{"id":25219,"date":"2019-11-27T20:03:39","date_gmt":"2019-11-28T00:03:39","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/?p=25219"},"modified":"2019-11-27T20:03:46","modified_gmt":"2019-11-28T00:03:46","slug":"o-ai-5-ja-se-instala-na-amazonia-e-nas-periferias-urbanas","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2019\/11\/27\/o-ai-5-ja-se-instala-na-amazonia-e-nas-periferias-urbanas\/","title":{"rendered":"O AI-5 j\u00e1 se instala na Amaz\u00f4nia (e nas periferias urbanas)"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"600\" height=\"401\" data-attachment-id=\"25220\" data-permalink=\"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/2019\/11\/27\/o-ai-5-ja-se-instala-na-amazonia-e-nas-periferias-urbanas\/7f02c46f-350e-42cd-950c-9fcf5787c2c8\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/7F02C46F-350E-42CD-950C-9FCF5787C2C8.jpeg?fit=640%2C428\" data-orig-size=\"640,428\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"7F02C46F-350E-42CD-950C-9FCF5787C2C8\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/7F02C46F-350E-42CD-950C-9FCF5787C2C8.jpeg?fit=300%2C201\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/7F02C46F-350E-42CD-950C-9FCF5787C2C8.jpeg?fit=600%2C401\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/7F02C46F-350E-42CD-950C-9FCF5787C2C8.jpeg?resize=600%2C401\" alt=\"\" class=\"wp-image-25220\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/7F02C46F-350E-42CD-950C-9FCF5787C2C8.jpeg?w=640 640w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/7F02C46F-350E-42CD-950C-9FCF5787C2C8.jpeg?resize=300%2C201 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/7F02C46F-350E-42CD-950C-9FCF5787C2C8.jpeg?resize=449%2C300 449w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>A\u00e7\u00f5es de autoritarismo expl\u00edcito se multiplicam no pa\u00eds e aceleram a desprote\u00e7\u00e3o da floresta, de seus povos e de ambientalistas.<\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/eliane_brum\/a\/\">ELIANE BRUM<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>no El Pa\u00eds<\/p>\n\n\n\n<p>O bolsonarismo \u00e9 competente ao usar a estrat\u00e9gia de controlar o notici\u00e1rio e manter a sociedade e a imprensa s\u00f3 na reprodu\u00e7\u00e3o e na rea\u00e7\u00e3o. Quando o ministro da Economia, Paulo Guedes,&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/11\/22\/politica\/1574424459_017981.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">evoca o AI-5<\/a>, e antes dele&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/politica\/2019-11-26\/conselho-de-etica-vai-apurar-se-eduardo-bolsonaro-quebrou-o-decoro-ao-falar-em-novo-ai-5.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">o zerotr\u00eas Eduardo Bolsonaro<\/a>(PSL), est\u00e3o latindo num lugar enquanto a matilha j\u00e1 est\u00e1 mordendo em outro. \u00c9 na Amaz\u00f4nia e nas periferias urbanas que o autoritarismo j\u00e1 se instalou. Como denominar um pa\u00eds em que a pol\u00edcia do estado do Rio de Janeiro j\u00e1 matou at\u00e9 outubro de 2019 mais do que em qualquer ano das \u00faltimas duas d\u00e9cadas? Se fosse enfileirar as 1.546 v\u00edtimas da pol\u00edcia haveria mais de 2 quil\u00f4metros de cad\u00e1veres. Esta viol\u00eancia que mata os negros e pobres e faz com que as crian\u00e7as, tamb\u00e9m elas pobres e negras, temam o som dos helic\u00f3pteros porque&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/09\/21\/politica\/1569099826_106579.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">seis delas j\u00e1 tombaram por bala \u201cperdida\u201d<\/a>&nbsp;somente neste ano no Rio est\u00e1 conectada com a viol\u00eancia que faz v\u00edtimas na floresta amaz\u00f4nica. Os amaz\u00f4nicos e os perif\u00e9ricos n\u00e3o se conhecem, mas t\u00eam o mesmo rosto de quem morre no Brasil: negros e ind\u00edgenas. \u00c9 contra estes povos, estes rostos, que a viol\u00eancia est\u00e1 recrudescendo. As Organiza\u00e7\u00f5es N\u00e3o Governamentais (ONGs), foco da ofensiva do bolsonarismo, est\u00e3o sendo atacadas porque defendem estes povos, estes rostos.