00e7\u00e3o da editoria, segundo ela, a quest\u00e3o do racismo passou a estar na pauta do dia a dia, e n\u00e3o apenas em momentos espec\u00edficos do ano. Outro objetivo da editoria \u00e9 rediscutir crit\u00e9rios para a contrata\u00e7\u00e3o de jornalistas, valorizando experi\u00eancias e viv\u00eancias sociais plurais. \u201cA transforma\u00e7\u00e3o desse quadro \u00e9 complexa e tem resultados mais lentos do que a gente gostaria\u201d, afirma Paula, enfatizando que os desafios ainda s\u00e3o muitos, sobretudo em um cen\u00e1rio em que a situa\u00e7\u00e3o financeira do jornal vai mal, com mais cortes do que contrata\u00e7\u00f5es de profissionais. Al\u00e9m disso, como lembra Yasmin Santos, apenas contratar n\u00e3o basta. Ter pessoas negras como estagi\u00e1rios, trainees e rep\u00f3rteres, ou no \u201cch\u00e3o de f\u00e1brica\u201d, n\u00e3o \u00e9 suficiente para garantir mudan\u00e7as. Ela enfatiza: \u201cpol\u00edtica de diversidade \u00e9 sobre quem se senta \u00e0 mesa, sobre quem toma as decis\u00f5es e pode opinar\u201d. Sobre o assunto, a jornalista Nina Weingrill, uma das fundadoras do \u00c9 N\u00f3is, complementa que&nbsp;<a href=\"https:\/\/medium.com\/ojornalismonobrasilem2018\/a-diversidade-pode-salvar-o-jornalismo-da-fal%C3%AAncia-e-da-irrelev%C3%A2ncia-a97aa823606f\">\u00e9 preciso criar espa\u00e7o e m\u00e9todo para di\u00e1logo<\/a>, \u201ccaso contr\u00e1rio, quem manda vai continuar decidindo \u2013 sem uma escuta amorosa e atenta \u2013 o destaque na home e a manchete da capa.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Em sua fala no Festival 3i, Raull Santiago, do coletivo Papo Reto, provoca a plat\u00e9ia de jornalistas: \u201cNos lugares em que trabalham, quantas pessoas pretas e faveladas est\u00e3o falando sobre coisas que n\u00e3o se resumem a ser pretas e faveladas? Quanto tem de preto e perif\u00e9rico que criou uma tecnologia?\u201d A busca por diversidade nas reda\u00e7\u00f5es significa n\u00e3o tratar as pessoas negras e da periferia como objetos, e sim como sujeitos; significa entender que quest\u00f5es raciais est\u00e3o no centro, e n\u00e3o \u00e0 margem de qualquer discuss\u00e3o sobre a sociedade brasileira, e que jornalistas negros n\u00e3o precisam falar apenas sobre negritudes, e sim sobre todos os assuntos que interessam \u00e0 popula\u00e7\u00e3o. Como declara Elena Wesley, jornalista negra, \u201cdefendemos que nossa visibilidade n\u00e3o se limite a falar sobre as demandas da negritude, mas que a negritude seja compreendida como elemento fundamental para abordar qualquer tema\u201d. Buscar diversidade no ambiente de trabalho tamb\u00e9m encurta caminhos para a busca de sustentabilidade, e inova\u00e7\u00e3o. Como aponta Nina Weingrill, as pessoas enxergam o mundo a partir de um ac\u00famulo de experi\u00eancias pr\u00e9-existentes, ent\u00e3o \u201cexigir variedade de solu\u00e7\u00f5es e resultados quando se tem uma equipe homog\u00eanea \u00e9 rodar em c\u00edrculos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>***<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Andressa Kikuti&nbsp;<\/strong>e&nbsp;<strong>Janara Nicoletti<\/strong>&nbsp;s\u00e3o doutorandas em Jornalismo no PPGJOR e pesquisadoras do objETHOS.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A presen\u00e7a ou n\u00e3o de diversidade e pluralidade na m\u00eddia reflete os princ\u00edpios e valores da organiza\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m da sociedade que representa. Talvez por isso haja t\u00e3o pouco debate sobre o racismo e o abismo de oportunidades entre negros e brancos no Brasil. Essa realidade ficou bastante clara no dia 20 de novembro, quando&#8230;<a class=\"more-link\" href=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2019\/11\/27\/falta-de-diversidade-nas-redacoes-esconde-racismo-estrutural-do-jornalismo-e-dificulta-o-debate-sobre-desigualdade-entre-negros-e-brancos\/\">Continue a leitura <span class=\"meta-nav\">&raquo;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-25212","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-6yE","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25212","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25212"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25212\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":25214,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25212\/revisions\/25214"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25212"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25212"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25212"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}