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde o in\u00edcio de novembro h\u00e1 sinais de que o projeto autorit\u00e1rio est\u00e1 aumentando de velocidade e de intensidade. O m\u00eas abriu com a morte de um dos guardi\u00f5es da floresta,\u00a0<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/11\/02\/politica\/1572726281_632337.html\" target=\"_blank\">Paulo Paulino Guajajara<\/a>. E est\u00e1 terminando com criminaliza\u00e7\u00e3o de uma das organiza\u00e7\u00f5es mais respeitadas, premiadas e amadas da Amaz\u00f4nia, o Sa\u00fade e Alegria, que atua na bacia do Tapaj\u00f3s h\u00e1 d\u00e9cadas. Na ter\u00e7a-feira, 26 de novembro, a ONG teve seus documentos e\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>computadores apreendidos pela pol\u00edcia civil, em Santar\u00e9m. No mesmo dia, quatro brigadistas volunt\u00e1rios da Brigada de Alter do Ch\u00e3o, criada para combater os focos de inc\u00eandio na floresta em parceria com o Corpo de Bombeiros, foram presos pela suspeita de que teriam ateado o fogo que queimou uma \u00e1rea equivalente a 1.600 campos de futebol em setembro, na regi\u00e3o de Santar\u00e9m. Ser preso, mesmo que a pris\u00e3o se mostre abusiva, j\u00e1 cumpre o objetivo de quem quer desmoralizar os agentes que combatem a destrui\u00e7\u00e3o da floresta. O estrago j\u00e1 est\u00e1 feito, especialmente sobre uma popula\u00e7\u00e3o assustada e desinformada.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Washington, Guedes evoca o AI-5, autoridades e sociedade reagem, redes sociais se enfogueiram. \u00c9 preciso avisar que, na linha de frente, o AI-5 j\u00e1 est\u00e1 e os mais fr\u00e1geis est\u00e3o resistindo quase sozinhos. E perdendo. O principal projeto do bolsonarismo \u00e9 a abertura da&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/amazonia\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Amaz\u00f4nia<\/a>. A disputa desigual est\u00e1 sendo travada na floresta e nas cidades que beiram a floresta. Quem vive e atua na Amaz\u00f4nia j\u00e1 entendeu que pode ser preso sem motivo porque o Estado \u00e9 arbitr\u00e1rio e as provas s\u00e3o forjadas. \u00c9 isso o que os acontecimentos em Santar\u00e9m est\u00e3o mostrando. AS ONGs s\u00e3o alvo porque, em um pa\u00eds prec\u00e1rio como o Brasil, onde o Governo decidiu n\u00e3o cumprir a lei e as institui\u00e7\u00f5es fraquejam, s\u00e3o elas que est\u00e3o fazendo uma barreira contra a destrui\u00e7\u00e3o da floresta e dos corpos dos povos da floresta. Ambientalistas brancos come\u00e7aram a ser presos. Os mortos continuam tendo o mesmo rosto: negros e ind\u00edgenas.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto tenta mudar a Constitui\u00e7\u00e3o para abrir as \u00e1reas protegidas da floresta amaz\u00f4nica, o bolsonarismo executa o projeto na pr\u00e1tica ao desproteger as \u00e1reas protegidas, enfraquecendo os \u00f3rg\u00e3os de fiscaliza\u00e7\u00e3o e fortalecendo os destruidores da floresta. Na Amaz\u00f4nia basta deixar de fazer o pouco que se fazia e avisar aos amigos que podem ficar \u00e0 vontade porque n\u00e3o responder\u00e3o pelo seus atos. \u00c9 o que faz o bolsonarismo enquanto a PM de alguns estados est\u00e1 sendo preparada para virar uma mil\u00edcia que toma suas pr\u00f3prias decis\u00f5es.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O resultado \u00e9 tanto a explos\u00e3o do desmatamento, que&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/11\/18\/politica\/1574092783_837610.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">aumentou 30% entre agosto de 2018 e julho de 2019<\/a>, quanto a amea\u00e7a e\/ou assassinato dos pequenos agricultores familiares e defensores da floresta: ind\u00edgenas, quilombolas e ribeirinhos. Quem vive na Amaz\u00f4nia percebe claramente que a ofensiva aumentou desde novembro. As ONGs est\u00e3o entre os principais alvos a serem eliminados. Em v\u00e1rias regi\u00f5es do Par\u00e1, quem est\u00e1 clamando pela \u201cCPI das ONGs\u201d s\u00e3o justamente not\u00f3rios grileiros e madeireiros e seus representantes. Enrolam-se em bandeiras do Brasil e evocam o nacionalismo, mas o que querem \u00e9 fincar um papel com o seu nome \u2015 ou no nome de um de seus laranjas \u2015 num peda\u00e7o da floresta amaz\u00f4nica roubada da Uni\u00e3o ou dos estados.<\/p>\n\n\n\n<p>No Par\u00e1, estado que lidera o desmatamento no Brasil, vale a pena observar uma sequ\u00eancia de acontecimentos ocorridos no espa\u00e7o de uma semana. De 17 a 19 de novembro, os movimentos sociais da regi\u00e3o do M\u00e9dio Xingu organizaram em Altamira um encontro chamado&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/11\/15\/opinion\/1573820553_621324.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Amaz\u00f4nia Centro do Mundo<\/a>. A cena da mesa de abertura do encontro, na Universidade Federal do Par\u00e1, \u00e9 uma alegoria do que acontece no cotidiano da floresta. Um grupo de grileiros e fazendeiros se posicionou propositalmente no lado direito da plateia \u2015 \u201csentamos \u00e0 direita, como nos conv\u00e9m\u201d. H\u00e1 dias eles vinham sendo incitados por um homem que se apresenta como antrop\u00f3logo e trabalha para a banda podre do agroneg\u00f3cio. Desde o in\u00edcio, o grupo gritava a cada vez que um dos convidados a compor a mesa falava, na tentativa de impedir que o evento se realizasse. Era uma provoca\u00e7\u00e3o. Se algu\u00e9m reagisse, o articulador manipularia os acontecimentos e diria que ele tinha sigo o agredido. Ele j\u00e1 usou esse truque em outros momentos na regi\u00e3o amaz\u00f4nica. O maior alvo deste grupo era Raoni, o Kayap\u00f3 que se tornou a principal lideran\u00e7a ind\u00edgena do Brasil, com grande repercuss\u00e3o no exterior, indicado para o Nobel da Paz.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/brasil.elpais.com\/resizer\/ovjlCiAcRXAvLaThGDt6WpNHfSE%3D\/768x0\/smart\/arc-anglerfish-eu-central-1-prod-prisa.s3.amazonaws.com\/public\/3GLKUEVV35GGLCBWDZHRKAN3IE.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"Guerreiros Kayap\u00f3 fazem barreira humana para proteger Raoni, indicado ao Pr\u00eamio Nobel da Paz, em evento tumultuado por fazendeiros e grileiros\"\/><figcaption>Guerreiros Kayap\u00f3 fazem barreira humana para proteger Raoni, indicado ao Pr\u00eamio Nobel da Paz, em evento tumultuado por fazendeiros e grileirosLILO<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Os guerreiros Kayap\u00f3 que acompanhavam Raoni entraram em sua bela forma\u00e7\u00e3o ritual, como costumam fazer. Os Kayap\u00f3 s\u00e3o orgulhosos e impressionantes em suas apari\u00e7\u00f5es p\u00fablicas. Criaram uma barreira humana para permitir que os organizadores do encontro pudessem falar. E ent\u00e3o foi poss\u00edvel ouvir as vozes dos intelectuais da floresta, dos intelectuais da academia, das lideran\u00e7as dos movimentos sociais. Durante a maior parte da manh\u00e3, o pequeno grupo de fazendeiros e grileiros (h\u00e1 que se diferenciar uns dos outros) tentou impedir a voz dos povos da floresta e dos movimentos sociais. Sempre provocando, tentando abafar a voz dos convidados da mesa de abertura. Um pequeno mas revelador sinal de que limites est\u00e3o sendo superados se revelou justamente no fato de que nem o bispo do Xingu, Dom Jo\u00e3o Muniz, conseguiu falar sem ser interrompido por provoca\u00e7\u00f5es. Os organizadores j\u00e1 tinham registrado as tentativas de intimida\u00e7\u00e3o ao longo dos dias anteriores, feitas por redes sociais e por email. Presen\u00e7as internacionais importantes, como a princesa da B\u00e9lgica Maria Esmeralda, ativista e embaixadora da WWF, deixaram de comparecer ao evento por temer a viol\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Submerso no notici\u00e1rio produzido por Bras\u00edlia, este que gravita em torno das declara\u00e7\u00f5es de Bolsonaro e de Lula, parte do Brasil n\u00e3o percebeu a grandeza do que ocorreu em Altamira neste encontro. \u201cAmaz\u00f4nia Centro do Mundo\u201d reuniu lideran\u00e7as da floresta, pensadores e cientistas da academia, representantes de movimentos sociais e jovens ativistas clim\u00e1ticos do Brasil e da Europa, dos movimentos Engajamundo, Extinction Rebellion e Fridays For Future, este \u00faltimo inspirado pela adolescente sueca&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/greta_thunberg_ernman\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Greta Thunberg<\/a>.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Uma parcela dos participantes vinha de outra jornada, com o mesmo nome,&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/11\/24\/politica\/1574625811_669555.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">ocorrida uma semana antes na Terra do Meio<\/a>, do qual fui uma das organizadoras. Do encontro no cora\u00e7\u00e3o da floresta haviam participado o grande xam\u00e3 yanomami, Davi Kopenawa, que hoje testemunha o territ\u00f3rio do seu povo ser mais uma vez tomado por garimpeiros, e a ativista russa Nadya Tolokonnikova, do movimento Pussy Riot, que ficou presa na Sib\u00e9ria por quase dois anos depois de enfrentar o d\u00e9spota&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/vladimir_putin\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Vladimir Putin<\/a>. Estavam ali para se conhecerem e criarem uma alian\u00e7a pela floresta. Era uma reuni\u00e3o de gente que n\u00e3o quer roubar terra p\u00fablica para especular ou tirar min\u00e9rio. S\u00f3 quer que a floresta fique em p\u00e9 para que ela siga transpirando e salvando o planeta.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/vdmedia.elpais.com\/elpaistop\/201911\/27\/20191127162154801_1574886145_video_1574886125.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>Em Altamira, o encontro foi organizado por dezenas de movimentos da cidade e da floresta. Depois de rachar na constru\u00e7\u00e3o de Belo Monte, as organiza\u00e7\u00f5es sociais se uniram novamente para lutar contra a destrui\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia. Desta vez, mais preparados para identificar os truques daqueles que buscam desuni-los para poder consolidar seus projetos de destrui\u00e7\u00e3o.&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2015\/07\/06\/opinion\/1436195768_857181.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Belo Monte e seu conjunto de viola\u00e7\u00f5es<\/a>&nbsp;foram uma p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o completa sobre como agem os \u201cgerenciadores de crise\u201d para neutralizar a resist\u00eancia, manipular as informa\u00e7\u00f5es e infiltrar a disc\u00f3rdia. Este ainda \u00e9 um aprendizado em curso, j\u00e1 que h\u00e1 sempre os que demoram mais a aprender. E h\u00e1 tamb\u00e9m os que nunca aprendem.<\/p>\n\n\n\n<p>O encontro mostrou algo que parecia muito dif\u00edcil, sen\u00e3o imposs\u00edvel, no Brasil atual: a organiza\u00e7\u00e3o de uma resist\u00eancia ao autoritarismo em curso. N\u00e3o apenas como uma rea\u00e7\u00e3o aos ataques, mas como cria\u00e7\u00e3o de futuro, como proposta de uma rela\u00e7\u00e3o diferente com a floresta e com o pr\u00f3prio modo de viver para muito al\u00e9m da floresta. Movimentos sociais urbanos, agricultores familiares e cientistas ficaram lado a lado com ind\u00edgenas, ribeirinhos e quilombolas, uma alian\u00e7a que seria dif\u00edcil no passado recente pela pr\u00f3pria hist\u00f3ria de cada um destes povos. O espa\u00e7o n\u00e3o poderia ser mais adequado, j\u00e1 que a universidade p\u00fablica tem sido um dos principais alvos do bolsonarismo. A alian\u00e7a entre os saberes da academia e da floresta foi consumada tamb\u00e9m na concretude do local escolhido.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos momentos mais emocionantes aconteceu quando um agricultor da Volta Grande do Xingu,&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/09\/12\/opinion\/1568300730_780955.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">ecossistema que est\u00e1 sendo secado e destru\u00eddo pela usina de Belo Monte<\/a>&nbsp;e amea\u00e7ado tamb\u00e9m pela instala\u00e7\u00e3o da mineradora canadense Belo Sun, pediu, aos prantos, perd\u00e3o aos ind\u00edgenas por um dia ter ocupado terras que lhes pertenciam. Ao terminar seu discurso, um Kayap\u00f3 colocou sua m\u00e3o sobre a dele e, imediatamente, v\u00e1rias pessoas foram somando m\u00e3os. A cena tornou-se uma performance art\u00edstica, n\u00e3o planejada, da alian\u00e7a que ali estava sendo consumada.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes de os fazendeiros e grileiros se retirarem, vencidos em sua tentativa de criar tumulto e silenciar as vozes, ocorreu o momento mais tenso do encontro. Surgiu tamb\u00e9m ali uma lideran\u00e7a que a sociedade brasileira \u2015 a que defende a vida, a democracia e a justi\u00e7a \u2015 precisa se organizar para amparar. Seu nome, para recordar e proteger: Juma Xipaya.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/brasil.elpais.com\/resizer\/OeZZRnpnc5bDWi0XF5G0W0T7s5Y%3D\/768x0\/smart\/arc-anglerfish-eu-central-1-prod-prisa.s3.amazonaws.com\/public\/JBURA4MC3VCDDA4JBHYAH44WBQ.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"Juma Xipaya defende os povos da floresta e desperta a ira dos grileiros no encontro Amaz\u00f4nia Centro do Mundo, em 18 de novembro, em Altamira. Ao seu lado, Mit\u00e3 Xipaya, jovem lideran\u00e7a ind\u00edgena.\"\/><figcaption>Juma Xipaya defende os povos da floresta e desperta a ira dos grileiros no encontro Amaz\u00f4nia Centro do Mundo, em 18 de novembro, em Altamira. Ao seu lado, Mit\u00e3 Xipaya, jovem lideran\u00e7a ind\u00edgena.LILO CLARETO<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Estudante de medicina da Universidade Federal do Par\u00e1, em Altamira, Juma pertence a um povo que chegou a ser considerado extinto e precisou provar que tinha sobrevivido \u00e0 tentativa de exterm\u00ednio. Ela fez um discurso contundente contra os que tentavam impedir a realiza\u00e7\u00e3o do evento. Um dos not\u00f3rios grileiros presentes se descontrolou e colocou o dedo no seu peito. Perto dele, duas mission\u00e1rias que foram companheiras de Dorothy Stang, assassinada em 2005 por um grupo que ficou conhecido como \u201ccons\u00f3rcio da morte\u201d, rezavam. A jovem ind\u00edgena n\u00e3o se intimidou: <\/p>\n\n\n\n<p>\u201cMeu nome \u00e9 Juma Xipaya. Eu fico pensando o que voc\u00eas pensam quando muitas vezes se contrap\u00f5em aos nossos discursos, \u00e0s nossas lutas. Parece que somos inimigos de voc\u00eas. S\u00f3 quero lembrar voc\u00eas que, em momento algum, n\u00f3s falamos que voc\u00eas s\u00e3o nossos inimigos ou que n\u00f3s somos inimigos de voc\u00eas. N\u00f3s defendemos a vida, n\u00f3s defendemos a floresta. E se voc\u00eas dizem que a Amaz\u00f4nia \u00e9 do Brasil, por que voc\u00eas n\u00e3o est\u00e3o lutando para defender a Amaz\u00f4nia?<\/p>\n\n\n\n<p>Toda essa produ\u00e7\u00e3o e esse desenvolvimento que voc\u00eas pensam s\u00e3o para os brasileiros ou \u00e9 para o estrangeiro? Ent\u00e3o que discurso \u00e9 este que voc\u00eas pregam que a Amaz\u00f4nia \u00e9 do Brasil, sendo que voc\u00eas n\u00e3o sabem a import\u00e2ncia do que a Amaz\u00f4nia significa pra n\u00f3s, voc\u00eas n\u00e3o sabem o valor da Amaz\u00f4nia? Voc\u00eas n\u00e3o s\u00e3o dignos para dizer isso. Sabem por qu\u00ea? Voc\u00eas n\u00e3o sabem o que \u00e9 perder um filho, voc\u00eas n\u00e3o sabem o que \u00e9 ter as casas invadidas, voc\u00eas n\u00e3o sabem o que \u00e9 ser expulso de terras. Respeite, respeite, respeite. Respeite a minha fala.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Voc\u00eas devem nos ouvir. Voc\u00eas invadem as nossas terras, voc\u00eas entregam o nosso min\u00e9rio, voc\u00eas acabam com a nossa vida, e n\u00e3o querem ouvir a nossa voz. Respeitem. Respeitem a Amaz\u00f4nia, respeitem os nosso povos que morrem todos os dias, que t\u00eam mulheres todos os dias violentadas, que t\u00eam ind\u00edgenas com m\u00e3os decepadas por defenderem as suas terras. N\u00f3s defendemos o Brasil. N\u00f3s defendemos a Amaz\u00f4nia com nossa pr\u00f3pria vida h\u00e1 s\u00e9culos!<\/p>\n\n\n\n<p>O dever de defender a Amaz\u00f4nia n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 porque n\u00f3s, ind\u00edgenas, moramos nas nossas terras. O mundo tem o dever, tem a obriga\u00e7\u00e3o de defender a Amaz\u00f4nia, porque \u00e9 daqui que tiram todas as nossas riquezas e deixam somente as mazelas, as doen\u00e7as, as tristezas, os conflitos.Qual \u00e9 o filho que luta para desmatar e para matar a sua m\u00e3e?<\/p>\n\n\n\n<p>Desrespeito \u00e9 voc\u00eas virem aqui gritar, interromper a nossa fala. Se est\u00e3o aqui para dialogar, ent\u00e3o respeitem cada um. N\u00e3o agridam, n\u00e3o cometam viol\u00eancia, porque eu n\u00e3o estou aqui agredindo voc\u00eas. Eu estou defendendo nossos direitos, o direito de exist\u00eancia, o direito de ind\u00edgenas. N\u00f3s tamb\u00e9m somos donos, at\u00e9 muito mais do que voc\u00eas. O Xingu, a Amaz\u00f4nia, todos os seres que voc\u00eas n\u00e3o conseguem ver nem respeitar, sabem por qu\u00ea? Porque voc\u00eas n\u00e3o s\u00e3o ligados \u00e0 terra, voc\u00eas n\u00e3o sabem como \u00e9 a conex\u00e3o com a m\u00e3e natureza. Porque qual \u00e9 o filho que luta para desmatar e para matar a sua m\u00e3e?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Que filhos s\u00e3o voc\u00eas? Que brasileiros s\u00e3o voc\u00eas? Eu tenho d\u00f3. N\u00e3o de voc\u00eas. Eu tenho d\u00f3 das futuras gera\u00e7\u00f5es. Dos filhos e netos de voc\u00eas. Voc\u00eas n\u00e3o t\u00eam o direito de acabar com a nossa futura gera\u00e7\u00e3o. A Amaz\u00f4nia e o Brasil n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 de voc\u00eas. S\u00e3o tamb\u00e9m nossos. No m\u00ednimo, voc\u00eas t\u00eam que ter respeito e aprender a conviver\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Raoni pediria mais tarde a todos aqueles que defendem a Amaz\u00f4nia que ajudassem a proteger Juma Xipaya. O pedido precisa ser ouvido para muito al\u00e9m da floresta. Com um AI-5 n\u00e3o oficial j\u00e1 se instalando na regi\u00e3o, a sociedade civil precisa se organizar para criar uma rede de prote\u00e7\u00e3o aos defensores da floresta e impedir o processo de criminaliza\u00e7\u00e3o das ONGs que protegem estes defensores \u2015 seja cuidando do seu bem-estar, como faz o Sa\u00fade e Alegria h\u00e1 mais de 30 anos, seja ajudando a implementar a economia da floresta, aquela que produz renda sem desmatar, como faz o Instituto Socioambiental nas reservas extrativistas da Terra do Meio, seja combatendo diretamente o desmatamento, como fazem outras organiza\u00e7\u00f5es. A disputa do futuro est\u00e1 sendo travada exatamente agora.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar das ilus\u00f5es que todo povo alimenta sobre as grandezas do seu pa\u00eds, o Brasil tem hoje import\u00e2ncia no cen\u00e1rio global principalmente por causa da Amaz\u00f4nia. \u00c9 a maior floresta tropical do mundo que empresta relev\u00e2ncia estrat\u00e9gica ao Brasil. \u00c9 abrigar 60% de um bioma estrat\u00e9gico para o controle do superaquecimento global que faz o Brasil um pa\u00eds necess\u00e1rio. O problema \u00e9 que o bolsonarismo, assim como uma parcela da elite econ\u00f4mica e uma parcela dos militares, continua acreditando que a riqueza da Amaz\u00f4nia \u00e9 o min\u00e9rio embaixo da terra e a quantidade de terra para especula\u00e7\u00e3o. Parte acredita nisso porque \u00e9 burra e desinformada, parte porque s\u00f3 se interessa por lucros privados e imediatos, colocando seus interesses acima inclusive do futuro dos pr\u00f3prios filhos.<\/p>\n\n\n\n<p>A riqueza da Amaz\u00f4nia \u00e9 a sua imensa biodiversidade e a capacidade da floresta de, como um gigantesco cora\u00e7\u00e3o, bombear \u00e1gua para a atmosfera. Sem essas duas riquezas articuladas, a esp\u00e9cie humana, al\u00e9m de muitas outras, estar\u00e1 condenada nos pr\u00f3ximos anos e d\u00e9cadas a uma exist\u00eancia hostil num planeta superaquecido. Como lembra o cientista da Terra Antonio Nobre, a floresta inteira lan\u00e7a 20 trilh\u00f5es de litros de \u00e1gua na atmosfera a cada 24 horas. \u00c9 o que se chama de rios voadores. Neste caso, um volume maior do que o Amazonas ao desaguar no Atl\u00e2ntico \u00e9 lan\u00e7ado sobre nossas cabe\u00e7as todos os dias. Cada \u00e1rvore grande da floresta lan\u00e7a mil litros de \u00e1gua por dia na atmosfera, pela transpira\u00e7\u00e3o. \u00c9 essa sinapse que cada um precisa completar na sua cabe\u00e7a.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A qualquer hora que qualquer pessoa pegar o carro e entrar na Transamaz\u00f4nica, especialmente \u00e0 noite, mas tamb\u00e9m de dia, vai encontrar caminh\u00f5es cheios de toras na carroceria. Na regi\u00e3o de Altamira, a maioria delas foi arrancada da terra ind\u00edgena Cachoeira Seca,&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2016\/04\/11\/opinion\/1460390361_909016.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">uma das mais invadidas e desmatadas do pa\u00eds desde a constru\u00e7\u00e3o de Belo Monte<\/a>. Foi isso o que os ativistas do Fridays For Future e do Extinction Rebellion viram ao viajar \u00e0 Terra do Meio. Os caminh\u00f5es de toras passavam ao lado do micro\u00f4nibus dos participantes em pleno dia. Para os habitantes locais, \u00e9 uma cena corriqueira. Para os ativistas europeus, foi um choque.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/brasil.elpais.com\/resizer\/lfXXmpBvGHxa7MLrrTH9WMDI6Eg%3D\/768x0\/smart\/arc-anglerfish-eu-central-1-prod-prisa.s3.amazonaws.com\/public\/QWBVZFVRH5ETPGGU354S4NUCKI.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"Os caminh\u00f5es com toras s\u00e3o corriqueiros na Transamaz\u00f4nica e estradas vicinais, a maioria deles vindos da Terra Ind\u00edgena Cachoeira Seca, uma das mais invadidas e desmatadas do Brasil.\"\/><figcaption>Os caminh\u00f5es com toras s\u00e3o corriqueiros na Transamaz\u00f4nica e estradas vicinais, a maioria deles vindos da Terra Ind\u00edgena Cachoeira Seca, uma das mais invadidas e desmatadas do Brasil.LILO CLARETO<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>O c\u00e1lculo que precisa ser feito \u00e9 que cada uma daquelas toras deixou de colocar mil litros di\u00e1rios de \u00e1gua na atmosfera quando era uma \u00e1rvore viva, em p\u00e9 na floresta. Com cada \u00e1rvore que tomba morrem milhares de outros seres vivos que se conectavam \u00e0 sua vida e produziam outras vidas no seu entorno. Sem compreender a dimens\u00e3o do assassinato, \u00e9 dif\u00edcil compreender a destrui\u00e7\u00e3o da floresta. O planeta \u00e9 org\u00e2nico. Cada morte gera uma cadeia de acontecimentos. Alguns vis\u00edveis, a maioria invis\u00edveis. Ao final do encontro em Altamira, um estudante comentaria, visivelmente abalado: \u201cQuando falam na floresta os ind\u00edgenas doem, n\u00e9? Eles n\u00e3o est\u00e3o falando de outra coisa, fora deles, mas da mesma coisa. Eles s\u00e3o floresta. S\u00f3 entendi isso agora\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Ind\u00edgenas, quilombolas e ribeirinhos protegem a Amaz\u00f4nia com o pr\u00f3prio corpo, fazendo dele uma barreira entre a floresta e os que querem destru\u00ed-la. Diferentemente do que aconteceu no evento, onde depois de provocar confus\u00e3o, fazendeiros e grileiros foram se retirando porque derrotados no seu objetivo de silenciar as vozes, lideran\u00e7as da floresta morrem no massacre cotidiano no interior da floresta, l\u00e1 onde n\u00e3o h\u00e1 c\u00e2meras para registrar os crimes. Tamb\u00e9m s\u00e3o amea\u00e7ados e\/ou morrem agricultores familiares, como acontece hoje em Anapu, num n\u00famero muito mais elevado do que no ano do assassinato de Dorothy Stang. A sociedade brasileira precisa decidir de que lado est\u00e1 e proteger quem a protege.<\/p>\n\n\n\n<p>Apenas alguns dias depois do encontro Amaz\u00f4nia Centro do Mundo, em 25 de novembro, a Subcomiss\u00e3o Tempor\u00e1ria&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/11\/08\/politica\/1573170248_680351.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">da Usina de Belo Monte<\/a>&nbsp;do Senado foi a Altamira para \u201cfiscalizar\u201d a hidrel\u00e9trica e realizar uma \u201creuni\u00e3o t\u00e9cnica\u201d. A imprensa, por\u00e9m, n\u00e3o p\u00f4de acompanhar a \u201cvistoria\u201d pela manh\u00e3. \u00c0 tarde, na reuni\u00e3o aberta ao p\u00fablico, as ONGs viraram alvo. O senador Lucas Barreto (PSD) afirmou explicitamente que recomendaria a inclus\u00e3o do Instituto Socioambiental, uma das organiza\u00e7\u00f5es mais atuantes da regi\u00e3o na defesa da floresta e de seus povos, na \u201cCPI das ONGs\u201d. O antrop\u00f3logo da banda podre perguntou ent\u00e3o se a CPI estava garantida para o pr\u00f3ximo ano. E o senador confirmou. Comemora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>A ofensiva para eliminar os \u201centraves\u201d para converter a floresta de todos em fazenda de poucos est\u00e1 desenhada e j\u00e1 foi colocada em curso. A ONG Sa\u00fade e Alegria pode ser s\u00f3 a primeira v\u00edtima. Parte da imprensa tem colaborado com o m\u00e9todo, ao divulgar pris\u00f5es sem verificar o contexto nem fazer investiga\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria. Quando algu\u00e9m \u00e9 preso no Brasil, o estigma gruda na pele, a condena\u00e7\u00e3o p\u00fablica precede todo o ritual legal. Os agentes de seguran\u00e7a e da justi\u00e7a abusam do poder para promover linchamentos. E \u00e9 exatamente este o objetivo. A suspei\u00e7\u00e3o lan\u00e7ada sobre pessoas e organiza\u00e7\u00f5es pode durar para sempre, como a hist\u00f3ria j\u00e1 mostrou.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 absolutamente necess\u00e1rio que a sociedade, autoridades e institui\u00e7\u00f5es repudiem as evoca\u00e7\u00f5es do AI-5, como feitas por Paulo Guedes. Mas, junto com isso, \u00e9 preciso tamb\u00e9m entender que o autoritarismo est\u00e1 se infiltrando sem pap\u00e9is e sem documentos com uma velocidade in\u00e9dita na Amaz\u00f4nia e nas periferias urbanas. Esta \u00e9 a estrat\u00e9gia deste Governo barulhento que, desde que assumiu, controla o notici\u00e1rio e leva a como\u00e7\u00e3o p\u00fablica para onde quer.<\/p>\n\n\n\n<p>No dia 25, atingidos por&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/represa_belo_monte\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Belo Monte<\/a>compareceram ao Centro de Conven\u00e7\u00f5es de Altamira. Estas fam\u00edlias&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/05\/14\/politica\/1526322899_121198.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">moravam no Bairro Independente I<\/a>&nbsp;e ainda n\u00e3o foram reassentadas. A maioria \u00e9 ligada ao Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), que tem importante atua\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o. Antes de os senadores entrarem para a reuni\u00e3o p\u00fablica, acompanhados de ruralistas e da dire\u00e7\u00e3o da Norte Energia, dois policiais militares ostensivamente armados atravessaram o sal\u00e3o para tamb\u00e9m fazer uma vistoria.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A cena que ali se desenrolou \u00e9 incompat\u00edvel com a democracia. Eles e suas armas paravam diante de cada pessoa e as obrigavam a mostrar seus cartazes de protesto. \u00c9 assim que se institui o AI-5 sem nenhum documento, assinatura ou an\u00fancio oficial.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/brasil.elpais.com\/resizer\/YQbvAEdyQ1AP4AYo3NEd2QOoRhA%3D\/768x0\/smart\/arc-anglerfish-eu-central-1-prod-prisa.s3.amazonaws.com\/public\/6ZF3PIK2DFBORJ3M4D7XF7GCKI.jpg?w=600&#038;ssl=1\" alt=\"PM do Par\u00e1 faz vistoria nos cartazes de atingidos por Belo Monte em evento do Senado no Centro de Conven\u00e7\u00f5es de Altamira, em 25 de novembro.\"\/><figcaption>PM do Par\u00e1 faz vistoria nos cartazes de atingidos por Belo Monte em evento do Senado no Centro de Conven\u00e7\u00f5es de Altamira, em 25 de novembro.EL PA\u00cdS<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><em><strong>Eliane Brum&nbsp;<\/strong><\/em><em>\u00e9 escritora, rep\u00f3rter e documentarista. Autora dos livros de n\u00e3o fic\u00e7\u00e3o Brasil, Construtor de Ru\u00ednas, Coluna Prestes &#8211; o Avesso da Lenda, A Vida Que Ningu\u00e9m v\u00ea, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, meus desacontecimentos, e do romance Uma Duas. Site:&nbsp;<\/em><a href=\"http:\/\/desacontecimentos.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><em>desacontecimentos.com<\/em><\/a><em>&nbsp;Email:&nbsp;<\/em><a href=\"mailto:elianebrum.coluna@gmail.com\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><em>elianebrum.coluna@gmail.com<\/em><\/a><em>&nbsp;Twitter: @brumelianebrum\/ Facebook: @brumelianebrum\/ Instagram: brumelianebrum<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A\u00e7\u00f5es de autoritarismo expl\u00edcito se multiplicam no pa\u00eds e aceleram a desprote\u00e7\u00e3o da floresta, de seus povos e de ambientalistas.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-25219","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wKYW-6yL","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25219","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25219"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25219\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":25221,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25219\/revisions\/25221"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25219"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25219"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/blogdalucianaoliveira.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25219"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}